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A mestra rural, poeta, abandonou sua pequena cidade natal para mergulhar na realidade mais profunda do Chile. Defensora incansável dos povos originários e da identidade latino-americana, sua vida foi marcada por duas grandes lutas: conseguir a educação pública e obrigatória para seu país e a igualdade de direitos para as mulheres. Reconhecida mundialmente, foi a primeira escritora de língua castelhana a receber um Prêmio Nobel.
Docente, feminista e visionária, Gabriela Mistral praticou uma pedagogia que foi ação e também poesia. É o ano de 1889, em Vicuña, um povoado ao norte desértico do Chile, que nasce Lucila Godoy Alcayaga, quem com o passar dos anos passaria a utilizar o pseudônimo de Gabriela Mistral, em homenagem a dois poetas que admira: Gabriel de Annunzio e Frédéric Mistral. Seu pai, mestre de escola, a abandona quando tem três anos. Cresce junto à sua mãe, sua avó e sua irmã, mestra rural que a introduz na profissão.
Então, foi uma mulher que sempre viveu lutando contra o sistema educativo chileno da época, que, como todos os sistemas educativos da época na América Latina, era muito restrito. Ela, basicamente, é uma cristã, uma mulher profundamente católica, que em determinado momento se chocou também, no posto segundo, em seu encontro com o establishment católico, com a cultura católica oficial. Quando quis entrar na Normal, na Escola Normal para estudar para ser mestra e ter um título, o cura, que tinha ouvido ou lido algumas de suas poesias que ela já começava a escrever, não gostou delas, pois as achava pagãs, com tintes socialistas, etc., demasiado populares. Então, foi rejeitada também pela igreja. Foi rejeitada porque, efetivamente, a escola dos anos de princípio do século XX era discriminadora, era racista, e Gabriela Mistral era uma mestiça, uma mestiça pobre em Vicuña.
Isso caracteriza Gabriela Mistral: é originalíssima como poeta por sua autoformação e por uma pedagogia natural do que seria pensar nos direitos da criança, nos direitos de qualquer ser humano. Se os de um país, naquela época, dividiu entre católicos e agnósticos muito forte, entre liberais e conservadores, e ela não se encaixava em nenhuma dessas duas culturas, porque era católica, mas não era conservadora, e tinha aspectos liberais, mas não era liberal. Então, não, não, não, não se encaixava em nenhum lugar. E a atividade cultural e política da época se polarizou muito. Então, ela sempre esteve chocando.
É o ano de 1906. Gabriela Mistral, com apenas 13 anos, escreve seus primeiros poemas. Aos 15, começa a trabalhar e estudar para ser mestra, colabora com os jornais regionais e apresenta posições próximas ao feminismo e ao socialismo. Nesse mesmo ano, escreve no jornal "La Voz del Elqui" um artigo que lhe gera problemas com a igreja. O texto se intitula "A Instrução da Mulher".
"Tem-se dito que a mulher não precisa senão de uma mediana instrução, e é que ainda há quem veja nela o ser capaz apenas de governar o lar. A instrução sua é uma obra magna que leva em si a reforma completa de todo um sexo, porque a mulher instruída deixa de ser essa fanática ridícula. Instruir a mulher é fazê-la digna, e há que levantá-la, abrir-lhe um campo mais vasto de porvir. É arrancar à degradação muitas de suas vítimas. É preciso que a mulher deixe de ser a mendiga de proteção e possa viver sem que tenha que sacrificar sua felicidade com um dos repugnantes casamentos modernos ou sua virtude com a venda indigna de sua honra."
Gabriela Mistral quer ingressar na Escola Normal de Preceptoras de La Serena, mas não lhe permitem. Seus textos e poemas são resistidos pelos círculos conservadores. Ao chegar 1910, Gabriela, recém-recebida de mestra, inicia seu percurso pelos liceus de meninas do país. Viaja ao longo de todo o Chile. Diante de seus olhos se desdobram as diversas realidades sociais, culturais e educativas que nutrirão toda a sua obra.
Também foi mestra urbana e do liceu de juventude, mas adorava a educação rural. Ou seja, ela se tornou uma sólida professora e poeta deste mundo, do mundo rural e do mundo das crianças camponesas e indígenas. Em um tempo em que não se defendiam os índios, ela defende os índios. Em um tempo em que as mulheres rurais são vistas mais bem praticamente como instrumentos de trabalho, ela fala das mulheres rurais como seres humanos que devem ler, que devem ir à escola. E então, ela chega a se tornar uma mestra que é, ao mesmo tempo, poeta, produtora de uma pedagogia diferente, em um ambiente chileno onde as mestras alemãs são as mais valorizadas, as melhor valoradas, e não uma mestra mestiça como Gabriela. E que, além disso, publicava, era escritora cotidianamente nos jornais, com isso complementava seus rendimentos. E bom, entre as raridades de Gabriela Mistral, decidir-se a ser mestra rural na Patagônia, em Temuco, na Patagônia. Nesses lugares esteve Gabriela Mistral.
Por esse tempo, chegou a Temuco uma senhora alta, com vestidos muito longos e sapatos de salto baixo. Ela estava vestida de cor de areia. Era a diretora do liceu. Gabriela tinha um sorriso largo e branco em seu rosto moreno pela raça e pela intempérie. Ela me fez ler os primeiros grandes nomes da literatura russa, que tanta influência tiveram sobre mim.
Durante as primeiras duas décadas do século XX, os trabalhadores chilenos atravessam uma situação penosa. Uma das principais causas é o analfabetismo. Eu diria que é fundamentalmente o contexto chileno o que se refere à educação, e os grandes problemas tinham a ver com um assunto relacionado à obrigatoriedade ou não obrigatoriedade da educação primária. É um tema que, por exemplo, em casos como Argentina, México, de outra parte, se havia resolvido ou estava por se resolver. No caso chileno, haviam sido dadas algumas iniciativas legais desde mais ou menos os mesmos tempos que no caso argentino, não é certo, os anos 80. No entanto, isso não havia chegado a bom porto.
Em 1920, as forças populares e a classe média se unem, e o senador pela Aliança Liberal, Arturo Alessandri, é eleito presidente. No ano seguinte, Alessandri apresenta um programa de reformas que contempla, entre outros aspectos, o da separação da igreja e do estado, o cumprimento da educação básica obrigatória e a eleição direta do presidente e do vice-presidente mediante o sufrágio popular. Mistral é uma importante impulsionadora da lei de instrução primária obrigatória, que se sanciona nesse mesmo ano. O analfabetismo diminui de forma progressiva.
Em 1922, Gabriela empreende uma viagem ao México, atraída pelos ventos da revolução, convidada por José Vasconcelos, quem fora reitor da Universidade Autônoma e depois fundador da Secretaria de Educação Pública. A jovem autora se soma à sua proposta educativa. Nesse mesmo ano, publica seu poemário "Desolación", considerada sua primeira grande obra. É no México que Gabriela Mistral encontra o espaço para desdobrar todo o seu potencial como educadora, como mestra poeta. Concentra-se na fundação de bibliotecas rurais, no caso do México, e no desenho de um livro de leituras para mulheres, que era para mulheres mestras e para as meninas, onde ela coloca um conjunto de trechos literários de toda a América Latina. E isso é importante porque, digamos, não havia uma orientação a um pensamento latino-americano.
"Guardo a lembrança dessa e de outras invenções geniais do grande reformador José Vasconcelos, que alfabetizou com a ajuda dos mestres missionários, do cinema e do rádio, milhares de camponeses. Ali tive a alegria de aprender que tem sido uma velha e malfadada superstição aquilo de que o índio americano padece de uma incapacidade intelectual irredimível. Mais ainda, ali gozei de observar o gênio que tem o índio para o desenho, a pintura e a escultura, e sobretudo a sede de ler, de escrever, recitar, dançar e cantar que possui o povo. A alfabetização ia de mês em mês, cuidando de centenas de analfabetos. Essas escolas noturnas, chamadas por seu criador de missionárias, pareciam realmente um assunto tão civil quanto religioso. Eram também o desagravio a uma raça inteira, a indígena."
Então, é algo interessante e todo um projeto cultural, e há toda uma crítica e toda uma revisão educativa de como devem chegar esses livros às crianças do campo. Esse é o mérito de Gabriela: é colocar essas leituras para as meninas e para as mestras.
"Mestre, ensina em tua classe o sonho de Bolívar, do vidente. Primeiro, crava-o na alma de teus discípulos com agudo anzol de entendimento. Divulga à América seu sarmiento, seu bello, seu Lastarria, seu Martí. Não sejas um ébrio da Europa. Descreve tua América. Chama a luminosa meseta mexicana, a verde estepe da Venezuela, a selva negra austral. Diz tudo de tua América, e como se canta na pampa argentina, como se arranca a pérola no Caribe. Dirijamos toda nossa atividade como uma flecha a este futuro ineludível: a América espanhola, uma, unificada por duas coisas estupendas: a língua que lhe deu Deus e a dor que lhe dá a do norte."
E no México, percorreu o país, especialmente nas zonas indígenas, para acompanhar a reflexão de funcionários, de pedagogos que queriam propor como melhorar a situação dos indígenas no México. Então, bom, esses são os indigenistas da época. Pois ela, ela escreveu poemas também às artesanías mexicanas, ao milho, a este, ao menino índio. Não há um famoso poema do menino índio que era recitado nas escolas por multidões. De vocês poderiam ouvir que, além disso, gostavam das multidões nesse período a esses governos da revolução de encher grandes praças de crianças recitando poemas de Gabriela Mistral. E Gabriela Mistral escrevia e escrevia em cada região que chegava.
Recebe uma aposentadoria extraordinária concedida pelo governo em reconhecimento à sua obra e deixa a tarefa docente, mas não abandona o trabalho com os mestres. Então, está por um lado, é tirar a cara profissional na qual ela tem um interesse muito forte pelo problema político-educativo e, por outro lado, está aquilo que poderíamos dizer que transcende, digamos, o problema de estar metida ou não na sala, e que é o propriamente mais pedagógico, no qual ela tem um compromisso que vai além, claramente, de sua vida profissional. Nesse sentido, todo o tema dela com a natureza da aprendizagem, com o sentido da educação centrada na criança, com a muito forte mistura que faz de elementos do cristianismo, da Escola Nova, de múltiplas doutrinas, para terminar, nos elege em uma espécie como de cubo, muito espiritualista, latino-americanista, certo, de educação centrada em ideias tais como ternura, acompanhamento, missão, semelhantes. E tudo isso, então, um vê como duas Gabriela, diria eu: uma que é propriamente a professora e outra que é algo assim como uma, diríamos, intelectual interessada na educação.
Em 1926, o Conselho da Sociedade das Nações a designa para ocupar um importante cargo no conselho administrativo do Instituto de Cinematografia Educativa, criado em Roma. Suas preocupações pelo gênero feminino se fazem sentir nas altas esferas políticas, como ocorre em 1928, quando a França rejeita o voto feminino e Gabriela condena a decisão.
"Socialistas e radicais nasceram para a vida de combate eleitoral com a afirmação da igualdade dos sexos na boca. Mas um bom dia, fora um governo como na França, e se lhes veio em cima o pânico de perder o usufruto tão deleitoso sempre da imprensa."
No Chile, forma-se o chamado Frente Popular, que aglutina socialistas e comunistas, a Confederação dos Trabalhadores do Chile e o Partido Radical. Em 1938, seu candidato e amigo pessoal de Gabriela, Pedro Aguirre Cerda, chega à presidência. Durante seu governo, fomenta-se a educação, criam-se escolas e propicia-se a abertura de trabalhos para os professores. Gabriela Mistral se afiança como pensadora da educação e entra em debate com as posições positivistas e cientificistas.
Gabriela Mistral sustenta que a educação de um país deveria estar baseada na própria realidade, segundo suas necessidades, evitando a mera cópia ou imitação. Afirma que jamais deve fazer o mestre o que a criança pode fazer por si mesma.
É o ano de 1945, e Gabriela Mistral obtém o Prêmio Nobel de Literatura. Uma mulher latino-americana com essa história, a de Gabriela, que recebe um Prêmio Nobel porque recupera os usos da língua dos camponeses, das praças, das escolas, dos mestres, dos indígenas. "Agora já não lhe damos umam em servir a esse pregado monopólio da inteligência. Vigilamos tantos casos de mulheres a par ou acima de homens reconhecidamente ponderados que já não se nos pode tratar como a criaturas desvalidas ou docemente taradas com o cérebro a meio desenvolvido. Prova disso é que nos outorgaram o direito masculino a votar, que eu sempre considerei que era nosso por zoologia. Pertrechadas em grande, iremos às eleições, não em mero papel de votantes, mas além de candidatas. Se votamos, mas só por homens, seguiremos relegadas. Codo a codo e em proa a uma pátria concebida como um lar grande para seus filhos e os filhos de suas companheiras, as mulheres completarão a empresa política na qual falta mais economia, muita economia, acaso só economia, porque nós partimos e chegamos da terra à mesa, do tangível ao factível, sem embriagar-nos em teorias nem perder-nos em dívida de discussão ideológica. Por isso, algum dia o Chile elegerá uma mulher para a presidência da república."
Em 1953, Gabriela Mistral é cônsul em Nova York e representa o Chile na Assembleia das Nações Unidas. Alguns anos depois, chegando ao final de sua vida, escreve o texto intitulado "Imagem e Palavra na Educação".
"Toda a primeira infância nos aparece dotada de imaginação, mas são muitos os pais e os mestres que a desprezam torpemente e até a combatem. E quando se diz a esses tapados que a fantasia em seu filho é um bem, que inventando ele se conta histórias a si mesmo, e que algumas dessas histórias costumam ser também o corpo infantil das descobertas maiores, duvidam ou não creem. Há que dizer outra coisa: a vela mensal também era uma grande comunicadora social. Ia aos povoados, falava com a gente e lograva uma comunicação quase mágica, quase imediata, já fossem indígenas, já fossem camponeses, já fossem intelectuais, já fosse um congresso de professores. Ela ia e rapidamente se localizava no público e podia transmitir uma mensagem."
Pois eu acho que podemos fazer um percurso muito interessante de Gabriela Mistral, começando por seus poemas. Ela tem uma produção muito diversa. Reparem que há quem possa pensar que Gabriela Mistral é uma poeta que escreve para as crianças, para os índios, que escreve para a morte. Há quem pense que alguns de seus poemas são realmente eróticos, que escreve para o amor, que escreve para a maternidade e para...
Em 10 de janeiro de 1957, morre em um hospital de Nova York. Seus restos são enterrados em Montegrande, povoado na região de Coquimbo, no Chile. Segundo seu testamento, doa os direitos de suas obras publicadas na América do Sul às crianças do mesmo povoado onde hoje descansam seus restos.
Não, Gabriela Mistral: mestra e escritora, pensadora e diplomata e poeta. Sua marca marca o caminho da reivindicação da escola pública, dos direitos indígenas e da voz da mulher que clama por justiça e igualdade. Uma voz que se expande na América Latina e ainda ressoa em todo o continente.