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Vipassana: a técnica que aniquila o sofrimento (Aula aberta)

Isto não é Filosofia34:12

Transcription

Eu sou professor de filosofia. Minha vida é ensinar os outros a pensarem, mas há cerca de dois meses eu descobri que eu era uma fraude. Eu era uma fraude no sentido de que eu tinha toda a teoria na minha cabeça, a história da filosofia ocidental, coisa que eu ensino a vocês aqui neste canal, mas eu não conseguia praticar aquilo que eu sabia.

Há dois meses eu fiz um retiro Vipassana aqui no interior do Rio de Janeiro, durante 10 dias de silêncio. E vou dar os detalhes a seguir. Eu quero compartilhar o que eu aprendi nessa jornada de autodescoberta, de mergulho dentro de si mesmo. E mergulho é a metáfora central do que eu quero falar para você. Meu nome é Víor Lima. Eu sou seu professor de filosofia de hoje e de sempre. E isto não é filosofia. [música]

Eu fiz algumas anotações que estão aqui na minha frente e eu vou segui-las para não me atrapalhar aqui. Alguns meses antes desses dois meses, eu comuniquei a alguns de vocês que eu ia passar 10 dias fazendo esse retiro Vipassana. E bom, para quem não sabe o que é um retiro Vipassana, deixa eu contextualizar brevemente aqui. Separei aqui três grandes perguntas, né? Três grandes tópicos para contextualizar o Vipassana. Primeiro é o que que é Vipassana, a meditação Vipassana. Segundo é qual que é a estrutura desse retiro e um terceiro é qual que é a rotina desses 10 dias.

Vamos contextualizar. Então, a palavra vem do idioma Pali, um idioma antigo, que significa ver as coisas como elas realmente são. É esse o significado de Vipassana. Na prática, Vipassana é uma técnica de auto-observação. É isso. Ela é atribuída ao Sidarta Gautama ou Buda há mais de 2500 anos. Aliás, os praticantes de Vipassana reivindicam que essa é a verdadeira técnica do Buda. Tudo o resto é um acréscimo, é subtração, são coisas que foram modificadas. Essa seria a original, segundo os praticantes de Vipassana.

E aí a diferença é a seguinte: tem meditações onde você pratica visualizações de cores, de formas geométricas. Tem outras meditações em que você repete mantras, o famoso "Om", talvez seja o mantra mais conhecido. Há outros tipos de meditação em que você controla a sua respiração para induzir um certo estado mental. O Vipassana, no entanto, não pede que você faça nenhuma respiração específica, pede para que você não faça mantras, pede para que você apenas foque nas sensações do seu corpo. Você exercita no Vipassana a observação das sensações do seu corpo enquanto elas acontecem com, e esse é o principal conceito, equanimidade. Vamos já falar sobre equanimidade quando eu falar das minhas, dos meus aprendizados. Então, eu posso adiantar que equanimidade é sentir sem, de um lado, ansiar quando a sensação for boa e nem, de outro lado, rejeitar quando a sensação for ruim. Equanimidade é sentir sem ansiar e sem rejeitar, mantendo a presença, não, mantendo a consciência de que aquilo é impermanente, vai passar. O que em Pali antigo se chama "anicca". Anicca.

O objetivo, então, é treinar a mente para não reagir de forma automática às sensações que vão vindo no seu corpo e, com isso, quebrar um ciclo de reatividade que nós nos colocamos no dia a dia o tempo inteiro. Esse é o resumo que eu faria aqui. O que que é a técnica Vipassana?

E lá no retiro, qual que é a estrutura? Então, falar em retiro pode soar como férias, né? Mas não. A realidade lá é mais parecida com a vida de um verdadeiro monge isolado no seu mosteiro do que férias. O curso padrão dura 10 dias e ele funciona sob algumas regras que eu dividi em quatro grandes regras, tá? Embora sejam mais, mas, a meu ver, são quatro grandes categorias.

Primeiro, nobre silêncio, que é você não pode falar, você não pode fazer gestos, você não pode ter contato visual com outros alunos. Você é você com você mesmo, tendo algumas ocasiões de fazer perguntas ao instrutor da meditação ou ao coordenador, né, ao gerente lá. Mas, em regra, a intenção é que você não interaja com ninguém porque você precisa mergulhar dentro de si.

Segunda regra, desconexão digital, ou seja, celulares. E aqui eu coloco até livros, cadernos de anotação. Tudo isso é recomendável que seja entregue à organização no início do retiro. É obrigatório. Eles vão vasculhar a sua bolsa. Não, tudo ali é voluntário. Então, há opção de burlar essa regra? Há, mas aí burlar essa regra é burlar você mesmo, né? É não fazer aquilo que você se propôs a fazer. Você deixa tudo. Celular fica incomunicável no sentido de individual, mas na ficha de inscrição eles pedem um número de alguém que possa receber uma ligação caso ocorra alguma urgência e tal. E então, bom, você é comunicável na prática, né? A pessoa pode ligar lá para o retiro e comunicar se acontecer alguma coisa, né, fora. Enfim, mas você não fica com o celular. Essa é a verdade.

Terceiro, tem um código de ética ali. Você se compromete a não matar. Isso não se restringe a outro ser humano, restringe a qualquer forma de vida, né? A um mosquito, por exemplo, uma barata ou uma aranha, você é instruído a recolhê-lo, né, numa espécie de redoma de plástico assim, e tirá-lo, e botá-lo de volta à natureza. Não mentir, não roubar, o que é bem facilitado, porque você é incentivado a não interagir, né? Sem interação, essas coisas se tornam mais fluidas, mais simples, mais naturais.

E quarto, a alimentação. São apenas duas refeições completas no dia: o café da manhã e o almoço. E depois do meio-dia não tem comida pesada, digamos assim. É apenas chá ou frutas, que é às 5 horas da tarde, se eu não me engano.

Então, essa é a rotina. Quer dizer, esse é o retiro. E a rotina, como é que é? A rotina é o que mais talvez possa causar espanto para quem ouve de fora, porque o dia começa às 4 da manhã. Então, às 4 da manhã tem um som de um gongo, sabe? Aqueles... Ao todo são cerca, a partir das 4, cerca de 10 horas de meditação propostas. Elas são divididas em sessões individuais e coletivas. Ou seja, algumas horas específicas você precisa estar na sala de meditação, certo? E outras horas você pode meditar no quarto em que você está dormindo. Então, na prática, não são 10 horas, porque, bom, nós cansamos, nós dormimos, nós, enfim, quando estamos no quarto tendemos a enrolar mais. São 10 horas propostas, né?

O retiro é desenhado para levar você a um certo limite mesmo, tanto mental quanto físico, justamente para que você aprenda inclusive a lidar com o desconforto, sem fugir do desconforto. Essa é a grande proposta. É uma imersão onde você fica afastado do mundo externo. Essa é a grande verdade, para que o seu mundo interno aflore. Então você vive como se fosse um monge de verdade. Essa é a grande questão. Não é pago. Você só se inscreve periodicamente. Eles têm um site, é muito fácil de encontrar. É só você colocar "Vipassana Rio de Janeiro" ou "Vipassana São Paulo". Muito fácil de encontrar. É concorrido para ir. Eu mesmo consegui porque vagou alguém que não foi e aí me chamaram. Então, bom, isso daí eu deixo por conta sua procurar porque é muito fácil, é só colocar no Google que você brevemente, facilmente, sem nenhuma dificuldade encontra.

Então, esse é o resumo da coisa, né? É isso que é o Vipassana. É assim que eu, pelo menos, entendi que é a estrutura geral. Agora eu quero ir, de fato, para o que eu aprendi, como é que foi a minha caminhada lá dentro, como é que foi o meu trajeto lá dentro. Mas para dizer como é que foi meu trajeto lá dentro, eu preciso dizer o que me levou, certo? O que eu, o que estava a resolver, por que que eu fui? E eu preciso dizer que eu via o retiro Vipassana como algo que me desse uma certa oportunidade. Qual? A oportunidade de me reconectar comigo mesmo. Vê se você consegue me entender e eu consigo ser claro. Me reconectar comigo mesmo quando eu não estou funcionando. Que diabos é "não estar funcionando"? Não estar funcionando é não estar exercendo uma função, uma finalidade pré-determinada. Na maior parte do tempo, nós estamos exercendo funções. A função de pai, a função de marido, a função de professor. No meu caso aqui, né? Tô colocando aqui o contexto familiar, contexto profissional. A gente exerce funções. A gente sempre exerce funções de modo que nós somos medidos pela nossa utilidade, ou seja, por o quanto aquilo que nós fazemos acarreta, tem por consequência alguma coisa de proveito para os outros. Fair enough, né? Justo. Ou seja, é preciso que em sociedade nós sejamos úteis. Isso é bastante claro. Nós não podemos ser um peso para a sociedade porque a sociedade nos acolhe. Nós temos que devolver tudo, certo? Temos que ser bons pais, boas mães, bons profissionais e tá tudo certo. A única questão é que se nós só funcionarmos, nós perdemos uma dimensão da nossa vida individual, que é o que eu chamo de existencial, que é só nossa, que é íntima, que precisa ser cultivada, porque ela é a base para todas as outras. Se ela não for alimentada, todas as outras perdem valor, ficam entediantes, ficam sem graça, ficam repetitivas e, portanto, nós paramos de exercê-las também. Então, essa função existencial, ela própria não é útil, mas ela é a mais valiosa de todas, percebe? Eu estava querendo um local em que eu não funcionasse. E, claro, estava muito cansado no ano de 2026, 25, ano passado, né? E eu queria férias, né? E bom, consegui adiantar tudo que eu tinha para adiantar aqui, na escola de filosofia aqui no INEF. E a gente tem uma equipe aqui que é muito competente: a Gabi, o Gabriel, a Evelyn, eles conseguiram dar conta enquanto eu estava fora. Mas era isso que eu queria buscar. E eu pensava que eu ia encontrar ali uma pessoa mais focada no sentido de saber hierarquizar o que verdadeiramente importa para mim e o que importa menos para mim. Era isso que eu almejava encontrar. Eu sabia que a meditação dá mais foco e sabia também que, porque justamente eu não estava funcionando, eu ia ter mais clareza sobre o que de fato é meu quando nada mais está sendo feito. Sabe aquele exercício de você vai tirando as camadas da sua vida? Você é o seu cabelo, você é a roupa que você veste, você é a sua profissão. Se eu tirasse todas essas camadas, o que restaria? Eu. A minha expectativa era: eu vou para lá e eu vou descobrir isso. Era isso que eu queria.

Mas quais foram as grandes dificuldades e quais foram os grandes aprendizados, né? Então, primeiro, eu quero deixar bem claro por que que eu não fiz isso aqui, né? Por que que eu fui buscar lá? Porque na vida prática, na vida cotidiana, nós somos chamados o tempo inteiro para resolver problemas, para apagar incêndios, para direcionar a nossa atenção àquilo que não é exatamente uma demanda interna nossa. É por isso que a vida cotidiana nos impede, grande parte das vezes, de nos acolhermos naquela dimensão existencial da qual eu falava. Então, eu estava buscando ali um refúgio. Aqui eu não conseguia, lá talvez eu conseguisse.

E aí eu descobri algumas coisas lá. E aqui eu dividi em três grandes coisas. Eu vou chamar de lições, ok? Para a gente conversar melhor.

Aqui, a primeira lição, eu vou traduzir de modo bastante simples, né? Nada erudito. É a inseparabilidade entre teoria e prática. Ou seja, não dá para separar a teoria da prática. Que que eu quero dizer com isso como uma lição? Eu sei que, como professor de história da filosofia ocidental que eu sou, eu sei bem que progressivamente ser filósofo no Ocidente significou cuidar da dimensão intelectual e se esquecer progressivamente da dimensão corporal e da dimensão da coerência entre aquilo que se sabe e aquilo que se pratica. No Ocidente, esse movimento é muito claro. A gente pega a filosofia antiga, essa coerência entre o que se sabe e o que se pratica estava no auge. E à medida que nós vamos nos aproximando da modernidade, da contemporaneidade, essas coisas se dissociam sem que ninguém veja problema, de modo que é possível, como o exemplo que eu sempre repito, que um professor seja pós-doutor em ética e seja um crápula. Ninguém vê problema nisso. Isso vinha me incomodando, vinha me incomodando há muito tempo.

E a dimensão ali entre teoria e prática como indissociáveis se tornou muito clara com uma das anedotas que nós ouvimos durante o retiro. Porque nós meditamos, mas sempre no final do dia, todos os dias, tem uma palestra sobre a prática do dia. E essa palestra é gravada, ela é gravada pelo Goenka, que foi o iniciador do movimento de Vipassana mais recente e foi quem divulgou para o Ocidente. O Goenka. A gente ouve a voz dele às vezes na língua original, às vezes traduzida para o português. E uma das anedotas que ele conta numa dessas noites é a anedota da "nadologia". Vou explicar resumindo a anedota.

Certa vez, num barco tipo cruzeiro, havia ali os marinheiros, operários, e havia ali nesse barco um professor muito erudito que toda noite, todo dia dava uma aula para os habitantes ali do barco, para os habitantes não, né, para os passageiros ali do barco. E aí um dos marinheiros, muito humilde, sempre assistia às aulas e, no final das aulas, ia interagir com o professor. E o professor perguntava ao marinheiro: "Você sabe o que é [colocava uma logia qualquer]? Tipo, o que é geologia?". Aí o marinheiro falava: "Não, eu não tive estudos, eu não tive oportunidade de conhecer o que é geologia." E o professor respondia: "Ah, que pena, que pena. Se você não sabe o que é a geologia, você perdeu 1/3 da sua vida." E no outro dia, a rotina continuava. No final da aula, o marinheiro ia lá interagir com o professor e o professor perguntava: "Você sabe o que que é [alguma logia qualquer]?". Aí o marinheiro retorquia: "Não, eu não sei porque eu não tive educação formal. Infelizmente, eu não sei." Ao que o professor respondia: "Então você perdeu mais um terço da sua vida."

Até que chegou um belo dia em que o professor estava ali sozinho e o marinheiro chega para o professor e fala: "Professor, professor, o senhor já estudou nadologia?". E o professor: "Nadologia? Eu nunca ouvi falar dessa palavra. Eu nunca estudei nadologia. O que que é nadologia?". "É a arte de saber nadar." Aí o professor falou: "Por que que eu teria que saber nadar?". "Porque o navio está afundando, professor. E se o senhor não souber nadar, infelizmente, o senhor vai morrer." O professor ficou desesperado. Aí o marinheiro falou: "É, professor, o senhor não estudou nadologia e, infelizmente, o senhor acabou de perder a sua vida inteira." E a anedota acabava mais ou menos assim.

Qual que é a lição dessa anedota aqui? A lição dessa anedota é: você pode estudar a descrição de como as coisas são, de como as coisas funcionam, como elas devem funcionar, como elas funcionam de fato. Você pode saber tudo que é para saber sobre a realidade do ponto de vista descritivo, normativo, pode entender as coisas, mas isso não te exime de saber fazer coisas que são essenciais para que você viva. Em grande medida, nós professores de filosofia somos treinados a não saber nadologia. Nós não sabemos nadar. Nós sabemos a composição da água, nós sabemos a composição do clima, nós sabemos a fauna da água, a flora da água, nós sabemos a teoria de como navegar, mas se o navio afundar, nós não sabemos nadar. Nós não fomos treinados a saber nadar. É uma anedota tão simples, mas ela é tão negligenciada na formação em filosofia, tão negligenciada na formação em filosofia que chega a ser assustador quando você de verdade para para se dar conta do quão negligenciada ela é. Essa foi a primeira lição.

A segunda lição é consciência. O que a gente chama de consciência não é um tópico tão abstrato. Em primeiro lugar, consciência do corpo. Consciência não é consciência de um eu abstrato. Se você quer desenvolver a sua consciência, você precisa desenvolver a consciência do seu corpo. Foi a segunda lição que eu aprendi lá. Em outras palavras, ter consciência não implica dominar mais assuntos, saber mais saberes. Percebe? Ter consciência é notar com atenção e detalhes o que se passa no seu próprio corpo. O Vipassana, enquanto técnica, é resumido no seguinte: prestar atenção em cada detalhe do próprio corpo. É um escaneamento mesmo, pé a cabeça, cabeça aos pés. Isso ancora você no presente. Isso desenvolve o controle que você tem sobre você mesmo.

Como que isso faz, assim? Bom, primeiro que quando você está em estado de atenção, você tem dois tipos de atenção: uma atenção direta e uma atenção difusa. Você sempre está atento em alguma coisa, ou é diretamente ou é difusamente, mas a sua atenção está sempre direcionada. Quando você atenta diretamente a alguma coisa, você se esquece do ambiente. Quando você atenta difusamente a alguma coisa, você se esquece de uma coisa em particular. A grande questão é que quando a gente se deixa levar pelo dia a dia, a gente está sempre de olho no ambiente, no mundo externo, em novidades que precisam ser colhidas, em perigos que estão acontecendo, a gente precisa fugir, alguém que demanda a gente. Então, a gente está sempre direcionado, se a gente quisesse colocar uma seta para fora, né? Para fora. Dificilmente a gente direciona essa seta para dentro para nos darmos conta de: o que eu estou sentindo agora? Estou sentindo de fato fome ou é apenas tédio? Estou sentindo de fato raiva ou é frustração? Entende? Essa educação emocional que dificilmente nós praticamos, dificilmente nós somos ensinados, nós não praticamos, nós não aprendemos. Então, a nossa consciência, como está sempre direcionada para fora e nunca para aspectos internos, ela nunca é educada. Então, aquela consciência da qual a gente falava antes, a consciência ética de não só saber o que é ética, mas fazer atos éticos, ela é completamente dissociada. Mesmo assim, tudo que a gente é treinado a fazer é uma consciência para fora e nunca para dentro.

Se você quer desenvolver uma consciência ativa, ou seja, que diz respeito aos seus atos, presta atenção em como seu corpo está agora, nesse momento. Você está sentado? Você está em pé? Como é que você está? Você está relaxado? Você está rígido? As suas costas estão doendo ou não estão? Você está com sede ou não está? O que está se passando na sua cabeça? Você já parou para se observar de verdade hoje? Raramente a gente faz isso.

E aqui, o terceiro, a terceira lição que eu preciso falar e talvez seja a principal lição que tem a ver com as outras duas é: qual que é o principal elemento para desenvolver liberdade que tem a ver com consciência, que tem a ver com teoria e prática? O principal conceito da Vipassana é anicidade e ela me fez me reconectar comigo e com as minhas lembranças. Equanimidade. Equanimidade, lembre-se, eu falava antes, mas repito: é a capacidade de não reagir nem com avidez quando a sensação é boa, nem com rejeição quando a sensação é ruim, sempre mantendo na cabeça de que aquilo vai passar, de que aquilo é impermanente. Anicca é a palavra em Pali.

E aí eu tive uma dificuldade inicial de compreender esse conceito, porque até o quinto dia, mais ou menos, eu estava bastante descrente da minha capacidade de de fato aproveitar aquilo. Eu estava mais levando como uma possibilidade de descanso do que de entendimento real. No quinto dia, eu estava pensando já em desistir, não desistir de voltar para casa, mas assim: "Ah, vou desistir de tentar que isso aqui dê certo, vou só esperar." E um dos obstáculos era porque o conceito de equanimidade para mim estava muito mal compreendido. Eu estava entendendo equanimidade como indiferença, como apatia, mas é o contrário.

Certo dia, numa das sessões de perguntas e respostas que há, eu fui até o instrutor e levei essa minha inquietação. Falei assim: "Onde é que fica o abraço que eu dou no meu filho e na minha mulher? Esse abraço caloroso, esse abraço efusivo, esse abraço pleno de emoção. Onde é que fica o lugar da celebração? Se eu pratico equanimidade, essa capacidade de não reagir, de não reagir com avidez, nem com aversão?" E aí ele me respondeu algo assim: "Olha, equanimidade não é apatia. Você pode ficar tranquilo que o abraço no seu filho, na sua mulher e as festas agora, eles vão ser verdadeiros. Porque quando você abraçar seu filho, você vai abraçar o seu filho inteiro. Quando você abraçar sua mulher, você vai abraçar sua mulher inteiro. Quando você celebrar, você vai celebrar inteiro. Por quê? Porque existe uma diferença."

Essa diferença foi primordial. E aí que está? Essa diferença eu já sabia teoricamente, porque ela está presente em Nietzsche também: a diferença entre agir e reagir. Ele falou: "Quando nós dizemos que equanimidade é não reagir, nós não estamos dizendo que você precisa ser passivo. É todo o contrário. Nós estamos dizendo que você precisa agir." E o que que é agir em contraposição a reagir? Reação acontece quando alguma coisa te estimula, seja um pensamento ou seja algo externo, e você, sem pensar, tem uma conduta. Então, alguém te fechou no trânsito, você baixa a janela e xinga a pessoa. Veio o pensamento triste, você automaticamente se deixa abater. Está calor, você automaticamente começa a reclamar do calor. Isso é reação. Vem um estímulo, seja externo ou interno, e a sua conduta é completamente determinada por esse estímulo. Isso é reação.

O que que é ação? Ação implica esticar no espaço-tempo e encontrar um intervalo entre o estímulo, seja interno ou externo, e a sua conduta. É uma coisa que a gente não faz no dia a dia, né? Ou seja, se está quente, a primeira alternativa que você tem, quer dizer, não a primeira, mas a única alternativa que você tem é reclamar do calor. Se alguém te fecha no trânsito, a única alternativa que você tem é, digamos assim, xingar a pessoa. Não. Existem muitas outras alternativas. Você faz essas alternativas, exerce essas alternativas porque você está reagindo. Essas alternativas você escolheu? A resposta muito clara é não. Não.

E quando você pratica Vipassana, que é justamente a técnica de observar o que você está sentindo com equanimidade e consciência da impermanência, você tem como primeira postura observar sem rejeitar e sem ansiar. E só observa isso: equanimidade. Você pode, em seguida, escolher xingar. Você pode, em seguida, escolher reclamar do calor. Sim, você pode. Só que esse xingamento e essa reclamação, quando vêm depois de você observar com equanimidade, são ações e não reações. Porque você de fato escolheu estar ali. Escolheu estar ali.

Então, ele fala assim: "Muita gente interpreta a nossa postura como uma espécie de passividade e não é. É possível que você seja enérgico e ativo e não reativo." Quando você entende que a energia, naquele caso, a ação mais impetuosa é necessária. Então, até agora, eu abracei o meu filho sem equanimidade, ou querendo que aquilo ali durasse para sempre, porque aquilo ali era tão bom que eu já estava até me sentindo triste porque ia acabar, ou eu não queria estar ali, porque, bom, estou pensando no trabalho, estou pensando em outra coisa. Com equanimidade é você lembrar, rasgar, aquele espaço, aquele bom, não espaço, mas bom, essa ocasião, essa circunstância no espaço-tempo para você estar ali sentindo. E quando eu entendi isso, eu falei: "Caramba, tem força aí, tem potência aí." Isso me atrai muito, porque é justamente essa a habilidade que a gente vai perdendo, né? Por quê? Porque a gente não vai praticando. Esse foi meu maior aprendizado. Foi o meu maior aprendizado.

E eu colocaria aqui um quarto aprendizado. O que tem a ver diretamente com esse é que hoje faz quase dois meses que eu saí. Foi em dezembro que eu fui. E a recomendação quando nós saímos é que nós pratiquemos em casa pelo menos duas vezes por dia: uma hora pela manhã e uma hora no final da tarde. Eu consegui fazer isso na primeira semana. Na segunda semana, já fiz menos. Na terceira semana, eu já não fiz mais. E qual foi o resultado? Todos os meus vícios voltaram, todas as minhas reatividades voltaram. O meu cotidiano voltou tal qual ele estava antes de eu praticar.

E qual que é a lição preciosa de novo? Simples, óbvia, mas que é óbvia só no campo da intelectualidade, não no campo da prática. A vida é um exercício constante. Sem exercício, não há vida virtuosa. E essa é uma lição inclusive compartilhada com Aristóteles lá na sua Ética a Nicômaco. Se você não exercita aquilo que você quer cultivar, você não cultiva. Isso é o óbvio do óbvio do óbvio. A gente sabe intelectualmente, na prática a gente ignora.

Então, ou eu exercito Vipassana constantemente e não só na hora da meditação, mas na hora que eu estou conversando com alguém, de fato ali, observando, sem rejeitar, sem ansiar, ou aqui fazendo esse vídeo e de fato fazendo esse vídeo sem ansiar, sem rejeitar, ou eu exercito isso, ou eu perco a minha capacidade de agir e só reajo pela vida fora. E essa foi a minha quarta lição, aqui pela minha conta, que eu queria muito compartilhar com vocês. Eu acho muito precioso, muito precioso.

Então, essa foi a minha experiência com os 10 dias de Vipassana. Eu descobri que eu era uma fraude justamente porque eu estava entrando naquele buraco que eu sempre condenava dos professores de filosofia, dos filósofos, que é a dissociação entre teoria e prática, o não treinamento da consciência como a consciência de si e não só do que está acontecendo lá fora, e a ausência de exercício daquilo que de fato precisa ser exercitado para que uma vida prática seja de fato conduzida da melhor maneira, e não só concebida como da melhor maneira. Não ser uma fraude é ir para o caminho oposto, mas ter a consciência de que nós estamos fazendo a coisa errada é o primeiro passo para fazer a coisa certa.

Agora, eu queria que você colocasse aí nos comentários o que que levaria você, já que eu contei a minha história, a fazer os 10 dias de meditação. Coloca aqui que eu quero saber. O que que levaria você a tomar essa decisão, se você tomasse. Não se esqueça, você é o que pensa. E como sempre, fique com Sócrates.