Transcription
[Música] Olá. Você deve estar nos assistindo agora de uma TV, computador ou celular. Pode pegar uma água na geladeira, esquentar algo no micro-ondas ou no fogão, a depender da vontade; tomar um banho quente, ligar um ventilador, ar condicionado. Tudo isso consome energia, e muita.
Vamos pensar: mais de 80% da matriz energética mundial vem de combustíveis fósseis. São recursos não renováveis, como petróleo, carvão mineral, gás natural. Eles produzem um alto nível de poluição e, em algum momento, se esgotarão. O grande desafio do planeta é o investimento em energia limpa. É essa pauta que move os encontros dos líderes mundiais e a competitividade. O Brasil tem a chance de liderar a corrida pela transição energética. Vamos conhecer projetos que estão nesse caminho. Fique com a [Música] gente.
Uma startup brasileira desenvolveu uma tecnologia inovadora para geração de energia renovável: uma turbina subaquática capaz de produzir três vezes mais energia do que a de uma eólica. 80% da matriz de energia mundial ainda usa fontes não renováveis, como gás natural, carvão e petróleo, o que gera gases poluentes. Para mudar esse cenário, empresas dos quatro cantos do planeta correm contra o tempo em busca de fontes renováveis. Uma delas é a startup brasileira Tida Wat, fundada em 2020 pelo físico Maurício Queiroz. Ele criou turbinas subaquáticas que capturam a energia gerada pelas correntes marítimas. Um dos modelos tem um diâmetro 60 vezes menor e produz, em média, três vezes mais energia que as turbinas eólicas.
A ideia surgiu quando Maurício foi arrastado por 1 km durante um mergulho em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Após o susto, ele lembrou que a corrente que o levou faz o mesmo com navios de milhares de toneladas, como se fossem barquinhos de papel. Como as correntes oceânicas estão mapeadas em todo o mundo, os pesquisadores já conhecem os melhores locais para a instalação delas, onde as correntes são mais fortes. O Brasil tem uma área de quase 6 milhões de km² de água. Segundo o CEO da empresa, o aproveitamento da energia de uma pequena parcela dessa área – 0,02% – já seria suficiente para suprir toda a demanda energética mundial.
O sistema foi desenvolvido para transformar áreas oceânicas economicamente inativas e desabitadas em fontes de receita, sem prejudicar os ecossistemas do entorno e sem gerar qualquer poluição visual ou sonora. Como são muito menores do que as eólicas, essas turbinas podem ser instaladas em rios sem os efeitos negativos das hidroelétricas. Para proteger a vida marinha, os motores devem ser instalados longe de recifes de corais, assim como acontece com as bases de algumas usinas com turbinas eólicas. Recifes artificiais serão formados para permitir que várias espécies vivam com segurança. Por [Música] lá, a turbina, ela consegue interpretar esse potencial para capturar a energia que o oceano tem de uma forma diferente, com conceito diferente do que é o conceito que tá sendo aplicado hoje. Então nós temos agora o oceano com potencial muito grande que tem previsibilidade, ou seja, os ciclos ou até os horários que as correntes do oceano estão passando por determinado local, e tem as correntes marítimas, né, as correntes oceânicas, que são praticamente constantes, né, durante 24 horas por dia, o ano inteiro. Então existe uma capacidade do oceano de prover a segurança energética. Essa tecnologia, ela é capaz de interpretar todos os tipos de escoamentos: posso instalar em tubulações de água, tubulações de esgoto, em rios, né, todos os escoamentos horizontais ou verticais, quaisquer direções. Então a turbina, ela pode ser instalada ali; dá realmente para suprir a demanda global, ou seja, dá para trocar a matriz energética, né, dá para atualizar a matriz energética para uma fonte renovável 100% do oceano. E quanto a gente pode até dispensar as outras.
A aviação é responsável por 2 a 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. Para que o planeta possa zerá-las até 2050 e cumprir o acordo de Paris, o setor precisa fazer uma diminuição significativa em sua pegada de carbono. A boa notícia é que o etanol brasileiro pode ajudar nessa missão. Pensando no setor da aviação, segundo a Agência Internacional de Energia, é preciso reduzir o nível de emissões para menos de 1000 megatoneladas de CO2 até 2030. A melhor solução até agora é trocar o querosene usado nos aviões pelo chamado combustível sustentável de aviação – o SAF, na sigla em inglês. Um dos mais promissores é o etanol, tecnologia em que o Brasil foi pioneiro nos anos 70. A empresa brasileira de energia Raízen foi a primeira no mundo a receber uma certificação para fornecer etanol para a produção de SAF. Esse atestado envolve toda a cadeia de biocombustíveis, do cultivo da biomassa até o consumo final. Segundo a Associação Internacional de Transportes Aéreos, o combustível sustentável de aviação reduz até 80% o volume de emissões de gases de efeito estufa em comparação ao querosene, que é feito de combustível fóssil. Outro caminho para produzir SAF são os óleos vegetais, que têm moléculas quimicamente parecidas às dos hidrocarbonetos do petróleo. Segundo especialistas, o melhor produto é o óleo de palma: além de exigir menos hidrogênio para ser processado, ele pode ser cultivado em áreas de pastagens degradadas, o que evita desmatamento. Para que a transição energética seja eficiente, o SAF deve ser incorporado o mais rápido possível aos aviões. Como uma aeronave tem uma vida útil de pelo menos 30 anos, as que começarem a operar agora ainda estarão ativas em 2050 – justamente o ano em que o planeta precisa alcançar o zero de emissões. Até lá, o ideal é que já estejam voando com um combustível sustentável. [Música]
O Brasil tem uma grande oportunidade de sair na frente na transição energética, e ele tem que agir rápido, tá? Porque o Brasil, ele tem uma abundância de recursos naturais; isso faz com que ele tenha esse potencial de ser líder na transição energética, e ele pode aproveitar essa oportunidade para um crescimento verde. A gente pode atrair investimento para as energias renováveis. Primeiro, que a gente tem uma matriz elétrica com mais de 80% de renováveis – é muito acima da média mundial, que não chega a 30. A gente tem uma matriz energética com quase 50% de renováveis, que é muito acima da média mundial, que é cerca de 15. E, além disso tudo, eh, como apontado pelo Plano Decenal 2050 da Empresa de Pesquisa Energética, o potencial de recursos renováveis no Brasil, ele pode ser igual a 17 vezes a demanda estimada até 2050.
Os carros elétricos já estão nas ruas de vários países e, aos poucos, ganham espaço no Brasil, contribuindo para a redução das emissões de CO2. Mas um desafio é o descarte das baterias. Os carros elétricos possuem bateria de lítio, a mesma usada em equipamentos eletrônicos, como celulares e notebooks. A criação desse tipo de bateria foi tão importante que, em 2019, o Prêmio Nobel de Química foi entregue justamente ao trio que a inventou. Além da alta capacidade de armazenamento de energia, as pilhas e baterias que possuem o lítio como principal componente são muito leves. O problema é quando termina a vida útil dessas baterias: se descartadas de maneira indevida, podem causar incêndios em aterros e queimar no subsolo por anos, liberando produtos tóxicos no ar. A intoxicação por lítio pode causar insuficiência cardíaca; por isso, o descarte correto é fundamental, ou a reciclagem. Desde 2021, uma empresa brasileira começou o processo de reuso, reciclagem e reparo das baterias de lítio. É a primeira empresa do mundo a oferecer estas ações em um só lugar, com capacidade de processar até 300 toneladas de baterias por mês. Com a ajuda da inteligência artificial, elas ganham uma nova utilização: deixam de ser, por exemplo, uma bateria de carro elétrico para se transformar em uma bateria para energia solar ou em uma estação de recarga dos próprios veículos [Música] elétricos.
A busca por soluções sustentáveis também está nos projetos escolares. Estudantes de uma cidade do interior do Paraná converteram óleo de cozinha em combustível para ser usado em um ônibus. Ele rodou pelas ruas de Açaí, município a quase 400 km de Curitiba, durante quase uma semana sem precisar ser abastecido. O biocombustível usado para isso foi produzido a partir do óleo de cozinha. O projeto de iniciação científica é uma parceria entre uma escola estadual e a Universidade Federal do Paraná. Os estudantes criaram a startup Biosan. Eles pretendem transformar parte dos ônibus escolares em uma linha específica que só opere com o biodiesel produzido por meio do projeto. Para isso, dependem do apoio do poder público e da iniciativa privada.
As parcerias são fundamentais para a transição energética, tanto no Brasil quanto no mundo, né? Que a transição energética, ela é uma tarefa complexa e multidisciplinar, que ela não pode ser realizada por por uma só entidade, né, ou por uma só instituição, uma só área. Eh, elas são cruciais também porque combinam diversos tipos de expertise, né? Então as universidades, por exemplo, elas são incubadoras de pesquisa e desenvolvimento, e então elas podem fornecer embasamento científico necessário para novas tecnologias e estratégias. Aí a iniciativa privada, por sua vez, ela possui agilidade e o e o capital, né, que é necessário para implementar essas tecnologias em larga escala. E também a gente tem que ter nesse tripé o poder público, né, para poder criar um ambiente regulatório e que dê incentivos que facilitem essas iniciativas; de modo que, então, a combinação dessas forças em parceria é vital para acelerar a transição para uma matriz energética mais limpa e sustentável no Brasil.
Cientistas da Universidade de São Paulo identificaram que a saliva de uma mosca tem potencial para ajudar a produzir energia sustentável. Os pesquisadores da USP descobriram que a saliva da mosca [Música] Pseudolaelia e podem contribuir na produção de insumos sustentáveis para a indústria química. As substâncias presentes na saliva desta mosca também desempenham um papel importante para o meio ambiente, porque favorecem a recaptação de carbono e mineralização do solo. Essa espécie de mosca foi isolada pela primeira vez em 1965 no campus da USP em Ribeirão Preto, estudada desde então por diversos centros de pesquisa do [Música] Brasil. Daqui a pouco, a corrida por trens movidos a hidrogênio, cada vez mais velozes, e ainda a busca por biocombustíveis para outros tipos de transporte. A gente volta. [Música] [Música]
Já a corrida pelo desenvolvimento de novos combustíveis verdes não para; ela chegou também ao transporte sobre trilhos. O trem urbano desenvolvido na China atinge velocidade máxima de 160 km/h; possui um motor elétrico que usa uma combinação de células de combustível de hidrogênio e supercapacitadores como fonte de energia livre de emissões de CO2, tendo apenas água como subproduto. Uma tecnologia que já vem sendo usada e aprimorada. No ano passado, a Alemanha anunciou a primeira frota mundial de trens a hidrogênio, desenvolvida pela francesa Alstom. Os europeus substituíram 15 trens a diesel que operavam em trilhos não eletrificados. Aqui no Brasil, o hidrogênio começa a ser pensado para carros, tecnologia que já é usada em alguns países. Mas enquanto grande parte do mundo usa o gás natural de origem fóssil para produzir hidrogênio, o Brasil trabalha em projetos para que o etanol seja o vetor. A Universidade de São Paulo terá a primeira estação experimental de abastecimento de hidrogênio renovável do mundo, feito a partir do [Música] etanol.
Tem bastante desenvolvimento de energia limpa mundo afora, né? A que tá sendo muito falada atualmente é a de hidrogênio, né? Então a gente tem a solar e a eólica já bastante conhecidas, e o hidrogênio verde como uma opção que a gente pode dizer assim que é promissora para o armazenamento e para o transporte de energia. Além da questão do hidrogênio também, né, eh, tem avanços em energia das marés e das ondas, né, bem como na da energia da biomassa e da geotérmica, até a própria energia nuclear de próxima geração, incluindo alguns tipos diferentes de reatores dos atuais, também estão recebendo atenção como fontes potencialmente seguras e eficientes, né? Além disso, tem as questões de iniciativas de smart grids, que a gente chama, que são redes inteligentes, que são outras formas de otimizar o uso da energia nesse caso, né, tornando os sistemas mais eficientes e mais resilientes também. Vamos conhecer outras iniciativas pelo mundo no setor de combustíveis [Música] sustentáveis.
Na Suécia, está sendo construída a maior instalação da Europa para a produção comercial de combustíveis neutros em carbono para o setor de transporte marítimo. O chamado e-metanol é um biocombustível fabricado a partir da síntese de hidrogênio verde com dióxido de carbono capturado da queima de biomassa. Esse combustível verde poderá evitar o equivalente a 100.000 toneladas de emissões de CO2 por ano. No Chile, já está funcionando a primeira indústria de combustíveis sintéticos e neutros em carbono do mundo. A fábrica combina energia eólica, água e CO2 para gerar e-metanol e gasolina neutra em carbono a partir da eletricidade. A planta de Haru Ona fica próxima à cidade de Puntarenas, no sul chileno, e deve produzir cerca de 130.000 L de eletrocombustível por ano. Também no Chile, fazendas de frutas e vegetais estão sendo adequadas para soluções agrofotovoltaicas. O sistema alia as energias renováveis à agricultura; é mais caro que o fotovoltaico solar padrão, mas promete reduzir a evaporação da água, aumentar o fornecimento de sombra e a otimização do uso do solo.
A Inglaterra iniciou a instalação do maior parque eólico em alto mar do mundo: são 277 turbinas, cada uma tem 260 m de altura. O complexo será capaz de produzir energia limpa suficiente para abastecer o equivalente a 6 milhões de residências por ano. Uma única rotação de cada uma das pás irá gerar energia para suprir as necessidades de uma casa média do Reino Unido por dois [Música] [Música] dias.
Para tornar o painel solar mais eficiente, um estudante de engenharia elétrica filipino inventou uma tecnologia a partir de resíduos vegetais que gera energia mesmo sem a incidência direta de luz. Chamado de Aureus, o painel solar capta os raios ultravioleta que atravessam as densas coberturas de nuvens, mesmo em dias nublados e chuvosos – algo que os convencionais não fazem. Ele é feito de resíduos de frutas e vegetais fornecidos por agricultores de locais afetados por mudanças climáticas, transformando colheitas estragadas em energia solar. Segundo o seu inventor, Carv Ma, os painéis solares podem ser aplicados em janelas ou fachadas como um revestimento fluorescente. A ideia é transformar qualquer edifício em um gerador solar, capturando os raios que refletem nas calçadas e nos prédios ao [Música] redor. Daqui a pouco, como a biomassa pode mudar a matriz energética brasileira, e ainda o aumento da capacidade das energias renováveis, cada vez mais perto da paridade com combustíveis fósseis. Não saia [Música] daí.
Com restos de alimentos e dejetos de animais, é possível produzir combustível e gerar energia. A geração de energia a partir de biomassa pode mudar parte da matriz energética brasileira, que ainda usa fontes não renováveis: cana de açúcar, milho, arroz – produtos que movimentam o agronegócio brasileiro. A atividade gira a nossa economia e produz uma grande quantidade de rejeitos, material que muitas vezes vai parar no lixo – um desperdício. A decomposição desses resíduos poderia se transformar em biomassa, fonte de energia renovável que utiliza elementos orgânicos, como dejetos de animais e plantas. Ela se divide em dois campos: biogás e biometano. Esses gases podem ser utilizados para a geração de energia elétrica ou térmica. Só para se ter uma ideia do nosso potencial: segundo a Associação Brasileira de Biogás e Biometano, os dejetos dos suínos têm capacidade para gerar 2,7 bilhões de m³ por ano de biometano, o suficiente para substituir quase 2,5 bilhões de litros de diesel, reduzindo em 96% a emissão de gases de efeito estufa. Esse material também poderia gerar energia elétrica para abastecer cerca de 5 milhões de casas [Música] mensalmente.
Mais uma boa notícia para o planeta: no ano que vem, a capacidade energética das fontes renováveis deverá quase encostar na geração por combustíveis fósseis, e a maior responsável pelo crescimento será a energia solar. Energias limpas, como a solar e a eólica, deverão ser responsáveis por metade da capacidade energética mundial em 2024, alcançando quase o mesmo nível daquela que é obtida por combustíveis como petróleo, gás natural e carvão mineral. A previsão é da Agência Internacional de Energia. A preocupação com a segurança energética aumentou após a invasão da Ucrânia pela Rússia, e graças aos esforços globais para atingir as metas de redução de emissões de carbono na atmosfera, a capacidade renovável cresceu 330 GW em 2022 e deve chegar ao recorde de 440 GW neste ano. A energia solar deve ser a maior responsável pelo crescimento das fontes limpas, devido à megaestrutura de energia fotovoltaica e ao uso crescente dos painéis de teto. Quem mais contribui para a melhoria do cenário das renováveis são a China e a União Europeia, seguidas por Estados Unidos e Índia. Como as energias limpas dependem das condições climáticas, precisam ser usadas com baterias ou fontes energéticas convencionais para que o suprimento se mantenha estável. A Agência Internacional de Energia alerta para a necessidade de um sistema de transmissão e distribuição que leve energia para áreas de alta demanda a custos mínimos.
Para reduzir as emissões de carbono até a metade deste século, as energias limpas devem equivaler a 60% da capacidade mundial de geração de energia até 2030 e a 90% até 2050. Uma coligação de mais de 250 organizações do mundo divulgou uma carta com a meta ambiciosa de triplicar a capacidade de energia renovável para 11.000 GW, também até 2030. A transição energética é uma grande chance do Brasil avançar social e economicamente. Então, quando a gente pensa no Brasil, a transição, ela vai oferecer uma oportunidade única de crescimento, e a gente também, eh, sabe que isso vai colaborar com a distribuição de renda. Ao incorporar o incentivo a fontes renováveis, a gente pode, eh, gerar emprego; a gente reduz o custo de energia; a gente aumenta a qualidade de vida da população que vive nessa região. E a gente não pode se esquecer que, além da transição, ela incentivar a geração de emprego e a melhoria social, ela também tem que ocorrer de forma equitativa e justa para todas as pessoas. Quase metade de toda a energia usada no Brasil já vem de fontes renováveis; no mundo, esse índice não chega a 20%. Para enfrentar as mudanças climáticas, a ONU propõe dobrar as fontes de energia limpa até 2030. O Brasil pode contribuir com o combate ao desmatamento, agricultura e transportes sustentáveis. A expansão das renováveis não custaria mais que as práticas atuais para aumentar a geração de combustíveis fósseis. O nosso plano de transição energética prevê o aumento do uso de biocombustíveis, então, em energia solar, eólica e a produção de hidrogênio verde. O desafio é grande, mas já conhecemos muitas soluções. Obrigada pela sua companhia. Até a [Música] próxima. [Música] 2