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A VERDADE NÃO CONTADA SOBRE IDENTIDADE | Andrea Vermont

Motivadores do Impacto20:08

Transcription

Você não mede uma pessoa pelas ações, você mede pelas reações. A partir de como ela reagir, aquela que ela é de verdade.

Quando eu lembro que a vida é finita, esse momento aqui com você, ele é único, porque eu não sei se eu tenho outros. Em algum momento eu não vou chegar para comer a sopa. Em algum momento a banana vai ficar esperando a fruteira, o pacote de viagem vai ficar comprado, você não vai, a despedida não vai acontecer, o abraço não vai acontecer. Por isso, viva tudo com muita presença.

Vamos falar de identidade. É uma coisa que já falei para algumas minhas, algumas amigas minhas que separaram e elas estão nessa crise de identidade, porque elas tinham uma identidade casada e parece que solteiras ou divorciadas elas perderam essa identidade ou não sabem mais quem são. Mas isso pode ser não só de pessoas separadas, pode ser gente que tá procurando o que que é, como é, o que que é achar a nossa identidade.

Ótimo. Identidade, né? Eh, o Niet tem uma frase maravilhosa: "Torna-te quem tu és." A pergunta é: "Quem tu és?"

É. Quem é você? Quando você fala das suas amigas que tinham uma identidade casada, aquela não era identidade delas, aquela era identidade do casal.

Tanto que quando você parou, aí agora o negócio, ah, qual de sua identidade, eu sou engenheiro, tá? Se você parar de ser engenheiro, você vai deixar de ser você.

Pronto, você matou a questão. A pergunta é: quem é você? E a gente se perde, a nossa identidade ela vai se misturando, a gente vai deixando fragmentos da gente em tudo quanto é lugar, depois a gente não consegue juntar as peças. Torna-te quem tu és. Como psicanalista, eu continuo sendo Andreia. Como esposa, eu continuo sendo Andreia. No podcast eu continuo sendo Andreia. Eu preciso saber quem eu sou para que eu não perca a minha identidade. A gente vai atendendo a demanda de todo mundo, sendo o que todo mundo quer. Depois você não sabe mais quem você é.

Pois é. E você, qual é a sua identidade, cara?

Eu me identifico com isso de de colocar minha minha profissão como uma identidade, assim, eu tenho que...

Todo mundo, né, tem essa tendência, né?

Identifico muito com isso.

Se perguntar quem você é, você responde o quê?

Eu respondo a minha profissão.

Mas a maioria, né, doutora?

Que que você é? Sou médica, sou não sei o quê. A maioria das pessoas vai falar profissão, né?

Isso não é o que você é, isso é o que você está.

Pois é.

Você não é médico, você não é apresentador, você não é... Eu não, eu estou psicanalista, que inclusive amanhã se eu resolver não estar, eu não estou mais.

É. O que que eu sou? Responder o que você é. O seguinte, eu eu dou esse exemplo e ele é bem simples. Quem é André Vermon? Eu sou uma mulher que gosta de estar em família. Eu amo natureza. Eu gosto de coisas simples, gosto de estar com pessoas, mas às vezes não gosto. Essa sou eu. Você precisa responder essa definição.

Que tipo de música que você gosta de ouvir? Que tipo de conversa que você gosta? Que tipo de gente você gosta? Que tipo de sonhos você tem, quais os lugares que você quer conhecer. Isso é o que você é. Ah, tem gente que é bem pop, tem gente que não é. E tá tudo bem. Torna-te quem tu és. E tem idade para isso? Sempre, sempre dá para descobrir o...

A vida inteira. A vida inteira. E dá e muda isso na na vida. Você pode mudar.

O Nit tem um um fábula que é maravilhosa que ele fala sobre essa essa esse descoberta da identidade. Ele cria uma metáfora que é linda, que ele fala assim que a gente a vida é como se a gente fosse pro deserto, tá? E aí lá no deserto ele ele fala assim: "A primeira transformação, o homem transforma-se em camelo, ele abaixa, colocam-lhe cargas no nas costas e ele segue aí por alguns anos nesse lugar." E é isso mesmo.

É. A gente começa responsabilidade, responsabilidade, responsabilidade. Aí ele fala assim: "E aí ocorre a segunda transformação. É quando o homem de camelo transmuta-se para leão. Ele fica bravo, ele arranca tudo que está nas suas costas, ele fica irritado, ele começa a questionar se as as escolhas que ele fez estão corretas. Então é uma fase de de rebeldia, de questionamento, se tem sentido, se não. Aí ele fala assim: "E aí que o homem encontra a sua melhor versão. O leão transmuta-se para a criança."

Por que a criança?

Porque a a criança finge?

Não, ela acredita.

É. Eu falo que eu gosto de olhar a criança andando. Já viu criança andando? Criança não anda, criança saltita. Eles andam. Presta atenção em que momento da vida que a gente perdeu aquilo?

É. Criança é alegre, criança não está. Eles são alegres, eles são verdadeiro. Se eles gostam, eles não gostam. Tudo correndo, né? Eles não andam, eles correm.

Você que doutrina, cumprimenta a vovó, porque por ele, no dia que ele tá azedo, ele não cumprimentaria.

Verdade. Verdade.

Come isso, fala aquilo, a gente vai doutrinando. A criança é o estágio mais puro da existência, porque ela tornou quem ela é. É, eu tenho uma palestra que chama O que você deixou de ser quando cresceu, né? Que é...

Nossa, maravilhosa.

A criança, ela é tudo. Você fala: "Ah, que que você quer ser? Eu quero ser astronauta, jogando de futebol e não sei o quê." Você fala: "Ah, você não pode ser astronauta, você mora no Brasil, nunca você vai ser". Ninguém fala isso para uma criança, mas adulto fala. Se você falar que se astronauta, fala: "Meu, você é ridículo para". Então você vai deixando de ser coisas que você achava que você podia ser quando criança no na fase adulta, né? Então, por isso Niet fala isso, que a última transformação e a mais bonita é quando o leão transmuta-se para criança. Essa é a nossa identidade. Essa criança é perguntar assim: "Quem eu sou de verdade?" A gente, eu falo que antes de inteligência emocional deveria ter um curso de educação emocional. A gente não sabe lidar com as nossas emoções. Se eu não quero alguma coisa ou se eu não quero ir na casa de alguém, eu sou chamada de grossa. Deveria ter o direito de não ir. Nossa, eu sou muito caseiro para eu sair de casa. Meu Deus, uma... Não, mas a vontade de ficar velho é que a galera fala: "Não, é o jeito dele, é a melhor coisa".

Essa é a melhor, ué.

Ah, o Vilelo é assim. Aí eu fico vel e talvez essa transmutação pra criança seja o ficar velho.

É, mas é é quando a pessoa fala: "Não, deixa ele é assim, já não dá para mudar, né?" Fala que a pessoa pensa é...

Então aí é esse o torna de quem tu és. É quando a gente começa a respeitar quem a gente é de verdade, descobrir quem a gente é de verdade. Aí você tem que falar com todo mundo, você não tá com vontade. Tem gente que não significa nada, tem gente que você não tem afeto. Por que que você é obrigado? A gente vai se torturando a vida inteira, depois não quer adoecer. Adoece mesmo. Não tem jeito.

Pois é. Que que é mais importante? O destino ou a própria viagem em si?

A viagem, né? O destino, a viagem é muito mais importante, é muito mais bonita, é o que a gente constrói na na no durante o tempo que você tá indo. Destino é complicado porque depois que você chega acabou.

Não é que é o melhor da festa é esperar por ela.

E tem uma explicação também, o nosso cérebro fica com muito mais serotonina antes da viagem do que durante,

Porque todas as possibilidades uma...

Todas as possibilidades são possíveis. Quando acontece é como assim, tipo, de todas as possibilidades o que aconteceu foi isso. Foi legal para cá, não foi, mas tinham todas as outras possibilidades.

E o antes são as possibilidades que se abrem.

É, eu costumo falar que antes eu eu me importava mais com destino quando era mais novo. Era o lugar era muito importante. Aí depois eu comecei a curtir a viagem em si.

Ah, é?

E hoje em dia eu curto é a companhia de quem tá do meu lado, assim, é dividir a parada, entendeu?

Olha que legal. É, é, é muito mais legal quando você...

Que faz diferença muito também.

Poxa, é muito mais legal a vida compartilhada que...

E, e a dependente de quem tá na viagem, a viagem muda muito.

Claro, ela pode ser um inferno, pode ser... Você pode estar num perrengue, você pode estar num perrengue, se o pneu do seu carro estourou, você tá na chuva, mas aquilo você vai contar a vida inteira de uma maneira legal, porque quem tava do seu lado levou na boa.

É, se a pessoa é de boa, ela vai falar: "Nada, vamos dormir aqui no carro, ouvir o barulho da chuva, tá tudo bem. Amanhã a gente pess falei, eu falei, eu falei para ver o pneu, não falei?" Aí você deseja que faleça.

Exato. Não, na próxima e na próxima viagem naquele momento foi...

Foi que aconteceu no meu primeiro casamento. Fiz uma viagem de 36 dias, no final da viagem se separou. Por que será, né? Porque se ficar 36 dias junto com uma pessoa, você sabe quem ela é, né?

É. Ué. Não. Se você quer conhecer alguém, viaja com ele.

Aliás, três formas lúdicas de conhecer as pessoas. Exatamente.

Viajar, jogar, jogar, jogar de zoeiras. Jogo é mesmo?

No jogo você suspende o juízo.

A pessoa fica...

No jogo, ela é quem ela é.

Ela é quem ela é. Ah, tá. Você suspende o juízo moral. Você é quem você é. Você quer observar uma pessoa, joga com ela.

É no na no matrix eles, no primeiro matrix eles falam: "Você quer conhecer uma pessoa, lute com ela, né? Brigue com ela."

Também. Também.

É por isso que...

É porque na briga é porque outra história, né? Quando você quer conhecer alguém, você não mede uma pessoa pela pelas ações, você mede pelas reações.

É.

As ações são pensadas. Eu vou chegar aqui no vilelo, eu vou sentar, eu vou me comportar assim. Reação não é pensada.

Você toma um tapa, você vai reagir com cer.

Por isso que você vai, conhece uma pessoa quando você briga com ela.

É.

A partir de como ela reagir, aquela é o que ela é de verdade. A ação é pensada, é medida, a reação não.

Pois é.

A vida ficou chata, tem estímulo demais, tem coisa demais. E o o minimalismo ele nos ajuda muito. Quando você tem poucas opções, você valoriza o que você tem. Quando você tem opção demais, você tem 450 canais de TV. Não assiste, é muito opção. Quando você tinha Globo, SBT e Band,

Era o que tava passando.

Só a vida era feliz. Você corria para ver o sítio é que não tinha controle remoto, você até de preguiça deixava no canal que tava mesmo para não precisar ficar levantando e trocar.

Porque tendemos a descontar nos nossos relacionamentos, atitudes que vêm da relação com nossos pais e como e como podemos evitar repetir esses padrões.

A nossa infância é um terreno que a gente pisa diariamente todos os dias. A nossa vida é uma reedição do que a gente viveu lá atrás. Então, infelizmente, aquilo que a gente não elabora, a gente repete. Isso é fórmula, tá? E no livro, inclusive, tudo que você não elabora, você repete.

Elaborar é entender.

Entender e ressignificar. A, o, o Freud vai chamar isso de retorno. A gente vive esse retorno. Então, lá a relação com seus pais, aí seu pai tratava sua mãe de um jeito e você odiava o jeito que ele tratava sua mãe. Você pensava: "Esse cara é um boçal".

E aí, repete. Qual a explicação? arruma um homem idêntico, querendo resolver o que não resolveu com o pai. Porque qual que teria sido o o final interessante dessa história? Essa criança não teria conseguido chegar no pai e dizer: "Cara, você é um boçal". Mas ela ter elaborado isso, ela ter pensado, tá, mas nas condições daquela situação, meu pai e minha mãe era assim, o relacionamento dos dois era assim, talvez ele agia assim por isso. Não era sobre mim, era sobre a relação dele. Como como o marido ele era péssimo, mas como o pai ele foi um cara maravilhoso, você elaborou, tá vendo? Pronto, não vai voltar. Não elaborou, você vai arrumar um homem parecido com seu pai até o dia que você resolver essa pendência. E assim é com tudo.

É um ciclo, né?

Ciclo. Tudo que a gente não elabora e ressignifica, retorna até vocêar. É como se eu trouxesse o meu inconsciente dissesse: "Essa história com o seu pai tá pendurado, eu preciso trazer esse seu pai aqui em outros atores". E aí ele vai trazendo até se resolver.

Isso tem a ver também com vícios. A pessoa reclamava que o pai fumava e depois de um tempo ela vai fumar ou vai beber.

Pode ter a ver também.

Ou é genético?

Tem a tem a condição genética, mas tem muito a ver dessas questões relacionadas a traumas e vivências. Se você não elaborou essa questão, por exemplo, na minha história, eu posso dizer sobre isso. Eu achava meu pai uma droga. Até o dia que eu entendi que o meu pai era maravilhoso. Uma droga era o marido da minha mãe.

É.

O marido da minha mãe era uma droga. Como pai.

Ele era fantástico e eu tava toda misturada. Essa história, tava tudo confusa na minha cabeça. Eu achava que meu pai era péssimo, até pelo discurso da minha mãe que sustentava isso muito. Aí um dia eu parei para escrever pai. Aí eu falei: "Aí escrevi pai". O cara pagava as contas, sempre foi trabalhador, trabalhava em duas empresas, era carinhoso com a gente, era cuidadoso. Não, ele era um pai fantástico, como o marido da minha mãe, ele era uma lástima. Mas esse problema não é meu. Esse problema é dela.

É.

É dela. Com a relação dela, com que os dois construíram. No momento em que eu elaboro isso, essa pendência, esse cabide saiu do meu guarda-roupa. Agora eu tô pronta para relações saudáveis.

Faz um.

Letícia. Cuidado se você não tá procurando alguém parecido com o seu pai aí, hein?

Por aqui foi de pergunta.

Dout. Andreia, faltou alguma coisa aí de algum assunto relevante que a gente alguma ponta solta. A gente fala sobre bastante coisa, he?

Ah, falamos de muita coisa.

Acho que para finalizar a gente pode falar sobre o medo, né? E o medo? O medo é alguma coisa que faz a gente estacionar ou seguir.

O medo e a fé, os são duas perspectivas de uma mesma moeda. Ambos é acreditar naquilo que você não vê.

Aí você escolhe.

Eu falava isso pra minha pra minha mulher quando ela queria ver meu WhatsApp. Eu falei: "Meu, tenha fé". Fé não é acreditar sem ver. Tenha fé.

Você é muita sacana. Essa é ótima. Medo e fé partem da mesma. Medo é acreditar sem ver. É você, você tem medo de uma coisa que você não tá vendo.

Presta atenção. Tudo que você tem medo, você tem medo de virar mendigo. Isso não é real. Isso é uma fantasia.

A fé também. Fé acreditar naquilo que você ainda não viu, mas que você traz a existência.

E aí como faz?

E o problema do medo e também está lá na Bíblia Eclesiástices, ele também pode trazer existência muita coisa? É, o medo, no meu caso, ele sempre foi uma mola propulsora para mim, assim, tipo, eu sempre tive medo de muita coisa, mas era uma questão minha de vencer esses medos assim.

O medo para começar, ele é um mecanismo de defesa, é saudável, quem não tem medo é muito perigoso, é inconsequente.

Só que até aonde ele é um mecanismo de defesa e a partir de quando ele começa a te travar.

Pois é.

Você tem que ter prudência. Quando o medo é prudência, ele é excelente.

Você para toda vez que tem medo, você não faz nada. É isso. Você...

Não atravessa a rua.

Vai com medo mesmo. Se você fosse pensar em medo, você não tinha pensado isso daqui.

Você não tinha mudado o tanto de profissão que você mudou. Então o medo ele não pode ser uma trava, ele tem um mecanismo segurança.

Ter filho dá medos. Pessoal que fala: "Não, quando você seu filho tá para nascer, você fica com medos, né?"

Viver dá medo.

Viver dá medo.

A gente tem que tentar usar o medo a nosso favor.

Você é corintiano dá medo.

E você é flamenguista, então?

Ô, aí você tá no paraíso. Flamengo hoje em dia tá tranquilo, né? Tá, tá tranquilo. Mas...

Mas então o medo faz parte da vida e você tem que saber lidar com ele.

É, ele é ele é bom, ele é um mecanismo de segurança, mas ele não pode te travar. Ele é o cinto de segurança. Ele te protege, mas ele não pode te impedir de dirigir o car.

O medo pode virar uma síndrome do pânico se você não cuidar. Pânico é o medo exacerbado.

É.

Exatamente síndrome do pânico. A palavra pânico é medo exacerbado. É quando você vai sentindo tanto medo que o medo transborda e vira sintoma físico. Então o medo ele é uma faca de dois gumes. Ele é excelente. Ele é excelente como mecanismo de defesa, mas ele não pode te impedir de ir. É o cinto de segurança. Ele te protege, mas se ele te trava e não te deixa dirigir, ele te atrapalha. Pois é.

Então essa é a perspectiva do medo.

E para finalizar, a pergunta mais fácil do mundo. Qual é o sentido da vida, doutora?

Nossa, se...

Fácil. Se eu descobrir essa resposta, eu tava milionária.

Pois é, né?

Essa pergunta aí é pegada. Qual que é o sentido da vida? Eu não sei se a vida tem sentido. Será que ela tem?

Eu fico pensando nisso também.

Aliás, eu acho que a vida ela é um negócio, é muito sem sentido.

É, né?

Para você pensar. Você, você, você, o carro que você se esforçou muito para comprar, daqui 100 anos ele é peça de museu.

É.

A casa que você tá lutando muito para ter, daqui 100 anos ela nem existe. Já derrubaram, já fizeram outra coisa. Daqui 100 anos ninguém lembra quem foi Rogério Vilela.

É.

A vida é muito sem sentido e a gente só percebe isso talvez em momentos de grandes perdas. Assim, eu tive o dissabor também o prazer, sei lá, de que a minha irmã morresse na minha frente. E a vida ela é um, você tem a sensação assim que parece que...

É, foi tomada.

Estava e não estava. A pessoa está aqui de repente.

E aí você vê o quanto que ela é frágil.

Mas e como colocar sentido na vida então se ela é tudo isso que você tá falando?

É. E aí a...

Esse a fase da vida que eu tô vivendo é isso, é como colocar um sentido quando você vê que a morte ela tá logo ali, né? Tipo, você você faz a contas, você tem menos tempo de vida do que você já viveu. E aí...

É por isso que morte e vida são pontas da mesmo da mesma régua e e uma dá sentido pra outra. O que que dá sentido a à existência é exatamente o fato que ela é finita.

É. E se ela é finita, ela precisa ser vivida com se o momento fosse único, porque ele é é o que dá sentido à vida é exatamente o fato de que ela é finita. Quando nós estávamos, eu fui freira, quando eu estava no convento, em retiros de silêncio, a única coisa que era permitido dizer é quando a gente cruzava com outra freira, era a única palavra. Se fosse três dias de retiro de silêncio, a única palavra permitida. A gente olhava uma no olho da da outra e dizia: "Lembra-te de que vais morrer". Memento more.

Nossa, André, que mórbido. Não, não é mórbido. A morte dá sentido à vida. Quando eu lembro que a vida é finita, esse momento aqui com você, ele é único, porque eu não sei se eu tenho outros. E isso não é mórbides, isso traz intensidade. Qual é o sentido da vida? Se a vida tem sentido, talvez esse seja o sentido. Viva tudo com muita intensidade, com muita presença. Exercite presença. Você tiver com o seu filho, esteja com seu filho. Esquece isso daqui. Esteja, olhe nos olhos, converse, brinque. Ah, pode ser só 5 minutos na semana, 5 minutos de 15 em 15 dias. Mas que seja intensos aqueles 5 minutos. Talvez esse seja o sentido da vida, realizar tudo com muita intensidade. Intensidade de quem sabe que essa história acaba. Uma coisa que me chocou muito quando aquele avião ali e eh em Congonhas entrou dentro do do coisa da Latan, lembra? Vindo de Porto Alegre. Eu estava no aeroporto naquela noite.

Ele veio de Porto Alegre, pousou, todo mundo achou que tava trando tranquilo, né? Poço, de repente o avião aquaplana cai lá na Washington Luiz e aquele regaço todo morre todo mundo. E o aeroporto parou aquele desespero, ninguém que tava no saguão tava entendendo o que tinha acontecido até entender que era um avião, que não sei quê. E me chocou uma senhora que andava dentro do saguão de Congonhas para lá e para cá. E ela gritava a seguinte frase: "O meu filho me ligou de Porto Alegre há 2 horas atrás e ele falou: "Mãe, eu tô chegando em São Paulo e eu tô com vontade de comer a sopa da senhora. Faz a sopa, mãe, que eu quero chegar, eu vou jantar a sopa da senhora. E ela batia a mão no balcão da latã e dizia assim: "A sopa tá lá em casa esperando ele. Eu quero o meu filho agora".

Putz.

Aquilo me fez lembrar que em algum momento eu não vou chegar para comer a sopa. Em algum momento a banana vai ficar esperando a fruteira, o pacote de viagem vai ficar comprado e você não vai. A despedida não vai acontecer, o abraço não vai acontecer. Por isso é muito importante viver com muito sentido tudo anterior a isso, porque em algum momento essa história, de novo, isso não é mórbido, isso traz poesia pra vida. Isso é lindo demais entender que em algum momento o jogo acaba e o legal quando acaba é você ter tido a sensação que você jogou muito.

Pois é.

O gostoso quando acaba um prato, você fala: "Não, que prato gostoso, que comida maravilhosa". Foi de lamber os beços. Esse é o sentido.