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Este é um aviso que o Carrefour colocou em algumas de suas prateleiras em mercados franceses, avisando clientes que houve diminuição de tamanho do produto, mas o preço aumentou. A chamada shrinkflation.
Conhecida no português como Reduflação, ela é a responsável pelas anomalias que se tornaram constantes no supermercado, como o fenômeno “dúzia de 10 ovos” ou a Mistura Láctea que vem tentando se passar por Leite Condensado. Este fenômeno não passa de uma estratégia da indústria para enfrentar a alta inflação, fazendo você pagar mais por menos e sem perceber.
Basicamente as empresas utilizam a "reduflação" para aumentar os preços de forma "menos dolorosa" pro consumidor. Mas algumas empresas foram além, sofrendo um processo de 60 milhões de reais, e que poderia ter custado muito mais para os consumidores, pondo em risco a saúde de crianças. Isso porque produtos alternativos com valor nutricional muito menor e potencialmente prejudiciais à saúde, se encontram lado a lado nas prateleiras em embalagens muito parecidas com os produtos originais.
Mas a questão é: a prática da reduflação é legal? Como isso afeta nós consumidores? E como algumas empresas estão usando esse mecanismo pra nos enganar? Você já leu as embalagens que comprou recentemente no mercado?
Talvez você não tenha notado que alguns dos alimentos que você coloca no carrinho estão com uma informação importante no rótulo: NOVO PESO. O famoso Nescau diminuiu a quantidade, o que antes era 380g, agora é 350g. O mesmo acontece com o Bis, que antes era vendido com 126g e agora é 100,8g.
Já parou para verificar sua caixa de ovos ultimamente? Então talvez você pode ter sido vítima do que ficou conhecido popularmente por dúzia de 10. Uma caixa de ovo como sempre foi, só que com 2 ovos a menos. Esse fenômeno é causado pela Reduflação, a expressão é utilizada por economistas para explicar como se relaciona a prática comum de empresas alterarem a pesagem ou a composição de produtos para manter os preços sem reduzir seus lucros.
O termo surgiu em 2009, no livro escrito por Pippa Malmgren e Brian Domitrovic, e é uma tradução de ShrinkFlation, que é uma junção das palavras Shrink, que significa reduzir e a palavra Inflation, em português Inflação. A inflação que vem atingindo o mundo nos últimos tempos aumentou o preço de tudo e atingiu também grandes empresas.
Tendo que enfrentar o preço elevado de matérias-primas, escassez, atrasos no fornecimento e mão de obra mais cara, a indústria de alimentos precisou encontrar uma solução para o aumento dos custos de produção, mas como fazer isso sem que o cliente notasse? Se um produto aumenta seu preço, você procura por outro mais barato, certo?
Sabendo disso, a solução das empresas foi diminuir a embalagem ou a quantidade de produto e manter o mesmo preço. Uma ideia que parece genial. Mesmo que eles indiquem a mudança, poucos notam e acham que continuam pagando pelo mesmo produto de sempre, mas na verdade você está pagando mais por menos.
Mas a reduflação, que é também chamada de inflação invisível, não ataca apenas o setor alimentício. Qualquer diminuição da qualidade do serviço ou produto é considerado uma reduflação. Ainda nos supermercados, os gerentes diminuem a força de trabalho ao colocar seus clientes para embalar a própria compra, ou excluindo de vez o açougue e vendendo só carne a vácuo. Ou então, os hotéis que mantiveram o preço da diária, mas o serviço de limpeza funciona agora apenas por solicitação.
A reduflação está até mesmo em situações simples como lanchonetes deixando de entregar sachês de ketchup e maionese, ou as pedicures deixando de lixar os pés e cobrando por esse serviço. As mudanças geralmente acontecem aos poucos, mas fazem diferença. No entanto, o consumidor demora a notar, ele está mais preocupado com o preço final do que aquilo que está sendo oferecido.
Em termos de produtos do supermercado, mesmo que o consumidor se incomode com mudanças de quilogramas ou perda da qualidade, em tempos de inflação ele não tem muita escolha. Além do mais, se tratando de um produto essencial ele apenas pode se adaptar àquilo, ainda mais porque dificilmente o produto voltará a ser o que era antes.
Mesmo que a reduflação aconteça em tempos de alta inflação é difícil que as empresas voltem atrás e retornem seus produtos para o tamanho original. Na verdade elas se aproveitam disso para depois lançarem uma versão maior do mesmo produto e as chamam de versão big, mega ou tamanho família, e até mesmo estes posteriormente sofrerão uma reduflação.
É o caso do papel higiênico, você pode nem ter percebido, mas já é uma tendência há anos os rolos diminuírem os metros do papel higiênico. Quando os rolos ficaram tão pequenos que o consumidor começou a perceber, as marcas começaram a lançar tamanhos Mega, ou rolos duplos que se avaliados é o tamanho considerado normal alguns anos atrás. O mesmo aconteceu com os salgadinhos da PepsiCo, que estavam ficando tão pequenos que a companhia precisou lançar a versão Party Size de seus produtos, que nada mais são do que a versão “tamanho família” dos produtos.
As empresas são espertas e utilizam de qualquer desculpa para justificar ou encobrir essa redução. O Ypê relançou seu sabão em barras com um novo formato alegando que o novo modelo é mais anatômico e melhor de segurar, mas será que essa não foi apenas uma estratégia para que o consumidor não visse que o produto foi diminuído em 100g?
A situação do leite condensado causou revolta com a mistura láctea, feita de leite, soro de leite e amido que estava sendo vendida no setor de leite condensado e com a embalagem extremamente parecida com a do leite condensado. Será que isso não confundiu o consumidor?
As barras de chocolate por exemplo que antes eram de 200g, foram diminuindo de tamanho aos poucos para o que hoje são 90g, mas pouco da embalagem mudou e a gramatura, mesmo que diminuindo drasticamente, foi percebida apenas pelos mais atentos, já que foi um processo gradual de diminuição.
Os sacos de salgadinhos e amendoins parecerem cada vez mais cheios de ar, não é à toa, isso porque a quantidade de gramas diminui, mas a embalagem continua no mesmo tamanho. O Rufles, por exemplo, diminuiu 9,5% do seu produto, mas a embalagem continua a mesma. Já o salgadinho Torcida diminuiu 15,56%.
Exemplo é o que não falta. O sabão em pó que passou de 4 kg para 3,8kg. A caixa de fósforo passou de 240 fósforos para 200. O pacote de biscoitos que era 200g passou a oferecer 160g. Ou então o suco em pó que era 25g, mas agora é 20g e diz render o mesmo. São mudanças pequenas, mas que enganam até o mais atento dos consumidores.
Então, quais são alguns casos extremos e as desculpas das empresas para esse comportamento? Nos últimos cinco anos o cidadão brasileiro perdeu 30% do poder de compra, algo diretamente relacionado à inflação. A inflação é nada mais que o indicador do aumento dos preços de bens e serviços de uma economia. Só em abril de 2023 a inflação ficou em 0,57%, deixando a inflação prévia do ano acumulado em 2,9% e 4,16% nos 12 meses anteriores, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo.
Em tempos de crise o consumidor tende a fazer uma escolha mais consciente quanto ao preço dos produtos. Mesmo que antes estivesse acostumado a comprar uma marca conhecida pela qualidade, agora ele passa a comprar uma marca mais popular e que é mais barata. As empresas se veem no dilema de não perder seu cliente ou manter a margem de lucro. Diminuir o tamanho ou a qualidade do produto é a forma que eles encontraram de não aumentar seus custos de produção e manter a competitividade da marca mantendo sua clientela e maximizando seus lucros.
Com a redução do tamanho, as companhias ainda possuem a oportunidade de atualizar seu portfólio escolhendo por opções que oferecem o melhor custo-benefício em termos de produção. Se uma empresa oferece quatro opções de tamanho de seu produto, agora ela pode oferecer apenas duas, reduzindo os custos de produção. Afinal, com a inflação alta estas empresas também precisam se adaptar, assim como o consumidor elas também passam a optar por produtos mais baratos.
No entanto, esta tática, além de ser uma maneira de não aumentar o preço final do produto, pode acabar por diminuir a qualidade do produto final, isso porque alguns mudam a fórmula completamente. Vimos isso principalmente nos produtos derivados do leite que passaram a ser compostos pelo soro do leite ou composto lácteo.
Mas a lógica por trás das empresas pode ser ainda mais tendenciosa. Com quantidades menores o consumidor é forçado a voltar mais vezes ao mercado com os produtos que acabam mais rápido. As compras de emergência no Brasil em 2023 cresceram 4,3% em comparação ao primeiro semestre de 2022.
A medida é legal, mas as empresas precisam seguir as regras do Código de Defesa do Consumidor. Que deixa claro que qualquer mudança no peso e na quantidade do produto deve estar informado na embalagem em negrito, em letras maiúsculas e com contraste de cor e em tamanho de fácil visualização pelo período de seis meses. Se um pacote de bolachas passar a vir com menos unidades, essa quantidade deve estar informada de forma explícita, o mesmo para a mudança na fórmula, como no caso de sucos que passam a serem adoçados com maçã, a imagem da maçã deve vir no rótulo.
Ao Diário do Nordeste, algumas empresas falaram sobre o assunto: A Nestlé, informou que a adoção de "novos formatos e tamanhos de embalagens pela empresa tem como objetivo acompanhar as tendências de mercado, garantir a adequação a inovações tecnológicas ou também padronizar a gramatura dos produtos das marcas, de forma a manter sua competitividade". Já a Ypê explicou que a marca sofreu um relançamento "com novos benefícios para cada versão, evolução na ergonomia, com um formato anatômico que é mais aderente e facilita o manuseio. Mesmo com todo cenário de aumento expressivo do preço dos insumos, a Ypê procurou repassar o mínimo possível ao consumidor". A Vigor esclareceu que "A mudança, prevista em lei, está sendo comunicada na embalagem do produto e tem como principal objetivo manter a qualidade que a Vigor oferece em seus alimentos. Além disso, ela visa evitar o repasse total do aumento de custo de toda a cadeia produtiva para os consumidores. Com a adaptação do peso, a marca também se adequa competitivamente em relação a outras marcas do mercado".
Mesmo que essas ações sejam justificadas de forma legal, algumas empresas estão passando da linha e utilizando dessa substituição para enganar o consumidor com embalagens praticamente idênticas das originais. Por esses métodos tendenciosos, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor notificou a Nestlé, Danone e Mead Johnson, que estavam vendendo composto lácteo com embalagem idêntica com fórmulas infantis.
Na ação judicial pública o Idec pediu indenização coletiva de 60 milhões de reais às empresas e que elas deixem de apresentar fórmulas infantis e compostos lácteos em embalagens parecidas e identificá-las com encartes adesivos nos rótulos enquanto a ação não for regulamentada. As fórmulas infantis substituem o leite materno e possuem inúmeras restrições, por isso são vendidas sob prescrição médica, enquanto o composto lácteo é um alimento ultraprocessado e contraindicado para crianças menores de 2 anos por conta do açúcar e aditivos. Confundir esses alimentos pode trazer graves consequências.
Essa não é a primeira ação judicial levantada pelo Idec contra empresas com embalagens tendenciosas. A Brasal Refrigerantes S.A. também foi processada a pedido do instituto por vender a linha Del Valle Fresh com embalagens que induzem o consumidor ao erro. O produto que possui apenas 1,5% de fruta em sua composição era vendido nas prateleiras dos supermercados com rótulos que davam a entender que o produto era feito à base de frutas.
Mas e como ficamos nós, consumidores? Uma pesquisa realizada pelo Reclame Aqui, revelou que quase 80% dos brasileiros notaram a diminuição de embalagens, mas 17% deles nunca ouviram falar de reduflação e 4% não perceberam a tendência. Dos brasileiros que perceberam a reduflação e notaram isso nas prateleiras do supermercado, 63% deles desistiram de certos produtos na hora da compra. Isso tem causado uma desconfiança do consumidor com as marcas, e os consumidores cada vez menos reclamam sobre essas mudanças e passam a simplesmente mudar de marca, causando uma diversificação em produtos.
No entanto, a reputação das marcas ainda fica em jogo. Com as facilidades da tecnologia atualmente, uma simples reclamação em uma rede social pode alcançar milhões de pessoas, causando um verdadeiro ativismo digital. Tem canais no YouTube até fazendo vídeos sobre o assunto, se é que dá pra acreditar. Isso tem feito os consumidores mais atentos e criou uma tendência de campanhas nas redes sociais contra as marcas mais tendenciosas.
Foi o caso do Toblerone. Em 2016 o famoso chocolate em formato de montanha diminuiu seu produto passando de 170g para 150g. Para essa diminuição o chocolate passou a ter um espaçamento maior entre os pedaços de chocolate, o que aparentemente causou uma enorme revolta nas redes sociais. A briga foi tanta que a Mondelez, fabricante do chocolate, teve que voltar atrás em 2018 e voltar ao formato original do chocolate.
E mesmo que a desculpa por trás seja não aumentar o preço, nem sempre é o que acontece. A consultoria Horus, em uma pesquisa realizada a pedido do jornal O Globo, analisou 51 itens da cesta básica ampliada, comparando os preços do primeiro semestre de 2021 com o primeiro semestre de 2022. Dentre os itens, 20 passaram pela reduflação e sete aumentaram de preço apesar da embalagem ter diminuído. O sabão em pó aumentou seu preço em 19% enquanto sua embalagem diminuiu 5,4%. Nas contas da Horus isso quer dizer que o consumidor está pagando cerca de R$1,06 a mais pelo produto, mas está levando 214,5 gramas a menos para casa. O filé de peito de frango, os conhecidos sassamis tiveram uma redução pequena de apenas 1,6% do produto, mas o preço do produto subiu 35,5%. O achocolatado aumentou 9,9% no preço, enquanto a quantidade do produto diminuiu 6,4%. Algo parecido aconteceu com o Leite em Pó que viu seu preço aumentar em 9,5% e seu produto reduzir em 5,9%. Ambos produtos vendiam unidades com 800g e 400g e atualmente vendem unidades de até 730g e 370g. Outros produtos que sofreram aumento foram o biscoito wafer que viu seu produto reduzir 7,6% de tamanho e seu valor subir 15,5%. A barra de chocolate com redução de 4,2% de tamanho e aumento de 1,9% no preço.
Se a mudança for na composição do produto você precisa ficar ainda mais atento, produtos como composto lácteo, creme sabor requeijão, composto de óleo e azeite vendido como azeite, manteiga misturada com margarina, bombom sabor chocolate e sucos aromatizados surgem cada vez mais e podem ser prejudiciais. Essas alternativas são vendidas em embalagens similares aos produtos originais e colocadas nas mesmas prateleiras, o consumidor desatento está levando para casa produtos com valor nutricional muito menor e potencialmente prejudiciais à saúde.
Será que isso vai ter um limite algum dia? Afinal as embalagens de alguns produtos não podem ficar tão pequenas a ponto de o conteúdo não entrar dentro, ou o consumidor achar que a quantidade simplesmente não valha a pena. Mas certamente as empresas vão dar um jeito. Seja lançando uma versão maior e ir diminuindo as duas aos poucos, até o ciclo se repetir, ou simplesmente aceitando e aumentando o preço dos produtos, de qualquer forma você tem que sempre fazer a análise e ver se aquele produto faz sentido para você naquele momento.
Analisar mais a fundo esse assunto é descobrir que ele não é tão simples quanto parece e que não é só culpa das empresas. Elas estão em um mercado competitivo e estão fazendo de tudo para se manterem vivas. Mas tentar enganar o consumidor já é demais. De qualquer maneira, fique tranquilo, no final você já sabe que sempre vai sair perdendo, seja pela inflação, seja pela reduflação.
Agora me conta, você tem notado a mudança nos produtos no seu supermercado? Comenta aqui abaixo que eu quero saber. Pra descobrir como a nova inteligência artificial do YouTube funciona e como você pode usar ela pra crescer um canal e construir um negócio na internet postando poucos vídeos por mês, confere uma aula grátis no primeiro link da descrição, ou apontando a câmera do seu celular para o QR code que ta aqui na tela antes que essa aula saia do ar. Agora, pra saber o que é o golpe do odômetro, que diminui a quilometragem dos carros e que muitas vezes é imperceptível enganando muitos consumidores, confere esse vídeo aqui que tá na tela. Por esse vídeo é isso, um grande abraço e até mais.