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Introdução à Fisiologia: O QUE É HOMEOSTASE OU HOMEOSTASIA? | MK Fisiologia

MK Fisiologia16:57

Transcription

Olá pessoal, tudo bem com vocês? A quem não me conhece, meu nome é Miri, sou médica, doutora e professora de fisiologia. Neste vídeo, eu começo aqui nesse canal uma série de vídeo-aulas sobre fisiologia humana. Então, se você quiser acompanhar todas as aulas, se inscreva no canal e ative as notificações.

Bom, então, antes de mais nada, para a gente começar a falar sobre fisiologia, a gente precisa entender o que essa subárea da biologia estuda. Para tentar explicar o que é fisiologia, vamos começar com o que está acontecendo agora no seu organismo. Quando você está aí assistindo esse vídeo, o seu coração, que é um músculo, está se contraindo, bombeando o sangue para todos os órgãos do seu corpo. Ao mesmo tempo, um ar rico em oxigênio está entrando nos seus pulmões e, em troca, um ar pobre em oxigênio e rico em gás carbônico está sendo jogado para fora dos seus pulmões. Daqui a pouco, pode bater aquela fome, e você pega para fazer aquele miojo especial. E, conforme você se alimenta, o miojo vai sendo digerido e absorvido no seu trato gastrointestinal. Os nutrientes absorvidos, então, entram na circulação sanguínea e podem, finalmente, ser distribuídos para todas as células do seu organismo.

Nesse momento, a gente pode fazer algumas perguntas interessantes. Como, por exemplo: como o coração bombeia o sangue? Como o ar entra e sai dos pulmões? Como os alimentos são digeridos e absorvidos no trato gastrointestinal?

Bom, se você quiser saber a resposta de todas essas perguntas, você precisa estudar fisiologia, pois essa subárea da biologia visa estudar, basicamente, o funcionamento do organismo vivo.

Bom, então, se a gente quiser falar sobre o organismo humano, a gente tem a fisiologia humana, que é o nosso foco aqui. Mas vale lembrar que a gente também tem a fisiologia animal, que estuda o funcionamento de outros organismos animais, e a fisiologia vegetal, que estuda o funcionamento dos organismos vegetais. Resumindo, a fisiologia é a base para a gente começar a entender o funcionamento de qualquer organismo vivo.

Um ponto importante para começar a estudar fisiologia é esse aqui: todas as funções de um organismo vivo são conduzidas pelos princípios básicos da química e da física. Por exemplo, quando o alimento ingerido entra no trato gastrointestinal, ele será digerido, quebrado em pequenos pedaços pelas enzimas digestivas que catalisam as reações químicas. Por outro lado, quando o coração bombeia o sangue, contrai, cria-se uma pressão no seu interior, e essa força física deve ser grande o suficiente para bombear sangue para todos os seus vasos sanguíneos.

Até aqui, você já pode estar imaginando que aprender todo o funcionamento do organismo humano deve ser muito fácil. Mas é que a gente tenta simplificar, principalmente para a galera que está aí na graduação e precisa aprender o básico da fisiologia humana.

Então, sem perder muito tempo, vamos ver. Até o ponto para a gente começar a entender como o nosso organismo funciona, precisamos entender o que é o meio estável, homeostasia. E para isso, primeiro, a gente precisa relembrar como o organismo humano é estruturado.

Então, de maneira resumida, a gente pode dizer que a manutenção do organismo humano é resultado do funcionamento de complexos sistemas orgânicos, como, por exemplo, o cardiovascular, respiratório e sistema renal, que está ilustrado aqui nessa figura. Cada sistema é formado por órgãos, por exemplo, no caso do sistema renal: rins e bexiga, e dois canais por onde passam a urina: ureter e uretra. Cada órgão é formado por dois ou mais tipos de tecidos diferentes, como, por exemplo, é constituído por tecido epitelial, tecido conjuntivo, tecido nervoso e tecido muscular. Cada um desses tecidos são, por sua vez, formados por um aglomerado de células especializadas, como as células epiteliais, células de tecido conjuntivo, neurônios e células musculares.

Individualmente, as células são capazes de realizar todas as funções básicas de um organismo vivo, sendo, portanto, consideradas as menores unidades vivas de um organismo. Uma célula contém organelas e o núcleo, o qual contém o material genético que determina as funções celulares. Todo o espaço intracelular, chamado de citoplasma, é preenchido por uma solução composta por água, eletrólitos e outras substâncias, constituindo o chamado líquido intracelular ou LIC. Assim como o espaço intracelular, o espaço extracelular que circunda as nossas células também é preenchido por uma solução contendo água, eletrólitos e outras substâncias, constituindo o que chamamos de líquido extracelular ou LEC.

Separando esses dois líquidos ou esses dois compartimentos, nós temos a membrana plasmática, também chamada de membrana celular. Assim, podemos dizer que todo o líquido de um organismo, o líquido corporal total, está contido nesses dois grandes compartimentos delimitados: um compartimento intracelular, contendo dois terços dos líquidos corporais (LIC), e outro extracelular, contendo um terço dos líquidos corporais (LEC). Ainda vale destacar que o LEC é subcompartimentalizado: oitenta por cento desse líquido extracelular encontra-se no espaço intersticial, ou seja, no espaço entre os tecidos, entre as células, constituindo assim o chamado líquido intersticial. Os outros vinte por cento encontram-se dentro dos vasos sanguíneos, constituindo a parte líquida do sangue, ou seja, o plasma.

Em um indivíduo adulto do sexo masculino, aproximadamente sessenta por cento do seu peso é constituído por líquidos. Portanto, se considerarmos um homem de 70 kg, ele terá aproximadamente 42 litros de líquido corporal. Desses 42 litros, 28 litros estarão dentro das células, constituindo o LIC, e 14 litros fora das células, constituindo o LEC, sendo 11 litros distribuídos no espaço intersticial e três litros dentro dos vasos sanguíneos, formando o plasma.

É importante deixar claro que, embora os líquidos estejam separados por barreiras, ou seja, a membrana celular separando o LIC e o LEC, e a parede dos vasos separando o líquido intersticial do plasma, essas barreiras permitem a passagem de algumas substâncias como água, nutrientes, eletrólitos, gases e resíduos metabólicos. Assim, essas substâncias estão em constante movimento entre o LIC e o LEC, e entre o LEC e o meio externo.

Mas o que seria esse meio externo? O meio externo é o meio ambiente no qual o nosso organismo como um todo está inserido, ou seja, o meio ambiente que nos envolve. E, fisicamente, dessa forma, o LEC funciona como uma interface, mediando as trocas de todos esses componentes e outras substâncias entre o meio externo e o LIC. Portanto, podemos dizer que o LEC é o ambiente das nossas células, e chamamos esse meio de meio interno, para diferenciar do meio externo que nos envolve.

Esse termo 'meio interno', do francês 'milieu intérieur', foi utilizado pela primeira vez pelo fisiologista francês Claude Bernard no século XIX, ao se referir ao meio líquido que envolve os tecidos e as células, hoje conhecido como LEC. Naquela época, Bernard observou que nos animais de vida constante, ou seja, cuja vida pode continuar independente das variações no meio externo, como é o caso dos seres humanos, as condições físicas do meio interno permanecem praticamente constantes, mesmo diante de grandes variações do meio externo.

Por exemplo, se nós estivéssemos no frio da Antártida ou no calor do deserto do Saara, a temperatura do nosso meio interno tende a continuar próximo de 37 graus. Ou seja, é como se as nossas células tivessem se instalado dentro de uma estufa própria, e as infinitas mudanças do meio externo não afetam diretamente. Dessa forma, a vida das nossas células não fica presa às mudanças do meio externo, o meio que está fora da estufa, e, portanto, a nossa vida é livre e independente das variações desse meio externo.

Assim, Bernard propôs que essa constância do meio interno era a condição mínima para se ter uma vida livre e independente. Portanto, nos animais de vida livre e independente, o organismo evoluiu para ser capaz de compensar qualquer alteração do meio externo, mantendo as condições do meio interno constante, ou melhor, quase constante.

Agora, a pergunta que fica é: quais são essas condições do meio interno e o que significa dizer que essas condições são quase constantes? Respondendo à primeira questão, as condições do meio interno são as variáveis físicas e químicas do ar, como temperatura, pressão, a concentração de oxigênio, nutrientes e assim por diante. E respondendo à segunda questão, essas condições são quase constantes, ou seja, não estão sempre em um valor fixo, e sim dentro de um intervalo de valores necessários para a sobrevivência das células.

Por exemplo, a temperatura do meio interno, ela não fica fixa em 37 graus. Na verdade, ela varia entre 36 e 37 graus ao longo do dia, e essa variação é normal e vale para qualquer variável do meio interno, como a concentração de oxigênio e nutrientes, por exemplo.

Depois de Claude Bernard, já no século XX, o cardiologista americano Walter Cannon criou o termo para se referir a essa condição quase constante do meio interno: homeostase ou homeostasia. Vocês podem encontrar esses dois termos nos livros, e eles significam a mesma coisa. Esse termo, ele vem do grego 'homoios', que significa similar, e 'stasis', que significa condição. Portanto, definindo o termo homeostase, nós temos uma condição similar ou uma condição estável do meio interno.

Dessa forma, é importante ficar claro que a homeostase é um estado dinâmico e não estático. Pegamos como exemplo a homeostase da glicose. Ao longo de um dia, sua concentração no sangue pode sofrer alterações após as refeições. Nessas refeições, os carboidratos ingeridos são digeridos e absorvidos pelo sistema digestório, elevando as concentrações do principal carboidrato no sangue, no caso, a glicose. Porém, a concentração de glicose no sangue ela cai rapidamente, graças a mecanismos compensatórios, por causa da secreção do hormônio insulina pelo pâncreas, mantendo as concentrações de glicose dentro de um limite adequado para a sobrevivência das células. Em outras palavras, mantendo a homeostase dessa variável.

Porém, quando os mecanismos compensatórios falham, a homeostase pode ser perdida, e as concentrações de glicose no sangue podem ultrapassar os limites de variação normal, aparecendo agora uma condição não saudável, ou seja, uma doença. Nesse caso, o diabetes. Nos diabéticos, o que acontece é uma falha na secreção de insulina, e a concentração de glicose no sangue pode permanecer em concentração bastante elevada após a ingestão de 75g de glicose, quando comparados com um indivíduo saudável, ou seja, quando comparado com um indivíduo que está em homeostase. É essa alta concentração de glicose que causa praticamente todos os efeitos deletérios do diabetes.

É importante deixar claro que, assim como há mecanismos compensatórios para manter as concentrações de glicose em homeostase, há mecanismos compensatórios para manter qualquer uma das variáveis do meio interno em homeostase.

Para quem ainda não entendeu, vamos tentar explicar de uma outra maneira. O organismo em homeostase está passível de sofrer diversas alterações. Por exemplo, um aumento da temperatura pode acontecer, seja devido a alterações externas, como acontece num dia muito quente, ou internas, como acontece com a produção de calor devido a uma atividade física intensa, por exemplo. Em qualquer uma das situações, o organismo ativa mecanismos compensatórios para resfriar o meio interno. Nesse caso, estimula-se a produção de suor, por exemplo. Serve para, por ação do suor, conseguir restabelecer a temperatura, o organismo continuar saudável e em homeostase.

Caso contrário, se os mecanismos compensatórios falharem, ou se a alteração for tão grande que os mecanismos compensatórios não conseguem dar conta, o organismo ficará doente. Pode ocorrer uma hipertermia, e a temperatura permanecerá acima do limite normal, o que prejudica o funcionamento das células. Se essa alteração for muito grave e prolongada, poderá ocasionar até mesmo a morte do indivíduo.

Portanto, fica claro que, para manter o organismo vivo funcionando adequadamente, é preciso manter a homeostase de todas as variáveis. E isso acontece graças aos mecanismos compensatórios que buscam manter a homeostase de uma determinada variável. Sendo assim, esses mecanismos também podem ser chamados de mecanismos homeostáticos.

Na próxima vídeo aula, a gente explica quem são esses mecanismos homeostáticos, então não percam o próximo vídeo. E, resumindo tudo que vimos nessa vídeo aula, lembre-se que o meio interno é o líquido extracelular (LEC), ou seja, o meio líquido no qual as células ficam imersas. As condições desse meio interno, por exemplo, a temperatura, concentração de oxigênio e nutrientes presentes no LEC, devem se manter dentro de um limite de valores, ou seja, devem ser mantidos quase constantes. Esse estado de manutenção do meio interno quase constante é chamado de homeostase. Qualquer alteração à homeostase de uma variável do meio interno deve ser restabelecida pelos mecanismos homeostáticos. Caso contrário, uma doença poderá se instalar.

Vocês ficaram com alguma dúvida? Podem deixar nos comentários que a gente tenta responder sempre, beleza? E a gente se vê no próximo vídeo. Um abraço e até lá!