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CASO ANDREI - JULGAMENTO DO TIO PERVERSO PRESTES A ACONTECER - ENTREVISTA EXCLUSIVA

MARCONDI MARQUES - CANAL OFICIAL52:18

Transcription

Olá, família. Boa noite. Boa noite a todos.

Eu tô com a sensação de que tá chegando a justiça e que o mês de outubro vai ser um mês de justiça. Agora, dia 27 de outubro, segunda-feira, teremos o início de um julgamento que eu aguardo há anos, tá? Há anos, juntamente com uma mãe, tá? Com a Cátia Gular. O julgamento que refere a justiça do filho da Cátia, um garoto lindo, lindo, que na época, em 2016, tinha 12 anos apenas. Final de novembro, mais precisamente dia 30 de novembro, um garoto que tinha a vida no seu olhar e que por coincidência do destino, teve o seu algoz, o seu tio, irmão da Cátia. Uma luta por justiça que ultrapassou fronteiras que vocês vão ver agora. A polícia não quis acreditar, mas teve um anjo, uma promotora muito aguerrida, que vocês conhecem bem, Dra. Lúcia Calegari, que teve papel importantíssimo nesse caso.

Hoje vamos ouvir a Cátia, tá? A mãe do Andrei, uma mulher ímpar, ímpar que não parou em nenhum momento no pedido de justiça, que foi atrás de todas as formas, não se covardou. Então, vamos receber hoje com muito carinho e acolhimento Cátia Gular, mãe do André Gular.

Kátia, boa noite. Me ouve?

Boa noite, Marconde. Te ouço, sim. Boa noite, Marconde.

Sua imagem sumiu.

Boa noite, família Marques. Sua imagem sumiu aqui agora.

Eu tô te vendo.

Sua imagem sumiu. Agora sim. Voltou. Voltou e sumiu de novo.

Voltou. Isso aí. Agora, ó, tá indo e voltando. Estranho.

Tá piscando. Agora ficou. Não, vou ver aqui. Agora chegou. Agora estamos vendo bem. Ah, graças a Deus.

Vou dar boa noite de novo.

Por favor. Boa noite, Marconde. Boa noite, família Marques. Estamos aqui na véspera do júri.

Ktia, quando eu te procurei lá, acho que foi em 2019, se eu não me engano, ou 2020, 2019, né?

É, foi por aí, faz bastante tempo.

2019 nós, eu fiquei sabendo no caso do Andrei, nem quis contar essa história e que meu público na época na Rede Rio conhecesse. Eu te entrevistei, entrevistei a Dra. Lúcia Calegari. Entrevistei o seu irmão para ouvir o lado dele.

E essa história me chocou demais porque foi, eu eu digo para você que foi a primeira vez que eu me envolvi diretamente num caso, numa busca por justiça. E de lá para cá nós viramos amigos. Podemos falar que nós viramos amigos. Essa é a verdade.

Sim. E hoje, faltando dias, faltando dias para a justiça acontecer, eu confesso que eu tô ansioso. Eu não imagino você.

Nossa, coração tá aqui.

Para quem não conhece, nós vamos contar agora essa história deste menino aqui, ó. Deixa eu botar a foto dele aqui. Deste menino que está ali a foto atrás da Lúcia. Da Lúcia, não, da Ktia, esta criança linda, o Andrei. Vamos conhecer o Andrei através da sua mãe, da Cátia. Cátia, nos apresente o Andrei.

Respirar, Marc, falar do Andrei é muito bom, é muito fácil. O que dói é a saudade, é a falta do abraço dele, a falta do calor do corpo dele, a falta do Andrei. Falar do Andrei é muito prazeroso. Ser a mãe do Andrei é um motivo de muito orgulho. O Andrei é o filho caçula de três irmãos, né? Eu tenho mais dois filhos mais velhos que o Andrei. E o Andrei na época do assassinato, ele tinha 12 anos. Andrei, uma criança alegre, feliz, gremista, bem resolvida, personalidade muito bem definida, de fácil fazer amizade, uma criança íntegra e uma criança com seus conflitos de 12 anos, né? Não querer tomar banho, escovar dente, não fazer tema. Uma criança normal e um normal, mas muito especial por ele ser o meu filho. E no dia 30 de novembro de 2016, o meu irmão, um tenente da Brigada Militar, acabou com o sonho do Andrei, acabou com o sonho dele ser de repente um jogador de futebol, um médico, um engenheiro, alguém ligado na área da gastrostomia, de que ele gostava de fazer comida. Então ali foi interrompido o sonho do Andrei, o sonho, o meu sonho de mãe do Andrei, dos irmãos do Andrei. E a minha busca foi nesses quase 9 anos, Maconde, foi pela justiça e o assassino do Andrei, sendo meu irmão ou não, eu busquei a luta por justiça, né? Então, dia 27 de outubro agora nós teremos o júri popular. Andi hoje teria 21 anos, seria um jovem adulto já na faculdade, escolhendo a profissão que ele quisesse.

Ktia, conta pra gente, conta pra gente como é que foi o dia 30 de novembro de 2016, o que aconteceu nesse dia, por favor. Eu sei que é doído, mas é necessário.

É necessário, Marconde. E por mais dolorido que tenha sido nesses anos todos falar, contar a história, eu sempre penso, né, quem sofreu mais nessa história foi o Andrei que perdeu aqui. Eu e meus outros dois filhos meus falamos: "Nós somos sobreviventes". Então, por mais que seja dolorido, falar é necessário. Tudo que nós conquistamos foi assim na dor, no sofrimento, né? E o amor e a saudade que eu tenho do Andrei é o que me motiva a seguir essa luta. Então eu vou contar como aconteceu tudo isso no dia 30 de novembro, né? Vou voltar um pouquinho no tempo para poder contar ali a partir do dia 30. Eu sou eu sou uma filha, nós somos cinco irmãos, eu sou irmã de mais quatro irmãos, né? Nós somos filhos de brigadianos, morávamos no interior de Porto Alegre, aqui no Rio Grande do Sul, viemos para a capital pequenos ainda e meus pais já faleceram agora. E um dos meus irmãos, eu tinha um ótimo relacionamento com todos meus irmãos, né? Nós entre nós cinco, nós sempre, a gente estava bem como irmãos, né? Cada um cresceu, seguiu sua vida, construiu sua família, mas nós mantemos um relacionamento, contato, né? E aí então um dos meus irmãos, que hoje em dia é réu pelo assassinato do Andrei e réu também pelo estupro, entrou em contato comigo e perguntou se ele poderia ficar uns dias aqui em casa, porque ele já era um tenente na brigada aposentado e recebeu um convite do Ministério Público para trabalhar aqui em Porto Alegre e nesse período ele residia no Rio de Janeiro. Eu não vi problema nenhum Marcom de acolher ele porque era meu irmão, né? A gente eu disse para ele ainda, a gente é família, a gente se ajeita. Meu apartamento é pequeno, né, de dois dormitórios, então para deixar mais confortável para todos na casa, né? Ficou meu irmão e meus dois filhos gurias num quarto e ficou eu e minha filha no outro quarto. E meus filhos estavam contentes que que ele estava aqui, porque ele também ele era padrinho dos meus três filhos, eu era madrinha das filhas dele para mostrar que nós tínhamos um relacionamento normal de família, né? E ele disse: "Não, K, vou ficar só um período aí, porque depois eu vou trabalhar no Ministério Público, eu vou alugar um apartamento para mim e agora é período pequeno e depois eu vou entrar em recesso." Eu não vi problema nenhum, Marc, de acolher ele, porque ele não era um estranho. Estranho é o marido, a esposa que tu encontra no caminho da tua vida, né? Porque meu irmão já era do meu núcleo familiar antes mesmo de eu nascer. Ele é mais velho que eu. Não vi problema. Ele estava aqui em casa, as crianças estavam gostando dele, ele também, né, dentro da da condição aqui que a gente estava, né, pro apartamento ser pequeno, estava tudo correndo normalidade.

Aí na noite anterior, o Andrei faleceu na madrugada do dia 30. Na madrugada anterior teve a tragédia da Chapecoense, que foi um marco bem triste, né, que apareceram vários jogadores ali dentro do avião.

Exatamente. Então nós estávamos bem comovidos com a tragédia da Chapecoense. Na segunda de manhã, o Não é na segunda de manhã, na segunda de noite, segunda para terça, aconteceu a tragédia da Chapecoense. Então, na terça-feira pela manhã, que seria 29 de novembro, a nossa rotina na família que seguiu, né? O Anderson, eu estudava, trabalhava de noite, chegou do serviço, foi para a aula. O André e a Andressa, né, que são os meus filhos caçulas, levantaram e foram para a escola. Meu irmão já estava trabalhando, no Ministério Público, foi pro trabalho e eu tinha feito uma cirurgia, estava em casa, né? Eu trabalho, eu sou enfermagem num hospital aqui de Porto Alegre já há 31 anos. Naquele período eu tinha feito uma cirurgia, então eu estava mais por casa, fiquei em casa e o Andrei foi e a Andressa foram para escola. Era umas 10 horas da manhã, 10 e pouco talvez, o Andrei voltou da escola sozinho porque a minha filha foi para casa de uma colega fazer um trabalho escolar. E o Andrei chegou da escola e disse: "Eu estava tomando chimarrão, ele tomou umas cuia comigo, ele adorava tomar chimarrão. E ele perguntou: "Mãe, tu não tá vendo o teu jornalzinho?" E eu disse: "Filho, hoje está muito triste, né? Porque tinha acontecido a tragédia da Chapecoense. Eu disse: "Filho, quando uma mãe sofre, todas as mães sofrem juntas." E ele fez uma carinha de triste assim, estava sentado no sofá assim com as perninhas cruzada, me olhou e disse: "Que triste para essas mães, né, perder os filhos desse jeito". Essa frase dá para demonstrar o quanto o Andrei era carinhoso, afetivo, se preocupava com a dor alheia.

Então eu quis evitar que ele visse essa tragédia, acompanhasse com o noticiário. Eu não estava assistindo a TV. E aí eu falei: "Filha, olha a tua tuas férias aí, olha a tua desenhar que tu quer ver na TV. Porque eu não, eu quis poupar ele de ver as notícias da tragédia, da tragédia da Chapecoense. Aí nós almoçamos, fomos dormir um soninho, né, que ele tinha dormido tarde em função da própria tragédia da Chapecoense e a gente gosta muito de futebol aqui na minha casa, né? E eu disse: "Filho, vamos dormir". Aí a gente dormiu bem agarradinho assim. Eu digo, muitas vezes eu faço esse movimento, Marconde, e eu sinto como se eu tivesse o corpinho dele junto a mim, como eu tive naquela tarde, né? E eu não sabia que aquele sono que nós tiramos foi o último sono, né, que eu consegui ter com Andrei. Aí nós dormimos. Ah, eu acordei ele e falei: "Filha, levanta para para te tomar um café porque eu pensei se não de noite tu não dorme, né? No outro dia tinha aula de manhã, aquelas coisas de criança que estuda de manhã, eles não querem dormir depois do almoço, mas depois que dorme não querem acordar, né? Eu falei: "Filho, levanta, né?" Daí eles não querem mais acordar. Ele até às vezes eu dizia assim para ele, né? Filho, levanta, senão tu não dorme. E ele dizia: "Ô, eu não te entendo, tu quer que eu durma da quando eu durmo, tu não quer que eu durma?" Aí eu me respondi para ele, filho, tu tem que dormir meio termo, nem muito, nem pouco, filho. Tu tem que dormir um pouquinho para tirar o sono, mas não pode ficar totalmente sem sono.

Mas dentro daquela força de criança, eles não entendem, né? Só quando se tornam adulto eles conseguem ter a noção desse que é importante aquele soninho, né? Daí nós levantamos ali naquela cesta aquela soneca.

É aquela cesteada ali. Aí nós levantamos, tomamos café. Ele falou: "Mãe, eu vou lá no mercado buscar guisado". E eu perguntei: "Por que que você vai buscar guisado, filho?" "Ah, é sempre bom ter guisado em casa, mãe, porque ele gostava muito de cozinhar." Então, quando ele queria cozinhar, ele queria que as coisas estivessem tudo em casa, assim, para ele não ter que estar saindo.

Eu não vi problema. Vai lá, filho, busca guisar, tal. Daí ele buscou. Enquanto isso eu me arrumei para ir no aniversário, né, num familiar amigo nosso e eu tinha convidado, vamos filha? Falou, não, mas eu vou ficar em casa, vou fazer um chimarrão pro padrinho daí nós vamos tomar e aí lá é só aniversário. Não vou ir, eu vou ficar em casa porque ele estava muito contente que o meu irmão estava aqui. E o André era muito acolhedor assim, chegava as pessoas aqui em casa, ele gostava de fazer chimarrão, gostava de fazer uma janta, de gostava de fazer uma comida, fazer um agrado pra visita, né?

E mesmo ele sendo novinho, assim, ele tinha essa percepção, né, de tratar bem as pessoas. E aí no caminho eu peguei a minha filha, daí eu falei: "Filha, liga pro Andrei para ver se ele mudou de ideia, se ele quer ir". Daí ela tentou ligar, não conseguiu contato aqui para casa, né? Eu disse: "Bom, combinado era de não vir, né? Já tinha dito que não". Nós fomos para aniversário, eu e ela. Lá no aniversário eu mandei uma mensagem pro meu irmão, porque o Andrei estava de castigo do celular porque estava com a nota com as notas ruins na escola, né?

Nota baixa. E eu mandei mensagem pro estava baixa, estava bem baixa as notas dele. E eu mandei mensagem para minha filha, pro meu irmão. Avisa o Andrei que que Dedé estamos aqui. Daqui a pouco mais a gente está em casa. Meu irmão está tudo bem, eu aviso ele. E nós chegamos em casa, era umas 11:30 por aí, 11:25. E aí eu cheguei no apartamento, estava o apartamento com as luzes desligada, né? Só a luz do quarto, onde eles estavam deitados, só a luz da TV. E eu bati no quarto, entrei, aí meu irmão me cumprimentou assim, né, dando boa noite. O Andrei numa triliche, né? Já estavam deitado assim numa triliche, o Andrei na cama de cima da triliche, meu irmão na cama do meio e a cama auxiliar, que era o que o meu outro filho usava, estava recolhida porque estava trabalhando nessa noite, né? E aí eu cumprimentei eles, o Andrei, eu perguntei: "E aí tomou banho?" Porque ele não queria mais que eu mandasse ele tomar banho. Então nós tinha um código assim. E aí ele fez, ó, tô cheiroso.

Eu mostrei a camisa do Grêmio que eu havia saído para comprar também. Ele perguntou: "Ah, que eu comprei uma azul e eu tinha dito para ele que ia comprar uma rosa." Ele só fez uma cara e perguntou: "Não era rosa, mãe?" Eu disse: "Ah, gostei mais da azul". Mas ele conversou pouquíssimo comigo, bem muito pouco. Meu irmão e o meu irmão só falava assim, ó: "Eu tô com sono, amanhã eu tenho uma missão importante, eu quero dormir, ai tô cansado, né?" E ele não e ele só falava isso. Eu vi que a minha presença naquele momento estava importunando mesmo.

Incomodando. E o Andrei quase não falou, só perguntou da camisa, falou que tinha tomado banho e a TV ficava em direção assim em frente quando Andrei estava olhando para a TV. E eu pensei: "Ah, vou deixar eles dormir, né? Amanhã o Andrei tem aula cedo. Meu irmão também tem esse compromisso que eu tá dizendo. E quando eu puxei a porta eu pensei: "Ah, mãe, eu vou mexer com André que ele nem deu bola para mim". Porque eu e ele tínhamos essas brincadeiras, né? E ele esticava o braço e falava assim: "Dá um abraço". E aí eu abraçava ele, eu falava: "Um, não, a gente dá um monte de abraço." E ele também retribuía, né? Ele passava por mim assim pela casa e dizia: "Me dá um abraço". E aí eu e eu pedi e ele me dava, né?

Ou então ele dizia assim, ó: "Ah, faz 6:23 segundos, que uma mãe não diz que ama seu filho". E aí ele me abraçava e eu também dizia, né? Dizia: "Ah, faz 5 horas, 13 minutos que um filho não descama sua mãe". Ele era muito afetivo, muito carinhoso, gostava muito de dar beijo, abraçar e ele era o caçulo. Então existia, né, um tratamento diferenciado por ele ser o menor, mais mimado.

É, os mais velhos: "Ah, o Andrei é muito mimado". Mas ele retribuía esse mimo, sabe, Marconde? Porque às vezes assim, ó, se eu estava sentada e eu falava: "Ah, tô com sede, ele quer uma água, mãe, eu busco para ti". Ele era muito prestativo, sabe? Daí ele buscava água, me dava. E aí, às vezes ele estava ali, ele também dizia: "Ah, eu tô com sede". Daí eu falava: "Para que a mãe vai buscar uma água para ti". Daí os outros falavam assim: "Ah, o mimadinho da mãe". Daí ele diz: "É, mas eu busco água pra mãe quando vocês não buscam você". Então, era um tratamento normal, uma família normal, assim, não existia rivalidade entre os irmãos, ao contrário, né? O Anderson e o Andrei tinham 10 anos de diferença, assim, o Andrei usava o Anderson muito como referência e o Anderson por ser mais velho. Aquelas brincadeiras de também te sentir mais responsável ao mesmo tempo querer ensinar as coisas com o Andrei e levava o Anderson, o Andrei nos jogos do Grêmio, na no Olímpico ainda na época que o Grêmio tinha um Olímpico. Depois na Arena também levava o Andrei nos jogos, levava o Anderson, o Andrei no com os amigos dele de serviço, em churrasco, trabalho, sabe? O Andrei é uma criança muito sociável assim e os grupos acabavam acolhendo, gostando dele, porque ele era uma criança querida, conversava, né, não tinha problema de timidez e com a minha filha também, eles eram muito próximos de idade. Então ela dizia assim: "Ah, o Andrei rouba meus amigos". Porque daí os colegas, né, tanto menino quanto menina, os amigos da dela de aula acabavam se sendo amigo dela, dele também, né?

Então o Andrei era assim para contar um pouco como era o Andrei, a vida social dele, né? E isso tudo foi encerrado, né, Marconde, de uma maneira trágica. Quando eu puxei a porta do quarto e disse: "Ah, amanhã eu vou mexer com Andrei que ele não me deu muita atenção, eu fui dormir. A minha filha tomou banho, a gente se ajeitou e fomos deitar nós duas no outro quarto do lado." Isso é mais ou menos antes da meia-noite, né?

E 2 horas da manhã meu irmão entrou no quarto gritando: "Car, aconteceu uma tragédia". Eu não entendi nada porque eu não ouvi barulho nada. Quando a minha filha estava dormindo, nós levantamos, desculpa, nós levantamos, eu levantei rápido assim, cheguei no quarto, era uma cena de terror, Andrei deitado assim na treliche tapadinho até aqui, assim, tapado, com as mãos tapadas embaixo do cobertor, com rasgo aqui assim e já em óbito em cima da cama, né? Como eu falei, eu sou de enfermagem, então dava para ver que a cor do Andrei já era de óbito, né? E eu não entendi, gritei, a minha filha ouviu o meu grito, que era um grito de desespero também veio. Aí ela estava do meu lado, eu queria proteger que ela não visse aquela cena toda. Meu irmão falando o tempo todo, eu não sei o que aconteceu. Eu vi um, eu ouvi um barulho de bateria de celular estourando e meu celular está carregando ali. O Andrei está de castigo, né? Então ele ele diz que acordou com barulho de um som que até hoje, Marcond, eu nunca ouvi pessoalmente e até hoje também. Não encontrei alguém que tenha dito: "Ah, eu vi um bat um barulho de uma bateria estourando e eu reconheço". Então, tu identifica sons que tu já ouviu acordado. Tu não vai acordar identificar um som que tu nunca ouviu acordado só por internet. E ele falava, falava. E aí eu fui destapar o Andrei para entender o que que estava acontecendo, porque menos de duas horas eu tinha saído do quarto e meu filho estava morto. E aí ele disse: "Não, Cátia, não, não mexe no Andrei para não mexe nele para não alterar a cena do crime". Crime, Marconde, naquela hora ali não fechava com a história que eu estava vendo, vivendo ali, né? Eu estava com o meu filho morto, mas eu não via como um crime, eu não entendia como crime. Meu irmão, sim, ele sabia que tinha praticado crime. E aí quando eu estou destapando os pés do André, ele grita: "Minha arma está aqui". Eu não lembrava que tinha que a arma era do Ministério Público que emprestou pro meu irmão para trabalhar, né? Usando essa arma. E aí ele ligou pros colegas dele do Ministério Público, depois ligou para a Brigada Militar, pra polícia civil. Minha casa encheu de gente, pessoas nos acolhendo, nos dando apoio, né? E o corpo do Andrei não tinha nem saído daqui do quarto. E o meu irmão falou, nós estávamos no hall do condomínio, ele falou: "Ah, foi confirmado isso, foi um suicídio". E aquilo ali me deu muito, Marcond, porque eu pensei que momento foi que o Andrei estava com esse comportamento que eu não me dei conta. O Andrei estava leve, estava feliz, estava organizando uma festa de final de ano aqui no condomínio, estava organizando a viagem pro pra casa do meu irmão do bem, que eu chamo, né, que mora no Rio de Janeiro também. E os nomes são parecidos, então para as pessoas entenderem que são dois irmãos nessa história, é o irmão do bem e o que é réu. Então o Andrei está organizando, querendo ir pra praia, pro Rio de Janeiro, pra casa do meu irmão do bem. Então, uma criança que está com intenção de cometer suicídio no dia seguinte, ele não passa pelo irmão, porque quando o Anderson foi trabalhar, o Andrei estava vindo do mercado, que tinha ido lá buscar o guisado e os dois se passaram e se cumprimentaram assim um soquinho.

E o Andrei disse para ele: "Mãe, tu vai perder na FIFA, no jogo no videogame", né?

Então, uma criança que está planejando cometer um suicídio dali a horas e não consegue planejar isso aí com falar isso pro irmão.

Que adulto, sim, né, Marconde? A gente é adulto, a gente consegue fingir nosso nossa tristeza, nossos conflitos internos. Mas uma criança de 12 anos, não. Por mais maduro que o Andrei fosse, ele era uma criança e tinha 12 anos. E aí desde ali então meu irmão conduziu para que fosse acreditado que era um suicídio.

E outra também. E outra quando ele quando ele falou para você foi confirmado que foi suicídio, ele ainda inventou uma história mirabolante, se sai que ele te contou.

Ah sim. Ele disse: "Ah, porque quando ele falou, alguém que estava perto falou assim, ó: "Como assim o corpo do André nem saiu do quarto, como é que já recebado?" ele diz: "É, mas agora é assim, a a polícia mandou as fotos pro IGP, o IGP já devolveu o laudo, foi suicídio." Marconde, eu estava num momento e eu talvez eu por muitos por muitas vezes eu me culpo e por outro lado eu também não consigo ter eh eu não conseguia ter a clareza das coisas, dos fatos, né? Mas muita coisa ficou muito clara depois para mim. Então, na verdade ali ele já estava construindo a mentira dele, né? E essa pessoa que ouviu, né? era uma pessoa que por mais envolvimento tinha com a família, ela conseguia ter ver esses olhos e cobrar ele. E a mesma coisa, o policial militar, tanto da Brigada Militar, né, que é a polícia militar de vocês e o pessoal e os funcionários da Brigada Militar também falaram aqui no meu apartamento antes do do corpo do Andrini ser retirado. Eh, duvido esse tenente se justificar que isso aqui foi suicídio, porque essa cena não é de suicídio. Foi aí então que o, na época eu namorava um rapaz que ele ouviu essa fala e ele guardou para ele porque ele disse que nós éramos relacionamento recente, então ele ficou com receio de falar e eu não acreditar nele. E até pelo por tudo que a gente estava vivendo. E eles viram que o meu irmão era uma pessoa super acolhida na família, né? Ele é padrinho de outras sobrinhos na sociedade. Todo mundo sempre gostou muito do meu irmão. Então ele guardou essa informação para ele. E numa sessão de terapia, seis meses depois, a minha filha também lembrou dessa frase. Então foi uma frase que foi dita aqui na sala que outras pessoas também ouviram. Então foi tudo tratado ali nos primeiros tempos como um suicídio. Tanto é que o o quando as pessoas falecem, né, a os familiares, amigos querem guardar as roupas pertences para não fazer doer na pessoa enlutada, na mãe, né? E eu pedi, ninguém mexe nas roupas do Andrei, que depois eu vou decidir que eu vou fazer com as roupas do Andrei. Acabei doando pro lar Santo Antônio, que o Andrei era devoto de Santo Antônio, né? Ela tem uma tatuagem aqui em homenagem ao Andrei que eu fiz a uma tatuagem de Santo Antônio e eu disse: "Eu vou eu vou ver que que eu vou fazer com as roupas do Andrei". E meu irmão disse: "Cáia, se tu quiser me dar as cuecas do André, eu aceito, porque ela serve em mim." Naquele momento, Marconde, foi outra coisa que eu também não me dei conta que não ia servir nele, né? Andrei era uma criança, meu irmão era um adulto, mas por impulso eu dei, ele ficou com todas as cuecas do André. E aí nós fomos pro Rio de Janeiro, estava se aproximando as datas as datas de final de ano ali, as comemorações. Nós estávamos muito abalados. Nós vamos passar o não as festas de final de ano, nós fomos ser acolhidos pelo meu irmão do bem, né?

E lá na noite de Natal, a gente estava tudo, todos triste, né? Um tentando proteger o outro, tentando proteger meus filhos, meus filhos também tentando me proteger, eu tentando proteger meu irmão do bem, minha cunhada do bem, né? E a gente tentando fazer um Natal diferente sem o Andrei. Era muito difícil, era o primeiro Natal sem o Andrei. E o Andrei era uma criança que gostava muito de Natal. E aí quando até nós conversamos, eu disse: "Não, vamos fazer uma ceia, uma coisa muito simples aqui em homenagem ao Andrei mesmo, né?"

E aí o meu irmão, o réu, morava numa outra, num outro bairro lá no Rio de Janeiro. Ele fez questão de estar com a gente, que, né, que queria compartilhar esse momento com a gente. Só que ele e a esposa dele, a família dele estavam num outro clima. Nós estávamos de luto, nós ria chorando, né? A gente não conseguia nem comer direito, nós todos muito tristes. E eles não estavam alegres. Meu irmão disse: "Ai, vamos fazer um amigo secreto porque agora eu vou morar em Porto Alegre, eu preciso de liquidificador, eu preciso de imóveis, eu preciso". Eu falei: "Não, nós não vamos fazer amigo secreto, nós vamos fazer uma janta, nós vamos fazer uma coisa muito íntima aqui até em homenagem ao Andrei. Respeita o André. Não tem um clima para fazer amigo secreto que seja só com as crianças?" Não, nós não temos esse clima. E aí na noite nós jantamos ali, né? E um pouco antes da meia-noite marcamos na sala e eu estiquei as mãos e falei assim: "Eu quero pedir uma oração pro Andrei. Vamos dar as mãos e pedir". Eu com muita força assim, Marcond, porque minha vontade era de chorar, né, de muita tristeza, mas eu pensei, eu preciso ser forte pelo Anderson, pela Andressa e pelo meu irmão do bem, pela minha cunhada e pelas minhas afilhadas, porque o meu irmão é réu e a família dele estava no outro clima. Eles queriam botar música, eles queriam dançar.

Festa em festa. Tava em festa.

Em festa. Ele estava numa festa para ele era uma festa. E aí nós damos as mãos assim e quando eu olhei para minha cunhada e pro meu irmão, eles se olharam entre eles com olhar de risada, de deboche, aquilo ali ficou estranho, né, Mar?

Desenhando o que eu tinha pedido. Eu não estava pedindo uma coisa nada de anormal. Eu estava pedindo uma oração pro meu filho que há menos de um mês tinha falecido. E na tese do meu irmão era pela arma do meu irmão que ele morreu, né?

Sim. E ele não, eles em mim de qualquer responsabilidade vindo. E aí, foi o último dia que eu vi ele, né? Depois ele queria, a gente se aproximou o ano novo, né? Ele queria fazer uma festa, não vamos pro E aí já daí nós já nos tratávamos só por WhatsApp, né? E daí ele não voltou na casa desse irmão que eu estava hospedado.

E ele falou: "Vamos, vamos pro reveillon, a gente leva cooler de isopor e levamos espumante, a gente vai cedo, passa o dia lá, é bonito os focos, não sei." Nós não estávamos em clima de reveillon, nós não tínhamos o que comemorar, Marcond, nós estávamos sem o Andrei e ele estava em clima de comemoração e eu neguei, eu falei: "Não, nós não vamos revelar, nós vamos passar meia-noite naí passamos a meia-noite na casa do meu irmão do bem, né? Muito triste ali porque era um ano que era para ser bom e estava encerrando ali lá sem o Andrei.

No outro dia eu e o Anderson voltamos para Porto Alegre. A Andressa não conseguiu, ela ficou um bom período sem conseguir entrar no nosso apartamento, né, de volta, porque Hélio e o André eram muito próximos, né? Então o sofrimento dela foi muito grande ainda.

É, com certeza. Meus filhos também sofrem porque eles perderam o irmão e perderam boa parte da mãe deles, né? Que eu me dedico muito essa luta por justiça pelo Andrei e uma mãe lutada nunca mais vai ser uma mesma mãe.

É uma mãe lutada é muito diferente, não pode.

E aí nós voltamos a Porto Alegre e o Anderson e na manhã seguinte eu e esse rapaz que nós namorávamos, ele me convidou pra gente comer um lanche e nós fomos. E durante o almoço ali, o que a gente comia, eu falei, eu fui contando as histórias do Andrei, né, porque ele convivia, gostava do Andrei, ele ensinava o Andrei. Andrei estava em recuperação, né, na ruim nas matérias. Na noite anterior ele ensinou matemática, português, né? Então ele ajudou muito o Andrei na nas tarefas, né? E nós contamos as purezas do Andrei, as falas ali nos emocionados, tanto eu quanto ele. E aí um determinado momento ele olhou para mim e perguntou: "Cátia, tu tu acredita que o Andrei tenha cometido suicídio?" Marconde? Eu tenho certeza. Eu fecho os olhos, eu lembro dessa frase dele. Foi bem assim que ele me perguntou. Cátia, tu acredita que o Andrei cometeu suicídio? Nós nem tínhamos citado o nome do meu irmão. E parece assim, Marconde, que abriu uma cortina quando ele me fez essa pergunta. E a cena que me veio na cabeça quando ele me fez essa pergunta foi o meu irmão e a minha cunhada rindo. E aí eu comecei a juntar, né, os momentos dele pedindo as cuecas, outros comportamentos, né, porque como o apartamento estava muito diferente. Quando o apartamento aqui, depois quando Andrei faleceu, nós tivemos que pintar o quarto, limpar a casa, porque estava muito sujo, veio muita gente para cá. Nós ficamos hospedados na casa de uma amiga nossa e ele e essa amiga eles pareciam que estavam numa festa também, botavam música, dançavam, cantavam, queriam fazer janta. Nós não estávamos nesse clima. Isso também me incomodou. Eu disse: "Não, vou voltar para meu apartamento, né? Já estava limpo, voltamos e o meu irmão voltou junto com a gente para cá". E nesse período que o que meu irmão ficou aqui em casa, até então nós estávamos tratando um, nem eu não digo com suicídio, eu não sabia que que tinha acontecido, Marcond, eu sabia que meu filho tinha morrido. E pela manhã, quando meu irmão saía pro quartel trabalhar no Ministério Público, ficava um cheiro de gás aqui na minha casa e nós procurávamos, procurávamos e não tinha esse cheiro de gás. Mais tarde, um técnico que que arruma os ar condicionado do condomínio, os gás, ele abriu e o lacre do gás aqui de casa tinha sido mexido mecanicamente. Então, na verdade, meu irmão também, de certa forma mexeu no gás aqui de casa. A intenção eu não posso afirmar porque senão pouco eu sou processada, mas o gás foi mexido.

Marc.

Lembro bem disso.

Lembra, Marc?

É, nós comentamos, assim como eu lembro, assim como eu lembro que no próximo ao Reveillon ele botou música e ficou dançando enquanto ficou vocês chocados olhando.

Exato. Ele botou música, ele queria dançar e ele dizia: "Olha aqui nossas músicas das nossas épocas, sabe, Marcão, nós estamos tudo luto de dor e ele estava num outro clima, como diz a gurizada, outra vibe, sabe? Estava muito lá em cima e nós estávamos tudo aqui para baixo muito triste, né? A gente porque o André era uma criança muito alegre, ele gostava dessas datas comemorativas, ele era família, ele gostava de ver as pessoas juntas, né? E meu irmão no outro no outro clima. Aí quando o Luciano me perguntou isso, Marconde, eu disse: "Não, foi meu irmão". E eu me abalei e pensei: "Quem é que vai acreditar nisso? Quem é que vai acreditar em mim, né? Eu sou uma auxiliar de enfermagem. Meu irmão é um tenente da Brigada Militar, trabalhou a vida toda na parte da inteligência, uma pessoa benquista na sociedade, uma pessoa de referência na profissão dele. Mas aí, Marconde, eu lembrei, eu sou a mãe, eu sou mãe. Esse título de mãe nos dá muito poder, muito poder, Marconde. E tudo que eu fiz foi tudo por amor ao Andrei. Esse amor, essa determinação, essa saudade do Andrei. Às vezes nós íamos lá no IGP atrás das perícias, Luciano me ligava, Cátia, vamos lá hoje ver se saiu o resultado da perícia. Muitas vezes eu estava chorando na cama e eu dizia, eu guardava meu choro, minha tristeza no estojo e a gente ia. E lá por muito tempo eles nos negaram a assistência, né? Chegou uma época que a delegada Elisa não quis mais nos atender e nós começamos a ser atendido pelo delegado Grilo. E uma das perguntas que foi feita a ela, porque que ela não pediu o exame de conjunção carnal? Eu nem sabia que existia esse exame Marcondo. E ela alega não pediu porque meu irmão era o padrinho do Andrei, ele era da família, era um tenente da brigada militar e que nós na família eu não havia pedido esse exame, eu nem sabia que existia esse exame, Marc.

Fui sabendo só depois da morte.

Não, e também porque como deu ali que ele teoricamente teria tirado a vida, nem o exame de necropsia foi realizado, foi direto.

Não, foi feito, Marcone. Foi feito e foi tudo falho. Foi tudo falho, né? O laudo é inconclusivo para suicídio, tira acidental e não descartam a possibilidade de participação de terceiro. Então o IGP se eximiu de qualquer responsabilidade. Foi encontrado um bilhete. Eu vou fazer uma linha do tempo aqui para ti e pro pessoal que está assistindo entender. Na segunda-feira, né, que aconteceu a tragédia na Chapecoense, o Andrei estava estudando então com o Luciano para melhorar as notas dele e eles pediram um caderno, né, e eu tinha um caderno pequenininho assim, ó. E eu entreguei para eles o caderno e aí eles escreveram ali, me devolveram o caderno, eu levei de volta pro meu quarto. Então esse caderno só esteve junto com o Andrei de noite e o Andrei estava de bermuda a segunda-feira de noite. O Andrei segunda-feira foi pra escola de calça jeans. Ele chegou da escola, tomou banho e botou uma bermuda. Então daí foi nessa noite, na segunda-feira, que o Luciano ensinou ele matéria, matemática, português, várias matérias ali, né? Tá. E aí o Andrei estava de bermuda, dormiu na segunda para terça, que na segunda ele fez uma massa com molho branco de janta para nós. Na segunda, na terça-feira ele foi pra escola com uma calça preta. Chegou da escola, né? Nós almoçamos, fomos dormir um soninho. Ele botou uma bermuda e tom e quando eu fui, enquanto eu fui pro aniversário, ele tomou banho e botou outra bermuda. Eu estava dormindo já com outra bermuda quando eu cheguei pro aniversário. E esse bilhete Marconde que eu achei, estava no bolso dessa calça que o Andrei usou lá na segunda-feira, o bolso esquerdo do Andrei. E esse bilhete estava escrito assim, ó:

"Mãe, te amo, vem enterre com a camisa do Grêmio." E aí está AND riscada, assim como tu quando tu quer apagar um nome que tu escreveu errada e do lado escrito Andrei. Nós levamos esse bilhete, entregamos os cadernos do Andrei e a perícia não consegue concluir que essa letra seja do Andrei. Nem conclui, nem descarta que seja do André. Então é uma outra perícia inconclusiva.

Conclusiva. Inconclusiva. Não foi, por exemplo, nas mãos do Andrei, não foi periciada para ver se tinha algum resíduo. Não foi periciada as mãos do Andrei. Inclusive nas fotos da perícia do IGP não aparece as mãos do Andrei. Na foto do IGP a pistola está em cima da cabeça do Andrei, em cima do travesseiro. E na hora que aconteceu a tragédia, que nós que meu irmão gritou e nós entramos no quarto, o Andrei segurava o cano com, o cano da pistola. A pistola é assim, né? Aqui é o cabo e aqui é o cano. Sa bala projeto, como fala, né? O Andrei segurava o cano e eu falei pro policial da PC a camisa preta, né? Que o Andre segurava mãos no cano.

As duas mãos no cano, assim como tu quando tu reza. Eu ainda disse para ele, ele deve lembrar dessa minha fala. Eu disse, o meu filho segurava o cano como se estivesse rezando. Então, Marcondinha, foram muitas falhas, muitas falhas grotescas. Hoje eu como mãe do Andrei, uma mãe que luta quase 9 anos, eu consegui perceber e os profissionais estudam para isso, né? Estudam para fazer perícia. Por mais que te fosse uma cena chocante, uma criança em óbito, eles são profissionais, eles têm que ter o controle emocional. Não foi um profissional, foram vários profissionais, tanto da Brigada Militar quanto a polícia civil que viram a cena e não conseguiram ver suicídio. Eles verbalizaram, mas não no depoimento deles eles não falaram isso, né? Então, o fato do meu irmão ser um tenente na brigada, porque quando chegou a brigada militar, meu irmão deu a carteira funcional e essa carteira conduziu todo a cena para que fosse induzido a acreditar que foi um suicídio.

Com certeza.

Mas o Andrei, o Andrei me contaria, Marconde, o Andrei é uma criança comunicativa, expressiva, opinião forte, personalidade. Ele não ia se deixar ser chantageado pelo meu irmão, seja por dinheiro, por ameaças. Então ele conseguiu conter o Andrei até a hora que eu cheguei, mas eu acho que o Andrei tentou descer do dia seguinte falar.

Ele me contaria.

E tem outros pontos, tem outros pontos, Ktia. Na época que nós falamos sobre caso, primeira entrevista, eu até falei com um perito sobre a posição em que ele segurava o cano e o perito falou: "Olha, tem que tem que tem a trava de segurança que ele teria que tirar, tem a a arma deveria estar em certa posição para ele acertar o

gatilho com a mão naquela posição, seria muito difícil. Ele teria que botar os dedos mindinhos para dentro. Não teria força para fazer aquele disparo. Eh, a posição que ele estava ali, ele teria que estar olhando pro cano com o pescoço. Não dava, não dava. Falei assim: "Olha, é uma cena quase, quase impossível para uma criança tirar a própria vida."

E até por conta do da posição que o projeto teve na saída também, a posição de dois paros, a doutora da Dra. Lúcia Calegari fala sobre isso, ela viu ali, viu? Erro. Ela acredita muito que a bala entrou pela frente. Aliás, desculpa, a bala entrou por trás, porque atrás está um furinho bem pequenininho e aqui na testa do Andrei, um rasgo enorme assim, ó.

Sim, eu lembro de tudo isso. Eh, para vocês entenderem agora o que nós estamos falando aqui com a Cátia, é para todos lembrarem da história do Andi. Lógico que hoje não é uma entrevista para contar toda a história, porque não dá, são horas, mas é um convite, um convite para que todas as pessoas, a partir de hoje, que assistam essa entrevista, vejam aqui no canal dia 27 e 28 esse julgamento. E no dia 28, com toda, com todo o amor de Deus possível e o sentimento de justiça, nós aqui vamos, eh, comemorar essa justiça. Não é comemorar a prisão de uma pessoa, é comemorar justiça sendo feita.

A vida do Andrei. A vida. Exatamente. E depois disso, aí sim, nós teremos aqui um convite. A Dra. Lúcia Cadegari, minha grande amiga, promotora, que foi um anjo nessa causa. E eu quero trazê-la aqui para falar sobre isso, para agradecê-la pessoalmente. E a Cátia, aí sim, nós vamos contar toda essa história, todos os pontos, pormenores. Mas hoje, o que nós estamos fazendo aqui é um convite. Um convite segunda e terça-feira, 27, 28. Fiquem conosco, acompanhem esse caso, façam oração, peçam justiça por Andrei. Eh, o mínimo que nós pedimos para confirmar nossa corrente do bem, não é, Cátia?

Verdade, Marconde. E quero aproveitar a oportunidade aqui de agradecer. Foi a primeira pessoa do YouTube que me deu espaço para contar o caso do Andrei Gouard. E então eu gostaria muito, como tu mesmo diz, é comemorar a vida do Andrei, comemorar a justiça pelo Andrei. É uma comemoração sem o nosso troféu, né? Não vou ter o Andrei de volta. Mas a sensação de justiça, Marconde, é confortante para o meu coração, o coração dos irmãos do Andrei, para a família, para os amigos, para as pessoas que acolheram essa minha luta. Então, ah, a luta não é a luta. A pessoa mais interessada nessa justiça sou eu, que sou a mãe do Andrei.

Mas essa é uma luta que tem muita gente, Marcão, muita gente. Eu tô usando um termo assim, ó. É como um tabuleiro de quebra-cabeça, né? Cada pessoa é uma peça muito importante nisso e tu tem um espaço muito importante, Marconte. Tu foi a primeira pessoa a me dar ouvidos, né? Porque muitas vezes a gente foi julgada. Nós, mães lutadoras, nós somos julgadas. Como o próprio delegado um dia disse para mim: "Se eu fosse tu, parava de investigar." Ele fez assim com a mão para mim. "Pois tu parava de investigar, porque senão tu vai ser acusada de ter matado teu filho." Eu disse: "Não mesmo, doutor. Eu não matei meu filho, eu vou provar que foi meu irmão." Então, em 2020, meu irmão se tornou réu pelo assassinato e aí nós tínhamos que correr atrás mais de provas. Em 2021, apareceram mais. Em 2021, apareceram duas pessoas que foram abusadas pelo meu irmão e prestaram depoimento, tal. Foi aceito no nosso. Então aí, em 2021, meu irmão se tornou réu pelo estupro. Então, eh, nisso mostra o quanto a união, o quanto é importante um ajudar o outro, né? E esse espaço que tu me dá no teu canal é muito bom, Marconde, é muito acolhedor, muito importante para que outras Cátias, outros Andreis também se encorajem, vão à luta, que acreditem no seu filho, né?

Eu não tive oportunidade de conversar com o Andrei. O Andrei não teve o tempo de me contar. E mesmo sem ele me contar, eu fiz toda essa luta porque eu conheço meu filho, ele ia me contar. Então, que nós mães escutemos nossos filhos, né? Que os filhos, se o filho não tem coragem para contar pra mãe, pro pai, né, às vezes por vergonha, por medo, conte para um amiguinho, conte para a professora, conte para alguém de sua confiança. Eh, não guarde para si, porque a criança abusada, ela é a maior vítima da história e o abusador torna ela uma presa, chantageando, ameaçando. E tem a coragem. É difícil, é difícil, Marcond. Porque os "nãos" que eu levei foram muitos, muitos, muitos. Mas eu pensava: "Isso não vai me fortalecer para seguir adiante, né?" E um dos "nãos" que eu recebi hoje, que foi ruim, né, é que meu irmão vai fazer o júri dele online, ele não vai precisar estar presente aqui em Porto Alegre.

Não tem problema. É até melhor, sabia, C? É até melhor. Eu acho que esse encontro não faria bem para você. É até melhor, sinceramente. Sinceramente, eu acho até melhor. Acho que Deus conduziu tudo até agora. Nós vamos continuar acreditando em Deus.

Exato. Para vocês, eu vou, no próximo, após o julgamento, nós vamos contar como é que a Cátia chegou no anjo, Dra. Dúcia Calegária, como é que foi essa batalha? Como é que foi a força de vocês no pedido de justiça na época lá em 2020, 2019? Não vou lembrar aqui se foi 2019, 2020 quando começamos a falar.

Foi 2020, né? Visto, não foi? Nós começamos a falar e trazer aqui uma luz. E eu lembro, eu lembro que ninguém conhecia o Andrei, ninguém conhecia aqui na internet, ninguém. Nós falamos, foi na Rede Rio TV, eu e a Fernanda, e que começamos a falar. Foi uma, duas. Conversamos com a Dra. Lu, conversamos com todos. Conversou com o Luciano, com a promotora e com o Dr. Marcos. Exato. É, tu deu oportunidade para nós todos contar a história do Andrei. Então, tu tem um lugar muito reservado aqui no nosso coração, Marconte.

Eu queria, eu queria poder falar assim: "Olha, no final a justiça vai ser feita e o Andrei vai voltar." Acho que não posso falar isso. Mas a justiça nós vamos conseguir, se Deus quiser. E Deus é bom. O Andrei dizia: "Mãe, Deus é bom, né, mãe?" É, filho, Deus é bom. Então, eu nunca briguei com Deus, mas agradeço a Deus todos os dias por ter sido escolhida para ser a mãe do Andrei e as pessoas de bem que ele colocou na minha vida.

Sim. E o Andrei hoje, ele está eternizado, não só no meu canal, não só aqui na internet, mas em muitos locais. E vocês vão ter sempre a oportunidade de ver a foto dele que está aqui, que está ali atrás da Cátia, que está aqui através dessa foto que aparece aqui também, ó. Hum. Sorriso da mãe. Olha, é difícil, sabe, Marc? Porque cada dia que passa, tanto a saudade quanto o amor aumentam muito, né? E não ter o Andrei nessa luta e, ao mesmo tempo, saber que essa luta é por ele, né? Pelo que foi feito com ele, me motiva, né? Eu penso, o amor me motivou, né? A minha estrutura, minha base é um amor ao Andrei. Eu tenho mais meus outros dois filhos também, que são maravilhosos, estão me apoiando o tempo todo, né? Amigos, amigas, colegas de trabalho. Eh, e chegar nesse momento, Marconde, me deixa muito frágil, porque é a ansiedade da resposta, né, dos jurados, o que eles vão responder, o que eles vão ver. E, ao mesmo tempo, como tu falou, é uma, vai ser uma grande conquista, assim como nós tivemos já grandes conquistas nessa luta, mas não vamos ter o Andrei que volta, né? E em nenhum momento eu imaginei: "Ah, eu vou fazer tudo isso para ter o Andrei." Eu sabia que não ia ter, mas eu sempre me senti no dever de fazer justiça.

De pedir perdão. É uma maneira de eu pedir perdão pro Andrei. Não, você não precisa pedir perdão para ele. Você não precisa pedir perdão para ele. Você foi a melhor mãe do mundo. Você foi a melhor mãe do mundo. Você não carrega esse peso. Esse peso não é seu. Você não tem que pedir perdão para ele. Você foi a melhor mãe do mundo. Se o Andrei pudesse falar agora, ele ia te agradecer pela mãe que teve. Não faça isso. Esse peso não é seu. Vocês tiveram um encontro que Deus permitiu aqui na terra de 12 anos. Foram 12 anos que, com toda certeza, de felicidade para ele e para você. Então não faça isso. Não peça perdão. Pelo contrário, agradeça o tempo que ele passou aqui com você, entendeu?

É, não posso discutir mesmo. Eu agradeço todos os dias ter sido escolhida, né, Marc? Porque o Andrei, uma criança linda, um filho maravilhoso, querido, amável. Foi, foi sempre muito prazeroso ser mãe dele, amamentar ele, né, no início do colégio, levar nas escolinhas, apresentação de final de ano, trabalhinho, né? E o Andrei fez muita, ele participava muito da minha vida. Eu ia no mercado, por exemplo, e aí a minha filha não gostava muito de ir junto e aí ele, não, ele cutucava ela e falou: "Não, vamos com a mãe, vamos com a mãe." Então ele estava sempre muito ativo assim na minha vida, né? E de uma hora para outra, eu deixei de ter o Andrei. E eu tenho essa luta já há quase 9 anos. E tudo é pelo amor ao Andrei. A luta vai encerrar, mas o meu amor vai continuar para ele enquanto eu viver. Essa luta vai continuar existindo. A luta, desculpa, esse amor, esse amor, até a gente se reencontrar em outro lugar e eu poder abraçar ele.

Cátia, como eu queria estar aí para te dar um abraço, minha amiga. Como eu queria estar aí à distância, mas como eu queria te dar um abraço. E não sou só eu, todo mundo que está aqui. Cátia, que hora vai começar na segunda-feira?

Estava marcado para as 9:30. Então, família, segunda, eu vou te passar o link. Pode, pode falar. Eu vou te passar o link do tribunal que vai passar ao vivo, né, no YouTube. Eu vou passar aqui, vou transmitir aqui com toda certeza e vou acompanhar até o final, dia 27, dia 28. E vamos estar aqui firme e forte cobrindo. E mais uma vez, Marco, muito obrigada. Que Deus proteja a ti, a tua família, porque é o que eu posso pedir. Eu não consigo mais dizer "obrigado", porque "obrigado" fica tão pequeno diante de toda ajuda que tu deu, que as pessoas me dão. Então, eu acho que a maneira de eu agradecer é pedir que Deus proteja todas as pessoas que estão comigo nessa luta. Marconde, não são poucas. Tem pessoas aqui, às vezes tem pessoas até do condomínio aqui onde eu moro que conhecia, já conhecia a história e não sabia que a gente morava aqui, pessoas da minha cidade, do meu trabalho, fora do Brasil, né? Então, o Andrei tem uma proporção enorme e isso mostra a grandeza dele, né? Carisma que ele sempre teve aqui.

Certeza. Cátia, minha amiga, nos encontramos então segunda, dia 27, 9:30 da manhã. Tá bom. Se Deus quiser. Beijo, Marconde. Boa noite para todos vocês e obrigado. Tchau, família. Nos vemos no caso Andrei, segunda-feira. Não esqueçam. Eu e o Andrei aqui de Porto Alegre agradecemos a todos vocês o carinho e por nos ouvirem. Tchau, família, até daqui a pouco.

[Música]