Transcription
Padre é uma coisa. Padre é aquele homem que vai lá, estuda teologia, filosofia, e ele se forma padre. E ele pode atuar em paróquias. Então, ele não vive em comunidade. Se ele for Diocesano, ele só precisa responder pro bispo e ele fica numa igreja cuidando das pessoas, dos paroquianos.
Já o religioso, que é o que eu era, freira, que tem Frei e que também pode ser padre, você vive numa comunidade. Por exemplo, Franciscanos, Salesianos, Marcelinas, tudo isso são congregações que têm um estilo de vida. Então, essas congregações fazem voto de pobreza, castidade e obediência. O padre não faz voto, por exemplo, de pobreza. Ele não tem que ser pobre, né? A obediência dele é ao Bispo, mas não é igual à da vida religiosa.
Então, assim, dentro da igreja existem várias hierarquias e as pessoas, elas não entendem. Elas misturam. É, as pessoas misturam um pouco disso, tipo um exército, né? Você tem um exército e as pessoas... Eu realmente... Sociedade alternativa é uma sociedade alternativa e eu não entendo isso na minha cabeça.
O padre já tinha o celibato? Não. Ele, ele tem que viver o celibato, mas isso aí não é, por exemplo, uma ordem de Jesus Cristo. Na Bíblia não tá escrito que o padre tem que ser celibatário, porque até Pedro, ele era casado. Ele é o primeiro Papa, ele é o Papa, né? O primeiro Papa da igreja, e ele era casado. Porque lá no evangelho tá escrito que Pedro curou a sogra de... É, Jesus curou a sogra de Pedro. Então, Pedro, ele era casado. E os primeiros Papas, padres, se casavam. Depois veio essa questão. Foi. E aí eles instituíram o celibato.
Senhora de seu, senhores. Esse é um dos achismos mais esperados de todos os tempos. Eu vou te falar, por quê? Eu sempre quis trazer uma freira para cá. O achismos, quando ele começou, começou a bombar, foi quando eu trouxe o Padre Juarez. Eu trouxe o Padre Juarez para cá e fiz várias perguntas sobre como é que funciona, tal. E eu tô há 4 anos querendo trazer uma freira. E aí Deus me trouxe algo melhor do que uma freira. Deus me trouxe uma ex-freira. Ou seja, uma pessoa que já foi freira e pode falar, falar sobre tudo. Porque o Padre Joarez, ele não podia falar sobre tudo. Diz a lenda que é uma ex-mulher de Deus teve um divórcio. Porque a freira é a mulher de Deus. Mulher de Deus? Será?
Estamos aqui com a Bruna Miranda, mais uma vez. Agradecer a sua presença aqui. Você foi freira durante 18 anos? Não, não. Você entrou 9 anos como freira. É que você entrou aos 18 anos, né? Na igreja. Antes. Todas as perguntas mais estúpidas que você pode imaginar para uma freira, você vai ver aqui. Mas preciso agradecer a Insider, que faz esse projeto acontecer. Ela já largou a batina. Eu chamo. Como é que chama? Hábito. O hábito. Hábito. Ah, é verdade. Mudança de Hábito. Vamos lembrar de da Rup Godber. Ela já tirou o arm... Batina. O cara é muito burro, né? Você vê a galera já falou. Vou embora. Tá se julgando muito, muito, né? Ela já tirou o hábito. Então, ela pode usar as roupas da Insider, que é roupa com tecnologia, é roupa do futuro. Você tira da gaveta, põe no corpo, ela desamassa, ela não deixa cheiro. Tem a linha feminina que a Bruna vai receber aqui. Tem a linha masculina. Insider, que vai do PP ao XXGG. Certo, Marcão? Tem 12% de desconto com meu cupom, achismos. Eu faço questão que você entre agora no site e conheça a linha da Insider, que patrocina esse projeto. Tava fora aqui um tempo, mas, né, Maurício, 12. Teu C mudou. Agora é achismos. Ah, é mesmo? É achismos. Vai para tudo. Que beleza. Tá aqui, ó. Vou deixar aqui, ó. O seu, o seu presentinho. Depois você utiliza. Vamos lá, Dona Bruna. Vamos falar. Você tá com quantos anos agora? Tô com 37. 37. A gente pode falar de assuntos mundanos? Como é que fica essa coisa? Pode falar de tudo. De tudo. Cuid. Primeira pergunta, então. Então, vou começar a perguntar lá. Eu vou perguntar. Ai, meu Deus. Vou começar nessa para vocês ver o assunto. Não, porque assim, eu acho que a grande questão quando a pessoa vira religioso, assim, religioso não, quando trabalha como padre, como freira, tal, tem a coisa do celibato. Sim. É a grande... Não é? É o que me pega, pô. Por isso que eu não sou padre. Eu seria, eu seria de Deus, mas tem uma coisa que Deus falou: "Não quero que você faça". Enquanto profissional, certo? Perfeito. É, tem a sua, enquanto profissional, não dá. Profissionalismo, né? Mas aí você largou. Sim. Você demorou muito tempo para, digamos, colocar isso na sua cabeça? Eu posso namorar ou não posso namorar? Ou você ainda vive essa vida? Ou tem nada a ver com a vida que você levava? Não, porque na verdade, quando você entra no convento, é que você faz a opção por viver uma vida de celibato, que chama voto de castidade, né? No convento, você faz três votos: de pobreza, castidade, obediência. Vamos começar por aí. Isso. Uma. Vamos bater um. Vamos bater um. Ser pobre, obediente e casto. Pera aí, agora vai ficar legal. Oi, pessoal que chegou agora. A gente vai interromper e a gente vai ser insuportável, mas a gente quer fazer esse projeto com as perguntas e as curiosidades. Então, antes de chegar na pergunta do sexo, que a galera tá curiosa, eu não quero saber dessa resposta. Eu quero saber dos três votos que você tem. Então, o primeiro é de pobreza. É que, que é o voto de pobreza? Voto de pobreza, que você não vai ter nada, eh, material. Você não vai ter nada no seu nome. Tudo que você ganhar de dinheiro, por exemplo, você trabalha dentro da instituição e tudo é para a instituição. Se você tiver uma herança, sua família deixou uma herança para você, você tem que fazer opção de deixar para a instituição. Ou se você quiser deixar para a sua família, mas você mesmo ter algo seu pessoal, é, você não pode nem... A Paul Saí. Aí é duro. Isso eu não sabia também. Não. Pera aí, pera aí. Então, caramba. Pera aí. É difícil ter rico, então, na igreja? É, na verdade, é uma coisa muito contraditória. Porque fala voto de pobreza, mas na verdade, não se vive voto de pobreza, né? É uma ilusão sobre o que se é ser pobre, né? É uma mentira existencial. Eu vejo como a mentira existencial, porque os conventos, eles são lugares muito, eh, a maioria dos conventos são casas enormes. Eh, tem uma vida boa. O que eu estava, a gente transitava entre ambientes caríssimos de São Paulo, né? Morávamos, por exemplo, na Zona Sul, no Brooklin, perto do Ibirapuera. A gente era vizinho da Suzana Ristoff. Então, a gente morava no mesmo bairro que ela. Porque energia boa. É. Ao mesmo tempo, a gente, eh, estava vivendo uma vida tentando viver uma vida mais simples, simples dentro da instituição, né? Tipo, a gente dormia em quarto que tinha seis camas. Então, isso para eles era considerado uma vida pobre. Não, tudo bem. Essa questão, eu entendo. Mas a questão material também de você não poder ter nada no seu nome. Mas é claro que a instituição tem, tipo, todo a casa, carro, tudo que você tem de valor pertence à instituição, não pertence ao religioso em si. Então, isso se diz ser voto de pobreza. Entendi. Tá. Mas a, a minha questão que eu falei do rico é que assim, pelo que você tá me falando, o cara que é rico e o pai dele tem uma herança, caso ele morra, tal, esse cara ele não vai ficar com essa herança? Não. Ele vai ter que fazer uma opção. Aí ele vai ter que ir no cartório, registrar isso em documento, se ele vai querer que essa herança fique para a instituição. Porque é como um casamento. Quando você casa com alguém, se, se você recebe uma herança, você tem que dividir, né? Se você casa em comunhão de bens. Na vida religiosa é a mesma coisa. Ou você faz a opção de deixar com a sua família. Não, eu não vou. Ou dar metade. Que nem no convento, tive uma irmã que ela deu metade da herança dela pro convento e metade pra família dela, né? Isso é maravilhoso. Se eu sou da igreja, eu já vou... Família, converte freira. Isso aí, para te instituir na Dromedário, sabe? É você aqui é voto de pobreza. Maluco. Vou lá em Alfaville, mano. Vou lá em Al... Salá. É meu. Em Maldivas. Vamos trazer freira. Não. E um dos motivos, por exemplo, de existir o celibato dos padres é esse. Porque antigamente os padres podiam se casar. Só que as famílias, quando o padre morria, queriam parte da herança da igreja, e a igreja não queria dar essa parte. Então, se instituiu celibato dos padres, porque os padres não fazem, fazem voto de castidade que nem os religiosos. Eles fazem de celibato. Não vão me casar, né? Pera aí, pera aí. Daí ele, ele pode, pela lei da parada, sair na noite, pegar um, pegar um pessoal, mas não pode casar. Isso. Ele não pode. Mas infelizmente, agora tá muito legal. Isso aqui vou rar o roteiro. M. Não, porque porque as pessoas não sabem que existe essa diferença. O padre é uma coisa. Padre é aquele homem que vai lá, estuda teologia, filosofia, e ele se forma padre. E ele pode atuar em paróquias. Então, ele não vive em comunidade. Se ele for Diocesano, ele só precisa responder pro bispo e ele fica numa igreja cuidando das pessoas, dos paroquianos. Já o religioso, que é o que eu era, freira, que tem Frei e que também pode ser padre, você vive numa comunidade. Por exemplo, Franciscanos, Salesianos, Marcelinas, tudo isso são congregações que têm um estilo de vida. Então, essas congregações fazem voto de pobreza, castidade e obediência. O padre não faz voto, por exemplo, de pobreza. Ele não tem que ser pobre, né? A obediência dele é ao Bispo, mas não é igual à da vida religiosa. Então, assim, dentro da igreja existem várias hierarquias e as pessoas, elas não entendem. Elas misturam. É, as pessoas misturam um pouco disso, tipo um exército, né? Você tem tipo um exército e as pessoas... Eu Real Sociedade Alternativa é uma sociedade alternativa e eu não entendo isso na minha cabeça. O padre já tinha o celibato? Não. Ele, ele tem que viver o celibato, mas isso aí não é, por exemplo, uma ordem de Jesus Cristo. Na Bíblia não tá escrito que o padre tem que ser celibatário, porque até Pedro, ele era casado. Ele é o primeiro Papa, ele é o Papa, né? O primeiro Papa da igreja, e ele era casado. Porque lá no evangelho tá escrito que Pedro curou a sogra de... É, Jesus curou a sogra de Pedro. Então, Pedro, ele era casado. E os primeiros Papas, padres, se casavam. Depois veio essa questão. Foi. E aí eles instituíram o celibato. E aí eles falam que é porque Jesus era celibatário, né? Então, eles dizem sobre isso. Mas na verdade, não é. Foi porque depois começou a ter essa questão das terras, a divisão de de terras com as famílias. Tem um, uma série que eu estava assistindo na Netflix, que é do Papa. Eu não me lembro se é Papa Gregório, mas ele era casado e aí ele, ele tinha a família dele, e a família dele lutava por querer os bens da igreja. Isso é real. Depois eu fui pesquisar se realmente é porque ele era considerado os bens da igreja. A igreja acumulava bens. Dele, se é dele, é da igreja. A família queria os bens dele. No... Isso porque ele pertencia à igreja. Por exemplo, ele, ele tinha uma terra em tal lugar, ele ia, eh, conquistando esses espaços. Então, Man... Desculpe. Continua. Continua. Continua. Ele ia conquistando esses espaços e aí, quando ele, por exemplo, ele morreu, a fam achava que tinha o direito de ter essa herança. Mas não é mais fácil transformar, tipo, ass, a igreja é uma profissão, tipo, vinho pra cá. Então, o que é da profissão, o que é meu é meu e nada tem a ver com a profissão. Não tem. Não tem essa. Tipo, ganhei um iPhone. O iPhone agora é da igreja. O iPhone é meu. Não seria mais fácil isso daí? Seria mais fácil. Mas na verdade, é uma, um grupo de poder. A história da igreja, ela é construída em cima de tudo isso. Porque antigamente, os primeiros cristãos, porque as pessoas confundem cristianismo com catolicismo. Então, já tem que separar isso. Cristianismo era os primeiros cristãos. Depois que Jesus morreu e eles começaram a seguir os passos de Jesus Cristo. No século IV, quando o Império Romano aceitou a religião dos cristãos como oficialmente a religião do Império Romano, aí foi surgindo essa ideia dessa igreja instituída do catolicismo, que é uma mistura do Império Romano com o cristianismo. E a partir disso, vai, vai se tendo toda uma construção dos bens daquilo. Antigamente, os primeiros cristãos, eles eram pobres. Tá lá em Atos dos Apóstolos, eles dividiam tudo. Era tudo era em comum entre vós, né? Falam tanto de comunismo a igreja, né? O comunista, mas os primeiros comunistas eram os primeiros cristãos. Inclusive, Jesus se volta é o primeiro a tomar pedrada. [ __ ] Jesus era... Jesus era comunista pra caramba. Jesus cabelão. Opa. [ __ ] cheio de ideia maluca. Ô, só tem essa túnica aqui. Jesus ia ser maltratado hoje em dia pelos... Com certeza. Absolutamente. Tá vendo? Eu sempre falei isso. Aí eu acho também uma coisa. Eu, eu sempre confundo, mas me corrija se eu estiver errado. Uma coisa é igreja, que que é o homem que construiu. Outra coisa são é a religião. Religião. A espiritualidade, né? As pessoas, elas confundem espiritualidade com religião. Espiritualidade é o ter fé no transcendente, dependente do que seja, né? Mas religião é esse sistema de dogmas, de doutrinas, e que eu tenho que entrar dentro dessa caixinha para me dizer ser, ser pertencente a isso, né? Hoje mesmo, eu estava vendo um post de uma freira, né? Ela falou assim: "O reino dos céus está reservado para aqueles que agem como o Cristo". Aí eu fiquei pensando: "Então, quer dizer que quem age diferente do Cristo não vai pro céu? Todo mundo o inferno tá lotado". O inferno tá lotado. Mas eu fiquei pensando que eu vi esses dias, ela chamando, por exemplo, teve o show da Madonna, né? E ela disse que aquilo era satanista. "É o lixo do inferno, o esgoto do inferno, que a Madonna é o esgoto do inferno". Aí eu pensei assim: "Jesus, ele se encontrava com várias mulheres que eram excluídas da sociedade. Várias. Isso. Várias prostitutas, né? E o que ele fazia? Ele acolhia essas pessoas". E ela disse que a Madonna é o esgoto do inferno. Então, será que ela tá imitando os atos de Jesus? Ela não está. Mas ela disse que o céu é reservado para quem imita Jesus Cristo. E aí eu fiquei pensando: "Será que ela não é crítica de si mesmo?". Concordo. Maravilhoso. Porque esse lugar que a gente põe o espiritual e o real, né? Ele tem muita contradição e muita hipocrisia. Muit. E aí eu vejo assim, eu prefiro muito assim o que eu, o que eu sigo. Pessoal do... Já fiz todo o catecismo, fiz toda essa parte bonitinha, fiz, fiz FM, fui coroinha também. Mas eu observo muita gente hipócrita nesse lugar. Porque eu sigo as páginas das redes sociais, eu vejo lá, eh, Maria Ângela de Jesus, e ela tá metendo o pau em pessoas que não têm nada a ver com a vida dela. Então, é um lugar, talvez por ter muita disciplina. Meu achismo. Por ter muito radicalismo, muito dogma, te transforma numa pessoa um pouco, até assim, total. E você vive preso aquilo, porque você acha que aquilo é a forma que vai te levar pro céu. Na verdade, é um sistema que vai moldando a sua mente. Você vai sendo moldado naquilo. Você cresce. Por exemplo, você disse que foi coroinha, né? Né? Na igreja, que você lembra o que que você aprendeu como coroinha? Você tinha que servir o altar de determinada forma, tinha que segurar a toalhinha. Então, assim, é tudo ritual, é tudo um sistema dogmático. Isso vai entrando na sua mente. Se você não tem um, e se você não consegue furar essa bolha, você acredita que isso é a verdade, que isso é o certo, que só tem isso de certo, né? Só tem isso. Não tem outras coisas. E quando você olha para as outras coisas ao seu redor, é tudo aquilo tá errado. O cristianismo, cristianismo não, o catolicismo, as religiões cristãs hoje, eh, catolicismos, evangélicos, eles acham que eles são os certos. E tudo que tá fora daquilo que eles acham que é o certo, está errado. Logo, é diferente de tudo aquilo que Jesus Cristo. Isso passou. Mas se você for olhar, sim, a história das religiões, o budismo é muito mais antigo do que o catolicismo. Então, quer dizer que todas as pessoas que vieram antes do catolicismo, elas estão perdidas? Quer dizer que que tudo que elas, eh, construíram, que elas entenderam, não faz sentido? Acho que isso aí tá errado também. Porque se tu não sabia o que que era certo e fez errado, não tinha certo, não pode ser julgado por causa disso. Me confundiu. Tô doidão agora. Tem que fumar um negócio aí pra entender. Sim, sim. Mas o, o que eu estou querendo dizer é o quê? Que as pessoas, elas julgam muito, porque elas estão dentro de uma bolha. Então, elas enxergam o mundo a partir dessa bolha delas. Elas não conseguem sair. Por exemplo, eu, eu nasci numa cidade muito pequena, aonde tinha, eh, era um bairrinho e tinha duas igrejas católicas. Meu pai tocava na igreja. Então, desde que eu me entendo por gente, eu estava vivendo ali na igreja. Não tinha arte, não tinha, não tinha cultura. A cultura dali era a igreja, eram as festas paroquiais. Então, eu, eu cresci dentro dessa bolha. E quando eu me tornei adolescente, também não tinha outras coisas. Então, eu queria ajudar as pessoas. Eu tinha a ideia: "Quero fazer bondade para as pessoas". Aí conheci essas irmãs que pulavam, cantavam. Vi o folder delas, vi lá a foto delas na favela, cuidando as crianças. E falei: "É isso que eu quero ser". Só que quando eu vim para São Paulo com 18 anos, que eu cheguei no convento, que eu fui me deparando com a realidade, eu fui, fui vendo, falando assim: "Mas espera aí, eu queria ajudar as crianças da favela, mas eu não vou na favela. Eu tô aqui fazendo biscoitinho e pãozinho, batendo de porta em porta, vendendo para trazer dinheiro para congregação". Enquanto tinha crianças de rua que me pediam biscoito, eu não podia dar. Podia? Não. Podia. Porque falava que a gente estava vendendo, eh, os biscoitos para pagar as contas do convento. Então, a gente não podia dar. Ali foi meu primeiro questionamento. Eu era postulante. Então, assim, e a religião, ela te prende muito. E as pessoas que hoje estão dentro desse sistema radical, elas enxergam o mundo dentro da bolha delas. Elas não olham para fora. Sabe quem você tá parecendo? O policial do BOPE, no Tropa de Elite. Porque ele tem uma, ele tem uma ideologia positiva. Ele é o cara que quer salvar a população, que é proteger, tal. O Matias lá do... Aí quando ele vai pra Polícia Militar, ele com aquela cabeça toda de de herói, ele descobre a Polícia Militar, ele se decepciona com a Polícia Militar. Então, você tá me falando assim que a entrada sua na igreja é quase como uma pessoa: "Quero fazer o bem, quero ser legal". E de repente, você começou a questionar coisas ali dentro. Então, minha pergunta, ela vai para outro lugar. A gente já fala o negócio do do quê? Do que eu falei da da cidade do cib. Vai falar já já. Mas a minha pergunta é: você acha que as pessoas deixaram de questionar a partir do momento que elas entram na igreja? Você sentia isso ao seu redor? Eu acho que as pessoas nunca questionaram. Acho que que a igreja do Brasil, as pessoas do Brasil, elas não têm nem conhecimento do que é a igreja. Eu tô falando, por exemplo, de dogmas e doutrinas. Se você pega uma pessoa simples que vai, por exemplo, no Padre Marcelo, essa pessoa, ela trabalha o dia inteiro, ela e chega de noite, ela vai lá: "O quê? Erguei as mãos. Ai, Glória a Deus". Ela não sabe que que a igreja tem uma, é hierarquia. Ela não sabe que a igreja é uma instituição de poder, governada por poderes. Ela não sabe nada disso. Ela vive uma espiritualidade até pura. Sabe? Essas pessoas que vão, por exemplo, na Aparecida do Norte, que carrega uma cruz. Isso é uma fé pura. Só que a igreja não é isso. É isso que eu quero falar para as pessoas. A igreja, ela tem, ela é um instrumento de poder no mundo. Que já dominou o mundo, já tentou dominar o mundo, mas foi perdendo o seu poder. A igreja, por exemplo, na Idade Média, não deixava as pessoas estudar. Ela não deixava as pessoas estudar, né? Os livros. Sim. Ela é controladora. Então, assim, quando eu entrei dentro do sistema, eu não enxergava antes de eu entrar, tudo isso. Achava que era perfeito. Jesus Cristo existia porque, eh, para salvar. Deus. Todo mundo que seguia Jesus era para fazer o bem. Eu sou do bem, o resto é do mal. Não. Eu não tinha essa ideologia de que o resto era do mal. Apesar que na minha formação, antes de entrar no convento, eu fiz parte de um grupo chamado Renovação Carismática Católica, e eles diziam sim que todas as religiões fora do cristianismo eram do mal. Espiritismo, eh, religiões afros, tudo. E falavam também da Nova Era. Tinha até uma música que cantava, falava assim: "Denuncia eles". Falavam que eles estavam denunciando as falsas doutrinas. Então, assim, você, e você acreditava nisso, porque você não tinha outra informação. É. Você não tinha acesso, por exemplo. Eu gostava muito de Sandy Júnior desde criança. Eu sempre fui fã do Sandy Júnior. Quando eu entrei nessa Renovação Carismática Católica, eles falavam que eu era idólatra, sabe? Colocaram na minha mente que eu idolatrava Sandy Júnior. Po, parei de ouvir música do Sandy Júnior, sabe? Porque eu comecei a pensar: "Nossa, então tudo que é do mundo". Tinha aquela coisa, falava assim: "Isso é do mundo, isso é de Deus". E você vai acreditando nisso, sabe? Você tá naquele círculo ali. Só que quando eu entrei no convento, aí eu fui aprendendo, eu fui vendo as coisas. Falei: "Pera aí, tinha uma foto lá delas ajudando as crianças na favela, mas eu não posso dar o biscoitinho pra criança de rua". Aí eu vi assim, dentro da instituição, a forma como a madre, por exemplo, Nossa Madre, ela era fundadora. A gente se... Esse banco era dela. Você não podia sentar. Ninguém podia sentar na poltrona. Isso. Ela na mesa. A gente tinha que servir ela. Francesa. Quando ela queria que o silêncio, ela batia assim, todo mundo tinha que fazer silêncio. A comida dela era diferente, totalmente diferente. É, a gente não podia lavar a roupa, por exemplo, colocar a roupa dela no tanque de lavar roupa. Tinha um balde especificamente. Não podia tocar dela. Tenho certeza que ela ficava no Leo Dias escrevendo mal das pessoas. É o tipo. Per. Isso aí é audiência da Sônia Abrão, lá. Essa daí. Eu só queria saber se ela era única com essa desconfiança, com essa visão, ou se ela tinha pessoas lá dentro. Não, lá dentro tinha várias irmãs assim que questionavam. Só que a gente era muito oprimida. Qualquer questionamento que a gente fizesse, é, a gente era, é, corrigido. A gente era, como é que eu posso dizer? Não é corrigido, a gente sofria retaliações. Então, a gente era tipo o bode expiatório. Por exemplo, ela fazia uma reunião que chamava "Correção Fraterna", colocava todo mundo em círculo, e a gente tinha que se acusar dos nossos erros. E aí ela ficava nos apontando. Também tinha questões de penitências. Então, Big Brother. O negócio é feito. Big. O Big Brother é a definição perfeita do que é uma vida. Sincerão. Tudo mentira, mano. Boninho. Boninho. Foi. Eu assisto o Big Brother, eu fico assim: "Aquela freira é aquela fulana, aquela freira é a ciclana". Verdade. Que ele faz. Então, entendi. Então, não é a vida real. Igual é o ré? Não. O que é apresentado para as pessoas aqui fora é uma coisa. É aquela sempre aquela imagem de pureza, de santidade, de calma, de doçura, que eu, que eu imagino. Quando você falou do biscoito, eu falei: "Biscoito". Ô, mas tu pulou um negócio aí. O que que era? As penitências. Que que ela, por exemplo, acordar mais cedo. A gente já acordava 5:30 todos os dias, e a gente dormia tarde da noite. E ainda acordávamos durante a noite, uma hora para fazer adoração. Tinha um padre lá, por exemplo, que a gente dormia na adoração durante a madrugada, porque a gente dormia muito pouco. Ele dava alfinete. Sabe aqueles alfinetes de bebê grande? Para a gente se furar para a gente não dormir na oração. A gente tinha que acordar mais cedo. Uma vez teve uma irmã que a gente acordar 6:30. Aí uma irmã que era da baixa hierarquia, que nem eu, escreveu assim para para irmã que tinha deixado o bilhete: "Mudou o horário que era para ela acordar 6 horas". Porque como a gente ia acordar 6:30, ela tinha colocado 5 horas. Fez uma caridade. Como ela, eh, estava abaixo da hierarquia, a irmã brigou com ela e deu uma penitência para ela, que todos os dias ela ia ter que acordar meia hora mais cedo, porque ela foi fazer uma caridade de mudar o horário, porque ela estava passando acima da hierarquia. Então, eram coisas que eram absurdas. Se você quebrasse um copo lá, você tinha que conseguir uma doação, você tinha que repor. Se você quebrasse essa xícara e ninguém se acusasse, todo mundo da comunidade levava algum tipo de penitência até a pessoa se acusar. Então, era assim, nada era teu. Nada era teu. Eu, eu, o lugar que eu mais me sentia bem dentro do convento era no banheiro. Porque ali ninguém queria estar comigo. Então, ali eu ficava assim: "Aqui é o lugar onde eu tô só eu". Até hoje eu amo. Eu falo assim que eu tenho uma coisa que ficou do convento, eu amo ficar no banheiro. Fico horas assim fazendo minhas coisas, porque é um lugar onde eu me sinto livre. Porque dentro do convento, era o único ambiente. E a gente ainda, na congregação que eu estava, a gente andava de duas em duas. Então, você nunca estava sozinha. Por exemplo, eu, eu trabalhava num lugar e eu morava numa casa aqui na esquina, e tinha outra casa na esquina. Aí todos os dias eu tinha que pegar uma postulante na casa que eu morava, descer até outra casa, pegar a irmã que ia trabalhar comigo, depois levar... Que foi me levar. E ir trabalhar. Na hora de voltar, passava na minha casa, pegava essa outra menina, levava essa irmã, porque a gente não podia nem sequer caminhar sozinha. De tamanho era o controle. Um livro. Uma vez a gente falou: "Ó, esse livro aqui chamava Teologia da Vida Consagrada". Tá falando aqui sobre a vida fraterna, que nós podemos ser amigos. Porque a palavra "amigo" era proibida dentro do convento. Por quê? Não podia ser amigo. Você não podia ter qualquer pessoa que você tivesse uma amizade, que você tivesse uma afinidade, diziam que era "amizades particulares". Então, você não podia ter isso. E se você tivesse algum problema, você tinha que falar com o seu superior ou com o seu diretor espiritual individual. Isso. E aí, uma vez a gente falou: "Ah, mas esse livro aqui, Teologia da Vida Consagrada, tá falando que a gente pode ser amigo". Ela proibia o livro. Tudo que você, eh, demonstrava, proibia. Papel higiênico era controlado. Ensinava até o tamanho do da folha que a gente usava para fazer xixi, só para fazer a outra necessidade que não falava tanto. Então, cada um tinha que ter o seu papel higiênico, tinha que anotar lá no caderno que pegou o papel higiênico. Tudo era muito controlado. Banho só de balde. De chuveiro só nas solenidades. E aí, para você não, eh, mentir que tá tomando banho de balde, colocava uma fita crepe lá em cima da da onde você muda a chave do, a chave do chuveiro, para você, para você não pegar água quente. Então, assim, eram coisas absurdas que aconteciam ali dentro. Só que a gente achava que aquilo era santidade. Ah, isso aqui você tá passando porque é pro seu caminho de santidade, para você ser humilde. Mas qual que é o objetivo disso? Não tinha objetivo. Não, para mim, o objetivo dela era nos controlar. Sim. Mas tem um, alguém que vai, deve estar assistindo agora, Dona Madre Fátima da Silva, tá escrevendo aqui agora. Não, objetivo, na verdade, meu amor, é, é a disciplina. Porque você aprende através... Ah, do menos. Que o menos, na verdade, significa mais. Sabe essas coisas assim? Alguém, porque ninguém vai chegar para você e falar assim: "Vai lá porque vai ser punitivo e vai ser delícia". Não tem. Tem alguma... Não existe uma construção de uma ideia. Você foi chamado à santidade. Jesus te chamou. Pronto. É isso. Quer ser perfeito? O caminho da perfeição é esse. Entendeu? Só que esse caminho de perfeição, hoje, com todo entendimento que a gente tem da evolução humana, porque isso é uma mentalidade da do século XV, né? Todo esse sistema. E não modernizou nada. E não... Muito pouco. Muito pouco, né? Principalmente na vida religiosa feminina. Os padres, eles têm outro tipo de liberdade, porque a igreja, ela é totalmente patriarcal. Os padres ganham salários. As freiras não. Freira não ganha salário. Não. Não ganha salário. Só pegar. Pera aí, pera aí. Zé. Pera aí que agora não ganha salário. Não. A gente trabalhava em paróquias, trabalhava, eh, fazendo várias coisas em paróquias. A gente não ganhava salário da paróquia. Salário do padre é o quê? Assim. O padre ganha o salário da diocese, porque todo mundo dá o dízimo, e aí ele envia uma parte para a diocese, e a diocese paga o salário dele. Então, ele tem sal. E aí eu vou voltar numa coisinha antes do Marcão falar, que é bom que o Marcão vai falar, mas assim, você agora tá com uma pressão. Tem que falar. Alo. Bom, você já esqueci. Você e ele falou um negócio assim que você tava com outras amigas ali meio que falando. Porque imagino que todo mundo foi lá é igual faculdade. Nossa, vai ser incrível. Você chega. [ __ ] chata essa aula. Você começa a olhar falando: "Não sei se é tão legal quanto eu imaginava". Quando que você teve o seu primeiro momento assim, você olhou, falou: "Cara, não tem nada a ver com o que o meu pai falou"? Ah, eu acho que desde que eu entrei. Desde que eu entrei. Sim. Porque pelo primeiro momento, e não podia dar o biscoitinho. Depois, você não podia conversar. Era um controle absoluto. Só que eu não tinha consciência desse controle. Eu era muito jovem. Mas eu sempre me incomodava com tudo. Então, eu tentava fazer diferente. E esse meu fazer diferente me colocava como uma pessoa rebelde. Colocava as outras como uma pessoa rebelde. Só que eu tinha muitas habilidades. Eu tenho muita facilidade com várias coisas artísticas. Então, eu desenvolvia vários projetos e trazia muito dinheiro pro convento. Então, assim, eu me via lá. Depois que eu fiz os votos, eu, eu comecei a entender que eu era uma máquina de fazer dinheiro pro convento, mas que o meu eu, que é a minha pessoa, não significava nada. E quando a gente começou a questionar, a gente, porque a gente era amiga. Eles falavam: "Você não pode ser amiga". Mas a gente continuava sendo. Eh, a gente foi tido como rebelde, chamado de ter uma quadrilha lá dentro por ser amiga, sabe? Então, a gente tentava se ajudar, porque tinha as irmãs que eram extremamente autoritárias. E essas que a gente questionava: "Por que que vocês são tão autoritárias?". Só que as autoritárias, elas eram amigas entre elas, e elas podiam ser amigas. E por que as outras que estavam abaixo da hierarquia não podia? Que elas eram tipo umas diretoras. Sim. Elas podiam. Elas podiam ficar fora da capela o horário que elas quisessem. Elas podiam comer o horário que elas quisessem. Elas podiam tudo. Nós não. Nós não podíamos nada. Nós tínhamos que simplesmente obedecer a cada regrinha que era imposta. A gente não podia questionar nada. Como seria essa hierarquia da igreja? Como é que que funciona a vida religiosa, é da, da, das mulheres, no caso das mulheres? Porque quando você entra, você é aspirante. Então, você tá lá abaixo. Você é o primeiro grau. Depois você se torna postulante. Depois vem noviciado. Aí você pode fazer um ano ou dois anos de noviciado. Vem votos temporários de pobreza, castidade, obediência. Você pode fazer de 3 anos até 9 anos na congregação que eu estava. E depois votos perpétuos. Essas, essa é a hierarquia da vida religiosa no mundo. Então, aspirantado, postulado, noviciado, votos temporários e votos perpétuos. Só que dentro da instituição, tem os cargos. Por exemplo, Madre é um cargo. Você tem que ser eleito para ser Madre. Então, tem um capítulo, tem uma eleição lá, e aí a Madre Superiora, ela é escolhida. Só que só quem pode votar nessa eleição são os membros de votos perpétuos. Então, quem está abaixo não tem direito de voto. Não pode ter votos. Só direção. Voto em direção é só os os perpétuos. Mas aí também elas selecionam as pessoas que vão... É tudo muito manipulado, tudo muito construído. Tá. Eu te perguntar. Você falou que as, as freiras não ganham salário. As madres ganham? Elas não ganham salário, porque elas não atuam nas paróquias. Elas vivem ali dentro da instituição, e todo mundo que tá ali trabalha para elas. Para ela, entendeu? Então, a, quem está abaixo trabalha nos lugares. Tem, por exemplo, a gente trabalhava na Ajuda da Igreja que Sofre. Era uma instituição. Ali eles pagavam, mas pagavam a instituição, não as irmãs. Dia, ia uma irmã diferente. Agora, que nem o padre. Não, ele tem um salário pessoal que é dele. Ele pode fazer o que ele quiser com esse salário. Entendeu? Nós não. Se eu ganhasse um salário, eu trabalhasse em algum determinado lugar, trabalhasse na Ajuda da Igreja que Sofre, e eu ganhava o salário, eu nem via o dinheiro. A gente ganhava vale alimentação para comer, né? No restaurante. A gente nunca comeu aquilo ali. Nunca passou pela minha mão. Todo dia eu levava a minha marmitinha e comia ali dentro. Então, assim, eu trabalhei durante anos nesse lugar. Eu nunca vi um tostão. Entendeu? Tudo já era direcionado para a congregação. Existe uma coisa. Você falou do, do da sociedade patriarcal que existe nesse lugar. S... Imagino que a igreja tem tanto. Imagina que a convivência é de padres e freiras. Estão ali juntos? Ou tem uma coisa do tipo: "Para cada padre tem que ter três freiras"? "Não pode muita freira, tem que ter muito padre"? Só padre aqui, sua freira aqui. Como é que fica essa divisão de homens e mulheres? Tipo assim, a congregação que eu estava, tinha o ramo feminino e masculino. Lá no sítio, tipo o presídio mesmo. É bem assim. Isso. E lá no sítio, por exemplo, tinha a casa dos freis e tinha a casa das freiras. É só um, um espaço de distância. Quanto a essa comunicação, depende da paróquia. Se o padre gosta do trabalho das freiras, ele convive. Eh, não tem nenhum tipo de limite de números ou de ações. Não existe uma restrição sobre isso, entendeu? Agora, não habita na mesma casa. Nunca você vai ver uma, uma freira e um padre morando na mesma casa. Mas o padre tem poder sobre a freira? Do tipo assim, sobre a... Se ela tiver trabalhando na paróquia, ele tem poder sobre o trabalho que ela tá realizando. Porém, ela vai responder para a congregação. É. Ah, entendi. A freira, ela responde para a madre, e a madre e o padre estão... Isso. Isso aí. O madre, ele vai reportar. A madre vai falar: "Olha, a sua freira fez isso, isso, isso". Aí a madre vai julgar se a freira tá errada ou se o padre tá errado. Mas é igual equivalência? Padre e Madre? Não. O padre, padre, ele é um sacramento, sacerdócio. Freira não. Freira é só uma leiga consagrada. Madre, Madre, Madre, não, porque Madre é um, Madre é um cargo, né? Padre é um sacerdócio, é um sacramento. Batismo, entendeu? E como é que funciona essa questão assim? Agora, eu vou voltar pro celibato. Toda aquela volta que eu dei para voltar. A minha curiosidade é de de burrice. Não, não, porque porque eu acho que o grande assunto quando a gente fala de padre e madre e tal, essa questão da da disciplina e da... Eu acho uma vida até muito rigorosa assim, né? Eh, antes de gente falar de celibato, existia muita coisa do tipo: "Padre Chaveco". A freira existe? Rita? Sim. Existe. Tem o padre chega: "Olha, nossa, que hábito lindo". É, não é falando que hábito lindo. São outras formas, né? É, tipo assim, você começa, eh, criar amizade. Você fica amigo da pessoa. Por exemplo, vou contar casos que já me contaram que a freira se dizia que era madrinha espiritual do frade. E aí ela mandava bilhetinhos espirituais pro frade. Aí o frad mandava bilhetinhos. E aí eles se relacionaram. É. Eles moravam lá na Europa, fugiram e vieram pro Brasil, se casaram, têm filho. Entendeu? Ah, mas se conheceram lá, enquanto não podia nem, nem... Quanto era irmãos? Trabalhavam na mesma comunidade, na mesma casa, na verdade. Porque ela cuidava de um bispo que estava acamado, de um cardeal, e ele cuidava fisicamente, né, do cardeal. E aí ali eles começaram a ter um tipo de relacionamento. Mas não é assim: "Ai, o hábito tá bonito". Não é dessa forma. Acho que começa mais com uma amizade, com uma ligação mais usando a espiritualidade, depois. Mas tem casos assim do tipo: "Ai, minha amiga freira deu hoje pro P". Tem as coisas assim que acontecem. Umas coisas assim. Não, na sua cara dela, no seu lugar? Não. Não. É porque assim, não é. Tem, mas não é assim que funciona. É como é que eu posso dizer? Tem, já é uma resposta muito forte. Porque na minha visão, não tem. Para mim, a freira tá lá rezando. Ah, eu já sabia. Viu? Eu sou muito ingênua. Acho que eu acho que tudo que tu proíbe muito, a pessoa quer fazer. Mas é que as pessoas têm um mito em relação à castidade, né? Tipo assim, é como se fosse a coisa mais difícil da vida religiosa. E a castidade não é a coisa mais difícil da vida religiosa. A coisa mais difícil da vida religiosa é obediência. É você se submeter à autoridade do outro. Mes. Porque a castidade, a castidade, por exemplo, você pode viver de outras formas. Se você não consegue, por exemplo, você não precisa ter a relação sexual para você não ter, para você ter um prazer sexual. Entendi. Entendeu? Você pode se resolver de outras formas. A masturbação é pecado também? Mas aí vai da consciência da pessoa. Você entende? [ __ ] Mas é a consciência dela. Tá falando assim: "Você vai pro inferno". A mãozinha chegando. O demônio chega. Pode, pode acontecer sim. Aí, aí depois você vai lá e se confessa com o padre. O padre fala: "Tá perdoado". OK. Tá. Fá. Aí, uma, uma outra pergunta. Olha o que isso vai gerar. Não, relaxa, porque é muito.
Interessante isso daqui porque as pessoas não se confessam pra Madre. Não pra Madre, não. Porque ela é só Padre. Então o padre, ele tem informação que a freira tá com tesão. Irmão, tu tá ligado? Aquele cara, aquele padre que ficou com a freira, ela confessou pra ele. Falou assim: "Pera aí, tô escrevendo esse filme. Vamos escrever esse filme agora." A freira vai lá no padre, fala: "Ai, padre, eu senti tesão essa noite." P: "Sério? Como? Opa, que que te deu?" Porque, ó, inclusive, tem um cara que ele tá escrevendo um livro chamado "A Vida Secreta dos Padres Gays" e ele falou que ele é que ele se masturbava dentro do convento e ele ia contar pro padre. Aí o padre perguntava como que ele fazia. E aí, na confissão, ele conta esse relato. Na confissão, o padre levantou e mostrou que tava excitado pra ele. Então, isso acontece porque toda pessoa é ser humano. Todos nós temos, né, os desejos sexuais. Falar que isso é abolido da vida do ser humano, isso é uma ilusão. Só que lá você vai aprendendo. Olha, você tem que canalizar isso. Você não, você não, não pode alimentar isso. Por exemplo, se você se sentir atraído por uma pessoa, não alimente isso. Sabe? Foca em outra coisa. Porque existe a atração. É uma repressão, né? Quanto mais repressão você tem... Sim, quanto mais repressão você tem. Se você não souber, porque, por exemplo, você pode, se você acredita na sua vocação. Pô, eu acredito que eu tenho um chamado para viver isso aqui. Porque assim, é construído na sua mente, você tem um chamado. Então, esse, essa força de acreditar nesse chamado, é, te impele a muitas vezes não se abrir para essa realidade. Entendeu? Do que tudo isso é maior do que tudo isso. Então, assim, você pode até conhecer uma pessoa e se sentir atraído, mas você não alimenta aquilo. Então, você corta. Você não, não, não conversa. Você não fica perto. Tem pessoas que fazem isso e tem pessoas que não. Tem pessoas que não têm esse autocontrole. E aí a pessoa vai e vive.
Eu vou te fazer uma pergunta muito legal. Já que eu vejo que você é uma pessoa muito bem resolvida e você muito inteligente. Ó lá, tá elogiando pra falar uma coisa horrorosa, né? Não, não é, não. Ah, cuidado. Heh. Sabe por quê? Porque se ela não tivesse uma mente tão aberta, eu iria por outro caminho. Perfeito. Mas eu acho que eu já vejo que você é uma pessoa que tá bem esclarecida, sim. É, sexualmente. Inclusive, você tinha desejo sexual lá na igreja? Desejo sexual não. Não muito. Mas, por exemplo, teve um episódio que eu conhecia uma pessoa que eu trabalhava num lugar e eu me sentia atraída por essa pessoa. E essa pessoa também se sentiu atraída por mim. E aí ele tentou se comunicar comigo. E isso gerou uma crise em mim ali dentro. Só que que eu fiz? Eu pensava assim: "Eu tenho vocação religiosa". Naquele momento, eu pensava. Então, eu fui conversar com uma, com uma freira que era amiga minha e falei pra ela: "Olha, eu tô sentindo isso." Aí essa freira, ela foi tão humana que ela falou pra mim assim: "Bruna, isso é a coisa mais normal do mundo, porque você é um ser humano. Então, não se culpe por isso. Agora, você tem que colocar na balança sobre o que você acredita. Você acredita que você tem essa vocação ou você acredita que você pode viver essa realidade?" Mas essa freira, ela era equilibrada pra me falar isso. Mas antes de eu entrar no convento, eu tive um, eh, tive um também um, como é que eu posso dizer? Uma atração com o menino lá da minha cidade. E eu fiquei com vontade de ficar com ele. E aí eu fui falar pro padre que me acompanhava. Ele falou: "Não, fica, é o demônio." E o outro padre da minha cidade, que eu fui falar com outro, outro, falou: "Fica, Bruna, porque se você tiver vocação, só vai fortalecer. Só vai mostrar pra você." Então, assim, cada pessoa é uma pessoa. Dentro da igreja, tem pessoas que ela vai, que elas vão tratar isso com uma naturalidade muito grande. Mas tem pessoas que não, que vão reprimir. Então, isso é muito pessoal. Essa questão da castidade. Agora, que as pessoas têm desejo, que elas se sentem atraídas, isso aí é uma realidade, né? É humano e é uma realidade. Agora, cada um trabalha da forma que achar melhor. Tem pessoas que vai viver, é, no silêncio, que vai se masturbar, que vai ter pensamentos. Pode ter religiosos também que vai acessar coisas na internet, porque hoje em dia tem uma liberdade, né, de você. Por exemplo, na minha época, nós não tínhamos celulares. Hoje, as freiras têm celular. Então, quem pode dizer que ela não tá? Na nossa época, a gente, se a gente recebesse uma carta de alguém, é, a madre tinha que ler. Hoje não. Hoje elas têm liberdade. Porque essa madre que fez tudo isso, ela foi destituída do cargo, né? O Vaticano veio e tirou ela do poder. Então, muitas coisas mudaram. Então, hoje elas têm acesso à internet. Então, por exemplo, vai que uma pessoa manda um vídeo pra você e você tem uma curiosidade, né? Aliás, eu acho que deveria ter curiosidade mesmo, porque eu acho que quando a gente se abre para saber, é muito mais fácil de você saber lidar com isso. Até porque, porque a sexualidade é algo sagrado, entendeu? Só que a igreja, ela mostra isso como algo é muito, é profano. O sexo só pode ser vivido dentro do casamento. Só que muitas vezes, não olha a realidade dos casamentos, né? Então, assim, é muito complexo esse assunto dentro da igreja. É por isso que entrei nele, porque parece que é um assunto. Nossa, você tava querendo pegar uma fofoca. Não, não. Porque quando eu tava com o padre Juarez, que eu queria agradecer, que é um padre muito legal, inclusive muito legal, que ele falou de muita coisa de milagres que ele olhou e falou: "Cara, milagre." Ele falou uma coisa que eu achei muito legal, que ele fala assim: "Muitas das coisas que as pessoas encaram como milagre, na verdade, são coisas humanas que você historia pra, pra chegar em mais pessoas e tal." Ele foi bem, bem, bem sincero, bem didático, bem legal. Só que eu não entrei muito na questão sexual, porque ele ainda vive. É, porque é um tabu falar sobre isso. É um tabu dentro da igreja.
Pô, você saiu. Eu falei: "Vou ficar mais à vontade de falar." Sim. E você saiu da igreja depois de nove anos? Eu saí da, da congregação depois de nove anos de vida religiosa. Hoje eu não pertenço mais à igreja, não sou católica, não sigo mais a instituição. E você? Então, você saiu com 27 anos? Saí com 27 anos. Ia fazer 27. Então, você perdeu sua virgindade? Tipo, aí é uma coisa pessoal. Não, antes, mas antes de entrar no convento, eu tive relacionamento. Porque era pessoa que vivia habitada dentro da igreja e não tinha relacionamento. Era vida normal, entendeu? Depois que eu entrei, porque todo mundo acha que a freira tem que ser virgem. Isso não. Você, você faz um voto a partir do momento que você entra. Mas rapidinho, eu posso ser padre se eu quiser? Pode. Mas aí você é casado? Tem filhos? Não. Tem que separar? Não. Sua mulher, sua mulher tem que morrer. E seu filho? Assim, eu vou ajudar. Igreja. Sua mulher tem que morrer. Você tem que ser viúvo. Separado não pode. Seu filho tem que ter maior de 18 anos. Aí você pode. Juro? Eu não sabia. Ainda dá, hein? Essa informação é muito forte, cara. É sério. Eu achei que você ia entrar. Olha como é que eu sou burrão. Eu achei que era uma coisa assim, o voto de castidade, quando você tem, sei lá, 18 anos e tal. Então, você entra com uma coisa não sexualizada. Então, pra mim, o cara que faz isso, ele é pastor. O cara que, tipo, teve uma vida mundana, digamos assim, vai pra igreja, ele vira pastor. Ele pode ser padre? Pode. Pode ser padre, porque o voto você faz a partir do momento que você assumiu aquele compromisso. É. Então, não existe. Por isso que eu falo que existe muito tabu. Muito. Minha pergunta foi idiota? Não, não foi idiota. É que as pessoas, elas não entendem esse sistema, né? Então, por isso que tem achismo. Porque assim, não tem como você vai falar assim: "Ah, eu sou virgem." É, como que você vai provar? Vai ter que ir lá fazer um exame. Não existe isso, entendeu? Então, ela pode até chegar lá e falar: "Eu sou virgem", mas isso não significa que seja verdade. Ela pode estar mentindo e ninguém vai saber disso, né? Entendi. Então, vamos para outra questão. Eu vi que você tem uma tatuagem. Tenho duas. Você não poderia ter? Nunca. E agora você pode, se quiser voltar pra igreja? Como é que faz? A tatuagem não impede de voltar na igreja. Agora, se eu for freira, por exemplo, na congregação que eu tava, uma menina tinha, ela tinha, tinha uma menina lá que tinha tatuagem, ela teve que apagar. Aí a gente levava ela na, uma clínica, ela fazia sessões e pagar a tatuagem. Ai, credit. Que coisa. Porque eu nunca vi também o, a freira com 100% Jesus. Mas ter a tatuagem não vai te impedir de entrar, porque depois você vai lá e apaga. Porque hoje tem como você apagar, né? Ah, também, né? Nesse vídeo, você tá falando isso. Eu levava ela na clínica pra ela fazer lá o laser. Mas quem pagava isso? Eu não sei quem pagava. Acho que conseguiram uma madrinha, alguém lá. Não é a igreja que vai pagar. Ou pedir uma doação, porque a igreja vive da doação, né? Você pede carro, você pede o que você quiser, você pede casa, né? Lá na instituição, as irmãs pediam casa. Por exemplo, o sítio foi construído pela doação de um grande empresário. Ele construiu a casa das irmãs. Enquanto isso, elas vendiam pra pessoas mais simples, tijolinho. A gente tinha que vender tijolinho pra construir a casa do sítio. Mas o empresário já tinha construído, já tinha dado toda a verba pra construir a casa inteira. Jesus, vagabundos.
Pera aí, me conta, me conta como é que funciona essa questão da doação. E eu saí da igreja faz muito tempo. Não, que saí, não. Vou, não frequento. Sou um. Não, eu saí. Não vou domingo. Tô com meu filho na igreja. Vou na igreja. Devia ir, inclusive. Agora não vou mais. Você tá me falando. Puto. Nunca mais eu vou. Inclusive, ó, satanismo. Brincadeira, brincadeira, brincadeira. Nada a ver. Piada. Tamo junto. É, como é que funciona essa coisa da, da doação? É o que é um trabalho seu de tipo, toda missa ter que falar: "Pessoal, vou passar aí com a..." Toda missa tem, tem a parte do Ofertório. Isso faz parte da liturgia da missa. Então, lá o padre acaba de fazer homilia, aí ele faz uma oração. Aí naquele momento, que, que ele era coroinha, que colocava a hóstia, o vinho, nesse momento, pra assembleia, passa a cestinha, que é o Ofertório. Que aí você vai ofertar sua vida financeiramente. Você não vai só ofertar o seu coração, mas você vai ofertar algo material. Então, ali é uma forma de conseguir doação também. A missa, você pode, por exemplo, você quer pedir pra rezar a missa pra alguém, você pode pagar. Eu descobri essa semana, não sei se vocês viram, que o Papa Francisco ele doou X euros para o Rio Grande do Sul. Aí, aí falou: "Eu vi uma entrevista falando assim: 'De onde vem a doação do Papa Francisco?'" Aí eu fui pesquisar. Vendo uma, tem um, como é que fala? Uma bênção papal, que é um pergaminho que você compra. E aí tem uma assinatura do Papa dando uma bênção pra você, pro seu casamento, pro seu batizado, pro seu filho. E aí você paga esse valor que chama "esmolario". E aí foi dessa captação de dinheiro que o Papa tirou o valor que ele deu pro Rio Grande do Sul. Mas aí você pode, as pessoas pedem casa, as pessoas deixam herança. Mas pra onde vai esse dinheiro? Se fala que é para obras de caridade do mundo. É pro Vaticano. Lá, tudo. Aí, calma. Também não vem, não tem. Calma. Tá jogando uma informação lá. Por tudo ouro. Eu quero confiar também na bondade das pessoas, porque a gente tá falando a parte aqui que ninguém sabe. Mas às vezes o Papa tá lá agindo. Deu merda na Itália. Ele fala: "É, na verdade, não é o Papa em si, a instituição que criou essa parte que fala assim, esmolario." Então, assim, eles conseguem através desse, dessa parte da doação, pra essa específica, vai para os pobres do mundo. Então, foi aí que o Fábio. Esse é um. Mas as pessoas pedem carro, por exemplo. Tem um Frei famoso, famosérrimo, que ele tava pedindo uma doação de carro para umas irmãs que, inclusive, eh, até deu muita polêmica, porque esse Frei, ele abre live de madrugada para rezar terço. Ele junta 400.000 pessoas na madrugada rezando terço com ele. E ele ajudou uma freira que quase me matou no convento, porque eu quase morri no convento. Eu tô viva aqui porque não era minha hora. E essa freira que quase me matou, ela saiu do convento e ela fundou uma congregação. E esse Frei famoso tá ajudando ela e pedindo carro pra ela. Então, quase te matou? Como? Quase me matou. Eu tenho problema no coração e aí eu tive uma crise. E eu falei pra ela assim, que eu tava com crise. Ela falou que eu tava dando piti. E aí ela fez eu caminhar 30 minutos até a missa com uma crise de coração. E quando eu cheguei na paróquia, a madre estava. E eu falei: "Madre, estou passando mal." E a madre falou assim: "A irmã Fulana, que eu não quero falar o nome dela, já me falou do seu piti e eu não tive nenhum tipo de atendimento." E quando eu saí do convento, eu tive a mesma crise. Numa noite, eu fui no médico. Cheguei lá, o médico pegou a cadeira de rodas, falou: "Ela não dá um passo a mais." E eu passei a noite na UTI tomando medicação para fazer o controle dos meus batimentos. Então, ali eu poderia morrer, porque o médico falou: "Eu poderia morrer ali no hospital." Tava com classificação vermelha de grave. E eu ti, e eu caminhei durante 30 minutos com o meu coração, eh, de acelerado. E não era crise de ansiedade, porque eu tenho um diagnóstico, eu tenho presença de prolapso na válvula mitral. E ela dizendo que eu tava dando piti. Então, ela deu um atentado contra a minha vida. Crise de ansiedade? P. Sim, sim. Mas mesmo assim, é, mas a crise de ansiedade talvez não me faria morrer caminhando. Já o que eu tinha poderia me, me fazer. E tinha uma irmã também dentro do convento que ela sentia muita dor de cabeça. E foi essa mesma irmã, que agora é madre fundadora, que tá aí reinando nas redes sociais. A menina sentia uma dor de cabeça e ficava vomitando, vomitando, vomitando. E falava que tinha uma coisa aqui no dela. E aí eu falava assim pra irmã: "Por favor, então leva pelo menos ela no convento pra medir a pressão, pra ver se não é pressão." Ela não, "Não sei o quê." Gritando com a menina. Aí a menina era da Europa. E o irmão dela estava quase morrendo na Europa. E ela foi pra Europa visitar o irmão. Quando chegou lá, a menina continua passando mal. As irmãs de lá levaram ela no médico. Ela estava com câncer na cabeça do tamanho de uma laranja. E ela sofreu negligência aqui em São Paulo, onde eu estava, porque a irmã não estava nem aí.
Então, assim, a saúde era negligenciada. Era muitas coisas. Deixa perceber qual a relação da, da igreja com médico, por exemplo? Porque tem a coisa do divino, tem a coisa do, do aqui não pode. Tipo, como é que funcionava isso? Porque a medicina, ela tá modernizando-se, sim. E a igreja, pelo que você tá me falando, tá 1545? Não. Em relação a médico, não tem tabu. Você pode se tratar com o médico. Só que dentro do convento, eh, às vezes você passava mal, isso era tido como uma frescura, como um piti. Eh, só se você ficasse muito grave que aí você ia investigar o que você tinha. Mas tinha uma coisa de saúde mental? Coisa do demônio? Não tinha. Mas a gente não podia ler livros, por exemplo, de autoajuda. Eu comecei a ler Augusto Cury, foi proibido, né? Falava: "Livro de autoajuda." Padre Fábio de Melo foi proibido. Padre Fábio de Melo, ele foi expulso? Expulso não. Ele não foi expulso, mas ele, as, os livros dele fala muito sobre isso, né? Tem um livro "Quem me Roubou de Mim", dele, que é muito bom, que fala do sequestro da subjetividade. Quando eu li aquele livro, eu falei: "Isso que tá acontecendo comigo aqui." Abria a mente. Só que tiravam das nossas mãos. Então, foi proibido. Quando eu era novi, eu peguei um livro que chamava "Jesus, o Maior Psicólogo que Existiu", tirado da mão. Tinha um livro chamado "Qual o Direito Canônico?", que é as, que é as leis da igreja, são os meus direitos e os meus deveres. É um dos livros mais importantes da Igreja Católica. Nós éramos proibidas de ler, porque a gente não podia saber os nossos direitos. Então, assim, é muita questão, muita questão que é até complicado falar. Por isso que eu decidi falar sobre tudo isso pra as pessoas, porque existe uma idealização, né, da da. E é incrível você falar. Desculpa te interromper. Eu acho incrível você falar, porque a gente vive num país muito religioso, mas não só religioso, que não é problema ser religioso. Eu tenho minha religiosidade, você tem a sua. Mas muito fundamentalista. E para mim, um grande problema do Brasil é o fundamentalismo. Sim. E esse foi o motivo pelo qual eu resolvi falar, porque elas estavam defendendo políticos e fazendo campanha e fazendo momentos de oração, jejum e oração. E aí eu falei: "Ah, é. Então tá bom." Eu só esperei, só esperei acabar a eleição e falei assim: "Agora o universo me manda em um lugar." E aí eu encontrei o Daniel Gontijo, ele me deu espaço e fui falar. Porque assim, eu acho que a gente tem que tomar muito cuidado. Não é defender nenhum e nem outro. A gente não pode usar de Deus, claro, fazer plataforma política. Isso. E por causa disso que eu falo, eu, o meu objetivo maior de falar sobre tudo isso, de decidir falar, foi por causa da política. Isso dentro do convento? Elas estavam fazendo campanha para as pessoas dentro do convento? Sim. Influenciando, usando todo o poder de influência. Esse Frei que, que era da mesma congregação que eu, que eu convivi com ele, ele fazia campanha, lotava estádio, ficava fazendo jejum, oração para fulano ganhar. Então, eu falei assim: "Gente, isso aí tá errado." Na pandemia, eu não vi elas fazer nada para ajudar ninguém, só via pedindo dinheiro. Então, eu falei assim: "Ah, tá." Aquilo foi me. Fora que elas expulsaram. É, são muitas histórias que eu tenho. Elas expulsaram uma irmã que tinha 22 anos de vida religiosa. Elas não deram nenhuma ajuda. A irmã não tinha família, a irmã tinha mais de 50 anos, não tinha emprego para fazer cirurgia. E a irmã chegou na minha casa parecendo uma mendiga, morava de favor num, tipo, numa pensão. E aí eu falei: "Mas as irmãs não te deram ajuda?" Não. Aí eu fui ver os documentos, os áudios proibindo ela de pedir ajuda pra madrinha, proibindo ela de de circular no Largo 13, lá onde elas moravam. Falei: "Pera aí, que que é isso?" Aí escrevi uma carta aberta de 17 páginas para elas, denunciando tudo que elas fizeram, contando todas as histórias, usando qual direito canônico. E falei: "Se vocês não derem uma indenização para essa freira, eu vou lançar tudo isso na mídia." E aí elas deram uma indenização de um valor de um salário mínimo, como se ela fosse aposentada, até ela se aposentar. Só que aí eu, eu falei: "Eu não vou lançar na mídia, porque ela fez isso, né, pra irmã." Mas depois, quando eu vi a questão política, eu falei: "Não, não. Chega, porque agora tá num outro caminho." Tão usando de uma coisa da fé das pessoas e da ignorância das pessoas para promover ideologia política. Isso para mim são coisas completamente diferentes. Para mim, o Estado é laico e ele tem que ser laico. Religião é uma coisa pessoal que eu vivo e eu tenho a liberdade de seguir qual religião eu quiser. Até porque a intolerância que é o problema. E elas fazem muita intolerância. E é isso que eu ia te falar, porque assim, pelo que eu te vejo, seu coração, ele tem uma coisa de pureza. Quando você entrou, sim. Tu, você foi perdendo essa pureza, porque, né, enfim, o mundo vai, vai cair na sua, na sua cabeça. Você sente que essas pessoas entraram também com essa mesma pureza? Sim, muitas, muitas tinham o mesmo desejo. Só que quando você entra lá, ou você abraça o sistema, ou você se rebela contra o sistema. Isso. E você se rebelar contra o sistema é você ter uma vida à base de sofrimento. Se você for a favor do sistema, mas você vive de boa, você vai ser acolhida, você vai ter oportunidade, porque você tá batendo palma. É minha teoria sobre ditadura, sabia? E agora, se você faz contra, não, essa daí, essa daí não é de confiança, essa daí é rebelde, essa daí tem, essa daí do demônio. Porque quando você questionava, estava com Satanás. Estava. Eu recebi exorcismo. Sabe por quê? Eu recebi exorcismo porque eu tinha um projeto chamado "Circo da Verdadeira Alegria" e eu me vestia de palhaço e juntava várias pessoas leigas e a gente até andava, eh, pelo Brasil, aprontando o projeto. Só que eu pintava o meu rosto com maquiagem de palhaço. E as freiras começaram a falar que eu era vaidosa por causa de tinta. E aí eu tive que passar por exorcismo, porque eu fazia um projeto de palhaço. Teve uma freira lá dentro do convento, falou: "Palhaço é do demônio." Eu, eu ficava assim: "Eu dou razão a ela. Ela tá corretíssima." Agora, esse negócio de vaidade, esse negócio da vaidade, principalmente pra... Claro que homem é vaidoso também, mas mulher geralmente mais. Como é que era? Não podia? Não podia nenhum tipo de vaidade. A gente não usava desodorante com cheiro. Pera aí. Não podia. Debaixo daquele hábito lá, é, podia usar desodorante, mas não podia ter cheiro. Não podia ter. Não tinha cheiro. Cheiroso? Não. Não podia. Podia se depilar, por exemplo? Não. Podia se depilar? Muito. Não. Embaixo do braço, sim. Não podia depilar as pernas. Isso. Ah, mas, mas padre não é freira. Mas na congregação que eu estava, pode ser que em outras congregações podia. Podia. Nessa questão, eu não sei de outra. Uma lei para todos? Não. Não. Aí tem congregações que são um pouquinho mais liberais nessa questão. Tem congregações que a freira nem usa hábito, ela usa roupa normal. Então, ficar nua andando? Não. Ela usa tipo calça jeans, ela pode usar calça jeans, camiseta. Então, depende de cada, cada ordem. Aquela que eu estava era extremamente radical. Então, a gente não. O cabelo era curto. É. Não existia, nunca. Não existia nada disso. Não existia absolutamente nada. Roupa tinha o quê? Só os, é, só os hábitos. Roupas? Só hábito. A gente usava uma saia, ó, como que era. A gente usava uma saia que chamava anágua. Depois, a gente usava um hábito, uma camiseta branca, uma camisa, uma golinha por baixo, um hábito, um escapulário. No véu, tinha uma toquinha e tinha o véu. Era tudo isso que a gente usava. 40 graus lá fora, tinha que usar. Se Jesus. E ainda, quando era solenidade, uma capa que cobria o corpo inteiro, assim, tipo do Batman. Por isso que no Rio de Janeiro, a galera tá. Não, o pessoal não quer ser freira lá. Não, não dá. É, não era fácil. Você estava falando, ó, da doação, que eu acho que é muito importante, porque tá sempre associado com política, a coisa toda. Ah, você tem noção de quanto, obviamente, você não pode falar, mas assim, quanto que entrava? O que, para onde ia? Vocês tinham acesso a isso? Não, nós não tínhamos acesso, porque a gente era da, da baixo escalão. E só, só as poderosas que tinham acesso a isso. Nós não. Nós trabalhávamos para trazer dinheiro pro convento. Mas você chegou a ver coisa do tipo, a mulher contando dinheiro, tacando pra cima, striptease na igreja? Imagina MC Freira? CL. Não, não. Lima chegando numa Lamborghini? Não, não. Eu não, eu nunca me liguei muito com dinheiro, então eu nem era atenta a isso. Eu não tinha essa dimensão de, de como funcionava essa questão financeira. Eu não tinha. Mas assim, era muito dinheiro que rolava, porque a gente morava nos lugares caríssimos, a gente pagava aluguéis caríssimos. É, a madre vivia viajando pra Europa. É, então, assim, tinha muita questão ali que nem eu falo. A gente, a gente transitava entre uma vida simples, com medida, e uma vida da alta sociedade, com pessoas da, de, por exemplo, se você chegasse lá, você tem dinheiro, o seu tratamento era completamente diferente de uma pessoa simples, completamente. E aí as irmãs que eram destinadas para te atender eram essas, porque elas já sabiam como agir. Eu não atendia as pessoas da alta sociedade, porque eu não, eu não ia com aquele desejo de manipular para conseguir algo, mas para vocês, tinha uma coisa, pelo menos, um certo conforto do tipo: "Ó, hoje vai ter lasanha." Uau. Ou é uma coisa? Era nas solenidades que a gente tinha uma alimentação mais diferenciada. Mas lasanha era muito raro, nem me lembro de ter comido lasanha. Alimentação de vocês no dia a dia? A gente comia pão que a gente ganhava de, da padaria, pão amanhecido, e leite que a gente ganhava também da prefeitura. Enquanto a madre, ela acordava, ela tinha biscoitinho, polenguinho. A gente ganhava carcaça de frango das, das feiras, sardinha. E era isso que era nosso. E o, sabe, ponta de frios? Quando você compra a peça do frio, fica aquelas pontas. Então, a gente pegava aquilo de doação dos H. Fruts, as coisas que eles retiravam. A gente cortava metade, comia. Era esse nosso tipo de alimentação no dia a dia. Quando era solenidade, uma festa, tinha uma coisinha um pouco melhor, um frango. Mas falar pra você que eu me lembro de ter comido uma lasanha, de ter comido um churrasco à vontade, isso eu não me lembro no convento, na minha época. Hoje é uma outra questão. Lanche, por exemplo, no McDonald's? Isso nunca. Só se a tua família te levasse, né? Se tivesse uma festa no convento, é, você não podia comer daquele alimento da festa. Tinha que comer, por exemplo, na Expo Católica, é uma feira muito grande. E a gente foi expor lá, e tinha as irmãs, colocaram um stand de comidas, de pastel. E tinha um stand dos produtos que ela vendia. E eu trabalhei quatro dias direto lá. E no final da feira, no final, a madre falou assim: "Ai, hoje vocês podem comer um pastel." Aí a gente foi lá pegar o pastel. Quando eu fui pegar o meu pastel, fui pegar um sachê de ketchup. A freira segurou na minha mão e falou assim: "Isso aqui é para quem paga." E fez eu soltar o sachê. Então, assim, era muito difícil a questão da alimentação, porque era, era restrita, sabe? Eu tô com fome, vou lá na geladeira pegar uma coisa. Isso nunca. Só depois. Sete que vai ter o. Só no horário. E como é que era a sua semana? Você tipo, tinha uma folga? Não, não existia folga. A gente trabalhava de domingo a domingo, segunda a segunda. A gente trabalhava nos lugares da semana, que era, por exemplo, paróquias, a gente trabalhava em escritórios da Ajuda Igreja que Sofre. No meu caso, e chegava o final de semana, tinha as evangelizações. Então, você tinha que viajar para lugares para fazer pregação, fazer retiro. Então, não existia dia de folga. Não. Muito raro, muito raro. No final do ano, que tinham cinco dias que chamava convivência. Cinco dias de descanso, que aí você ficava um pouquinho mais de boa lá em algum lugar que elas conseguiam, que tinha piscina, você ficava de boa. Cinco dias só. Mas, por exemplo, sua família, férias? Só de três em três anos. E minha família podia me visitar, mas eles não vinham, porque eles moravam longe. Então, era muito raro. Mas a visita era assim, no domingo à tarde, para quem tinha perto, domingo à tarde, ficar umas duas horinhas ali, depois embora. Como é que era? Você com telefone trolado? Tinha alguém sempre no telefone ouvindo o que você estava falando? Você nunca falava com a sua família sozinha? Alguém ouvindo? Ex. Sim. Existia um lugar tipo assim, um espaço na casa, que era o telefone. E aí lá tinha uma irmã responsável, que cuidava de todas as ligações. Mais legal ser preso. Eu tô falando. Tô falando sério. Também, porque o seguinte, vale mais a pena, porque o cara vai, o cara é preso, ele vai pra igreja. Não é o contrário. Igreja vai pra preso. Isso. Isso. Isso. Por isso que o único jeito de sair do crime é indo pra igreja, que é pior, tá ligado? É isso. Entendeu? Cara, beleza. Eu sei que você vai estar tranquilo, não vai sair, não vai falar pra ninguém. Meu Deus, cara. Que relato bizarro. Muita coisa. E esse livro aqui, que eu falei pra você, ele traz todos esses relatos, não só meus, de várias pessoas. Não, não. Esse livro aqui foi escrito por um vaticanista. Ele é fotógrafo do Papa Francisco. E aí ele começou a ouvir relatos de freiras do mundo inteiro, de ex-freiras, na verdade, contando os abusos e as violências, frustrações na vida religiosa. E ele escreveu esse livro como uma denúncia. Então, assim, os católicos, eles me atacam na internet, eles falam que eu sou mentirosa, que eu não tenho vocação, que eu sou do demônio, que eu sou o diabo a quatro. Mas aí eu gosto de mostrar esse livro, porque foi um vaticanista que escreveu. Então, assim, eu tô fora da igreja, eu não pertenço mais ao catolicismo. Ok. Ah, você é revoltada. Ok. Mas esse daqui, não. Esse daqui tá dando. As pessoas têm de você, porque assim, obviamente, você tá trazendo um recorte seu, que é a sua vida, sua vivência. Deve ter. Agora, a Laura, que é do da igreja lá do Sergipe, sei lá. E falando: "Essa mulher é um absurdo, porque comigo aqui, eu como lasanha todo dia." Não, não. Falou: "Meu pão não é amanhecido." É isso. Sim, sim. Aí tem muitas irmãs que também falam. Mas tem muitas irmãs que entram em contato comigo falando: "Obrigado também por você ter falado." Ou muitas vezes que saíram, que falam: "Isso daí." Entendeu? Muita. Eu tenho, tenho tudo isso. Tem pessoas que me criticam e tem pessoas que falam: "Legal, que bom que você deu voz, porque é um tabu religioso." Se você procurar no YouTube, ex-freira, só tem eu e acho que tem uns dois, três relatos de uma outra irmã lá, que é tipo, uma, fala um texto lido. É. Ver. Tem mais ex-gay do que ex-freira. Sim. E, sim. Então, assim, é um tabu. Isso é um tabu. E aí eu vou te fazer uma pergunta. Eu trouxe aqui um cara que eu adorei a entrevista. Recomendo, se você tá gostando desse papo, assiste o papo que eu tive com o Thiago Santinelli. Thiago Santinelli é um comediante. E ele foi um cara que, que, que vivenciou o fundamentalismo, mas não no lugar de padre, né? Freira, no lugar de frequentador da igreja, frequentador da igreja. Assistiu? Assisti. É incrível o papo dele. Abriu pra caramba a cabeça de muita gente, porque ele é um cara que, cara, não podia ver o Rei Leão, aquelas coisas que você tá me falando e tal. S era do demônio, a Disney. Ele foi no catolicismo também. É, só que o papo que eu achei interessante é que ele, por ter sido muito radical desse lado, quando a cabeça dele abre, ele se torna um radical. Ele, ele até fala: "Pô, eu amo Jesus, eu acredito, mas eu sou muito, ele é muito puto contra a igreja." Sim. Sim. E aí eu faço essa pergunta pra você. Uhum. Tu sentiu isso? Porque você é uma pessoa que estava lá vivendo uma realidade que você acreditava. Como é que é pra você rezar um Pai Nosso hoje em dia? Te mexe? Não, porque na verdade, eu fui, eu fui vivendo um processo de transformação na minha espiritualidade. Eu, eu consigo separar a espiritualidade de religião. Então, hoje, eu, eu, eu posso rezar qualquer oração. Nunca tive problema com isso, mesmo quando estava no convento. Então, quando eu rezo um Pai Nosso, eu penso que Deus é natureza. Eh, eh, eu não tenho esse problema. Eu não tive essa questão de, dessa revolta, como é que eu posso dizer? Por não ter podido fazer coisas, porque na minha casa, quando eu era criança, não fui proibida de nada. Então, eu não tive essa questão de. Isso eu fui viver mais a opressão quando eu entrei no convento. Só que isso foi uma escolha minha, porque fui eu que optei por entrar e fui eu que optei por demorar a sair, porque eu não conseguia sair, porque ficava na minha cabeça, porque eu tinha vocação, tal. Então, foi um processo. Mas não, eu não sinto aquela revolta. Eh, eu não sei onde. Não é isso. Eu só, eu só quero viver a verdade para mim. A verdade é você viver a sua espiritualidade e não usar dela para ter benefícios próprios. Eu acredito em Jesus, no Jesus essência, nesse que fala, nesse que é lutador, nesse que foi morto por dois sistemas políticos e por uma religião, né? Que é antítese do que essa galera que você tá me falando faz. Totalmente diferente. Então, quando eu comecei ver lá em 2018, elas defendendo essa ideologia, eu já comecei a questioná-las, porque eu ainda tinha contato com algumas que eram as minhas amigas. Comecei a questioná-las e elas não queriam diálogo comigo. Eu falei: "Pera aí, não quer nem diálogo." Aí depois, quando chegou essa outra eleição, depois de tudo que, que tinha acontecido no Brasil, porque 2018, eu até entendo, todo mundo tava puto e queria um novo e não sabia o que, o que estava por vir. Ok. Mas depois, na segunda vez, a gente já sabia o que, o que nos esperava. Então, quando eu vi elas fazendo jejum e falando assim: "Ai, não sou culpada. Como é que é? Não faço parte dessa escolha." E postando um monte de porcaria, eu falei assim: "Não, isso daí não é fé. Isso aí é uma manipulação de um sistema." E aí eu comecei a entender tudo isso, comecei a estudar sobre isso, sobre abuso psicológico. E aí eu fui entender que o que eu vivi no convento foram vários abusos psicológicos. Caiu a ficha? Momento. Caiu. Caiu. E aí, meu pai, ele teve câncer de estômago e ele ficou muito ruim e ele morreu. E quando meu pai morreu, eu tive uma experiência espiritual completamente diferente do que o catolicismo fala, sabe? Eu tive, meu pai, ele, na noite que ele morreu, eu não conseguia dormir. E aí, na hora que ele passou mal, eu dormi. E eu senti como se minha alma tivesse saído de dentro de mim. Só que eu não sabia que ele estava passando mal. E aí eu fui trabalhar com aquela angústia. E aí a minha irmã falou assim pra mim: "Bruna, o pai tá no hospital com 35 de saturação." Ele tinha câncer de estômago. Ali eu entendi que o meu pai ia morrer. Só que eu falei assim: "Deus, eu quero uma resposta. Se existe algo além disso aqui, eu quero que o meu pai morra ou às 15 horas ou às 18 horas. Eu não quero nem saber. Se ele não morrer nesse horário, para mim não existe mais nada." E aí eu fiquei o dia inteiro ali naquele processo. E quando deu 18 horas, o meu pai morreu. 18:05, a minha irmã mandou mensagem e falou: "O pai foi." Falou assim: "Aí eu não sabia se ele tinha ido fazer algum exame da cabeça, né, que ele ia fazer, ou se ele tinha ido embora." Eu falei: "Foi o quê?" Ela falou: "Ele partiu." Quando eu peguei o atestado de óbito do meu pai, estava lá: 18 horas. Então, aquilo mudou totalmente a minha experiência, porque o meu pai veio me avisar o que estava acontecendo com ele. Na hora que eu consegui dormir, que eu senti minha alma saindo, foi a hora que o meu pai teve o AVC. Minha mãe falou: "Ah, foi tal hora." E eu me lembro muito bem, porque eu estava acordado. E foi a hora que eu acordei. Então, foi ali eu percebi que eu vivi uma coisa sobrenatural, que era totalmente diferente do que o catolicismo falava. Porque o catolicismo é totalmente contra o espiritismo. Eles falam. Então, você só se comunica com Deus. Mas se você for parar para pensar, eles falam que o espiritismo não é errado, porque chama os mortos. Mas os santos são pessoas humanas que morreram. Em quem que eles invocam os santos? Só que o santo pode invocar porque ele foi canonizado. Uma pessoa comum não pode. Mas é a mesma coisa, você entende? Então, aí eu comecei a questionar tudo isso. Falei: "Peraí, agora já entrou numa outra esfera." Então, entrei na esfera política do fundamentalismo e entrei na parte da espiritualidade, que mexeu com a minha cabeça. Falei: "Não, não. Isso que eu vivi, eu sei que é real. E eu sei que o catolicismo não se enquadra nisso." Então, eu falei: "Acabou." Já estava tacando mesmo, [ __ ] entendeu? E aí mudei. E aí fui buscar outras coisas. Falei: "Aí fiquei perdida." Vi, vi a Monge Co. Foi a primeira vez que eu comecei a ouvir pessoas de outra religião, antes disso acontecer. E eu gostava, falava: "Mas tô gostando que essa mulher tá falando, tá me tocando." E aí depois eu fui buscar outros caminhos. E aí eu, hoje eu não tenho religião nenhuma. Não te perguntar isso. Nenhuma? Não. Hoje eu sou taróloga. Eu leio tarô. Eu gosto das coisas da, da espiritualidade. Mas, mas você tem uma crença divina? Da história do seu pai? Eu acredito num transcendente, numa força, numa energia física quântica. Isso, sou bem dessa linha. Eu não consigo ser cética. Não consigo. Porque eu, eu sinto coisas, experiências. Deus para mim, Deus é tudo que está ao nosso redor. A natureza, o céu, a terra, o mar. Para mim, ele é uma força que nos toca, que nos une, que nos faz evoluir, sabe? Mas eu não sei definir Deus. Não sei. Mas Deus para mim, ele está em tudo e em todos. Mas eu, com certeza, agora, o meu achismo, assim, é, não sei o que, se eu vou mudar de opinião daqui a dois anos e tal. Mas eu tenho muita sua teoria, porque assim, não pode, isso daqui não pode ser punitivo. Isso daqui não pode ser, na minha visão, tá? Sou eu, posso estar errado. Você vai ficar puto, mas eu concordo com você. Sim. Sim. Não pode ser, não pode ser uma coisa que é uma, uma crueldade e punitivo. Acho que isso tudo muito cruel. Esses Deus, esse Deus que eles pegam, sim, é um Deus muito, muito violento. E eu.
Não acredito na violência como força de transformação. Acredito no amor. Eu sou contra armas. Eu sou contra armas, entendeu? Eu acho que o... Eu acredito na evolução do ser humano, só que a evolução através do amor. Eu acredito que sou, somos todos iguais. Acredito em construção de pontes e não de muros. Mas eu acredito real que isso dentro de mim, eu não consigo mudar isso dentro de mim. Tô falando muito essa frase, tá? Eu vou repetir essa frase. Tudo tem a ver com o lado interno, tá? Já falei isso, vou repetir a frase que eu falei hoje aqui em outra entrevista, que é o seguinte: a gente se foca muito no externo. A gente se foca muito no externo, no "eu tenho que", "eu tenho". Não é "eu", é "é o meu carro que gera para você". Então, eu tô com carro para te impressionar. Eu tô com emprego para impressionar o outro. Então, é tudo baseado no externo. E para mim, Deus é o interno. Essa é minha visão.
Então, quando você pega um bando de gente que tá reprimida, às vezes eu também, você tal, a gente tem umas questões. O nosso interno tá muito ruim, sim. E quando a gente tá com esse ruim, a tendência é a gente achar que o mundo inteiro tá ruim também. E não é uma verdade, sim ou não? Então, por isso que eu acredito que a melhor construção que a gente tem é essa [ __ ] do autoconhecimento mesmo. Então, se você melhorar, quando você tá bem com você mesmo, que eu acho que isso é a grande força divina, você tá bem com o mundo. Então, parte do interno para o externo é a minha visão de mundo, é o que eu acredito, sim, sim.
É que eu tava falando hoje, a gente viu aquela doação que chegou no Rio Grande do Sul de sapatos. Não sei se você viu, de sapatos todo velho. Aí a pessoa falando: "Ó, não dou isso aqui, isso aqui é humilhação". E aquilo tipo, estourou. Mas um monte de pessoas doou coisas maravilhosas. E isso daí não, não viraliza, entendeu? O mal viraliza. Mas será que o mal, ele é maior? Ele não é. Eu sou tipo de pessoa que eu ando pela rua vendo as árvores floridas e falo: "Olha que árvore linda". Eu fico tirando flores, fotos de flores. Então, eu prefiro olhar o mundo assim.
Mal, então... Mas se você tá mal, por que que você fica brava com a galera da igreja? Porque, na minha visão, no meu achismo, essa galera tá muito, digamos, amargurada por conta de tudo isso. Porque se você parar para pensar, se você não tivesse aberto tua cabeça para esse lugar, você talvez se tornaria uma dessas pessoas que você critica hoje. É, mas se você não tivesse aberto, se você fosse uma pessoa que segue o "by the book", lá, você seria uma pessoa que falaria: "Nossa, a Bruna é insuportável". E aí você, a, a, a sua raiva, ela ia virar para outra pessoa. E você vai transformando. Então, então essa galera que tá comandando as pessoas, comandando a sociedade, é um bando de gente tá amargurada, sim. Total, total. E assim, só sabe porque eu acho que não são vítimas. Então, são vítimas. Só que é muito difícil, às vezes eles pegam numa parte sua que eles te, te tiram do eixo, sabe? Porque assim, eles querem seguir Jesus radical. Ok, seja radical, é seu direito. Existe um livre arbítrio. Mas não critique o outro que não quer ser radical. É nisso que eu, que eu, que eu falo, entendeu? Que eu não, que eu não aceito. Eu tenho que, eu posso decidir por mim. Eu não posso decidir pro outro. Por que a decisão do outro tem que tá errada?
Mas Bruna, por que que as pessoas ficam [ __ ] quando o gay dança? Porque o cara não pode dançar. Ele pode dançar. Que ele tem uma repressão dele. Porque ele cresceu num sistema que ele olha pro gay dançando e ele fala assim: "Não é que ele adoraria estar dançando, mas ele sabe que se ele faz aquilo, é ruim na cabeça dele". Então, ele critica para ele não ter que fazer. Essa é a minha visão. A mulher que transa, a outra que não transa, vai ficar purê. É um absurdo. Essa mulher que transa, e no fundo, no fundo, não tá dizendo muito sobre ela querer também um pouco mais de liberdade que ela não tem. Sim. Mas eu acho que isso é questão de você estar condicionado a sistemas, de você já nascer dentro desse sistema, você não conseguir. Sim. Mas se você não consegue furar essa bolha, cla... Mas o sistema te condiciona você ter amargura. Sim, condiciona. Mas aí, com o autoconhecimento, você vai enxergando que tudo isso precisa se transformar. Eu vivi também dentro do sistema, né? Eu acreditei na vida religiosa. Eu acreditei que voto de castidade me faria santa. Voto de pobreza, obediência. Você pode reparar que todo mundo que é amargurado, sofre um radicalismo mental, sim. Só que depois eu fui vendo ali que tipo assim, gente, isso aqui não faz sentido para mim, sabe? E nem era os votos, na verdade, era a questão da hipocrisia que eu vi ao meu redor. Não foi os votos que me fez sair do convento. Não tinha problema com isso. Foi a hipocrisia.
Mas assim, eu acho que você tem direito de ser radical. Quer ser radical? Quer seguir Jesus radicalmente do jeito que você acha? É seu direito também. Como eu tenho direito de não seguir. O que me deixa [ __ ] é ficar apontando o dedo, falando: "Isso é certo, isso é errado". Isso eu não, eu não consigo aceitar. "Ah, você tá errado". "Ah, você vai pro inferno". "Ah, você é isso". Sendo que o inferno foi criado pela igreja. Por que que não vai estudar a história da igreja? Lembro que no convento, na hora do almoço, a gente tinha que ler livro. Ficava uma pessoa lendo, a gente comia em silêncio. E a gente tinha que escutar a leitura de um livro. E um dos livros que eles liam era dos padres do deserto. E tinha uma leitura lá que o padre do deserto queria ser santo. Então, ele tava com um ferimento e ele deixou os bichos comer a pele dele, a ferida dele, para que ele se tornasse santo. Aí eu falava assim: "Gente, mas isso aí te leva santidade? Seu corpo não é santo? Não diz que você é templo do Espírito Santo? Como que você vai deixar o bicho comer seu corpo?". Ou tinha lá um outro lá santo que, quando nasceu, não bebeu leite materno da mãe, porque não queria, não podia sugar o seio da mãe. Eu falei assim: "Aonde que tá o pecado de você beber o leite materno da mãe?". Então, assim, eram umas coisas que ali dentro eu pensava: "Meu Deus, isso é um absurdo". Sim, né? Mas a maioria das pessoas nem tem conhecimento disso da doutrina, do dogma. Então, essas pessoas que são mais simples, que estão rezando o terço, que estão indo à missa, fazendo novena, de verdade, eu acredito na fé delas. Eu acredito na pureza delas, porque elas não sabem da verdade.
Agora, existe uma instituição de poder que é uma realeza, né? Eu sempre falo, o Papa é o rei, os cardeais são os príncipes, aí tem os, os lords, cada hierarquia. E nós que somos os comuns, a gente é os plebeus. Aí a gente fica lá batendo palminha para eles no altar, reverenciando eles no altar. Mas você acha que toda a igreja é assim? O sistema da igreja é assim? Então, toda a igreja é assim. Agora, como a pessoa vive a fé dela, aí é algo particular, né? Então, se ela acredita na novena dela, isso, isso é real, é ela e Deus, da forma como ela enxerga Deus. Mas ela tá condicionada a esse sistema. Só que eu não posso julgá-la sob esse sistema, porque ela não faz parte disso. Ela tá meio que a parte disso, entendeu?
Sabe quando que eu desconfiei disso aí? Foi uma vez quando era coroinha, né? Tinha: "Ah, Deus vê e tudo e escuta tudo". Falaram isso para mim. Aí eu fiquei na cabeça: "Então, por que que eu tenho que vir aqui na igreja falar com ele? Porque eu posso falar de casa, né?". Esse pensamento. E aí eu meio que comecei a ter minhas, minhas, que eu tenho várias hoje, né? Minhas questões com a igreja nisso aí, do tipo assim, incongruências que até uma criança busca, tá ligado o que eu tô falando? Tem várias, né? Tem várias.
Bom, Bruna, que a gente não passa mais do que três horas e meia. A gente não faz isso. Você já viveu isso na igreja? Essa punição? Você já passou? Não queremos fazer isso com você. Quer te deixar dormir. Tem pão ali fora, se quiser, você fica. Pode comer. Tem lasanha, se você quis. É, ó, fica à vontade para você comer. Ah, uma pergunta antes de terminar. Você teve algum hábito que você conheceu depois, você falou: "Bebida". Ah, eu não gosto de bebida. Já tomei "Ving", mas não gosto do gosto. Então, eu não bebo por todas as questões. Eu não gosto do gosto da bebida e também porque meu pai bebia muito quando a gente era criança, ele brigava com a minha mãe. Mas, di... Assim, teve alguma coisa de libertação que você falou: "Agora vou começar a fumar"? Ah, não, fumar não gosto também. Tatuagem? Por tatuagem, mas não teve uma coisa. Vou jogar videogame porque não podia lá? Ai, não, nada. Ver novela? É porque, na verdade, eu não me sentia oprimida. Eu não tive essa sensação de não poder fazer, porque eu fui criada livre. Minha mãe me criou livre. Por exemplo, minha mãe nunca, na minha casa, não existia: "Você tem que casar virgem". Nunca tive esse tabu dentro da minha casa. Não tinha essa opressão. Igreja te deu isso? Foi a igreja depois que eu entrei que me deu isso, né? Que talvez por isso que você se questionou, porque você veja uma, uma educação libertária. É tipo, minha mãe sempre ensinou a gente a assistir muito documentário, a ver as culturas. Minha mãe, ela pesquisa sobre culturas. Ela é uma mulher simples, mas ela tem esse entendimento. Então, assim, na minha casa, meu pai não deixava a gente assistir coisas até tarde, mas tipo, toda sexta-feira a gente assistia Globo Repórter, que mostrava alguma coisa do mundo. Então, eu fui educada assim. Então, desde que eu entrei no convento, sempre bati de frente com o sistema. Só que eu não podia falar, tinha que ficar quieta. Aí quando eu comecei falar, quando eu comecei a demonstrar, aí que o negócio lascou para mim. Porque aí eu era tida como rebelde, como meu grupo, né? Porque a Jaque é minha amiga também, era freira. Ó, e a gente era da quadrilha. Freira, aí, ó, já tem duas aqui, já tá. E tinha outras que eram da quadrilha. Mad falava: "Vocês são uma quadrilha, vocês estão dest..." Ela falava que ia pegar um cabo de vassoura e expulsar esse tipo de gente que nem cachorro. Que bacana. É porque um dia, não sei se você já ouviram falar na Campanha da Fraternidade que tem na igreja. E quando eu era criança, tinha uma Campanha da Fraternidade na minha cidade. Tocava assim, num alto-falante, uma música. E desde criança, eu gostava, que falava de cuidar dos pobres. E aí chegou uma doação de vários livrinhos da Campanha da Fraternidade. E tinha desse ano, acho que era 1992. E eu olhei, era uma silhueta de Jesus carregando o Bom Samaritano. E eu peguei essa revistinha e falei assim: "Olha, a campanha de 1992 que tocou meu coração quando eu era criança". Aí a madre viu, ela falou assim: "Você tá vendo revista pornográfica? Isso aí é um homem segurando uma mulher". Ela falou isso para mim. "Eu tô, eu tô para expulsar daqui que nem cachorro. Vou pegar o cabo de vassoura e vou expulsar gente desse tipo". 34, meu amigo, né? Enfim, estamos em 2024. Não sei quando você tá assistindo esse vídeo, mas já saímos de 1346. E deixa aqui os comentários, obviamente. Eu queria deixar aqui, primeiramente, um agradecimento. Legal você dar o seu tempo aqui para testemunho, de alguma maneira. Eu vou deixar aqui na descrição do vídeo as informações aqui da Bruna, caso você queira conhecer mais o trabalho dela, ver o Instagram dela, bater um papo, fazer perguntas, que provavelmente a Bruna pode ter respostas para você. E convidar você a encaminhar esse vídeo para pessoas que precisam escutar um pouco sobre isso. Talvez é assim que a gente fura bolhas. E acho que muita gente tá dentro de bolha. E qualquer bolha para mim é uma burrice. E a gente tá cada vez mais entrando na era de ficar dentro da bolha, sentindo o próprio cheiro dessa bolha. Eu acho uma burrice isso, sendo que o mundo ele não é um algoritmo. O mundo ele é muito mais plural. Tá certo? Obrigado aí. Valeu. Insider, deixa o like para ajudar esse vídeo a subir. Tchau, tchau. [Música]