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"Paciente já chega com aquela história de que não, não é asma, não é uma bronquitezinha, como você acabou de falar. Por isso que eu acho importante dar o nome aos bois. Você tem que dizer: 'Olha, o nome disso é asma. Ele tem asma. Ele não tem bronquitezinha, ele não tem tosse alérgica'. É o preconceito da bombinha. Ah, bombinha mata, a bombinha vicia, faz mal pro coração."
"E quando ele voltou, doutora, o médico do pronto socorro me disse que ele tem asma. Eu falei: 'Você acha que ele tem o quê esse tempo todo que a gente tá tratando?' Então, asma tira férias, não se dá à criança tira férias. Ah, mas tá de férias. Nas férias eu não vou dar isso não. E tamanho de pulmão não significa nada, senão enfisema tava bom, né?"
">> Tem que cortar a cabeça do peixe e tomar o sangue >> quente, >> quente, vivo, >> né? É, um colega da Espanha lev levava dados completamente desatualizados do Brasil, dizendo que nós não tínhamos nada e era uma sala com 1000 pessoas. E aí eu pedi a palavra e eu falei: 'Olha, o senhor tá enganado'."
"[Música] [Música]"
"Quem nunca ouviu aquela clássica frase: 'Meu filho tem só uma bronquitezinha'?"
"Oui. A criança usa bombinha há anos, mas os pais dizem: 'Não, ele não tem asma não.' Para não falar o tabu das bombinhas, o medo de usar bombinhas."
"A nossa convidada de hoje vai esclarecer todos esses assuntos que envolvem a asma, os tabus relacionados às medicações e a sua preocupação é tão grande que até em uma instituição para esclarecimento das pessoas, esclarecimento sobre a doença, ela atua ativamente. Vamos dar as boas-vindas à nossa convidada de hoje, Dra. Zuleide Linhares, ao Raio X Talk Show. Obrigado, Zuleide."
">> Obrigada, Mauro, pelo convite."
">> Está preparada para ser escaneada pelo Raio X?"
">> A gente tá sempre, né?"
">> Por que que é tão difícil pros pais o Leda aceitarem que a criança tem asma?"
">> Porque bate naquela coisa de que eu não fui perfeito."
">> Hum. Porque ninguém quer ter um filho com defeito. E eles entendem que asma é um defeito. E quando você dá o diagnóstico, a briga começa. Olha, não é da minha família, deve ser da sua. Porque ninguém quer ser o dono da situação. Então é muito difícil."
"Paciente já chega com aquela história de que não, não é asma, não. É uma bronquitezinha, como você acabou de falar, é uma tosse alérgica, é qualquer coisa, menos asma."
">> A gente vê isso para quem não conhece. Dra. Zuleide, ela é pneumologista pediátrica das mais reconhecidas aqui no Brasil e tem experiência grande no tratamento das crianças com asma. Eu vejo isso também nos adultos, Leid, porque é muito comum a gente atender uma pessoa adulta, às vezes por volta dos seus 30, 40 anos, que vem com cansaço, falta de ar, quadro típico de asma. Aí você fala: 'Não, você tem asma?' Ele falou: 'Não, doutora, nunca tive asma. Tinha bronquite quando era criança, já virou asma', como se asma fosse um upgrade da doença, fosse uma doença mais grave."
">> Essa percepção que >> Exatamente a mesma coisa e dizem assim: 'Mas não vai fazer nenhum exame para provar isso porque o que ele quer, ele quer um exame que vem escrito asma'."
"E aí quando você diz que na criança é impossível fazer isso, que você vai fazer uma prova de função pulmonar só para uma criança acima de 6 anos, antes disso não dá para fazer. E quando você diz que o diagnóstico é eminentemente clínico, ainda mais complicado. E a gente ainda tem uns agravantes, né, que até 2024 no Gina a gente não tinha como dizer que aquela criança menor era asmática. Melhorou porque agora a gente já tem a chancela para dizer antes, ó, não é bebê chiador, é asmático."
">> Já que você falou de Gina, eh, Zuleide, explica para quem não tá assistindo aqui, que não entende esse palavreado. O que que é a Gina?"
">> A Gina é um consenso, né? É uma organização, uma Global Initiative for Asthma, né? Uma iniciativa global de médicos especialistas que criam não regras, mas criam consensos, né? Fica melhor dito para nos ajudar, para ajudar no dia a dia, todo mundo que lida com asma, como conduzir asma, como fazer diagnóstico, >> tratamento, >> como fazer o tratamento, os melhores tratamentos, os tratamentos mais atualizados, porque a coisa vai mudando, é dinâmico. Então, o que era verdade há 20 anos já não é mais. Chegaram novos medicamentos, tem mais chance de fazer diagnóstico. Então o Gina antes não nos dava capacidade, não nos dava chancela para dizer para uma criança com 4 anos, por exemplo, que era asmática, a gente chamava de bebê chiador, crianças com 2, 3 anos."
">> Isso, isso é uma coisa que sempre me incomodou. Desde que eu trabalho na pneumologia, desde a residência, eu vejo criança chiando, o bebê chiando, para mim sempre foi asma, >> né? E e você falava com os pediatras, não, não é, você não pode falar que é asma, ele é um bebê chiador. Eu uma vez eu falei com o saudoso Fernando Fiúza, na época eu era eh neófito, iniciando, ele já era experiente. Falei: 'Fiusa, que história é essa de bebê chiador?' Ele falou: 'Eu também não entendo porque que o pediatra não chama a criança com asma de bebê chiador'."
"Tem preconceito do próprio pediatra em relação à doença?"
">> Tem. Esse é o problema. Tem preconceito do próprio pediatra, porque ele não quer assumir que é que a criança é asmática, não quer introduzir o o tratamento adequado, que seria o corticoide inalatório, o broncodilatador, quando necessário. Então fica aquele tratamento meia boca, você vai trata a crise, aí você vai dar um xaropezinho, um antialérgicozinho, porque na pediatria tudo é no diminutivo, né? E um corticoidezinho, corticoidezinho oral e com medo de usar o medicamento inalado, porque a família não quer, como você acabou de falar, é o preconceito da bombinha. Ah, bombinha mata, a bombinha vicia, faz mal pro coração. Todas essas bobagens que só fazem atrasar o diagnóstico. E a gente sabe que um diagnóstico atrasado vai repercutir na saúde pulmonar dessa criança a vida inteira. Então a gente precisa mudar isso."
">> Verdade que você tem um caso da criança que usava a medicação da bombinha há 3 anos e os pais não sabiam que ela tinha asma."
">> Não."
">> Como é que é essa história?"
">> Essa história é muito boa. Porque essa criança asmática fazendo uso, olha só, fazia o uso de corticoide inalatório e broncodilatador de longa ação."
">> Asma grave. Então, >> Asma grave. Essa criança já tinha ido para UTI não sei quantas vezes e tá tratando. Quando foi um dia, essa criança chegou no pronto socorro com otite, né? E não sei porque cargas d'água o pai tinha diminuído o medicamento da criança e a criança chegou sibilando e o pediatra muito adequadamente a escutou, falou: 'Ele tá chiando, ele é asmático?' 'Não, não é asmático não. Nunca falaram que ele é asmático?' 'Não, de jeito nenhum. Ele não é asmático. Na minha família não tem ninguém asmático'."
">> Imagina, na minha família essa praga não vai."
">> Aí o médico falou: 'Bom, então eu vou medicar, né?' E aí fez a prescrição exatamente a que ele usava. 'Não, não, doutor. Esse remédio ele já usa.' 'Mas então ele é asmático?' 'De jeito nenhum. O que ele tem é uma tossezinha alérgica.' E quando ele voltou, doutora, o médico do pronto socorro me disse que ele tem asma. Eu falei: 'Você acha que ele tem o quê esse tempo todo que a gente tá tratando?' Aí eu fiquei sabendo que ele não tinha entendido. Então veja a nossa responsabilidade, desculpa que às vezes mesmo a gente tentando explicar todo dia, achando que tá sendo claro, às vezes não é. A gente não foi claro o suficiente. Por isso que eu acho importante dar o nome aos bois. Você tem que dizer: 'Olha, o nome disso é asma. Ele tem asma. Ele não tem bronquitezinha, ele não tem tosse alérgica', porque senão, se você não conhece, não tem adesão, né?"
">> É, tem importante para as pessoas que estão assistindo. No Brasil, eh, são aproximadamente 20 milhões de pessoas que têm asma. Isso. A maioria dessas pessoas, 90% das pessoas, além de eh a maioria deles não saber que o nome da doença é asma, eles não têm a sua doença controlada. E a repercussão disso é que morrem no Brasil sete pessoas por dia por crise de asma. Exatamente porque não segue a orientação do tratamento. Tem muito tabu com bombinha, né?"
">> Muito não. E na pediatria a coisa ainda é pior. Nós temos 250 mortes anuais de criança por asma. Isso quando a gente pensa que o diagnóstico >> no Brasil, só no Brasil, >> no Brasil, por uma morte totalmente eh, sabe, evitável, porque não se faz o diagnóstico. Quando faz o diagnóstico não se trata de forma adequada. Um trabalho recente mostrando que nós temos só 13% da população pediátrica tratando e com controle da doença. É muito triste tudo isso."
">> Muito, muito triste. Agora o tabu das bombinhas, eh, e tem e os mitos relacionados a isso também, né?"
">> Você você escuta muito os pais não querendo dar bombinha por causa de de medo de de coração."
">> Mauro, o medo é de todas as coisas. Porque o seguinte, o paciente escuta corticoide e para ele corticoide, para você que tá ouvindo, isso é importante, corticoide tanto faz inalatório como oral, na cabeça dele é tudo cortisona. E ele ouviu dizer que isso faz mal, que isso atrapalha o crescimento, que isso vai ter que as mulheres têm medo de engordar com o corticoide. O pai tem medo da criança não crescer. Às vezes o pai tem 1,60 m, mas ele quer que o menino fique 1,80 m. E a a culpa de não crescer é porque usou remédio, asma, né? Então ainda tem isso. E por esse motivo, inclusive, foi que a gente fundou a ABRA, né, que é a Associação Brasileira de Asmáticos, nós fundamos há 25 anos, foi uma das fundadoras por esse motivo, porque eram vários colegas trabalhando em locais diferentes e a gente sentindo essa mesma dificuldade nos vários nas várias partes da cidade. É todo mundo com medo da bombinha porque acha que vai a história assim, vai atacar o coração. As pessoas confundem taquicardia com ataque cardíaco. Então o aceleramento que nós todos sabemos que acontece quando você usa um broncodilatador e que se chama taquicardia, na cabeça dessa pessoa é um ataque cardíaco. E a gente sempre explica, quando essa criança corre para pegar bola, corre para pegar um ônibus, corre para brincar, o coração dela também acelera. Então o a a taquicardia decorrente do medicamento de asma, ela não tem consequências no coração, mas a família tem medo. E a família tem um dos maiores medos que eles têm é de viciar."
">> Isso. Isso é verdade, né, doutor? Mas eu preciso usar essa bombinha mesmo. Não vou viciar na bombinha."
">> Não vou viciar. Então eu sempre digo assim, a pessoa que usa óculos, ela não viciou no óculos, é porque ela enxerga. Então o paciente que começa a usar o medicamento de asma, ele não quer largar mesmo, porque devolve a ele qualidade de vida. E para a criança, principalmente, é uma judiação, porque às vezes a criança, a a mãe chega, você pergunta, ele tem alguma coisa que ele não consiga fazer? Não, tudo bem, ele só cansa quando ele brinca. Então, o que mais que essa criança pode fazer? Ele joga futebol toda todo dia com as crianças. Sim, mas ele joga de goleiro. Ele não consegue acompanhar de ponta."
">> É, ele não consegue acompanhar o centroavante. Se ele é zagueiro, ele não consegue fazer o gol. Então põe ali de goleiro."
">> É, é, >> mas o fato é que e essa questão do do do programa coração vem do mito e até para quem tá assistindo dos primeiros medicamentos que há um século atrás que vieram os primeiros broncodilatadores e eles realmente tinham um efeito eh maléfico ao coração porque eles não eram seletivos."
"Hoje os remédios são absolutamente seguros porque eles são seletivos para agir só nos brônquios. Então não há esse risco de primeiro viciar e segundo de fazer mal pro coração."
">> Claro. Claro. E o que a gente sempre diz, o que vira droga, é álcool, né? Açúcar. Ninguém tem medo de dar açúcar para criança. Eles se enchem de açúcar, mas na hora de dar o remédio, que vai devolver qualidade de vida, não querem dar o remédio para a criança, né? E é muito difícil porque às vezes o próprio colega do pronto socorro, isso que é triste, que sua criança chega no pronto socorro por uma questão qualquer e o pai, nesse caso, sabendo que tem asma, escuta do generalista: 'É, mas será que precisa usar isso mesmo? Ele é tão pequenininho, né?' E a gente vê que 20% da população pediátrica tem asma. É a doença crônica de maior prevalência na infância. Então não dá para você não tratar, não dá ainda nos dias de hoje para essa ignorância e para que não se trate essas crianças."
"E essa criança vai ao pronto socorro com uma crise de asma, às vezes a primeira, a primeira crise, e sai de lá com a prescrição do broncodilatador, do corticoide oral, esse sim perigoso. E ninguém tem a decência de prescrever um corticoide inalatório ou pelo menos de encaminhar para alguém, né?"
"Agora, outra questão relacionada aos remédios, às bombinhas, é o uso do remédio, porque a pessoa precisa saber usar o medicamento. E isso nos adultos, eu acho até que as crianças sabem usar melhor do que os adultos as bombinhas. Não sei se você que tem experiência na pediatria se vem muito erro com as bombinhas."
">> Mauro, vem cada coisa, vem cada coisa. Eu já tive criança, coitadinho. Ele tinha entendido quando eu expliquei no consultório, expliquei como ia fazer. Ele usar o dispositivo, a cápsula que aspira, né? Chegou em casa e o pai tinha ido na consulta e ele foi usar em casa com a mãe e a mãe falou: 'Ah, você entendeu tudo errado. Esse negócio aí não é para fazer nada disso, não. É remédio para asma, você vai tomar'. E o menino ficou tomando a cápsula por dias. Aí o pai olhou, né? Continuou, não ficou ruim só assim. O pai leu, falou: 'Não, tá errado. Aqui tá escrito aspirar'. Ah, é mesmo. Aí abriram e puseram no nariz, sugaram de um lado e de outro. Então, o único que tinha entendido que era a criança não foi ouvido."
">> Não foi ouvido, >> né? E isso acontece demais. Sem acontece de parar o medicamento porque chegou o verão. Então, asma tira férias. Não se dá à criança tira férias. Ah, mas tá de férias. Nas férias eu não vou dar isso não. Ou então vai passar o fim de semana na casa de alguém e aí suspende o remédio >> e vai na casa da avó que tem um cachorro que tem coisa velha dentro de casa, tapete, carpete antigo, entra em crise na casa da >> entra em crise. E aí eles chegam dizendo assim: 'Não, na casa da vovó ele passou mal porque ele tem alergia do cobertor'. Falei: 'Não, ele não tem alergia do cobertor, ele foi o gatilho'. Porque essa palavra é difícil para para explicar, né? Mas o que desencadeia às vezes a criança tá dormindo com o inimigo, você tá fazendo toda orientação na depois você descobre que ali é o foco. Na pandemia foi fácil ver isso porque a gente fazia consulta, muita consulta online e você >> quer ver ela, deixa eu ver o quarto. Quando eu olhava, falava, por isso que essa criatura não melhora, né? Aí você via, tinha coleção de latinha, tinha coleção de bonequinho, aquilo não via uma limpeza há anos, então por isso que piora, né? E porque a criança tem muito isso."
"Agora a gente tava falando da criança que vai jogar futebol com os amigos e põe ela para jogar no gol, né? Você tem caso de criança que tratou e virou campeão?"
">> Tem, tem uma menininha, essa história é fantástica. Ela tem 11 anos agora. Se ela tiver nos ouvindo, um abraço para você, Sara, né? A Sara veio para mim indicada pelo pelo treinador, porque para nadar ela conseguia 40 metros, ela não conseguia nem o 50. Ela saía muito bem, mas ela literalmente morria no caminho, não tinha fôlego para ir adiante. E o treinador já me conhecia, né? E veja o que que tava acontecendo. Ela tinha mudado de treinador e os treinadores dando uma série de coisas porque achando que ela não tinha força. Ela tava tomando creatina, tava tomando proteína, tomando tudo porque achavam que ela não tinha força, porque ela era muito magrinha. E ela chegou e o treinador viu que tinha alguma coisa e veio. Em seis meses ela ganhou todas as categorias que ela disputou >> depois do tratamento."
">> Depois do tratamento. Essa menina é para mim um exemplo, porque veja só, era uma criança, você imagina a capacidade, com tudo isso, ela ainda nadava, né? Agora ela fala e ela me pergunta bonitinha, ela fala assim: 'Isso não é doping, porque eu tô nadando muito rápido, eu tô melhor do que todo mundo'. Falei: 'Não, o seu pulmão tava ruim'. E é importante a gente falar isso, né, para as pessoas entenderem, porque muitas vezes entendem que é doping. Mas um medicamento que só vai melhorar quem tem a doença, ele não é considerado doping."
">> É, tem só que fazer a declaração na medicação lá na competição. A pessoa que faz o tratamento declara e pode competir. Tanto que tão está cheio de campeões eh olímpicos e natação e ciclismo, onde tem os maiores medalhistas >> olímpicos com asma. No Brasil a gente tem o exemplo do Fernando Scherer, o Xuxa, o César Cielo."
">> César Cielo já fez muitas campanhas pra gente lá na ABRA, inclusive, e ele conta muito essa história, né? Pai dele é pediatra, você sabe?"
">> Não, não sabia."
">> Pai dele é pediatra. E o pai disse que naquele na >> o pai dele achava que ele tinha asma ou não?"
">> O pai dele não achava que ele tinha asma, entendeu? Não achava que ele tinha asma. Depois começou a achar e aí foi tratar e ele virou essa potência que ele é, porque ele é fantástico, né? O o Xuxa, o Fernando Scherer, ele tem uma história que ele conta que ele treinava em Santa Catarina quando era adolescente e que uma vez no meio da piscina ele teve uma crise de falta de ar que ele teve que sair da piscina porque ele achava que iria se afogar, >> né? E e aí ele descobriu e começou a fazer o tratamento. Então você veja, você que tem asma com o tratamento adequado, você pode ter uma vida absolutamente normal, né? Pode virar campeão olímpico. Quem tem asma é a Marta, seis vezes jogadora melhor do mundo. Ela tem asma."
">> David Beckham."
">> David Beckham >> que é um excelente jogador, além de tudo bonito, né?"
">> O Beckham, o Becken tem uma história interessante que a primeira vez que aí descobriram, né, que os tabloides ingleses eles são loucos para para fazer sensacionalismo. Em 2009, se não me engano, ele tava jogando nos Estados Unidos. O time dele era o Los Angeles, tava fazendo a final da do Campeonato Americano, acho que contra o South Lake, se não me engano. E o jogo tinha acabado 1 a 1, ia para a prorrogação, né? E ele jogou 120 minutos. Só que no intervalo entre o jogo e a prorrogação, a ESPN flagrou ele usando a bombinha no banco de reservas, estava naquele 5 minutos de desconto. Ele usou a bombinha. Aquilo foi o escândalo. Os jornais ingleses publicaram: 'David Beckham tem asma. Ele não tem mais condição de jogar na seleção da Inglaterra', porque até a Copa do Mundo no ano seguinte começaram a questionar se ele ia ter condição de jogar na seleção inglesa. Para você ver como é o a a questão preconceituosa que existe ainda."
"Mas você vê o preconceito é tão grande que você pega qualquer atleta, qualquer atleta de base, tô falando, as pessoas vão e pedem o quê? Exame de sangue, pedem eletrocardiograma, ecocardiograma. Ninguém lembra de pedir uma prova de função pulmonar, que isso é um absurdo, é uma vergonha, porque é muito mais fácil um atleta ser asmático do que ele ser cardiopata. Sim, mas ninguém lembra. Então você pede um teste de esforço para um atleta de 20 anos e não pede uma prova de função pulmonar. Quer dizer, será que tem mais risco dele ser coronariano? Muito, muito menos, muito menos."
">> Como é que se pede? Então tem que pensar nisso. A gente não tá fazendo isso, né?"
">> Exatamente. Exatamente. Agora você recebe eh muitos pais que levam a criança em você pedindo um atestado para não fazer educação física."
">> É muito comum, muito comum. E aí eles batem com o nariz na porta, né? Porque na hora que chega, olha, eu trouxe aqui porque fulaninho tem asma, então não quero que faça esporte. Ah, tenta, pois então, ao invés de duas dias por semana, ele vai fazer cinco, vai fazer todos os dias, porque não existe doença que impeça de fazer atividade, >> não. E a e a atividade física melhora o asmático, >> asma, melhora a asma e aí eles vão melhorando e eles mesmo ficam muito mais felizes com tudo aquilo, porque eles vêm a capacidade que tem. Eu tenho atleta, menina que faz ginástica olímpica e que a princípio os pais não queriam que fizesse. Eu tenho uma que faz circo, sabe? As máquinas circo, >> trapézio, >> trapézio, faz tudo, tudo aquilo. E para desespero dos pais, porque falaram: 'Ah, mas esse tratamento tá mexendo com a personalidade dela'. Porque antes ela era quietinha. Claro, ela tinha falta de ar, a coitadinha só recortava boneca de papel. Agora ela tá no circo dando pirueta e brincando, né? Então é isso, é o que é o que muda a vida dessa criança, né?"
">> Eu recebo, eu recebo às vezes, eu não atendo criança, mas eu atendo adolescentes e o pai que leva o filho para não servir o exército, né? Porque tem asma. Até recentemente recebi um, no caso até justificava o menino tinha uma asma grave, mas a questão da educação física na escola e do exército também. Aí a asma existe o diagnóstico de asma."
">> É. É. Mas você sabe que ainda existe uma falha também com os próprios professores de educação física, porque o que acontece? No dia que essa criança tá em crise, OK, ela tem que ficar quieta, né? Mas eles deixam a criança de lado e ah, mas eu não vou cansá-lo. Ah, mas ele vai ter que usar esse remédio antes. E a gente tem um problema muito sério também, Mauro, que é a dispensação de medicamento na escola. Eu tenho uma carta padrão já que eu dou pros pais. Por quê? A escola diz assim: 'Eu não vou medicar na escola'. Gente, essa criança tá em crise. Se ela tiver em crise, ela tem que ser medicada. Aí eu sempre pergunto, >> mas o remédio vai na escola ou não fica com a criança?"
">> A criança está com remédio, entendeu? E aí eles não querem dar o medicamento. Eu tenho uma história muito engraçada de uma menininha que hoje é enfermeira. Ela tinha o medicamento dela na mochila e a professora ela pediu para usar e a professora falou que não ia deixar. E ela muito esperta, sabe o que ela falou? 'Eu só quero fazer xixi'. Foi no banheiro, usou o remédio, voltou e me contou. Frente a isso, eu fiquei indignada, porque veja só, essa menina correu risco porque ela estava com falta de ar, eles não queriam, não, você está é nervosa."
">> Uhum. >> E aí ela usou o remédio, me falou: 'Eu usei e melhorei'. E aí eu, a partir de agora, eu tenho uma carta que eu mando pra escola dizendo: 'Olha, é direito dessa criança ser medicada e se vocês não souberem, eu me disponho a fazer o treinamento da escola'. Mas a criança não pode ficar sem assistência, porque você não medica quando está com febre."
">> É, mas aí é diferente. Não, >> diferença nenhuma. A febre não vai matar aquele >> a febre não vai matar e a asma pode matar. Exatamente, né? Então essas coisas precisam ser muito bem ditas e para que o paciente entenda que é direito dele. A família precisa entender que é direito. Não, você não tem que esconder o seu filho porque acha que ele tem asma e que ele é menor do que o outro e que ele é inferior. Não. É uma criança que tem todos os direitos e que pode atingir o máximo desde que a gente dê condições, que a gente não atrapalhe, né? Mas se a gente não atrapalhar, já tá de bom tamanho."
"Agora, natação tem um pouco de mito também na natação, não é? Porque eu recebo algumas vezes pais que querem obrigar o seu filho adolescente a fazer natação, porque natação cura asma e o moleque não gosta de nadar, detesta natação. E inclusive algumas pessoas passam mal na natação porque por causa do cloro, >> né? Então é importante as pessoas saberem que a natação não é o melhor esporte para asma. Qualquer esporte aeróbico, bicicleta, tênis, basquete, ciclismo, esgrima, corrida, dança. Para menina, eu falo: 'Vai fazer dança, ela gosta de dançar, não precisa nadar, vai fazer dança, desde que faça, como você falou, >> com frequência, >> com frequência, com certa metodologia, qualquer atividade aeróbica é boa, né? Porque senão o cloro da piscina vai entrar na piscina, o nariz vai ficar ruim por causa do cloro, por piscina aquecida ainda, aquele vapor de cloro, ele faz a inalação com cloro e chega com chiado em casa. E sabe uma coisa que acontece que eu já reparei, Mauro, o que que eles que eles entendem? Como normalmente o nadador tem um ombro largo, eles entendem que com aquilo você abriu o pulmão também."
">> Hum. >> Entendeu? E eu já perguntei muitas vezes e os pacientes me dizem: 'Ah, mas eu era magrelinho, eu fui nadar, eu abri o meu peito'. Não, você abriu o tórax. Isso não tem a ver com que você tem >> tamanho do pulmão, >> né? E tamanho de pulmão não significa nada, senão enfisema tava bom, né? Então é bom que se entenda que o esporte qualquer um é benéfico, é maravilhoso, mas você tem que ser o que a criança gosta, tem que ser prazeroso, senão não vai ter adesão."
">> É verdade, >> né?"
">> É, a hora que eu falo para pro moleque lá ou para a menina, você não precisa fazer natação, mas eles ficam felizes porque eles não queriam vir no médico, que eles não queriam vir no médico. Eu vou te levar no médico que ele vai dizer que você vai >> vai ser obrigado a nadar fazer natação agora. É, eu tenho uns que lutam, lutam judô, lutam karatê, lutam capoeira. Faz, vai fazer isso que é bom. Agora tem aquele de pular na rua, né? O pacu, que eles saem com eles adoram também. E é, é lúdico, a criança gosta, é próprio da criança sair correndo e pulando. Então, vai fazer isso."
">> Tomar sorvete, andar descalço, tomar banho gelado, faz mal para asma o leite."
">> Mais cada uma, né? Eu tenho outra história. Tinha um menino que ele chegou para mim 9 anos, coitadinho. Ele tinha e ele era grandão. Chegou e a mãe disse assim: 'Olha, doutora, eu trouxe ele aqui porque ele tem asma e ele insiste em fazer tudo errado. Ele quer ficar descalço. O coitado, ele parecia um um boneco da neve. Ele estava todo vestido, não podia. E eu tinha o consultório em cima de uma padaria e ele não, eu quero que você trate porque ele fica doente, ele não me obedece'. Aí eu escutei, tá? Viu, ó. Então é o seguinte, para começar o tratamento, a primeira coisa que a gente vai fazer, ele vai tomar um sorvete hoje aqui. Ele nunca tinha tomado um sorvete na vida, tinha 9 anos. Pedi, minha secretária desceu, foi lá na padaria, trouxe o sorvete, deu para ele. Se você visse a cara dele, a felicidade. E ele era dentro de casa o tempo todo. O menino não fazia nada. Bom, ele não foi nadar porque ele não queria, mas ele foi pro kart e depois de um tempo ele teve que parar. Mas não por falta de competência, porque ele ficou enorme, não cabia, não cabia lá do e nunca mais teve crise porque foi tratado. Então esse mito, né, do ficar gelado, veja, às vezes a pessoa mora no 12º andar, não vou pisar no chão que o chão é frio, gente. Tem uma laje, não tá nem em contato com a terra, né? E ainda assim tem que agasalhar e tem que entender que esse gatilho não é um gatilho tão forte. Você pode ter sim pelo frio, a gente sabe que pior, a criança é muito sensível ao frio, assim como idoso, né? Mas não é não poder tomar um sorvete. Deixa tomar sorvete."
">> E simpatia."
">> Nossa, tem todas. Tartaruga você já viu?"
">> Opa. >> A tartaruga é uma maravilha. E você sabe qual é o argumento? Eu não sei se vocês sabem, vocês estão nos ouvindo. As pessoas entendem que a tartaruga tira asma, né? Então, coloca-se uma tartaruga embaixo da cama. E até então eu não entendi o argumento. Até que um dia uma me contou. Você sabe qual é? Porque não. >> Eles me disseram o seguinte: doutora, presta atenção. A tartaruga fica lá, ela pega a asma da criança. Quando ela sai de lá, a senhora vê, ela sai cansada, devagar. Falei: 'Escuta, você já viu alguma esperta que sai correndo?' Então, porque se pegar aí, eu quero saber. Mas é, são esses conceitos, né? A tartaruga, sangue de carpa, >> sangue de carpa. Eu já vi muito. Tem até no interior de São Paulo uma fazenda que cria carpa só >> com esse intuito. >> Com intuito. E tem que cortar a cabeça do peixe e tomar o sangue >> quente >> quente vivo. Ah, >> né? É buchinha. Buchinha do norte do norte."
">> Põe no nariz para que ele é da cor. Eu tive, eu tive um colega na, na, na faculdade, a gente compartilhava mesmo a república e ele vivia com rinite, não sei se ele é asmático, mas ele rinite, ele tinha muito. Aí na época aluno, aluno tudo tonto, né? Aluno de segundo, terceiro ano, se acha o como doutor >> doutor. >> Aí ele envolvido com a coisa natural, medicina natural, vamos fazer uma inalação com o buchinha do norte. Foi para no pronto, socorro, inchou tudo, o rosto ficou todo e eh edemaciado, o nariz não respirava mais. Eu não sei nem se era uma crise anafilática que ele estava tendo ali."
"Tem uma coisa que acontece muito também, que os pais costumam usar muito, é o bendito do Vicks. Esse Vicks é um inferno na vida do pediatra, porque eles colocam Vicks no nariz e aquilo é óleo. Então você vai fazer uma pneumonia, você corre o risco de uma pneumonia por aspiração de substância oleosa. E eles põem Vicks no nariz, põem Vicks atrás da orelha e põem Vicks no pé. Essa >> o do pé eu entendi."
">> Não, porque segundo eles tem uma ligação, porque ele vai passar por aqui, vai chegar até o >> O meridiano. O meridiano. >> Meridiano, né? Ah, o meridiano. >> Ah, você não sabe o meridiano também. Aqui que onde que você foi aprender isso?"
">> E banha de galinha. Banha de galinha é ótimo."
">> Quê?"
">> Banha de galinha."
">> Banha de galinha. >> Tem que ser banha de galinha bem gorda. Tem que pegar aquele óleo da galinha, misturar com Vicks, com mais 350.000 coisas e passa no peito da criança, veste um monte de blusa, cobre e aí vai fazer uma inalação. E isso vai melhorar a asma também. Banha de galinha mais um. Só que isso daí corre risco as crianças, porque para o tratamento. Você tem histórias trágicas sobre isso, né?"
">> Tem, tem. Eu tenho uma história muito triste. Tinha uma menina, estava até compensada, ela tinha uma asma relativamente grave e ficou bem, né? E estava compensada, bem compensada, uma menina de 12, de 13 anos. E aí teve um acampamento da igreja dela, era de uma igreja evangélica, não sei qual. E o pastor disse que tinha tido uma revelação de que a menina tinha sarado. E a mãe muito feliz teve a revelação. Falei: 'OK, teve a revelação, sarou, ótimo, continua com remédio'. Não, o pastor pediu uma prova de confiança naquilo. Ela tinha que mostrar uma prova de fé. Foram fazer um acampamento em Mairiporã, >> frio, >> frio, >> neblina, >> julho. >> E essa menina foi para Mairiporã sem medicamento. Ela teve uma crise, não deu tempo de ver e a criança morreu."
">> Morreu no acampamento."
">> Morreu no acampamento. E segundo o pastor é porque foi chamada de Jesus. Isso que é o mais triste. Eu não sei se é mais triste ou não. Sabe por quê? A mãe, pelo menos, ela tem esse consolo que estão ali enlouquecer, né? Claro, >> se ela souber, se ela tiver consciência de que ela ajudou a matar essa criança, ela vai ficar pior. Então, acabou se compensando, sabe? Se achando que estava tudo certo e ela mesma se perdoou. Mas a criança morreu por >> por falta de medicação."
">> Puxa vida, eu tive um caso trágico, isso aconteceu em 98. Eu lembro de 98 porque era véspera de Natal, antevéspera de Natal. Eu lembro bem porque estava tendo um jogo da final do Campeonato Brasileiro aqui em São Paulo, ia jogar Corinthians e Cruzeiro e coincidiu do trânsito dos torcedores indo para o estádio no final do dia com o trânsito próprio do do da época de Natal de compras. Então deu um nó no trânsito e um rapaz era tinha 29 anos, se não me engano na época, recém-casado, ele era um arquiteto, teve uma crise no meio do trânsito >> e ele não conseguiu chegar ao socorro. A hora que o SUS conseguiu chegar no meio do trânsito para socorrer, ele tinha tido já, Nox, foi socorrido no hospital, reanimado, mas tinha tido já eh eh falta de oxigenação no cérebro e fez vegetativo pro resto da vida. Só no hospital ele ficou internado mais de ano, depois foi transferido para um outro hospital e nunca mais voltou a ser o que era por causa de uma crise no meio do trânsito."
">> Provavelmente ou não sabia que tinha asma ou não estava usando a medicação também."
">> É. E isso corrobora o que o paciente tem medo às vezes, porque às vezes é um paciente asmático e que nessa hora e que não usa o medicamento correto, que só trata a crise, usa só broncodilatador. Aí ele tem uma crise, ele já está com uma inflamação completamente descontrolada, aí ele usa 20, 30 doses de broncodilatador isolado e morre. E aí vem a história, bombinha mata, que as pessoas misturam alho com bugalho."
"E acha que qualquer tratamento é o mesmo, que eu acho que é nossa função entender, explicar isso para que a população entenda que é uma doença crônica. E como qualquer doença crônica, o tratamento pro resto da vida. Eu sempre digo isso, ah, vai tratar o remédio, o vai usar o remédio por ponto de morrer. Enquanto tiver vivo, vai usar o medicamento. Ah, doutora, mas a vida inteira, a vida inteira. Ah, mas não vai atrapalhar o crescimento, não vai atrapalhar isso. Não tem que usar, porque ninguém questiona, por exemplo, hipertensão. Todo dia, diabético, >> colesterol, você não está tendo sintoma nenhum, mas o colesterol está alto e o cardiologista passou, você toma o remédio e com asma suspende. Todo mundo se acha no direito de tirar o remédio de asma. Já viu?"
">> É. E e às vezes a gestante ela ela está esperando o bebê, passa no obstetra, para com essa bombinha porque vai fazer mal para a gestação. E a gestante começa a entrar em e com crise de asma, vai levar um animal mal formado, se não tiver prematuridade ou abortar, porque o as a mãe com asma, se não cuidar e tiver descontrolada, vai levar essas consequências."
">> Você sabe que agora tem uma coisa boa dentro da pediatria que a gente está atendendo, fazendo a consulta de pré-natal. Então a essa mãe está passando em consulta com a gente e eu tenho pego muita mãe asmática que suspendeu o remédio. Então eu estou até convocando essas e quando eu tenho criança asmática que a mãe está grávida, eu já falo: 'Olha, vem para gente ver porque para você não suspender o remédio, porque o obstetra faz isso e bandam não são todos claros, mas tem alguns que têm esse equívoco e tira o remédio da mãe e tira também na amamentação, tá?'"
"É, agora, uma coisa boa que o asmático tem que nos últimos anos surgiram novos medicamentos que fazem com que asma, mesmo aqueles doentes mais graves, estejam absolutamente controlados, né? Porque até alguns anos atrás a gente tinha bons medicamentos, mas existia uma parcela de paciente que não controlava, mas hoje a gente tem e com disponibilidade no SUS também."
">> Cont. Uhum. É, eu tenho pacientes em uso que são os imunobiológicos. Eu tenho umas algumas histórias muito boas. Tem um garoto, ele já tinha sido entubado. Você imagina só para uma criança de 6 anos já ter sido entubada por crise de asma, né? Não conseguia compensar esse menino de jeito nenhum. Mal. Aí a última crise dele que antecedeu o uso do a o início do uso do imunobiológico, que é difícil até você conseguir para fazer todos os trâmites pro convênio, este é pelo convênio, para conseguir autorização. A última crise ele chegou no hospital com dor no peito, como uma precordialgia de tamanho mal-estar que ele estava. Mauro, esse menino com imunobiológico, ele virou outro, sabe? E é tão bonitinho porque a princípio ele tinha medo porque era injeção, né? Agora, quando chega o medicamento, porque o laboratório manda o o convênio entrega na casa dele, algum alguém tinha dito para ele assim: 'Acho que ele vai parar de tomar'. A última vez ele mesmo queria se aplicar já com medo de que alguém tomasse o remédio dele, né? Bonitinho, toma o remédio e não tem chateação e ficou ótimo, compensado com a dose mínima de de medicamento. Então é uma mudança de vida extraordinária."
">> Os novos tratamentos para asma são fantásticos, né? Muda completamente a vida das pessoas que têm a doença e elas conseguem ter uma vida absolutamente normal. Tem um senhor que trata comigo já mais de 20 anos, ele é dono de uma padaria, imagina padeiro, farinha, forno, eh eh tudo tudo de de risco pro asmático piorar. E ele fez uso de vários medicamentos ao longo da vida e sempre vinha piorando. Quando chegou imunobiológico agora, mudou completamente a vida dele. Respiração normal. E o que é pior, e esses pacientes muitas vezes têm a sinusite crônica, né? E ele melhorou também no nariz e começou a sentir cheiro. Ele começa a reclamar agora: 'Eu tô sentindo muito cheiro. Eu o cheiro tá me incomodando'. A pessoa habitua a vida inteira a não respirar, não sentir cheiro, que quando começa andar, caminhar sem esforço ou sentir cheiro, sabor dos alimentos, começa a achar que alguma coisa está errada, estranha."
">> É, eu sou um exemplo, só asma graves."
">> É mesmo?"
">> É, eu uso em muitos."
">> Opa, opa, revelação aqui, pessoal. Revelação. >> Eu sou asmática grave e até o ano passado, eu tenho um ano que eu tô tomando imunobiológico."
">> É mesmo?"
">> Até o ano passado eu estava usando oito doses de medicamento por dia. E ainda assim meu pico de fluxo era um horror e eu mantinha com saturação de 90 no máximo 89, 90. Chegava essa época do ano era o inferno, ficava péssima. E o uso de muito medicamento."
Me fez ter osteoporose. Eu comecei a ter fratura espontânea, foi juntar porque tive câncer de mama também. É um monte de coisa, né? Na idade você vai ficando velho é essa que dá, né? Quem manda viver muito. E aí começou, comecei ter muito efeito colateral também. Comecei a tomar imuno biológico. Um mês depois eu, dos oito medicamentos que eu tava usando, eu tava com quatro. Dois meses depois eu tava com dois. Hoje eu tô com uma dose única, completamente controlada, com saturação de 96 e nunca mais eu tive uma exacerbação.
>> Que abs que coisa maravilhosa.
>> É um absurdo a diferença. E tô tomando um outro imunobiológico também para osteoporose porque eu tinha perdido um monte de osso, consegui recuperar 30% de osso. Então, imuno biológico para mim foi uma mudança na minha vida. É importante você comentar isso, porque muitas vezes a pessoa que tá olhando ali tá falando, tá falando isso porque é médico, eh, tá falando isso porque tem interesse. Não, aqui é o exemplo prático.
>> É comigo, é isso que eu digo, sabe? Ano passado, em maio, eu fiquei tão mal, mas tão mal, que eu fiquei 12 dias sem conseguir sair da cama.
>> por causa de asma.
>> Ah, por causa de asma. Eu ainda não tinha começado a tomar um remédio porque o convênio não tinha me autorizado. Isso a dificuldade com todo conhecimento, sabendo dos dos caminhos para conseguir o medicamento, mas eu tava tendo sempre negado. Eu precisei de a de recurso público, né, de de judicial, né, de processo judicial para conseguir que me liberasse um medicamento. Então eu fiquei 12 dias de cama porque eu tinha medo de ir para hospital também porque eu sabia, vão me dar corticoide estava quebrando inteira. Eu falava, eu vou ter mais uma fratura. Eu tive fratura de colocar uma mochila nas costas, fiz fratura de clavícula, fratura de dedo por segurar algumas coisas. E aí eu aguentei daquele jeito, sem tomar nada até melhorar. comecei a tomar e isso foi em maio, em julho eu comecei a tomar um medicamento, em agosto já tava melhor, em setembro eu tava com metade da dose, em outubro eu tava com uma dose por dia.
>> Maravilha. Agora o acesso hoje tá mais fácil também, né?
>> Tá mais fácil sem porque também tem jurisprudência, né? E os convênios também já entenderam porque é uma burrice se você não dar o medicamento, porque o custo de uma internação de UTI principalmente paga o tratamento do paciente por muito tempo. É, sem contar os custos indiretos, que é falha de trabalho, eh, baixa produtividade, estress, no meu caso, por exemplo, fratura, precisei ser operada por causa de fratura, tudo isso é custo, né? E os convênios já entenderam isso e mesmo recurso público. Mas eu acho importante lembrar também que muitas vezes a gente tem consulta pública e o pessoal não participa. É importante que participe, porque quanto medicamento bom precisa ser entrado, porque a gente ser incorporado para que mais gente tenha acesso ao medicamento. Porque tem gente que acha assim, ah, modismo, não, não é modismo, é que esse pessoal não tinha como tratar mesmo, né? E agora que a gente tá vendo a solução, é claro que você quer prescrever para quem precisa, não é para todo mundo, não é para quem precisa.
>> É, às vezes eu coloco um vídeo sobre esses na internet, no rede social, e sempre vem alguém, ah, isso daqui é só porque é rico. No SUS não tem. O SUS tem todos os medicamentos possíveis para se tratar asma, desde o mais básico até o mais avançado com imunobiológico.
>> Se não tiver todos, tem o que supre a a maioria dos casos e e com variações de de componentes. Então, se não está tratando, é porque ou não tem a informação ou porque o médico não tem essa informação e você precisa esclarecer o seu médico.
>> Exatamente. Exatamente. na Abra, a gente sempre faz essa orientação, né, e fazemos sempre os os passo a passo para as pessoas inclusive contribuírem nas consultas públicas. E veja bem, se tem uma consulta pública e você não dá opinião, o que é que o governo vai entender? Não tem gente interessada porque ninguém nem participou. Então, nós precisamos participar. Isso é muito importante, né? Eh, o acesso é muito importante, mas para que haja acesso tem que haver mobilização também. Você vê no congresso, desculpe só um pouquinho, no congresso europeu de 2023, eu mostrei um trabalho desse lá, eu falei num num grupo porque eh tinha uma pessoa da Espanha, um colega da Espanha, lev levou dados completamente desatualizado do Brasil, dizendo que nós não tínhamos nada e era uma sala com 1000 pessoas. E aí eu pedi a palavra, eu falei: "Olha, o senhor tá enganado, nós temos isso, isso e isso". Aí ele começou a se desculpar: "Não, mas eu não tinha entendido." Falei: "Então eu quero uma retratação porque as pessoas que saem daqui vão sair com essa falsa impressão". Depois ele retratou porque nós precisamos mostrar. Daí ficaram encantados com o nosso sistema de saúde porque fala mal do SUS, fala tudo, mas gente, ninguém tem o que a gente tem fora do país. Não.
>> Em asma não. No Canadá o acesso ao mais difícil. Eu estive na Inglaterra, em Manchester, o centro de asma grave lá. E lá para eles liberarem o medicamento imunobiológico também tem todo um processo regional em que os hospitais têm que se conversar, uma reunião semanal e tem que ter a chancela do centro de Manchester para que se libere o imuno biológico. Aqui com a receita do médico justificando que o paciente tem asma com documentos adequados, preenchendo os critérios, eu tenho um paciente coisa, eu achei absurdo, absurdo no sentido bom da coisa, né? O a paciente que passou comigo no consultório, ela não tinha o plano de saúde, não tinha o acesso, mas tinha a possibilidade de buscar o biológico pelo SUS. Falei, então vamos preencher os papéis. Você vai lá no posto tal com essa documentação, eles vão eh avaliar, eles vão dar 20 dias de prazo, você vai receber o OK, você vai receber o remédio. Pois ela foi no posto da do do acho que da Maria Zélia, se eu não me engano, no dia seguinte ela tava recebendo um remédio, já tava aplicando. Ela falou: "Doutor, eu >> nem eu acreditei, né? Nem eu acreditei, porque até no plano de saúde os pacientes levam em média 20, 30 dias e no ela recebeu no dia seguinte.
>> É,
>> agora você falou da Abra. Explica pro pessoal o que que é Abra, o que que faz a Abra, Zule?
>> A ABRA é a Associação Brasileiros de Asmáticos. É uma associação, uma ONG, que tem por missão orientar, orientar em relação o que é a doença, qual os mitos, eh, os tratamento, a maneira correta de se tratar. acesso a medicamento, principalmente a gente fala de mito e de tratamento, porque é tudo isso que a gente conversou até agora. Muitas vezes o paciente não adere ao tratamento que ele não entende. Ele olha, fez uma prescrição e às vezes o médico escreve para ele assim: "Retorno em 3 meses". Ou então usar por 3 meses o medicamento. Ele acha que 3 meses acabou o tratamento e ele cru. Então a Abra tem essa função. Nós existimos há 25 anos. E surgiu da ideia mesmo do idealismo desses desse grupo de colegas, né?
>> Eram médicos que
>> médicos, né? Então, a princípio, nós éramos seis, igual a novela éramos seis que cone para montar aquela ali. Não tinha patrocínio, não tinha nada, não tinha ninguém. Quem foi ser nosso secretária? a Maris, que é uma pessoa muito querida, que se dispôs a nos ajudar com um salário irrisório, porque ela também era asmática e ela sabia das dificuldades. E nós não tínhamos sede, não tinha nada. A gente reunia num café de um de um hospital, outro dia numa sala de alguém para ir montando. Hoje a gente tem uma quantidade imensa de associados, né? E nós temos todos mês a gente manda jornalzinho informativo, a gente faz palestra, a gente faz ações como fizemos agora em Barretos no mês passado. Fiz várias palestras para pr pra abra lá no passado. Antigamente não fiz não, mas no passado tem muitas escolas fazer palestra.
>> Isso porque existe um programa que se chamava Papá, que é o programa de assistência ao paciente asmático, né? E e esse programa ia nas escolas que foi o que você fez. A gente ia na escola, fazia palestra. Então você abria a mente daquelas pessoas para o que é asma e como é que vai ser, será que eu tenho? E esses esses professores começavam a identificar ali criança que podia ser asmático e isso fazia com que ele fosse paraa unidade de saúde mais próxima, que sempre colégio público, para que houvesse tratamento. Além das escolas, a gente faz muita coisa em trabalho também. Nós temos como grande parceiro atualmente a Fiesp.
>> Hum.
>> Já por dois anos a gente faz uma ação no dia da asma na Avenida Paulista em frente a Fiesp e eles nos dão todo o apoio no sentido de chamar inclusive os funcionários dele e levar essa informação para outros lugares. E a gente tem a abra não só aqui, mas nós temos braços pelo pelo interior, já tivemos no litoral e a gente manda também material informativo pro Brasil inteiro. Tem às vezes unidade, colegas que estão em locais com menos acesso à informação, que a gente manda material tanto impresso como material em PDF para que seja impresso pessoal. E
>> quem que financia esse?
>> A gente tem patrocínio da indústria farmacêutica porque isso funciona muito bem. Porque o que acontece? Muitas vezes a pessoa fala assim: "Ah, mas vocês são financiados?" Sim,
>> sim.
>> Senão com não sai
>> funciona, né? Então, por que motivo que a gente tem esses parceiros? Esses parceiros muitas vezes são fabricantes de medicamentos para asma também, que entendem que o paciente precisa ter acesso para se tratar. E muitas vezes o medicamento que tá na rede pública, não é nem que ele vai ter lucro com aquilo, com venda, não. É para para que chegue a informação. O que mais falta pra gente educação. Sem saúde, sem educação não tem saúde, porque a pessoa que não entende a doença que tem, ela não vai se tratar. Então nós temos patrocínio da indústria, temos patrocínios também, às vezes patrocínios esporádicos, por exemplo, Eletrolux já nos patrocinou, nós já tivemos patrocínio de casas de produto para alérgico, já tivemos patrocínio das coisas mais inusitadas, sabe? Às vezes não é os malucos querendo que a gente fale de um remédio que ele inventou para Sarap aí, meu, aí não vai ter gente não, aí não dá, né? Mas o vape, né?
>> Aí não dá, aí não dá, né?
>> Não, aí não dá. E eu acho que isso é uma coisa muito boa, porque a gente consegue levar essa informação. E com 25 anos da de trabalho, a gente já passou por várias experiências, várias diretorias e hoje a gente tá com pessoal mais novo, que é muito bom, porque precisava de sangue novo, porque tava todo mundo, a diretoria antiga de 25 anos, man, todo mundo é velho, já ninguém mais tem o mesmo pique para tocar, então a gente tem uma diretoria nova, mas nós temos gente no Brasil todo, né? E nós temos psicólogos, nós temos fisioterapeutas, nós temos farmacêuticos.
>> Você atua na ABRA ainda?
>> Eu atuo na ABRA. Eu sou diretora de políticas internacionais. Eu ganhei esse esse cargo eterno agora porque eu fui presidente duas vezes. Agora não máximo. Agora eu fico como diretora de políticas internacionais.
>> Viaja muito por causa disso.
>> Viaja, né? Viaja porque tem coisa para levar informação. A gente foi para Barretos mês passado, fizemos uma ação linda numa praça levando informação, fizemos tudo lá, até seno a gente fez por lá. da o a edição anterior até tomografia nós conseguimos com o Hospital do Amor que levou a carreta e fizemos tudo isso lá.
>> Agora tem também a Asbag, qual a diferença de
>> ASBAG? É uma outra associação, Associação Brasileira de Asma Grave. Eles lidam só com asma grave. Foi um outro grupo foi criado por uma mãe de uma criança que tinha asma grave, né? Ela entrou como presidente e se juntou a um grupo de doenças raras também. Mas a gente tá todo mundo junto,
>> não bate cabeça umação com a outra,
>> não. Tá todo mundo junto, a gente vai lá, eles vêm aqui, não vai fazer diferença.
>> Importa que o nourense trabalhando melhor. É, não tem essa bobagem não. Não tem esse ego não. Isso já passou, né? Né? Né? Né?
>> E aí, Zuleidic? E o que que você achou de que que você sentiu? Qual o diagnóstico após passar pelo raio X?
>> Olha, esse raio X mostrou que a gente tem muita fratura para resolver, né? Mas foi muito bom, tá? por aqui. Um prazer enorme estar aqui com vocês.
>> Obrigado, Zuleide. Obrigado. E obrigado a você. Lembre-se, asma não é um bicho papão. Vamos tratar a doença, que a possibilidade de ter uma vida absolutamente normal. E eu encontro você no próximo episódio do Raio X Talk Show. Um abraço.
[Música]