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CASO ANDREI GOULART: PARA PROMOTORA, CASO DEVE IR A JÚRI POPULAR.

MARCONDI MARQUES - CANAL OFICIAL43:42

Transcription

Olá família, tudo bem com vocês? Vamos falar de um caso que temos debatido e informado muito aqui no canal. O caso do André Goulart, um jovem adolescente, idade apenas 14 anos. Ele, infelizmente, perdeu sua vida em novembro de 2016.

Inicialmente, a polícia tratou como um caso de uma pessoa que retira sua vida. Só que, depois de muita insistência da mãe, muito insistência em querer descobrir a real verdade, ela foi bater na porta de uma promotora. Essa promotora abraçou o caso e viu que ali faltava informações e que não batia a história dele ter tirado sua vida. Alguma coisa estava faltando.

Investigações foram realizadas após o inquérito da Polícia Civil e, segundo o Ministério Público, deveria ser aberta uma denúncia. Quando é que contra o tio? Também denúncia essa muito bem bazar, que inclusive já está em fase final. Na audiência de instrução, faltando apenas a decisão do juiz, será pronunciar o tio ou não.

Essa promotora que agarrou essa causa, que deu luz e voz a essa mãe, é a doutora promotora Lúcia Calegari. E vocês conhecem muito no caso da Boate Kiss, no caso do menino Bernardo, agora de um caso muito recente do julgamento dos skinheads, e tem mais casos, muitos outros. Doutora Lúcia, que é super conhecida por promover justiça, recebemos com muito orgulho aqui a doutora Lúcia Calegari.

Uma família, aí, família Marcondes. Na verdade, esse caso do menino Andrei é assim, eu diria que um caso emblemático. A polícia, na verdade, não, ela, ela termina esse inquérito sem uma conclusão efetiva. Havia o menino estava no mesmo quarto que o tio. O tio estava passando uma temporada na casa da mãe, ele não morava mais em Porto Alegre, mas veio para Porto Alegre porque estava trabalhando e ia passar uns dias na casa da irmã, né? Então, a mãe do menino, até que ele verificasse onde é que ele ia morar, o que que ele ia fazer, e estava dormindo.

Então, um beliche no mesmo quarto que o sobrinho. O que que aconteceu? A mãe, na noite que o menino foi morto, saiu com a irmã, então a filha, e foram numa festinha. E o Andrei ficou em casa com os dois. Ficaram em casa. Quando a mãe chegou, o Andrei já estava querendo deitar, estava meio quieto. Algum primeiro momento, ela não, não chegou a ter assim um site de que pudesse ter alguma coisa errada, não. Naquele momento.

Mas no meio da noite, ela acorda com o tio, que é policial, mas não estava, já não estava mais na ativa, já estava na reserva, enquanto policial, batendo a porta e dizendo que tinha acontecido alguma coisa. Enfim, ela entra no quarto, se depara com a cena do menino morto. E é um primeiro momento, se chama perícia, se chama polícia, se chama todas as outras, chamam todas as autoridades para se ver o que que aconteceu.

E o tio, a primeira coisa que a arma que foi utilizada, né? O tio, assim, que estava no mesmo quarto do menino, o tio era policial da reserva, mas ainda tinha arma de fogo, uma pistola que ele guardava numa bolsa junto com ele. Ou seja, era uma bolsa que um menino não teria, teoricamente, acesso, porque era uma bolsa que ele te utilizava. O tio, turminha, no beliche na parte de cima, e o menino Andrei dormia no beliche na parte de, desculpa, o que eu dormia na parte de baixo e o menino Andrei dormia na parte de cima.

A um primeiro momento, quando a polícia vai lá, chega, pensa, ouve suicídio. Se não houve suicídio, se o menino tinha resolvido brincar ou pegar a arma para visualizar, esse dado um tiro, ou o que que poderia ter acontecido? E o inquérito policial é remetido à justiça sem uma conclusão efetiva.

Quando ele chegar na justiça, a mãe e o padrasto do menino, também o Luciano, começam a procurar o Ministério Público, porque começaram a repensar nos dias que se seguiram sobre essa morte. Isso é um primeiro momento, eles estavam ainda impactados e não conseguiam pensar muito. É um segundo momento, passados alguns dias, começaram a pensar em algumas circunstâncias dessa morte e que não estavam fechando. Algumas circunstâncias dessa morte que exigiam um pensamento assim: "Mas será que o que que aconteceu de fato?".

E algumas coisas começaram a acontecer. Primeira coisa é que esse tio pediu de lembrança do menino. O menino, né, pequeno, o tio adulto já, as cuecas da vítima. Totalmente estranho, né? Então, assim, acaba de perder o seu sobrinho e dias após você pede peças íntimas. Uma situação podia ter tantas coisas, tantas lembranças, né? O brinquedo, mas pediu a cueca. Realmente foi esta, esse o objeto que ele queria ficar, né? Vítima, que é uma coisa bastante estranha.

Eu comecei a analisar com calma as fotos e comecei a tentar entender a dinâmica da situação. E a mãe se deu conta que a cena, quando o departamento de Criminalística é chamado, tinha sido alterada. Ou seja, que a cena inicial que ela viu, quando ela é chamada, o menino estaria com as mãos embaixo das cobertas, e que essa cena não é a cena das fotografias do da perícia. E ela começa a se questionar como é que essa, quem é que teria interesse em alterar essa cena? E por que foi alterada essa cena?

E aí várias outras questões começam a se suceder. Porque, porque o tio disse que tinha pego o celular do menino e tinha levado na delegacia para entregar para o delegado? A delegação ele nunca quis trazer aqui na mesma noite dos fatos. Esse tio, que eram a referência de policial da família, diz que a já tem o caso, já está velocidade, que ela já tinha sido mandados na mesma noite as fotos para para perícia, e a perícia, com base nas fotografias, na mesma noite, já tinha feito um programa de computação e já tinha concluído que se tratava de suicídio.

Aí a mãe começa: "Mas esse fato é, no mínimo, no mínimo, eu vou chamar de bizarra, né? Porque imagina você dentro de uma cena de crime, você faz um pequeno vídeo ou fotos e manda para um sistema computacional que, à época, não era o que é hoje. Hoje, ainda não conseguimos fazer isso. E esse sistema já diz o que aconteceu horas depois. Bizarro isso. E ele já estava dizendo que o que o sistema já tinha apurado que eram suicídio".

Aí ela começa a se formar e descobre que isso não é assim, que não funcionam as coisas dessa forma. Vejo, às vezes, para os leigos, é difícil compreender as coisas como elas funcionam na justiça, né? E se tu tá falando com alguém que é policial, tu até leva a sério, pensando: "Bom, a pessoa está sabendo de algo que eu não, eu, na minha, no meu conhecimento, não estava sabendo, porque eu não trabalho na área". E as coisas começam a se trazer assim, uma dor, uma coisa nessa mãe, né? Da dona Kátia, começa assim, ficar querendo falar, querendo ser ouvida.

E eu tenho um espaço, eu tento ser o mais democrática possível. Todas as famílias que me procuram, eu procuro dar a atenção devida, e não foi diferente nesse caso. Então, eu procurei dar essa atenção. E aí ela começou a ir atrás e conseguiu apurar que esse tio já tinha situações de abuso anteriores, há muitos anos atrás. E aí essas pessoas foram ouvidas. Elas, na época, nunca tinham feito nada, mas com a morte da criança, resolveram que tinham que falar. E aí a gente tem assim, pelo menos duas pessoas que confirmaram essa situação de vivenciar abusos na infância com esse tio.

Aí ela começa a reparar. E nos dias que se seguem, aparece misteriosamente um bilhete que a vítima teria falado alguma coisa numa roupa da vítima, num caderno da vítima. Só que essa roupa, ela fazia muito, fazia vários dias que essa, que a criança não usava. Então, assim, como é que ela ia colocar isso na no bolso dessa calça, se ela não usou nos últimos dias, né?

Aí a gente vai para uma próxima questão. Que a pistola é uma arma que dá rebote, né? Ela tem assim, é, ela tem. E que por uma criança assim, né? E aí tem uma questão assim, que também é bastante importante a gente pensar, é que o tio está no beliche no andar de baixo, é policial, foi policial toda a vida. O guri teria que descer do beliche no meio da noite, no escuro, pegar a mochila que ficava junto ao tio, tirar a arma, e o tio não acordar? O tio que é policial, que tem que, a gente tem aquela coisa assim, e eu digo, e não tomar os cuidados para que uma criança não tivesse acesso a essa arma.

Eu, bom, eu tenho para mim, e eu sempre digo isso, eu disco vermelmente do lado do DML em relação ao ferimento de entrada. Eu entendo que esse ferimento de entrada é por trás e não pela frente, apesar de que logo DML que ferimento é pela frente. Mas é uma discussão que eu vou ter que travar, espero, no julgamento em plenário, né? Então, assim, eu discordo veementemente do da conclusão do laudo.

E aí se faz um exame residográfico da mão da vítima. Se ela tirou com uma pistola, e o exame resto do gráfico da negativo. Precisa me resto do gráfico é um exame que a gente faz uma coleta dos vestígios na mão para verificar se uma pessoa atirou ou não. Quando as pessoas estão vivas, eu tenho uma ressalva enorme a esses exames, porque porque eu posso ir no banheiro, posso lavar a mão, posso esfregar, podem passar várias horas e então ele pode ser um exame falho para os vivos. Mas para os mortos, os mortos não têm como lavar as mãos, não têm como limpar as mãos, estão mortos. E o exame residicográfico do menino deu negativo.

Por outro lado, o Jefferson, o tio, ele foi feito um exame recidográfico, mas antes de ser feito, ele quis lavar as mãos. A família chegou a fazer uma um laudo parecer pericial particular que também afastou a situação de suicídio. E eu vi várias pessoas, uma das pessoas, inclusive, nos apontando que a que estava a mãe e a irmã que estavam na casa, não ouviram em outros parques, tinham dormido e não ouviram. Mas uma vizinha ouviu e não conferiria com o horário que o réu foi lá entrar no quarto chamando. Teria sido antes.

Nos dias que se seguiram, em janeiro, tinha sido a pouco revisado o sistema de aquecimento de gás da casa. E aí, de repente, começa um cheiro de gás. Aí se vê que na casa, o gás estava quebrado e por ação humana. Porque foi ouvido com uma pessoa que foi a pessoa que fez essa essa reforma ali do gás, que tinha feito essa conferência um pouco antes do menino morrer, e que é muito claro dizendo: "Não, isso aqui foi alvo de ação humana".

Então, as coisas começaram a se somar de tal forma que eu, para mim, de uma forma muito clara, esse menino foi abusado. Por isso que quando a mãe chegou, ele estava cabisbaixo, não estava no seu normal. Só que ela, naquela noite, não se deu conta, porque ela estava achando da festa ali, né? Mas depois pensando, né? Ela disse assim: "Ele não era o meu filho no seu normal". E talvez porque o menino disse que ia falar, que o menino não ia ficar quieto, ele resolveu exterminar, matar o menino. Esse é meu, para mim, a minha visão super clara do que aconteceu.

Chama a atenção que depois da morte da vítima, o que quem o tio ficou com o celular e tem pesquisas posteriores à morte sobre suicídio num celular. E então, assim, a criança não tinha mais como pesquisar. Então, muitas coisas se somam. Eu posso dizer qual que vai ser o resultado do processo? Não. Eu não posso dizer qual que é o resultado do processo, porque quem julga é a sociedade. Mas eu posso dizer com toda a tranquilidade que eu entrei de cabeça no sentido de trazer a verdade para essa mãe. Eu me cerquei de tudo que eu podia. Eu ouvi todo mundo que eu podia. Eu fiz, né, com exceção da última audiência, porque eu estava fazendo juízes assim, retos. Todos os outros audiências eu fiz pessoalmente e atentamente, tentando extrair o máximo possível.

Nós terminamos a saúde antes. Então, a última audiência foi agora em março. E imediato, já pedi para o réu e a Júlia, e pedi a prisão, porque até hoje ele está solto. Eu já recorri dessa dessa soltura, mas até agora eu não tive sucesso, né? Porque eu já tinha feito os pedidos anteriores sobre essa questão e até agora ele continua solto. Eu vou, eu pedi então tanto a prisão quanto ele que ele fosse a júri.

Foi aberto só para voltar um pouquinho que deu uns pontos aqui que eu gostaria de falar com a senhora. Quando a Kátia, ela teoricamente, ali, ela acordada pelo tio, que ela não entrevista, ela me conta que eu tive, veio correndo falando: "Olha, aconteceu uma tragédia, aconteceu uma tragédia". E leva, e leva teu quarto. Ele fala em explosão pelo celular, alguma coisa assim, né? E vê o Andrei. Aí toma aquele choque, porque vê o que aconteceu. E ela diz que começa a desenrolar o cobertor, desenrolar o cobertor e ver a cena do André. Chegou, entre aspas, segurando o cano da arma e o gatilho. E aí o primeiro ponto, né? Como essa, como a senhora me disse, essa é uma arma de alto impacto. Uma criança, tamanho dele, tomaria um rebote ali. Outro ponto, se aconteceu naquele momento, teria segundos, minutos que aconteceu, né? O sangue estaria totalmente fresco pelo. E pelo que ela diz, pelo que eu me lembro, já ela já notou que a criança estava sem vida ali, possivelmente já um tempo anterior ao que ela foi acordada. E vizinhos do prédio que nos colocaram anterior e relacionam o disparo a programa de televisão que terminou antes ainda do horário que ele tio chamou. Entendeu?

Então, eu diria que ele chamou em momento posterior, talvez pensando que, que ele ia fazer, tentando pensar no que que ele ia fazer. Agora, entendeu? Nesse momento. E outro ponto, conversando também, memória, algumas situações, ela se lembrou que horas após, horas, dias, não vou nem dizer horas após, acontecimento, todo mundo triste, todo mundo ali no luto, vivenciando luto, vivenciando a dor da perda. Esse tio, ele começa a colocar música para dançar, começa a fazer um churrasco, festejando. E o pessoal totalmente sem clima, né? Não entendendo o porquê uma atitude ali que para a maioria das pessoas não era uma atitude assim normal. Você acabou de perder o sobrinho que você disse que ama, você acabou familiar e você vai ficar encantado. Não é só perder o sobrinho, ele é o desespero da família toda, né? Não precisa colocar música para começar a dançar. E até as pessoas lá fora, na Kátia, começar a falar com ele: "Olha, não tá legal o que você tá fazendo, não tá bem". E a gente lembra de umas situações ali, porque a gente tenta entender a mente de uma pessoa que pode fazer isso. A gente tem esse caso aí, depois tem o que ele pede, que são as roupas íntimas, tem contadas sobre a perícia, sobre o telefone, tem a pesquisa do telefone, tem o disparo na televisão do quarto também. E tem uma questão assim, que eu, eu vou dizer assim, todas as audiências ele fez por vídeo. Ele nunca veio pessoalmente. Eu nunca ouvi pessoalmente, né? Eu, no olho no olho, eu não ouvi. Mas durante os vídeos, todos com toda essa essa carga emocional, sabe? Eu não vi durante um momento das audiências no vídeo, nenhuma vez ele ter uma emoção. A gente via todo mundo, várias pessoas chorando nos depoimentos. Foram audiências bastante tristes, bastante triste mesmo. Mas assim, ele não sabe, eu digo assim, psicopata, né? Se mantém passível numa situação grave. E eu sempre digo que a pessoa com até personalidade antissocial, ela tem normalmente, deixa a sua marca, né? É do tipo assim, eu deixo o chinelo na cena do crime, eu deixo, sabe? Eu tenho a sensação que a que ele deixou marcas, entendeu? Ao fim, o cabo, ele quer que mostrar, mas não quer ser descoberto. É bem típico, né, das pessoas personalidade social.

Eu, Lúcia, ouvi essa mãe, mas não é, não foi só pelo que ela falou que me levou a que eu denunciasse, que eu pedisse a prisão, que eu pedisse que ele vá a júri. Não foi só com o que ela disse. Foram muitos elementos e circunstâncias que aconteceram e que me fizeram fazer, que me fizeram pedir isso. Eu acabo de confirmar, né? A defesa, defensor dele foi intimado por telefone para apresentar os memoriais em 24 horas. Não apresentou. O processo deve estar sendo encaminhado para Defensoria Pública, então, para ser feitos memoriais de defesa. A defesa, então, me parece que está num compasso de espera, no sentido de tentar deixar as coisas fluírem. Por intimada, não se manifestou. E um pouco essa postura vai me obrigar até inclusive a fazer novo pedido de prisão, porque me parece que está se querendo burlar uma resposta do Judiciário, e eu preciso garantir a aplicação da lei penal desse processo.

Eu tenho assim, uma preocupação muito grande com a dona Kátia. Ela tem sido uma guerreira muito forte. Ela quis acompanhar todas as audiências, né? Ela foi um dos primeiros depoimentos, foi o dela, e depois ela queria assim acompanhar, ela queria saber. Durante todas as audiências, a imprensa sempre se fez presente, né? Porque a Kátia movimentou muito isso. Nela, ela procurou os órgãos de imprensa, o primeiro momento, quando ela entendia que não estava sendo a vida de forma adequada, o que não estavam levando a sério, tudo que ela começou a pensar nos dias que se seguiram. E, na verdade, é um caso que choca, né? Muito. Choca, né? Choca todos nós, né? Porque as pessoas, é sempre digo, aqueles que têm a obrigação de proteger a gente, não espera que façam o que não é o esperado para uma proteção, né? E ali tinha uma proteção dupla, né? Porque é uma pessoa que era policial e era uma pessoa que era tio, né? Então, assim, é que tem dois deveres de proteção. Um pela sua escolha profissional, que poderia estar na reserva, mas foi uma escolha de vida, né? Eu, por exemplo, que sou promotora de Justiça, eu tenho para mim, eu tenho uma escolha de vida de proteção às pessoas e a vida. E aí, por que que as pessoas ficam mais chocadas ainda com o caso Boldrini, por exemplo? Porque ele era médico, ele tinha um dever maior ainda, ele tinha que cuidar dessa e da vida alheia. E não, não cuidou nem da lei, nem do filho, né? Porque deixou acontecer como aconteceu. Então, assim, ele tinha um dever como o tio e como escolha profissional, né? Ele trabalhava numa profissão que exigia também essa essa questão. E assim, ela acolheu ele em casa, né? A Kátia acolheu. Então, assim, ela tem uma sensação de, parece-me que de culpa, por que que eu fiz isso com meu filho? Ela, mas por outro lado, quando ela afinal viu que ela foi ouvida e que ele começou, que ele foi processado, ela teve assim uma sensação meio de alívio, sabe? Ver as coisas acontecendo. Para Cátia, eu entendo que ele está sendo super importante também. A gente ter ouvido todas as testemunhas, fora as testemunhas que eu já tinha rolado, porque eu tenho uma limitação de número. O juiz ouviu de ofício várias outras que foram referidas, várias outras que foram referidas. Foi esclarecer todos os detalhes. São audiências extremamente longas. Vai ser um julgamento assim, processo bem longo para estudar para qualquer julgamento. Eu não me lembro de quatro ou cinco, mas foram várias audiências, sempre com turnos muito longos, três, quatro horas cada vez, quatro, cinco horas. Teve uma das audiências que eu comecei de manhã, eu acho que terminou duas e meia da tarde. A última, parece-me que eu não quero que eu estava fazendo jurídicos, que foi até 3:30 da tarde, então, assim, e começando de manhã às 9:00, né? Então, muitas horas. Então, são muitos depoimentos, depoimentos muito longos. Foi ouvido todo mundo que podia ser ouvido. E eu estou plenamente convencida. Já apresentei de imediato, ali logo em seguida, revisei todo o processo para, e a gente já apresentei ali os memoriais. Era um processo que eu conhecia muito, né? Porque ouvir as pessoas, eu acompanhei, eu li muito para denunciar, eu ouvi as pessoas, eu fiz as audiências. Era um processo assim, que está muito internalizado na minha, na minha cabeça, apesar de todos os outros que se entram no meio disso tudo. E eu, assim, eu tô nessa luta com a Kátia, né? Eu quero muito que a gente tenha justiça. E eu espero que isso aconteça. Eu espero que realmente a gente consiga levar o acusado a julgamento pelo Tribunal do Júri. De minha parte, eu vou fazer todo o possível para que não haja impunidade, para que ele seja responsabilizado. Se por um lado, para mãe, para Kátia, importante saber que ele está sendo, que ele está respondendo, que é o processo, das audiências aconteceram, que todas as testemunhas foram ouvidas. Por outro lado, eu tenho certeza que o que ela quer é justiça. Não é só essa primeira parte, né? Essa é uma parte, mas o que ela quer é muito mais que isso. É como qualquer mãe, né? Como qualquer mãe, como qualquer pai.

O depoimento, inclusive, o pai, para seu depoimento. O pai, assim, com uma fala muito, mas muito forte contra o réu, furioso, curioso, assim, eu quero dizer assim, emocionalmente, assim, nossa, eu digo, acho que se não se pudesse, ele tinha entrado dentro da TV, porque era o réu, estava sendo ouvido por vídeo, nunca veio pela essencialmente para nenhuma audiência, e dado uma surra ali na frente de todos nós. Dito forte, impactante que foi o depoimento do Pai, assim, furioso, porque a Kátia separada, né? Do era separada do pai, mas isso não deixa de deixar ele como pai e amando filho e não se conformando com a situação e plenamente também convencido do que o réu é responsável. Então, mas é óbvio, não é a palavra do pai e da mãe que me fizeram pedir que ele fosse a júri, querer que ele seja condenado, buscar justiça é saber que que foi ele, que foi ele, e que a gente não pode deixar uma situação dessas. Eu sempre digo assim, e eu falo isso muitas vezes, eu jamais vou poder escrever o passado. A gente pudesse [Música] todos nós profissionais, a gente apagava e reescrevia esses fatos, né? A gente não pode. A gente só pode construir o futuro.

Teve um depoimento, e eu, claro, não tô querendo que está no ônibus, mas que me chamou muito a atenção de uma das, uma da moça que foi abusada pelo réu, que diz que só muito tempo depois ela conseguiu se internalizar que aquilo foi um abuso. Que é o primeiro momento, ela não se dava conta que estava morando na casa com o réu, ali com a família, enfim, e que eles estão deitados de televisão com cobertor em cima, e ela pequena, 12, 13 anos, e ele começa a passar a mão nas pernas dela e olha para ela e faz exatamente assim. E até o que pena que depoimento não foi gravado, então a gente só vai poder traduzir. Olhou para elas assim: "Isso é nosso segredinho". E que é uma típica postura do abusador. E aí ela só anos depois que ela conseguiu se dar conta que naquele momento não era um carinho que estava acontecendo, não era, não era, mas era um ato, era um ato abusivo, né? E ela foi uma das que quis prestar depoimento. E na raiz, mas essa frase dele do tipo, colocar o dedo na boca e dizer: "Isso é nosso segredinho", para mim, assim, mostra quem que é o réu. E que talvez não tenha tido essa colaboração do pequeno, o Andrei. As pessoas, né? Ele era uma criança viva, né? Ele era ativo, ele era ótimo, né? Ele era uma criança com vida, com a energia, e tinha ficado preocupado. E aí tomou uma atitude que ele até então não tinha tomado, como nenhuma das pessoas que foi de de fazer isso na audiência.

Nessas audiências de instrução, a senhora disse que esse depoimento foi forte, mas eu não conseguia acompanhar as audiências de instrução. Não, elas não foram transmitidas. Eu imagino que ele indo a júri, eu imagino, não tem, posso garantir, né? Mas que o judiciário do Rio Grande do Sul deva ser um dos processos que eles deram priorizar para transmissão. Aí sim, né? Durante o julgamento.

Um ponto, a senhora disse que esse depoimento a impactou, emocionou. Outro ponto, né? A gente tem que pensar que a senhora não é promotora de acusação, a promotora de justiça. Se a senhora viu que é a pessoa culpada, a senhora vai pedir a condenação. Se vê que é inocente, vai pedir a inocência. Ela não é uma pessoa que está voltada para condenar, acusação, mas sempre a justiça. Pedir absorção, porque entendi que nós não tínhamos elementos suficientes que talvez pudesse, talvez no talvez no talvez. Eu prefiro não pedir a condenação daquele que eu não tenho certeza, né? Eu não quero, eu quero dormir todos os dias, né? Entrei com meu travesseiro me sentindo em paz, né? E tranquila.

Eu pergunto, quando a defesa do acusado, ela fez a produção de provas que ela tentou produzir provas para defesa do réu, teve algum ponto que chamou a atenção da senhora que mais foi contrário ao réu do que tentou sentar? Eu vou te dizer que quando a gente, eu, como eu disse, eu não consegui participar na instituição de caridade, porque é para o lixo. Ela disse que é para o lixo, qualquer coisa assim, sabe? Mas poderia usar. Nós e ele usa uma segunda frase, interrogatório dele, né? "O Andrei não cumpriu com o nosso combinado". Qual o combinado? Que que é o combinado? O combinado é ele quis dizer que era da arma, né? Eu diria para mim, o combinado que ele não cumpriu era do segredo. Com certeza. A gente começa a entender esses pormenores e com a experiência da senhora, já me enxergar o algo a mais. Outro ponto, entendeu? Eu acho que até o próprio interrogatório dele, de certa forma, tem elementos que me fazem ter a certeza do caminho tomado. Entendeu? Assim, eu pensei muito. Eu jamais vou me sentir pressionada por uma família e me senti na obrigação de fazer alguma coisa. Eu sempre, como eu digo, que eu quero todos os dias na minha vida dormir tranquilamente. Eu não quero acordar no meio da noite pensando: "Meu Deus do céu, o que que eu fiz? Eu coloquei um inocente na cadeia? Eu tô processando um inocente?". Eu não quero isso. Profissional que possa honrar sua toga, pode querer isso. Mas assim, quanto mais eu, eu penso nesse caso, mais eu me convenço. É certamente um julgamento que vai me exigir muito. E eu espero que nós tenhamos esse julgamento, que a decisão judicial seja de remessa a júri e popular de pronúncia. Eu espero sinceramente que essa seja a decisão judicial. Se não for, eu vou recorrer, enfim, né? E vou ter que me conformar em recorrer e tentar reformar a decisão via recurso. Mas assim, tantos processos na minha vida que eu já sabe o que vai mais ou menos acontecendo. Eu acho, eu acredito que vai a júri, né? Que a decisão vai ser essa. Eu entendo, acredito que essa daí vai ser a decisão judicial. Mas, né, a gente sempre pode ser surpreendido. Mas assim, de tantos processos na minha vida que eu já criei, esse processo vai me exigir cada linha uma luva, sabe? Porque cada uma palavra naquele contexto, ela tem um significado às vezes mais forte do que a gente imagina. Num processo desses que tem todo uma essa situação envolvidas. Eu, quando eu fazia as audiências, eu terminava extenuada, extenuada mesmo, porque era uma audiências muito pesadas e assim que me exigiam muito. Quando eu tô no júri, eu sempre digo que o júri me exige demais. Fazer uma instrução do caso Boldrini, fazer uma expressão no caso Cris, exige muito da gente, porque eu sou uma pessoa que gosta de instrução, eu gosto de perguntar. E eu, eu entendo que a formação da prova tá ali, né? Nas oito. Não é só, já foi a época que o júri era feito só de discurso. Não, hoje em dia, jurados ficam a prova. E eu, como se fosse um jogador, era também ia querer, né? Também ia querer ver as provas. E a, mas esse processo vai me exigir assim, muitas horas de dedicação, certamente, muitas horas mesmo, porque é um processo que ficou muito complexo, muitos depoimentos, com muitas narrativas, com narrativas, como eu digo assim, aquela que diz assim: "Ah, o segredo". E aí tu julga com aquilo. Aí ele não cumpriu o nosso trato, sabe? Tu começa a juntar as coisas e consegue formar teia toda, né? Essa teia, ela leva para mim, só um caminho, que é a responsabilidade do réu. Mas foi um caminho assim, muito, mas muito pensado, de uma forma assim, muito equilibrada e muito justa. Eu jamais me deixaria pressionar só porque a família quer que seja condenado ou porque a família quer que seja processado. Não. Eu tô falando de um caso grave, muito grave, e que tinha que ter essa uma visão muito tranquila de minha parte, de não cometer uma injustiça nem para um lado, nem para o outro, né? Nem de passar a mão em cima de um assassino que fez o crime que fez, ou de processar uma pessoa se ela fosse inocente, né? E eu tenho a tranquilidade de dizer que eu fiz todo o meu possível até agora, e que eu vou continuar fazendo, porque é da minha índole, né? Eu sempre digo assim, eu faço 25 anos como promotora, esse ano fez 25 anos agora, 25 anos. E treinava, mas agora eu não sou mais nova. [Risadas] E eu entrei e fora o ano de 2003, todo o resto, esses 25 anos que 2013 foi o ano que eu vim para Porto Alegre, e eu não consegui ir para o júri. Quando eu vim para Porto Alegre, todos os outros anos da minha vida, eu tive dedicada aos crimes intencionais contra a vida. Desde o início da minha carreira, no meu primeiro mês como promotor, eu fiz. E que as pessoas assim, qual que é o grande medo de alguém quando faz para promotora, fazer júri? E eu fiz cinco no meu primeiro mês. Eu não tive a opção de escolha de dizer: "Ai, tu tem medo? Não tenho medo". Eu já entrei e fui, né? E mas sempre vão ter aqueles casos que vão te marcar, né? O Andrei, na verdade, claro, nunca imaginei que ia ter essa repercussão que teve em termos de imprensa, né? Uma repercussão enorme, enorme, enorme, que eu não imaginava quando eu fiz a denúncia, né? Eu só estava entendendo que eu estava cumprindo meu papel. Mas a repercussão, nossa, muito grande. Não é só na imprensa aqui do Rio Grande do Sul, a imprensa de todo o Brasil. Tanto que eu tô sendo entrevistada sobre esse caso, né? Mas assim, eu fiz o que a minha obrigação, entendeu? Nós somos pagos pelo povo para fazer nossa obrigação, que é processar os que têm que ser processados. Que a gente não consegue provas, arquivar. Se a gente não tem provas, mas aqueles que são responsáveis, eu sempre trabalho muito. Eu não passo a mão em cima e eu luto por justiça. Eu não sou a Kátia, eu não sou a mãe do Andrei, mas eu estou junto com ela nessa luta, porque a Kátia merece descansar. O Andrei, o Andrei, onde estiver, e a Kátia, aqui na terra, ela é uma guerreira. Ela teve uma bandeira de: "Eu não vou permitir que ele faça de novo". E é por isso que eu te dizer, eu não reescrevo o passado, mas eu tenho que pensar no futuro. Eu não quero um abusador na rua matando criança, não quero isso. E esse meu escrever o futuro é escrever querendo trazer justiça para uma mãe por um crime que ela não merecia ter que viver, e por um réu que cometeu esse crime.

Eu ia fazer uma última pergunta, mas eu nem tenho condições de fazer, porque a senhora fez um desfecho lindo. É isso exatamente isso, é ter esse sentimento, realizar a justiça e da paz para essa família. Eu até fazer um monte de uma pergunta, mas ela fechou brilhantemente. Eu agradeço muito, muito mesmo a senhora dispor o que a senhora tem mais precioso é o tempo. E quando a sua, o tempo para gente é um ato tão nobre, porque o tempo, esse tempo que a senhora olhou para a gente agora, nunca mais vai voltar, mas foi doado para a gente entender. Muito obrigado mesmo. Tá certo, Marques. Assim, o meu abraço a todos. Agora, então, eu digo a família Marques, mas aqui para mim, entendeu? Então, e meu agradecimento, então, e a minha força. Sabe, eu sempre digo assim, depois daqui, essa aqui é meu sinal, entendeu? E esse coração vai para Cátia, querida, fofa, amada, guerreira. E eu tô com ela. Eu quero justiça. Muito, muito obrigado. Lúcia, muito obrigado mesmo. Fica com Deus. A senhora tem muito que fazer agora, bem pesado, bem complexo para terminar de estudar. Mas, na verdade, eu tenho também um compromisso de as pessoas têm que ser informadas. Elas têm que saber, né? Elas têm curiosidade de saber, e a gente tem que transmitir. Então, essa curiosidade de trazer a elas a verdade. Fica com Deus. É isso, gente. Essa foi a entrevista com a doutora Lúcia Cadegária, falando sobre o caso André. Esperamos, esperamos muito esse caso seja mostrado à justiça e que a verdade prevaleça. Muito obrigado a todos. Fiquem com Deus e até amanhã, se Deus quiser.