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O que CAUSA o TRANSTORNO BIPOLAR?

Neurociência Descomplicada9:16

Transcription

Imagine navegar em um oceano onde as ondas oscilam entre calmas tranquilas e tempestades turbulentas sem aviso prévio. Assim é a jornada diária no cérebro de uma pessoa com transtorno bipolar. Nesse vídeo, a gente vai desvendar o que que a neurociência sabe até então que acontece no cérebro da pessoa bipolar.

Mas calma aí, você sabe o que que é o transtorno bipolar? O transtorno bipolar, conforme definido pelo DSM, é caracterizado por mudanças significativas no humor e na atividade, que oscilam entre dois extremos: episódios de mania ou hipomania e episódios de depressão. Durante a fase maníaca, a pessoa pode experimentar um aumento de energia, euforia, pensamentos acelerados e uma diminuição na necessidade de sono. Já na fase depressiva, prevalecem sentimento de tristeza profunda, falta de energia, alterações no apetite e até mesmo pensamentos suicidas.

É claro que isso é um resumo bastante simplista, uma vez que existem casos onde um grupo de sintomas da fase maníaca e um grupo de sintomas da fase depressiva aparecem em conjunto, geralmente sendo chamados de sintomas mistos. Estudos globais indicam que o transtorno bipolar afeta cerca de 1% a 2% da população mundial. No Brasil, a prevalência é semelhante à média mundial, com estudos apontando que aproximadamente 1,5% da população brasileira pode ser afetada por esse transtorno.

Mas o que será que acontece no cérebro da pessoa bipolar? Será que uma hora ele fica super ativo e depois ele começa a ficar mais devagar? O que que explica essas mudanças de humor? Vamos com calma que eu vou explicar o que que a neurociência sabe sobre esses aspectos biológicos do transtorno.

O transtorno bipolar é bastante complexo e, como todo transtorno psiquiátrico, a gente precisa sempre levar em conta tanto os fatores genéticos quanto também os fatores ambientais e psicossociais. Olhando para um viés genético, as evidências apontam que ocorre uma herdabilidade de 70 a 80% nos casos de transtorno bipolar. O que isso significa? Significa que de 70 a 80% das vezes em que uma pessoa tem esse diagnóstico de transtorno bipolar, alguém muito próximo, ou seja, um pai ou um filho, um irmão, vai também ter o diagnóstico desse transtorno.

De forma interessante, os estudos de genômica avançada não conseguiram encontrar genes específicos que poderiam explicar as alterações de comportamento e de humor aparentes nesse transtorno bipolar. Existem alterações em genes relacionados com a atividade de alguns canais iônicos presentes em alguns neurônios, alguns transportadores de neurotransmissores e até mesmo em alguns receptores de neurotransmissores específicos, mas nada que tenha uma distribuição tão aparente que a gente consiga de fato utilizar como um biomarcador. Ou seja, que a gente consiga dizer que se a pessoa tiver essa mutação, ela com certeza vai ter altas chances de ter o transtorno bipolar. Isso nos dá um indício de que provavelmente é a interação entre o risco genético e fatores ambientais que vão culminar no desenvolvimento do transtorno psiquiátrico, né, culminar no desenvolvimento do transtorno bipolar.

Um ponto interessante em diferentes estudos é a alteração nos níveis de uma classe de molécula muito importante pro funcionamento correto do cérebro, que são as classes das neurotrofinas. De fato, existem estudos demonstrando que ocorre uma diminuição nos níveis do fator neurotrófico derivado do cérebro, o BDNF, que é uma neurotrofina muito importante para o funcionamento correto do cérebro, para a manutenção da homeostase neuronal, da sobrevivência dessas células. E essa diminuição ocorre acentuadamente no cérebro de pessoas com transtorno bipolar quando a gente compara em pessoas que não têm o transtorno. Inclusive, nós temos evidências de que o aumento do BDNF, causado pela utilização de estabilizadores de humor, está correlacionado com a melhoria do quadro clínico do paciente com transtorno bipolar, o que indica que talvez uma parte muito importante das alterações de humor que ocorrem nesse transtorno estejam relacionadas com um desbalanço nos níveis de neurotrofinas.

Esse desbalanço nos níveis de neurotrofinas está diretamente relacionado com as hipóteses de alteração de neuroplasticidade, que é a capacidade do nosso cérebro de se modificar perante as experiências, tanto as conexões como até mesmo na formação de novos neurônios. As alterações de neuroplasticidade podem ser a base para as alterações de conectividade e funcionalidade de diferentes áreas que têm sido bastante estudadas em questão do transtorno bipolar.

De fato, algumas evidências apontam que existe uma alteração de conectividade e atividade de um eixo de resposta ao estresse que a gente chama de eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, ou eixo HPA. Esse eixo de resposta ao estresse parece estar excessivamente ativado e disfuncional em pacientes com transtorno bipolar. O que poderia explicar bastante as alterações de humor e de comportamento, principalmente na fase hipomaníaca e maníaca, mas também alguns comportamentos depressivos, principalmente aqueles relacionados com cansaço e fadiga. Essa disfuncionalidade do eixo HPA pode indicar que o cérebro da pessoa bipolar está mais sensível a certos gatilhos estressores ambientais que outrora não estariam sendo tão importantes para ter uma resposta. Sim, isso significa dizer que fatores ambientais estressantes, como problemas na família, problemas no relacionamento ou problemas no trabalho, vão afetar de forma diferente e mais acentuada os pacientes que têm o transtorno bipolar. Isso, por sua vez, pode desencadear uma desestabilização do quadro de humor, fazendo com que a pessoa passe para um estado mais maníaco ou para um estado mais depressivo.

E aí, você tá gostando do vídeo? Não se esquece então de deixar seu like aqui embaixo e se inscrever caso ainda não seja inscrito. Mas vamos continuar aqui entendendo como é o cérebro de uma pessoa bipolar.

Outro ponto fundamental que ocorre no cérebro de uma pessoa bipolar é a alteração do ritmo circadiano. O ritmo circadiano refere-se ao ciclo biológico natural de aproximadamente 24 horas que regula muitas funções fisiológicas do corpo humano. Esse ritmo é intrínseco e influencia uma ampla gama de processos, incluindo o ciclo de sono-vigília, a regulação da temperatura corporal, a secreção de hormônios, o metabolismo e até o comportamento. Vários estudos têm demonstrado que pacientes com transtorno bipolar apresentam alterações de ciclo de sono-vigília e alterações no ritmo circadiano em geral. As principais alterações são um delay, um atraso nesse ciclo, fazendo com que a pessoa comece a sentir sono muito mais tarde e que ah, se desperte muito mais tarde também. Ou seja, ela dorme tarde e acorda tarde. Além disso, durante episódios maníacos, é muito comum o paciente com transtorno bipolar acabar tendo uma diminuição da necessidade de sono, ou seja, o ciclo sono-vigília dele fica desregulado e ele sente que ele precisa dormir só 3 horas para ficar bem. Enquanto na fase depressiva, pode acontecer o contrário, onde ele sente uma grande necessidade de dormir 10, 12, 14 horas por dia. E um fato interessante é que alguns estudos já têm encontrado alterações genéticas em um gene específico do controle do ritmo circadiano em pacientes que têm o transtorno bipolar, que são os genes clock.

Olhando agora especificamente para o padrão de atividade e conectividade de diferentes áreas do cérebro, até o presente momento, a gente sabe que o transtorno bipolar parece estar relacionado com uma disfunção de conectividade e atividade entre áreas diferentes do sistema límbico, que é o sistema de processamento emocional. Sendo essas áreas chamadas amígdala, hipocampo e ínsula, além, obviamente, de alterações de conectividade e funcionalidade de áreas responsáveis pelo controle cognitivo, como o córtex pré-frontal. Sim, eu sei que são nomes complexos, mas aquelas três primeiras áreas do sistema límbico são importantes para o processamento emocional e para a capacidade da gente de fato sentir as nossas emoções. E uma alteração de conectividade ou funcionalidade poderia explicar essas alterações drásticas de humor que podem acontecer no paciente que tem transtorno bipolar. Além disso, essas alterações de atividade do córtex pré-frontal podem explicar, por exemplo, tanto as alterações de comportamento na fase depressiva, principalmente aquelas relacionadas com a ruminação e os pensamentos suicidas, como também as alterações de comportamento presentes na fase maníaca, que geralmente se mostram como um comportamento mais irritado ou mais impulsivo, que é um pouco característico dessa fase em pessoas com transtorno bipolar.

Bem, é claro que esse vídeo é só um resumo e existem muitas outras hipóteses para tentar explicar o surgimento desse transtorno psiquiátrico, que é o transtorno bipolar. Além disso, eu preciso deixar claro que até o presente momento, a gente não consegue definir 100% como é o cérebro de uma pessoa bipolar, principalmente se a gente pegar apenas um indivíduo. Mas a ideia desse vídeo aqui é explicar o que que a neurociência tá estudando e tem revelado pra gente sobre esse transtorno. Se você quiser saber mais sobre a neurobiologia de transtornos psiquiátricos, eu recomendo você conhecer o meu curso Neurociência dos Transtornos Psiquiátricos. O link para você se matricular vai estar aqui na descrição e no comentário fixado. Muito obrigado pela atenção e até mais.