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A clínica do trágico | Luiz Felipe Pondé

Café Filosófico CPFL48:32

Transcription

[Música]

As pessoas sintam que estão mais preparadas para enfrentar o sofrimento que a própria vida com mais galhardia. São maior e melhor caminho terapêutico é aprender que é possível viver a alegria sem se deslumbrar e a tristeza sem se desesperar. O sentido da vida é o que a morte. Se Deus existe, viver buscando a perfeição ou viver consciente de que a vida perfeita é impossível? É na tragédia que o filósofo Luiz Felipe Pondé vê a busca da resposta.

O curador desta série do Café Filosófico fala sobre a clínica do trágico a partir da literatura, do cinema e da filosofia. Podemos mostrar que olhar a vida pela lente do trágico pode ser assustador e doloroso, mas pode também nos encher de coragem e nos libertar da busca por ideais inalcançáveis. A ideia é fazer uma oposição entre concepção prática de mundo e utopia, né? Enquanto que a utopia, ela é uma espécie assim de visão de mundo onde, de alguma forma, a história está marchando para uma resolução das contradições. Uma vez que se fala hoje em dia muito na morte das utopias, a intenção é, ao invés de discutir isso no plano histórico-político, como normalmente se faz, é focar um pouco o que eu chamei de utopia dentro do quarto, no sentido da privacidade, da intimidade, no sentido do que seria o impacto de um sentimento de que já não há mais um motoqueiro individual pensando como eu, você, o dono da minha vida, eu vou fazer o que eu quero com minha vida.

A concepção trágica de mundo é quase que uma posição diametralmente oposta ao utopiano. A ideia de destino, de que existe um destino que você não supera, que esse destino é arrasador e que, no final das contas, ele parece reduzir todos os seus esforços a zero, e que, portanto, parece que existe uma injustiça cósmica circulando pelo nível, e que o universo é diferente de você, e de que pouco importa o que você tentar, no final sempre é zero, qualquer que seja a soma que você quiser. E essa sensação de que existe um destino que você não supera, que você não vence, até de vez em quando parece que você está vencendo, mas no final a decisão final nunca é sua, você é submetido e você perde. E nesse sentido, a utopia moderna ela vai ter problema com a concepção trágica. Tanto que normalmente pessoas que são muito comprometidas com a ideia de utopia, elas têm alergia. Só que na fila, a ética tem vontade de bater em alguém quando ela é exposta a uma visão trágica do mundo. Não significa que não pode ter esperança, mas quando você tem esperança de mais, a própria vida é definida como algo que, no final, você perde a esperança. E quando você fala de perder a esperança, a gente se aproxima da tragédia.

[Música]

Esse trecho, ele é um dos trechos da literatura ocidental onde essa concepção trágica aparece de forma mais clara. "X, Y, Z, eis o dólar." A empresa tem hotel baiano e foi uma opção tanto fiori. Significa o fim da primeira noção de que a vida é breve como a vela, de que qualquer esperança sobre o amanhã, amanhã, amanhã, é no fundo iluminada por uma série de tolos que desfilaram sobre um palco, né, que é cheio de som e fúria, mas que, no final das contas, é um conto narrado por um idiota, que no final não significa nada. Isso é tragédia, né? Agora, o que isso pode trazer para nós como significado? Dizer que nada tenha significado? Uma coisa que já revela que a tragédia tem significado é porque tem um monte de gente que sempre escreve sobre isso. Então, isso já é uma prova evidente de que algum significado ela faz para nós. De alguma forma, a gente aprende esse sentimento de que talvez a vida não signifique nada, de que talvez a vida fez uma ilusão, e de que ela é frágil como uma vela e dura um tempo curto como a vela. Isso cala fundo no nosso coração. E talvez falar sobre isso, por isso que, quem sabe, as pessoas escrevem tanto sobre isso. Falar sobre isso produz uma coisa que o Shakespeare também fala, que é quando você diz palavras a um coração em agonia, você evita que ele morra de medo de dizer. Quando você tem a possibilidade de falar sobre esse tipo de coisa, que é um pouco como se estivesse no fundo da alma, isso traz para você um sentimento de que você não está só, né? Porque você tem outras pessoas que são velas breves como você.

Recentemente, dava um curso sobre clássicos e uma aluna perguntou para mim assim: "Professor, os clássicos são todos assim, dizer tudo triste, né? Tudo pessimista? Não tem nenhum clássico que seja alegre?" E eu falei: "Sem um pouco, né? Vasculhando a memória assim, olha, acho que você tem razão. De fato, não tem." A maior parte dos grandes autores da literatura clássica, aquele tipo de literatura que você passa, ela fixa. Como é que é? As críticas que você faz viram poeira e ela continua de pé, né? Por isso que eu digo, nunca falei mal de um clássico. Nunca falou mal de Shakespeare em lugar nenhum. Que vai sempre queimar seu filme. Nunca vai queimar o filme do Shakespeare. Se você não gosta do Shakespeare, o problema é você. Shakespeare não tem esse... Alguém tenha essa dúvida, procure ajuda profissional, certo? Porque não há nenhuma possibilidade onde Shakespeare esteja errado e você esteja certo. Mas assim, é... Então, dizer para ela: "Olha, de repente, parece que sim." Então, porque sim? Porque talvez essa visão ela produza um impacto na nossa apreensão da vida objetiva, da vida cotidiana.

A concepção trágica de mundo, ao contrário dela visar a produção de alguma espécie de covardia, de alguma espécie de melancolia, no sentido de depressão, grande parte da concepção trágica do mundo, ao contrário, ela canta exatamente a ideia de que vale a pena você enfrentar o destino, ainda que no final você seja derrotado pelo instituto.

[Música]

Consciente, ele tem basicamente duas raízes. Uma raiz, todo mundo sabe, é a cultura bíblica, a cultura hebraica, o judaísmo, né? Depois vai produzir o cristianismo e tal. E você tem uma outra raiz que é a raiz da filosofia e da literatura grega. A gente sabe que os filósofos, quando eles nascem, eles estabelecem uma certa tensão com a poesia grega, né? Muitos autores acham que eles querem competir com os poetas como formadores da juventude estocástica grega, né? E competir no sentido de afirmar uma certa autonomia do ser humano, porque na concepção trágica é justamente a autonomia que está no foco. O ser humano, ao final das contas, não tem autonomia.

Tragédia é uma palavra que vem da palavra "tragos", significa bode. Dizer que o homem é trágico, dizer que em algum momento o homem vai estar no lugar do bode. Que lugar do bode? No lugar do bode que era sacrificado no culto orgiástico. Portanto, a vida é um processo onde o ser humano vai lentamente em direção ao sacrifício. Essa ideia de que, no final, você é um sacrificado. No caso do ser humano, tem uma característica específica, mas pior do que a do bode. Digamos, o bode não sabe que é um bode. Você sabe que é um bode, né? É por isso que você escreve sobre isso, é por isso que você vai na terapia falar disso. A gente produz uma literatura sobre isso, no sentido de ver, quem sabe, se a gente consegue encontrar uma saída disso. É claro que as religiões, elas vão, de alguma forma, tentar lidar com isso. Mas as religiões, elas tentam produzir uma saída para isso.

A religião grega não me ajuda muito, né? Porque... Porque os deuses na Grécia brincam com a gente, né? Eles se metem na nossa vida. Alguns deuses e algumas vezes até transam com a gente. Quer dizer, os deuses gregos, eles estão longe de ser aquela imagem que a tradição judaico-cristã produziu de um Deus que é... No caso do cristianismo, praticamente sempre amor. Aí, para te ajudar, os deuses gregos estão no mesmo rolo que você. E aí tem uma coisa acima deles que é a Moira, né? As Moiras. As Moiras são figuras centrais na concepção trágica grega. Porque... Porque as Moiras são aquelas que tecem o destino. E muitos de vocês devem saber, elas são meio cegas, elas têm um olho para três mulheres, elas são velhas, desdentadas, feias, nervosinhas e quase cegas. E são elas que tecem o seu destino e o destino dos deuses também.

Chorei, tenho um blog. Português acaba tudo sobre Antônia Barroso. Desvio de carga horária por este viu nem três na metodologia grega. As Moiras eram as três irmãs que determinavam a quantidade de tristeza e sofrimento que caberia a cada um. Juntas, essas artesãs costuravam os destinos. Enquanto uma delas trançava o fio, a outra escolhia a próxima linha que entraria na tela. A terceira Moira cortava o fio da vida, decidindo quando aquele destino chegaria ao fim. Então, elas, à medida que elas vão tecendo o destino, às vezes não enxergando o que estão fazendo. O fato de que, em tese, o destino não enxerga o que está fazendo direito, significa o quê? Significa que o destino talvez não signifique nada. Justamente quando as pessoas ficam querendo dizer: "Não, mas isso tem que significar alguma coisa." A literatura trágica, a vida não significa nada. Ela deve arrancar de você. Ela deve produzir em você um tipo de atitude que é uma atitude onde a ilusão de que nós estamos marchando em direção ao progresso, que a gente está achando para uma vida cada vez melhor, que a gente tem controle pleno sobre a vida. Você pode equilibrar com a visão trágica. E normalmente, quando você vê personagens trágicos, como a gente viu agora, Macbeth, tudo que você pode sentir, você pode sentir um monte de coisa, mas uma coisa é você não vai sentir que ele é bobo. Bobo, ele não é. Você pode ficar morrendo de medo do que ele diz, mas você é compelido a perceber que o que ele está dizendo é de uma ordem de verdade. Ela, fundo no seu coração, principalmente nos momentos em que você se sente no lugar dele.

A tragédia se opõe à utopia, ao sonho de perfeição. A visão trágica tira a vida das nossas mãos e nos coloca nas mãos do destino.

[Música]

Assumir que não temos controle sobre a vida pode nos tornar mais corajosos para enfrentar o nosso destino. Perfeito. A tragédia cria na coragem, cria heróis. E é sobre o herói trágico que o filósofo Luiz Felipe Pondé fala no próximo bloco do Café Filosófico.

[Música]

O destino tem papel fundamental nas tragédias, mas o personagem principal dessas histórias é sempre o herói. O herói é que bravamente aceita, enfrenta o seu destino inevitável. E os heróis são os nossos modelos de virtude, coragem para enfrentarmos a nossa tragédia de homem comum, entender o drama do nosso enredo cotidiano. O herói é a encarnação da virtude. E se espera de seres humanos que têm uma concepção trágica de vida, né, mundo. O herói significa, antes de tudo, aquela pessoa que merece ser lembrada. O herói é a pessoa que merece ter o seu nome escrito no túmulo, porque cada vez que uma pessoa passar por aquele túmulo, ela sabe que aquela pessoa merece ser lembrada. Tanto é que escrever o nome dela onde ela foi enterrada. Porque... Porque ela encarna aquela figura do ser humano, por exemplo, que é aquele ser humano que vive um dilema: "Terei coragem de fazer o que minha consciência pede ou me submeterei à lei?" No caso da Grécia, da pólis, "Vou me submeter ao poder ou vou fazer o que minha consciência pede, sabendo que eu serei destruído pelo que eu faço?"

Pó, como fala o Macbeth no texto, somos todos nós. A diferença é aqueles que, de alguma forma, brilham enquanto pó, aqueles que, de alguma forma, inspiram o pó, ou aqueles que simplesmente choram o tempo inteiro porque pó. Ou ficam inventando histórias porque pó. Isso é a virtude que vai ser projetada na literatura trágica. Então, todo mundo, mais ou menos, em algum momento, se não já em algum momento, terá vivido uma situação que começa a virar que é uma situação onde você tem que ter coragem bastante de enfrentar a pólis, seja o que a pólis significa naquela hora, a família, o bando que você anda, o trabalho, sei lá o quê. Mas assim, em que a sua consciência fala tão alto que você chega a um ponto que você diz o seguinte: "Olha, eu sei que eu vou pagar caro pelo que eu faço, mas eu vou fazer, porque eu não vou conseguir viver em paz com a minha própria consciência."

A tragédia grega, o foco da tragédia é sempre erguer acima dos outros, né? Aquela pessoa que é capaz de inspirar os outros, aquela pessoa que está, de alguma forma, no nível mais alto. Mas nem por isso ela será mais feliz. A tragédia era base de ensinamentos cívicos para os gregos. As aventuras do herói, a tragédia mostrava como enfrentar a condição humana. A atmosfera em torno das apresentações, provavelmente, nos lembraria mais uma cerimônia religiosa do que uma forma de diversão. Isso porque a tragédia também tinha função de purificação. Os enredos trágicos deveriam provocar a catarse, livrar os espectadores das paixões e do terror que provocavam.

A tragédia é a imitação de uma ação importante e completa. A mais bela tragédia é aquela cujos fatos, porém, limitados, são capazes de causar um temor e a compaixão. Ela deve oferecer a mudança, não de felicidade para a felicidade, mas pelo contrário, da felicidade para o curto, suscitando a compaixão e o terror. A tragédia tem por efeito obter a purgação dessas emoções. O problema da tragédia não é a felicidade. O problema da tragédia não é a esperança. O problema da tragédia é que não há esperança, e que a felicidade possível só pode ser construída na medida em que você é uma pessoa que sua liberdade existe justamente porque você não tem nenhuma ilusão com relação às coisas.

O herói trágico, normalmente, é apresentado como alguém que tem qualidades acima da média, características fora do normal, né? E justamente por isso que ele vai realizar o destino humano na sua forma mais poderosa. E é justamente por isso que ele vai ser destruído de forma mais violenta do que os outros. Tem uma figura no mundo grego que é uma espécie de encarnação do que significa o herói trágico, né? É o guerreiro. Aqueles, segundo a tradição e a literatura grega, ele é uma figura filho de uma deusa com mortal, né? Então, ele tem características, ele é quase mortal, mas ele tem um ponto fraco que o torna humano e, portanto, ele pode morrer, né? E essa é essa figura lendária, né? Ele tem qualidades acima dos seres humanos, é mais ágil, ele é mais forte, ele corre mais rápido, ele é mais corajoso, ele vence sempre ali onde os outros perdem. Mas ainda assim, ele é humano, portanto, ele pode ter um destino humano.

Um famoso momento da vida de Aquiles é representado pela literatura e, no caso, pelo cinema, onde ele tem que tomar uma decisão. E essa decisão é uma decisão essencialmente trágica. Se ele tomasse outra decisão, ele seria um banal. Mas não adianta chave. Isto é na força do Botafogo nos anos vindouros. Leonardo Jorge da Vila, Nhocuné, o anel de ouro na sede, network, nota do ENEM no mube. Nós, enquanto Troy, clube Deus pegou mais um empate ou vitória. Es, Natal, as guias, o Hamburgo na Bahia, nem viu destruir seu novo canal, o globo evocando anuiu de uma lanchonete assim, olha.

[Música]

No caso aqui do Aquiles, um herói como a mãe diz que você vai ser lembrado para sempre, não só pelos seus filhos e netos que vão contar suas aventuras, é porque os seres humanos vão ver na coragem de alguém que escolhe a morte, que é teoricamente, praticamente a pior imagem dos significa esse destino, mas que escolhe a morte justamente porque ele não tem medo da morte, e ele prefere ser lembrado para sempre pela coragem dele do que simplesmente ter uma vida banal. É essa escolha com Aquiles tem que fazer. Todo mundo tem suas pequenas Tróias, né? A vida é constituída de uma série de Tróias. E que, de certa forma, a gente pode fazer uma oposição assim bem pontual entre o que é ficar chorando porque a utopia ruiu, porque a gente, enquanto moderno, pós-moderno, já percebeu que a vida não é como se achava que seria no século XVIII. A gente tem muita ciência, a gente tem muita técnica, a gente tem democracia, a gente tem muita liberdade, mas não dá para afirmar nem por um triz que por isso a gente seja evidentemente mais feliz. Na tragédia, não é a felicidade que é a régua da tragédia. A régua é a coragem. Essa é a virtude cultuada na tragédia.

E chega uma pergunta do Júlio César, que acompanhou nossa transmissão. A pergunta dele é: "O caminho terapêutico é aprender que é possível viver a alegria sem se deslumbrar e a tristeza sem se desesperar?" Essa frase é curta, mas o significado dela é gigantesca e longo. Com essa ideia de que o caminho terapêutico é você conseguir, na realidade, viver sem grandes ilusões. Eu acho que é uma ideia muito boa. E é exatamente aí que entra a literatura trágica como visão de mundo. E o interessante é o seguinte: quando você se abre para esse tipo de visão, e é um pouco o que acontece quando você entra no universo como Shakespeare, né? Você percebe a densidade. O universo... A tragédia humaniza o ser humano. Aliás, é isso dito de certa forma que os tops falam, humaniza o ser humano. Aí é que está a força dela, porque você cria uma empatia, porque você percebe que aquele herói, ele representa exatamente o que acontece com você. Então, eu acho que é terapêutico, é um pouco isso mesmo. Agora, é você não se iludir. Agora, ao mesmo tempo, você não ficar o tempo inteiro chorando pelos cantos. Agora, o que eu apontaria o seguinte: tem muita lágrima nisso.

[Música]

A tragédia também é tema de discussão na filosofia. Os filósofos, mídia jovem, Raul e concordavam sobre a falta de sentido da vida e o sofrimento, certo? Que ela nos causa. Mas o acordo entre os dois parava por aí. A postura de cada um deles diante do trágico era bastante diferente. Essa diferença entre emitir Schopenhauer, que vemos agora no Café Filosófico, que queria avançar um pouco agora com vocês no tempo e falar então do Nietzsche e do Schopenhauer, como duas figuras assim, onde a gente encontra uma problematização da tragédia na filosofia, já em pleno século XIX, mais perto de nós. Ambos partem de um pressuposto que está fincado nessa noção trágica do mundo: o destino não significa nada e nós não conseguimos ser autônomos em relação a ele. Mas enquanto que o Schopenhauer falando de que a vida, na realidade, é dominada por uma vontade louca, irracional, autodestrutiva, que vai produzindo coisas e vai devorando as coisas ao longo do processo, e que uma espécie de solução não seria você conseguir combater a vontade dentro de você. E é por isso que muita gente vai usar o Schopenhauer de, no último momento da sua vida, breve como a vela, ter sucumbido a uma certa moral cristã, no sentido negativo da moral cristã, nessa ideia de que, no final das contas, o Schopenhauer ele não teria captado o que significa exatamente a virtude da tragédia, porque no final ele faz um discurso em favor de você aniquilar a vontade, você quase se transformando numa certa, como se diz, quase não falando da seta, de alguém que destrói a vontade, em se destrói o desejo. E nesse movimento, se torna livre da vontade.

"A vida de qualquer indivíduo é, na realidade, sempre uma tragédia. As ambições sempre desiludidas, os esforços sempre inúteis, as esperanças esmagadas em piedade pela futura, os erros fatais de toda a vida, com a dor que vai aumentando e com a morte por conclusão. Eis a verdade. A tragédia sendo assim, aquele que consegue na intuição não é mais o indivíduo, visto que o indivíduo se perdeu nessa intuição. É assim um temporal por um sujeito do conhecimento, instituído de vontade e sofrido." Mas o ponto de vista do Nietzsche, o que ele faz? Você se liberta da vontade, mas o preço disso é que se morre antes da hora. Esse é o problema do ponto de vista do Nietzsche. Morre antes da hora, porque o preço que você paga para não ser vítima da vontade é que você tem que abrir mão do desejo. E aí, o Schopenhauer, a fazer aquilo que Nietzsche fala, que o cristianismo em geral faz, que é adoecer Eros, na linguagem do Nietzsche, né? Você perde o tesão. E aí o Nietzsche vai se perguntar, por exemplo, ele vai dizer assim: "Imagina um asceta, aquela figura do cara que vai morar no deserto, na tradição religiosa e tal." Segundo o Nietzsche, esse cara, quando vai para o deserto, ele vai em busca do seguinte: ele quer responder uma pergunta: "Qual é essa pergunta? Por que existe o sofrimento?" E aí que faz um asceta, no caso, está pensando mais especificamente na no monte cristão, mas esse fenômeno tem muitas religiões. É que faz o asceta, ele responde: "Porque o sofrimento? Sei lá, o sofrimento é para você aprender. O sofrimento vai preparar você para chegar até Deus. O sofrimento vai preparar você para a encarnação melhor." Eu quero dizer é que você vai buscar a resposta. Será a resposta? "Porque há sofrimento? Porque eu tenho que vir à luz? Porque se eu não sofrer, eu não vou conseguir ter uma matéria sutil para conseguir conviver com o princípio inteligente do universo?" Sei lá, qualquer resposta que se deve. E aí o Nietzsche vai bater: "O homem fugindo de seu horror é o facul precisando de um objetivo para viver, preferir ainda querer nada a nada. Pois entre castidade e sensualidade não há oposição necessária. Isso deveriam, pelo menos, valer para todos os mortais mais bem logrados de corpo e espírito." Entre os argumentos contra a existência das contradições, precisamente são denunciados.

Resistiu. A gente sabe que o Nietzsche opôs a metafísica, né? Ornamenta física, no sentido da afirmação de um outro mundo que não é esse. E, claro, metafísica é coisa de Platão, Aristóteles. Do ponto de vista do Nietzsche, é uma coisa difícil, né? É uma coisa complexa, é coisa de elite. Por isso que a gente vai dizer: "A versão de pobre da metafísica, o cristianismo falou." O Nietzsche, né? Porque ele oferece para a população uma solução para o sofrimento que é mais fácil de você assimilar. Então, nessa questão do Nietzsche, quando ele diz: "Então, o asceta vai para o deserto, ele quer se perguntar, ele se pergunta: por que o sofrimento?" Na hora que ele responde, diz Nietzsche: "Acabou tudo." Porque para o Nietzsche, a resposta é a seguinte: "Porque há sofrimento?" Numa resposta, o sofrimento não significa nada. Ele simplesmente é. Isso não quer dizer que você, enquanto vivo, não aprenda com isso, nada disso. Significa que enquanto você está vivo, você deve simplesmente se trancar no quarto, chorar. Não, mas isso pode acontecer. E se você convive com alguém que se tranca no quarto e chora, você tiver algum respeito por essa pessoa, porque, no final das contas, ela está chorando as lágrimas de um monte de gente que não chora. Porque, de certa forma, aquelas lágrimas delas são lágrimas que falam da vida tal como ela é. Porque você não colocou o limite. Sempre coloca que essa intensidade de vida, onde está a alegria? No Nietzsche, a alegria.

A diferença entre o super-homem e o niilista é que o niilista despenca no abismo chorando, enquanto que o corajoso despenca no abismo dançando. Para o Nietzsche, o abismo é o sofrimento. Esse abismo que eu falava. Portanto, por Nietzsche, a vida corajosa, a vida trágica é a vida que despenca no abismo dançando. A alegria, nem tiana, é a alegria daquele que não busca a resposta para o sofrimento, mas ainda assim consegue, sabendo que não tem resposta para o sofrimento, ter alegria no cotidiano. Sabe aquela ideia? Nisso eu acredito. Os melhores dias da vida é quando você não está preocupado com você. Não está muito preocupado com você. Normalmente, um dia péssimo. Eu convido você fazer esse exercício, esse tipo de teste. Então, eu acho que a alegria de Nietzsche é desse tipo. Se deu quando você consegue abraçar a existência, não porque ela tem significado, ou não porque ela, no final das contas, esteja levando você para algum lugar. É porque a beleza da vida está exatamente no fato de que ela não tem significado. E nesse sentido, você adentra o universo de liberdade, que é a liberdade daqueles que, exatamente, não têm futuro. Essa é a alegria. Se você tem um futuro, no sentido metafísico, né? No sentido histórico, você nunca viu um presente. Você está sempre preso a isso que você tem que fazer lá.

A ideia é: ponto. A virtude da tragédia, a coragem. E a alegria só vai sorrir para os corajosos. O filme "A Cruz de Ferro" e "Lúcia". Coragem do herói trágico. A história se passa na Segunda Guerra Mundial. Nosso conflito entre o nome oficial que deseja ganhar uma Cruz de Ferro e o soldado comum que coleciona muitas coisas. Ward, sotaque, tchau, top, som e luz para o local. Certo? Para isso também pode ser só um pouco infantil. Em 44, pai do filho de desligar Cruz. E a história do capitão inteira. Ele é descendente de uma família de oficiais prussianos que tem uma história de muita coragem. Só que é um covarde. Então, ele pede para ir para a frente russa. Só que ele quer ganhar uma Cruz de Ferro. Só que quando ele chegar lá, a frente russa, a pior de todas, ele não tem coragem de ir à frente de batalha. Ele ficou o tempo inteiro escondido com medo. E aí ele vai perder o respeito de todo mundo. Enquanto que esse cabo que viram os sargentos Cahiers, ao contrário, o cara tem uma quantidade de ferro que ele fica soltando de uma gaveta e não dá a mínima bola. No entanto, ele ganha Cruz de Ferro assim como quem respira, né? Por isso que ele está, ele é apresentado claramente como uma figura, exatamente a figura do herói, exatamente a figura próxima ao que o Nietzsche tem na cabeça, né? Guardando suas diferenças da filosofia do cinema, mas assim, a ideia de perder alguém que consegue realizar a coragem na sua dimensão mais radical. O resto fica para Jô.

[Aplausos]

As sete conhece um aristocrata on site está na Jô está aí o seu famoso.

O show já é nosso, diz Cro. E essa cena mostra o que ela não mostra só o momento final onde o sargento vira para o capitão e diz assim: "Olha, eu vou mostrar para você onde cresce escuro, onde cresce a Cruz de Ferro. A Cruz de Ferro cresce quando você está diante da possibilidade do aniquilamento." Só que, na realidade, a concepção trágica do mundo fala isso: você está diante da possibilidade do aniquilamento o tempo todo. Portanto, você está jogado numa dimensão de escolha. Escolhendo. Estou aqui no seu final é o mesmo. Aliás, como diz um texto bíblico, que eles e astes sábios e não sabe os corajosos e covardes o mesmo fim. Então, tente barganhar com o fim no sentido de que: "Não, se eu fizer isso, o fim vai fazer isso comigo. Se eu fizer aqui, ele faz aquilo comigo." Não abala. É democrática. Existe para todos um lugar como esse, onde eles vão enfrentar, né, os soldados russos, tête a tête. Mas o soldado prussiano, naquela hora, é representado pelo Maximilian Schell. Nesse momento, ele consegue recuperar a dignidade dele, porque ele dizia: "Eu aceito que você falou, né?" Então, ele consegue sair do lugar de covarde que ele passa o filme inteiro para enfrentar o soldado russo. E aí, de fato, ele pode conseguir a Cruz de Ferro. E aí, nesse movimento do Nietzsche, a gente chega ao que eu dizia para vocês, que é acelerar a virtude da coragem, que a tragédia, ela é uma concepção de mundo que cultua exatamente a coragem. E que, portanto, diante dessas situações limites, em que você é testado na sua capacidade de enfrentar o destino, é que a gente consegue perceber. E as pessoas percebem. Você pode não falar, mas as pessoas percebem, né? Você pode, inclusive, às vezes ter inveja, vontade de matar, mas quão mais você é, de alguma forma, sadio, mas você é capaz de perceber quando você está diante de um ato de coragem. E a humanidade, quase na sua totalidade, reconhece o ato de coragem.

[Música]

A utopia nos ilude e nos decepciona, porque curte uma nova ideia de uma perfeição impossível. Já a tragédia, não só aceitar as imperfeições da vida nos faz corajosos para enfrentar a vida como ela se mostra. Será que é assim mesmo? Para o filósofo Luiz Felipe Pondé, entender que a vida, o sofrimento não tem sentido pode ser libertador. É essa ideia de que a tragédia é uma forma interessante para você fazer oposição à utopia. É quando, depois de tantos anos e tantas décadas e alguns séculos em que a gente vem cultivando uma ideia de uma vida perfeita, e daí essa ideia a perfeição tem fantasmas. Se acorda no meio da noite com eles, você sonha com eles. Mas não é exatamente no meio da noite, é cada vez que a sua vida, o mundo à sua volta, mostra para você que a perfeição não existe. Ela não existe em você, não existe em lugar nenhum. Você nunca vai ser feliz. Não existe isso. Você vai ter alguns momentos onde você vai conseguir vislumbre, mas o somatório total da experiência não existe. Essa ideia onde a gente vai conseguir enfrentar, vai conseguir construir uma perfeição como essa. O resultado que essa mania de perfeição, ela pode acabar acontecendo como uma espécie de neurose que acaba limitando você. Você tem que estar disposto a encarar a vida para além de uma certa infantilização que as utopias produzem, que produz esperança de mais. E toda vez que tem esperança de mais, você está a um passo do abismo.

Uma ideia de um autor que trabalhou muito tragédia entre nós aqui no Brasil, que é o Nelson Rodrigues. Essa ideia de que o ser humano, ele tem uma natureza que ultrapassa o seu controle sobre ela. Essa é a temática Nelson Rodrigues, né? Que é uma natureza onde você é imerso em desejos, você é imerso em amores e ódios, impulsões sexuais, para falar uma linguagem cotidiana. E você não tem pleno controle disso. E a moral, ela acaba sendo toda uma estrutura construída justamente para conter essa violência que você tem dentro de você e que você não consegue, no final das contas, o povo plenamente sob controle. A gente espera de uma pessoa que, quando ela morre alguém que ela ama, ela sofreu. Mas isso não significa o que eu estou apresentando para vocês que há um culto do sofrimento. É isso que eu queria fechar. Não há um culto do sofrimento na concepção trágica. O fato do sofrimento não ter sentido não significa que existe um culto. Isso é masoquismo, é outra coisa.

Tem uma outra ideia do Nelson, muito famosa, né? Que assim, infelizmente, apesar de que seria muito bom e é muito bom quando a gente reconhece o valor que existe na coragem, muitas vezes as pessoas têm raiva de quem é corajoso. Às vezes, ela quer destruir quem é corajoso ou falar mal de quem é corajoso, né? Ou fala mal de quem consegue superar, superar o sofrimento da vida. O Nelson vai dizer que, na realidade, infelizmente, há muitas vezes as pessoas adoram ver os outros sofrendo, porque isso deixa alegre. Sabe aquela ideia? No Nelson, dizia que você ver se alguém amigo é seu, verdadeiramente seu, quando você está alegre, você está triste, miserável. Todo mundo é seu amigo, porque inclusive é legal, porque todo mundo vai dizer: "Olha, como é legal, olha como ele se dedica." O amigo está sofrendo tanto, ele está indo lá todo dia, tomando conta dele todo dia. E aí, é claro, não é só ter o seguinte: "Olha, tem um ganho secundário nessa história." Todo mundo que acha o máximo. Além daquele ganho mais miserável, que é o seguinte: "Ainda bem que ela está passando por isso, não eu." Cada vez que eu vejo isso, eu volto para casa mais feliz. Veja nesse momento. Não é à toa que toda a fortuna crítica diz que o Nelson trata de tragédias, porque ele vai tocar num nó górdio que traz a tragédia para dentro de você. Não adianta ter utopia com relação a abrir mão das utopias com relação ao mundo, à história, seja lá o que for. São as utopias com relação a si mesmo que podem ser piores. Utopias no sentido de produzir fantasmas e de produzir, e não coragem, mas a inveja, que é bem diferente de coragem. Não é produzir em você inveja. E não há nada que nos hit mais, muitas vezes, do que ver alguém que passa por situações terríveis e consegue, no final das contas, sair da situação. Não que ela virou boba, mas que ela simplesmente conseguiu sobreviver, aquino, mantendo-se, mantendo-se de pé, de alguma forma.

E aí o Nelson fala aquela frase que ele diz que é do outro lado, o Resende, mas voto Lara, Resende, e dizia que não lembro de ter falado essa frase. Não é que os mineiros ficaram muito bravos com ela. É o seguinte: "O mineiro só é solidário no câncer." A mineira Cristina Guerra de verdade. Dessa frase de Nelson Rodrigues, depois de perder o pai, do seu filho, dois meses antes do nascimento da criança, crescer um blog para tentar entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos, devido pela viúva e mãe. Como ela mesma diz: "Eu comecei a escrever esse blog que eu perdi meu namorado quando tinha sete meses de gravidez. Meu filho nasceu, não pode conhecer o pai. E eu fiz um blog, uma tentativa de desabafar, entender o que eu estava sentindo e separar os sentimentos, os bons e os ruins. E acabei construindo uma lembrança do meu filho que virou um livro, que é o pai que eu construí para ele, para entregar para ele."

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Quando o blog começou a ficar mais conhecido, as pessoas entravam, algumas para consolar, para dar um carinho. Eu acho que se não fosse isso, não teria escrito o livro. Então, no final das contas, eu e meu filho ganhamos muito com isso. E isso me ajudou muito. Então, achei um outro momento da minha vida. E aí comecei a perceber que não, para Francisco, as pessoas, muitas pessoas entravam e algumas reclamavam que eu não estava mais escrevendo com a emoção de antes, né? Eu percebi, no blog, uma coisa que, de uma certa forma, estava acontecendo na minha vida pessoal também. Eu acho que muita gente se afastou de mim um tempo depois. Que as pessoas se interessam muito pela tragédia do outro, pela dor do outro. É mais fácil ajudar o outro, ver o outro mal, porque isso, de certa forma, te faz de conforto. Enquanto o ser humano, nos aprendizados da minha vida, com as muitas vezes que eu tive, nem perdi minha mãe, pois perdi meu pai, tive um casamento, 22 abortos nesse casamento, e aí comecei a namorar de novo, o amor difícil, mas que estava tudo bem, estava grávida e morreu. Com todos esses acontecimentos, eles me mostraram que, eu acho que o aprendizado deu na vida, se você não pode controlar as coisas, então acho que é um aprendizado de humildade, de paciência. A gente é muito, e que mesmo diante da vida, a gente tem que entender os sinais dela, tentar fazer o melhor que a gente pode, mas a gente está hoje, seu centro dos acontecimentos, né? Eu acho que essa essa pequenina, bonito, na verdade, se você pega sua pequena mesa e faz uma coisa boa com ela, aí você se tornou grande. Para vocês, o melhor seria de uma clínica do trágico. No fundo, a ideia. O trágico como a possibilidade de cura. Não, a poeira não existe, porque o ser humano é um animal essencialmente doente, isso é mortal, né? Mas cura, em oposição à mania de perfeição, a mania de felicidade plena, a mania de utopia. E, e, e me parece que se a gente conseguir ler mais autores que transitam pela tradição trágica, que trazem essa questão à tona, se a gente tiver um pouco mais de coragem de entrar em contato com trechos como do marketing, né? E de pensar que talvez a vida seja, de fato, uma narrativa tola e sem sentido, que não significa nada no final das contas, mesmo que você perca uma série de coisas aqui, no final você vai perder tudo. O fato de você não ter medo disso pode te dar uma experiência de significado que é só a falta de medo que vai te dar essa experiência de significado. A ideia da tragédia como motivadora de virtudes, né? É a ideia de que a tragédia, na realidade, ela te inclusive para enfrentar aquilo que vai destruir em algum momento.

O Café Filosófico termina por aqui. Para assistir às palestras na íntegra, acesse o site da CPFL Cultura. Participe também das transmissões ao vivo do Café Filosófico, todas as quartas e sextas, no cpflcultura.com.br. Ao vivo, a companhia também a nossa programação através do twitter.com/cpflcultura. Até o próximo Café Filosófico.

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