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AMAA Entrevista COISAS EP01 - Requentando o Gênero

AMAA - Acervo Multimídia de Arqueologia e Antropologia12:03

Transcription

Oh, estimado, as pessoas da internet! Dicas, bem-vindos ao fabuloso programa de entrevistas exclusivas, mas incríveis, mirabolantes, surpreendentes coisas banais! Vamos começar entrevistando uma coisa com uma história nada menos que espetacular. Sim, o espetáculo! Com gravar um moringa. Então, pega a pipoca e o chocolate, que daqui a pouco vai dar, não é?

[Música]

Oi, gente! Que bacana esse episódio de estreia! A coisa que entrevistamos hoje é toda diferentona, entende de ciência e tecnologia, é super educada e bem-humorada. Ainda assim, passa batida nas cozinhas de muita gente. Sabe quem é?

[Música]

E o forno de micro-ondas! Seja bem-vindo! Obrigado, é um prazer estar aqui com vocês. Ficamos muito gratos com a sua participação. Sabemos que o senhor não é de se expor muito, por favor, traga-me por você. Apesar das décadas que acumulo, eu estou sempre jovem, atual e moderno. Basta olhar nas lojas. Assim, eu não sou muito de falar da minha vida, sempre fui defensor da privacidade. A gente, tempos em tempos, alguém se interessa pela minha história, insiste muito como vocês fizeram, eu acabo cedendo. Para variar, e aí, nessas ocasiões que eu sou um fórum aberto. E aí!

[Música]

E pensando nisso, esse convite também foi bom para me dar uma pausa na quarentena desse incessante esquentar a comida dos outros. Imaginamos muita comida fora de hora para quem pode ficar em confinamento, não é mesmo? E muita TV também. Inclusive, nós sabemos que o forno de micro-ondas e a televisão já tiveram uma grande amizade. Você pode falar disso?

Mas por uma breve amizade, confia em bruto. Isso foi há 60 anos. Nos aproximamos porque foi concebido como um aparelho do mesmo grupo dos televisores. Bons tempos, quando eu fui apresentado à classe média nos Estados Unidos, quando eu fui introduzido no circuito de venda em massa. Eu até combinava fisicamente com a televisão.

[Música]

Isso por que meus criadores pensavam em mim como um objeto masculino. Nas lojas de venda a varejo, eu fui comodamente instalado no corredor que as TVs e os aparelhos de som e vídeo. Eu era arrojado, quadradão, um acabamento marrom escuro, imitando madeira, uma cor sóbria e elegante. Combinava com os televisores e rádios. Vendedores de roupa social passavam o dia me bajulando indiretamente, enquanto tentavam convencer os consumidores que eu era o aparelho tecnológico que faltava na casa do homem solteiro de classe média.

Oi, como é que é? Você foi oferecido a homens de classe média interessados em culinária? Que babado! Não, não, foi o contrário disso. Para homens que não se interessavam por culinária, eu era considerado um legítimo exemplar da aplicação de alta tecnologia. Como os homens gostam de tecnologia, mais ou menos gostam de tecnologia.

[Música]

A igreja está ligada em bom, supostamente eles gostavam. Então, eu seria útil e divertido para homens que viviam sozinhos e não tinham interesse em cozinha. Eu iria cozinhar e aquecer a comida própria deles. Ok, só não estamos entendendo aquelas mulheres, supostamente não gostavam de cozinhar. Essa é a parte do engano. Isso mesmo! Preciso voltar atrás da história para explicar. Veja bem, meu nascimento foi mais ou menos acidental. Naquela época, a indústria bélica estava tentando achar outros usos para uma das principais tecnologias de combate da Segunda Guerra, o radar. Com o fim da guerra, eles queriam continuar fazendo dinheiro. Então, tinha esses laboratórios de invenções e testes AB para desenvolver novos equipamentos e aparelhos. Acontece que no centro da tecnologia do radar estavam sinais de micro-ondas. Ah, entendeu, gata? A sua história se entrelaça com a história do radar e outras tecnologias bélicas. Você faz parte da história das guerras, do acidente dos últimos séculos. Instigante! Porque, então, você é um ponto de ligação entre as guerras ocidentais do século 20 e a cozinha das casas civis? E você foi criado pela principal empresa de fornecimento de tecnologia para o departamento de guerra dos Estados Unidos. Uma tecnologia bélica com aplicação em tecnologia doméstica. Fui! Você vem de um rolo da ciência com o estado e o capital. Desenvolvimento de instrumentos e armas de guerra. Muito viril, isso! Acho que estamos entendendo para onde vai a sua história, mesmo que de um jeito estranho. Temos que reconhecer que você é uma coisa fascinante, não é?

Tudo começa com o simpático inventor fazendo experimentos com radar numa parte qualquer da década de 1940. De repente, ele percebeu que seu experimento mirava no que via e acertava no que não via. No caso, era uma barra de chocolate boa tarde que ele tinha no bolso do jaleco que derreteu. Meu inventor, de RPGs, levava Spencer, vivia de comer tranqueiras. Além de chocolate no bolso, ele tinha milho à mão. Milho que ele usou para confirmar que as micro-ondas processavam alimentos. Que deu certo! O milho virou pipoca. Será que ele se assustou como quando a gente está vendo um filme de terror e aleatoriamente usa um forno de micro-ondas para fazer uma carnificina? Que má lembrança! Em minha defesa, eu nunca autorizei esse tipo de uso da minha imagem. E a produção tá avisando aqui por mensagem que eu tô divagando. Vamos voltar às micro-ondas e às comidas. Então, pois é!

Mas de volta à história, já se sabia há alguns anos que as ondas de rádio podiam processar alimentos, mas não deram muita bola para a ideia. Logo depois, veio a Segunda Guerra e focaram em usar as micro-ondas de rádio para detecção de coisas e movimentos dos países inimigos. É aquela tarde qualquer com chocolate derretido no bolso. Uma vozinha falava dentro da cabeça do meu inventor: "Alcança a pança!" A voz lembrava que a guerra tinha acabado e essa aplicação na culinária poderia ser economicamente interessante. O resto da história.

Os primeiros de mim chegaram em 1947, mas eram gigantes, altos, robustos, cheios de comando e custavam uma fortuna. Demorou ainda bons anos para eles conseguirem diminuir o meu tamanho e o preço para alcançar o consumo das classes médias. Primeiro, eu fiquei mais no circuito comercial, sabe, de bares, restaurantes, companhias aéreas e também nas casas muito ricas. Só lá pelos anos 60 eu fui finalmente apresentado no mercado de venda a varejo. Mas não era para qualquer pessoa, ou não. Além do preço, que nessa época eu era acessível para a classe média, eu era sofisticado demais, complicado demais, masculino, mesmo. Sabe, eu era um objeto tecnológico de ponta. Vamos comer a ver porque essas fabricantes esperariam que homens se interessassem em comprar o forno de micro-ondas. Mas por que eles não fizeram marketing para homens e mulheres? Só será questão de 1 milhão de micro-ondas. É uma explicação aqui nos correios, se você não concordar. Ok.

Eram homens que estavam literalmente fazendo as coisas em toda essa história genealógica que você está na mão da guerra, do desenvolvimento de equipamento de armas, os experimentos dos laboratórios, até chegar na tecnologia doméstica. Homens eram maioria absoluta na física, na engenharia, um designer de materiais e na publicidade daquela época, mais de meio século atrás. E não apenas nos Estados Unidos, onde se passa a história. Além disso, eles têm um senso comum que as atividades e habilidades das mulheres eram muito mais voltadas ao trabalho, cuidar desse vi doméstico e que elas eram péssimas em tecnologia. Sim, eu supostamente era complicado demais para mulheres. Então, tentaram me empurrar para os homens. Eu fui oferecido como acessório de luxo para aquecer a comida própria de homens que não viviam com suas mães ou esposas e que não tinha o tempo o gosto por cozinhar. Bizarro, mas cool, não é?

E janelas fui acolhido, redesenhado, repaginado e devolvido em outro corredor nas lojas. Foi praticamente uma abdução. Eu voltei branco, amigo de fogões e geladeiras, apresentado como um aliado sério e versátil da cozinha. Era moderno, vendido por mulheres para mulheres ou casais. Milhões e milhões de consumidores satisfeitos atravessam os anos. Entendeu? Entendeu o que apresentam de preconceito contra as mulheres, estereótipos dizendo e objetos animados fabricados em laboratórios, tecnologia isso também. Mas eu ia dizer sucesso. Entendo meu sucesso. Primeiro que eu fiquei décadas em semiconfinamento, participando experimentos comerciais como restaurantes e companhias aéreas. Daí eu finalmente consegui minha apresentação, minha inserção na sociedade consumidora. Para quase perder tudo por conta de um marketing fracassado, mas recuei, me regro play. Só então vou ter sucesso. Tô aqui até hoje. Verdade. Sucesso em casa, cozinha, mulheres, forno de micro-ondas.

Mas essa mudança do consumidor ideal para a consultora ideal não foi de facto uma mudança, não é? Porque veja bem, engenheiros e marketeiros achavam que o micro-ondas elas tecnológico demais. Primeiro, oferecer um produto como eletrônico de uso masculino com cores escuras, combinando com três vezes aparelhos de som e vídeo, que são de uso recreativo. Inclusive, quando alteram o visual do produto e o relançam para a família, sempre volta branco, combinando com fogões, geladeiras e outros equipamentos voltados às mulheres. Aparelhos práticos e facilitadores de tarefas domésticas. Tanto num caso quanto em outro, temos uma projeção da percepção social de papéis de gênero modelando forno a partir da divisão sexual do trabalho. Hum hum.

[Música]

E aí!

[Música]

É muito obrigada, forno! Foi ótimo! Recebeu aqui tudo bem? Sou eu, o Brasil. Se bem que eu não me lembro de ter sido consultado sobre essa encenação do forno barista. Achei meio ridículo, mas não dá nada. Não me aguarde, sua batata tá assando no seu lugar. Não contaremos com isso. A batata vem aí, e ela tá em outro, preocupada com coisas muito mais importantes que lhe enviaram o ego e atacando os dias. O mesmo é!

[Música]

E aí!