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Webinar | MasterTalks: entendendo as criptomoedas

FGV1:03:56

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Música. Aplausos. Música. K. Música. Música.

Olá, sejam bem-vindos ao Master Talks. O Master Talks é um projeto da Escola de Economia de São Paulo, promovido pela pós-graduação lato sensu em Finanças e Economia e a pós-graduação em Data Science aplicado, eh, para debater temas diversos da economia, das finanças, dos mercados e da sociedade em geral. Ah, hoje nós vamos falar sobre criptomoedas, entendendo as criptomoedas e, eh, antes de dar início à apresentação do tema, eh, eu gostaria de dar as boas-vindas ao meu colega aqui da Fundação Getúlio Vargas, meu convidado especial de hoje, o Professor Jeferson Colombo. Eh, seja bem-vindo ao Master Talks, Professor.

Agradeço o convite, Professor Márcio. É um prazer estar aqui nesse bate-papo, muito bom. Eh, rapidamente, o Jefferson Colombo é professor aqui na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, é pesquisador CNPq, eh, de produtividade com a bolsa produtividade em pesquisa, membro fundador da International Finance and Banking Society e é head da University Blockchain Research Initiative, entre outras atividades, né? Realiza pesquisas na área de investimentos em criptofinanças, em criptomoedas, eh, pesquisa sobre diversificação de carteiras, associados a perfil desses, eh, desses investidores. Vamos falar sobre isso aqui hoje também, eh, e, eh, para dar início à nossa também discussão aqui na webinar, eh, nós temos aqui os tradicionais disclaimers da Fundação Getúlio Vargas. Tá sempre importante falar que as manifestações aqui expressas por esse quadro de funcionários da FGV, hoje nossos convidados são funcionários da FGV, eu e o Jeferson, eh, aceitamos participar livremente, de forma espontânea, eh, dessa webinar, cedendo aí o nosso direito de imagem, som, eh, em geral para essa transmissão, para edições de futuras transmissões dessa webinar e edição inclusive em podcast no Spotify. Lá no Spotify você encontra a, as nossas, as nossas webinars editados, eh, para o podcast, tá? E da mesma forma reiteramos aqui que as nossas opiniões não necessariamente, eh, refletem as opiniões da Fundação Getúlio Vargas. Acho que é isso de disclaimer. Eh, aqueles que quiserem mandar perguntas, comentários, sugestões, por favor, envia via a nossa plataforma SL. Estamos ao vivo tanto no LinkedIn da FGV quanto no canal YouTube da Fundação Getúlio Vargas. Então vamos lá, Professor Jefferson Colombo, muito obrigado por estar aqui com a gente no Master Talks. Eh, vamos dar início aqui então à nossa, ao nosso entendendo criptomoedas.

Tá. Eu acho, Professor Jefferson, que eu acho que a primeira questão importante de fundo é tentar entender a origem, né, o histórico dessas moedas digitais. Eh, de onde surgiu, por quê, eh, um pouco por que que expandiu tanto nos últimos anos, eh, entender um pouco desse, dessa evolução histórica, né? Lembrando que quando a gente fala de moeda em si, por si, a gente sempre associa aquilo que a gente já conhece no dia a dia, o papel moeda, eh, com aquelas funções tradicionais, né, que a gente estuda nos, nos cursos de economia, de finanças em geral, a moeda cumprindo a função de meio de pagamento, de meio de troca, de medida de valor, eh, e elas sempre funcionaram muito bem, foram consideradas uma grande revolução em relação a outros meios no passado, né, até pela sua divisibilidade, pela sua organização de mercados e permitiu uma grande expansão das economias, né, na era moderna. Tá. Mas a partir aí já do, eh, nos últimos anos, nas últimas décadas, nós começamos a ter uma movimentação de criação de moedas digitais. Professor Jeferson Colombo, você poderia falar um pouco pra gente sobre as origens das criptomoedas? Acho que a gente pode começar por aí, né?

Perfeito, Professor Márcio, obrigado mais uma vez pelo convite. É o prazer estar aqui. Eh, deixa eu falar só um pouquinho antes da minha experiência no assunto, então. Eh, tô na FGV, esp. como professor desde 2019. Antes eu fui professor da UFRJ, trabalhei muito tempo no setor público, na Secretaria de Planejamento do Rio de Janeiro, como economista, e foi na FGV, em meados de 2020, que eu comecei a trabalhar com o tema, eh, assumir também a posição de representante, o r, da FGV em um consórcio super bacana, que é Ripple. A Ripple é uma empresa, uma fintech que atua nesse ecossistema, principalmente usando tecnologia blockchain para facilitar pagamentos transfronteiriços, crossborder payments, mas também tem uma ledger, tem um token nativo que é o XRP, que muitos aqui que estão nos acompanhando, que tem alguma familiaridade, provavelmente conheçam. E a Ripple ela criou um consórcio com várias instituições de ensino ao redor do mundo, dentre as quais a FGV faz parte aqui no Brasil, junto com a USP. Então eu coordeno. E aí dentro desse consórcio a gente tem vários projetos de pesquisa, atividade de extensão, ensino. Então também já deixa o convite para quem quiser conhecer mais, se aprofundar. Hoje aqui a ideia é um bate-papo, mas quem quiser estudar blockchain, criptofinanças, finex, a gente tem cursos no nosso mestrado e doutorado profissional sobre, tem. Eh, eu acho que é legal, dito isso, avançando para responder a sua pergunta, é pensar no contexto, né, o paper, White Paper do Bitcoin de 2008, que é Bitcoin, é peer to peer Electronic Cash System. Acho que assim, toda vez que eu leio o abstract, até eu coloco isso em aula quando a gente trata desse tema, acho que é super bacana pensar a ideia já no, no abstract ou no resumo do White Paper, você tem, e uma versão de, e dinheiro eletrônico e para pagamentos online de forma direta, né, de uma parte para outra, sem passar por uma, eh, instituição financeira. Quer dizer, eh, são transações peer to peer, independentes de uma contraparte central, de uma instituição financeira para validar aquelas transações. Acho que essa é uma ideia muito poderosa, assim, você pensar numa sociedade descentralizada em que você pode transferir valor, eh, de forma descentralizada, é super legal. A grande dificuldade disso, eu acho que foi uma tentativa ao longo dos anos 90, início dos anos 2000 em alguns projetos como o Bit Gold, é que você tem um problema fundamental e difícil de resolver, que é o problema do gasto duplo, né? Quando você tá falando em dinheiro eletrônico, numa transação convencional, se eu passo dinheiro lá pro Professor Márcio, Holland, eu faço uma transação, uma instituição financeira vai, eh, retirar aquele saldo que eu transferi da minha conta, vai acreditar lá na conta do Professor Márcio, e essa contraparte central é que faz a validação e garante que a transação é realizada. Nesse mundo descentralizado você tem essa dificuldade que, suponha que eu queira gastar duas vezes a mesma moeda que eu tenho lá, um dinheiro eletrônico. Aquilo não é tangível, tá lá numa ledger, a gente vai falar um pouquinho sobre o que é. A grande dificuldade: eu criar um mecanismo de consenso entre os nós da rede. E aí a gente tá pensando, né, numa blockchain, que é, ela é descentralizada e distribuída no sentido que você tem vários nós que a gente pode pensar como grandes computadores que rotando, eh, problemas complexos lá na atividade que a gente chama de mineração para ganhar o direito de validar e colocar um bloco lá nessa grande cadeia, né? Esses agentes, eh, garantem essas transações. E aqui eu acho que a grande, e se você lê o White Paper, eh, a grande revolução aqui é você criar um mecanismo que gera os incentivos necessários para a própria rede validar as transações, evitar fundamentalmente o problema do gasto duplo, seria utilizar o mesmo recurso que eu tenho para pagar o transferir pro Professor Márcio e transferir para um, para um terceiro qualquer. Tá certo? Usar duas ou múltiplas vezes o mesmo recurso. Então você tem um sistema que você alinha interesses, você, eh, praticamente elimina esse problema do gasto duplo e com isso você gera um, uma arquitetura de rede que permite essas transações de forma peer to peer. Isso veio num contexto lá em 2008, da, da grande crise financeira. Você tem um, um certo descontentamento com o sistema financeiro de uma forma geral, sistema de intermediação financeira. Você tem vários bancos sendo resgatados, inclusive no primeiro bloco, no bloco Gênesis do Bitcoin, tem uma mensagem que Satoshi Nakamoto, que a gente tem hoje documentários, nessa tentativa de personificar quem é o Satoshi Nakamoto, mas pode ser uma pessoa, podem ser várias, pode ser uma equipe. É no bloco Gênesis tem uma mensagem, uma referência inclusive a esses socorros, esses bailouts que o, o governo tava fazendo nos socorros às instituições financeiras americanas lá na crise de 2008. Então é nesse contexto assim que nasce o Bitcoin. Acho que é a grande, a grande revolução, o grande marco, né? A partir daí você tem, eh, outros marcos. Eu acho que o, o Pizza Day, como é comemorado, foi lá em maio de 2010, é um marco super interessante, porque foi a primeira transação comercial de você usa bitcoins para fazer a compra de pizzas. Tá certo? Eh, então você tem um, um terceiro que aceita aquilo como moeda em troca de bens ou serviços. E então isso é um marco no sentido de que Bitcoin deixa de ser um conceito, tá certo? Para ser uma moeda efetivamente utilizada. E se você é até curioso, a gente pensar, né, Márcio, hoje com o Bitcoin, é 0.000, naquela época essas duas pizzas foram compradas por 10.000 bitcoins. Eu fui fazer a conta hoje, dada a cotação atual em reais, que tá valendo mais de R$ 500.000. Hoje essas duas pizzas saíram a mais de R$ bilhões, R$ 250 milhões de reais. Digamos que foi uma pizza bastante salgada em, em valores de hoje na cotação do Bitcoin. Brincadeiras à parte, eu acho que a, a ideia, esse marco é interessante e, e mostra que pode ser, né, o projeto pode ser efetivamente utilizado para transações comerciais. A partir daí você tem várias outras inovações. Eu acho que o, o Ethereum, né, a blockchain do Ethereum, com a introdução de contratos inteligentes, Smart Contracts, também cria todo um universo de aplicações descentralizadas, abre esse espaço para um ecossistema de Finanças Descentralizadas. Eh, mais recentemente você tem vários players institucionais, você tem ETFs de Bitcoin, você tem empresas que passam a adquirir Bitcoin como estratégia de tesouraria, como Tesla, Microstrategy, Square e várias outras. Você tem uma promessa inclusive do, do novo presidente eleito dos Estados Unidos, eh, essa possibilidade de usar, eh, de, eh, usar Bitcoin como uma estratégia de tesouraria, eh, no governo dos Estados Unidos também movimentou um pouco o preço. Enfim, tem várias coisas acontecendo do ponto de vista econômico. Eu acho que é super legal a gente pensar que você tem um sistema que pode funcionar como moeda independente de uma contraparte central. Acho que isso é filosoficamente é bastante complexo e, e, e, e super relevante pra gente em economia. Ou seja, desde o White Paper, fundador da ideia de uma moeda digital eletrônica descentralizada, eh, o que você tá dizendo é que se validou, né? Eh, ou seja, mostrou-se viável a existência da possibilidade, eh, de um meio de pagamentos digital que nasce digital e ali fica, eh, e sem a intermediação do sistema financeiro de bancos e sem a anuência ou regulação ou supervisão de um banco central, né? Eh, como é que tá isso em termos de organização da sociedade? Ou seja, a, há um apetite por parte das instituições em tentarem regular isso, só que a filosofia das moedas digitais, das criptomoedas são justamente essas, suas filosofias são associadas à ideia de serem exatamente descentralizadas. Eh, você tem acompanhado esse movimento de tentativa de regulação desses mercados e, e, ou, ou isso é já é um assunto passado, já tá bem resolvido?

Não, acho que é um ótimo assunto, bastante pertinente, assim. Se a gente pensa o contexto em que surgiu o Bitcoin, claro que tem essa visão um pouco antisistema, libertária até. Eu tenho algumas pesquisas, e não só eu, tem vários lugares, mas aqui no Brasil especificamente a gente fez, né, ti, uma parceria com a Hashdex, uma, uma asset de ativos digitais que tem vários ETFs aí na bolsa para identificar o perfil do, eh, ou usuário de criptomoedas do Brasil. E a gente descobre coisas, eh, bastante interessantes, inclusive que incerteza regulatória é um fator, é um dos principais fatores. Na verdade são dois os principais: incerteza regulatória e incerteza quanto ao preço, ao pricing, né? Quanto vale o ativo, são os dois fatores que repelem investidores desse ecossistema, segundo a nossa pesquisa. Então é, é, é algo que é importante pro pequeno investidor, é importante pro investidor institucional. Tá certo? Eh, no Brasil a gente tá passando por um processo de, eh, discussão do Banco Central sobre as VASPs, né, provedoras de serviço de ativos digitais. Então, eh, inclusive agora foi lançado recentemente uma segunda etapa, uma consulta pública, né? Então é legal que a gente pode ir no site, deixar sugestões, tá certo? Sobre esse processo e as VASPs são, eh, corretoras, eh, empresas que trabalham oferecendo serviços de custódia de criptoativos, intermediários. Tá certo? Então a gente tá passando por um processo de implementação da lei que foi aprovada lá em 2022, que é a, a famosa, eh, lei das criptomoedas, tá? Lei 14.478 de 2022. Então é um debate, eh, relevante, acho que traz alguns avanços, né? Obrigação de segregação patrimonial e a, a necessidade de você ter o sistema de controles internos, prevenção à lavagem de dinheiro. Então cria, né, algum, um arcabouço que protege o investidor de riscos como aqueles que foram materializados, por exemplo, na falência da FTX lá em 2022, que era a segunda maior exchange do mundo. Eh, então muitos investidores foram pegos de surpresa, entraram na fila dos credores. Eh, episódios como Terra Luna. Então assim, eu, e eu acho assim que a regulação é um aspecto relevante do ponto de vista do investidor, é um aspecto relevante do ponto de vista do desenvolvimento do próprio mercado. Quando a gente pensa em blockchain como uma tecnologia de vários propósitos e que criptoativos são um caso de uso dentre vários outros, você pode pensar, por exemplo, todo o ambiente de tokenização, de você, eh, ter uma representação digital, representada em blockchain de um ativo do mundo físico, o mundo tangível, para facilitar trocas. Você tem, eh, o CBDC do Banco Central, CBDC brasileira. Isso tudo passa por uma discussão de regulação. E aí eu acho que muda um pouco essa perspectiva, né? Lá atrás, 14 anos atrás, eh, era uma perspectiva assim puramente libertária, talvez até anti-regulação. Hoje eu acho que a gente passa por um momento em que a gente tem os próprios players desse mercado que constroem, que desenvolvem, querendo regulação no sentido de ter clareza, tá certo? Eh, regulatória, no sentido de, eh, ter os incentivos corretos, né, para a indústria poder desenvolver e não fazer, né, como foi feito nos Estados Unidos, que aquela regulação que a gente chama regulação por enforcement, né, que você, eh, fica observando, você não dá as diretrizes e depois você diz: olha, isso não pode, né? E aí você gera disputas judiciais e o que acaba acontecendo, como aconteceu no caso dos Estados Unidos, que muitas empresas desse ecossistema acabaram descentralizando atividades para mercados onde a regulação ela é mais avançada, especialmente a Ásia. A gente tem Singapura como um exemplo, assim, um país que tá super aberto ao mundo cripto e atraindo muito investimento; os Emirados Árabes Unidos; o próprio Brasil é um exemplo assim de um país que tá avançando e pode ser chamado de referência; a União Europeia também aprovou ano passado, eh, um framework de, de regulação e tá implementando um processo faseado. Então você começa a ter regras, tá certo? Dizer, né, até do ponto de vista de criptoativos e as diferentes classificações, taxonomia de criptoativos, né? Tem uma discussão sobre o que é valor mobiliário ou não, que nos Estados Unidos ficou muito latente inclusive com a XRP, a criptomoeda da Ripple. Então esse tipo de incerteza regulatória ela repele investimentos e um setor que tem no ecossistema essa ideia de transformação, né, de você criar acesso a, à transferência de valor e você tem casos de uso muito claros, assim. Você tem dores, você pensa em pagamentos transfronteiriços, por exemplo, as Filipinas, né? Tem vários países que são cases, assim, tem muitos filipinos, por exemplo, trabalham no Japão, geram renda lá e remetem recursos para os seus familiares no país de origem. O processo, assim, convencional, né, via sistema financeiro tradicional, ele é demorado e caro, né, com, eh, criptoativos você consegue reduzir muito o tempo e o custo desse tipo de transação. Então repara que eu tô falando de famílias que são, eh, vulneráveis, né? Você tá falando de remessa de recurso. Então tem casos de uso super interessantes e a regulação é um dos elementos que podem tanto facilitar quanto repelir, eh, o desenvolvimento do, do mercado. Com certeza.

Maravilha. Tem, eh, entre outras questões, você citou aí a, a essa variedade de, de, de possibilidades dentro desse mercado. A gente já tá recebendo aqui, ah, comentários, sugestões, perguntas, eh, da audiência e uma delas, ou pelo menos duas estão muito relacionadas, mas acho que já vale a pena repercutir. Depois eu queria ouvir um pouco sobre a sua agenda de pesquisa na área, mas repercutindo um pouco aqui o que a gente tá ouvindo, eh, de quem tá nos acompanhando, eh, tem um primeiro comentário muito interessante que tem a ver com a primeira parte dessa nossa conversa, né? Se as criptomoedas são, eh, especulação ou uma tecnologia com potencial real de integrar ao nosso dia a dia. Acho que você já respondeu a essa, a, a essa, essa pergunta aqui, né? Mas não custa fazer uma síntese para quem tá nos acompanhando sobre ela, tá? Eh, e depois tem uma outra, vamos lá, vamos pro...

Perfeito. É, acho que acabei encaminhando um pouco a, a resposta no sentido de que sim, tem o potencial transformador de amenizar dores que existem, tá? O que a gente chama em economia de fricções no, no mercado financeiro, certo? Eu acho que existe esse, esse potencial, parte já é realidade, muito é potencial, e existe também o componente especulativo, né? E aí até para encadear assim com pesquisas que eu tenho feito nessa área, a gente sabe que, eh, esse é um mercado que carece de boas estimativas do valor justo. Então assim, como o Bitcoin tá valendo 90.000 hoje, eh, ele tava valendo 16.000 há dois anos atrás, tá certo? Eh, pode ser que venha a valer muito menos do que tá valendo hoje. Então tem esses ups and downs que são bastante altos, né? Isso a gente chama de volatilidade, um ativo bastante volátil, muito em função dessa dificuldade de você apressar, né? Diferentemente de uma ação que você estima os cash flows, os fluxos de caixa que aquela empresa vai gerar ao longo do tempo, estima uma taxa de desconto apropriada, o risco dos cash flows, traz o valor presente, você tem um, um valor fundamental. Aqui você não tem, não é um ativo gerador de caixa nesse sentido. Então boa parte, né, assim, tem várias, vários estudos assim sobre isso que olham primeiro para a utilidade marginal do ativo, eh, segundo, assim, o componente de rede mesmo, às vezes é chamado de componente cinético. Mas pensa que quanto mais, maior for o tráfego nessa rede, maior número de usuários, de tráfego, maior o valor, porque você gera economias de rede, eh, você tem aspectos tecnológicos, aspectos de escassez, no caso do Bitcoin, você tem a oferta de moeda determinada algoritmicamente, você sabe que vão existir no máximo 21 milhões de Bitcoin em circulação. Então isso também gera uma escassez, eh, mas fundamentalmente no fim do dia a gente tá falando de algo comportamental, tá certo? E aí tem aquela coisa: os investidores entram e saem. Quando o preço aumenta, o ativo se torna mais saliente, mais pessoas entram nesse mercado, eh, e aí que começam a ter os problemas, né, de pessoa que compra lá quando tá 0.000, depois cai. Eh, eu acho que o ponto aqui para a gente é: sim, tem um componente especulativo. Por isso você tem que ter um certo cuidado, avaliar bem, que a gente costuma falar em finanças é a ideia de diversificação, né, entre ativos e diversificação no tempo, né? Que aí você vai reduzindo, se eu for comprando aos poucos, eu, eu, eu reduzo esse risco de comprar na alta e depois vender lá na, na baixa. Se eu diversifico a carteira entre diferentes ativos financeiros tradicionais e não tradicionais, a gente coloca cripto como um, uma classe de ativos dentro desse mundo de ativos, eh, alternativos ou não tradicionais, você também tem que ter um percentual que usualmente é pequeno, pode variar um pouquinho com apetite a risco, mas o meu ponto é assim: tendo, né, cautela, eh, eu acho que isso ajuda na decisão de, de investimento, né? Porque realmente tem um componente muito especulativo nesse mercado. É, e é incrível, né? Porque esse ano, ah, uma dessas criptomoedas, né, existem, tem várias, depois você pode até comentar um pouco a diferença entre elas, a mais conhecida delas, a Bitcoin, este ano já valorizou em torno de 140%, de janeiro a meados de outubro para novembro agora, né? Na verdade início de novembro, mais 140%, deu um, deu uma puxada forte depois da, da, das eleições presidenciais, né, e uma associação com a política do Trump em geral. E nos últimos 12 meses, de outubro do ano passado a final de outubro agora, quase 200%. Então realmente, eh, é um ativo muito volátil, né? Quer dizer, um ativo que, que tem uma valorização como essa pode ter uma desvalorização muito forte, né? E tem um outro lado, Jefferson, de uma outra pergunta que recebemos aqui muito interessante também, porque ela tem a ver com a dinâmica desses mercados, que são os limites da mineração, né, de que criptomoedas, né, e, e o mercado, segundo essa, essa, eh, essa pessoa que nos acompanha, o qual agradeço também a esse comentário muito interessante, tá, que vem sempre para a discussão da moeda, que esses limites de mineração acaba ou vai exigir, eh, algum tipo de adaptação, né? Porque vai ter novos ingressantes, né, neste mercado e você tem um limite de mineração associado, isso pode implicar em aumento de preços e para onde iria isso, né? Eh, esse é um comentário interessante porque talvez as pessoas não saibam. Esse é um mercado que tem limite de mineração. Você pode explicar um pouco isso pra gente?

Perfeito. Não, acho que, acho que é um, um ótimo ponto. Eh, acho vou falar primeiro dessa questão, depois a gente fala do, do momento desse aumento de preço. É assim, então vamos lá, assim: mineração é, é esse processo, esse mecanismo de consenso, né? Pensa que os nós da rede, nós pensam assim: super computadores lá, né, validadores dessa rede, tem que chegar a um consenso sobre as transações que formam um bloco e esses blocos são plugados através de uma função hash, eles são, eh, concatenados, encadeados, e por isso esse nome, eh, blockchain. Esse processo, né, nesse mundo descentralizado, e no caso do Bitcoin ocorre por um mecanismo de consenso chamado de prova de trabalho ou proof of work, que basicamente é, depende desse serviço prestado por esses nós mineradores, tá certo? Que vão resolver lá, eh, um super complexo lá matematicamente para chegar numa solução para você, e quem consegue chegar primeiro nessa espécie de loteria ganha o direito de colocar, de validar essa transação, é esse bloco, na verdade lá na, na blockchain. E com isso ocorre, né? Quer dizer, qual o incentivo que os mineradores têm? Eles são remunerados seja por transaction fees, pelas fees de, de transações, se, e por uma segunda remuneração que é uma recompensa por bloco minerado, que hoje, depois desse último halving, né, isso a gente sabe, né, cada quatro anos muda, acho que tá em 6,25 bitcoins, 6,25 Bitcoin. Essa é a taxa de remuneração, algo hoje aí como 1, um pouco mais para cada bloco que se forma a cada 10 minutos mais ou menos em média no, no Bitcoin. Então existe esse incentivo, tá certo? Essa foi algo que, né, o Satoshi trouxe no desenho, na arquitetura do Bitcoin. E, e você tem assim vários efeitos, primeiro que essa rede precisa ser suficientemente descentralizada, tá certo? Para que você não tenha a possibilidade de um ataque de 51%, tá certo? Assim, você tem uma parte ou, ou partes dessa rede que em conluio podem agir para atacar a rede, isso pode, eh, eh, isso, isso pode se manifestar em um risco para a própria rede, tá certo? Eh, então ela tem que ser descentralizada. Um dos problemas da mineração é que é uma atividade intensiva em computação e acaba naturalmente se concentrando. Acho que isso é uma coisa até para, para ficar de olho nessa concentração da rede. E o segundo ponto que talvez, como foi usado o termo limites, eu acho que tem a ver com escalabilidade, assim. Porque vamos lá, quanto maior o tráfego da rede, se todo mundo passasse a utilizar a Bitcoin para fazer transações, né, sejam comerciais ou não comerciais, você teria um aumento no tráfego de rede, você teria uma demanda muito maior por mineração, eh, e isso gera um efeito inclusive energético, assim, né? Que é por ser intensivo em computação, consequentemente é intensivo em energia elétrica. Então uma razão, assim, a dentro do bear market de 2022, um dos pontos que surgiram foi essa questão do Bitcoin, que particularmente pelo método, pela, pelo mecanismo de consenso que é prova de trabalho, ser intensiva em computação, consequentemente no uso de energia. Isso é uma, quer dizer, tem uma externalidade negativa. E aí quando você pensa em escalar o tráfego dessa rede, provavelmente ela vai encontrar limites, né? E aí o aumento do custo de energia, eh, o próprio aumento do custo de mineração, não poderia reduzir o incentivo porque a recompensa ela é fixa, né? Imagina que para colocar o bloco você tem lá uma quantidade fixa de, de bitcoins, eh, aumentando o custo diminuiria a lucratividade da, da atividade de mineração, poderia ser um, um desincentivo para novos entrantes e atuais mineradores poderiam sair desse mercado. Então você poderia gerar um problema porque a rede pressupõe descentralização, né? E essa, esse limite, eu concordo, eu acho que, eh, eh, eh, tem um problema de escalabilidade no, nessa arquitetura do Bitcoin que é importante de se pensar, assim, eh, sobre a conjuntura atual, né? A gente acompanha toda uma movimentação, se a gente tá falando de uma moeda digital que também é...

Uma moeda é ativo de especulação, no sentido de objeto de investimento das carteiras de investimento, e compõe uma carteira de portfólios de diversificação de risco dos agentes econômicos. É a gente também não está numa ilha isolada, né? A gente tá no meio de um contexto de cenários, em geral, para juros, crescimento, custos de oportunidades, em geral, outros ativos colocados nesse mercado.

Mas agora, em particular, houve uma grande alteração no valor dessas moedas, em particular a Bitcoin, com as eleições norte-americanas, né? E você ia comentar um pouco sobre esse contexto atual, dessa sobrevalorização, né? Você já até citou o fato de que é difícil, você não tem um valor fundamental. Não existe uma conta para isso, né? E aí o mercado fica com essa dificuldade de precificação, de pricing dessas moedas digitais. Você quer comentar um pouco sobre esse contexto atual, conjuntural, e esse grande, essa supervalorização incrível, né? Não, não, não consigo imaginar nenhum ativo que tenha valorizado 140% esse ano ou 190% em 12 meses, né? Talvez a emídia, alguns casos isolados assim, isolados, issimos, né? Assim são situações extremas, raras, né? Perfeito. Não é exatamente, tem como? Depende de comportamento.

É natural a gente pensar que o ambiente macroeconômico, a percepção geral a risco, a liquidez internacional, né, tudo isso, perspectivas de taxa de juros, isso tudo com certeza influencia. Então, nesse último aperto monetário, isso foi um fator que com certeza contribuiu pro Bear Market mais recente, de 22/23, e agora passando por uma discussão assim, né, da reversão desse processo, para começar a reduzir juros, isso isso joga a favor, no sentido de que os agentes passam a tomar mais risco, e nesse contínuo de ativos arriscados, criptomoedas estão bem, bem à direita assim, bem na, é bastante arriscado, então tende a favorecer esses ativos. Tem algo assim que passa também por adoção institucional, né? Desde o ano passado começou a se especular a possibilidade de você ter nos Estados Unidos, que é de longe o maior mercado, a aprovar ETFs de mercado à vista de Bitcoin e Ether, né? Isso aconteceu no início do ano com o Bitcoin. Isso liberou assim, talvez, uma demanda que tava reprimida.

Tá certo. Então, pense: ETF é um mecanismo regulado que você pode operar via home broker, comprar e vender facilmente, de forma muito similar a uma ação. Tá certo? Você não precisa ter uma carteira, chave privada e chave pública. Você não precisa ter um conhecimento sobre as especificidades do mercado cripto para poder ter exposição a esse ativo. Então, isso libera uma demanda daqueles que não são tecnologicamente nativos, né, ou não tem interesse em ficar manuseando a questão de chave, como é que eu vou, né? Hot Wallet, Cold Wallet. Então, abriu-se espaço para uma demanda que antes provavelmente estava reprimida. Então, isso contribuiu significativamente. Tem a questão do Halving, que a cada quatro anos você tem a redução da emissão de bitcoins, aumentando essa percepção de escassez. Então, isso tende, historicamente, se a gente olha para esses episódios de Halving, tem sido períodos em que o preço aumentou.

Tá certo. E eu acho que fundamentalmente o que aconteceu, novidade recente desse mês aqui, foi a eleição do Donald Trump nos Estados Unidos, que eu acho que indica assim, primeiro, uma posição mais crypto friendly, né, mais afeita a essa indústria, esse ecossistema. Tá. Acho que tem a ver também com regulação, que acho assim: os Estados Unidos, como eu falei antes, acho que em vários aspectos é um exemplo de como não fazer regulação, certo? Acho que muita incerteza você repele players da indústria. Então, o simples fato – e eu já ouvi por aí em alguns debates, né – que ah, Estados Unidos vai deixar de atrapalhar, isso já é uma grande ajuda pro mercado. Então, é um pouquinho por aí a percepção geral, né, que você vai ter uma regulação mais friendly pro setor, que você vai ter mais clareza regulatória nas definições do que que pode, o que que não pode, o que que é valor imobiliário, o que que não é. E um terceiro aspecto, eu acho que essa sinalização de que os Estados Unidos poderiam comprar bitcoins como estratégia de tesouraria. Tá certo? Então, tem lá as reservas investidas, parte das reservas americanas investidas em Bitcoin, que é uma estratégia que a gente tem visto no mundo corporativo, principalmente. Tem empresas como a MicroStrategy que tem se valorizado e tem estado bastante correlacionada com Bitcoin porque parte da estratégia da empresa é adquirir, né? Você tem lá as reservas de caixa que tem um custo de oportunidade alto, porque essa caixa rende lá a policy rate, aqui no Brasil seria Selic. E você tem custo de oportunidade alto, e aí você tem uma ideia de que você pode diversificar essa caixa investindo em Bitcoin, e tem teses para isso. Tá certo? Não vou entrar aqui no mérito da tese, mas o ponto é que o simples fato de existir essa possibilidade, e pensa no tamanho das reservas dos Estados Unidos, isso também foi outro fator que colaborou para esse boom. Agora o preço tá girando aí na casa de 60.000 o Bitcoin, mas todo o ecossistema, né, se a gente pensar numa infinidade, você pensa numa classe de ativos, né? Assim, a gente poderia entrar numa discussão porque, enquanto Bitcoin tem características de meio de pagamento, então tem essa, digamos, tipificação, né, de um dentro dessa caixinha do que são considerados criptoativos, você tem lá tokens de pagamento, como Bitcoin, Litecoin e outros; depois você tem tokens de infraestrutura, a gente poderia pensar em Solana ou Cardano, e outras onde você roda a Smart Contract aqui. Isso abre uma série de casos de uso. Você pode pensar em stablecoins, tá certo, atreladas a uma moeda fiduciária ou o preço do ouro ou algum outro ativo; NFTs, tokens de governança, tá certo; tokens de valores imobiliários. Então, assim, tem, tem um mundo, né? A gente tá falando de um mundo de coisas, e esse mundo de coisas, quando a gente olha hoje, vale 3 trilhões de dólares, acho que tá mais ou menos por aí. Então, é uma indústria que já tem um valor relevante. Essa questão regulatória, eu não falei antes, mas ela é importante até para a estabilidade financeira. Tá certo? Não é mais um mercado nichado, ah, uma coisa lá de pessoal libertário, né, pequeno, não. Se massificou, a adoção tem crescido bastante, goste ou não. Eu acho que é um assunto que a gente tem que tratar porque tem muito investidor de varejo, investidor institucional. E então isso tem implicações para a estabilidade financeira, e acho que a discussão sobre regulação passa muito por isso também.

Muito bom. Agora eu queria passar um pouco, Jefferson, a gente falando aqui de criptomoedas, discutimos a evolução histórica, de onde veio, essa, de onde vieram essas criptomoedas, um pouco a parte da volatilidade desses mercados, a discussão sobre regulação de um mercado que originalmente era libertário, tinha toda uma filosofia, né, associada à ideia de desregulamentação, não autoridades monetárias, o P2P, os agentes comprando e vendendo e trocando moedas entre si diretamente, a validação dela socialmente se tornando de fato algo relevante da perspectiva real, né? E ao mesmo tempo é dentro de uma classe de ativos, um, os de ativos de investimento, de ativos de composição de carteira em geral para diversificação. Depois dessa conversa toda, talvez seja interessante entender um pouco a agenda de pesquisa na área, né? Quer dizer, existe essa discussão dos mercados em si, né? Aliás, no dia de hoje, a gente fazendo a gravação deste evento, desse Master Talks sobre entendendo criptomoedas, Bitcoin já valorizou mais de 2% hoje, né? É um negócio extraordinário. Mas para além disso, você tem agendas de pesquisa na área, né? Poderia descrever um pouco rapidamente pra gente um pouco essas vertentes de pesquisa envolvendo, particularmente, até interessante um pouco entender o perfil dos investidores, quem é que entra nesse mercado, um pouco também da importância dela na diversificação de carteira e adoção corporativa. Achei também interessante essa parte da agenda sua de pesquisas, se você puder falar um pouco disso pra gente.

Perfeito, Márcio. Não, super legal. Inclusive, dar um jeito de deixar um link. A gente lançou um e-book. A gente teve um evento na FGV semana passada, que foi o Blockchain Day FGV. Então, a gente, uma série de painéis, apresentações sobre esse tema e correlatos, e na oportunidade a gente lançou um e-book de melhores trabalhos, teses de alunos de mestrado e doutorado nessa área em Crypt Finance, como a gente chama. Então, vou dar um je, disponibilizar para quem tiver interesse. A gente tem esse e-book, e vou colocar, vou, vou mandar para você, vamos dar um jeito de deixar disponível pro pessoal aí. E então, dito isso, acho que esse e-book é um produto de uma agenda de pesquisa que tem, tem sido desenvolvida na FGV como um todo, e eu, em particular, tenho, como você falou, projeto no CNPq de bolsa de produtividade, justamente nessa área, para desenvolver pesquisas. Algo que a gente sabe – e isso acho que é uma evidência – é o público. Quem opera nesse mercado tende a ser do gênero masculino, tende a ser jovem, né? São nativos digitais. Então, a propensão, se você é jovem do sexo masculino, aumenta muitas vezes, relativo a seus pares, aumenta muito a propensão de você ter cripto e ter intenção de investir. Tá certo? E esse perfil, ele ocorre em várias regiões do mundo, tá certo? Ele é, ele é quase que uma unanimidade quando a gente vê estudos, né, localizados na América Latina, Estados Unidos, Europa, Ásia, parece ter esse padrão. Uma coisa assim super legal. E aí, é de pesquisas da literatura sim, é o que que acontece a partir do momento que o investidor, quando ele investe em Bitcoin ou outra cripto, o que que, que que acontece com o portfólio desse, desse indivíduo? Tem um paper super legal. Consegui uma base de dados de uma instituição financeira na Alemanha e consegui avaliar o efeito sobre o portfólio, e o que que a gente convencionalmente em Finanças assim pensa que se você vai aumentar a exposição, você tá adicionando um ativo bastante arriscado na carteira, você compensaria esse acréscimo de risco diminuindo exposição em outros ativos arriscados, e o que acontece é aparentemente o contrário, que na verdade ao adquirir cripto, o investidor aumenta ainda mais a exposição a outros ativos arriscados. Então, vai totalmente desalinhado o que a gente pensa em teoria de portfólio. Então, isso parece ter uma evidência assim relacionada a isso em termos de atitudes. E por que que as pessoas entram nesse mercado? Isso varia muito pelo perfil dos indivíduos, dos investidores. Isso é uma pesquisa, um artigo publicado que eu tenho esse ano, que ele mostra assim que, por exemplo, o investidor que é considerado não sofisticado – por não sofisticado é aquele que não tem tanto, provavelmente assim, não tem um conhecimento financeiro tão grande, a gente faz uns testezinhos para isso – investidor não sofisticado, ele é levado a esse mercado pela alta popularidade do ativo, ou seja, porque ele ouve falar, ele viu um jabá, o amigo falou, e também pelo histórico. Então, são medidas assim mais backward looking, que a gente chama, né, olhando pelo retrovisor, enquanto que os investidores que são considerados sofisticados eles têm um maior grau de confiança na tecnologia blockchain, então uma visão mais de longo prazo: eu confio na tecnologia, eu acho que isso tem algo que lá no longo prazo isso pode ser interessante, e também por efeitos de portfólio e macroeconômico: quer dizer, olha, eu vou diversificar aqui o meu portfólio. Então, tem que ter uma lógica que é muito diferente para diferentes perfis de investidores. Isso é coisa que a gente só sabe fazendo pesquisa acadêmica. Tá certo? E acho que isso é legal de compartilhar porque lá no fim essas coisas é que ditam como funciona esse mercado. Esses ups and downs dependem muito de quem são os participantes. Então, acho que isso é legal de falar. É uma vertente que eu tenho feito pesquisa. A outra é assim: é diversificação. E aí a gente tem bastante evidência, né, até pelos altos retornos, embora você tenha bastante risco também, você acrescentar criptoativos em carteiras bem diversificadas. Eu tenho paper na Revista Brasileira de Finanças com um aluno aqui da FGV, um egresso do mestrado profissional, que a gente testa várias estratégias de alocação, desde estratégias assim ingênuas – você pega carteira, bota um sobre cada ativo, tem mesmo peso dentro do portfólio – outras que você pondera pelo risco, até modelos de otimização variados, e assim, independente da estratégia, assim, você consegue ter Sharps maiores e estatisticamente diferentes entre si quando você compara com o portfólio base constituído por renda fixa, ações, ouro, dólar, tá certo? Uma carteira bem diversificada, essa que adiciona cripto, ela, em várias janelas, ela tem uma performance superior. Enfim, tem um debate grande sobre se Bitcoin é um hedge contra inflação. E aí a gente, eu também tenho paper nisso, parece que ele é, mas apenas em contextos particulares, ao contrário do ouro, que tende a ser um hedge contra choques inflacionários mais consistente. Tá certo? E a terceira linha que você falou é de adoção corporativa. Eu acho que isso é um assunto pouquíssimo explorado. Tá certo? Você teve um movimento lá em 2020, 2021, principalmente quando a Tesla anunciou que queria 1,5 bilhões de dólares em Bitcoin, anunciou na divulgação financeira, acho que foi do segundo trimestre de 2021. Isso fez com que o preço aumentasse, uma série de outras empresas passaram também a adquirir como uma estratégia de diversificação de caixa e equivalentes de caixa, ou seja, gestão de liquidez corporativa, né? Então, você adquirir e constituir em balanço patrimonial cripto acabou sendo uma, a Tesla foi um dos primeiros a se movimentar e acabou sinalizando para outros players que imitaram esse comportamento. O que aconteceu foi que com a subida dos juros, né, você teve uma interrupção desse movimento, mas eu acho que é algo que deve voltar, já tá voltando, na verdade, mais empresas, até porque teve mudança nas regras contábeis, como você mensura e reconhece essas movimentações de preço, tá certo? Teve uma mudança aí para mensurar o fair value, valor justo, tá certo, e não a custo histórico. Tem uma mudança contábil também que favoreceu, que é bem recente, mas o fato é que nesse estudo a gente conseguiu mapear 30, são 35 eventos, alguma coisa assim, de aquisição ou aceitação como meio de pagamento de cripto, e ver o que que acontece, como é que o mercado reage, como é que a ação, a ação, o preço sobe, o preço cai. A gente observa assim que, em média, o efeito ele é nulo estatisticamente, ele é igual a zero, a gente não consegue rejeitar a hipótese nula de que ele é igual a zero, só que quando a gente vai e a gente observa que as empresas, algumas anunciam uma exposição a cripto bastante grande, tá certo? Teve empresa na nossa amostra que adquiriu 26% do seu ativo total patrimonial em cripto. Isso é uma exposição altíssima, enquanto você tem empresas que têm ativo de bilhão de dólares e que querem 1 milhão de dólares em Bitcoin. Quando você tira a fração disso, é insignificante. Quando a gente faz essa estratificação e olha pros eventos de auto Skin in the Game, ou quando você tem muito em jogo, quando a empresa tá colocando muito em jogo versus eventos em que a empresa tá colocando pouco em jogo, aí é que a gente encontra o resultado interessante, que o mercado reage positivamente se a exposição ela é alta, ela é economicamente relevante, e o preço reage negativamente quando a exposição é pequena, que pode ser até contraintuitivo, mas é compatível com aquelas ideias que a gente tem até no mundo de ESG, que o preço da ação cai quando a empresa tá fazendo greenwashing, quando ela quer sinalizar algo que ela não tá fazendo de verdade, aí o investidor penaliza no preço. Então, parece ter algum paralelo aqui. Então, é, é uma pesquisa, é uma agenda de pesquisa essa de adoção corporativa que ainda é pouco explorada na academia. Acho que é algo que vai ganhar relevância a partir de agora, 2025, 26, e tem essa dificuldade que você tem poucos dados, essa é uma limitação do estudo assim, você tá falando de 30 e poucos eventos, não dá para extrair grandes conclusões, mas parece ser o seguinte: o mercado valoriza somente se a empresa tá colocando, tem uma exposição suficientemente grande em termos econômicos a criptoativos, caso contrário o efeito é zero ou até negativo. Então, assim, são coisas que eu tenho feito com alunos, colegas aqui na FGV e fora da FGV. Tá certo? E quem tiver pode entrar no meu perfil lá e procurar que vai encontrar esses papers.

Muito bom. Mais uma agenda de pesquisa nessa área de Finanças, né, de Finanças empíricas que o professor Jefferson Colombo conduz aqui na Escola de Economia de São Paulo, através do mestrado e doutorado, e, e. E tem também agora toda essa pesquisa associada a diversos aspectos do uso de criptomoedas ou do mundo de Crypt Finance que vocês acompanharam aqui. O professor Jefferson citou um e-book que estará disponível, vamos disponibilizá-lo no site da Escola de Economia de São Paulo. Eu, particularmente, na nossa área lá dos Masters em Data Science Aplicada e do Master em Finanças e Economia, né, investimentos, economia de negócios e Finanças Corporativas, mas também podemos colocar na área do mestrado e doutorado em Economia, para quem quiser acompanhar, vai achar fácil lá o e-book logo logo, tá, em qualquer das nossas áreas da Escola de Economia de São Paulo. Jefferson, a gente já tá caminhando aqui pro final dessa webinar, transmissão ao vivo tanto no LinkedIn da Fundação Getúlio Vargas quanto no canal YouTube da FGV. Quem chegou no final vai poder assistir também no canal YouTube da fundação e logo logo editado para podcast no Spotify. Falamos aqui, estamos falando e finalizando a nossa conversa sobre entendendo criptomoedas, Master Talks da Escola de Economia de São Paulo. Para finalizar, eu acho que é sempre interessante um balanço geral, né? Existem várias criptomoedas, existem vantagens e desvantagens como investimento, mas ao mesmo tempo não é só uma questão de investimento, é uma questão também de uma moeda digital com propósito de ser uma moeda, ponto, né? Não, não indo pro mundo de moedas físicas como a gente conhece, mas tendo sim interações com o mundo físico no sentido de ter poder de compra, né? Desde o chamado Pizza Day, né, lá em maio de 2010, se mostrou viável como meio de troca também. Num balanço geral, Jefferson, podemos dizer que da perspectiva histórica foi muito rápida a evolução dessas criptomoedas, a gente tá falando de um White Paper fundador dessa ideia em 2008, e do lado da perspectiva desse mundo de moedas digitais, como é que você vê, como é que você faz esse balanço geral dessas criptomoedas, vantagens e desvantagens, histórica, recebendo vários, ainda tentar transmitir um… essas… aguarde aí que a gente…

Perfeito. Mas não acho que é um tema assim que tem bastante debate, interesse. O que é bom, especialmente também com a atenção que tem sido dada agora para esse momento, então isso repercute muito mais. Então, acho que é legal a gente pensar que a gente tá falando de uma classe de ativos que tá ainda na sua infância, né? E como classe de ativos, vamos lá, assim, até para ficar claro assim: é um conjunto de ativos que compartilham entre si algumas similaridades, certo? São suficientemente próximos entre si esses diferentes criptoativos, e são suficientemente diferentes de outras classes de ativos, né, como imóveis, ações, renda fixa etc. Então, assim é assim que a gente define uma classe. Então, dentro dessa classe você tem vários, você tem, como eu falei, você tem classificações por função, por natureza, por caso de uso, né? Alguns tokens têm característica de infraestrutura, outros de pagamento, outros de governança, de utilidade, de valor imobiliário etc, etc. Então, assim, você tá falando de um, de um ecossistema assim super amplo. Eu acho que vale a pena assim entender, né, quem tiver interesse, tentar ir a fundo, entender a, entender que tipo de uso, que tipo de problema isso pode resolver, certo? Para partir daí poder tomar uma, uma decisão informada. Isso que você falou, acho que em termos de moeda, essas características, eu acho que a própria comunidade, assim, no caso do Bitcoin, algum momento assim, ele, a tese é muito mais de reserva de valor, quer dizer, eu transferir poupança pro futuro do que meio de troca, né? Muito embora se você entrar em alguns, tem até um site, acho que é btcmap.org, alguma coisa assim, que você tem os endereços cadastrados de estabelecimentos comerciais que aceitam Bitcoin como meio de pagamento. Acho que são quase 1000 no Brasil cadastrados nessa plataforma. Você tem alguns clusters inclusive: Jeriquaquara e Rolante no Rio Grande do Sul, Jeriquaquara no Ceará. Você tem algumas regiões em que você tem efeitos de rede, você tem vários estabelecimentos que se… então, assim, você pode utilizar como meio de troca. Acho que até uma experiência legal para você conhecer como funciona na prática, né, transações envolvendo cripto, mas via de regra assim, o uso maior como a tese de reserva de valor. E aí eu acho assim, né, indo, né, para essas considerações finais, dito isso, eu acho que o mais importante assim é ter um olhar, da mesma forma que quando estava 16.000 o Bitcoin e o market cap dessa indústria tava baixo também, não era tudo ruim, não era só fraude, obviamente existem fraudes, você tem que aprofundar, investigar. Acho que alguns projetos que já são consolidados, outros projetos novos são muito mais arriscados nesse aspecto, mas da mesma forma que lá quando estava 16.000 não era tudo ruim, não é agora que tá 60.000 ou 520.000 que é tudo ótimo, que assim, tem muita… alguns mercados tem muita paixão, né? Esse, esse é um deles, né? Você ama ou odeia. Ponto. Ter um olhar um pouco mais agnóstico, olhar pra tecnologia que é super interessante, tem várias possibilidades, e tomar decisões que sejam fundamentadas. Precisa de educação financeira. Acho que esse espaço, Márcio, é super legal para para debater, trazer evidência também de pesquisa, que são coisas que acabam chegando pouco para quem tá na ponta final, e eu acho que é isso, né? Se você avaliar, ficou buscando informação de qualidade, entendeu, identificou que existe uma possibilidade, eu acho que você tem que pensar, né, sempre, né, e se, e se o preço caísse para zero, vamos botar assim no limite, o que que aconteceria, né? Eu não posso comprometer, né? Tem gente que toma decisões financeiras que são malucas, assim, para gente que dá aula de Finanças, como tomar empréstimo para investir em Bitcoin porque o preço tá subindo, assim. Acho que primeiro ponto é não fazer esse tipo de loucura, pensar conscientemente, idealmente no longo prazo, tá certo? E acho que se for, né, se a decisão é de compra, você vai comprando pouquinho aos poucos para ter um portfólio diversificado, você vai neutralizando esse efeito de tá caro ou tá barato, você vai diversificando no tempo também, e não só entre ativos, tá certo? E pensar que você tem uma dificuldade de apreçamento, ninguém sabe se o valor justo é 60.000 ou é 150.000 ou é 30.000 ou é 60.000, eu nunca vi um bom modelo aí que pudesse dar uma pista sobre isso. Então, no fim do dia, o que acaba determinando os movimentos desse ativo, grosso modo e preponderantemente, são os aspectos comportamentais, né? A atenção, são os investidores que entram, que saem. Às vezes o investidor tá excessivamente pessimista quando o mercado tá em baixa, é excessivamente otimista… então, eu acho que tem que pensar nisso e ter um olhar um pouco mais cauteloso, tá certo, e informado para tomar uma boa decisão. E então é isso, Márcio. Queria agradecer o espaço, agradecer as perguntas também para quem nos acompanhou e, e também o conteúdo vai ficar disponível ex-post. Então foi uma conversa bacana da minha parte. Espero que tenham gostado e que a gente possa fazer outros né, oportunamente aí, porque é um mercado que se desenvolve muito rápido, tem muito interesse, tem muita demanda, e acho que é legal ter esse espaço mais acadêmico, né, para trazer discussões que não aparecem aí nos materiais que a gente vê por aí. Obrigado, Professor Márcio.

Muito obrigado, Jefferson Colombo. A gente debateu aqui na webinar nosso entendendo criptomoedas, um pouco de cada coisa, histórico, essa questão da volatilidade que o Jefferson destacou agora, que é muito importante, é um mercado muito volátil, portanto é um mercado de um ativo de risco, né? De alto risco. Precisa muita cautela, cuidado. Existe ainda todo o aspecto, obviamente, regulatório que causa um stress ao mercado, mas ao mesmo tempo pode jogar positivo para o sentido do seu desenvolvimento. Existe a discussão sobre a presença de grandes players neste mercado, né, que também afetam os preços. Então, fica atento a isso, a questões de fraudes, né? Muitas delas já devidamente documentadas, já viraram documentários em streamings que você pode acompanhar por aí. Então, não é um mercado trivial, um mercado para tomar cuidado e para estudar, pesquisar, e tem muita pesquisa, o professor Jefferson conduz e citou alguns casos aqui, pesquisas na área, muita gente interessada, Jefferson, sobre as suas pesquisas aqui citadas, como participar, como envolver, aí entrar em contato direto com ele, pesquisar no…

Site nosso da escola é o ebook também. Pedido aqui para mandar o link. Vamos deixar o link. Já falei sobre isso do Blockchain Day, não é isso, Jefferson? Vamos, vamos deixar o link desse e-book aqui no nosso site da Escola de Economia. Tá bom. Muito obrigado ao professor Jefferson Colombo. Falamos aqui com Jefferson, que é professor da escola de economia de São Paulo, da FGV, é head da University Blockchain Research Initiative, entre tantos outros. Realiza pesquisas em Finanças Empíricas em criptomoedas. Acho que tá bom por hoje. Passamos até um pouquinho do tempo. Muito obrigado mesmo, foi muito bacana, muito esclarecedor. Até a próxima. Jeon, a casa é sua aqui do Master Talks. Até, obrigado, um abraço. Obrigado. Obrigado a todos que nos acompanharam aí, mandaram tantas perguntas e comentários. Agradecemos bastante. Até logo. [Aplausos] [Música] h [Música]