Transcription
Você está no trabalho, no horário de almoço, e um colega chega empolgado. "Entrei num consórcio de carro sem juros, parcela barata, muito melhor que financiamento." Você ouve e parece fazer sentido. Então você pesquisa, a parcela é menor mesmo. Você assina e dois anos depois você ainda não tem o carro. A parcela subiu e você está começando a perceber que tinha detalhes importantes que ninguém te explicou direito.
Essa história acontece todo dia no Brasil. E não é porque as pessoas são burras, é porque ninguém sentou e explicou como esse produto realmente funciona do começo ao fim. A maioria das pessoas toma decisões financeiras na pressa, baseadas em informações pela metade. Se você é alguém que está pensando em entrar num consórcio, já está em um e tem dúvidas se foi uma boa ideia, ou quer entender de vez o que está por trás desse produto, fique até o final, porque nesse vídeo você vai entender o consórcio por completo antes de assinar qualquer coisa.
Aqui está a questão que precisa ser resolvida antes de qualquer outra conversa sobre consórcio: ele não é investimento. Isso parece óbvio quando eu falo assim, mas você ficaria surpreso com quantas pessoas entram no consórcio com uma expectativa de retorno financeiro. "Ah, estou guardando dinheiro. Meu patrimônio está crescendo." Não está.
Consórcio é uma modalidade de compra planejada. Ponto. É uma das várias formas de você adquirir um bem: um carro, um imóvel, um equipamento agrícola. Junto com o financiamento, o parcelamento no cartão e o pagamento à vista, são caminhos diferentes para o mesmo destino. O investimento, se ele existir, é o bem que você vai comprar depois de ser contemplado. O consórcio em si não gera um centavo de rentabilidade, ele é um contrato de compra com regras específicas, e entender essas regras muda tudo.
Então, vamos do começo. O que é um consórcio? Bom, ele até que é simples de se entender. Imagina que você e mais 299 pessoas têm o mesmo objetivo: comprar um carro de R$ 80.000. Vocês formam o grupo. Todo mês, cada um paga uma parcela. Esse dinheiro vai para um fundo comum e, todo mês, com esse fundo, algumas pessoas do grupo recebem o que se chama de carta de crédito. A carta de crédito é o valor que você pode usar para comprar o carro. Quem recebe a carta naquele mês pode ir lá e comprar o bem.
E aqui está o primeiro detalhe importante que precisa ficar na sua cabeça: mesmo as pessoas que já foram sorteadas precisam continuar pagando o consórcio. Afinal, precisam pagar pelo bem das outras pessoas que ainda não foram sorteadas. É uma espécie de poupança coletiva, onde todo mês alguns participantes são contemplados até que todos tenham recebido. No final, todo mundo que ficou em dia recebe a carta.
Mas a grande pergunta é: quando vai ser a sua vez? E a resposta para essa pergunta é: "O coração do consórcio." Você é contemplado por sorteio ou por lance? No sorteio, como o nome já diz, é a sorte decidindo se o número sai ou não sai. Pode ser no primeiro mês do grupo ou pode ser no último. Não tem como prever, não tem como garantir. Nenhuma administradora pode te dizer quando você vai ser sorteado, e isso não é promessa que vale no contrato.
Já no lance, você compete. Antes de cada sorteio mensal, quem quiser pode fazer uma oferta, ou seja, dar um lance, que é um percentual do valor da carta de crédito. Quem oferecer o maior percentual é contemplado naquele mês. Se duas pessoas oferecerem o mesmo percentual, vai a sorteio entre elas. E aqui existem três tipos de lance que você precisa conhecer, porque cada um funciona de um jeito.
O lance em dinheiro é o mais direto. Você usa recursos próprios. Se a carta é de R$ 80.000 e você oferta R$ 24.000, seu lance é de 30%. Se ninguém oferecer mais do que isso naquele mês, você é contemplado. O dinheiro que você deu de lance abate o seu saldo devedor. Então, quanto mais capital você tiver disponível, maior a sua chance de sair na frente.
O outro tipo é o lance embutido. Ele é um pouco diferente e é onde muita gente se confunde. Aqui você não usa dinheiro do seu bolso, você usa uma parte da própria carta de crédito como lance. Numa carta de R$ 80.000, você usa R$ 20.000 embutidos como lance. Se for contemplado, você não recebe os R$ 80.000 cheios, você recebe R$ 60.000, porque você usou R$ 20.000 da sua própria carta para ganhar a vez. É como se você entrasse numa corrida e dissesse: "Eu vou sair na frente, mas chego um pouco antes do fim." É útil para quem não tem dinheiro disponível para dar lance, mas quer tentar antecipar a contemplação. O risco é receber menos do que você planejava para comprar o bem.
E, por último, tem o lance fixo. Ele existe em alguns grupos. Funciona assim: a administradora define um percentual mínimo de lance e todos que ofertarem seu valor exato entram num sorteio especial só entre eles. É como se fosse uma fila de prioridade para quem consegue pelo menos atingir o mínimo definido. Certo?
Agora que eu expliquei como funciona o consórcio, vamos falar dos detalhes, porque o diabo mora nos detalhes e, especificamente no consórcio, os detalhes mudam tudo.
O primeiro detalhe é o mais óbvio, mas ainda pega muita gente de surpresa: mesmo depois de ser contemplado, você continua pagando. A contemplação não é um prêmio. Não é como ganhar algo. É só autorização para usar um dinheiro que você ainda não terminou de pagar dentro de um sistema coletivo. Por exemplo, imagina que você foi contemplado no terceiro ano. Daí compra o imóvel, ótimo. Mas ainda faltam, sei lá, 12 anos de parcelas. Se você parar de pagar, pode sofrer as consequências previstas no contrato. Então, aquela sensação de "agora é meu" é relativa, é seu, mas você ainda está preso ao grupo.
Agora vamos falar do segundo detalhe, que é o reajuste das parcelas. Sabe aquela parcela que parecia caber direitinho no seu orçamento? Aquela que você olhou e pensou: "Isso aqui eu consigo pagar tranquilo"? Então, ela não é fixa. No consórcio de imóvel, normalmente o reajuste é pelo INCC. No de carro, geralmente é pela tabela FIP ou IPCA. Isso significa que se o mercado subir, a sua parcela sobe junto. Não é só a carta de crédito que aumenta, a parcela também aumenta e aumenta todo ano. Você pode começar pagando R$ 500 e, daqui alguns anos, está pagando R$ 2.000, R$ 2.400. E isso não depende da sua renda ter subido no mesmo ritmo. O contrato não está nem aí para o seu salário. Muita gente entra no consórcio olhando a foto da primeira parcela, mas o que importa não é a foto, é o filme inteiro.
Terceiro detalhe: a tal proteção da carta de crédito. O vendedor costuma dizer que você não perde o poder de compra porque a carta é reajustada, só que isso é meia verdade. A carta sobe pelo índice, mas o mercado pode subir acima do índice. Inclusive, já aconteceu várias vezes no Brasil. Imagina que você entrou pensando em comprar um imóvel específico por R$ 400.000. A carta é reajustada pelo INCC, só que o imóvel que você queria valorizou muito mais do que o INCC acompanhou. O resultado? A sua carta sobe, mas não o suficiente para aquele mesmo imóvel. Ou seja, você não ficou parado, mas também não acompanhou totalmente o mercado. O índice protege parcialmente contra a inflação, ele não garante que você vai comprar exatamente aquilo que imaginou no começo.
Quarto detalhe: a taxa administrativa. Quando alguém fala "a taxa é 18% ou 22%", parece um número técnico, distante, mas coloca isso em dinheiro. Carta de R$ 300.000, 20% de taxa, R$ 60.000. Você paga R$ 60.000 para usar o sistema do grupo, independentemente de ser contemplado cedo ou tarde, independentemente de dar lance ou não. Esse valor não é opcional, está embutido no plano.
Quinto detalhe: liquidez praticamente zero. Se a sua vida mudar no meio do caminho, por exemplo, perdeu a renda, mudou de cidade, decidiu que não quer mais aquele bem, sair do consórcio não é tão simples. Você não recebe o dinheiro na hora, mas sim entra numa lista de exclusão e pode ter que esperar até o final do grupo. E se você tentar vender a cota, muitas vezes vai precisar acertar desconto para alguém se interessar. Ou seja, você perde flexibilidade. E flexibilidade financeira é uma das coisas mais valiosas que existem.
Sexto detalhe: quitar não significa usar imediatamente. Isso muita gente não sabe. Em alguns casos, você pode ter pago praticamente tudo e ainda depender da lógica do grupo para usar a carta, porque o sistema não funciona como um carnê tradicional, ele funciona como um mecanismo coletivo e o coletivo tem regras próprias.
Sétimo detalhe: você depende do comportamento de outras pessoas. Consórcio é grupo. Se muita gente ficar inadimplente, o fluxo de dinheiro muda. Se poucas pessoas derem lance, a dinâmica muda. Se o grupo for mal estruturado, você sente o efeito. Você não depende só da sua disciplina, mas depende da disciplina de dezenas ou centenas de desconhecidos.
Oitavo detalhe: o custo de oportunidade. Enquanto você paga parcelas esperando ser contemplado, aquele dinheiro poderia estar rendendo, poderia estar aplicado, poderia estar construindo liquidez. No consórcio, ele está preso num sistema fechado esperando um sorteio ou um lance. Esse custo é invisível porque não aparece em boleto, mas ele existe.
E quando você junta tudo isso: reajuste, taxa, falta de liquidez, dependência do grupo, incerteza de prazo, você começa a perceber que o consórcio não é tão simples quanto parece.
Agora vamos fazer a famosa comparação: consórcio ou financiamento. Qual é melhor?
Cenário um: carro de R$ 80.000. Consórcio sem lance versus financiamento sem entrada. Prazo 60 meses. Vamos usar números realistas. Um financiamento de veículo no Brasil pode facilmente girar perto de 26% ao ano. Nesse cenário, financiando em 60 meses, a parcela ficaria por volta de R$ 2.395 por mês. No final, você pagaria aproximadamente R$ 143.760. Isso significa quase R$ 64.000 só de juros.
Agora, no consórcio, supondo um custo total perto de 21% entre taxa administrativa e fundo de reserva, você pagaria algo próximo de R$ 96.800 no total. Olhando só os números finais, parece que o consórcio economiza quase R$ 47.000. Só que aqui entram os detalhes que a maioria das pessoas não pensa quando entra em um consórcio. No financiamento, você usa o carro hoje. No consórcio sem lance, você pode ficar meses ou até anos pagando e sem o seu carro. Ou seja, você vai precisar se locomover de alguma outra forma, seja usando o transporte público ou pedindo Uber. Se fizermos uma conta simplificada, você vai gastar entre R$ 400 a R$ 800 por mês com transporte enquanto não tiver o seu carro. Supondo que você só consiga o carro no ano quatro ou cinco, nos últimos sorteios, você vai pagar em transporte algo em torno de R$ 30 a R$ 36.000 ao longo do tempo enquanto não for sorteado. E tem mais, lembra que eu falei que a parcela reajusta? Então, se a sua parcela subir 6% ao ano junto com o IPCA ou a FIP, que é bem comum, você vai pagar no final do consórcio algo entre R$ 106 a R$ 110.000. Então, juntando o custo de transporte sem o carro, mas o custo total com o reajuste da parcela, você irá pagar um valor muito próximo a R$ 140.000 no total. Isso sem levar em conta o estresse de ter que ficar pegando o ônibus lotado todo dia ou ficar esperando o Uber aceitar.
Agora, se você for contemplado antes, entre um e 2 anos, você vai gastar menos com transporte e vai acabar economizando no total algo entre R$ 25 a R$ 35.000 a mais sobre o financiamento. Então, nesse cenário, dá para dizer que o financiamento é o menos pior, pois ele não depende da sorte. Mas antes de irmos para o próximo cenário, eu preciso deixar claro que financiamento sem entrada não é comum. Geralmente os bancos pedem uma entrada de 20%, e, nesse caso, o financiamento custaria uns R$ 115.000 no total, o que abriria uma vantagem bem grande sobre o consórcio sem lance.
Mas para ficar justo, vamos para o cenário dois. Carro de R$ 80.000, prazo 60 meses, consórcio com lance de 30% ou financiamento com entrada de 30%. No financiamento, você dá os R$ 24.000 de entrada e financia R$ 56.000. Com juros médios de 26% ao ano, a parcela ficaria próxima de R$ 676. Em 60 meses, você pagaria algo perto de R$ 100.600 nas parcelas. Somando a entrada, o total vai para aproximadamente R$ 124.600.
Agora, no consórcio, usando uma taxa de 21%, aquele carro de R$ 80.000 vira um contrato de R$ 96.800 ao longo de 60 meses. A parcela começa perto de R$ 1.613, mas diferente do financiamento, ela reajusta. Considerando uma média realista de 6% ao ano, essa parcela vai subindo ao longo do tempo e o total pago deixa de ser R$ 96.000 e passa a ficar entre R$ 106 e R$ 110.000. Como já vimos, a diferença aqui é que com o lance as chances de você conseguir o carro logo no começo aumentam drasticamente. Então, dá para dizer que nesse cenário o consórcio ganha com uma leve vantagem, economizando algo em torno de R$ 18.000.
Cenário 3: imóvel de R$ 400.000. Consórcio sem lance, o financiamento em 30 anos com uma entrada de 20%. Financiando R$ 320.000 em 30 anos, algo próximo de 11,5% ao ano, você pagaria R$ 1.400.000. Esse é o preço do tempo. Você paga o imóvel agora e paga juros por décadas.
No consórcio, considerando novamente um custo total perto de 21%, você pagaria algo em torno de R$ 484.000 no contrato. No papel, parece infinitamente melhor, mas existem duas bombas escondidas. A primeira é que você pode passar anos pagando aluguel e consórcio ao mesmo tempo até ser contemplado. A segunda é o reajuste pelo INCC. Se o índice acelerar e a sua renda não acompanhar, a parcela começa a pesar. Por exemplo, considerando um prazo de 10 anos até ser contemplado, o que é comum nesse caso, e considerando que você paga R$ 800 de aluguel hoje, que vai reajustando em 6% com o tempo, o custo total do seu consórcio subiria para R$ 835.000. Então, nesse cenário, o consórcio ganha de lavada, economizando cerca de R$ 565.000. Mas você fica 10 anos morando de aluguel, podendo ter problemas com proprietários e ficando à mercê de crises imobiliárias que podem fazer o aluguel subir drasticamente em questão de meses.
Cenário quatro: imóvel de R$ 400.000, mas agora com capital, a pessoa tem R$ 200.000 guardados. Opção A: entrar num consórcio de R$ 400.000 e dar um lance de R$ 200.000, aumentando bastante a chance de ser contemplado cedo. E opção B: dar R$ 80.000 de entrada no financiamento, financiar R$ 320.000 e usar os R$ 120.000 restantes para amortizar forte logo no início.
Vamos para a matemática. Financiando R$ 320.000 em 30 anos a cerca de 11,5% ao ano e amortizando R$ 120.000 logo no começo, você consegue reduzir o prazo para algo perto de 8 anos e poucos meses. O total pago para quitar tudo ficaria próximo de R$ 515.000.
Já no consórcio, com uma taxa de 21% mais reajustes das parcelas, você pagaria algo em torno de R$ 550.000. Mesmo sendo contemplado cedo, você vai pagar uma taxa pesada, a parcela reajusta e ainda você depende da lógica do grupo. Nesse cenário, quando a pessoa tem capital e sabe usar a amortização corretamente, o financiamento bem estruturado pode ser muito mais barato que o consórcio e ainda te dá o imóvel imediatamente, sem depender da sorte.
Bom, para concluir, o consórcio nada mais é do que só mais uma modalidade de compra com suas taxas e custos escondidos. Ele até pode valer a pena em alguns casos, mas precisam existir muitas variáveis. Para isso acontecer, ele foi criado especificamente para resolver um problema que existia lá atrás: falta de crédito. Em uma época em que financiamento era inacessível para a maioria das pessoas, grupos se organizavam para se autofinanciar. Era basicamente uma vaquinha estruturada. Com o tempo, isso virou um produto financeiro. Ganhou regulamentação, taxa administrativa, fundo de reserva e, claro, lucro para as administradoras.
Mas hoje o consórcio não existe porque é melhor que o financiamento. Ele existe porque ele atende um perfil diferente: pessoas que não querem pagar juros explícitos, pessoas que não têm acesso fácil a crédito, ou pessoas que precisam de uma forma forçada de guardar dinheiro. Mas isso não significa que seja automaticamente a melhor escolha.
Quando você olha friamente para os números, percebe que a vantagem do consórcio depende de contemplação relativamente cedo, reajustes controlados e disciplina para manter as parcelas, mesmo com aumento anual. Se uma dessas peças sair do lugar, a conta já muda bastante, e quanto mais longo o prazo, maior o peso do tempo nessa equação.
No fim das contas, não existe produto financeiro criado para ser caridade. Se existe taxa, existe lucro. Se existe contrato, existe regra. O que define se algo é bom ou ruim não é a propaganda, é o seu contexto, sua urgência, sua renda e sua capacidade de planejamento.
Consórcio não é investimento, não é milagre e não é atalho. É apenas uma ferramenta. E toda ferramenta, quando usada sem entender, pode virar um problemão. Por isso, antes de assinar qualquer contrato, faça as contas com calma. Compare cenários, entenda os riscos, porque a diferença entre fazer uma escolha estratégica e assumir uma dívida mal calculada está justamente nos detalhes.
Bom, espero que tenham gostado do vídeo. Para quem ficou até aqui, comente "Coca com gelo e limão". Meu nome é Felipe e nos vemos na próxima.