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Baía Urbana: Documentário premiado sobre a impressionante biodiversidade da Baía de Guanabara

ONU Brasil1:12:49

Transcription

[Música] Temperatura boa, esse aqui é o coração. Olha, tem que ser frio. [Música] [Música] [Música] [Música] A descrição que o Américo Vespúcio faz na sua carta de descrição da Baía de Guanabara, quando aportou aqui em 1507 ou 1508, é de um paraíso. Quando eu olho esse espaço, que para mim ainda é o meu espaço de lazer, eu penso: "aqui é o meu lugar". Mas isso aqui sempre foi a vida do guanabarino. Eu não me sinto nem carioca nem niteroense, me sinto guanabarino. [Música] [Aplausos] Gostei dessa, hein, professor! Vou usar. O fato é que todos sabem que as águas da Baía de Guanabara estão muito poluídas, mas o que pouca gente sabe é que a cada 12 dias metade do volume de água da baía é renovada com o movimento das marés. Quer dizer, se a gente reduz a quantidade de esgoto e lixo sólido jogado na baía, ela consegue se regenerar em pouco tempo. O problema é que a quantidade de esgoto despejado é muito grande e, mesmo assim, tem muita gente navegando, pescando, pesquisando, namorando e convivendo com a Baía de Guanabara. [Música] Mesmo com tanta sujeira, a gente tem aqui um cardume de parati, aqui do lado da rampa, aproveitando essa coisa maravilhosa que é a Baía de Guanabara. Olha o agulhinho ali, ó! Agulha aqui em cima, no meio do cardume, junto com outra agulha. Ali, a tartaruga tá bem aqui embaixo, ó! A tartaruga aqui, ó! Tá vendo, filho? Que apesar de toda a sujeira que é visível aqui, né, ela sobrevive, ela resiste. A primeira coisa é que tem menos medo, tem uma noção real do problema, né? A maré enchendo é um rio de água limpa que vem do mar e que renova e permite a vida que sobrevive aqui dentro. E aí você pode mergulhar sem problema nenhum. Por outro lado, saber a hora errada, choveu, maré vazando... Cara, isso aqui é uma desgraça! Todo lixo, todo esgoto que se acumulou, que vem de todos os cantos para a baía, a hora que ela é despejada, é como se estivesse dando uma descarga. A gente perde vida, a gente perde lazer, a gente perde dinheiro, a gente perde, por exemplo, a possibilidade de um dia como hoje você ter 10 vezes mais pessoas se divertindo com barcos como esse, que não são nada de especial, não são barcos particularmente caros. Gente que podia estar remando, fazendo stand-up. A gente podia estar mergulhando e toda atividade econômica associada a isso. A gente perde contato com o nosso espaço, a gente perde a noção de que a gente pertence a um lugar. A aplicação ambiental não é falar da árvore, falar da plantinha, é falar do espaço onde você está, saber interagir com seus passos. Se os meus passos são esses, seus passos que eu tenho que aproveitar, é esse o espaço que eu tenho que cultivar e construir também, né? Saber que ele também é resultado da minha ação, da nossa ação coletiva. Tem um sonho coletivo sobre a Baía de Guanabara. [Música] Eis aqui nossa Baía de Guanabara, território desconhecido de muitos que vivem próximo dela. Na entrada da baía estão as cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Além delas, outros 14 municípios compõem a sua bacia hidrográfica, com 143 rios e córregos. A Baía de Guanabara também possui dezenas de praias, rochosos, alguns manguezais, como a Área de Proteção Ambiental de Guapimirim, e dezenas de ilhas, como Romântica. [Música] Quem vê de cima não consegue imaginar a quantidade de vida marinha que ainda existe na Baía de Guanabara. [Música] Esse simpático aí é o caranguejo-eremita. Ele se utiliza de conchas como armaduras para se proteger, mas como os povos conseguem retirar com certa facilidade essas conchas para comer, o caranguejo coloca em cima das conchas essas anêmonas, que são venenosas e afastam tipos. Além de simpático e inteligente, o bichinho. [Música] Outra que não fica atrás é a lula de recifes, muito comum no mar do Caribe e no Havaí. Uma surpresa cristal em nossas águas. Ela tem três corações e sangue azul, possui o maior olho em relação ao corpo de todo o reino animal, cria desenhos de luzes e cores em sua pele que funcionam como camuflagem, hipnotizam suas presas e também servem para se comunicar com as outras lulas. [Música] Iemanjá. [Música] [Música] [Música] [Música] As pessoas ficam muito surpresas quando a gente fala que trabalha com cavalo-marinho. Dá para ir à Guanabara, principalmente, que tem cavalo-marinho lá. As pessoas não sabem, muitas delas acham que é um mito. E aí, a primeira vez que a gente mergulhou lá, a gente se encantou não só pelo cavalo-marinho, mas por toda a vida marinha que a gente encontrou. Um fundo extremamente colorido, com esponjas, com algas, com tudo aquilo que o mar poderia oferecer como habitat para o cavalo-marinho. E a gente acabou achando o cavalo-marinho também, mas isso não quer dizer que esteja em ótima situação. Na verdade, quando mergulhamos, a gente vê muito lixo, muito resíduo, e esses dias, grande quantidade de óleo na água também. [Música] [Música] Bom, a gente pegou uns cavalos-marinhos daqui do costão para poder fazer uns experimentos em laboratório e depois a gente solta esses cavalos-marinhos de volta, com a saúde toda monitorada, né? E um dos cavalos-marinhos que a gente pegou estava grávido e aí ele teve os bebezinhos hoje. Então a gente tem urgência em devolver os bebês. A gente não tem estrutura para manter os bebês lá em laboratório, não é essa a ideia. Então a gente traz os bebezinhos de volta para que eles possam manter a saúde populacional aqui dos cavalos-marinhos. Dos 1.479 filhotinhos que nasceram, cerca de 1% deve sobreviver. [Música] Foi um mergulho duro, foi bem ruim. Afinal de contas, a gente queria saber se tinha cavalo-marinho, né, na praia de Botafogo, mas a condição ambiental ali inviabilizou o nosso trabalho. Foi uma sensação muito chocante quando a gente, no meio da água, não conseguia enxergar absolutamente nada. E aquele mar maravilhoso da Baía de Guanabara, o Cristo, e um cheiro, mas um cheiro de esgoto absurdo. Deu uma sensação assim que é inexplicável como a nossa baía pode estar daquela forma. A gente sabe que um pouquinho mais do lado, aqui na Urca, a gente tem uma quantidade de vida absoluta, sim, uma coisa impressionante. E ali, naquele lugar, naquele momento, naquele lugar maravilhoso, o esgoto doméstico, assim como os resíduos agrícolas e industriais, geram a chamada poluição por nutrientes, que sobrecarrega ambientes marinhos com altas concentrações de nitrogênio, fósforo e outros. Esse excesso de esgoto serve de substrato para as microalgas, que assim crescem muito acima do normal e, depois de mortas, se decompõem consumindo o oxigênio da água. Isso cria áreas quase sem oxigênio, as chamadas zonas mortas, onde os peixes e outras espécies marinhas não podem prosperar. Que processos estão ocorrendo em todo o mundo e suas causas vão além da poluição por nutrientes. As mudanças climáticas também podem influenciar de várias maneiras os níveis de oxigênio no oceano. Com o aumento da temperatura atmosférica, o oceano também aquece e temperaturas mais altas reduzem a solubilidade do oxigênio na água. Estima-se que já existem 500 zonas mortas registradas pelo mundo e muitas outras áreas sofrendo os efeitos adversos da desoxigenação. A pergunta é: o que precisaria ser feito para poder melhorar? É muito simples: é recolher esgoto e tratar esgoto. A resposta é simples, né? A execução é muito complexa. A descarga pelos rios é uma das vias principais de contaminação da baía. Se você não sanear o entorno, se você não recolher o esgoto, se você não der condição adequada de vida e de saneamento à população que mora no entorno da baía, a gente nunca vai resolver o problema. E aí o problema fica complexo, porque não é só um problema social, né? Não é só um problema ambiental. É um cenário realmente magnífico e relatado com raiva de homens ao longo da história, né? Uma Baía de Guanabara repleta de baleias, onde se achava que, para você desembarcar, em alguns relatos, pelo desembarcar, era mais cuidado com as baleias. Várias construções que ainda existem hoje no Rio de Janeiro têm uma argamassa, uma espécie de cimento, vamos dizer assim, que leva óleo de baleia, leva restos de ossos de baleia, e a carne também, em alguns momentos, foi aproveitada para consumo. A iluminação pública do Rio de Janeiro, durante um bom tempo, foi a base de óleo de baleia. [Música] [Música] As baleias são cada vez mais raras visitando a Guanabara. Em contrapartida, o baiacu está em abundância, talvez porque, para comê-lo, nós precisamos dominar uma técnica de limpeza do veneno altamente mortal fabricado por bactérias alojadas em seu corpo. Olha aí um dormitório de baiacus. Já o peixe-anjo-real é raríssimo de se ver. Esse é o peixe-cofre. Ele possui um corpo encerrado numa caixa óssea, daí o nome de cofre. Ele também é chamado de peixe-vaca ou vaquinha, devido aos pequenos chifres. Dizem que o peixe-trombeta emite um som parecido com o de uma trombeta quando acuado. Ele está na mesma ordem de peixes que inclui as famílias dos pequenos cavalos-marinhos, porém pode atingir mais de dois metros. Como esse, possui olhos grandes e salientes, e todas as nadadeiras são transparentes. Outro bastante comprido é o peixe-espada, que pode chegar a três metros e meio de comprimento. Como o atum, o peixe-espada pertence ao grupo dos peixes azuis, que possuem maior quantidade de gordura ômega 3. Além de ser alvo na pesca esportiva, muito se perdeu em número de animais e plantas que vivem nesse estuário. Porém, a diversidade de espécies ainda se mantém relativamente estável. Isso significa que ainda há esperança de recuperação da qualidade ambiental da Guanabara. [Música] [Música] [Música] Esse aí é o linguado, que para se proteger nada de lado, quase rastejando, e tem a mesma cor da areia. Ele nasce com um olho de cada lado, mas com o passar do tempo, um dos olhos muda de lugar para se adaptar a essa posição deitada, ele mesmo se camuflando tão bem. O linguado está ameaçado de extinção devido à sobrepesca, que acontece quando se retiram as populações de peixes da água mais rápido do que elas conseguem se reproduzir. Nos últimos 50 anos, as populações de linguado caíram cerca de 90%. 40 anos e amanhã de Bora Bora, no único lugar que ainda continua tendo muito peixe. Sabe, não tem a quantidade que tinha, mas ainda continua tendo muito. É que a quantidade de peixes grandes tem diminuído. Está cada vez reduzido mais. Não sei se vai chegar à extinção, mas está diminuindo bastante devido à pesca indiscriminada. Mas não é de mergulho nem de linha, é de rede, né? Acho que é de rede indiscriminada que está acabando com os peixes. Não é quando pega uma condição de água boa que dá para se encontrar bastante peixe. Na Babilônia é difícil encontrar água boa. Condição de água que acontece sempre suja, mas quando entra água de fora lá, dá para você fazer uma boa pescaria. [Música] Quando a gente pesca, ela que sobe em cima, ela joga aquele jato de tinta na gente e é muito engraçado. Outro dia eu peguei um polvo aqui, mas foi com outro tipo de isca sustentável. Botafogo. [Música] Prefeito, construída a ponte, comecei a mergulhar na ponte. Tenho três filhos. A mais velha tá formada, é design. O garoto também é design, mas só que trabalha com fotografia. E a pequena tá, é atleta, pretende fazer medicina. E eu estou na vida, aí continuando, meio mergulho, vai no meu dinheirinho, sustentando minha família e de merda, né? [Música] Eu tô trabalhando aqui agora. Eu gosto muito do meu trabalho. Sabe que eu mergulho há muito tempo, sou cascudo no mergulho. Mas interessante foi no início do mergulho que meu irmão era mergulhador da Marinha, mergulho de combate, e eu era garotinho, tinha 10 anos, por aí, mais ou menos. 10. A primeira vez que eu peguei o material dele, tomei uns cascudos, peguei o pé de pato dele, a máscara e vim aqui pra praia de Botafogo. Nessa época, a plataforma... Aí peguei a máscara, botei na cara, que eu não conhecia mesmo, botei na cara. Achei lindo, achei maravilhoso. Meu orgulho. Aí tudo bem. Depois de um certo tempo, começou a passar na televisão um filme, mais que Nelson, o cara que era mergulhador. Ele falou: "Ah, eu fiquei maravilhado com aquilo". Falei: "Ah, meu orgulho, eu quero ser mergulhador". Aí comecei a pegar o material do meu irmão, ele cascudo. Aí, como não tinha jeito, eu consegui uma máscara velha dele lá que ele não usava mais, e usei. Aí não tinha pé de pato. O que eu fiz? Um pedaço de compensado. Peguei um tênis Conga, né? Porque ele esconda, preguei um pedaço de compensado no conga, um pedacinho assim, pequeno, e usava como um pé de pato. Aí, será que a madeira, cara? Tentava descer, não ia. Aí desci pra mergulhar. Um pedaço de vergalhão, peguei um elástico de câmara de ar. Peguei desse... A primeira descida que eu dei na minha vida, que eu cheguei no fundo, assim que eu olhei, e peixe prateado, assim, grandão. Enfiei o arpão, não tinha mais bela, e travessei um robalo desse tamanho, assim. Primeiro peixe que eu peguei. Eu falei: "Aqui, pra casa". Cheguei aí, meu irmão, meu peixe, não deixou eu comer um pedacinho também. Fizeram aí, assim eu comecei a mergulhar. [Música] Em Niterói, dentro da [ __ ], vem consertar. Tem muito peixe, muito peixe debaixo aqui. A minha fazenda de vergonha aqui, olha, eu faço carinho. Secreta pescaria na ponte é experiência, né? Porque é um lugar que tem muito vergalhão, água escura e difícil de pegar. Tem peixe, tem bastante peixe, mas é bem complicado. Só para quem realmente conhece bem e que faz boas pescarias lá. Tem que pescar no escuro, contra a luz, olhando para o sol passar, vulto do peixe. Aí tem que identificar em qualquer peixe, depois atirar. Um pouco de experiência. [Música] Você e ela, dentro de uma semana, raramente um dia de água ruim. Hoje você vai, um mês, raramente em dois dias de água boa. Mudou totalmente. Peixe dando cabeçada, mas literalmente, às vezes, tá mergulhando lá, tá indo na minha cabeça, trombada de peixe, que a água é meio escura. Então trombava contigo. Hoje tem peixe. Lógico que tem muito peixe ainda, mas como tinha antigamente, nem sombra. Nem chega, nem perto. [Música] 17,5 menos 2 da caixa, 15 kg. Aí, para fazer os cálculos, 15 kg tá R$ 500. Já dá para pagar as contas, dá para pagar as contas já do mês, me preparar para a próxima. Amanhã tem mais, se Deus quiser. [Música] O transporte aquaviário de passageiros na Baía de Guanabara contribui para a mobilidade urbana da região metropolitana do Rio. Por ano, são transportados aproximadamente 25 milhões de indivíduos. Apesar de tanta gente circulando por suas águas diariamente, é provável que ninguém imagine que sobre a turbidez da linha d'água se pode encontrar um dos principais atrativos do turismo subaquático no mundo: as espetaculares raias. [Música] As raias e seus parentes mais próximos, os tubarões, surgiram no planeta há 400 milhões de anos. Elas são consideradas criaturas nossas pela maioria dos especialistas, atacando apenas em autodefesa. Apesar disso, algumas espécies possuem um ferrão serrilhado e venenoso em suas caudas. O veneno de uma raia não é necessariamente fatal, mas causa muita dor. Elas vivem normalmente no fundo do mar, embora algumas sejam pelágicas, ou seja, se locomovem pela coluna da água do mar aberto. Tanto as raias quanto os tubarões possuem sensores que detectam eletricidade, e toda vez que um peixe abre sua boca para respirar, ocorre uma reação química entre sua saliva e a água salgada, gerando uma frequência elétrica. É por isso que as raias conseguem capturar presas que estão embaixo delas, mesmo tendo seus olhos acima de seu corpo. A produção de campos elétricos nestes animais pode ser utilizada como proteção, para capturar presas e comunicação entre os indivíduos. [Música] A raia treme, treme. Tem esse nome em alusão ao seu sistema de defesa, capaz de emitir descargas elétricas de até 37 volts, causando choque potente, mesmo em seres humanos. [Música] A taxa de ameaça de extinção das raias chega a ser 15 vezes maior do que nos demais peixes marinhos, pois elas possuem reprodução altamente especializada, fecundação interna e produção de um número relativamente baixo de filhotes. Para sua conservação, é fundamental que haja um controle sobre a pesca desses animais. [Música] A Guanabara é uma das baías com maior diversidade de raias no mundo. Em suas águas, podemos encontrar até sete espécies diferentes. [Música] É possível se calcular quanto um animal marinho gera de receita nos lugares que exploram turismo submarino. Por exemplo, um único tubarão em Bali, na Indonésia, durante toda sua vida, pode gerar até dois milhões de dólares. Uma raia-manta lá pode gerar vinte mil dólares por ano, sendo que elas podem viver até 100 anos. Por conta disso, o governo indonésio criou leis de proteção a esses animais. [Música] [Risadas] [Música] [Música] [Música] [Música] O tema que sempre mais me fascinou em economia era o estudo do desenvolvimento econômico e havia pouca percepção do que hoje chamo de riqueza não monetária ou bem-estar, que é como as circunstâncias afetam não só a qualidade de vida, mas a própria atividade econômica. Quem vai sofrer mais a perda de opção de lazer pela contaminação contínua e permanente da Baía de Guanabara é exatamente um indivíduo mais pobre. E a gente tem uma evidência muito clara da importância da praia como atividade de lazer, recreação e cultura, que é opcional de Ramos. Quando você resgata condições mínimas de balneabilidade, um pedaço bem pequeno, mas com uma enorme densidade populacional no entorno, justamente numa das áreas mais pobres da cidade, você vê a enorme pujança que aquele investimento público representou para a qualidade de vida das pessoas. Então, sinal de Ramos representa o quanto a qualidade de vida é afetada pela variação da qualidade ambiental da baía. [Música] [Música] Todas essas partículas que a gente vê nas imagens não são apenas sujeira. Grande parte dessa nuvem é formada de vida: são microalgas, larvas de peixes, crustáceos, moluscos e vários outros pequenos organismos que utilizam a baía como berçário. [Música] [Música] Em qualquer lugarzinho tem vida. Olha o caranguejo, que bonitinho! A outra aqui, olha a outra aqui. É muita vida! Os buraquinhos, eles gostam de ficar protegidos. E a esponja que a gente trabalha até aqui... O bom é que esconde, não tem sistema nervoso, então ela não sente dor. Então foi um pouco por esse motivo que eu gosto de trabalhar com esponja. Então, aqui, ó, tem uma lâmina de vidro. A esponja tá grudada. Se eu abrir, eu vou ter tecido de esponja vivendo sobre a lâmina de vidro. E aí eu posso ir no microscópio só com essa lâmina de vidro, um pouquinho de tecido fininho que aderiu durante três semanas. Isso, três semanas de cultivo. As esponjas foram os primeiros organismos, primeiro animal que apareceu na terra, aprendendo a como lidar com essa biodiversidade de microrganismos. Isso significa que ela precisa identificar o que são bactérias agressivas e que causam doença nela e que dificultam o aumento da biomassa. Quais são as bactérias que servem como alimento e que podem ser cultivadas por ela, mesmo dentro dela, numa espécie de simbiose? Ela não anda, ela fica parada na pedra. Ela que tudo que ela defende e ataca. Toda defesa e todo ataque é na base de química, que vem evoluindo, que vem sendo construído por 650 milhões de anos. O câncer é uma proliferação exagerada das células. Elas começam a se dividir de maneira anárquica, sem respeitar a sociedade celular que é o nosso corpo. Então, como você poderia dizer para essas células: "Parem de proliferar"? Só com química, só com fármacos. Daí a importância econômica das esponjas: são fármacos contra a ilustração de organismos em casco de barcos, são fármacos contra vírus, como controlando o vírus da AIDS. Tudo que nós precisamos para resolver nossos problemas tá aí na natureza, já foi inventado. Nós precisamos é identificar. [Música] Foram as esponjas que inventaram essa história das células viverem juntas, formando um tecido. Essa conversa do mundo microscópico vem sendo aprimorada ao longo de 600 milhões de anos. Então, aqui nessa imagem, a gente pode ver microrganismos passeando. E a esponja tem que se defender desses protozoários. Também vejo aqui espículas, que são essas flechas de vidro e são como espinhos na boca de um peixe ou de uma tartaruga que quer comer essa esponja. Os microrganismos são levados através dos canais aquíferos até essas bolinhas cheias de células que captam e que aprisionam os microrganismos. Então, você imagina que um quilo de esponja pode filtrar uma piscina olímpica em um dia. E é por isso que eu dedico a minha vida a esse trabalho. Já são anos e anos querendo entender o mundo microscópico da esponja. [Música] [Música] A vida marinha também serve de inspiração para criação artística. Muitos filmes de ficção científica se utilizam de seres aquáticos para criarem seus personagens e cenários. Sabia que o Alien, por exemplo, foi inspirado na moreia, que tem mandíbula dupla? [Música] A bioluminescência da natureza do filme Avatar foi inspirada na vida do mar profundo, característica encontrada em 90% dos seres abissais. [Música] [Música] [Música] [Música] Os polvos sempre foram uma inspiração para a criação de monstros ao longo da história, mas um fato curioso é que o DNA do polvo é diferente de tudo que conhecemos em termos de código genético. Surpreendentemente, o genoma do polvo é quase tão grande quanto o do homem e contém um número ainda maior de genes codificadores de proteínas, cerca de 33 mil, em comparação com menos de 25 mil do Homo sapiens. O estudo do seu genoma nos dá ricas informações sobre como as sofisticadas habilidades cognitivas dos polvos evoluíram nos últimos 500 milhões de anos. Além disso, esse molusco fascina cientistas por possuir um comportamento de aprendizagem complexo, com cerca de meio bilhão de neurônios, dos quais dois terços se distribuem da cabeça para seus oito tentáculos. Quer dizer, os tentáculos do polvo pensam. Além disso, cada pequena ventosa é coberta com receptores de paladar. Imagine seu corpo coberto com centenas de línguas. [Música] A pele dos polvos é cheia de habilidades especiais. Conseguem alterar a cor, mudar sua textura, padrão e brilho. Também é incorporada com células que detectam a luz. Todas essas destrezas são maneiras que o polvo tem de se disfarçar, seja para o ataque ou defesa. [Música] É sabido que o oceano cobre aproximadamente 71% da superfície do nosso planeta, contendo mais de 97% da biosfera, todos os espaços e lugares onde existe vida no mundo. Estima-se também que 80% das espécies do oceano permanecem ainda desconhecidas. O mar ainda tem muita história para contar. Para mim, tudo que tem a ver com tartaruga é fascinante. A tartaruga mais antiga que foi achada, na verdade, foi um fóssil que foi achado no ano passado, na região de febre, perto da minha cidade, na Alemanha, onde eu moro. E saiu um artigo que conta que essa espécie tem uma idade de mais de 240 milhões de anos. Então, antigamente, eles eram muito, muito diversificados. E hoje em dia sobreviveram, assim, na parte marinha, sobreviveram sete espécies. [Música] Das sete espécies de tartarugas marinhas existentes hoje, seis estão ameaçadas de extinção. Elas são verdadeiras heroínas da resistência, sobreviventes da última grande extinção em massa de vida no planeta Terra, há 65 milhões de anos atrás. Evidências crescentes sugerem que quatro das cinco grandes extinções em massa estão associadas com eventos de elevada concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Esse gás se dissolve na água do mar, causando um processo de acidificação oceânica. Atualmente, a origem das emissões não se deve à alta atividade vulcânica, mas sim à atividade humana. Muitas plantas e animais que constroem suas conchas ou esqueletos com carbonato de cálcio estão em sério risco, uma vez que a água do oceano fica mais ácida. Ocorre uma reação química em que o carbonato de cálcio fica menos disponível para esses seres. [Música] Por conta disso e do aumento da temperatura do mar, estima-se que, em 2050, já não teremos mais os recifes de coral, que servem de habitat para pelo menos um quarto de todas as espécies marinhas. Essa perda massiva de biodiversidade representa um risco inadmissível para o futuro da humanidade no planeta. Isso das plantas terrestres absorverem CO2, quanto dos oceanos também absorve CO2. É um serviço que os oceanos prestam para a humanidade. Um serviço tem um preço, e o preço, no caso do CO2, é o problema da acidificação. A descalcificação do oceano é ruim. Águas pelos mares estão desaparecendo. Tudo pelos ares é a bomba que estamos tendo. [Música] Brasil. [Música] [Aplausos] [Música] [Aplausos] [Aplausos] [Música] [Aplausos] [Música] [Aplausos] [Música] [Aplausos] [Música] [Aplausos] Observarmos que, da mesma forma que a floresta da Tijuca, ela foi plantada. Essa aqui, em 94, estava devastada. Quer dizer, foi fruto da própria capacidade de resistência desse manguezal, com a ajuda do homem, né? Tem muita área plantada aqui. Toda a lenha da região, aqui da hotelaria, aquela faixa de 120, a olaria que tinha aqui em Itaboraí, ela usava essa lenha do manguezal. Entendeu? Toda lenha. Como eu comecei a trabalhar em caminhão, uma das minhas funções era pagar o caminhão com o pessoal e vim parar a lenha aqui dentro do manguezal. Então, ele foi na faixa de 70, entendeu? Até 85, 86, esse mangue foi completamente... Tudo cortado. Tudo. Aqui, eu acredito, 95, 96% do manguezal foi cortado. Eu fui um deles que ajudei a retirar essa madeira aqui para levar para a galeria. Na época, por ser muito novo, entendeu? Era 17, 18 anos, a época que eu já trabalhava aqui. A gente não via as coisas como a gente vê hoje, né? Para mim, tanto faz parte humano ou não, tava pra mim não tava querendo dizer nada. Para mim, amanhã a gente vai voltar e acabou. Mas a coisa não é bem assim. Para você ver quantos anos tinha esse manguezal, que eu fui um participante que ele veio destruir. E hoje eu trabalho assim, aqui dentro, ajudando a cuidar para não deixar mais ninguém vir a destruir. Entendeu? Então, é um trabalho que, para mim, hoje é muito gratificante. Muito. Como qualquer manguezal do mundo, né? Isso fica evidente na Baía de Guanabara. A vida desses estuários da zona costeira, nessas regiões tropicais, depende necessariamente dos manguezais. Ou seja, é onde várias espécies que são exploradas economicamente ou são exploradas do ponto de vista de subsistência vão procurar refúgio para se reproduzir, para se desenvolver nos estágios iniciais, né? Ou seja, reprodução, desenvolvimento inicial, e onde essas espécies encontram fartura de alimento para poder ter o início do seu ciclo de vida e a manutenção. Por isso, quando você mergulha na Baía de Guanabara, você vai observar uma grande quantidade de formas jovens de várias espécies de peixes e crustáceos. Ou seja, é realmente um berçário da vida marinha. Esse lugar aqui dá pra gente uma dimensão, muda a dimensão da existência. É muita força, é muita vibração, é uma natureza muito poderosa e nos atravessa. Aqui é um sítio histórico. Era assim que vivemos, índios, os primeiros índios, os primeiros habitantes do Brasil, não é? E a origem do livro é isso, é mostrar uma situação. Porque só quem conhece pode tentar preservar. Para mim, o que me motivou foi quando teve o derramamento do óleo em 2000. Eu cobri o derramamento do óleo e, três meses depois, eu fui no fundo da baía fazer uma matéria no rio Suruí e o peixe cadu raspou areia assim e brotou o óleo. [Música] Tomou conta. Tá fazendo seu papel de filtrar. É um berçário. A origem da APA foi um grupo de ambientalistas que percebeu que, se não fizesse uma proteção naquele momento, acabaria. É um território conquistado. Esta floresta de mangues é um território conquistado. O porquê? O que acontece é que a Baía de Guanabara é um território em disputa. E nessa disputa, uma das correntes da disputa é a indústria do petróleo, é uma atividade econômica poderosa. Eu não tenho dúvida de que, se não houver uma contramarcha, né? Uma contrafação a isso forte, a gente vai perder. Quanto mais a Baía de Guanabara for um território interditado de exclusão, melhor para o poder econômico, porque ele ocupa sem ter que dividir. Vou tomar banho na Baía de Guanabara. Interessa para quem? Se eles precisam usar, com problema de água de lastro nos navios, com problema de derramamento de óleo. Para ele, para que eles querem limpar? Transformar a Baía de Guanabara no estacionamento de navios ou abandoná-la para que seja um cemitério de navios? Aceitá-la como um depósito de lixo é uma coisa que, evidentemente, não vai dar certo. Então, a possibilidade da gente ir ganhando mais território e reduzindo as zonas de exclusão, onde as populações ainda hoje repetem os gestos do índio, e toda essa vibração, ela possa ganhar mais espaço. A população de golfinhos possa, quem sabe, encontrar uma sobrevida. [Música] Esse excesso de CO2 que tá na atmosfera, boa parte pode ser sequestrada, pode ser retida pelos manguezais, né? E isso não seria diferente na Baía de Guanabara. Se você comparar uma mesma área, um quilômetro quadrado de manguezais com um quilômetro quadrado de florestas tropicais terrestres, você vai ter muito mais carbono nos manguezais, que estaria associado à sua capacidade de reter esse carbono, tanto na biomassa, né? Na massa vegetal que está acima do solo, quanto no subsolo. [Música] [Música] Aproximadamente 1 bilhão de pessoas dependem da pesca como fonte primária de proteína. Estima-se que 85% dos estoques dos recursos marinhos estão sendo explorados no seu limite ou acima dele. A pesca sustentável tem um enorme potencial de garantir alimentos e empregos em um mundo com população em ascensão. [Música] [Música] Se você tem que calcular, fora da água, ele não joga o peixe para dentro. Ele tem uma medida que, se você for ver, a água só corre para dentro do viveiro, do curral. Aí você corre, ele não consegue sair, porque a correnteza da água só vem para dentro do viveiro. No curral, é tipo um labirinto. Quer dizer, é um labirinto, né? Porque o peixe entra e não acha a saída. Entendeu? É... Meu pai já... Meu pai já começava a pescar com o pai dele. Isso vem de pai para filho, né? A gente, pelo menos, a nossa origem é de pai para filho. Principalmente, nós até temos parentesco com índios. A nossa bisavó foi pega lá antigamente. A gente pegava muita piraúna, muita tainha. 300, 400, 500, 600 kg de piraúna, tainha, dia sim, dia não. Hoje é difícil. Hoje tem época que é 30, 40, 25 kg. Hoje o peixe que só dá tainha, quer dizer, couve nota, né? Mas é bonito, a montanha é linda. Tinha um trabalho do colégio, eu fui lá tirar, aí tirei foto da montanha ali, porque é muito bonito. Tem que ver. Meu pai, uma vez, abriu um curral desse chapado de peixe para soltar. Bota, não é? Meu pai, poxa, pera aí, é isso aí, pessoal, com medo. Ele falava assim: "Esse aí não ataca ninguém, pelo contrário, ele ajuda". [Música] Todos os dias, o dia todo, durante todo o ano, na verdade, fazem movimentos. Saem lá do fundo da baía, vêm para a boca da baía, mas nunca deixam a Baía de Guanabara. Nós percebemos hoje que os botos também jogam na barra. Eles estão entre os organismos mais contaminados que existem no planeta. Se você pegar homem, elefante, cavalo, galinha, gato, qualquer ser vivo, né? E você pegar as concentrações que nós já registramos nos tecidos desses botos, você vai ver que as concentrações são muito altas de diversos contaminantes. E esses contaminantes, cada um deles tem a sua história, cada um deles tem a sua origem. Isso mostra a complexidade dos impactos na Baía de Guanabara. Um outro tipo de poluição que chama muita atenção da gente na beira de Guanabara, que é muito pouco falada, é a poluição sonora. No estudo feito lá no laboratório, a gente percebeu o seguinte: os botos da Baía de Guanabara falam diferente dos botos. Na verdade, parece ser uma resposta ao alto ruído da Baía de Guanabara. Então, eles falam mais tempo, né? E com frequências diferenciadas, né? Parece ser uma maneira deles fugirem, né? Dessa poluição sonora e continuarem convivendo no ambiente. [Música] O boto cinza é um golfinho costeiro com distribuição registrada desde a América Central até o Sul do Brasil. Um casal de botos tem, em média, um filhote a cada três anos. Esse filhote atinge sua maturidade sexual a partir dos seis anos. Na Baía de Guanabara, sua população vem regredindo continuamente. Em meados da década de 1980, a população era de cerca de 400 animais e atualmente não passam de 34, com uma lenta taxa reprodutiva, somada aos inúmeros estressores ambientais. Essa espécie valente se mostra bastante vulnerável. [Música] [Música] Se continuar tudo como está, e parece que tudo vai continuar como está, pelo menos nos próximos 20 anos, eu acho que a gente vai estar assistindo os derradeiros, né? São os últimos botos sobreviventes dessa baía. [Música] A despoluição da Baía de Guanabara não é um sonho possível. Temos casos de baías pelo mundo que estavam em situação tão crítica quanto a Guanabara e hoje se encontram despoluídas. Os países que tiveram sucesso com a despoluição o fizeram através de projetos de gestão de longo prazo e com grande participação e cobrança da sociedade. [Música] Eu acho que já batalhamos tanto para mostrar o valor da floresta terrestre em pé, temos também que começar a fazer um trabalho para ver o valor da floresta submersa, da floresta aquática, com toda a sua fauna, sua flora e a sua imensa biodiversidade. [Música] A montanha com laço encontrando é uma paisagem tão maravilhosa, com organismos, uma quantidade de vida tão grande. Então, eu acho que se a gente conseguisse ter uma postura, uma conduta diferente, eu acho que seria o tesouro que o carioca conseguiria ter. [Música] Cada vez que se queima um hectare da floresta amazônica, cada vez que se polui um canal do Cunha e que se perde toda a biodiversidade daquela região, a partir do momento que você vai transformar toda a Baía de Guanabara em um canal do Cunha e perder toda essa biodiversidade, eu entendo como se o ser humano estivesse queimando uma biblioteca. [Música] A gente tem que se dar conta que a gente tá mudando muito o planeta, como se a gente estivesse fazendo um experimento geológico. [Música] O nome Guanabara vem do povo nativo dessa região e significa "cheio de marra". Hoje, ela serve de alerta para os danos que o atual modelo de desenvolvimento está causando ao mar como um todo. Precisamos cuidar e respeitar o oceano como se nossas vidas dependessem disso, porque elas de fato dependem. [Música] No fundo, vem no fundo da baía, a natureza própria, independente de nós. No fundo do oceano profundo, fia a nossa... [Música] O Senhor nos... Além do que se pode pensar, que pode imaginar. Nossa ignorância levando a lei maior da mãe de todos nós. E mais, se ela decidir o nosso fim, virar... Não estamos bem na foto, estamos queimando filme. Mãe Natureza, tiver filme. [Música] No fundo do bem, no fundo da baía, a natureza independente de nós. No fundo do oceano profundo, onde tudo... Príncipe a nossa tataravões. Além do que se pode pensar, do que pode imaginar. Nossa ignorância [Música] levando a lei maior, tamanho de todos nós. E mais, se ela decidir o nosso fim, virar... Não estamos nem na foto, estamos queimando filme. Mãe Natureza de fé. [Música] [Aplausos] É toda fonte de vida, mas não seremos bem-vindos sem fazer lição de casa. Se mãe da água solta o grito, a semana que se arrasar o coração do planeta é a terra prometida. Meu verde, azul, violeta é toda fonte de vida. Nós não seremos bem-vindos sem fazer lição de casa.