Transcription
Olá, pessoal. Sejam bem-vindos aqui à nossa terceira e última aula da obra Manual de Picteto. Eu estou aqui em um formato completamente diferente. Não é o comum das nossas gravações, das aulas que acontecem de maneira ao vivo, justamente por uma intercorrência, uma diversidade que acabou acontecendo, que estava fora do nosso controle.
O arquivo da aula acabou corrompendo em um certo momento e nós perdemos ali os primeiros 10 minutos da aula, que era um momento em que eu expliquei um pouco sobre a filosofia como treinamento, como exercício, mas eu peço que vocês leiam esse trecho no material de apoio e que possam extrair o melhor dele, mesmo com a ausência da minha explicação que foi dada ali no momento da aula. Peço desculpas por isso, como eu disse, estava fora do meu controle e o propósito desse livro era justamente a prática. Então, na prática, nós estamos vendo aqui que nem tudo está em nossas mãos, mas que nós podemos solucionar a partir de como reagimos diante de cada revés e acontecimento.
Espero que vocês gostem da continuação da aula a partir do momento que eu explico um pouquinho sobre as três disciplinas do estoicismo, a disciplina do assentimento, da ação e do desejo. Então, espero que gostem, pessoal. Nós não podemos focar naquilo que nos acontece, mas em como reagimos diante do que acontece. Boa aula para vocês, tá?
Cessar aquilo que vai além de você mesmo. Então, é justamente aqui na disciplina do desejo. O que que é a disciplina do desejo, professor? O homem mais rico não é aquele que tem tudo, é aquele que deseja pouco. O homem mais pobre não é aquele que não tem nada, mas aquele que deseja além do que consegue usufruir. Porque o desejo nada mais é do que uma fonte. E uma fonte que vai surgir dali uma água limpa e pura ou um lodo que apenas te escraviza.
E aqui eu me lembro de um conto de Tolstói que se chama "De Quanta Terra Precisa um Homem". É um conto muito famoso. Tolstói descreve nesse conto a história de Párro, um camponês que acreditava que a sua infelicidade se dava por conta da ausência de terras. "Eu não tenho terras, eu não tenho território, portanto sou infeliz." E aí ele começa a desejar cada vez mais e mais terras e ele conquista um bocado aqui, um bocado ali, ele aumenta a sua propriedade, mas ele sempre vai almejando, vai almejando aquilo que ele não poderia controlar, como por exemplo, o tamanho do seu patrimônio. Assim como eu posso trabalhar para ficar rico, eu posso ser atingido por uma crise e todo meu patrimônio ir pelo ralo.
E Párro vai trabalhando, vai conquistando, vai aumentando até ele descobrir que em uma aldeia distante ele conseguiria a quantidade de terras que ele quisesse a partir do momento que ele cercasse cada uma dessas terras. Então, com um belo cercadinho, aquela terra já seria dele. E ele vai lá em busca dessa tal felicidade, vai em busca daquilo que seria a concretude do seu desejo. Chegando lá, tudo aquilo era verdade. Era só ele fazer o cercado que a terra seria dele. E ele teria apenas uma regra, que era começar bem pela manhã e terminar o seu cercado assim que o sol viesse a se pôr. Então, ele teria um dia inteiro para cercar. E ele vai embora. Ele vai andando 1, 2, 3, 10, 15 km para conseguir cercar o máximo que ele conseguisse. E no final do dia ele está retornando com aquela quantidade de terras que ele almejava, mas ele tinha aquela regra, chegar até o pôr do sol. E ele vê que não vai conseguir por conta da sua ambição. Ele havia ido muito longe. Ele havia ido além da medida. O desejo dele estava para além do controle, do retorno de conseguir voltar para concluir a missão. E ele corre de toda maneira para conseguir alcançar aquele objetivo e acaba morrendo no meio dessa corrida de tanto cansaço, de tanto se exaurir.
E é exatamente aí que está a grande lição que eu quero trazer com vocês. Se você não tem satisfação do que você deseja e tem agora, não será nos fatores externos que você vai encontrar satisfação. Você pode perceber isso em pessoas que têm a tal felicidade condicional, aquela felicidade que é quando tudo está bem, aquela felicidade que é quando aquela pessoa é aprovada, aquela felicidade que é quando o dinheiro está no bolso, que é quando as condições estão maravilhosas. É exatamente essa autarquia do desejo que Picteto está nos mostrando para ensinar uma coisa simples. Consiste em desejar apenas aquilo que depende de nós. Se eu desejo me tornar um bom professor a cada manhã pelo fato de eu estudar, pelo fato de eu me qualificar, pelos fatores que eu posso controlar, eu seria um bom professor e eu vou conseguir satisfazer esse desejo. Agora, se eu quero ser um bom professor com base nas avaliações externas, eu nunca serei, porque sempre vai ter alguém que não vai gostar. Sempre vai ter alguém que não vai aprovar e assim a vida prossegue. Não deixe que a sua felicidade, que as coisas que realmente valem na vida dependam. Essa é a disciplina do desejo. Deseja somente aquilo que está no seu controle.
Ah, professor, então significa que eu vou ser uma pessoa que não vai ter ambição na vida, que não vai querer conquistar absolutamente nada. Não é isso que estamos falando. O que estamos dizendo é o seguinte: o homem que não desfruta do pouco nunca irá desfrutar quando tiver muito. Aquele que não se satisfaz com o que é suficiente, para ele nada é suficiente. Então esse desejo a partir da sua dependência, do que depende de você, nada mais é do que uma amplitude de desfrute. Se Párro tivesse sido feliz com a pequena propriedade que ele tinha desde o início, ele seria muito mais feliz quando ele alcançasse a grande propriedade. E ali ele entenderia qual seria a medida, não de buscar mais e mais e mais, mas de desfrutar cada vez melhor. Troque a palavra "mais" por "melhor", "quantidade" por "qualidade". Ao invés desse desejo exacerbado, nós temos uma satisfação, um desfrute, aquilo que depende de você. Então, nós temos essa primeira lição aqui nessas três disciplinas da vida histórica, ou seja, a disciplina do desejo.
A segunda é a disciplina da ação. Trata-se de agir corretamente, conforme a razão, sem depender do resultado. O valor da ação não está no sucesso externo, mas na coerência interna. Nós temos uma coisa muito bonita na literatura que nós chamamos de heroísmo trágico. Nós, antigamente, tínhamos o heroísmo épico, que eram os grandes heróis que venciam, que matavam, que executavam, que estavam acima de tudo e de todos, como por exemplo o grande Aquiles na Ilíada. Não tem nenhum homem que consiga vencer Aquiles, a não ser ele mesmo com a sua fraqueza. Aquele tendão. Nós temos os grandes heróis que conquistaram, que aniquilaram. Esse é o heroísmo épico. Conforme a vida foi passando e a história foi se transcorrendo, na literatura, foi surgindo esse conceito de heroísmo trágico. O herói não é aquele que vence, mas é aquele que não desiste. É aquele que não depende apenas dos fatores externos, mas ele depende de si mesmo, de não desistir e continuar lutando.
E é aí que nós temos uma maravilhosa história na literatura com Hemingway. Hemingway, um grande escritor norte-americano, ganhou até um prêmio Nobel de literatura. Ele vai escrever o livro chamado "O Velho e o Mar", uma obra que nós lemos ano passado aqui no Clube de Leitura. Nessa obra nós temos a história de Santiago, um velho pescador que estava há 84 dias sem pescar absolutamente nada. E a pesca é extremamente histórica. Você pode ter a melhor isca, você pode ter o melhor equipamento, o melhor barco, estar no mar mais recheado de peixes e ainda assim não pescar absolutamente nada, porque não depende apenas de você. E ele estava 84 dias não deitado em uma cama, não jogado ali em uma rede. Ele estava por 84 dias consecutivos indo ao mar e voltando sem nada, trabalhando, se esforçando. E na moral da história, nós temos uma coisa muito clara. O homem, ele pode ser destruído, mas ele não pode ser derrotado. Ele pode ser destruído porque eu posso sofrer as maiores adversidades. Eu posso descobrir uma doença, eu posso ser mandado embora do meu trabalho. Eu posso passar por uma crise, eu posso passar por vários fatores externos que me atingem. Mas eu só serei derrotado se eu permitir a derrota. A derrota é uma concessão, ela vem de dentro. Santiago estava 84 dias sem pescar, mas ele vai para o 85º dia e o 86º e o 87º. Nem que ele ficasse 1000 dias tentando pescar, mas ele continuaria, porque é aí que está o real valor do homem de acordo com essa disciplina da ação. É você ter a integridade interior e não a expectativa das consequências externas. Que essas consequências sejam consequências das suas ações. Agora, se eu já começo essa aula pensando assim: "Nossa, será que vão gostar do que eu vou apresentar aqui? Será que os alunos vão amar? Eu queria tanto que eles gostassem desse conteúdo." Ou seja, eu já estou focando em um resultado que foge do meu controle. Santiago indo para o seu 45º dia, ou seja, já está mais de 40 dias sem pescar. Você acha que ele teria essa tal expectativa de chegar lá e ficar pensando se vai conseguir o peixe ou não? Isso é natural. Nós esperamos coisas da realidade. Mas antes de tudo, entenda que o valor da ação não está no sucesso externo, porque esse sucesso nem sempre dependerá de você. Você pode estudar, você pode se qualificar, você pode fazer tudo certo e ainda assim a vida te destruir. Mas o que importa é essa vitória interna. O herói não é apenas aquele que vence, mas principalmente aquele que não desiste, aquele que tem a coerência interna. Ou seja, nós podemos ser destruídos, mas nunca seremos derrotados, porque a derrota é uma concessão, é uma permissão que você dá para a vida quando você larga tudo aquilo que você poderia fazer e começa a se render ao acaso, se render aos fatores externos.
E agora a terceira disciplina, que é a disciplina do assentimento. Consiste em examinar os julgamentos antes de aceitá-los. Nem toda impressão deve ser imediatamente considerada verdadeira. É preciso filtrar, questionar e avaliar. Essas três disciplinas estruturam a vida histórica. Elas não eliminam os acontecimentos, mas transformam a maneira de vivê-los.
Olha que interessante essa disciplina do assentimento, a forma como eu interpreto e julgo a realidade. Nós tivemos uma escola antes do estoicismo ali na Grécia, na verdade contemporânea ao estoicismo, porque o estoicismo surge na Grécia. Ele é muito romano nesse sentido que falamos, porque eu expliquei lá na primeira aula a história do estoicismo, mas na Grécia ali de maneira contemporânea, nós tivemos o ceticismo. Quando uma pessoa é muito cética, uma pessoa que não acredita, que questiona demais, nós utilizamos essa palavra ceticismo, que do grego vem da palavra *skepsis*, que significa exame, análise. O cético, ele não afirma e nem nega, ele simplesmente questiona, ele interroga. E a principal ferramenta do cético é a *epoché*. *Epoché* do grego significa suspensão de julgamentos. Quando alguma coisa acontece, o cético não vai afirmar nem negar. Ele vai suspender, ele vai entender, ele vai questionar, ele vai trazer reflexões para esclarecer aquela névoa que está por cima do acontecimento. É justamente essa névoa que acaba muitas vezes iludindo a grande maioria das pessoas, que é quando uma coisa acontece, ela já explode, ela já fica ansiosa, já fica melancólica, já responde de qualquer forma, sendo que era apenas suspender a opinião, esperar um momento para agir, para responder. E é justamente nessa espera que você ganha autonomia, autonomia de pensamento para não ser levado pelas emoções e os impulsos como se você fosse um minotauro. O minotauro é aquela famosa alegoria da mitologia grega, daquele monstro que foi preso em Creta no labirinto de Dédalo. Mas o minotauro ele tem um corpo de homem e uma cabeça de besta, uma cabeça de touro. É exatamente. Você quando age por impulsos, quando age sem assentimento, sem julgamento, sem aguardar, sem analisar. E é justamente nisso que é a fonte da nossa bestialidade. Você é um ser humano, mas com cabeça de touro. Para que adianta a razão se você não a utiliza, se você não analisa, se você não examina?
Então o histórico, ele parte dessas três disciplinas. A disciplina do desejo. Deseja aquilo que depende de você. Resumidamente, você quer emagrecer? Não deseje emagrecer 10 kg. Deseje ir na academia cinco vezes na semana, fazer dieta, fazer isso, fazer aquilo, porque você troca a espera pela ação. Você quer, por exemplo, ganhar dinheiro, troque o desejo de trabalhar, o desejo de executar, o desejo de inovar, de estudar. É isso que nós estamos falando. Troque por aquilo que depende de você. Depois nós temos a disciplina da ação. Faça, execute e principalmente não permita que a sua vida seja levada pelos fatores externos, como aquele velho Santiago, que estava dias sem pescar, mas não desistia, continuava, não aceitava a derrota, mas conseguia viver apesar da destruição, apesar da miséria, apesar da pobreza. E o último é a disciplina do assentimento, a forma como você julga, interpreta e lida com a realidade, principalmente quando ela te pressiona, quando você está ali contra a parede para responder, para brigar, para falar isso, falar aquilo, quando você está com grandes tendências a reagir emocionalmente. É justamente aqui que você deve aguardar. Ou seja, nem toda impressão deve ser considerada imediatamente verdadeira. É preciso filtrar, questionar e avaliar, porque você é um ser racional. Você não é um minotauro, como falamos aqui, um ser humano com cabeça de touro, com cabeça de besta.
E aqui continuamos o encontro com o destino. Uma das consequências mais profundas dessa prática é a mudança na relação com o destino. Para o histórico, resistir ao que acontece é resistir à própria ordem do mundo. A realidade não se adapta às nossas expectativas. Somos nós que precisamos ajustar nossa compreensão a ela. Isso não significa uma passividade, mas uma lucidez. Aceitar o que acontece é reconhecer que os eventos seguem uma ordem que não depende da nossa vontade. A resistência cega gera sofrimento. A aceitação racional gera estabilidade. Nietzsche, anos e anos depois, na sua obra "A Gaia Ciência" vai fazer surgir um termo que era extremamente histórico. *Amor fati*. Ame e aceite o seu destino, independente de qual seja. *Amor fati* significa amor aos fatos, amor àquilo que é imutável. Professor, como que eu vou amar a morte do meu pai? Como que eu vou amar o divórcio que eu tive com meu marido? Como que eu vou amar o desemprego que eu estou passando, a pobreza, a miséria, isso e aquilo? Porque a realidade é como ela é, é imutável. São coisas que você não consegue controlar de maneira completa. E esse amor não é passividade, não é eu aceitar que a vida é ruim, pronto, acabou. Nada disso. O *amor fati*, ele envolve três "A"s que eu quero que vocês levem para a vida. Primeiro, aceitar. Eu aceito porque eu não controlo. Já que eu não consigo mudar o fato de que a vida é como ela é, eu vou aceitar isso para poupar as minhas energias. Eu vou ficar dando soco em ponta de faca até quando? Eu vou ficar querendo mudar os outros até quando, sendo que são coisas que estão fora do meu domínio? Então eu aceito como forma de poupança. E a minha energia que eu estaria gastando em não aceitar, em tentar mudar, resistir, é uma energia que eu vou levar para o segundo "A", que é o adaptar. Se a vida não muda diante de mim, sou eu quem mudo diante da vida. Se a vida não se altera diante dos meus desejos, eu mudo os meus desejos. Olha que interessante como nós conseguimos trazer a autonomia para nós, seres humanos, para aqueles que estão sofrendo na mão das moiras, como os gregos falavam. As moiras eram aquelas que fiavam o destino. Cada pessoa já tinha uma vida pré-determinada. E se a sua vida muitas vezes aparenta estar assim, difícil, como quem está enclausurado em um quarto, você deve ressignificar esse quarto. Você deve se adaptar, mudar. As coisas estão difíceis aqui, vai para lá, muda a atitude, muda o campo, muda a área, muda a perspectiva, muda a ação, mude a si mesmo. Essa é a única chance que você tem de chegar ao terceiro "A", que é o avançar, que é continuar fazendo, continuar executando, continuar vivendo, apesar do determinismo da vida. A vida, ela vai continuar você querendo ou não, com dificuldades ou não, com facilidades ou não. E é por isso que esses três "A"s levam você ao encontro com o destino. Você aceita porque não pode mudar, adapta porque pode e avança porque deve. É isso que nós estamos falando. Não é passividade. O meu marido, eu já conversei com ele, ele é um cara muito rude, muito arrogante. Eu faço de tudo por ele, ele não faz de nada por mim. Eu já conversei, já tentei, já fiz isso, já fiz aquilo. Aceite. Aceite que ele é assim. Adapte. Divórcio, conversa, fala disso, fala daquilo, dá uma última chance. Se não tem, sai fora, segue a sua vida, avança, viva. É assim que o caminho continua, com adaptação, com mudança de rota. E é por isso que o destino ele não é uma forma de prisão, é uma forma de guiar a nossa jornada, guiar perante os fatores que nós não podemos mudar. A vida vai se apresentar para você muitas vezes como uma parede, mas você pode fazer dessa parede uma bela pintura com um grafite, com uma obra de arte, com uma aquarela e coisas do gênero. É isso que nós estamos falando por aqui. Existem coisas que dependem de você e é essa pequena parcela de adaptação que importa, de reatividade que importa. Então, amar o destino, amar os fatos, não é você ser passivo e fraco, é você ser reativo e inteligente. Burro é aquele que fica dando murro na ponta de faca, achando que vai quebrá-la, sendo que na realidade só está cortando a mão. Esse é você quando resiste a tudo que acontece, quando não aceita a vida tal como ela é. Então, nós conseguimos trazer o *amor fati* nessa aplicação dos três "A"s: aceitar, adaptar e avançar. É isso que faz de você um histórico ante o destino e ante os acontecimentos.
A formação de caráter. O objetivo do estoicismo não é controlar o mundo, mas formar o caráter, formar aquilo que depende de nós. Cada dificuldade se torna um teste. Cada contrariedade revela o grau de domínio que temos sobre nós mesmos. O homem não é definido pelo que lhe acontece, mas pelo modo como ele responde. Nesse sentido, a vida inteira se transforma em um campo de formação moral. A coerência interna passa a ser mais importante que qualquer conquista externa.
Nós temos aqui uma coisa muito interessante, que é o motivo pelo estoicismo ser tão comentado atualmente mesmo depois de 2300 anos desde o seu surgimento. Porque o estoicismo reside no caos. É justamente no caos. É justamente na adversidade que o estoicismo acaba sendo útil. Não é aquela filosofia para ser comentada num momento poético, num momento lindo da vida, num momento em que tudo está bem, mesmo que sirva para esses momentos também. Mas o estoicismo surge, como vocês lembram lá da primeira aula, em um momento de colapso cultural na Grécia, em um momento de colapso político após a morte de Alexandre, o Grande, um colapso identitário do ser humano, do homem dentro da *pólis*, quando a democracia acaba ruindo. Tudo isso vai levando ao seguinte questionamento: a vida está um inferno, a vida está uma guerra. Quem será você no meio dessa guerra? Aquele que está preocupado com os ataques adversários ou aquele que está preocupado com como vai reagir diante de cada ataque. É isso que nós entendemos. A vida se torna esse campo de formação moral, como colocamos aqui. E o histórico, ele muitas vezes é levado a ser entendido como aquele que só vive no meio da dificuldade, que anseia pelo sofrimento, que anseia pela adversidade. Não é isso. O histórico, ele simplesmente entende que ele deve estar pronto para a guerra a todo momento, mas deve desejar a paz a todo momento. É exatamente aqui que nós compreendemos o porquê essa filosofia é tão aplicável em nossas vidas, porque cada diversidade se torna campo de treinamento. No momento mais difícil da sua vida, você tem a chance de aplicar o estoicismo. Como eu citei a aluna que me trouxe esse relato e ela até comentou em algum dos grupos do Clube de Leitura, ela sepultou o pai, se eu não me engano, foi no domingo. No domingo ela sepultou o próprio pai. Era mais ou menos ali 7, 8 horas. Ela me mandou uma mensagem, se ela estiver aqui, ela pode comentar depois para a gente. Ela mandou uma mensagem dizendo que gravou um vídeo explicando sobre o estoicismo e como ela o aplicou na sua vida naquele momento. Então, olha que interessante como esse campo de batalha que nós chamamos de vida, porque o próprio Sêneca, que era um estoico, falava: "Viver é guerrear". Se torna também um campo de formação. "Eu vou entregar uma alma melhor do que me foi dada". Porque assim como a joia é lapidada pela fricção, o homem é polido pelas adversidades. Cada momento difícil vai revelar quem eu sou. O momento difícil revela o covarde e revela o corajoso. Revela o forte e revela o fraco. E é justamente nesse momento difícil que eu tenho a oportunidade de sair dali melhor do que eu entrei. O histórico chama isso de antifragilidade. Um termo que só veio surgir séculos e séculos depois, mas ainda assim o histórico já entendia. Nós temos de um lado a resiliência. A resiliência é uma palavra muito usada para caracterizar essa pessoa firme diante dos acasos da vida. Mas a resiliência vem de um termo físico, da física que representa a capacidade de retorno ao estado original depois de uma deformação. Eu pego uma garrafa PET, eu amasso, eu sopro, ela voltou ao seu estado original, ou seja, ela foi muito resiliente. O estoico não é assim. O estoico é antifrágil. Quando ele é amassado, ele volta ainda mais forte, como a Hidra de Lerna, aquela mitologia que nós tínhamos da Grécia, em que Hércules mata a Hidra de Lerna. A Hidra era um monstro aquático que tinha várias cabeças e quando você cortava uma cabeça dela, outras cabeças surgiam no lugar. Diante do corte, diante da ruptura, diante do ataque, ela se tornava melhor. Sim, devemos ser eu e você na vida a partir das adversidades, dos conflitos, uma formação contínua de caráter, você lapidar a si mesmo com constância a partir de cada dificuldade, a partir de cada reverso, exatamente como eu deixei essa pintura aqui que estava no começo da nossa aula de hoje, você lapidando a si mesmo, você se construindo, retirando os excessos, colocando beleza, colocando estética, não no sentido artístico, mas no sentido moral, reduzir vícios, aumentar virtudes, aumentar antifragilidade. O que nós citamos por aqui.
E já chegando pro final da nossa aula de hoje, a serenidade como resultado. A serenidade histórica não é ausência de problemas, mas ausência de conflito interior. O mundo continua instável, as perdas continuam possíveis, as dificuldades continuam inevitáveis, mas o indivíduo deixa de ser arrastado por essas variações. Mantém uma estabilidade que não depende das circunstâncias. Essa estabilidade não é indiferença, mas é um domínio, é uma *enkrateia*, *kratos* do grego poder, interior, autodomínio. Eu entender que eu não posso depender da vida a partir de cada circunstância que ela me traz. Uma pessoa que é assim é uma pessoa extremamente oscilante, uma pessoa que oscila a todo momento. É aquela que quando tudo está bem, ela está dando risada. Se tudo está mal, ela não quer papo com ninguém. E assim a vida prossegue com uma grande variação de humores, variação de sentimentos. E a pessoa nunca consegue entender que é ela quem vai dominar o seu caminho. É ela quem vai dominar a própria existência quando ela entende que a serenidade é um resultado que é alcançado quando você tem essa estabilidade interna.
Eu gosto muito de uma coisa que Marco Aurélio fala na sua obra "Meditações", que era também um grande estoico. Marco Aurélio, imperador de Roma. E lá ele cita a palavra cidadela. Ele fala que cada pessoa tem uma cidadela interior, uma cidadezinha, um reinado dentro de você. E lá dentro de você, nesse reinado, nós temos os súditos, que são as emoções. E nós temos um rei que é a razão. Ou seja, quem governa a razão, a mente, a coerência lógica. E quem obedece as emoções? Exatamente o que nós falamos na última aula sobre a alegoria do cocheiro, do auriga, a alegoria platônica da carruagem da alma, algo parecido. Não é castrar as minhas emoções, é direcionar, é governar e não com uma repreensão, mas sim com uma direção. E aí, nessa cidadela interior, nós temos uma outra coisa que pode ser aprendida, que é a que eu quero dizer aqui com vocês. Essa cidade ela tem vários muros e esses muros são responsáveis por proteger aquilo que é importante, ou seja, o reinado, os súditos, suas emoções, seu bem-estar, sua saúde mental. E esses muros representam a dicotomia do controle. Tudo que está para o lado de fora dos muros está fora do meu controle. Tudo que está para o lado de dentro está no meu controle. Eu não posso me preocupar com os ataques externos. Eu devo me preocupar em como cada muralha da minha cidadela está fortificada para reagir da melhor maneira possível. Isso o próprio Maquiavel vai comentar na sua obra "O Príncipe", a diferença entre fortuna e virtù. Fortuna é tudo aquilo que acontece que eu não controlo. É daí que vem o infortúnio, aquilo que é ruim, que não estava no meu controle. Ou é aí que eu me torno afortunado quando eu recebo algo que eu não contava. E diante desses reveses ou oportunidades da vida que estão fora do meu controle, eu tenho a virtù, a habilidade de reagir diante de cada acontecimento. Maquiavel colocava esses dois termos importantíssimos para um bom governante. O bom governante é aquele que entende que do lado de fora das suas muralhas tudo pode acontecer. Tudo pode ser bom ou pode ser ruim ou pode ser inevitável. Mas como eu vou reagir diante de cada uma dessas coisas que está acontecendo ali do lado de fora da minha muralha? Isso é a virtude, a capacidade e a habilidade de reagir diante do acaso, de reagir diante do destino.
Então, nós entendemos que todos nós temos essa cidadela interior e ela só será abalada, atingida, só será destruída se você permitir, se você escancarar as portas, as muralhas e ceder que os inimigos cheguem ali dentro e façam o que quiserem com você, com a forma que você se relaciona com os outros, a forma que você aloca suas emoções no trabalho, na faculdade, na família, isso e aquilo. Então o histórico busca essa serenidade como resultado final, a partir da dicotomia do controle, a partir da compreensão da fortuna e da virtù, que são termos que vão surgir só em Maquiavel, mas principalmente com essa frase que eu quero deixar para vocês. Essa estabilidade que o histórico tem dentro de si não é uma indiferença, não é eu não ligar para mais nada no mundo, é um autodomínio, é você governar a si mesmo, manter uma estabilidade que não depende das circunstâncias, que não depende apenas do mundo, apenas do que é externo. Porque se você depende, obviamente você não é livre. Quanto maior a dependência eu tenho em algo, menos livre eu me torno diante desse algo. Se eu sou extremamente dependente da minha namorada, do meu marido, da minha mãe, do meu pai, disso, daquilo, menos livre eu sou. Eu não tenho autonomia, eu não tenho aquela autarquia que eu falei. E você não vai se cortar, você não vai ter uma ruptura e viver sozinho no mundo. Não é isso. O que estamos dizendo é busque uma autonomia e uma estabilidade interna, algo que dependa de você.
A figura do sábio. O ideal histórico é o sábio, aquele que alcançou a total coerência entre razão e ação. E ele não se perturba facilmente, não se apega ao que não controla e não se desespera diante das dificuldades. [limpando a garganta] Sua vida é marcada por simplicidade, clareza e firmeza interior. Esse ideal, embora difícil de atingir plenamente, eu não vou só dizer difícil, mas impossível, ninguém é verdadeiramente sábio. E eu vou explicar o porquê. Funciona como orientação. Ele indica a direção do esforço filosófico. Esforço é essa palavra que eu quero que você guarde. Assim como eu disse para vocês que o nosso foco não deve estar nos resultados, mas sim nas ações, é exatamente a mesma coisa que acontece na filosofia. A sabedoria ela não é como um vaso a ser preenchido. Se você enche ele até a boca e chega num limite, é muito mais uma chama a se manter acesa. Não é uma compra que eu pago uma única vez, mas é um aluguel que eu pago todo mês, todo dia, toda hora. Desde o dia que eu entrei para a filosofia, eu me constatei como o homem mais ignorante desse mundo. E hoje, quando eu pego um livro para ler, eu me considero o homem mais ignorante desse mundo. Porque eu estou pagando o aluguel todos os dias, eu estou estudando todos os dias. O sábio, ele não é aquele que sabe de tudo, mas é aquele que se torna menos ignorante a cada dia. Então, como que eu vou me tornar um histórico, professor? Com continuidade, com hábito, com processo. Você vai se tornar um? Jamais. Você vai se tornar um sábio? Jamais, mas você vai se tornar menos pior do que era antes a partir desse processo. Porque assim como na sabedoria você reconhece que o que você sabe é uma gota e o que você desconhece é um vasto oceano, no campo moral é a mesma coisa. Nós sempre teremos erros a serem corrigidos, teremos vícios a serem erradicados. Então, quando eu compreendo que a sabedoria, que o estoicismo, que a serenidade são coisas idealizadas, é um ideal muito distante que eu quero alcançar, mas eu nunca vou, é aí que eu começo a ganhar gosto pelo processo em pagar o aluguel. É exatamente o que eu falo com os nossos alunos de maneira bem repetitiva. Eu não quero que você seja o mais sábio. Eu quero que você seja menos ignorante do que você é. Hoje você entrou nessa aula não sabendo de alguma coisa que eu citei por aqui e algum aluno vai citar alguma coisa que eu não sabia antes de começar a aula. E nós juntos vamos sair daqui menos ignorantes do que entramos. Porque a sabedoria, a nossa mente não são coisas como vasos a serem preenchidos, mas chamas a se manterem acesas. E se você reparar bem, tudo que realmente vale na vida é assim. Um casamento saudável não é você tratar a sua esposa bem só no dia do aniversário de casamento. É todos os dias é pagar o aluguel com constância. Você passar num concurso é estudar com constância. Ser um bom profissional é trabalhar bem com constância. Tudo que vale na vida exige hábito para que tenha também concretude, que tenha solidez. Então, na filosofia não será diferente. Então, que a partir de hoje você troque essa idealização em se tornar e comece a colocar o hábito em fazer, em executar, em manter essa chama acesa cada dia em cada situação. E assim eu te garanto que pouco a pouco, no decorrer de 1 ano, 5, 10, 20, 30, 40, quando você estiver lá no fim da sua vida, você vai perceber o quanto que você se ausentou de sofrer por conta de uma coisa que começou pequena, de uma fagulha que deu luz a essa fogueira e agora tem uma grande labareda de sabedoria dentro de você, porque você entendeu que o filósofo não é aquele que tem o saber, mas é aquele que busca, aquele que ama. É daí que vem a palavra filosofia. *Philos*, amor, *sophia*, sabedoria. O filósofo é aquele que ama, é o amante da sabedoria. O amante não possui o saber, mas ele busca de maneira incessante. É exatamente isso que nós conseguimos compreender com essa figura do sábio, a figura do histórico, que são coisas que falamos que muitas vezes soam como inatingíveis, que eu nunca vou ser. Mas não é sobre ser, é sobre erradicar o que você já está sendo. O que eu disse? Menos ignorante ao invés de ser o mais sábio de todos.
E agora algumas reflexões práticas para encerrarmos a nossa aula de hoje. Deixa eu só liberar aqui o chat de mensagens já para quem quiser ir comentando por aqui.
Primeiro, em quais em quais situações recentes eu agi corretamente, mesmo sem garantir um bom resultado? Isso daqui divide muito bem as pessoas que são honestas e aquelas que são desonestas. Um bom caráter, diria eu, é aquele que faz mesmo quando ninguém vê. É aquele que faz mesmo quando não tem resultado. É aquele que faz mesmo quando a vida dá o contrário do que foi prometido. Não é eu fazer pensando em algo, mas eu fazer mesmo sem aquele resultado que eu tanto queria. Então, qual foi a última vez? Em quais situações recentes você agiu com essa com essa correção, com essa justiça interna de pensar na ação e não no resultado? Porque o resultado nem sempre depende de você. E se você pensa muito no resultado, você será uma pessoa também muito utilitarista, consequencialista. O cara que roubou o trabalhador às 5 horas da manhã em um ponto de ônibus, ele pouco se importou com o meio, ele se importou muito mais com o resultado, que é o celular que ele obteve para vender depois. Então você entende que grandes deturpações da justiça e da ética humana provêm exatamente de esperar mais do que a vida pode dar, de focar nas consequências e não na ação como fim em si mesmo. Kant vai chamar isso de dever moral. Age de maneira com que a sua ação possa ser uma lei universal que termine em si mesma, independente da condição, do tempo, do espaço. Essa correção de dever que estamos falando.
Segundo, o que tenho desejado que está fora do meu controle e como isso tem afetado a minha tranquilidade? O que que você tem desejado na sua vida? Pense todos os objetivos que você tem anotado aí em um caderninho ou que você sonha ou que você almeja. Pensa em tudo isso. Eu quero um carro, eu quero uma casa, eu quero isso, eu quero aquilo. Não vou castrar essas coisas, não vou retirar tudo, não vou me tornar uma pessoa apática de desejos, mas eu vou entender. Cada objetivo desse pode estar ou pode não estar no meu controle. E eu vou pensar nele como fonte da minha serenidade ou fonte da minha angústia. Então você começa a perceber que trocar o desejo é muito mais inteligente do que querer alcançar esse desejo independente de tudo, porque nem sempre estará no seu controle. Então, o que você tem desejado que está fora do seu controle, que você pode trocar, que você pode manusear. Muitas vezes você quer sair, por exemplo, de uma situação financeira dificílima e você está almejando algo que está fora do seu controle. Você está almejando, por exemplo, passar em um concurso. Passar em um concurso não está no seu controle. Você pode tirar nota 48 de 50 perguntas na prova e tem 10 candidatos e os outros nove acertaram 49 de 50. Ou seja, você não controlava a aptidão, a habilidade deles, a inteligência deles, mas você fez o seu melhor. Então, eu não vou desejar passar no concurso, eu vou desejar estudar todos os dias 4 horas por dia, fazer tantos simulados por semana, escrever tantas redações e assim, por consequência, eu passarei. E se eu não passar, o esforço não foi em vão, porque eu me tornei melhor. O gosto pela ação e não somente pelo resultado, como falamos. Trocar o desejo ao invés de querer manipular toda a realidade que não está no meu domínio.
Terceiro, eu tenho examinado meus julgamentos ou simplesmente aceitado minhas reações imediatas? E agora, pessoal, quem quiser falar no momento de dinâmicas aqui, pode ir levantando a mãozinha no aplicativo que assim que eu terminar eu já vou passar a palavra para vocês. Quem quiser concluir sobre o livro, fazer uma resenha, falar rapidamente, professora, entendi isso, isso e aquilo, gostei muito e uma nota de zero a cinco. Zero, sendo péssimo, professor, odiei Epicteto. E cinco, amei Epicteto. Eu tenho examinado meus julgamentos ou simplesmente aceitado minhas reações imediatas? Eu tenho sido como minotauro ou eu tenho sido como centauro? O minotauro, eu já expliquei por aqui, é aquele que tem corpo humano e cabeça de besta. O centauro tinha corpo de cavalo e cabeça humana. Os centauros, pelo menos um deles, o centauro Quíron, era extremamente sábio na mitologia grega antiga. Eu gosto de falar através de símbolos, por isso que eu cito bastante da mitologia grega que eu amo tanto. E ali ele representava a razão que dominava a bestialidade. Nós temos impulsos, nós temos ímpetos, isso é fato. Mas como você vai governar cada uma dessas coisas? É aí que você se pergunta se você examina o que você julga ou se você simplesmente reage de maneira imediata.
E diante das dificuldades, minha tendência é resistir ou compreender e ajustar minha atitude? Se a vida não muda diante de você, é você quem muda diante da vida. Uma grande frase do Victor Frankl, que foi o pai da logoterapia, um homem que estudou amplamente o estoicismo, passou por dificuldades imensas na vida, foi um homem prisioneiro nos campos de concentração nazistas na Segunda Guerra. Os dois principais campos de concentração que tinham mais tortura foram exatamente aqueles que ele passou e ele perdeu o trabalho, perdeu a família, perdeu tudo. E ele ressignificou esse sofrimento com a sua tese psicológica que é a logoterapia. Então, através da história desse homem, podemos ver como que a nossa adaptação importa muito mais do que o que a vida nos traz.
E minhas ações, elas refletem coerência interna ou dependem do reconhecimento externo? O que eu faço na vida? Vem de fora para dentro, é dado, é emprestado? É conferido? Ou é uma coisa que eu gero a partir de mim, a partir da minha interdependência, da minha autarquia, como falamos?
Então pessoal, basicamente isso que eu tinha para tratar hoje aqui com vocês. Eu peço desculpas porque a gravação da aula ela só começou depois de 10 minutos. Eu vou até ter que fazer um videozinho aqui para explicar para quem for assistir apenas a aula gravada o porquê disso. Infelizmente eu não sei o que aconteceu. Eu até tinha colocado para gravar. Eu achei que eu tinha esquecido, mas eu não tinha porque eu conferi antes e eu lembrei disso. Mas o Google Meet, infelizmente, deixou o professor aqui na mão hoje.
E para quem quiser se aprofundar na filosofia histórica, quem quiser ler outros históricos, outras obras, aqui eu deixei algumas referências que eu me baseei para escrever o material, eu me baseei para dar essas aulas nos meus estudos e vocês podem buscar também. Nós temos o "Enchiridion" de Epicteto, que é o manual que nós fizemos a leitura. Temos também os "Discursos" de Epicteto, que infelizmente só estão disponíveis em inglês. Nós temos as "Cartas de um Estoico" de Sêneca, nós temos "Sêneca sobre a Brevidade da Vida", que lemos lá em fevereiro, "Marco Aurélio Meditações", o Diógenes Laércio que fala sobre a vida e doutrina dos ilustres filósofos, perdão, e outros pensadores, comentadores, John Sellars, nós temos também o Pierre Hadot, todos os outros que comentaram amplamente sobre o estoicismo e vão poder dar mais profundidade para vocês nos estudos.
E agora eu passo a palavra para a Maria José, que vai ser a primeira a falar. Deixa eu só liberar o microfone por aqui. Maria José, sinta-se à vontade para compartilhar conosco a sua visão. Pronto, liguei aqui o microfone.
>> Boa noite, professor. Aula magnífica. Adorei a aula. Uma aula que nos faz pensar sobre tudo, né? E o que eu mais gostei foi...
Sobre o desejo, né? E aí eu fiz assim, um breve comentário sobre o desejo. "Ajustando desejos, eliminamos a raiz da perturbação." Achei muito interessante.
E esse é um conceito central do budismo, né? O desejo, o apego, a cobiça, causa primordial do sofrimento, da insatisfação crônica da vida humana, né? Eu já disse várias vezes, como terapeuta, percebo que um dos maiores problemas do ser humano hoje é a insatisfação, né? "Eu não tenho, eu quero ter. Eu não posso, eu preciso." São palavras que são usadas muito.
E aí, sobre a perspectiva psicanalítica, que é a linha que eu trabalho, amar é viver é entendido como atravessar. O desejo nunca é totalmente satisfeito, gerando uma repetição. Se não compreendida, perturba a paz interior, né? Então, o que eu vejo é que o desejo, ele realmente perturba a paz interior de todas as pessoas que vivem hoje nessa sociedade extremamente materialista, né? Em que, a todo momento, a gente vê propaganda de coisas maravilhosas, de produtos, né? De carro, de óculos, de perfume, de roupa. O tempo todo perturbando, se a gente permite a paz interior.
O desejo é como apego. Ele impede que a gente aceite a realidade que nós vivemos. Viver num mundo bombardeado por propaganda que instiga, né? E exige o desenvolvimento de uma blindagem mental. Achei interessante isso, né? Que que seria essa blindagem mental que a gente tem que ter? Senão a gente cai realmente nesse, nesse mundo, né, escuro da do desejo. É adoção de hábitos conscientes, né? Então, assim, desative um pouco esses e-mails que a todo momento estão instigando a gente a comprar e a querer, né? Adote a regra das 48 horas para você comprar. Em vez de comprar, deixe 48 horas aquele objeto ali para ver se é isso mesmo que você quer, né? E eu acho que a parte espiritual também ajuda muito você a desenvolver, né, uma, é como se fosse uma peneira desse desejo, dessa perturbação que eu vejo que hoje a sociedade está mergulhada, né?
E o pior, né? As crianças. As crianças elas estão muito mais mergulhadas nesse desejo. E eu vejo que os pais, em função da culpa de trabalhar demais e não dar atenção para essas crianças, eles satisfazem esses desejos. E a criança, então, se torna aquela criança que tudo quer, que não tem, eh, não tem, não tem um, um, um parâmetro, né? Daquilo que ela pode e daquilo que ela não pode. Então, é isso que eu queria falar, professor. "Ajustando o desejo, eliminamos a raiz da perturbação e o sofrimento da nossa alma", que é o que eu mais percebo hoje no consultório. Obrigada, professor.
>> E eu que agradeço, querida, pela sua visão, pela sua interpretação, principalmente referente ao desejo, né? Até porque o desejo foi amplamente comentado, por exemplo, na psicologia, também na psicanálise, nós vemos bastante, principalmente a partir de Lacan, né? Então, nós vemos aqui que o desejo ele pode ser a fonte de ruína, como também a fonte de libertação. Tudo dependerá da forma com que você direciona os seus desejos. Até porque você não vai deixar de desejar. O ser que não deseja é um ser morto, e o ser humano é um ser desejante. E aí que caímos naquela, naquela famosa dicotomia, a ânsia de ter e o tédio de possuir, como o Schopenhauer levanta. Ele até mesmo tem uma obra chamada "O mundo como representação e vontade", exatamente falando sobre a vontade como força motriz para a vida humana. Todo ser tem vontade de algo, todo ser deseja algo. E assim compreendemos como o estoicismo serve como esse autodomínio que citamos por aqui.
Agora, o Rafael, ele havia feito uma pergunta aqui se eu envio esse material depois no grupo. O material já está disponível lá no drive, pessoal. Para quem tem a mesma dúvida que ele, o material está disponível lá, juntamente com os outros, e também os livros em PDF. Agora, eu passo a palavra. A segunda pessoa que levantou a mão por aqui foi, deixa eu verificar, que meu notebook está muito ruim, é a Letícia. Letícia, sinta-se à vontade, por gentileza.
>> Boa noite, todo mundo. Eh, a minha pergunta vai mais ou menos na linha da Maria José, porque, eh, o que eu percebi, eu achei muito curioso, essa questão das disciplinas, né, do estoicismo, quando fala da disciplina do desejo, da ação e do assentimento. E a nossa sociedade hoje, ela, ela parece que ela é um antagonismo disso aqui, porque, eh, por exemplo, o desejo, né? Não desejar o que está fora do nosso controle. A, a sociedade, né, capitalista, ela, ela trabalha com essa questão do desejo, né? Da gente sempre estar desejando novas viagens, né, novas coisas. Eh, o valor da, da ação não está no sucesso externo, mas na coerência interna. Hoje em dia, ninguém quer saber de coerência interna, quer saber de sucesso externo, de aparecer, de mostrar. As redes sociais mostram muito isso. E examinar os julgamentos antes de aceitá-los, né? Hoje em dia, qualquer coisa que é jogada na internet, a gente aceita sem julgar, sem considerar. Então, assim, a, a sociedade, ela, ela caminha totalmente contra isso aqui. E eu achei muito curioso isso. Existe algum, eh, algum motivo para isso? E por que nossa, nossa sociedade, né, se afastou tanto dessas filosofias antigas, né? Porque a gente não se encontrou com elas, mas sim fomos para bem longe, né? A sociedade se construiu no antagonismo disso aqui. E eu queria entender se tem alguma explicação para isso.
>> Eu acredito que uma explicação só seria até empobrecer essa pergunta, né? Nós temos questões sociais, econômicas, culturais, etc. Mas a filosofia, ela sempre foi rara, ela sempre foi exercida por pouquíssimas pessoas, pessoas que preservaram o pensamento, que praticavam o pensamento. Não é à toa que os filósofos eram caçados. O próprio Epicteto foi exilado assim que ele saiu ali da sua, do seu período de escravidão. E o Sócrates foi morto, assim como Jesus, de maneira totalmente injusta. Sócrates foi condenado por crimes que nem havia cometido, foi morto pela democracia ateniense. Então, nós vemos que é uma questão, de maneira geral, digamos assim, é bem simples. A maioria prefere aquilo que é medíocre. Daí que vem a palavra mediocridade, da média, da maioria, daquilo que é mais comum, daquilo que é mais fácil. A grande maioria não vai estudar. A grande maioria não vai querer castrar os desejos para entender o seguinte. Quando eu digo castrar, não é repreendê-los, mas sim dominá-los. Digo castrar no sentido de domesticar. A grande maioria não vai querer fazer isso, de entender que ela não pode desejar tudo perante o outro. Como assim eu não posso forçar o meu namorado, meu marido, a minha esposa a fazer o que eu quero? Não é assim. Eu quero que ele faça, eu quero que ela faça, eu quero que seja do meu jeito. E é justamente esse egocentrismo e essa busca por aquilo que é mais facilitado. Como a própria Maria José também falou na questão da educação, na minha época, para eu ganhar alguma coisa, eu tinha que conquistar aquela coisa. Eu comecei a trabalhar com 11 anos numa feira. Se eu quisesse comprar alguma coisa, eu não ganhava nada. Eu tinha que ir pra feira 4:30 da manhã para ganhar meus R$ 10 por dia, juntar o dinheiro por tantos dias e comprar aquilo que eu queria. Então, olha como nós temos a troca do esforço pelo resultado. Nós temos a troca da facilidade pela dificuldade e até mesmo merecimento. Então, acredito eu que a sociedade como um todo, ela caminha para aquilo que é mais medíocre, para aquilo que é mais fácil. E é justamente aí que muitos pensadores, como o próprio Schopenhauer, citam o seguinte: "O filósofo, aquele que busca a sabedoria, ele é como a águia. A águia, ela faz o seu ninho isolada nas alturas, no topo de uma montanha. Não é como o pombo que come migalhas ali na Praça da Sé." É totalmente diferente. Por quê? Porque a elevação de um nada mais é do que a ruptura do todo. Então, quando nós buscamos essa sabedoria, não é porque somos melhores do que os outros, nada disso. É porque temos apenas mais esclarecimento, temos mais clareza, temos mais compreensão e, principalmente, mais comprometimento em buscar aquilo que também é mais difícil. Porque o caminho até o céu parece um inferno e o caminho para o inferno parece um céu. Significa o quê? Quando eu quero alcançar grandezas na vida, é um aclive gigantesco. Eu tenho que subir até não aguentar mais, passar por dificuldades, passar por sofrimentos muitas vezes. Agora, para alcançar facilidades é muito fácil. E é por isso que nós entendemos que a sociedade sempre esteve distante do estoicismo e da filosofia. Mas só para fechar a minha fala, nós temos uma teoria de um historiador chamado Yuval Harari, que é um historiador israelense. E o Val Harari, ele fala sobre a incompatibilidade evolutiva. Ele tem um livro muito famoso chamado Sapiens. Alguém já deve ter lido essa obra. E ele fala que o ser humano ele vive hoje em um contexto diferente do que ele foi formado para viver. Antigamente nós tínhamos a cultura, por exemplo, da caça, quando éramos caçadores coletores. Você ficava dias e dias e dias sem comer. Você, para conseguir algum recurso calórico, era andando 20 km por dia. Diante disso, o seu corpo aprendeu o seguinte: quando eu tenho, eu devo poupar. Eu como de vez em quando. Então, quando eu como, é estocar, é guardar. É daí que vem o nosso estoque de gordura, dessa herança biológica e evolutiva. Só que hoje você não fica dias sem comer. Você não anda 20 km para achar uma gazela e caçar e comê-la. Não. Você pede o iFood, em 20 minutos está na sua porta. Então, nós vivemos um contexto diferente do qual nós fomos criados para viver, que é essa herança biológica. E a própria razão é assim. A nossa racionalidade, ela foi desenvolvida para compreender, para entender, para buscar e analisar. Só que hoje tudo é dado, tudo é oferecido. A pessoa tem preguiça de ler um livro. Eu passei por uma situação até engraçada com uma aluna, porque ela fazia parte de um curso nosso chamado Clube de Calhamaços, que eu vou até abrir vagas para ele semana que vem, e no finalzinho eu falo melhor sobre isso. Clube de Calhamaços, o nome é bem autoexplicativo. Leituras maiores, livros de 600, 700, 800 páginas. E ela fez a inscrição nesse curso. E nesse curso, obviamente, você tem que ter uma predisposição para, durante três meses, ler o livro com calma, sem pressa, entendendo que ele é grande, que ele é denso. E ela reclamou porque no grupo as pessoas mandavam muitos textos longos, muitas explicações densas. Então, olha que interessante como a nossa racionalidade, que foi feita para escavar e investigar, hoje está num contexto de preguiça, está num contexto de dopamina facilitada. Então, acredito que o ser humano se afastou e muito da sua natureza, e a partir disso as doenças surgem, principalmente doenças mentais. O ser humano não foi feito para ter um acesso de informações como ele tem hoje, em que você consegue saber sobre a vida de uma influenciadora que viajou lá para não sei aonde e está postando a vida perfeita dela. Antes, na época do Mediterrâneo, na época que a sociedade surgiu por ali, nós tínhamos uma tribo com 20, 30 pessoas no máximo e acabou. Só que hoje estamos hiperconectados com milhões de seguidores no Instagram. Então, nós vemos que a nossa condição, a nossa formação nos afastou da nossa natureza, e agora estamos sofrendo com isso. A nossa própria grandeza acabou nos destruindo, e não porque ela é ruim, mas porque nós não estávamos preparados para esse poder. É como a ave que deixa de voar, é como o ser humano que deixa de pensar, e o peixe que deixa de nadar. Nós estamos indo contra a nossa natureza a partir de agora. Infelizmente. E o estudo da filosofia é esse retorno. Então, acredito que essa teoria da incompatibilidade evolutiva, resumindo, nós vivemos em condições que não fomos projetados para viver, é muito interessante e pode trazer uma explicação plausível, não só na filosofia, mas em vários campos. Eu citei hoje, por exemplo, a questão da obesidade. Porque quantas e quantas pessoas estão em obesidade, estão com sedentarismo? Porque o ser humano não foi feito para viver em uma facilidade calórica como temos hoje. Doenças mentais, a mesma coisa. Você não tinha que estar pensando sobre o que vai acontecer no ano que vem, sobre o que o outro vai te falar, e estar ansioso por isso e tudo isso que nós citamos por aqui. Então, acredito até que eu falei demais, pessoal. Perdão. Agora, eu passo a palavra para a Manuela. Manuela, sinta-se à vontade, por gentileza.
>> Olá, professor. Boa noite. Boa noite a todos. Eh, primeiramente, eu quero agradecer ao professor pela oportunidade da gente estar aprendendo conteúdo tão rico. E segundo, vou aplicar todo o conhecimento adquirido aqui na vida dos meus pacientes. Foram pontos bem específicos citados que dá para eu aproveitar o máximo essa aula. E terceiro, a questão que foi falado aqui sobre a nossa sociedade emorrecida, né? O porquê disso. E a gente sabe que a questão que você falou, comentou, eh, da sociedade, da questão cultural, questão política. E eu acredito que é importante a gente se falar assim a respeito desse tema, mas mais especificamente, eu vou focar em também agregar na vida dos meus filhos, porque a gente vê que não é investido na educação, a gente não ouve falar, né, de filosofia, é muito pouco. Ah, eu lembro que quando eu estudava, eh, a gente ainda tinha esse tema citado, né? Mas agora eu não vejo isso também na área da educação. E, enfim, eh, eu quero agradecer a você, eh, por tratar de temas tão relevantes, e eu acredito que eu vou aprender muito aqui com você e com todos os colegas.
>> Muito obrigado, querida. Com toda certeza nós vamos aprender por aqui juntos. Não tenho dúvidas disso. Nosso cronograma no próximo mês leremos, por exemplo, o Hamlet de Shakespeare. Então, vamos fazer uma viagem aí de 16 anos praticamente, saindo do Império Romano com Epicteto. Vamos ali para a Inglaterra Elisabetana com Shakespeare, com as grandes tragédias, e será uma obra maravilhosa. E só ressaltando que você citou, né, que a educação, infelizmente, hoje vive em uma fase dificílima. Professores, quem é professor aí sabe o que eu estou dizendo. Eu não trabalho na rede comum de educação no estado, não trabalho no município, não trabalho em uma universidade, por exemplo. Eu decidi seguir esse caminho autônomo, mas o professor é pouquíssimo valorizado, tem poucos recursos para ensinar e ainda por cima a formação do professor é extremamente ruim. Um professor, por exemplo, que faz uma licenciatura em matemática, ele aprende mil jeitos de dar aula. Ele aprende a ser lúdico, a ser dinâmico, a ser interessante para o aluno, mas o coitado não sabe fazer uma equação de segundo grau, porque a própria formação dele está defasada. Você percebe que a educação é a base de tudo. E assim como uma casa que é construída na areia vai desmoronar, um mundo, uma nação, uma pátria que não tem educação, é uma pátria que mais cedo ou mais tarde também vai desmoronar. Nós estamos colocando o problema no início, no fundamento. Então, no final, tudo também vai dar errado, porque começou errado. Até com o professor de filosofia. As aulas de filosofia hoje são sobre o quê? Professor, se ele tem a oportunidade de dar aula de filosofia, ele vai falar da história da filosofia. Ele vai falar que Platão é um filósofo que nasceu no ano tal, morreu no ano tal, falava isso, falava isso, falava aquilo. Isso daqui é teoria, é história. História da filosofia. Qual é a aplicabilidade na vida do seu aluno para que ele aprenda filosofia? Kant diria: "Não se ensina a filosofia, se ensina a filosofar." A real aula de filosofia é chegar em uma sala e perguntar para cada aluno: "Quem é você?" E o aluno vai falar: "Ah, meu nome é Gabriel, eu tenho 12 anos, eu faço isso e faço aquilo." Mas e se você deixasse de se chamar Gabriel, você deixasse de fazer o que faz, o que sobraria em você? Desenvolver o senso crítico nele? Explicar e ensinar a filosofar. Filosofia é um verbo, não é um substantivo, não é algo parado lá que eu devo investigar, mas é uma ação contínua. Então, você teve muita razão nisso. E quem tem filho, quem tem a nossa próxima prole e a próxima geração dessa nação que está sendo formada, eu sugiro fortemente que cuide dos seus, que tome cuidado com a própria casa, com a própria parentela, porque se depender do que é externo, infelizmente, nós teremos apenas mais uma geração que acaba levando ao que os dados estão revelando. Ou seja, uma geração que está com um QI no nível de capacidade de ligar ali de maneira lógica os aspectos, muito menor do que a geração anterior, pela primeira vez na história. Isso é extremamente triste. E agora, eu passo a palavra para a Winnie. Winnie, sinta-se à vontade, por gentileza.
>> Boa noite. Eh, eu queria inicialmente dar nota cinco para Epicteto, né? Nota, nota cinco com louvor. E também dar nota cinco ao brilhante professor Brian, que através do qual a gente conheceu o Epicteto, eu, pelo menos, né? Então, foi assim, um, uma dupla nota cinco. Mas eu queria falar um pouquinho sobre os aforismos. Eu li os aforismos todos e parei em cada um e refleti assim como isso entraria na minha vida. E vou destacar aqui um deles, o aforismo 28, que é curtinho, e diz o seguinte: "Se qualquer um confiasse o seu corpo ao primeiro homem que encontrar, você ficaria indignado, mas ainda assim você confia a sua mente ao primeiro transe casual e permite com que ela fique perturbada e confusa se ele vier a lhe agredir verbalmente. Você não se envergonha disso?" Eu pensei tanto nesse aforismo, porque eu lembrei que assim, há muitos anos atrás, eu tive, quando eu morava no Rio de Janeiro, talvez uns 40 anos atrás, eu tive um amigo que costumava ir na minha casa para desabafar, desabafar comigo, falar sobre tristezas dele, sobre a vida dele, os problemas dele. Mas isso era assim, religioso. E eu comecei a adoecer com aquele negócio. Então, eu começava a ficar com dor de cabeça, só de pensar que estava chegando a hora daquele amigo chegar, minha cabeça já começava a doer, ficava doente mesmo. Então, eu não sabia como me livrar disso. Fui conversar com o meu psicólogo sobre essa questão. Então, ele disse o seguinte: "Olha, ele está fazendo do seu ouvido uma lata de lixo." Eu fiquei tão incomodada assim com essa comparação que ele me falou, e que realmente era uma grande verdade, que a partir daí eu comecei a me defender dessa forma dele. Já que eu não podia controlar ele, agora entendo isso, como eu não podia mudar ele, né? Eu teria que mudar o meu comportamento face a ele. Então, a partir daí, eu comecei a entender como era e comecei realmente a conseguir me livrar daquele, daquela tortura. E também isso me ajudou a entender que eu nunca devo fazer isso também com o outro, quer dizer, pegar um outro e alugar o outro para simplesmente desabafar as minhas angústias da vida, né? E foi isso. Então, eu tô aprendendo muito com Epicteto, porque estou vendo que ao longo da minha vida, eu já usei sem querer o estoicismo.
>> Muito obrigado, querida. E eu achei muito interessante o trecho que você citou, porque é algo que nós realmente não fazemos, né? Nós, nós valorizamos demais, superestimamos demais aquelas coisas que são às vezes não valiosas, poucas, como, por exemplo, dinheiro. Quando seu salário cai na conta, você não sai dando ele para todo mundo. Mas quando é com a sua atenção, que é mais importante do que o dinheiro, porque a atenção nada mais é do que uma coisa interligada ao tempo, e o tempo não retorna. Um dia que eu dou atenção para alguém que não vale a pena, é um dia que eu deixei de dar atenção para alguém que valeria a pena. Então, a minha atenção vale infinitamente mais do que o dinheiro. Mas ainda assim, a minha atenção eu dou para todo mundo. A primeira pessoa que chega no meu ouvido, eu vou lá, me sento, escuto e às vezes adoeço, como você propriamente citou. Ou uma pessoa que está só me provocando e eu caio na provocação dela, ou uma notícia besta na internet, eu tô lá comentando, fazendo meu comentário de ódio, porque minha participação é fundamental. Ao invés de estar lendo um livro, ao invés de estar buscando educação, buscando conhecimento, buscando algo que realmente dê lucro à minha atenção, ao meu tempo. Então, nós entendemos exatamente isso também, que é importante nós colocarmos cada coisa no seu lugar, realizarmos principalmente aquilo que não é visível aos olhos, como, por exemplo, o tempo, a atenção, nossa saúde mental, coisas importantíssimas que só são valorizadas quando fazem falta. O tempo só é lembrado quando não há mais tempo, quando você está numa cama. A saúde só é lembrada quando você não consegue sentir mais sabor no alimento. E aí que você se recorda o quão bom era ter tempo, ter saúde, ter isso e ter aquilo. Por isso, é necessário valorizarmos o aqui e o agora, como aprendemos em Sêneca e como também estamos vendo mais uma vez em Epicteto, valorizarmos aquilo que realmente vale, a talaxia, a valoração de coisas que são como são. E agora, eu passo a palavra para a Ana Cláudia. Ana Cláudia, sinta-se à vontade, por gentileza. Só ligar o seu microfonezinho no canto da tela e a gente já vai conseguir escutar.
>> Agora consegui. Boa noite. Boa noite, professor, para todo mundo. Eh, deixa eu te falar, eu sou muito fora aqui do do aquário. Acho que todo mundo aqui conhece muito bem tudo. Eu entrei, assim, eu sempre li muito na minha vida e eduquei meus filhos lendo, né? Eh, aí eu, eu tenho, tenho estado assim meio preocupada, na verdade. Falaste uma coisa certa hoje sobre filosofar. Eu acho que eu mais filo, eu eu sou isso aí, porque eu queria entender as escolas, eu queria entender como foi essa parte aí da, essas, essas chamadas das escolas helenísticas. Eu queria que tu explicasse um pouquinho para ter chegado ali no estoicismo, sabe? Porque eu, alguém que eu conheço, eu tenho amigos professores e, eh, pós-doutorados, e eles, um dia, um deles falou assim: "Eu falei que eu estava no clube da leitura." E um deles me disse: "Eu sou engenheira civil", né? Eu não tenho nada a ver com a filosofia, né? Uma coisa totalmente exatas. E eu, e é lindo isso. E aí um amigo meu, eh, um deles me disse assim: "Ah, tu escolheste o, eh, tu é a cara do estoicismo?" Porque eu sou muito razão. E eu vi entender bastante isso, porque, ah, um pouco é o histórico é muito pé no chão, ele, ele prima pela ética, né? É, tem umas coisas aí, mas eu só queria entender, eu só queria que tu, eh, deixasse um pouquinho claro sobre essas escolas helenísticas que vinham antes, que vieram, que eram antes do ensino até chegar nele, só para eu, eh, entender mais ou menos, sabe, professor? Mas a tua aula é perfeita. Tô adorando os livros. Os livros são ótimos. E vou te dizer uma coisa, aliás, é muito bom eu falar isso aqui, porque eu peguei meus filhos, eu tenho um casal de filhos e eu peguei os meus filhos para ler, para ler, porque esse mundo não tem leitura mesmo. Tu falaste a coisa certa. Eh, eu, eu agi de uma maneira certa, na hora certa com eles, porque eu, eu olhei para eles, meu filho veio primeiro e eu vi que ele gostava de mitologia. Joguei mitologia no espírito dele e comprei tudo que era sobre mitologia grega, romana. E ele adorou ler e ele lia livros. Ele é uma pessoa altamente inteligente. Ele é médico, super inteligente. A minha filha já diferente, meio romântica e tal, eu comecei a comprar romances. E hoje eu falo para as pessoas, eh, a leitura não importa se ela dá filosofia, o que importa é a leitura, para tu não ficar com aquele pensamento de gado, né? Eh, é basicamente isso. Eu falo com as pessoas mais simples sobre isso, porque elas precisam. Eu sou catequista e estou fazendo justamente isso por causa dessa catequese. Mas eu queria que tu me explicasse só assim, geral mesmo, sobre as escolas desde a helenística até chegar ao estoicismo mesmo, professor. E eu te agradeço, viu? Nota 10. Se cinco é 10, tá? Tá de parabéns.
>> Muito obrigado, querida, pelo seu elogio, pela sua fala aqui conosco. Eu vou tentar resumir bem rapidamente, só para não avançar muito do nosso horário, porque nós já avançamos e eu tenho a Conceição aqui para falar, que ela está com a mãozinha levantada. Para quem quiser, de fato, se aprofundar na filosofia, na história da filosofia, eu recomendo a nossa academia filosófica. Como eu disse, é o nosso curso de história da filosofia. E para quem quiser essa abordagem mais teórica, eu falo tudo isso por lá. Tanto que nesse livro eu não citei sobre o livro, eu citei sobre a escola em si, o movimento filosófico. Mas falando de algo que eu citei lá na primeira aula. Na primeira aula está bem destrinchada a origem do estoicismo. O período helenístico vem da palavra heleno. Heleno era a forma de tratamento como os povos que foram dominados por Alexandre, o Grande, utilizavam para se tratarem. Ou seja, Alexandre, o Grande, ali por volta de 340 a.C., ele dominou todo o mundo antigo que era conhecido naquela época. Ele dominou a Índia, ele dominou parte do Egito, dominou a própria Grécia, ele unificou a Grécia, ele conquistou vários territórios ao mesmo tempo. Então, o grego não era mais grego, ele era o heleno, ele fazia parte do império de Alexandre. Ele era o heleno, que também era o indiano, aquele que residia na Índia. O egípcio era o heleno também. É daí que surgem as escolas helenísticas, as escolas que vêm após o governo de Alexandre. Com elas, nós temos o estoicismo, nós temos o ceticismo, nós temos o cinismo e nós temos o epicurismo. Todas essas escolas eu abordo no detalhe lá na nossa academia filosófica. O estoicismo é a escola que mais foi desenvolvida porque ela mais perdurou. Ela foi para além da Grécia. Ela viajou lá para o Império Romano. Por isso que Epicteto é um pensador que ele surge 400 anos depois da história do estoicismo, ali em 320. Então, por volta de 50 depois de Cristo em Roma, surge Epicteto. E nós vemos como essa escola é tão adaptativa a adversidades, porque ela surgiu no meio das adversidades. Ela surgiu no momento que Alexandre devastou todo o território grego, não no sentido de destruir, mas no sentido de colapsar a cultura. O homem significava como parte da política. Agora nós não temos mais política, agora é Alexandre que domina. Não tem democracia, agora é a monarquia. Então, nós vemos que esse colapso levou adversidades culturais, econômicas, sociais, bélicas dentro do império alexandrino, do império macedônio. E aí as filosofias se voltaram para questionar não mais sobre o homem, não mais sobre o bem, não mais sobre a verdade, mas sobre como viveremos diante de tais adversidades e coisas difíceis assim. Mas eu só dei um resumão para quem ainda não tinha pegado essa ideia também. Na primeira aula eu expliquei melhor a tanto que nesse material de apoio tem aqui, ó, o nascimento do estoicismo. Nós temos a transformação da filosofia da cidade ao indivíduo, que eu falei agora, a questão da pólis, do da democracia, o nascimento da Stoa, que é a palavra que dá origem ao estoicismo. Então, tudo está detalhado aqui para quem quiser ver depois, quem quiser se aprofundar somente na filosofia, fica aqui a nossa academia filosófica. E agora, a última pessoa a falar será a Conceição. Conceição, sinta-se à vontade, por gentileza.
>> Boa noite. Tão me ouvindo? >> Sim. >> OK. Não, eu só queria, eh, eh, chegar àquela, aquela, aquele questionamento da, da colega que o senhor explicou muito bem porque chegamos a este estágio, né? A questão da evolução da sociedade. >> Desses temas que foram tratados aqui hoje, para o que mais me chamou atenção foi a serenidade como resultado. Eu acho que numa sociedade capitalista, onde o ter ele suplanta o ser, né? Então, a gente vive uma sociedade onde tudo se vende, eh, como o Bauman chamava, né? Modernidade líquida. Então, o homem moderno, ele, ele é instável porque a sociedade também o é. E o que mais me chamou atenção nos, nos aforismos do Epicteto, assim, assim como nas outras leituras de Marco Aurélio, que a gente fez "Meditações", é a questão de que o estoicismo ele trata de coisas que são profundamente e essencialmente humanas, né? Da nossa vida prática, da nossa própria existência e da nossa própria essência. E tem uma coisa que faz com que a serenidade hoje nessa sociedade, eh, capitalista do mercado, onde tudo é vendido, onde tudo tem preço, a serenidade é ouro. Porque como você não vai ficar doente sendo bombardeado por, por coisas tão horrendas nas redes sociais, nas mídias, né? A questão da violência. Então, você, você tem que compreender >> uma coisa que as perdas vão continuar, elas sempre existiram e vão continuar existindo. E uma é a morte, né? Que a gente tem que lidar com ela. A outra é a questão de que nós somos seres de desejo. O ser humano é um ser de desejo, né? E, e isso aí, o existencialismo de Sartre vai refletir muito bem sobre essa, sobre essa questão da liberdade e da responsabilidade. A gente se liberta, mas não quer ser responsável. Não existe liberdade sem responsabilidade. Uma outra coisa que é interessante a gente refletir, e aí eu, eu concordo, eh, com as colegas. Eu sou professora de, de ensino fundamental do quinto ao nono ano e trabalho com filosofia, né, em escola municipal, escola pública. E o que eu percebo é que cada professor, ele trabalha numa linha da, e, e uma das coisas que faz com que a filosofia, ela, não no currículo, ela, ela não é vista como uma, como uma disciplina importante, como componente curricular curricular importante. E aí os professores ainda ficam ensinando filosofia. Filosofia não se ensina. A gente desperta o pensamento crítico do aluno, a gente faz com que o aluno veja a filosofia como prática. Eu, eu sempre partia, eu sempre parto nas minhas aulas de questionamentos. Hoje nós vamos conversar, eh, eu sempre uso um clássico e um moderno. E aí eu dizia para eles: "Hoje a gente vai conversar sobre um cara chamado Platão." Eles riam. Vindo do sexto ano: "Professora, a senhora é íntima deles?" Claro, o filósofo tem que estar próximo da gente. Então, é isso, filosofia. A criança, ela já tem uma essência filosófica, porque a criança é pergunta. Então, você pode usar a literatura, a música, a arte como um todo para você despertar esse pensamento filosófico na criança. Mas o professor, para isso, ele tem que ter essa serenidade de levar isso para sala de aula, tem que ter sensibilidade para levar isso. Então, eu concordo plenamente com o colega, a gente tem que despertar isso também na família da gente. Tenho meus sobrinhos e eu procuro sempre passar isso para eles. Quanto à filosofia é importante. O engenheiro acha que ele não deve saber filosofia. A maioria dos filósofos eram matemáticos, >> né? Muitos deles eram matemáticos. Então, então a gente tem que fazer isso. Mas eu acho, eu acho assim, que a serenidade, ela tem que ser, ela é ouro e ela é muito importante pra gente conviver numa sociedade que não valoriza o humano, que não valoriza a essência humana, que não valoriza os valores. Também achei muito importante a parte que que ele trata sobre a formação do caráter. E é, é o Epicteto, assim como Sêneca e o próprio Marco Aurélio, eles são, eles são assim, pensadores que eles falam pra gente hoje, sabe? Mais obras tão antigas do ponto de vista cronológico, mas elas são tão contemporâneas. E eu tô levando essas minhas conversas aqui no, no clube de leitura, a minha leitura com o grupo de amigos, que eu sou professora, então a gente sempre está junto e eu tô levando isso. Tem colega que já está interessada, a Conceição, e no próximo ano eu vou me inscrever, eu quero fazer parte desse clube de leitura. Então, eu acho que aqui nós poderemos ser disseminadores dessa semente que é o clube de leitura, que é discutir os clássicos. E como dizia Dostoievski: "Vamos ler os clássicos enquanto eles dormem." Eu acho que os clássicos, eles são extremamente importantes pra gente compreender a sociedade e a nossa própria essência e existência humana. Obrigado.
>> Muito obrigado, Conceição, pela sua fala por aqui. E eu achei muito interessante o trecho que você citou sobre a atenção, né? Sobre a questão da pessoa ter esse, esse apego a alguma coisa na vida além da matéria, além do ter, como você propriamente havia dito. E existem pesquisas que dizem que o principal ativo, a principal coisa que vai ter valor nas próximas décadas é a atenção. A pessoa sentar e ler por uma hora vai ser raro. A pessoa sentar e estudar por uma hora vai ser raro. A pessoa conversar com você, pegar no celular vai ser raro. Coisas assim serão raras, porque a nossa atenção é disputada por cada post, por cada perfil no Instagram, por cada vídeo no YouTube, por cada fala de famoso, por cada coisa que vai surgindo nessa velocidade da sociedade líquida, como a própria Conceição citou. Então, a atenção vai ser um recurso valiosíssimo, sem sombra de dúvidas.
E pessoal, eu encerro por aqui o nosso conteúdo de hoje. Eu só queria deixar um último recado. Esse livro aqui, ele só teve três aulas, porque agora no dia 29, nós teremos, pelo fato do livro ser curto também, por isso ele teve três aulas. Mas no dia 29, na próxima quarta, às 19 horas, nós teremos uma aula que será uma aula magna, uma aula sobre a Ilíada de Homero. Aquela história que se passa lá no filme Tróia, aquele filme de 2004 que o Brad Pitt é o Aquiles, lembra? Aquela história nós falaremos em uma aula. A Ilíada é a obra mais antiga do nosso ocidente. É o clássico ocidental mais antigo de todos. A Ilíada tem datação de mais ou menos 2900 anos de idade. Resumindo, 900 anos antes de Cristo. Olha que interessante isso. Uma história muito elaborada de maneira poética. E eu falarei sobre o ímpeto de Aquiles, falarei sobre a honra de Heitor e sobre o amor de Príamo. Nós falaremos sobre esses três personagens e essas três coisas filosóficas: ímpeto, honra e amor, através de obras de arte. Eu vou pegar três pinturas representando cada personagem e eu falarei do contexto da época do próprio pintor, falarei das técnicas, das técnicas que foram utilizadas e principalmente da mensagem que está sendo passada por ali. Essa aula, ela será através de um grupo. Eu vou deixar aqui no chat de mensagens o link do grupo para quem ainda não entrou. E por que precisa entrar num grupo separado, professor? Porque a aula vai ser aberta. Ela será aberta para pessoas de fora também. Então, se vocês quiserem convidar amigos, colegas para assistirem esse conteúdo, serão muito bem-vindos. E é só entrar no grupo, ficar por lá, que tudo será avisado. A aula será semana que vem, ficará gravada também, e depois dela nós abriremos vagas para o nosso Clube de Calhamaços, que é exatamente o que eu citei aqui, aquele curso que lê livros maiores. Nós estamos encerrando agora Crime e Castigo de Dostoiévski. Nós ficamos três meses em média por livro, e agora começaremos a Ilíada de Homero, por isso que a aula será sobre a Ilíada. Depois leremos a Divina Comédia de Dante Alighieri, leremos também A Peste de Albert Camus. Ano que vem continuaremos com outras obras. Então, é uma ótima oportunidade para quem quiser ter esse acompanhamento em leituras maiores também, além do que nós fazemos por aqui. Então, quem quiser saber mais, entre no grupo, participe da aula que tudo será dito por lá.
Muito obrigado, pessoal, pela presença de vocês. Hoje passamos um pouquinho do horário, quase 30 minutos a mais, né? Só que ainda assim, valeu muito a pena. Esse livro merece, essa obra merece, e Epicteto, ele é atemporal. Que a partir de hoje vocês anotem uma frase só e deixem essa frase guardada na tábua do coração de vocês. Deixem ali na cômoda do quarto, deixem na geladeira, é um lugar que você tenha constante contato, constante evidência, que é a seguinte: "A vida não é sobre o que acontece, mas é sobre o que eu faço a partir do que acontece. Não é sobre a força das ondas, mas sobre a qualidade do meu barco. Não é sobre a força dos ventos, mas para que lado eu viro as minhas velas?" Essas frases são apenas para trazer uma conotação de que a sua vida depende de você. Ela não está 100% no seu controle, mas você controlará aquilo que depende de você e a partir disso alcançará o que nós falamos por aqui, uma liberdade interior. Não depender do mundo, não depender dos outros, não depender das condições, mas depender de si. Esse foi o nosso grandioso Epicteto, e essa é a arte de ser imperturbável. Não é porque você não vai sofrer, não é porque você não vai chorar, é porque diante de cada revés, você sabe que você tem a capacidade de levantar, sacudir a poeira e continuar andando, porque isso depende de você. Então, muito obrigado, tenha uma ótima noite, uma excelente semana e até nossa aula sobre a Ilíada, nossa aula magna na semana que vem, dia 29. Muito obrigado, pessoal.