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Distimia - A doença do mau humor | Psiquiatra Fernando Fernandes

Psiquiatra Fernando Fernandes14:00

Transcription

Olá, seja bem-vindo para mais essa live, o nosso encontro semanal todas as quintas-feiras, 21 horas, para conversar sobre saúde emocional, bem-estar, comportamento e autoaperfeiçoamento.

O tema da live de hoje, distimia, também conhecida como a doença do mau humor. Existe muito mito a respeito desse transtorno e é o que a gente vai conversar na live de hoje. Então, fica comigo.

Meu nome é Fernando Fernandes, sou médico, psiquiatra e palestrante. Então, sem mais delongas, vamos lá conhecer um pouco desse transtorno aqui. Existe muito mito a respeito desse transtorno. Vamos desfazer esses mitos.

A distimia, ela acaba aparecendo em alguns personagens muito queridos. Quem tiver um pouco mais de idade aqui vai se lembrar, por exemplo, desse que talvez seja o meu personagem mais querido da vida toda, que é o Charlie Brown do desenho do Snoopy. Na verdade, o Charlie Brown ele é pai, pai do Snoopy ou dono do Snoop, pai, como se diz hoje em dia, né? Ele é dono do Snoop e ele é um garoto bastante bastante inseguro, né? Ele sempre quer chegar perto da garotinha ruiva, conquistar a garotinha ruiva. Esse é um dilema que atravessa o desenho, mas ele é sempre inseguro, medroso, meio cabisbaixo, mas ele mantém lá no fundo uma determinada esperança, o que torna um personagem adorável, né, bastante querido.

Um outro personagem que é comumente associado à distimia é a hiena do desenho que falava: "Ó céus, ó dia, ó azar". Essa aqui já era mais pessimista e na própria feição, o desenhista coloca umas olheiras nessa hiena para denotar essa personalidade dela ou como a gente vai ver hoje, né, não é uma característica de personalidade. Muito possivelmente tanto Charlie Brown quanto a Hiena carregam a distimia, né, que hoje é um transtorno do grupo dos transtornos depressivos. Aliás, eu sei que denuncia a idade, mas se você gosta também do Charlie Brown e da Hiena, deixa um comentário aqui que eu vou gostar bastante de estar junto com vocês aqui.

Muito bem, como eu falei para vocês, os grandes transtornos psiquiátricos, eles são descritos desde a Grécia antiga e não é diferente para depressão, que na época era chamada de melancolia, e para distimia, por incrível que pareça, havia descrição da distimia. Como é que era naquela época, né? Como é que era essa descrição da fisiopatologia? Ou seja, da disfunção orgânica que estava por trás dos transtornos. Eles diziam assim que no corpo nós temos fluidos, que eles chamavam de humores. E quando esses fluidos estavam descompensados, desequilibrados, surgiam os transtornos. E no caso da melancolia seria um excesso da chamada bile negra. Olha, antes que você me pergunte, eu sei que olhando hoje parece um tanto quanto esquisito dizer isso, né? Apresentar essa forma de fisiopatologia, explicar os transtornos dessa forma. Mas vamos lembrar de uma coisa, há milênios atrás eles já aventavam causas orgânicas para os transtornos psiquiátricos. Então isso é muito bacana.

E olha só onde eu quero chegar, eles têm uma descrição da distimia bastante interessante com relação a isso. Diz lá que havia pessoas, uma minoria de pessoas, que tinha um excesso de bile negra em um equilíbrio relativamente estável. Então o que que eles queriam dizer? Olha, tinha bile negra a mais, mas não era tanto assim a ponto de causar a melancolia. E olha só, a esses últimos se atribuíam temperamento melancólico. Eles acreditavam que isso era uma característica de temperamento. Eu já adianto para vocês que o conhecimento mudou e no final do século XX já não era mais considerado um temperamento, mas sim um transtorno do grupo dos transtornos depressivos, como a gente vai ver agora.

Olha, eu vou apresentar para vocês didaticamente como é normalmente a apresentação do transtorno depressivo para depois a gente falar da melancolia. Imagina que essa linha azul aqui seria o nosso humor normal, que a gente chama de eutimia. Muito bem. A depressão é um transtorno que tem um potencial para ser episódico e recorrente. Então acontece em episódios, por exemplo, de moderada intensidade, de mais grave intensidade, pode haver episódios que são mais duradouros. Então, o que eu tô colocando em vermelho aqui seriam os sintomas depressivos, né? E quanto mais intensos, mais para cima eles estariam nesse gráfico. Então, ah, os episódios podem ser leves a moderados, podem ser mais graves, podem ser mais duradouros. Então, normalmente é assim que acontece a depressão.

Mas há casos em que os sintomas são aparecem de uma maneira diferente, aparecem de uma maneira mais duradoura. Então, eu tô apresentando para vocês agora a descrição que havia da distimia no final do século XX, que é essa aqui, ó. Humor deprimido na maior parte do dia, na maioria dos dias, por pelo menos 2 anos. E aí, quais características eram descritas da distimia? Duas ou mais das seguintes características, além do humor deprimido, né? Apetite é diminuído ou aumentado. Então, a pessoa não come porque não tem fome ou come demais ao longo do dia. Normalmente é uma predileção por carboidratos. Insônia, que é conseguir dormir, ou hipersonia, que é dormir demais e ainda ter sonolência durante o dia. Baixa energia ou fadiga, baixa autoestima, dificuldade de concentração, dificuldade de tomar decisões e sentimentos de desesperança. E olha só, uma última coisa que constava na descrição da distimia, que era assim: "Olha, jamais esteve sem esses sintomas por mais de 2 meses."

A depressão, que normalmente costuma acontecer em episódios depressivos, que tem uma duração geralmente limitada, pode ser um pouco maior, um pouco menor a duração, um pouco menor, um pouco maior a intensidade. Na descrição da distimia é algo um pouco diferente, que nesse gráfico apareceria dessa forma aqui. Olha, sintomas mais depressivos, mais leves, porém mais duradouros e constantes. Essa era a descrição da distimia até o final do século XX.

Agora vamos lá. Essa era a descrição que estava nos livros. Será que isso corresponde à realidade? Ao que a gente observa na apresentação clínica, a forma com que está descrita e classificada não muda a realidade, né? É lógico que ela nos ajuda a compreender a realidade. Qual é a realidade? Existe essa apresentação com sintomas leves e crônicos? Existe. Mas também existe o quê? A pessoa apresenta os sintomas leves e em alguns momentos apresenta o que a gente chama de agudizações, que acaba apresentando um episódio depressivo de fato. Ou seja, na prática, os pacientes que têm o que se chamava de distimia, que é aqueles sintomas depressivos leves e prolongados, eles acabam tendo episódios depressivos também. E pior ainda, muitas vezes os sintomas se apresentam dessa forma. Eles se apresentam crônicos por mais de 2 anos e bastante intensos. Infelizmente isso é algo que acontece. E aqui misturou as duas coisas, porque além de ser persistente, além de ser crônico, é muito intenso. Então, na verdade as coisas acontecem muito misturadas, como vocês viram, ok?

Falei da distimia no final do século XX, como ela é entendida hoje. Então, qual é o conceito atual de distimia? Muito bem. Existe mesmo alguma diferença marcante entre a distimia tal qual eu descrevi para vocês e a depressão, que justifica e classificar em duas coisas diferentes? Vamos ver quanto aos sintomas. Olha, os sintomas da distimia são muito semelhantes aos sintomas da depressão, do episódio depressivo numa depressão maior. Então, os sintomas são de mesma natureza.

E quanto à fisiopatologia, ou seja, as alterações físicas que acontecem junto com a depressão, será que são as mesmas que acontecem junto com a distimia? E olha, tendem a ser exatamente as mesmas. Então, por exemplo, alterações no sono, né? Se a gente faz um eletroencefalograma numa pessoa que tem distimia, numa pessoa que tem depressão, as alterações, por exemplo, que a gente observa no sono, na latência do sono REM, elas são bastante semelhantes. As alterações endócrinas, principalmente, principalmente no eixo hipotálamo, hipófise adrenal, acabam sendo mais ou menos semelhantes se não forem iguais. Alterações inflamatórias acontecem do mesmo jeito na distimia, quanto na depressão episódica.

Uma distimia, uma depressão com sintomas leves e persistentes e uma depressão episódica, será que são tão diferentes quanto aos prejuízos? Alguém pode pensar que numa depressão episódica que os sintomas são mais graves, os prejuízos são maiores? Pois é, mas quando a depressão episódica mais grave, normalmente o episódio é menor. A pessoa convive menos tempo com sintomas mais graves. E olha só, a distimia tem sintomas depressivos leves e prolongados que vão causando prejuízo de forma persistente na pessoa por anos a fio. Então, olha só, uma depressão leve e prolongada, as pessoas acabam tendo, em média menor escolaridade, menor renda, são mais solteiras, então menor desempenho nos estudos, menor desempenho no trabalho, menor desempenho nos relacionamentos. Então, quando os sintomas são leves e prolongados, esses prejuízos são tão grandes ou maiores do que na depressão episódica.

E quanto ao tratamento é muito diferente? Uma coisa e outra, transtorno depressivo maior e a distimia não. O tratamento é muito semelhante, salvo pelo tempo de tratamento, que normalmente na distimia tem que ser um tempo maior de tratamento, as estratégias de tratamento são muito semelhantes. Olha, para conhecer bem as diferenças de tratamento entre um e outro, precisa ser ser muito especializado no tema. Então não tem diferença muito quanto aos sintomas, quanto a fisiopatologia, né, as alterações físicas, quanto aos prejuízos que causam na pessoa e quanto ao tratamento. Ou seja, transtorno depressivo maior e distimia são muito mais parecidos do que se julgava antes.

Então, como que é o conceito atual que eu vou mostrar para vocês aqui, ó? O transtorno depressivo persistente substitui o termo da distimia. E olha, eh, nas classificações atuais é muito interessante porque eles colocam até o termo de distimia entre parênteses. Por quê? Porque é um termo muito conhecido. A depressão dura mais que 2 anos. Ela pode acontecer só com sintomas leves ao longo de 2 anos. Aí a gente tá diante de uma distimia pura. Sabe o que pode acontecer? Sintomas graves ao longo de 2 anos. Aí a gente tem um episódio maior persistente. E pode acontecer o seguinte: a pessoa apresenta sintomas leves e com aqueles episódios intermitentes ao longo do tempo. Aí a gente está diante de um transtorno depressivo persistente com episódio maior intermitente. Na verdade, hoje em dia, a gente considera muito mais a distimia como uma depressão crônica do que como um outro transtorno separado.

Existe muito, como eu falei, existe muito mito a respeito disso. Eu vou até compartilhar com vocês uma experiência que eu tive quando eu dei entrevista para uma grande rádio de São Paulo e eu lembro que no intervalo, no intervalo a jornalista sempre combina mais ou menos com a gente, né, a pauta. E ela falou assim: "Fernanda, se eu entendi bem, então a distimia, ela tem sintomas depressivos leves, portanto ela é de mais fácil tratamento, portanto exige doses menores do remédio." Eu falei: "Meu Deus, você entendeu tudo errado". Porque você falou três coisas erradas numa mesma frase, né? Por quê? Porque na distimia a gente acabou de ver, pode ter sintomas leves, pode ter sintomas leves com sintomas mais graves acontecendo no meio ou podem ser persistentemente mais graves. O conceito atual é esse. O que vai definir a distimia hoje ou o transtorno depressivo persistente é a duração de 2 anos. Aí ela falou assim: "Ah, é uma doença mais leve". Opa, como assim? Eu acabei de falar para vocês, os sintomas eles podem ser leves, mas os prejuízos vão se acumulando na vida da pessoa. Então não dá para dizer que é uma doença menos grave. E quanto é o tratamento? Muitas vezes, gente, no transtorno depressivo persistente ou distimia, o tratamento é mais difícil. Por quê? Porque os sintomas são mais crônicos. E muitas vezes é mais difícil tratar os sintomas crônicos do que os sintomas graves. Então, olha, o conceito atual de distimia é esse, é depressão crônica. E ela pode ser tão grave quanto uma depressão episódica.

Queria saber de você. Você tinha esse conceito em mente? Será que esse conceito que eu trouxe para você agora desfez um pouco o que você imaginava? Deixa um comentário aqui embaixo pra gente seguir com a discussão. Ficou alguma dúvida a respeito? Deixa um comentário aqui que eu sempre leio todos os comentários e na medida do possível também respondo todos os comentários.

E olha, muito obrigado para você que chegou até aqui. Se você gosta dos temas que a gente aborda aqui no canal, saúde emocional, bem-estar, comportamento e autoaperfeiçoamento, considere se inscrever e aproveita, ó, é facinho, clica no botão aqui embaixo e aproveita, clica no sino depois que você é avisado de novos vídeos. Meu nome é Fernando Fernandes, sou médico psiquiatra e palestrante. Para me seguir em todas as redes é sempre psiquiatra Fernando Fernandes. Se não quiser perder nenhum conteúdo, se quiser ser avisado de novos conteúdos, não perder nada mesmo, grupo do WhatsApp e canal do Telegram na descrição. Novamente agradeço demais a todos vocês. Se quiser continuar me assistindo, eu deixo esses vídeos aqui para vocês. Muito obrigado, fiquem com Deus e até um próximo vídeo.