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O PECADO ORIGINAL NÃO EXISTE: O MITO DE ADÃO E EVA

Dose de Filosofia7:04

Transcription

Sabe aquela ideia do pecado original? Aquela que é uma das explicações mais famosas e antigas pro sofrimento humano? Pois é, é uma doutrina [música] que moldou séculos e séculos de pensamento. Mas a pergunta é: será que ela se sustenta de verdade quando a gente olha de perto? É isso que a gente vai investigar agora.

Essa pergunta no fundo, é o famoso problema do mal. É um daqueles quebra-cabeça, sabe? tanto da filosofia quanto da teologia que simplesmente não some. Muitas mentes brilhantes já quebraram a cabeça com isso [música] e olha, a maioria não chegou numa resposta que convencesse todo mundo. Então, existe um nome técnico para essas tentativas de justificar Deus, de explicar o mal. Se chama Teodisseia. E hoje a gente vai mergulhar em uma teodiceia bem ambiciosa e mais importante na crítica demolidora que foi feita [música] contra ela.

Bom, o nosso roteiro para destrinchar esse argumento é o seguinte: primeiro a gente olha pra solução que foi proposta. Depois a gente começa a ver as primeiras rachaduras nela. Em seguida, o ponto central da crítica, que é a injustiça do pecado original. Aí a gente vê o legado dessa falha e por fim as armas que essa história toda nos dá contra a própria Teodisseia. Vamos lá.

Tudo começa com a filósofa Eleonor [música] Stump. E o interessante dela é que ela não quis só ficar na defensiva, sabe, tentando explicar o problema do mal, não. Ela foi pro ataque. A ideia dela era construir [música] uma explicação positiva, bem forte, usando as próprias doutrinas cristãs para mostrar como um Deus de amor poderia sim permitir o sofrimento. E essa diferença de [música] abordagem é tudo, porque uma coisa é a defesa minimalista, que basicamente diz: "Olha, não dá para provar que Deus tá errado". Mas a Stamp foi muito além disso. Ela quis provar que Deus poderia estar certo. Como tá aqui, ela foi para uma teoriceia positiva. Ela partiu para cima do problema, não ficou [música] só se defendendo.

E no coração do argumento da Stamp tem uma ideia moral muito forte. Basicamente é o seguinte: qualquer sofrimento que não seja merecido, só é justo se no fim das contas ele [música] trouxer um bem maior pra própria pessoa que sofreu. Essa regra que o crítico dela, Evan Fails, chama de princípio P, joga a barra lá para cima, torna o trabalho dela [música] bem mais difícil, mas por outro lado deixa o argumento com a base ética mais firme. Ok?

E agora a gente vai para primeiro ponto, onde o argumento [música] dela começa a fazer água e tem a ver com a ideia de punição eterna, o inferno. É aqui que a coisa começa a ficar bem complicada para essa teodisseia. O crítico [música] Evan Fales aponta uma baita inconsistência aqui. Pensa só, se o sofrimento na Terra serve como uma ferramenta, um remédio para curar a alma e levar a redenção, porque a forma mais extrema desse sofrimento [música] inferno não daria a mesma chance? Por que é justo a dose mais forte do remédio não teria efeito [música] curativo? É uma pergunta que deixa o argumento numa cuca de bico.

>> E agora a gente chega no coração da teudizeia da Estamp. É o pilar que sustenta tudo e ironicamente é também a sua falha fatal. Tudo gira em torno de como ela [música] interpreta a história da queda do homem e o pecado original. A narrativa, segundo Stamp, é mais ou menos assim. Os primeiros humanos fizeram uma escolha [música] que acabou com a própria natureza deles. Mas aí vem a pergunta de 1 milhão de dólares. É justo permitir que essa falha seja hereditária? E é exatamente [música] aqui que a refutação inteira se apoia. é o ponto onde a ideia de justiça entra com os dois pés na porta e questiona a base de tudo.

Para entender isso, o Fales usa a ideia de justiça [música] corporativa. Pensa assim, pra gente culpar um grupo inteiro pela ação de uma pessoa só, pelo menos uma dessas condições aqui precisa valer. Por exemplo, [música] a pessoa agiu em nome do grupo ou a participação no grupo era voluntária. São critérios [música] básicos para que uma culpa coletiva seja considerada justa. E aí que tá o pulo do gato. Quando a gente olha pro pecado original, nenhuma dessas condições se aplica. A humanidade não votou em Adão [música] para ser nosso representante. A gente não escolheu nascer. E obviamente um bebê que acaba de nascer é inocente. Ou seja, a ideia de herdar essa culpa não passa em nenhum critério básico de justiça.

O ponto do fales, como ele mesmo diz aqui, é que a coisa toda [música] parece moralmente grotesca. A ideia de que Deus permitiria um mundo onde todo mundo já nasce com uma vontade defeituosa por algo que não [música] fez do ponto de vista da justiça, isso é simplesmente indefensável, fere nossa noção mais fundamental do que é certo. E a analogia que ele usa para explicar isso é genial. Pensa numa montadora que, por negligência, [música] lança um carro com defeito grave. Aí os acidentes começam a acontecer. A empresa pode até oferecer um recall [música] depois, mas isso não apaga a culpa dela por ter colocado um produto perigoso na [música] rua. A responsabilidade inicial continua lá. E segundo Fales, com Deus seria a mesma coisa. Oferecer a salvação depois não apaga a responsabilidade de ter permitido esse defeito inicial.

E se essa premissa já é ruim, espere só para ver aonde ela leva. Porque quando a gente tenta aplicar essa lógica aos casos mais difíceis da vida real, as conclusões ficam ainda mais [música] bizarras. Vou pegar o caso mais difícil de todos, o sofrimento e a morte de bebês. É algo que dói só de pensar. A tentativa da Estamp de explicar isso é dizer que para aquelas almas em específico, sofrer e morrer ceto era o único jeito, o caminho mais seguro pra salvação. Só que o Fares pega esse argumento e mostra o quão absurdo ele é. Porque se isso for verdade, então a gente teria que concluir uma coisa muito estranha. Em lugares com alta mortalidade infantil, teria que ter uma concentração muito maior de almas que precisam desse caminho trágico para se salvar. Isso basicamente amarra o estado espiritual de um bebê as condições médicas [música] e sociais do lugar onde ele nasce. é uma conclusão que não faz o menor sentido.

E com isso tudo a gente chega na conclusão. [música] E é uma conclusão irônica, mas muito poderosa, que vira completamente o jogo. A grande ironia é essa. As próprias ferramentas que a Stamp usou para tentar resolver o problema do mal acabam piorando o problema. Doutrinas como o pecado original e o inferno, em vez de serem [música] a solução, viram parte do problema. Elas criam novas injustiças que também precisam ser explicadas. [música] A tentativa de tapar um buraco acaba abrindo um buraco ainda maior. É como Fales [música] conclui, essas ideias, o pecado original, a danação eterna, elas não são tijolos para construir uma defesa [música] de Deus. Pelo contrário, elas são armas potentíssimas contra essa defesa. Em vez de ajudar, elas dão munição pro crítico.

E isso tudo deixa a gente com uma questão final para pensar. Se a solução que a gente proponha [música] acaba virando um problema ainda maior do que a pergunta original, para onde a gente olha para encontrar uma resposta? [música] Talvez a busca por certas explicações teológicas às vezes, em vez de trazer luz, só deixa [música] o mistério do sofrimento ainda mais escuro. E isso diz muito sobre o tipo de resposta que a gente procura, não acha?