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O Estoicismo e a Guerra Contra Si Mesmo - Prof. Dr. Dennys Xavier

Excepcionais Podcast - Marcelo Toledo1:42:51

Transcription

O fato de o estoicismo hoje fazer tanto sucesso não é exatamente um bom sinal. Eu preciso ver melhor. Eu tô em crise, eu não sei muito bem quem eu sou. Então começam a surgir correntes filosóficas de uma crise e surge o estoicismo.

Professor Denis Xavier é bestseller e PhD em filosofia pela Universidade de Macerá. Fundador da sociedade da Lanterna. Ele tem se dedicado a levar a filosofia para um público amplo e diverso. Quando tem alguém que me procura fala assim: "Dênis, eu quero estudar filosofia, mas eu não sei nada de filosofia. Você já sabe muita coisa. Você sabe que você não sabe." Sua trajetória une disciplina, reflexão e um compromisso inabalável com o conhecimento.

A filosofia é o melhor que nós podemos fazer na vida. Como é que alguém, Marcelo, passa a vida inteira sem se perguntar o que tá fazendo aqui? O que é realmente felicidade? O que é realmente riqueza, o que é realmente propósito? Mesmo que você não consiga dar uma resposta absoluta, mas que você esteja sempre refletindo a respeito disso, porque, cara, se tem uma coisa certa é que a gente nasceu ali, daqui a pouco a gente não é mais.

A sociedade está doente, perdida, em conflito, não apenas entre grupos opostos, mas dentro de cada indivíduo. Vivemos tempos de caos, ansiedade e desorientação, porque a nossa sociedade é toda construída na irracionalidade. Vocês querem explicar a nossa classe política? A nossa classe política é o exato retrato do que nós somos. O brasileiro médio, ele não tem a menor condição de fazer demandas que sejam de natureza minimamente qualitativa, porque ele nem sabe por onde começar.

E é nesse cenário que a filosofia histórica ressurge como um caminho, um contraponto à confusão, uma forma de encontrar clareza e força interior. Bom ou ruim para um estoico é aquilo sobre o que eu posso agir. A doença surge no momento em que você começa a querer controlar o incontrolável. O que você tá dizendo é não permitir que o mundo exterior tenha a capacidade de influenciar o seu interior. Exatamente. O remédio está dentro, nunca está fora.

Neste episódio, vamos quebrar esse paradigma e mostrar como o estoicismo pode transformar a forma como enxergamos o mundo e a nós mesmos. A sociedade tá completamente doente. Como que a filosofia histórica pode ajudar a gente a sair dessa? Onde a gente se perdeu, cara?

[Música]

Denão, a sociedade tá completamente doente. Como que a filosofia histórica pode ajudar a gente a sair dessa? Uma coisa importante da filosofia histórica é entender que ela foi concebida, ela foi pensada, ela foi imaginada a partir de uma situação histórica muito precisa, qual seja o período helenístico da filosofia. Período helenístico é aquele que surge com a morte de Alexandre Grande. Hum. Alexandre o Grande foi um homem que de fato mudou a história. Mudou a história do pensamento, mudou a história do modo como as nações se entendiam. E esse impacto na Grécia especificamente foi absolutamente extraordinário. Que que eu tô querendo dizer com isso? Os gregos se viam eh dentro das suas cidades, a famosa polis, né, dentro de um modelo completamente autônomo do ponto de vista político, do ponto de vista ah das suas concepções culturais, das suas concepções filosóficas. Então, o grego, de modo geral, tinha muito orgulho da sua agrecidade, né? O homem helênico, o homem da Elade, o homem da Grécia, ele tinha muito orgulho da sua posição em relação às outras nações, em relação às outras cidades, à outras culturas. Era a nação da filosofia, era a nação da supremacia militar, da supremacia pelo mar, pela terra.

E Alexandre Grande, na medida em que ele vai expandindo o seu território, que ele vai para aquela expansão para o Oriente, ele causa uma confusão na mente do homem grego, que é que era esse sujeito protagonista da minha história, que me via dentro da minha cidade, dentro da minha pólis, agora sou parte de um mundo sem fronteiras. Agora, eu sou parte de um cosmos no qual eu não me identifico mais. E a morte de Alexandre Grande, portanto, e a sua expansão territorial causa essa crise. O homem grego, ele de repente se olha e não se entende mais. Ele não sabe o seu lugar no mundo. Eu costumo dizer que você troca um sistema de pólis-mundo, ou seja, a cidade agora é o cosmos. Alexandre tinha essa preocupação de romper as fronteiras da seguinte maneira. Ele organizava casamentos coletivos dos seus soldados com ah mulheres do Oriente. Ele queria essa miscigenação cultural. E o problema da salada de frutas é que não tem gosto de fruta nenhuma. Então os caras, bom, quem nós somos? Os próprios soldados gregos. Quando você lê ali pelos documentos de Plutarco, que escreveu Vidas Paralelas sobre Alexandre, ele fala que os soldados gregos, os gregos, de modo geral, num determinado momento, tinha uma certa resistência com relação a Alexandre, porque ele parecia ter perdido a sua agrecidade, muito influenciado pelo Oriente. Então, isso instaura uma crise.

Essa filosofia helenística começa então com um problema diverso daquela filosofia clássica, Sócrates, Platão, Aristóteles. E que questão é essa? Que problema é esse? Eu preciso viver melhor. Eu preciso viver melhor. Eu tô em crise. Eu não sei muito bem quem eu sou. Eu perdi meu protagonismo na vida política, eu não tô me situando muito bem. Então, começam a surgir correntes filosóficas de uma crise, uhum, de uma ruptura com um modo de ver as coisas. Daí surgem o cinismo. O cinismo é uma corrente filosófica que tem como principal representante Diógenes, o cínico, que andava com uma lanterna durante o dia procurando o homem, o verdadeiro homem. Um homem que desprezava completamente valores sociais, que questionava tudo. Surge o epicurismo, surge daí a ideia de que a vida deve ser escorada num prazer, mas no prazer não um hedonismo vulgar, o prazer como ausência de dor. Buscar a ausência de dor, afastar tudo aquilo que me causa dor, angústia, sofrimento físico e psíquico. E surge o estoicismo. O estoicismo como uma corrente filosófica que, em primeiro lugar, quer separar aquilo sobre o que eu tenho domínio daquilo sobre o que eu não tenho domínio. Acho que esse é o o que que a gente controla e o que que a gente não controla. Esse é um elemento fundamental. Esse é um elemento fundamental para você evitar formas desnecessárias de sofrimento. A vida é muito dura, a vida é pesada. E a primeira coisa que você precisa fazer ao acordar de manhã é o que está sob o meu domínio. Tomar consciência do que que a gente de fato controla e o que que a gente não controla. Exatamente. Esse é um primeiro ponto.

O segundo ponto é, existe uma longa tradição filosófica que vai dizer: "A única coisa que nos diferencia de todo o resto dos seres que vivem, que existem, é o intelecto, é a razão." Então, o estoicismo vai tomar como ferramenta de compreensão da realidade a razão, ou seja, o afastamento de todos os caprichos, de todas as emoções, de todas as inclinações que me tiram de uma compreensão racional da minha vida e do que me cerca. Uhum. Então, é uma filosofia fortemente racionalizada, inspirada em filosofias anteriores. Se você tem esse cálculo, esse binômio, boa compreensão da realidade numa perspectiva do intelecto, da razão e que coloca a emoção no seu devido lugar, subjulga a emoção. Uhum. E se você compreende aquilo sobre o que você pode agir e aquilo que escapa do seu universo de atuação, você se torna, na linguagem estoica, um homem praticamente imbatível, porque o seu mundo de atuação, ele fica muito restrito, você restringe muito o seu mundo de atuação. E aí, necessariamente, o pathos grego, que vai dar patologia à doença, as pessoas estão adoecidas, se afasta do seu horizonte progressivamente na medida em que você vai melhorando essa relação racional com o mundo. Uhum.

Agora, você deu um panorama pra gente tentar entender como que isso se desenrola até a gente chegar na filosofia histórica. Quem que desenvolve a filosofia histórica, quem eram as pessoas que participaram da construção dessa filosofia? O que que era o cenário que eles estavam vivendo de fato? Legal para eles desenvolverem esse trabalho e de fato conseguirem chegar em algo efetivo que foi construído lá atrás e que tá servindo hoje como se fosse uma luva pra gente, né? É, eu falo que o fato de o estoicismo hoje fazer tanto sucesso não é exatamente um bom sinal. É, exatamente. É que alguma coisa, a gente tá dando, acho que a gente tá dando voltas, talvez que alguma coisa não tá boa. É que na verdade o que acontece, somos sempre nós mesmos, né? Quer dizer, é, é sempre o ser humano com as suas angústias, com as suas dores, com seus problemas. Eh, mas vamos lá. O estoicismo ele surge por eh atuação de um sujeito chamado Zenão, da cidade de Ctio com C, da cidade de Sítio. Esse cara era da da ilha de Chipre. Ele era de Chipre. O pai dele era um comerciante que fazia muito a rota Chipre-Atenas. Ficava fazendo essa rota e muito cedo começou a pegar livros de filosofia em Atenas e levar para Chipre, pro filho dele. Que sensacional. E o moleque começou a se apaixonar pelas coisas da filosofia. E qual era o grande centro intelectual daquele naquele momento no mundo? Atenas. Chega um determinado momento da vida dele, ele jovem ainda assim já saindo da adolescência, com a comissão da vida adulta. Vou para Atenas para mexer com as coisas da filosofia. Quando ele chega em Atenas, foi para estudar mesmo. Ele foi para estudar. Ele foi para PR para você sabe que Aristóteles foi a mesma coisa. Aristóteles sai da Macedônia, que era a terra de Alexandre Grande. Aristóteles, inclusive, deu aulas para o Alexandre Grande. Falar a educação de Alexandre Grande foi uma educação tradicional que seu pai te entregar. Ele foi preparado para ocupar a posição dele preparado. Ele foi preparado. A grande preocupação do pai dele, Felipe, era exatamente ter um filho que entendesse a importância do que ele estava fazendo. Então era um rei com uma responsabilidade imensa, ainda que num país, numa pólis muito pequenininha, mas que tinha já uma visão expansionista extraordinária. Então foi um cara que foi estudar com Aristóteles. Ele estuda com Aristóteles. As fontes não são muito seguras, 2, 4 anos. Depois ele começa o regime expansionista maluco dele que chega na Índia, o cara tomou conta do mundo. E Aristóteles vai para Atenas para fundar uma escola de filosofia para estudar com Platão. Aristóteles estudou 20 anos na Academia de Platão. Uau! 20 anos na academia de e todo o material que nós temos é dele basicamente a respeito de Platão. A respeito de Não, o que aconteceu foi diferente. O que nós temos de Aristóteles, o que chegou até nós de Aristóteles foram livros, anotações de um professor do Liceu, da escola dele aristotélica. De Platão nós temos tudo, tá? Os diálogos de Platão, os textos de Platão, nós temos tudo. De quem nós não temos alguma coisa? Sócrates, nós não temos nada porque Sócrates não escreveu. Mas de Aristóteles, os textos que ele escreveu para serem publicados. Entendi. Foi o inverso. Aristóteles, a gente não tem os textos que ele escreveu para serem publicados, infelizmente. Uma tristeza. Mas de Platão nós temos, cara. Então, mas voltando à vaca fria, esse Zenão, ele chega em Atenas e começa a buscar fazer quem são os caras que estão fazendo filosofia pesada aqui. Ele encontra um sujeito chamado Crates, que é uma espécie de discípulo mais afastado de Sócrates. E ele começa a perceber que existia ali um modo de vida implicado na filosofia que o Crates desenvolvia muito interessante, mas que faltava embasamento teórico para essa vida, que já apontava para isso, o cuidado de si, o afastamento das paixões, cuidado com os sentimentos, cuidado com as emoções, cuidado com os apetites. Cuidado com os apetites, essas coisas vão te tirar do curso. Então, evoca a racionalidade, restringe as emoções e os sentimentos. Então, ele começa a buscar naqueles filósofos atenienses um embasamento teórico para esse modo de vida. E aí ele começa a conceber o estoicismo, que tem esse nome. Por quê? Como ele era estrangeiro, ele chega em Atenas. Estrangeiro em Atenas, meu amigo, passava mal. Porque assim, cara, isso é estrangeiro aqui, isso é praticamente ninguém. Essa coisa da terra muito importante. E como ele, o estrangeiro, ele não tinha direito de comprar imóvel na cidade, os imóveis eram pensados para os atenienses. Então ele vai ensinar e estudar filosofia no pórtico de Atenas, que era um espaço público. Até hoje tem lá os restos desse pórtico, que em grego é stoa ou stoa. Daí os caras falavam assim: "Ah, pessoal lá do da Stoa, os os estoicos, o estoicismo surge daí, era o local, era o local onde eles faziam esses estudos de filosofia. E dali ele começa a desenvolver então uma escola que pensa a questão socrática, que é o cuidado de si, a razão, o conhece-te a ti mesmo. E ao mesmo tempo a ideia de um uma fundamentação teórica mais intensa. Interessante.

O estoicismo, assim como as outras correntes helenísticas, eu citei agora há pouco o cinismo, o epicurismo, etc., são filosofias mais materialistas. Em que sentido materialistas? Filosofias desse mundo aqui, tá? Quando você pega o período clássico anterior da filosofia, existe uma grande especulação de natureza metafísica. O que que existe? Se é que existe alguma coisa para além do que eu tô vendo? Será que existe um Deus lá fora que coordena minha vida? Será que mundo das ideias de Platão, um mundo metafísico, onde as coisas são perfeitas? No período helenístico há uma ruptura com isso. Eu já não investigo mais o que está fora do meu universo de percepção. É o mundo como eu percebo. A gente perde Deus aí ou a gente perde Deus? A gente, os gregos no universo da filosofia nunca tiveram, nunca pensaram uma divindade interventora. Por exemplo, o deus platônico, o deus aristotélico, essa dimensão metafísica desses filósofos clássicos, portanto, tratavam da divindade, nunca foram divindades que tivessem um papel na vida do homem. Uhum. Como o Deus religioso hoje das religiões modernas ou que tem a sua raiz antiga, mas que nós praticamos hoje, um Deus que tá olhando para você e fala: "Vou te ajudar, não fique tranquilo que a gente vai ajudar a curar sua doença." Isso existia análise sobre eh balanço de consequência. Isso é um pouco disso assim, sim, exatamente, das dinâmicas do mundo, mas não quer dizer um Deus interventor, um Deus que fosse ah pessoal, que tivesse algum tipo de atuação direta na sua vida. Você é como uma árvore, é como um cachorro, é como você faz parte de uma dinâmica do mundo e você pode até evocar a presença de uma divindade que tenha influência nessa mecânica do mundo, mas não nas suas escolhas, em você ser abençoado com um determinado favor, um milagre ou coisa parecida. Pros gregos, isso era completamente irracional e lógico. Uhum. Um grego diria assim: "Um Deus que é perfeito, e esse é o apanágio do Deus, essa é a característica fundamental de uma divindade. A perfeição tem que ser absoluta satisfação consigo mesmo, um esgotamento em si. Aquilo que é perfeito se basta. Se aquilo que é perfeito se basta, sequer conhece o que é imperfeito. Então, os deuses na concepção filosófica antiga, tirando o mito, obviamente, esse se esse deus existe, ele nem conhece o mundo sobre o qual ele tem influência, porque esse mundo é imperfeição, é um troço que nasce e morre, a gente apodrece e tal. Então, ele pode ter um ele, a presença dele atrai sem que ele conheça aquilo que ele atrai, por assim dizer. E no estoicismo, especificamente, a ideia da divindade é completamente substituída por uma visão de providência. O que significa dizer as coisas acontecem como devem acontecer. Outro dia, numa meditação histórica que eu tava fazendo no lá no YouTube, numa reflexão histórica, eh, eu tava chamando atenção para isso, para um histórico. Vamos lá, amanhã o Denis descobre que tem um tumor na cabeça. Aí o Denis vai ficar muito triste. Por que eu? Por que isso aconteceu logo comigo? Puxa vida, eu bebo água, eu não fumo, eu não bebo, eu faço caminhada, eu faço academia, porque eu não merecia isso. Para o histórico, o mundo olharia para mim se ele tivesse uma consciência pessoal e diria assim: "Você se acha muito, né? Você se acha demais, né? Achar que eu parei aqui para falar assim: 'Vou deixar um tumor nascer na sua cabeça'. Pois é, cara. Eh, é a vida acontecendo. É a vida acontecendo e coisas boas e ruins acontecem. Só que aí eles vão dizer assim: 'Essas coisas que nós chamamos de ruins, elas não são ruins, porque elas só são inevitáveis. Elas não são boas ou ruins. Bom ou ruim para um histórico é aquilo sobre o que eu posso agir.' Aí eu falo assim: 'Então eu tomei uma decisão aqui porque sobre isso eu posso agir. Essa decisão pode ser boa ou ruim. Aquilo que me acontece num fluxo de inteligência cósmica não é bom nem ruim. É igual a morte. A morte é ruim?' Não, é inevitável. É como falar assim: 'Ter dois braços é bom ou é ruim?' Ter dois braços. Mas eles buscavam o entendimento do por que isso acontecia ou pouco importa porque já que não controlamos, pouco importa. Pouco importa. É só um dado de fato, é só um dado de realidade. Um evento da vida. É um evento da vida. Então você nasce, algumas pessoas eh outro dia, cara, eu eu fui ao hospital e ao HC da Universidade Federal de Uberlândia e lá tem um braço que é o Hospital do Câncer e me levaram para uma parte lá que é o hospital do câncer para crianças. Nossa, cara. E aí o teto ele é meio coloridinho e tal. E isso me fez pensar demais. Eu falei assim: 'Pera aí, aí, cara, pelo amor de Deus, câncer no osso, câncer no corpo inteiro de uma criança de 2, 3, 4 anos.' Aí um estoico olharia e diria assim: 'É, acontece com muita naturalidade'. É da vida. Então, claro que isso vai te entristecer, mas se você se deixa dominar por essa tristeza, significa que você não entendeu o seu universo de ação. Uhum. Isso vai te causar a doença. A doença surge no momento em que você começa a querer controlar o incontrolável. Então, todos nós vamos morrer. Todos nós um momento vamos chegar no hospital um dia e o médico vai falar assim: 'Você tem uma doença muito grave, você não passa de tanto tempo'. E isso é inevitável, não é um mal. Temer a morte é um erro de compreensão. Olha só que loucura. Se é um erro de compreensão do da sua existência. Então não existe espaço para nenhum sofrimento. Aquele lance assim de 'chora o que precisa chorar'. Não existe isso, esse espaço no ex para o histórico. Isso deriva de uma absoluta incompreensão da do que você pode ou não ser, do que você pode ou não fazer. Que interessante isso é. Então assim, o remédio está dentro. O remédio nunca está fora. O remédio está dentro. Significa dizer, eu não consigo mudar as coisas do mundo, mas eu consigo mudar o modo como eu compreendo as coisas do mundo. Eu modulo isso. E aí o mais legal, essa pergunta é muito boa, o mais legal é o seguinte: ele não diz isso porque, puxa, ser estoico é muito difícil. Ao contrário, esses filósofos, eles sempre tiveram uma preocupação muito grande em conhecer a natureza humana. Porque imagine você, Marcelo, se eu vou construir uma filosofia que não seja pro homem, mas seja pro cachorro. Eu sou apaixonado por cachorro, eu sempre uso o exemplo do cachorro. Então você tem o como é? Eu tenho o Thales de Mileto, eu tenho a Alissa Rosenbau e eu tenho, eu tenho o Dionísio, que é o gato, eu tenho Thomas Sol, que é o cachorro. Todos os meus cachorros tem nome de gente sábia. Não ia colocar Dilma Rousseff. Carl, perdoem a brincadeira. Outro dia eu tive que autografar um pra Carl. Falei: 'Coitado, segura aí um segundo que isso aqui é importante.' Não tem como você estar em alta performance se não acompanha seu corpo de perto. Treino e dieta são essenciais, mas se os seus marcadores de saúde estão desregulados, você nunca vai atingir o máximo da sua performance física e cognitiva. Por isso, exames regulares e acompanhamento médico fazem parte da minha rotina. No espaço Volpe, eles cuidam disso com precisão, otimizando energia, longevidade e bem-estar real. Vai lá em espacovolpe.com.br e diga que você veio do podcast Excepcionais para receber uma condição especial. Agora sim, bora voltar pro episódio. Mas o que que eu precisaria olhar? Qual é a natureza do cachorro? Como é que o cachorro reage? Como é que o cachorro eh vive? O que que ele come, como ele come? Eh, ele se controla em que situação, em que situação ele não se controla. E aí eu farei uma filosofia para ele, uma filosofia canina, canina. Mas como é uma filosofia pro homem, eu preciso entender qual é a natureza do homem. E aí os estoicos vão dizer assim: "A verdadeira natureza do homem é usar o máximo do potencial e dos instrumentos que ele já traz em si. O cachorro quando vê uma cadela no cio, ele não para e pensa assim: 'Amanhã, gata, porque é uma cadela'. Ele vai falar: 'Amanhã, amanhã a gente se encontra, vou te pagar um jantar.' Ele vai lá, meu amigo, pode estar no meio da avenida, pode estar no posto de gasolina, pode estar dentro da sua casa, ele vai lá porque existe um código biológico que ele não consegue segurar. Nós temos intelecto. Nós temos intelecto. Então, quando você coloca o seu intelecto para controlar as suas ações e dizer não para evitar o pathos, o desequilíbrio, a patologia, para buscar. E esse termo é chave nos estoicos, nos epicuristas, nos céticos, nos cínicos. A ataraxia, ataraxia, a imperturbabilidade, tornar-se imperturbável. Quando você evoca essa razão e controla, não é que você não vai experimentar algum grau de sofrimento, mas você vai sublimar esse sofrimento e vai saber lidar com ele de uma maneira magistral. O que você tá dizendo é não permitir que o mundo exterior tenha capacidade de influenciar o seu interior. Exatamente isso. Isso não é simples de se fazer, né? Não, não é simples. Por quê? Porque na visão histórica, o modo como nós vivemos é um modo antinatural, ao contrário do que a gente imagina. Uhum. Por que que a gente pensa se eu tenho vontade? Ontem ontem eu fui comer, tava mostrando pros meninos aqui nos bastidores. Ontem eu fui comer, cara, aqui em São Paulo, a maior parmegiana do Brasil. Aqui tem uns bons. Surreal. Qual que você foi? Surreal. O lugar é chama Ponte do Gordão. Ponte do Gordão. Esse eu não conheço, não. É um negócio assim. Tá com um dos mais famosos e de tu, vocês sabem, né? Poético. Esse é poético. Esse esse dit eu não conheço. Eu sei que tudo lá. Esse aí é fantástico. Não, o negócio assim, você o cara colocando queijo assim em cima da parmegiana. E aí o que acontece? Você come um pequeno pedaço, fala assim: 'Estou satisfeito'. Esse é o cálculo racional, eu não preciso mais. Aí vem a parte irracional. A gula o desnecessário, o capricho. Corta mais a metade, mais a metade, mais a metade. Que que vai acontecer? Como aconteceu comigo, você vai ter uma noite de merda, literalmente. Talvez. Às vezes literalmente, não só de merda. Então é é isso. Assim, eu eu podia perfeitamente a minha razão disso. Tá bom, tá satisfeito, não preciso mais. Mas eu fui avançando. Eh, é nessa hora que eu preciso segurar e falar assim: 'Caramba, eu aproveitei, eu gostei, foi saboroso, não inventei de ir para além'. Então, às vezes a gente pensa assim: 'Pô, viver estoicamente é muito difícil'. Não, viver na paixão é que é muito difícil. Viver na gula é que é muito difícil. Viver se dobrando as emoções é que é muito difícil, é saber pesar as consequências, porque todos vão ter dor, sem dúvida. Todos os exageros, né? A gente tá falando aqui de temperança ali, né? Exatamente. Exatamente. Então assim, ele vai falar, eles vão dizer, é, é você recuperar a verdadeira condição humana. A verdadeira condição humana é a condição de quem pensa. Mas você falou de um elemento que é uma decisão. Você decidiu se alimentar mais. Sim. Hoje boa parte das nossas escolhas é uma luta entre comer bem e comer mal, entre se exercitar, não se exercitar. Sim, mas isso são decisões. Sim. E quando o mundo externo tem esses eventos, como a gente falou, a doença e quando tem o vício e quando tem aquela pessoa que as pessoas falam assim: 'Pô, mas ele que me irritou, ele que me irritou. Como é que são esses elementos?' Não existe isso de 'ele me irritou'. Para dar esse exemplo, ah, alguém te irritar é alguém que que tem domínio sobre você. Então, ah, eu tô no trânsito, o cara me fecha, me xinga, tira a arma e não sei o quê. A irritação, a ira, a raiva para que ela exista, para que elas existam, elas precisam de dois termos: quem provoca e quem recebe como tal. Se eu recebo de forma diferente aquilo que seria uma ofensa, eu não me ofendo. Outro dia um, eu tenho uma sociedade de estudos de filosofia, chama-se sociedade da lanterna. E tem um cara lá que é extraordinário, ele sofreu um acidente. Centenas, tá entrando na casa dos milhares de membros assim. Você grava todas as aulas? Eu gravo, eu eu ministro todos os encontros. Au! História da filosofia a cada 15 dias e a cada 15 dias, sempre segundas à noite, leitura de livros importantes comentados. Então, a gente pega 1984, a gente pega um diálogo de Platão, a gente pega livros toda semana para mexer. É muito bom. Era uma vida intelectual muito rica. E esse cara, ele é tetraplégico. E alguém um dia, seu aluno, aluno aí um dia brincando lá, não sei quê, o sujeito falou assim: 'Ah, me chamou de aleijado e tal'. Pô, a gente precisa fazer alguma coisa, isso não se faz, não. Foi dentro da SDL, foi fora isso da SDL. E aí ele ele fala assim: 'Ah, mas eu sou eu por que que eu vou me irritar com isso?' Que sensacional. Então vê que é o modo de reagir. Então ele poderia falar: 'Porra, isso é termo que você usa, não sei o quê, é sua mãe e tal'. Então é é o significado que a gente dá pro evento, né? E eu vou entrar aqui num ponto muito sensível. Recentemente nós vimos nos casos do futebol gente sofrendo ataque racista. O Vini, Vinícius Júnior, teve Vini, teve um menino agora de um outro time aqui, acho que de São Paulo do Palmeiras. Menino, a cena é comovente, o menino chorando, chorando. O menino chorando. Pô, até quando a gente vai aguentar isso? É, eu não me lembro exatamente. Eu não acompanho muito futebol, mas a cena me comoveu no sentido de não por não pelo caso em si, me comoveu porque deu vontade de pegar o telefone para ele e falar assim: 'Você tá se deixando levar por isso? Você não acha que você pode modelar isso de forma diferente? Você é um jogador de futebol, de sucesso. Você tá num time grande de futebol. Você é um cara, você é um modelo de comportamento. Nessa hora é para você falar assim, nós temos que combater o racismo por meio de um processo educacional, mas não vai ser empurrando essa sujeira para debaixo do tapete, impedindo as pessoas de dizerem que essas pessoas vão passar a pensar de forma diferente. Nós temos que virar o problema. Vocês estão vendo isso daí? Isso daí aqui, ó. Tão vendo que vergonha um homem agir dessa maneira? Eu não me ofendo porque eu sou um homem bonito, eu sou um homem trabalhador. Eu ajudo a sustentar minha família, isso não me abala. Mas vejam aí o que tá acontecendo. Olha a diferença do que eu preciso que você silencie em todo mundo. Eu preciso que você escale em todo mundo. Porque na verdade você não deixa de ser idiota por força de lei. Você deixa de ser idiota por força educacional. Uhum. Então, no modo como você reage, aí os estoicos vão dizer o seguinte: o Epiteto, que foi um gênio do estoicismo mais tardio, ele é já no período rom ele fez parte da criação. É porque ele é muito citado, né? Não, o que acontece é o seguinte, o estoicismo ele tem três fases históricas meio distintas. Você tem o primeiro estoicismo que nasce com Zenão de Sítio. Depois você tem o médio estoicismo, que é uma espécie de derivação eh desse primeiro momento. E você tem um terceiro momento que já é o estoicismo em Roma. Hum. Já rebatendo lá no Império Romano, que aí você tem eh grandes nomes. O imperador Marco Aurélio, legal, que foi um baita de um estoico. Epiteto, que foi um escravo. Olha que legal, cara. É uma filosofia que pega de escravos a imperadores. Fantástico. Sêneca. Sêneca foi um instrutor de imperador romano. Foi exilado, um cara que sofreu horrores, um um dos homens mais ricos de Roma. É mesmo? Isso eu não sabia. Sêneca era riquíssimo e fala: 'Cuidado com esse negócio de riqueza. Cuidado com esse negócio de riqueza'. Ah, enfim, tem esse esse último período do estoicismo. E Epiteto, ele tem uma imagem, cara, que para mim é mágica, que é a seguinte. Ele fala: 'Pense em você como um navio, como um barco em alto mar'. É mais ou menos essa paráfrase. Você nunca controla a tempestade, você nunca controla o mar proceloso. O mar, cara, é o que é. Às vezes ele tá alto, às vezes ele tá baixo, às vezes ele tá calmo, ele tá agitado, tá no meio de uma tempestade. Isso você não controla. Não existe baixar uma lei, entendeu? Assim, não existe isso. Vou baixar uma lei que vai impedir o mar de ser proceloso, de ser agitado, porque seria uma delícia. Então, não tem como colocar uma camisinha no mundo para você se sentir protegido. Seja o barco que protege o seu casco. Sensacional. Eu acho essa imagem perfeita que é o barco afunda não por causa do mar, mas por não estar devidamente preparado para enfrentar o mar que ele tem que enfrentar. Então é você, cara, veja como que é uma filosofia de de autocuidado. Uhum. De dizer: 'Ah, não, pera aí. Se eu tenho um propósito, ondas vão acontecer. Uhum. No caso, mortes, doenças. Eu perco emprego, o meu projeto de vida não dá certo e tal, mas o meu propósito ele tá ali como um farol. Então o mar tá me jogando para um lado e pro outro, mas eu não tô indo para um lado e pro outro o tempo inteiro, porque na hora que eu consigo, eu já volto para o meu propósito. Eu respiro, eu deixo a onda me levar até aqui, falo, não, daqui a eu já consigo repropor o meu itinerário então ambiente é muito importante. Uhum. Frequentação de pessoas que vão te ajudar nesse processo de construção é importante, mas mais importante é o modo como você vai lidar Uhum. com as suas dores, com seus caprichos, com as suas com as suas demandas. Às vezes eu faço demandas a mim mesmo que eu falo: 'Isso que deveria me trazer felicidade tá só me trazendo desconforto, dor de cabeça e incômodo. E eu não tô feliz com isso.' Por quê? Porque a sociedade tá pedindo isso de mim, porque minha esposa tá pedindo isso de mim. Porque meus filhos, porque os meus colegas, os meus, os meus, mas eu mesmo não, não, não sou esse. Isso não faz sentido para mim. Então é uma filosofia que traz o sujeito mais para conversar com ele mesmo. Isso falta muito. Denis, a gente tá falando muito sobre os elementos que fazem a humanidade sofrer. Basicamente é disso que a gente tá falando agora. Daqui a pouco eu quero entrar nas virtudes pra gente entender o outro lado da história. Sim. Hoje a gente vê uma sociedade eh que tá se afundando cada vez mais por novidades que surgiram no nosso mundo, mas que sempre existiram, só mudaram a forma. A gente falou dos prazeres. Os prazeres eh da carne especificamente, eles são muito fortes. Hoje a gente fala muito da pornografia e as pessoas se perdem na pornografia, perdem suas famílias. Eu tenho visto isso porque eu tenho tocado nesse assunto. Perdem seus casamentos, perdem seus filhos e isso não tem fim. E isso já existia lá. A gente a gente tem muitas muita história com Calígula de como era tratado eh os prazeres da carne. Como é que o estoico trata os prazeres da carne e os vícios? É muito interessante. Eu vou, para falar dos estoicos, eu vou evocar aqui uma classificação dos prazeres por um homem que tratou muito dos prazeres, que foi o Epicuro, que foi uma espécie de filósofo que dialogava muito com estoicismo. Eles têm pontos de divergência, mas nesse ponto eles estariam plenamente de acordo. Existem aqueles prazeres que são naturais e necessários. Isso aqui é um prazer natural e necessário. Beber uma água quando você tá com sede, dormir quando você tá com sono, eh fazer amor quando ter uma relação sexual, quando isso te faz bem, quando você tá com vontade, quando você tá confortável com aquilo, coisa extraordinária. Existem os prazeres que são naturais, mas não necessários. Por exemplo, beber um vinho, beber um vinho de qualidade, vestir uma roupa de qualidade que te deixa confortável, que não fica te pegando e tudo. Ã, comer não só o arroz e o feijão, mas a parmegiana gigantesca lá que você pode começar um pedaço. Então são prazeres que ou dormir, que todos nós precisamos numa cama confortável, com edredom, com ar condicionado e tudo. Então são prazeres que são naturais, mas eles não são necessários, ou seja, não precisa ser daquela maneira para serem realizados. Existem aqueles prazeres que não são nem naturais nem necessários. Esses são os desvios, tá? O desvio é o vício no sexo, o vício na bebida, o dormir para além da conta, o não se exercitar ou o se exercitar para além da conta, a vigorexia. Então, quando você sai da boa medida, esse cálculo ele é feito pela mediania. Pela mediania. Eh, é onde Aristóteles já falava sobre isso. A mediania é o caminho da virtude, ou seja, os extremos são considerados defeitos. Uhum. Ou o defeito pela falta ou o defeito pelo excesso. Essa, esse jogar para o meio termo é exercício. É exercício. É treino. É treino. É treino. Não tem outra forma de fazer isso. Ou seja, eu vou errar. Eu vou errar. É próprio da condição humana o erro. Uhum. Né? Mas também é próprio da condição humana, o ajuste. Eu tô trabalhando em excesso. Não, eu tô vendo que eu tô trabalhando em excesso. Ninguém nem me disse isso. Eu tô percebendo. Olha, mas pera aí, você vai esperar que alguém te diga? Você eu preciso chegar em você. Você já você já sabe disso. Então você precisa ter um propósito e você precisa tomar essa decisão de trabalhar menos. Tem quanto tempo que você não fica com seu filho? Tem quanto tempo que você não sai com seu cachorro para passear? Você tá esperando o quê? Se a gente sabe que você vai morrer e pode ser agora porque não controlamos. Porque não controlamos. Então é habituação. Uhum. É habituação. Eu vejo que você é um cara do hábito. Eu eu te acompanho. Então eu vejo que você é um cara que procura ter a construção de hábitos. E você sabe muito bem disso, que na medida em que você vai se habituando, aquilo se torna para você uma segunda natureza. Uhum. Ou seja, eu já não me vejo mais fazendo aquilo de forma diferente. Me faz muito bem, eu sei que não é excessivo e tá tudo bem. O problema aí é o vício, que é uma forma de excesso. Por exemplo, se eu quero ser corajoso, eu preciso calcular a minha ação entre a temeridade, que é avançar sobre o inimigo, sabendo que é derrota certa. E a covardia, que é: 'Eu poderia vencer, mas abandonei a luta.' A coragem é mediania. Uhum. É mediania entre covardia e temeridade. Idiota e um frouxo. Exatamente. Exatamente. Seu superherói morto e ser um idiota qualquer fraco, que poderia ter ido à luta, mas não foi. E esses cálculos, como a realidade é muito complexa, eu vou experienciando. Sabe o que que os estoicos falam? que é muito bom olhar os homens que se estabeleceram bem no curso da história. Olhar pros exemplos. Legal. Referência. Isso é muito interessante. É, olha pras referências. Quem teve uma boa vida, os gregos chamam isso de homem espaios. em grego é o homem sério, o homem experimentado. O homem experimentado é aquele que você olha para ele, ele fala e diz: 'Esse cara fez boas escolhas. Ele tem família, ele construiu ali bem, ele tem a satisfação material dele, mas ele não acha que a felicidade dele esteja na satisfação material.' Então isso é muito importante dizer. Fica parecendo que é uma filosofia meio que franciscana, do tipo, a matéria não importa, vamos todo mundo ser pobre, passar fome na rua e comer o que tem e lamber a água da poça. Não, é legal ter as coisas, é legal ter um telefone de qualidade, um carro de qualidade, tudo, mas eu não posso confundir isso com a minha felicidade. Uhum. Isso com quem eu sou, porque aí o que acontece? Esse cara perde o carro, porque a vida tem dessas coisas. Perde a casa, perde o carro, fica pobre, perde isso, perde aquilo, ele se perdeu. Uhum. Então não perdi as coisas, o jogo da vida, perdi isso, perdi aquilo, perdi, mas eu continuo, eu do mesmo jeito. Agora a gente fala sobre o ambiente que eles estudaram lá, como eles estudaram, mas a prática, que é o hábito, como que isso se tratava nesse ambiente de estudos do homem histórico? Olha, não existe outra forma a não ser no duro ambiente da vida. Vivendo, vivendo. Então, é muito interessante que eh e esses homens, primeiro, eles se colocavam como alguém que tá refletindo, mas nunca como mestres ou professores que estivessem repassando uma teoria sobre a qual eles mesmos não fossem exemplos. Uhum. Então isso é muito legal porque quando você pega Diógenes cínico, Diógenes o cão, que é o Diógenes de Sinope, esse cara ele era a encarnação dos valores que ele defendia. É mesmo a reencarnação. Tanto que ele até hoje é retratado, vivendo dentro de barril. Ah, ele andando pela rua tem uma uma passagem maravilhosa de um cara chamado Diógenes, mas é outro Diógenes, Diógenes Laércio, que é um historiador da filosofia falando sobre Diógenes o cínico, desse movimento do cinismo, que esse cara era muito admirado por Alexandre Grande e que um dia Alexandre Grande, o maior, o cara mais poderoso do mundo naquele momento, chega até ele, a Diógenes o cínico. E essa passagem é famosa, a gente não sabe se aconteceu de fato, mas ela é muito inspiradora. Assim, e você que é o Diogo, nes eu sou um admirador da sua filosofia, eu sou um admirador da sua vida. O que que eu posso fazer por você? Ele teria dito: "Você pode sair do meu sol, eu tô tomando sol aqui. Você tá atrapalhando aqui projetando essa sombra com esse tanto de soldado aí atrás de você. Que maravilhos! Isso é maravilhoso. Você imagina o cara mais poderoso do mundo chegar assim: 'Marcelo, o que eu posso fazer por você?' A gente pensaria em mil coisas, [ __ ] mil coisas assim, patrocínios, construir não sei o quê, vamos fazer um projeto juntos e tal assim, não, a o que eu mais quero é que você saia da frente do meu porque você não tem nada que possa me oferecer que seja decisivo em relação ao que eu preciso. Profundidade isso, que profundidade isso, né? Então assim, isso pelo que você tá falando, é a essência dele, não é, não foi uma piada, é a essência dele. Não, não é a essência dele. Quando você olha os outros relatos e aí históricos ou projetados, sei lá o que for, a

A vida do cara foi essa. Então, assim, não é, ah, eu vou abrir mão de tudo para sofrer. Quem sofre mais? Quem precisa de menos para ser feliz ou quem precisa de mais para ser feliz?

Alexandre admirava Diógenes, provavelmente, porque Alexandre era um homem que sofria bastante. Quando você olha as biografias de Alexandre, pelo amor de Deus, é um cara que não conseguia dormir porque é só treta, problema, briga, expansão. Os gregos falavam: "Chega, Alexandre, tá bom, vamos voltar para casa". Não, não, agora é daqui pra Índia. Alexandre, mas como assim? Não tem paz. Ele não parava de arrumar confusão também, né? Porque não respira. Morreu com 30 e poucos anos, né? Então, assim, é um homem que não respira, quer dizer, você nasce, morre dali a pouco e passa uma vida inteira só tribulação.

Agora, você pega um Diógenes. Eu preciso do quê? Eu preciso de uma caneca. Claro que ele é um exemplo extremo, cá entre nós. Eu tenho aqui a caneca, eu vou ali no rio, água límpida, cara, descendo, geladinha da montanha. Que coisa deliciosa para dormir. Durmo na relva. Negócio maciozinho, gostoso. Se precisar, eu peço ajuda de um amigo ali, ó. Durmo ali quentinho e tal. No outro dia, pega um pedaço de pão com queijo. Ah, minha vida. Tudo bem.

Exemplo extremo, não precisa chegar tanto, não vai largar sua empresa amanhã e morar nas ruas de São Paulo. Mas é a mensagem, bom, esse contraste para a gente refletir. Esses caras eram exemplo do que eles viviam. Então, é, é isso. É treino. É treino.

Cara, eu, eu tô fazendo isso, sabe? Eu, pessoalmente, sou um homem que em alguns momentos tinha muito mais reações que tenderiam a uma certa passionalidade. Às vezes afeta o orgulho e tal. Cara, eu tô ficando bom nisso de treinar esse reflexo. Tô ficando bom nisso. Na relação com a minha amada esposa, na relação com os meus pais, na relação com os meus alunos, na relação com a vida, de modo geral. Erro. Erro. Tem vezes que eu não tem como, né? Sou tomado por uma... aí. Mas agora, e aí eu penso no histórico me dizendo assim: "Você tá com raiva? Você tá com raiva? Você vai se submeter a isso por causa desse cara, por causa dessa situação?"

O fantástico é que você tem o fundamento, né? Mas o desafio é a prática. O desafio é a prática. Ah, não. Porque senão, como ensina Aristóteles, não existe vida ética no pensamento. Uau! Não existe vida ética no pensamento, porque no pensamento todo mundo é maravilhoso. Se fosse só aprender filosofia na teoria, eu iria a Brasília, chamaria 513 deputados, daria aula de ética e sairia todo mundo ético, cara. Só político ético. Mas não, o que que eu preciso? Eu preciso dessa ensinamento intelectual, mas se eu não trago isso para a minha vida.

E aí é aquele exemplo assim: quando é que eu vejo que um político é honesto? Quando alguém coloca uma mala de R$ 200.000 na frente dele e ele não pega. "Sai do meu sol, sai do meu sol. Não tem nada aí que você possa me oferecer." Quantos homens você conhece assim na vida? O que que tá faltando? Eu quero que você dê a narrativa. E o que que eu tô sentindo falta da gente dar continuidade aqui? O homem histórico, então, até aqui, o ponto que a gente tá conversando, ele tá separando o que ele controla, o que ele não controla. A gente explorou muito do sofrimento, do que faz a gente se perder no meio do caminho. Eu tô sentindo a gente falar um pouco, talvez uma mistura entre ética e virtude, porque eu tô querendo o que que o homem histórico valoriza, o que que ele busca e o que que é para ele os limitadores ali. A gente já falou de um que é assim: o que que você controla, o que você não controla. Mas e quando a gente começa a falar de ética? Porque a gente tá falando a respeito dos prazeres, até onde os prazeres devem ser controlados na cabeça do estoico. E o que que é uma vida virtuosa para o estoico? O que que ele valoriza, o que que ele se desenvolve?

Olha, eu vou te... vamos assim, eu vou tentar responder a isso. A primeira coisa, você começa a entender um bom caminho para uma vida virtuosa quando você se sente capaz de dizer não para você mesmo. Esse é o primeiro ponto.

Isso. Aprofunda um pouco mais para as pessoas entenderem. Em quais situações, por exemplo? Em qualquer situação que você tenha um apelo para realizar alguma coisa, para concluir uma tarefa que você estabeleceu para você mesmo, para conhecer uma pessoa, sair com uma pessoa, no modo como você se relaciona com seus parentes, seus familiares, tudo. Quer dizer, eu sou um apreciador do charuto, eu, Denis, adoro. Vamos. Adoro. E nunca fumamos um, hein? Verdade. Precisamos resolver isso daí. Eu consigo dizer não para uma vontade de fumar um charuto. Então, às vezes eu tô em casa, eu tô numa situação assim que eu falo: "Pô, eu tô com uma vontade de fumar esse charuto hoje, mas hoje eu não vou fumar porque eu já tô indo dormir." Então, eu consigo... tá vendo que é um exemplo sim, besta, mas eu consigo dizer não para ele. Eu sou um homem, eu resolvi me comprometer com uma única mulher. Então, eu olho para as belas mulheres do mundo. A todas elas eu renunciei voluntariamente. É uma escolha que eu fiz. É conseguir ter freio para as coisas. Freio. Freio. Isso é liberdade. Isso é liberdade. A verdadeira liberdade está escorada no dizer não para aquilo que surge em você como desejo. Que seja, por exemplo, eu tô com vontade de acordar todos os dias 4 horas da manhã para trabalhar 18 horas por dia. É preciso controle. É preciso controle porque isso é um apetite. E o fato de parecer ser uma boa coisa não quer dizer que seja uma boa coisa, porque continua sendo excesso, tá? Continua sendo gordura a ser cortada.

Mas a grande virtude estoica, ela se resume ao que os gregos vão chamar de sabedoria prática, que é prudência. Prudência. A prudência é a virtude fundamental do estoico, para o estoico. É, então a prudência é exatamente isso que, no curso da vida, me joga para o meio-termo, me faz evitar os excessos. A prudência, ela pode ser explicada como quase que a busca da verdade, porque a prudência é fazer o certo, certo? Sim. Sim. Não é a busca da verdade enquanto a verdade é possível para o homem. Porque tem um problema, Marcelo. Por que que a gente tem que treinar?

Existe uma frase dos Sete Sábios antigos. Existia uma lista que corria na Grécia antiga, ainda pré-filosófica, que era a lista dos Sete Sábios. Esses caras ficaram famosos por tratar de temas educacionais, formativos e por se expressarem em sentenças breves. "Conhece-te a ti mesmo", "Nada em demasia". A grande preocupação desses caras sempre foi essa ideia de entender que nós não somos seres divinos. O que significa dizer: "Esqueçam a ideia de perfeição. A gente vai errar o tempo inteiro. A gente vai se ajustar o tempo inteiro, né?" Então, o exemplo de vida desses caras é um exemplo de quem errava. Tem uma das frases dos Sete Sábios que eu queria dizer: "Sejamos homens, não queiramos ser deuses. Não queiramos ser deuses." Então, assim, cara, eu vou escapar, eu vou dar uma errada aqui, uma errada ali. Corrige, corrige, ajusta.

Então, essa prudência, esse... os gregos chamam isso de *logisticon*. *Logisticon* vem do grego *logos*, que é razão, que é capacidade de calcular, calcular, calcular o peso que aquilo deve ter na minha vida. Peso. Legal. É cálculo em todos os elementos, tudo. O que te dá, o que tem valor e o que te gera dor.

Exatamente. Porque, e olha só, por que que eles dizem assim: "Você se torna praticamente imbatível." Quando eu olho para o mundo e vejo o que está sobre meu domínio e o que não está. Olha o que que eu tirei do meu horizonte. Eu tirei uma porrada de coisas que me preocupam. Eu acordo, leio o jornal, falo assim: "Nossa, mas o Brasil, Trump, irmão, sério, você tem que ler aquilo e sublimar." Ou você tem o telefone do Trump? Ele é seu amigo? E o brasileiro se envolve? Você tá louco? Emocionalmente ficar mal. Você lembra as pessoas na pandemia falando assim: "Eu parei de ver notícia". Ou seja, é todo mundo sendo afetado pelo mundo exterior, não? E é o quê? Para ficarmos no exemplo do barco, é ser um barco achando que não é para navegar. Então, não é uma filosofia do ficar dentro de casa, não. É uma filosofia para o mundo, de se expor, de se jogar, de viver. Então, é uma filosofia para ter amigos, para frequentar ambiente social, para o seu trabalho, etc., etc.

"Meu patrão falou esquisito comigo." Entra no quarto e chora. Que bebê. Geração Z. Tem de monte. Tem de monte. Bebê, né? Ah, porque, cara, eu sei que é complexo esse treino. Eu sei, mas é nessa hora. Não adianta. É na hora que o cara me afeta, na hora que ele me ataca. Essa é a hora do controle. Velho, eu recebo umas mensagens assim, Denis. Hoje eu tô triste comigo. Que que foi, cara? Velho, eu tô acompanhando reflexão sua. Hoje eu me deixei levar por paixão, briguei, discuti e tal. Na hora que eu parei e falei: "Por que que eu fiz isso? Que velho! Para quê? Não precisava." Então, é isso. Não, não existe uma agenda. Primeiro você faz isso, primeiro você faz aquilo e não sei quê. É um jogo complexo que vai associar a prudência, a racionalidade. Abandonou a razão, você é um navio sem norte. Você abandonou a razão, tá perdido. Vai desequilibrar porque a razão vai te dizer que a... isso aqui é um microfone. Fora da razão, você vai achar que isso daqui é um copo, é uma caneca, é um mecanismo de opressão. É um mecanismo de opressão. Você falou que é um microfone preto, devia ser prete. Aí você começa, entendeu?

Então, olhar as coisas como elas são, pro bem e pro mal, só isso já é uma treta horrorosa, porque nós tendemos a fazer projeções sobre a realidade. Então, lá, minha empresa, minha empresa tá precisando ser fechada. Eu tenho os números, eu tenho os dados, eu tenho estatística. Não, não. Vai acontecer um negócio e a gente vai conseguir dar a volta. É paixão falando, cara. Não é exatamente aí que a gente começa a se perder profundamente assim como sociedade, porque... Total. Porque a nossa sociedade é toda construída na irracionalidade. É isso, né, cara? As ações políticas, as ações individuais. Vocês querem me explicar a nossa classe política? A nossa classe política é o exato retrato do que nós somos. Exato. Exato. O exato retrato do que nós somos. Não existe um povo maravilhoso, prudente, racional, sendo governado por pessoas irracionais, malucas. Cara, eu já trabalhei em Brasília, Marcelo, nos bastidores da vida política. Sabe quantas vezes eu vi um agente político pegando uma planilha para tomar decisão para fazer lei? Nenhuma. Os fatos são completamente ignorados. Assim você constrói Brasis quando você ignora os fatos. E assim você constrói vítimas de si próprias. Você não é vítima de um sistema. Você não é vítima do mundo. O mundo não tá nem aí para você. Você não é importante. É um fato. É isso, cara. Nós vamos morrer. Sabe-se lá em que momento nós vamos morrer. Vamos se lembrar de nós um, dois dias. Pô, Denis morreu. Era um cara, ô, ele falava de filosofia. Ah, aquele grandão esquisito. É, tal. Aí no outro dia já tava assim: "Lembra o restaurante lá que ele comeu? Vamos lá." É assim. Aí talvez, se eu tiver ainda alguém da família vivo, de vez em quando vai se lembrar: "Ah, o Denis, puxa, que saudade dele." Aí essas pessoas vão morrer também e vão ficar os meus livros. Ninguém nem sabe quem é Denis. "Escreveu esse livro aí, um cara que nasceu lá em Minas Gerais e tal, pô, livro legal e tudo isso."

Então, são vaidades assim que nos jogam num amor próprio desmedido, no sentido de uma importância desmedida, arrogante. Arrogante. Quantos seguidores você tem? Esse, imagina que desgraça de vida. Um cara que tá sempre olhando para o modo como os outros reagem a ele. Miserável. Uma vida miserável. Você não tem vida. "Eu vou postar esse negócio aqui. Se não der 1000 curtidas, eu não sou feliz." Por isso, cara, a gente vive um ambiente de treino importante, né? A gente que valoriza o nosso espaço, nosso desenvolvimento e trabalha nisso. Pô, você é professor, você fala sobre muitas vezes coisas polêmicas que a sociedade não entende, nunca lê um livro e não quer entender, não aceita enxergar o outro lado, não quer. Às vezes eu faço um comentário na rede social, faço um comentário político, faço um comentário filosófico, aí o cara comenta assim: "Ele nem ortografia tem." É, você já começa a peluda, assim: "Não sei de onde você tirou isso, você é burro e não sei quê." Aí eu vou olhar o perfil do cara. Isso já aconteceu comigo, por isso que eu tô contando de forma tão precisa. Eu falei assim: "Por que que esse cara tá me xingando?" Eu tenho poucos haters, mas tem. Aí eu fui olhar o perfil do cara e fiquei curioso porque ele me xingou muito assim, com português muito ruim. O cara tem uma empresa de encanamento. Aí eu falei: "Cara, olha que legal. Se o encanador se dispusesse a ser só um bom encanador e não querer dominar o que ele não domina e me responder com uma pergunta: 'Professor, eu tô achando que isso pode não ser assim. O que o senhor acha daquilo, daquilo? Por quê? Eu não entendo nada de cano. Eu entendo de filosofia e nem entendo tudo de filosofia. Vamos conversar.' Mas a arrogância impede o sujeito."

E aí tem uma curva na psicologia que explica isso muito bem: quanto menos você sabe, quanto mais você ignora, mais certo você está das suas posições. Então, quando o sujeito não se dá a chance de duvidar de si mesmo, porque primeiro você duvida de você para você fazer os cálculos ajustados. Eu tô tão seguro em relação a isso. Essa segurança só tem mesmo quem não sabe nada a respeito do que está... Ignorância, né? É o ápice. É a ignorância que não é nem ciente dela mesma. Essa é a desgraça completa. Quando tem alguém que me procura e fala assim: "Denis, eu quero estudar filosofia, mas eu não sei nada de filosofia." Eu falo: "Você já sabe muita coisa, você sabe que você não sabe. Já é um p... já é 90% de... Vem cá, beija minha boca. Você tá me dizendo que quer estudar filosofia e já me mandou essa? Cara, você tá pronto? Passou no teste. Você tá pronto?" Agora, Denis, eu estudo filosofia há muitos anos, já domino vários assuntos filosóficos. Queria estudar. Eu já fico com pé atrás, porque esse cara ele já vem com... sei lá como, né? Que ranço que ele faz. Confiança alta, né? Aí é a ausência da prudência, é a ausência do cálculo racional.

Agora, vamos olhar para a nossa sociedade um pouco. E aí a sociedade adoece, né, Marcelo? Aí você vê os caras... Exatamente isso. Eu quero olhar para a nossa sociedade e entender um pouco como que a gente chega onde a gente chegou para a gente entender como faz para sair dessa bagaça. Porque a gente vive uma sociedade onde a gente tá explorando aqui um pouco... pessoas muito confiantes, mas muito ignorantes. Eu vejo as estatísticas de leitura no Brasil e eu falo assim: "Cara, essa estatística é completamente errada, porque é pior. É muito pior." Sim, cara. Eu, e no meu círculo que eu vivo, é um ambiente, é uma bolha, é uma bolha de uma bolha de uma bolha. As pessoas não leem. Então, imagina o Brasilzão de verdade que sequer tem dinheiro para comprar um livro. Então, onde a gente se perde? É na educação. Porque quando a gente fala de cultura, eu acho que a gente perdeu o conceito de cultura, né? Quando a gente vai olhar para a mídia, quando a gente vai olhar para a educação, quando a gente vai olhar para a própria academia, acabou. Onde a gente se perdeu, cara? Não existe mudança. Não existe mudança se não for pelo processo educacional. É a educação, a base educacional. Esqueçam. E não sou eu que tô dizendo isso.

Vou te contar rapidamente a história de Platão. Platão nasceu em 427 a.C., morreu em 347 a.C. Platão era de uma família aristocrática ateniense. Era um aristocrata ateniense. Por pai e por mãe tinha ascendência nobre, rei, etc., etc. Um homem como Platão seria educado para a vida política ateniense. Era o que se esperava de um jovem aristocrata ateniense. Ele começou a ver a vida política nos bastidores da vida dentro de casa, os tios, os pais conversando, etc., etc. E aí ele conhece Sócrates e ele começa a frequentar Sócrates. E Sócrates é morto pelo regime democrático ateniense. Sócrates sofre uma pena de morte dentro do regime democrático ateniense. E ele fala: "Nesse momento, eu abandonei a possibilidade de ingressar na vida política porque eu percebi que ninguém sabe exatamente do que está falando. Eu não posso pedir por uma sociedade prudente. Eu não posso pedir por uma sociedade justa. Eu não posso pedir por uma sociedade piedosa se eu não sei dizer o que... se essas coisas significam exatamente ou minimamente, porque senão eu tô pedindo por uma coisa e vou ter outra. Se eu não sei exatamente, é como eu digo assim, Marcelo: 'Vamos atrás de uma coisa amarela no mundo.' Se eu não sei o que é o amarelo, ele pode estar aqui do meu lado e eu não reconheço como tal." É processo educacional.

Então, a gente tá atrás da solução pela política. A gente tá sempre buscando uma figura messiânica para nos tirar do buraco. A gente tá sempre procurando coisas exteriores, mas a gente não tá olhando para nós mesmos. E o que vai nos salvar? Formação, educação, escola, livro, cultura. Não existe outra possibilidade. Você pode fazer reforma política que você quiser. Você pode colocar o presidente, o ministro, o que vocês quiserem, se você não começar a olhar para dentro de casa e ter na sua casa um espaço de leitura e frequentar gente alta. Porque qual que é o problema? É um círculo terrível. Você é ignorante e busca informação na rede social, mas por ser ignorante, você não consegue minimamente identificar quem seja uma figura legítima que possa te orientar no caminho razoável.

Dá o peso. Não tem pensamento crítico, então não tem como dar peso. Você não é capaz de fazer perguntas céticas. Que que é uma pergunta cética? É uma pergunta pela causa, por um conhecimento mais profundo. Qualquer coisa que te diga uma coisa, a qualquer pessoa que te diga uma coisa minimamente agradável, você vai lá: "Ah, ele tem 1 milhão de seguidores, 1 milhão de..." Você vai ser só mais um na mão de um charlatão. Então, você não tem condições. E isso vai virando uma bola. Você vai pra escola. Que que é a escola brasileira? Que que é a universidade brasileira? Eu sou professor universitário, de 30 a 40% dos meus alunos são analfabetos funcionais. Você percebe isso? Não. Primeiro que é estatístico. Segundo que isso tá gritando na minha cara o tempo inteiro. Você, além de ser estatístico, você vive isso na pele. É bizarro. É bizarro. É muito triste falar isso, porque eu tô dentro do ambiente universitário. Porque resolveram fazer justiça social dentro da universidade. Universidade não é para fazer justiça social. Exatamente, cara. Esse lance do... devia estar a elite intelectual. Não tem escola de base, não tem escola básica. Que lá tá o problema para todo mundo chegar em condições de concorrer para ingressar os melhores na universidade. Na universidade, o que que se discute? Cota isso, cota aquilo, cota trans, cota trans e não sei quê. Progressão automática na escola. E aí porque eu desmereço as dores das minorias sociais? Não. Porque isso não deve ser critério para estar dentro da universidade. Critério é outro, especialmente quando a gente fala de dinheiro. E eles usam isso, eles usam isso exatamente para criar essa divisão, né? Porque eu explico para quem tá próximo a mim, eu falo assim: "Gente, é exatamente o oposto do que se fala, porque não é que a gente não tem carinho e cuidado com as minorias. Exatamente. Oposto. Cada um faz o que quiser da sua vida. O ponto aqui é criar divisão para um competir com o outro. Ele não gosta de você e ele não quer você. Não é isso. Você precisa odiar o outro. Você precisa separar em grupos. Porque o ódio ele une muito mais do que o amor. Qualquer político sabe disso. Bolsonaro e Lula, para a gente citar só um exemplo emblemático aqui, eles se amam. Um precisa do outro. É a ameaça Lula que fortalece Bolsonaro e vice-versa. Se não tivesse um ali, você nunca vai ver Bolsonaro na rua pedindo impeachment de Lula. Nunca. Como você não viu Lula pedindo impeachment de Bolsonaro. Eles se reforçam no ódio. E qual é o resultado disso no processo educacional? O que nós temos? Uma universidade cada vez mais irrelevante, tirando as honrosas exceções de pessoas sérias que ainda estão lá dentro. As escolas acabaram. O nosso processo formativo tá no lixo. Nós... Se a gente faz investigação de PISA, esses rankings nacionais, internacionais, irmão, a gente tá brigando com Gabão, com África subsaariana. É um negócio. A participação do Brasil em termos de produção tecnológica remonta a 1980, nunca mudou nossa porcentagem de realização do ponto de vista da inovação e tudo. Um trabalhador norte-americano e um trabalhador brasileiro, a diferença é de um para quatro em termos de produtividade. Produtividade. Isso é educação. Isso é educação, né? Isso é livro, isso é formação, respeito pelo processo formativo.

Agora, o que acontece? O estoicismo mostra isso. Se você não tem respeito por você mesmo, você não tem respeito por mais nada. Ou seja, se você não para e falar assim: "Eu estou indignado com a minha ignorância. Esse é... Eu não vou ser o burro da mesa, não? Eu vou pegar esse livro, eu vou me inspirar num professor decente, não vou confiar em tudo que me dizem, vou parar de seguir gente idiota." Tem uma frase de um estoico, salvo engano, é do Sêneca, que eu amo. Ele fala assim: "Você tem que tomar cuidado com quem você convive." Por quê? Com quem você... a turma que você frequenta, porque se você frequenta um limpador de chaminés, você vai sair sujo de fuligem. Não tem jeito. Não tem jeito. Então, assim, se você frequenta o ignorante, o cara que despreza livro, que despreza cultura, que despreza música de qualidade, n... Eu vou deixar meu filho ficar aqui ouvindo o que ele quer, vai ser no funk, na porcariada, vai ser nos livrinhos meetref, nem tem livro em casa. Depois a gente vê isso e tudo. Se você frequenta limpador de chaminé, você sai sujo de fuligem.

Você falou um negócio que eu falo muito, que é assim: a sociedade tá tão anestesiada que ela não tem nem capacidade de se revoltar contra a própria situação. E eu digo que uma das grandes forças humanas é usar a raiva. Sim. Canalizada pro bem. Só que eu vejo que a nossa sociedade canaliza pro mal, como se tornar vítima. Eu sou o coitadismo. É o coitadismo.

Explora mais um pouco esse lance que você tava explicando aí do estoicismo, do estoico. Cara, mas é o problema da carreira de Platão lá que ele disse: "Bom, eu não posso participar de uma coisa, de um movimento que tá buscando algo cujo algo exatamente o que seja." Então, assim, eu pego um avião, saio lá de Uberlândia, venho aqui para São Paulo. Eu não entro na cabine para falar assim: "E aí, como é que tá o voo hoje? E a rota? Me mostra a rota aí. Pô, cara, mas você vai pegar essa rota? Isso aqui não tem uma turbulência aqui?" Eu não sei nada a respeito disso. Então, o fato de eu não saber nada a respeito daquilo me coloca no meu lugar. Então eu entro, fico caladinho, amarro o cinto e espero que a competência técnica do piloto faça o trabalho dele. Eu reconheço quando não sei.

Existe um fenômeno do século XX que conversa com estoicismo, mas é um fenômeno típico do século XX que foi descrito por Ortega y Gasset num livro chamado "A Rebelião das Massas". Um homem comum hoje no Brasil ler não vai entender. É um livro que tem uma profundidade filosófica. Ele diz o seguinte: "Houve no século XX a o surgimento de um homem que é o homem massa." O homem massa, ele adquiriu protagonismo político. Então, ele tem as redes sociais hoje, né? Ele não falava das redes sociais, mas ele pressiona a máquina pública, ele pressiona os políticos, ele tem voto. Mas ele não passou por um processo formativo que desse a ele a condição de exercer protagonismo com qualidade. Porque antes do século XX, é, antes do século XX tinha o cara lá que era o camponês. E aí chegava o sujeito lá da cidade para discutir política. O camponês saía de perto porque ele nem ele entendia que ele não tinha preparo para aquilo, ele saia de perto. Hoje não. O camponês, ele tem uma rede social, ele abre um perfil, faz demandas e, se brincar, ainda abre um partido político. Aí você vai falar assim: "Nossa, mas é um discurso aristocrático." Óbvio. *Aristos* no grego é o melhor. É o que é melhor. Não adianta eu trazer todo mundo para a esfera decisória se as pessoas que estão na esfera decisória não sabem o que sobre o que estão decidindo. Eu não coloco um sujeito sem preparo para abrir a cabeça de alguém numa cirurgia de neuro. Eu preciso de conhecimento técnico. Então, o grande problema hoje é que as pessoas se sentem muito confortáveis com as suas ignorâncias e a ignorância passou a ser uma virtude. Porque se a ignorância é uma virtude, eu não sei mesmo, mas eu tô junto de uma galera que tá dizendo que isso é bom. Eu trago resultados como a construção de um Brasil. Eu trago resultados. E eu não vou falar de Brasil para não ser síndrome do cachorro viralata. Isso tá no mundo. No mundo, né? Isso tá no mundo. Então você vê lá Trump tomando medidas relativas a tarifas que qualquer pessoa que entende um pouquinho de liberdade econômica... Outro dia os republicanos estavam assim: "Trump, vamos rever a questão das tarifas porque isso daí vai dar uma merda." Mas existe um apelo emocional para falar assim: "Vou proteger a indústria nacional, vou tarifar." Mas a questão não é o que você quer fazer, é se isso é realmente bom. Se isso realmente vai trazer resultados. Então, o... vamos falar do Brasil. O brasileiro médio, ele não tem a menor condição de fazer demandas que sejam de natureza minimamente qualitativa, porque ele nem sabe por onde começar. Perdido. Completamente perdido. Sem reverência, na verdade, né? Totalmente. Totalmente.

Então, nós temos que ter aquilo que Platão chamou no V século a.C. também de um certo golpe de sorte, sabia? A gente vai depender disso. A gente vai depender de muito trabalho. E eu não vejo esse trabalho sequer começando. Então, para mim, ainda vai piorar muito antes de começar a melhorar. Não tá começando e depois, quem sabe, a gente começa a melhorar. Então, hoje eu aposto historicamente na questão pessoal, o sujeito, a casa dele. Nunca foi tão fácil ter acesso a boas informações, bons livros e tal e começar a buscar pessoas boas para te ajudar nesse percurso.

O cara, eu... você deve ser assim também. Eu reflito muito escrevendo e falando com as pessoas. E eu chego numa conclusão com os meus alunos de que, cara, não basta você ser empresário, não. Cara, você tem uma responsabilidade social no sentido de você criar uma referência em um país que não tem referência. E eu posso te falar uma coisa sobre isso. Eu também frequento esse mesmo mundo que você frequenta, não com a mesma intensidade. Mas eu recebo convites assim: "Denis, faz uma palestra pra gente, dá um sobrevoo aqui de 15 minutos sobre isso, uma espécie de Ted, não sei que, não sei quê." 15 minutos. Você o que você quer, na verdade, é parecer saber uma coisa que você não sabe. É para você sentar à mesa no jantar e começar a falar frase feita e falar assim: "Nossa, que sujeito lido." Mas você não leu nada, você não refletiu sobre nada. Você absorveu duas, três, quatro frases feitas para enganar trouxa. Vai pagar dinheiro dito quando, na verdade, e o que é pior, o capitalista brasileiro, o dinheiro dele não tá onde a boca está. Eu vou te falar, por eu ser do mundo. Repete essa frase. Existe uma frase que foi dita por uma grande figura que... "Put your money where your mouth is." Coloque seu dinheiro onde a sua boca está. Então, você tá discursando a favor disso, a favor daquilo. Ah, entendi. Invista lá, tá? Você pega nos Estados Unidos, por exemplo, hoje talvez o maior pensador vivo tá nos Estados Unidos, já é um senhor de idade, 90 e tantos anos. Thomas Sowell, um dos maiores nomes na defesa da liberdade no mundo. Thomas Sowell é pago por um instituto privado chamado Instituto Hoover, que paga para ele produzir, falar, estar na mídia, ter espaço no jornal, etc., etc. Tem lá o Ayn Rand Institute, grandes fortunas que se juntam para apresentar filosofia da liberdade de Ayn Rand, ajudam com tradução, pagam tradutores, pagam professores, etc., etc. Não existe a possibilidade de um país diferente, sem base intelectual. O Olavo de Carvalho falava isso. Você pode não saber, mas os valores que você nutre, o modo como você vê o mundo, deriva de filósofos que existiram em algum momento. Então, cara, ajuda a galera. Você sabe, eu escrevi um livro, eu trouxe aqui para você dar uma olhadinha. Eu nem ia falar disso nesse contexto, mas eu tenho dezenas de livros. Esse aqui eu lancei recentemente, chama-se "O Essencial sobre o Coletivismo". Esse eu tenho já. Você já tem? É um livrinho pequeno, mas a gente pode dar para algum da plateia. Não, mas gente, é... Coloca o aplauso da plateia. É um livro pequeno que foi pensado numa parceria com a Priscila, que é membro da Sociedade da Lanterna, hiperdidático, tem figurinhas, desenhinhos, conceitos bem trabalhados, etc., para combater o coletivismo, ou seja, recuperar essa ideia do indivíduo, da prudência, da racionalidade, da inteligência, etc., etc. Esse livro hoje ele deve estar uns R$ 20 numa loja eletrônica qualquer. Eu tô falando isso só por exemplo, porque eu não faço questão não. Eu vendo livro adoidado, não tô reclamando não, mas tô fazendo um comentário. Sabe quando um grande empresário brasileiro falou assim: "Eu frequento esses caras, deixa eu investir, deixa eu, né, comprar minha unidade." Amor de Deus, cara, eu vou enfiar esse livro em tudo quanto é biboca, porque isso daí é um manual do anticoletivismo. Precisa tomar cuidado com político, etc., etc. Nunca. Eu tenho uma coleção chamada "Breves Lições sobre os Principais Autores Liberais, Conservadores e Libertários". Nunca nada disso. Eu escrevi um texto recentemente que eu... Na verdade, o que que eu costumo acontecer é com muita frequência eu ser chamado para palestrar de graça para milionário. Cara, isso é um absurdo. Isso acontece o tempo inteiro. "Denis, nós somos um grupo aqui de empresários, não sei que você vai olhar as maiores fortunas do Brasil. Você poderia falar aqui pra gente? Eu te dou uma passagem, diária." Por que que você não manda sua mãe? Aquela vagabunda. Não, cara, desculpa, você tem que... é muito desrespeitoso, cara. É uma falta de entender. É muito desrespeitoso. Mas a crítica que eu faço no meu texto é exatamente essa, porque eu faço uma crítica ao Brasil, eu falo um pouco da hegemonia cultural e eu falo assim: "Mas você me pergunta e os ricos e a Faria Lima que vota onde não está sua boca?" Eu... Mas eu falo no popular para as pessoas entenderem. E a Faria Lima e os ricos. Você realmente acha que a Faria Lima tem lado? O lado da Faria Lima é o lado do benefício. Exatamente. Se eu tenho benefício aqui, eu voto para cá. Se eu tenho benefício para cá, só que... Deão, essa é a história do Brasil, é o jeitinho brasileiro. A história do lobby, é o benefício. Eu quero, foda-se você e todo mundo. Eu quero a minha parte, meu irmão.

Tem um discurso do... acho que é do Milton Friedman. Se eu errei, eu errei por pouco. Um dos maiores liberais da história, do Friedman mesmo, ele dentro da Casa Branca e ele dando um esporro geral nos empresários falando o seguinte: "Pera aí, vocês não querem livre mercado, vocês querem favores, vocês querem favores estatais. Você pega um empresário feliz com governo, tá errado. Empresário tem que ser aprioristicamente contra governo para poder competir livremente e tal." Então, assim, quando diz você colocar o seu dinheiro onde a sua boca está, significa dizer tornar interessante do ponto de vista negocial aquilo que é realmente bom, não só para a empresa, mas é bom para o país. O que é bom para a abelha, bom para a colmeia. Quando você, em vez de investir em processo formativo, investe em gente para fazer lobby em Brasília, você tá só retroalimentando um sistema que destrói o país inteiro e que constrói... como algum economista já disse, né? Isso aqui deu errado como deu. Isso é trabalho de profissional. Isso é trabalho muito bem pensado, planejado, executado. Brincadeira. Isso daqui não é uma coisa assim: "Pô, a gente errou aqui, agora a gente vai ajustar." Não, isso daqui é a insistência em tudo que dá errado, no processo educativo, nas relações empresário-governo, estado e assim por diante. E teve o que as pessoas precisam entender, tem fundamento teórico de tudo que tá acontecendo no Brasil hoje, é que as pessoas não estudam. É essa a questão. Você não pode entender aquilo que você nunca se propôs a compreender. Então, o mundo ele tem as cores que eu sou capaz de enxergar. Na medida em que eu vou estudando, que eu vou lendo e vou compreendendo mais a fundo, novas cores começam a surgir, novas articulações de pensamento.

Marcelo, tem estudos nos Estados Unidos, os nossos jovens, eles estão perdendo vocabulário, perder quantidade de palavra que dominam. Isso significa, se eu tenho menos palavras no meu vocabulário, significa que eu vejo com menos, com menor articulação a realidade que está diante de mim. Se eu não consigo diferenciar teto de telhado, significa dizer que eu vejo a realidade de forma diferente. Uma vez eu entrevistei um amigo, eu sempre conto essa história. Ele é professor da Federal do ABC aqui em São Paulo. Ele viveu os estertores da União Soviética, o fim da União Soviética. E tem foto dele menininho durante a União Soviética ainda. E eu perguntei para ele, falei: "Vladimir, por que que vocês não combateram dentro das escolas o regime soviético e tudo?" Ele me respondeu assim: "Por..." Cara, a resposta dele me chocou. Ele falou: "Porque nós não tínhamos vocabulário para isso." Veja que não era assim: "A gente não tinha arma, a gente não tinha vontade, a gente não tinha..." Não, a gente nem sabia como fazer, porque a gente não tinha palavras para dizer alguma coisa que se opusesse a um sistema, que é o problema do brasileiro, que é a melhor arma. O... o brasileiro não consegue combater de maneira propositiva, porque ele nem tem vocabulário para isso. Ele não sabe exatamente para onde seria melhor ir. Então, ele sai abraçando o que aparece como um novo Messias. Ele vê ele vê um crocodilo no rio, como ele tá se afogando, ele fala: "É tronco, vai ser lá a nossa salvação." Cara, é exatamente esse ponto é falta de vida intelectual. E que você faz um trabalho fantástico e que eu tô vendo cada vez mais aparecer. Amém. O... Lanterna. Eh, recentemente eu tive aqui com o Gabriel, e ele fala da "Em Busca da Verdade", que é uma escola também com o Guilherme Freire. Sim. E, e, e eu acho que, cara, a gente tem filósofos no Brasil que não representam o que a gente quer escutar. Vocês que são o que a gente quer escutar, a gente precisa apoiar, a gente precisa viver e a gente precisa ajudar. Porque o papel do empresário, cara, não pode ser acúmulo de riqueza a qualquer custo e sem avanço daqueles que estão ao seu redor, né, cara?

Olha, cara, é não deixar legado. Eu, assim, eu acho que o verdadeiro legado é esse. Quer dizer, eu realmente deixei uma empresa funcionando, propiciei novos empregos e tudo, mas eu quero deixar um país que tem uma mentalidade diferente. O Brasil sempre foi esse grande potencial que nunca saiu disso. A gente foi abandonado por imperador, que chegou um momento, "Vocês querem república? Esse lixo." Então, o cara foi embora. Então, quer dizer, a gente trocou um intelectual extraordinário, imperador, por presidentes que mal falam português, à direita e à esquerda. Sim, porque o problema é o coletivismo, é a ignorância. Que graça. E num sistema como esse, os piores sempre chegam ao poder, porque a gente não consegue reconhecer os melhores, entendeu, Marcelo? Então, não é uma questão de falar assim: "Nós precisamos de pessoas melhores no mundo político, nós precisamos de pessoas melhores no mundo empresarial, nós precisamos das pessoas melhores que vão escolher os políticos, porque eu preciso dar uma mensagem clara sobre o que eu não aceito mais num país." E isso você só consegue por meio de vida intelectual rica e articulada. E o que significa dizer vida intelectual rica e articulada? Ouvir e levar em consideração aquilo que intuitivamente ou emocionalmente você não queria ouvir, você não queria levar em consideração.

Quero te fazer uma provocação.

Faça.

Tem um grande amigo, chama-se Murilo Gan, que foi... conhece? Conheço, conheço. Virou palestrante. Exatamente. Tem um cara muito inteligente, tá? Um cara que se desconstruiu bastante também para se entender, descobrir a sua verdade, né? E ele fala um negócio, a gente estuda filosofias da Índia, especificamente hinduísmo e tal. E ele chega a um determinado momento e fala assim: "Cara, a Índia já foi conhecida como berço espiritual do mundo. Nós temos conhecimentos dos Vedas de milhares de anos. Boa parte do que a gente tá começando a aprender agora já tá escrito há milhares de anos lá na Índia." Aí ele faz uma provocação. Numa das palestras dele, ele fala assim: "O departamento de marketing da Índia é horrível. Eu vou refazer esse departamento de marketing e eu quero que..." Eu não tenho a resposta, tá? Eu acho que o departamento de marketing da filosofia é ruim, porque eu entendo que o processo de desenvolvimento intelectual aumenta nosso vocabulário, nos deixa mais rebuscado, nos deixa mais inteligente, logo a gente se afasta da sociedade. Claro. Você sabe, quando você produz um conteúdo complexo, ele é nichado. Quando você desenvolve um conteúdo ras... O Denis escreve livro para criança de 5, 7 anos de idade sobre filosofia. Galera, presta atenção nisso. Quem tá lendo os livros dele, além das crianças? Os adultos. Porque a gente não tem capacidade de entender quando alguém inteligente como você, estudado como você, chega onde você chegou. Irmão, como é que a gente vai fazer para resolver essa parada? Eu, eu concordo com essa visão de que a academia, os...

Estudiosos da filosofia têm que, eu vou dizer isso com uma coisa da filosofia. Tem demais, tem demais. Olha, olha só. Platão, na alegoria da caverna, o filósofo, você gentilmente se referiu a nós como filósofos, nós somos professores de filosofia. O bicho filósofo é um bicho mais complexo. Nós, professores de filosofia, nós precisamos fazer como fez o filósofo na caverna de Platão. Quer dizer, ele fez um caminho de ascensão, viu uma coisa lá fora diferente do que o senso comum tá vendo, e ele não foi embora. Ah, caramba, que legal isso daqui fora da caverna e tal. Ele volta sabendo do risco de ser inclusive violentado, agredido lá dentro da caverna, que é o que acontece no mais das vezes. Você é hostilizado pelas ideias, etc., etc. Estamos vendo Lomasca agora sofrendo com Tesla, queimando o carro, as empresas dele, mas o exercício tem que ser feito, o exercício de retorno.

Então, o que que, o que que eu acho que tem que ser feito? Hã, se você estimula essa produção que conversa mais com o homem do cotidiano, com o homem não letrado, que conversa mais com o chão de fábrica, com o cara que tá preocupado. Imagine você, o cara que acorda cedo, muito cedo, pega um ônibus sofrido pra caramba, volta, já é a noite para casa, chegar e falar assim: "Vem cá que eu vou te falar da teoria do ser em Parmênides". O cara me manda para um lugar horroroso, né? Então, eu, mas eu posso fazer um pequeno livro, eu posso fazer isso na forma de vida cultural, um podcast como esse. Você já faz isso que você tá querendo dizer? É isso.

Esse livro aqui não é porque você aqui você não é preguiçoso, né? Você não fez esse livro pequenininho porque você perigos. Deixa eu fazer um negócio aqui que eu preciso publicar um livro. 20 páginas. Por que que você fez um livro assim? Porque o grande mal no mundo político hoje do Brasil atende pelo nome de coletivismo, não é se é direita ou se é de esquerda. E quantas pessoas pensaram a respeito disso? Aqui eu vou explicar o que é o coletivismo. Aí eu defino o coletivismo. Então, olha os exemplos. Olha como os políticos trabalham com a mentalidade coletivista para colocarem a culpa em você, para fazer com que você se sinta eh responsável por coisas das quais você não é responsável, e como isso justifica medidas horrorosas que eles vão tomar dizendo que são soluções. Cara, isso daqui não é porque é meu, podia ser de quem fosse, tinha que estar sobre todas as mesas. É. Na cozinha, nas casas, nas casas. Isso aí é o, é o a pílula que acorda. Isso aqui não me dá dinheiro. Isso aqui não me dá dinheiro. Me dá prazer em ver as pessoas. Já vi gente no aeroporto. Aí me manda mensagem. É, de vez em quando acontece no aeroporto os caras lendo os livros.

Esses livros infantis agora que eles vão pro mercado. Eu tava te contando em off. Não podia contar. Eu não, não podia. Podia demais. Não, é porque agora que eles vão para para livrarias, se você entrar aí na Amazon e tal, eles não tão lá, eles estão só no meu perfil do Instagram. Eu, eu tô vendendo milhares de livros infantis porque os tem pais que estão desesperados. É verdade. O pessoal não tá sabendo como é do como lutar contra isso, né? Eu não quero que meu filho seja um obtuso. Eu não quero que meu filho seja ignorante. Então, os livros infantis vão encaminhando os meninos pra vida filosófica. Então, quanto mais gente você tiver fazendo isso, nós precisamos disso. Nós precisamos de mão de obra, quantidade e qualidade, e conversar mais com as pessoas numa linguagem que seja mais acessível. Sem ser chula e conceitualmente correta. Uhum. Então, as redes sociais ajudaram muito, mas a gente ainda tá muito atrás nesse processo. É verdade. Muito atrás. Quantas pessoas a gente conhece que fazem esse trabalho? Pouquíssimas.

É, cara, eu só descobri, eu tô descobrindo ainda, não vou falar que eu descobri ainda, mas eu só comecei a descobrir o meu trabalho quando eu comecei a falar sobre os dilemas da minha vida e de como eu fui encontrando um caminho para resolver os problemas da minha vida. Sim. E, óbvio, conversando com algumas pessoas, ajudando algumas pessoas dentro das minhas limitações, porém com a consciência de que tudo isso só tem uma origem, que é a filosofia. Olha, filosofia é a busca pela sabedoria. E os gregos entendem esse busca, esse "filos" vem de "filia", que é amizade, amor, é falta, ausência. O Platão vai falar que filosofia só pode ser feita porque existe um amor por aquilo que falta. Se você não reconhece que falta, você não ama. Fantástico. O amor ele só existe no reconhecimento da falta. Então, quando você diz assim: "Eu amo a minha mulher" ou "Eu amo o esporte", "Eu amo a minha empresa", o que você tá dizendo, na verdade, a declaração de amor é uma declaração pela falta. Então eu sei que eu não é meu, eu posso perder. Eu não, aquilo não foi assimilado. Se eu me digo sábio, significa dizer que eu já sei. A palavra filosofia surge nesse contexto de reconhecimento de falta. Fantástico.

Então, a filosofia é o melhor que nós podemos fazer na vida. Como é que alguém, Marcelo, passa a vida inteira sem se perguntar o que tá fazendo aqui? O que é realmente felicidade? O que é realmente é riqueza? O que é realmente propósito? Mesmo que você não consiga dar uma resposta absoluta que não vá mudar, que não vai, mas que você esteja sempre refletindo a respeito disso, porque, cara, você tem uma coisa certa que a gente nasceu ali, daqui a pouco a gente não é mais. Você já fez conta, cara? Eu parei para fazer conta. São 8 bilhões de pessoas no mundo. Quantas pessoas entenderam ou pelo menos começaram a buscar esse questionar? Tentaram. Tentaram. É muito pouco, né? De buscar não, cara. Porque o mundo cada vez mais não quer que você faça isso, porque quer que você aja intuitivamente. Então você entra num shopping center, não é para fazer reflexão filosófica, você entra, é tudo fechado, são luzes artificiais em tudo, a música é legal, o cheiro é legal, a comida é legal, é para você passar horas lá e falar assim: "Fiquei 8 horas aqui dentro". É para você não pensar a respeito. A escola virou um espaço de repetição de conteúdo para você fazer prova. A gente não estuda para entender. A gente não estuda para se formar. Os caras postam eh foto de no fim do ano assim: "Eu li 45 livros esse ano". Não leu, meu amigo. Você passou os olhos sobre as letras grafadas na página. Mas você não leu 45 livros, não entendeu, não absteve. Eu sou professor dessa porcaria. Eu, eu eu consegui. Eu às vezes eu dou aula, eu leio dois parágrafos e falo 2 horas. Caraca, porque em dois parágrafos tem uma vida. De Aristóteles, tem uma vida. O cara pega a metafísica de Aristóteles, faz uma foto na praia para postar assim: "Lendo Aristóteles na praia, tomando tomando uma caipirinha". Velho, você tá louco, velho. Aristóteles é o negócio mais difícil que tem. Se você não sentar aqui com uma lâmpada em cima do livro e e ficar lendo comentários e não sei quê, é coisa para profissional. Então, eh, tem muita vaidade, mas tem pouco exercício de compreensão legítima, né? Não tem.

É verdade, meu irmão, que maravilhoso. Obrigado. Que episódio incrível. Obrigado pela gentileza de mais um episódio. O último foi no na Pod Factory, agora no estúdio. Lugar lindíssimo aqui. Lindíssimo. Voltar muitas vezes. Você vai ter que voltar muitas vezes, Denão. Eu quero morar aqui, convidar o pessoal. Eu tô fazendo as reflexões históricas todos os dias. Todos os dias. 6 horas da manhã sobe um vídeo com um comentário histórico inspirado nesse outro livro aqui que é muito famoso com cara do diário histórico. Fantástico. Eu peguei esse livro e falei: "Cara, legal, a seleção dos textos. Eu vou fazer um comentário todos os dias de um, é, um, é um um por dia durante o ano inteiro". E tá lá, a gente já tá entrando no seagéso, sei lá que dia que nós estamos do. É, cara, começou disciplinado. E muda a vida, cara. Muda a vida. Filosofia aplicada. Vida. O estoicismo tem isso, tá? Eh, não adianta a reflexão que você não traz pra vida sem execução, não. Galera, vou botar link do professor aqui. Conheçam a Sociedade da Lanterna para vocês buscarem a verdade, se desenvolverem. Tem dezenas de livros que você encontra por aí. Eu tô, Denis, cadê os pacotes? Ainda não tem. Ele vai fazer o pacote pra gente poder comprar tudo. Esses livros aqui que são extremamente riquíssimos, cara. Você lê um livro desse numa sentada, não é Sócrates, você consegue de fato entender a ideia do que tá aqui, né? Sim. Busquem, porque esse cara aqui é um poço de oportunidade. Pelo menos eu sou um ignorante consciente. Obrigado, foi um prazerzão. Uma honra mesmo. Valeu, bro. Obrigado.

Você ficou aí, gostou desse episódio? Não esquece, verifica aí, se você tá inscrito. Se você tiver no Spotify, vê se você já valeu. A gente tem ajudado a gente a subir no ranking. A gente agora tá ali subindo nos ranks, mas agora a gente quer ir pro topo. Beijo para você e até a próxima semana. [Música]