Transcription
Sim, o conteúdo mais pedido finalmente chegou. Nesse vídeo, a gente vai começar a falar de forma mais detalhada sobre o famoso eletrocardiograma ou ECG. [Música]
E aí, pessoal, tudo bem com vocês? Eu sou Miriam Caut, professora, mestre, doutora e criadora do canal MK Fisiologia, um canal que tem como principal objetivo descomplicar a fisiologia humana, porque, como eu sempre digo, fisiologia não precisa ser difícil. Então, se você está precisando entender de verdade a fisiologia, já se inscreve no canal e ative as notificações para você não perder os próximos vídeos que a gente postar por aqui. Agora, sem mais delongas, bora começar a descomplicar o eletrocardiograma!
Bom, num vídeo anterior, a gente já viu que o eletrocardiograma nada mais é do que o registro da atividade elétrica não apenas de uma única célula, mas de todas as células cardíacas ao longo do tempo. E esse registro é obtido através de eletrodos colocados na superfície do corpo. Portanto, é através do eletrocardiograma que a gente pode ver onde está acontecendo a geração de potenciais de ação no coração, qual o ritmo da geração desses potenciais de ação e como esses potenciais de ação são conduzidos pelo coração.
Por isso, antes de tentar entender o eletrocardiograma, você precisa entender a eletrofisiologia do coração que a gente discutiu nos vídeos anteriores. Você precisa entender principalmente como ocorre a geração espontânea rítmica de potenciais de ação no marca-passo do coração, isto é, no nó sinoatrial. Você precisa entender também como ocorre a condução desse potencial de ação pelas fibras cardíacas dos átrios e pelo sistema de condução elétrico do coração: nó atrioventricular, feixe de His que se divide em ramo direito e esquerdo, e fibras de Purkinje, que finalmente conduz o potencial de ação pelas fibras cardíacas dos ventrículos, do ápice, que é a pontinha do coração, para a base do coração.
Se você quiser revisar esse conteúdo, eu vou deixar aqui no card, na descrição e no comentário fixado aqui desse vídeo um link para você assistir o vídeo anterior. Beleza? Mas se você já está ligado em como todos esses eventos elétricos acontecem no coração, você está pronto para entender o eletrocardiograma.
Bom, então, como a gente falou no início desse vídeo, o eletrocardiograma ou ECG é o registro da atividade elétrica do coração obtido através de eletrodos colocados na superfície do corpo.
Tá, professora, mas como exatamente esses eletrodos captam a atividade elétrica do coração? Para responder essa pergunta, eu vou fazer uma outra pergunta para você. Lembra que a gente podia medir também através de eletrodos, sim, o potencial de membrana? Isto é, a diferença de potencial elétrico através da membrana plasmática. Isto é, a voltagem entre o lado intracelular e extracelular da membrana plasmática das células. Para isso, a gente colocava um eletrodo de registro dentro da célula e um eletrodo de referência fora da célula, e esses eletrodos eram então acoplados a um voltímetro que registrava a voltagem entre os dois lados da membrana ao longo do tempo.
Quando a membrana estava em repouso elétrico, do lado intracelular da membrana havia um excesso de cargas negativas e do lado extracelular um excesso de cargas positivas. Como o eletrodo de registro estava do lado intracelular, a voltagem registrada pelo voltímetro era negativa. Porém, durante um potencial de ação, ocorreu uma inversão da polaridade em que, por um instante, o lado intracelular da membrana havia um excesso de cargas positivas e no lado extracelular um excesso de cargas negativas, e o voltímetro registrava momentaneamente uma voltagem positiva, já que o eletrodo de registro estava do lado intracelular da membrana.
No eletrocardiograma, os eletrodos também registram uma diferença de potencial elétrico ou a voltagem entre dois pontos, mas não é entre o lado intracelular e extracelular de uma membrana plasmática. Na verdade, no eletrocardiograma, os eletrodos registram a voltagem entre dois pontos do lado extracelular da membrana plasmática, ou seja, entre dois pontos que vão estar do lado extracelular da membrana plasmática das células do coração.
Como assim? Para simplificar, ao invés de eu pegar todas as células do coração, eu vou pegar aqui como exemplo apenas algumas células cardíacas, algumas fibras cardíacas. Eu vou colocar os eletrodos então do lado extracelular, ou melhor, do lado de fora dessas células.
Uma informação importante que você precisa saber é que o que a gente chama de eletrodo de referência é sempre ligado no polo negativo do voltímetro, e o que a gente chama de eletrodo de registro ou eletrodo de captação é sempre ligado no polo positivo do voltímetro.
Então, os dois eletrodos agora estão localizados do lado extracelular na membrana, sendo que o eletrodo de referência Positivo está mais próximo da fibra cardíaca um e o eletrodo de captação Positivo está mais próximo da fibra cardíaca quatro.
Durante a diástole, isto é, durante o período de relaxamento do coração, a membrana plasmática das fibras cardíacas está em repouso elétrico. Isso significa que tanto na fibra um quanto na fibra quatro, há um excesso de cargas negativas do lado intracelular e um excesso de cargas positivas do lado extracelular da membrana. E aí eu pergunto: você acha que existe diferença de potencial elétrico, ou melhor, existe voltagem entre os dois eletrodos quando a membrana dessas fibras estão tudo em repouso? Não, né? A voltagem registrada pelo voltímetro é zero, pois o eletrodo de referência e o eletrodo de captação detectam o mesmo excesso de cargas positivas.
Porém, durante a sístole, isto é, durante o período de contração do coração, um potencial de ação é gerado no nó sinoatrial e vai se espalhando pelas fibras cardíacas. Como a fibra um está mais perto do nó sinoatrial, o potencial de ação é gerado primeiro nessa fibra. E como a gente sabe, durante o potencial de ação, a membrana despolariza, causando uma inversão momentânea da polaridade da membrana. E quando isso acontece, perceba que próximo do eletrodo de referência vai ter um excesso de cargas negativas, mas próximo do eletrodo de captação ainda vai ter um excesso de cargas positivas. E aí, adivinha o que o voltímetro vai registrar nesse momento? Uma voltagem positiva, porque próximo do eletrodo de captação vai ter um excesso de cargas positivas e próximo do eletrodo de referência vai ter um excesso de cargas negativas.
Se ainda ficou difícil de entender porque a voltagem registrada nesse momento é positiva, você pode pensar que nesse momento a gente tem um dipolo, isto é, uma separação de cargas elétricas, negativas formando um polo negativo próximo da fibra um e positivas formando um polo positivo próximo da fibra quatro. Esse dipolo pode ser representado por um vetor que sempre aponta para o lado que tem o maior potencial elétrico, ou seja, para o polo positivo. E como durante a despolarização o vetor aponta na direção do eletrodo de captação, que é o eletrodo positivo, ele indica que lá está mais positivo e o traçado de registro sobe, vai para valores positivos.
Então, presta atenção na regrinha: sempre que o vetor do dipolo apontar na direção do eletrodo de captação positivo, o traçado do registro sobe, vai para valores positivos. E é por isso que nesse momento o traçado do registro sobe, indica uma voltagem positiva.
Mas agora, lembre-se que as fibras cardíacas estão conectadas umas às outras através de junções comunicantes que permitem uma rápida condução do potencial de ação, que logo é disparado também nas fibras dois, três e quatro. E aí, nesse momento, tanto o eletrodo de referência quanto o eletrodo de captação estão com excesso de cargas negativas, não tem mais diferença de potencial elétrico entre eles, logo a voltagem volta para zero.
Entretanto, contudo, todavia, lembre-se também que durante o potencial de ação, logo a membrana repolariza e a polaridade da membrana volta para a polaridade que encontramos no repouso elétrico, ou seja, excesso de cargas negativas do lado intracelular e excesso de cargas positivas do lado extracelular da membrana. Como a membrana da fibra um repolariza primeiro, adivinha o que o voltímetro vai registrar nesse momento? Uma voltagem negativa, porque agora a direção do vetor do polo, que sempre aponta para o polo positivo, aponta para o eletrodo de referência, porque próximo desse eletrodo é que está o polo positivo. E agora, como o vetor está apontando na direção do eletrodo de referência, que é o eletrodo negativo, ele indica que próximo desse eletrodo tem mais cargas positivas e, portanto, próximo do eletrodo de captação, que é o eletrodo positivo, tem mais cargas negativas, e por isso o traçado do registro desce e vai para valores negativos.
Finalmente, a membrana das fibras dois, três e quatro também repolariza, e nesse momento, tanto o eletrodo de referência como o eletrodo de captação estão próximos a regiões com excesso de cargas positivas, e aí não tem mais diferença de potencial elétrico entre os eletrodos, logo a voltagem volta para zero.
Então, nesse exemplo de um potencial de ação passando apenas por quatro fibras cardíacas, podemos concluir que durante a despolarização da membrana das fibras cardíacas, o vetor do dipolo formado aponta na direção do eletrodo de captação, eletrodo positivo, e o traçado do registro sobe e fica positivo. Mas durante a despolarização dessas membrana, o vetor do dipolo formado aponta na direção do eletrodo de referência, o eletrodo negativo, e o traçado do registro desce e fica negativo.
Esse é o princípio do eletrocardiograma. A diferença é que no eletrocardiograma o voltímetro é o eletrocardiógrafo, e os eletrodos não precisam ficar assim tão perto das fibras cardíacas. Como o meio extracelular pode ser considerado um bom meio condutor de eletricidade, os eletrodos podem ser colocados na superfície do corpo, porque as alterações da voltagem que acontecem na superfície externa da membrana das fibras cardíacas são conduzidas através do meio extracelular até a superfície do corpo, onde os eletrodos podem detectar essas alterações de voltagem.
E aí, dependendo de onde tiver o eletrodo de referência negativo e o eletrodo de captação positivo, o traçado do eletrocardiograma ao longo do tempo pode subir e ficar mais positivo ou descer e ficar mais negativo enquanto um potencial de ação for conduzido pelo coração.
Tá, professora, então se o traçado do eletrocardiograma depende da localização desses eletrodos na superfície do corpo, onde que esses eletrodos são colocados para se obter os registros do eletrocardiograma?
Bom, a localização desses eletrodos foi estabelecida lá nos anos de 1900 e bolinha por um médico holandês chamado Willem Einthoven, que padronizou os registros do eletrocardiograma colocando os eletrodos no braço direito, no braço esquerdo e na perna esquerda.
Nossa, professora, mas esses eletrodos não estão muito longe do coração? Não lembra que eu falei que o meio extracelular pode ser considerado um bom condutor de eletricidade? Então, se eu coloco os eletrodos nos braços, na verdade esses eletrodos registram as atividades elétricas nesses pontos aqui, ó, acima do coração, porque lembra que a eletricidade se espalha daqui para os braços. E se eu coloco um eletrodo na perna esquerda, esse eletrodo registra atividade elétrica nesse ponto central abaixo do coração, formando assim um triângulo ao redor do coração, o triângulo de Einthoven.
Tá, professora, mas para registrar a atividade elétrica do coração, a gente não precisa comparar a diferença de potencial elétrico, a voltagem, entre dois pontos? Nesse triângulo aí, a gente tem três pontos. Sim, a gente tem três pontos com eletrodos porque assim a gente pode registrar a atividade elétrica do coração em três diferentes direções que a gente chama de derivações.
Por exemplo, se a gente coloca o eletrodo de referência negativo no braço direito e o eletrodo de captação positivo no braço esquerdo, a gente pode observar a atividade elétrica do coração nessa direção que a gente chama de derivação um. Mas se a gente coloca o eletrodo negativo no braço direito e o eletrodo positivo na perna esquerda, a gente pode observar a atividade elétrica do coração nessa direção que a gente chama de derivação dois. E se a gente coloca o eletrodo negativo no braço esquerdo e o eletrodo positivo na perna esquerda, a gente pode observar a atividade elétrica do coração nessa outra direção que a gente chama de derivação três.
Então, é como se em cada registro dessas derivações a gente conseguisse ver a atividade elétrica do coração de vários ângulos diferentes. E aí, em uma derivação, eu posso, por exemplo, avaliar melhor a atividade elétrica dos átrios, e em outra derivação, eu posso avaliar melhor a atividade elétrica dos ventrículos. E olha só como em cada derivação as subidas e descidas, ou melhor, as ondas registradas no eletrocardiograma, mudam conforme muda a direção de observação da atividade elétrica do coração.
Ok, professora, mas agora o que que significa cada subida e descida, ou melhor, cada onda registrada em cada derivação do eletrocardiograma? Como esse vídeo já está ficando muito longo e cansativo, vamos fazer um intervalo para você processar todas essas informações. E aí, nos próximos vídeos, a gente continua e explica cada detalhezinho do registro do eletrocardiograma nessas três derivações e em outras derivações também.
Bom, então, resumindo tudo que a gente viu nesse vídeo, lembre-se que o eletrocardiograma (ECG) é o registro da atividade elétrica do coração obtido através de eletrodos colocados na superfície do corpo. Esses eletrodos registram a diferença de potencial elétrico ou voltagem entre dois pontos na superfície do corpo. Quando as fibras cardíacas despolarizam e repolarizam, criam-se um dipolo elétrico no coração. E se o vetor desse dipolo apontar para a direção do eletrodo de captação, o eletrodo positivo, o traçado do registro do eletrocardiograma sobe, fica mais positivo, gerando uma onda para cima. Mas se esse vetor apontar para a direção do eletrodo de referência, ou eletrodo negativo, o traçado do registro desce, fica mais negativo, gerando uma onda, uma onda para baixo.
Por fim, dependendo da localização desses eletrodos, lembre-se que podemos avaliar a atividade elétrica do coração em diferentes direções, ou melhor, em diferentes derivações.
Bom, a gente vai ficando por aqui. Então, não esquece de dar aquele apoio para a gente continuar descomplicando a fisiologia. Então, curte, comenta, compartilha e considere se tornar membro do canal. É só clicar no botão "Seja membro" para conferir os benefícios que a gente oferece em cada nível de assinatura. Beleza? E como sempre, qualquer dúvida pode deixar aí nos comentários que a gente tenta responder. A gente se vê num próximo vídeo. [Música] Abraço!
Bom, então, como a gente... Então, nesse momento... Nesse momento, não. Que isso, gente? É barulheira!