Transcription
E a criança chama Salvador. Oi. E a criança está no primeiro ano primário, e o atual fundamental. E a professora ensina a classe a fazer conta. E enquanto a professora faz isso, Salvador desenha a professora. E no intervalo, os colegas e Salvador jogam bola. E Salvador os desenha jogando bola. No final de semana, Salvador desenha os pais almoçando. Salvador desenha o tempo inteiro. Salvador desenha maravilhosamente para sua idade. Salvador é incrível. E Salvador adora desenhar. Parece que é uma natureza de desenhista. Salvador deu sorte; é do mesmo jeito que a goiabeira foi plantada num lugar bom para goiabeira. A professora de Salvador podia ter dado uma bronca em Salvador. Mas, em vez de fazer isso, ela dirigiu Salvador a um curso especial de desenho. E os colegas de Salvador poderiam fazer bullying, mas ao contrário, pediam que Salvador os desenhasse. E os pais de Salvador poderiam tê-lo advertido, advertido, mas ao contrário, compraram tudo que Salvador precisava para desenhar. Salvador foi encorpando, encorpando, encorpando, encorpando até virar uma mega blaster hiper goiabeira, e o desenhista mais perfeito que a sua natureza permitiu alcançar. Salvador usou a vida para se tornar Salvador Dalí. Eu poderia não ter acontecido. Ah, mas essa felicidade aí dos antigos exigem isso: o que você use a vida para buscar a perfeição de si mesmo. Oi. E a perfeição de uma goiabeira é tão de goiaba; é a perfeição de Salvador desenhando César Cielo nos 50 livre e o maestro João Carlos Martins. Eu teria usado a vida para buscar a perfeição na arte do piano, mas a vida não lhe sorriu. Sem se abater, foi buscar a vida na perfeição da arte da regência. Bom, e se tornou o nosso maestro. Em Aristóteles, então, chamará de excelência quando isso acontece; e quando você a cada dia tira o que de melhor a tua natureza autoriza tirar. E a excelência é a busca diária da perfeição, e portanto exige uma superação de si mesmo. Bom, e é só isso que conferirá à vida o seu colorido e a sua felicidade. É o contrário disso: empurrar a vida com a barriga e de costas para sua natureza. Você não tem ideia de qual seja a sua praia, e mesmo tendo a ideia, você se acovardou porque alguém disse para você que fazendo aquilo você não ia ganhar dinheiro, você não ia conseguir ficar rico, você ia morrer na indigência. Então você preferiu viver a vida que os outros mandaram. Ah, e por que isso é assim? A sua vida nada tem a ver com a tua natureza. Você tá preparado para dar goiaba, mas disseram que o ganho barato em você é da jabuticaba, porque a jabuticaba está com preço alto no mercado. Então você é uma goiabeira tentando dar jabuticaba. Como não rola, cada dia é insuportável de ser vivido. Oi. E aí você acorda segunda-feira já torcendo para que ela acabe. Depois, a partir de terça, você começa a torcer para que a semana acabe. Bom, e quando a semana acabar, você chamará de “happy hour”, é a hora feliz, é a hora que o trabalho acaba. Oi. Eu gostaria de perguntar para vocês se isso não os chula. Vocês imaginam que no mundo inteiro as pessoas chamam de felicidade a hora que o trabalho acaba? Não te parece estranho? Chulo, será? Parece. Eu fico, eu, como o louco, já estou acostumado. É, mas você dizer que a “happy hour” é sexta, 18 horas, na hora que o trabalho acaba… Eu digo que não há nenhuma chance do trabalho ser feliz. Pois então troque de trabalho. Mas o trabalho não foi feito para ser isso. Quem foi o imbecil que te disse isso? Quem foi? Porque vale a pena combinar: aquele que consegue ser feliz antes do trabalho acabar vive melhor do que você, que precisa esperar que o trabalho acabe para ser feliz.
E o Tiago é de Marília. E quando era criança, perguntaram na sala de aula: “Que que você quer ser quando crescer?” E Tiago disse: “Quero saltar com vara”. Imagine o bullying, velho! O olá, ele gosta de vara. Ver se a minha serve, não precisa de cumprida, a sua curta… E a pergunta para sua mãe se ela não gosta… E não sei o quê… Eu sei que Tiago não deu bola para a torcida. E aí ele começou a competir com as grandes potências do esporte. Ele perdeu, ele perdeu, ele perdeu, ele perdeu, ele perdeu, mas foi perdendo cada vez menos. E aí ele começou a competir em campeonatos mundiais. Ele perdeu, ele perdeu, ele perdeu, ele perdeu, mas foi perdendo cada vez menos. E até que num determinado momento ele só tinha um adversário: um francês que tinha ganho dele todas as vezes. O Tiago nunca tinha vencido um francês. E um francês chato. Francês de nariz em pé, francês chato, francês metido, francês… Eu não sei lá… E melhoram os jogos olímpicos do Rio de Janeiro. O francês teve a sua chance, teve a sua chance, reclamou da torcida, reclamou do hino, reclamou da comida, reclamou do calor, reclamou da vara, reclamou da coisa, grama, do… do… do pisante, reclamou de Lima, reclamou… Teve as suas chances, marcou seus pontos. Aí foi Thiago, mandou botar o sarrafo para cima do que o francês tinha conseguido. E na sua última tentativa, se ele passa, ele é campeão olímpico. Ele sai com a sua vara, ele sai correndo. Quando ele espeta a vara, ele sabe que espetou a vara da maneira mais perfeita que já houvera feito. A vara sob envergada com Tiago na ponta. Tiago sobe, sobe, sobe, sobe, sobe. O sarrafo aparece. Ele passa por cima do sarrafo. Ele se encolhe todo, ele não pode reservar lá no sarrafo. E quando ele percebe que ele já passou pelo sarrafo e o sarrafo não caiu, ele abre os braços. Oi. E ele diz claramente: “Supra”. Agora é essa. Essa é a eudaimonia de Aristóteles. E aí você tirar de você o salto perfeito, tirar de você a excelência, a tua natureza. Mais tamo junto, ó! E você vai dizer: “Pô, mas isso aí só serve para super-heróis”, não é verdade? E eu poderia estar ali atrás pensando: “Bacana vai, bacana vai ser quando eu voltar para casa”. E por quê? Olá, eu sou daqueles que ainda gosta de voltar para casa, mas até o momento em que eu voltar para casa eu tenho essa… dessa palestra para dar. É, deixa eu ir logo lá, passar a régua, dizer qualquer coisa, ia embora quando… então, finalmente, quando você tiver desaparecido da minha frente eu poderei ser feliz. E aí… e eu não sei se você percebeu, mas não é exatamente muito elegante da minha parte, mas eu te pergunto: se o comerciante chama de “happy hour” a hora que ele fecha a lojinha, se o bancário chama de “happy hour” a hora que ele fecha a agência bancária, se o carteiro chama de “happy hour” a hora que ele deixa a mochila dele nos correios e vai embora, se o outro chama de “happy hour” a hora que ele tranca a porta do negócio e cai fora, se todo mundo chama de “happy hour” a hora que o trabalho acaba… Porque eu não teria o mesmo direito, já que a palestra é o meu trabalho? Como é que você sabe? Você tá vendo que não é assim. E você tá vendo que não é assim. E você tá vendo que eu não tô aqui esperando o tempo passar. E você tá vendo que eu não tô aqui na expectativa de ir embora. Você tá vendo? Você sabe que se a minha vida tiver alguma chance de ser feliz é aqui, não depois, porque é aqui que eu vou fazer melhor que ontem, melhor aqui que na semana passada, melhor do que eu jamais fiz. Nenhuma frase será perdida, nenhum exemplo será em vão, tudo será adequado para tocar lisos os espíritos e, com isso, transmitir lisos que os pensadores pensaram. De tão bonito estou usando esse momento para tirar de mim a minha natureza, que não é de goiabeira, não é de… de nadador, não é de maestro, não é de desenhista, mas é a minha natureza de explicar dor, a minha natureza de explicar dor. Pois muito bem, é dentro desta natureza que eu estou aqui fazendo melhor do que eu jamais fiz. E por que não há nenhuma desculpa para não fazer hoje eu sou mais lindo, mais estudado, mais vivido, mais preparado, mais rodado, mais cascudo do que ontem. Então, e será melhor que ontem. E assim, degrau a degrau, sem pular nenhum, eu vou em busca de tirar da minha natureza de explicação, de explicar dor, a aula perfeita, a aula melhor, a aula excelente. E essa trajetória transforma a minha vida em alguma coisa colorida, desafiadora e feliz, longe de torcer para passar logo. Eu lamento que cada segundo tenha passado, porque é um segundo a menos em busca da perfeição.