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Como o Claude desbancou o ChatGPT após crise com Pentágono

Olhar Digital15:06

Transcription

E ainda falando sobre o assunto, as ameaças do governo dos Estados Unidos à Antropic causaram efeitos no mercado de inteligência artificial. Vamos agora aos detalhes.

O Claude, chatbot de inteligência artificial da Antropic, que ficou mais popular nos últimos dias. Para você ter uma ideia, o aplicativo atingiu o primeiro lugar na App Store da Apple de semana, desbancando o seu rival ChatGPT. A ascensão meteórica ocorreu após o Pentágono classificar a Antropic como risco à cadeia de suprimentos e depois o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ordenar que o governo federal parasse de usar produtos da empresa.

Esse aumento súbito de visibilidade acontece em meio a uma disputa pública sobre ética e regras de segurança no desenvolvimento de IA. Enquanto a Antropic enfrenta sanções governamentais por ter se recusado a flexibilizar suas regras de segurança para permitir o uso do Claude em operações militares, a OpenAI seguir o caminho oposto ao anunciar um acordo com o Pentágono. Isso gerou protestos e debates sobre liberdades civis no setor tech.

Como forma de tentar capitalizar esse interesse do público, a Antropic lançou nos últimos dias funcionalidades que facilitam a migração de usuários vindos de outras plataformas de IA, como é o caso do ChatGPT. Agora, o Claude permite incorporar o histórico de conversas de concorrentes. A empresa ainda liberou a memória de contexto para usuários da versão gratuita, o que antes era restrito ao plano pago.

Apesar do crescimento recente, o Claude ainda busca atingir o alcance de massa do ChatGPT, que possui cerca de 900 milhões de usuários semanais. Em termos de tráfego web, o chatbot da OpenAI recebe aproximadamente 30 milhões de visitantes por semana, um volume 10 vezes maior do que o registrado pela Antropic no mesmo período.

E vamos agora repercutir esse assunto na nossa coluna da semana, Olhar do Amanhã.

>> [música] [música] >>

E hoje vamos receber Dr. Álvaro Machado Dias aqui ao vivo. Ele que é professor da UNIFESP, neurocientista futurista e colunista do Olhar Digital. Vamos lá, Dr. Álvaro Machado Dias, muitíssimo boa noite. Tudo bem por aí?

Tudo ótimo, Marisa.

>> Dr. Álvaro, vamos falar um pouquinho sobre esse assunto que a gente acabou de falar na reportagem. Essa queda de braço entre Antropic e o governo dos Estados Unidos continua repercutindo e muito. Esse caso revela que estamos diante de uma nova fase nas discussões sobre essa dificuldade em estabelecer limites éticos no uso da IA. Dr. Álvaro.

>> Ai Marisa, eu não acho que é uma nova fase no debate ético, viu? Eu acho que o que tá sendo inaugurado é algo diferente. É a demonstração de que mesmo antes o tal do debate ético era sobretudo decorativo. Esse é o ponto. Olha só, até semana passada o papo era o seguinte, né? As empresas de IA publicavam seus princípios de uso responsável, governos acenavam com regulações, todo mundo operava numa base de negociações em que existiam limites simétricos, o limite das empresas, o limite do governo, que também era do melhor interesse do cidadão. O que aconteceu aqui do ponto de vista dos Estados Unidos foi a demonstração de que esse teatro ele, na verdade não se sustenta em fatos. Por quê? Porque na hora do vamos ver, eh, bastou a Antropic manter duas restrições bem concretas, né, que é rechaço a vigilância em massa de cidadãos americanos, não quaisquer outros, e rechaço ao uso decisório do Claude como sistema de puxar, né, de puxar o gatilho em armas autônomas para que o Pentágono respondesse de uma maneira muito, muito intensa. Ou seja, esse papo de simetria, de limites, de melhor interesse do público, né, do cidadão, foi por água abaixo, porque justamente o 50% do que diz Antropic é, olha, nosso sistema não pode ser usado para vigilância em massa do cidadão americano. E aí, qual foi essa reação? Eh, a reação foi declarar assim, no final das contas, que o Claude é um risco à cadeia de suprimentos do governo militar, especificamente. E que raios é isso? Essa é uma senha, essa é uma maneira de dizer que empresas que transacionam com o governo não podem ter relações comerciais com a Antropic. E qual que é o ponto? é que todos os os grandes fornecedores de servidores têm contratos militares com o governo. Então, na prática, se aplicada essa regra, levaria à asfixia da empresa do Dario Modei, porque afinal de contas, servidores são parte fundamental do stack, independentemente da questão de financiamentos e tudo mais, que também pode ser, enfim, eh, absolutamente problemática nesse sentido, porque é boa parte dessas empresas, além de tudo, investem na Antropic. Mas eu acho que é é sobretudo esse outro ponto que uma empresa foi classificada dentro de uma categoria que é para o banimento da da, né, é usada, por exemplo, para Huawei, para empresas chinesas que os americanos entendem como altamente perigosas. Então isso mostra que o teatro ético ele era bastante frágil e de fato ele podia implodir a qualquer momento.

Agora, Dr. Álvaro, a designação da Antropic como risco de cadeia de suprimentos pelo governo Trump criou um precedente raro, não é? Isso pode fazer com que outras companhias norte-americanas pisem no freio por temor das reações do governo, enquanto a China fica cada vez mais competitiva.

>> Eu acho que num certo sentido, sim, tá? Eu acho que tem uma verdade nisso, eh, nas duas coisas, mas a gente tem que separar os fenômenos. Então, vamos lá. Que empresas americanas pisam no freio? Bom, tem o pisar no freio, menos óbvio, que é, olha só, eu preciso tomar cuidado na minha relação com outras empresas que têm relações potencialmente sensíveis com o governo, porque eventualmente eu posso perder a oportunidade de seguir comercializando, investindo nelas, tá? Então, tipo assim, outras empresas pensando, olha o risco da Antropic ou qualquer outra se tornar ativo tóxico. Mas eu acho, como eu disse, que esse é secundário. Tem uma coisa muito mais óbvia que é a seguinte: é menos interessante eh do que parece ter contratos pesados com o governo, exceto se você topa as e enfim eh aquiescer a todas as regras impostas por aquela eh por por aquela por aquele governo específico, né? Por eh por por quem pelo mandatário, né? Em em que está efetivamente na presidência, não necessariamente por outros. Então esse é um ponto importante. A gente vê eh que o alinhamento ideológico hoje em dia conta muito mais do que no passado, tá? Isso é assim histórico de empresas que divergiam do governo e continuavam transacionando numa boa. Nos Estados Unidos, tá? Curiosamente no Brasil é bem menos assim. Hoje em dia a gente a gente não vê sinais disso, pelo menos não nessa intensidade. Agora, do ponto de vista da China, eh, é claro que há um reforço, eh, mas ele é indireto, porque esse reforço tá muito mais na linha de, olha, nós precisamos eh usar IAs open source, por exemplo, outros governos, empresas que estão espalhadas por outros países e assim por diante para evitar eh os riscos que emergem do fato de que uma IA comercial americana eventualmente pode ser estrangulada pelo seu próprio governo. governo ou até como uma chinesa poderia, só que a gente não vê nenhum indício disso acontecendo na realidade. Esse é um ponto que é inegável e também porque evidentemente tudo isso significa que tá tendo uma espécie de fusão entre o setor privado da inteligência artificial e e os militares nos Estados Unidos. Então, eh, é claro que há esse reforço da posição chinesa, porque os chineses investiram em open source e tá aí o que interessa para qualquer um que seja racional nesse momento. Só que não deixa de ser verdade que o Claude hoje em dia é muito superior a qualquer IA chinesa. Eh, então assim, também a gente tem que considerar essas coisas muito práticas. é muito superior, a distância tá grande na atualidade. Há uma expectativa de que o DeepMind saia com o seu novo modelo e essa distância se encurte, talvez até desapareça, mas no momento não é verdade. É também um ponto importante que a capacidade de fornecimento em massa de de inferência, né, ou seja, uso da IA é absurdamente grande no ChatGPT, é razoável no no Claude e é grande, talvez até absurdo, quase tão grande quanto na OpenAI hoje em dia. No Google, né, no Gemini, paradoxalmente, né, deveria ser maior, mas por uma questão de configuração na prática não é. Então assim, existem gargalos eh de atendimento. Se todo mundo fosse usar DeepMind nesse momento, que ou qualquer outra chinesa, eh a a capacidade de entrega seria muito menor. Ou seja, você escreve alguma coisa ali atrás, há governos usando APIs demoram muito mais para receber retornos, empresas também. Então, existem problemas hoje em dia na cadeia de suprimentos chinesa que ainda impactam a, né, a possibilidade eh deles do deles ocuparem esse espaço que parece que vai sendo criado aí pelo, sei lá, se tiro no pé ou pelo menos pelo conflito interno que surge nos Estados Unidos entre a a o universo privado das empresas e o governo.

>> Agora, até pra gente encerrar esse raciocínio, além de firmar o acordo com o Pentágono, não é, Dr. Álvaro, OpenAI agora também tenta se aproximar da OTAN. A empresa de Sam Altman saiu na frente dos concorrentes no que diz respeito ao desenvolvimento de IA com foco militar ou isso pode ser até um, como você diz, até um tiro no pé eh nesse tipo de alinhamento?

>> Olha, Marisa, na verdade a OpenAI não saiu na frente em termos técnicos. a Antropic que foi a primeira empresa de fronteira, né, Frontier Model, a operar nas chamadas redes classificadas do governo americano, tá? Isso acontece desde 2024. Isso é uma o mercado entende assim, né, que a coisa está acontecendo agora, mas não é verdade. Inclusive, eh, através da parceria com a Palantir, a Antropic fornece a inteligência que foi responsável, por exemplo, pela operação eh em Gaza, né? a gente tem 75.000 mortos, mais ou menos até agora. Uma parte eh de membros da facção terrorista, a outra enorme parte não é, mas isso eh veio a partir de de inteligência estratégica, eh, que tá, enfim, alimentada por por grandes modelos de linguagem, especificamente pelo Claude. Eh, a identificação de onde estava o Nicolas Maduro também foi feita usando Palantir e em última análise Claude. Eh, o o ataque a a ao Irã, que vale lembrar, né, os Estados Unidos ofereceram, forneceram a inteligência, né, mas eh quem matou o o Aotal Khamenei foram os israelenses, né? E e esse ataque eh ele também usou eh Palantir e o sistema todo de inteligência que envolve o Claude, entre outras outras tecnologias. Então eh a empresa do Dario Modei tá envolvida eh em em inteligência de estado há bastante tempo, assim e tem tem uma participação que eu diria que é mais relevante na prática do que a OpenAI. Então ela não saiu na frente. Só que o que a a OpenAI fez foi aproveitar esse vácuo político, né, com uma velocidade grande. E aí talvez tenha dado um tiro no pé. Por quê? Porque pegou muito mal, porque pareceu oportunista. Eh, o próprio Sam Altman falou que pare apareceu que aquilo pareceu desleixado e eu acho que ele tá certo. Pareceu desleixado e foi oportunista. Então, eh, enfim, eu acho que a reação tá acontecendo aí no mercado. A gente vê que, por exemplo, o Claude ultrapassou o ChatGPT em downloads na na Apple Store. Isso é muito indicativo. Há uma campanha global para deleção do ChatGPT, né, sobretudo nos Estados Unidos, por entender, né, que, enfim, é uma empresa que tá muito mais alinhada à vigilância em massa do cidadão do país do que a Antropic. E assim a gente vai vendo as coisas eh ganharem contornos que são diferentes daqueles que sugerem a oportunidade de, sei lá, ir rapidamente pegar o contrato, aproveitar o que tem de bom, a recompensa, por assim dizer, porque ela nunca é a última recompensa. Último ponto é o seguinte, do ponto de vista de OTAN, eh, claro que esse é o desdobramento lógico da aposta, né? E Sam Altman disse realmente numa reunião interna que buscava operar nas redes classificadas da aliança, pá, pá, pá. Mas um porta-voz foi logo corrigindo ele, dizendo que ele se equivocou e que eram só redes não classificadas. Ou seja, não é nada dentro do do cerne da OTAN, né? Eu acho que sobretudo o que isso traz é um ato falho à tona, tá? é é algo revelador das ambições de ser a infraestrutura de IA da OTAN aí o o verdadeiro sentido dessa colocação do Sam Altman não exatamente eh na na no entendimento de que esses são os fatos que estão se configurando.

>> Tá certo, Dr. Álvaro Machado Dias, mais uma grande participação aqui conosco com toda essa reflexão desse momento. Muitíssimo obrigada e na semana que vem teremos mais assuntos para falar aqui no Olhar do Amanhã. Tenha uma excelente semana, Dr. Álvaro.

>> Eu que agradeço. Semana que vem estarei no SXSW. De repente a gente traz alguma coisa de lá. Até.

>> Excelente. Ficaremos aqui então aguardando. Um beijo grande para você. Até.

Tá aí pessoal. Dr. Álvaro Machado Dias participando aqui conosco no Olhar do Amanhã com temas interessantes, como vocês já sabem. Semana que vem tem mais novidades no Olhar do Amanhã. Yeah.