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E é isso que a psicanálise faz no final das contas. O que a psicanálise possibilita é o acesso do sujeito àquilo que antes estava obscuro. A psicanálise importante é um procedimento de desvelamento.
Estava dando uma olhada aqui nos vídeos do canal e eu percebi que eu ainda não havia gravado um vídeo explicando de forma clara, acessível, didática, o que que é a psicanálise e, afinal de contas. Então, este vídeo é uma tentativa de preencher esta lacuna.
Bom, primeiramente, é importante que você entenda que esse termo psicanálise pode ser entendido em três acepções diferentes. Ou seja, nós temos três significados que nós podemos associar à palavra psicanálise.
A primeira acepção do termo psicanálise é um método de pesquisa. A psicanálise pode ser entendida como um método de pesquisa. Isso mesmo, um método de investigação. Mas de pesquisa sobre o quê? De pesquisa sobre o comportamento humano. Por meio da aplicação do método psicanalítico, nós conseguimos obter diversas descobertas a respeito de como as pessoas funcionam, a respeito de como a mente humana funciona, a respeito de como é o comportamento humano. Graças à aplicação do método psicanalítico, nós conseguimos obter este conhecimento. Então, nós podemos dizer que, numa primeira acepção, a psicanálise é um método de pesquisa.
A segunda acepção que nós podemos associar ao termo psicanálise é um campo teórico. Sim, a psicanálise não é a teoria, ela é mais precisamente designada como um campo teórico. Isso porque dentro do campo psicanalítico, nós vamos encontrar diversas teorias, muitas delas antagônicas entre si, divergentes. Nós vamos encontrar uma variedade enorme de raciocínios teóricos, de hipóteses, de conceitos. Então, é mais apropriado dizer que a psicanálise é um campo teórico do que dizer que ela é uma teoria. Nós até utilizamos essa expressão "teoria psicanalítica" nas nossas conversações do dia-a-dia, mas o termo mais preciso para designar o que é psicanálise desse ponto de vista teórico é campo teórico. Um campo no qual florescem diversas teorias, diversos raciocínios, diversos conceitos que muitas vezes... Oi, gente! Quando você compara, por exemplo, os postulados teóricos de Winnicott e os postulados teóricos de Freud, você percebe uma diferença e até algumas divergências entre esses dois autores. Então, é mais correto dizer que a psicanálise, do ponto de vista teórico, é um campo teórico. Um campo no qual florescem diversas formulações que tentam consolidar aquilo que se descobre a partir da aplicação do método psicanalítico, entendido como um método de pesquisa. Então, eu aplico a psicanálise funcionando como um método de pesquisa. Graças à aplicação desse método, eu obtenho conhecimentos a respeito da subjetividade, a respeito do comportamento humano. E esses conhecimentos que são obtidos pela aplicação do método psicanalítico, eles vão ganhar expressão teórica, uma expressão elegante, organizada, sistematizada nas diversas teorias que estão presentes no campo teórico da psicanálise.
Bom, e a terceira acepção do termo psicanálise é a acepção na qual eu pretendo focar aqui nesse vídeo, porque é a acepção que faz referência ao caráter clínico da psicanálise e faz referência ao primeiro sentido com que esse termo foi utilizado lá no final do século 19 pelo seu criador, pelo seu fundador, que foi um médico neurologista, Sigmund Freud. A psicanálise, nesta terceira acepção, pode ser entendida como um método psicoterapêutico. Esse foi o primeiro sentido com o qual o termo psicanálise foi utilizado lá no final do século 19. Sigmund Freud, médico neurologista austríaco, e like os canais, e como um tratamento para neuroses. Molhar é importante falar um pouco sobre esse termo, né? O termo neurose, ele designava certos quadros psicopatológicos lá no final do século 19 e início do século 20. Mais precisamente, pelo termo neurose, a gente está falando de histeria e neurose obsessiva. Essas categorias, tanto a categoria de neurose quanto a categoria de histeria e neurose obsessiva, não são utilizados hoje em dia fora do campo psicanalítico. Fora do campo psicanalítico, nós vamos encontrar outras categorias diagnósticas. Você pegar aí a CID-10, a Classificação Internacional de Doenças, ou você pega o DSM-5, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana, o que que você vai ver? Você for observar lá que não se fala sobre neurose e histeria sobre neurose obsessiva. Você vai encontrar outros, outras nomenclaturas como, por exemplo, transtorno dissociativo, transtorno conversivo, transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo. Esses dois termos, histeria e neurose obsessiva, que eram utilizados lá no final do século 19, eles hoje, eles abarcam uma série de quadros psicopatológicos diferentes. Isso fora do campo psicanalítico. Dentro do campo psicanalítico, nós continuamos utilizando esses termos.
E por que enfatizei que Freud criou a psicanálise para o tratamento da histeria e da neurose obsessiva, ou seja, para o tratamento de neuroses? Porque é importante que você saiba que a psicanálise não foi criada para dar conta de todas as formas de adoecimento psíquico. Não. Freud criou a psicanálise para o tratamento apenas das, apenas da histeria e da neurose obsessiva, que eram as duas neuroses que Freud distinguiu lá no fim do século 19 e início do século 20. E por que a psicanálise foi criada para dar conta dessas formas de psicopatologia? Porque nessas formas de patologia, os sintomas, as, as manifestações mórbidas dos pacientes são simbólicos. O que que significa? Significa que os sintomas na histeria e neurose obsessiva, eles são representantes de alguma outra coisa, que estão em símbolo, né? O símbolo é aquilo que representa outra coisa. Então, se você pega, por exemplo, a palavra Flamengo, né? A palavra Flamengo é um símbolo para o clube Flamengo, para o clube Flamengo. Tá tudo que é representado por essa palavra. Os sintomas da histeria e da neurose obsessiva, o que são? Símbolos. Ou seja, eles representam alguma outra coisa. E o que que é essa alguma outra coisa que eles representam? Conteúdos inconscientes. Freud descobriu que os sintomas dessas patologias, eles são a expressão simbólica e, portanto, disfarçada. Eles são a expressão simbólica de determinados conteúdos mentais que se encontram fora do acesso consciente do sujeito. Portanto, são conteúdos que se encontram naquilo que a gente chama na psicanálise de inconsciente.
Na psicanálise, nós trabalhamos com esse pressuposto de que a nossa mente, ela é dividida. Ela é dividida entre uma parte que é acessível à nossa consciência, então memórias, pensamentos, fantasias que são acessíveis à nossa consciência, dos quais nós podemos ter, e temos uma outra parte da mente que é inconsciente. Ou seja, que contém fantasias, desejos, pensamentos, memórias que não são acessíveis à nossa consciência. Bom, esses conteúdos que estão no inconsciente, que estão nessa parte inconsciente da mente, ele se manifestam na neurose obsessiva e na histeria. Eles se manifestam de modo simbólico, de modo disfarçado, através dos sintomas. Então, a psicanálise é um método que possibilita ao paciente ganhar acesso aos elementos que estavam, que estão no inconsciente. E ao ganhar acesso a esses elementos que estão no inconsciente, o sujeito, então, pode abandonar os sintomas. Os sintomas já não são necessários porque eles só são necessários enquanto esses conteúdos estão no inconsciente. E se o sujeito ganha acesso a eles, ou seja, se o sujeito consegue tomar consciência daquilo que estava no inconsciente, os sintomas já não são mais necessários.
Então, é isso que a psicanálise faz no final das contas. O que a psicanálise possibilita é o acesso do sujeito àquilo que antes estava obscuro. A psicanálise, importante, é um procedimento de desvelamento. Ela desvela aquilo que estava desvelado, que estava lá no inconsciente, que estava guardado, obscuro, que estava reprimido. Aquilo ganha possibilidade de acesso na vida do sujeito.
E como é que isso acontece? Como é que funciona na prática? O método psicanalítico é muito simples. É ir embora essa tarefa seja uma tarefa difícil, a tarefa de trazer o inconsciente para a consciência. E o procedimento técnico que nós utilizamos na psicanálise é bastante simples. O que que a gente faz? A gente pede o que o nosso paciente faça o que nós chamamos de associação livre. O que que significa isso? A gente pede que o paciente fale exatamente aquilo que lhe vier à cabeça, exatamente os pensamentos que passarem pela sua mente. Ou seja, a gente pede para que o paciente não organize a sua fala, para que o paciente não selecione aquilo que ele vai falar para o psicanalista. A gente pede que o paciente fale exatamente o que vier à sua cabeça. Ou seja, que ele apenas registre na sua fala aquilo que está passando pela sua mente. E por que que a gente pede isso? Porque quando o paciente não controla a sua fala, quando ele renuncia a esse controle que a gente utiliza no dia a dia, quando o paciente faz isso, o inconsciente, ele ganha mais facilidade para se manifestar. Justamente porque o paciente só está controlando, ele não está exercendo um controle consciente sobre a sua fala. E aí o inconsciente, que está o tempo todo querendo se manifestar, ele vai ter mais facilidade para se fazer presente na fala do paciente. Por que que isso é muito importante? Porque o que a gente quer, o objetivo do tratamento, é justamente fazer o paciente ter acesso àquilo que está no inconsciente. Então, se o paciente não controla a fala, se ele permite que essa fala aconteça de forma espontânea, ele gera mais facilidade para que o inconsciente se manifeste na sua fala. E assim ele possa ter acesso àquilo que está no inconsciente.
E o analista, o que que o analista faz? Por sua vez, ele vai utilizar um procedimento técnico que nós chamamos de atenção flutuante. O que que significa isso? Pense nessa ideia, né, da flutuação. Atenção flutuante significa que o analista não vai focar apenas em determinados aspectos do paciente em detrimento de outros. Não. A sua atenção, a sua escuta, vai flutuar ao longo do discurso do paciente. Ou seja, o analista, ele vai prestar atenção da mesma forma a tudo que o paciente diz. Daí a ideia de flutuação, né? A atenção vai flutuando no discurso do paciente. Isso por quê que é necessário? Porque o inconsciente, ele utiliza as mais diferentes palavras, situações, histórias para se manifestar. Então, se de repente o psicanalista presta atenção em alguma coisa e não presta atenção na outra, foca sua atenção em uma parte e menospreza outra parte do discurso do paciente, ele pode estar menosprezando exatamente aquela parte que o inconsciente está utilizando para se manifestar. Por isso é importante que o psicanalista preste atenção a tudo que o paciente diz. O porquê dessa forma, ele não vai perder nada. Ele vai ficar sempre atento a todas as possibilidades de expressão disfarçada, simbólica do inconsciente.
Bom, e aí o que que acontece? Fazendo associação livre, o próprio paciente pode começar a se dar conta daquilo que o inconsciente está dizendo através dele. O próprio paciente, fazendo associação livre, pensando sobre o que está dizendo, ele pode se dar conta. Mas em muitos casos, né, em grande parte dos casos, o paciente, ele não consegue se dar conta sozinho. Porque ele está falando, né, e prestar atenção ao que fala ao mesmo tempo, falar são duas tarefas que muitas vezes não são feitas de forma eficaz ao mesmo tempo, né? Então, por conta disso, muitas vezes o psicanalista, que está escutando com atenção flutuante, ele percebe a presença do inconsciente ali na fala do paciente e apresenta para o paciente aquilo que a gente chama de interpretação. O que que é interpretação? É o psicanalista trazendo para o paciente aquilo que ele acredita que é o que o seu inconsciente está tentando expressar ali na sua fala. É o próprio paciente pode se dar conta disso, mas em muitos casos o paciente não se dá conta e o psicanalista, por estar de fora e ouvindo com atenção flutuante, consegue detectar. E aí o analista, então, apresenta para o paciente uma interpretação, que é uma tentativa de mostrar para o paciente o que o inconsciente dele está tentando dizer.
Seja o próprio paciente se dando conta, seja a partir da interpretação do psicanalista, o objetivo principal aqui, o geral, do que a gente chama de psicanálise, de Insight. O que que é Insight? Insight é aquele momento em que o paciente se dá conta de algo que antes estava obscuro para ele, de algo que antes estava, portanto, no inconsciente. Então, o paciente percebe. E é um momento que os pacientes conseguem detectar muito bem, é quando acontece, porque ele representa uma espécie assim de clareza, né? O paciente detecta aquilo que antes estava obscuro, aquilo que estava no seu inconsciente. Isso pode acontecer, repito, tanto pelo próprio paciente sozinho, ali encadeando o seu discurso, ele se dá conta de alguma coisa, ou pode acontecer a partir de uma interpretação do psicanalista.
E um outro fenômeno importante que a gente precisa mencionar aqui também é o fenômeno da transferência. A transferência acontece em todas as relações humanas, em todas as formas de terapia, mas na psicanálise, ela tem uma importância maior, porque na psicanálise, a gente analisa a transferência, a gente trabalha a transferência. O que que é a transferência? Né? O que que você transfere aí, no final das contas? Transfere quando a gente fala de transferência entre psicanalistas, a gente está falando da transferência de padrões de relacionamento infantis para dentro do tratamento. O paciente, ele desenvolve lá na infância uma certa, certas maneiras padronizadas, fixas, repetitivas de se relacionar, seja com a mãe, com o pai, com o irmão, com pessoas significativas da sua vida infantil. E ele acaba levando esse modo padronizado, fixo, estereotipado de se relacionar com pessoas lá do passado para dentro do tratamento. E aí ele vai repetir, portanto, com o seu psicanalista, aquelas formas de relacionamento lá da infância.
Oi. E aí o que que o psicanalista faz? Nas outras formas de terapia, isso pode até se eventualmente detectado, mas não se faz nada com isso. Na psicanálise, a gente faz. Na psicanálise, o próprio paciente dificilmente ele percebe que ele está transferindo para o psicanalista formas de relacionamento lá da infância. O psicanalista, que está atento, que está escutando com atenção flutuante e está observando o comportamento do paciente, o psicanalista consegue detectar. E ao detectar isso, o analista pode formular uma interpretação transferencial. Ou seja, uma interpretação que faça referência àquele modo que o paciente está utilizando para se comportar com o analista. Por que que isso é importante? Justamente porque esse modo estereotipado de se comportar, esse modo fixo de se comportar, ele brota do inconsciente. Se o paciente não se dá conta dele, justamente porque ele tem a sua origem no inconsciente. Ele estava lá no inconsciente. Agora, ele se expressa visivelmente por meio do comportamento do paciente. Então, o analista percebe esse modo estereotipado e faz uma interpretação transferencial. Essa interpretação do psicanalista pode gerar um Insight. O paciente, portanto, ele pode se dar conta, ele pode perceber o que está acontecendo ali. E isso modifica a sua posição subjetiva e, consequentemente, produz a melhora, a evolução daquele quadro clínico que está sendo trabalhado ali, está sendo tratado ali.
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