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Bom dia, bom dia a todos vocês, garotinhos e garotinhas. Eu trago aqui para vocês mais um texto clássico da história da filosofia, um texto chamado "A Apologia de Sócrates". O autor é Platão, seu discípulo, seu discípulo. Eh, o meu nome é Leonardo Ferreira, Leonardo Zocarato Ferreira, já, se você ainda não me conhece. E eu estou aqui fazendo este projeto, a Escola de Filosofia, cujo link está aí embaixo. Eu dou aulas sobre alguns, alguns grandes textos da filosofia. Eh, é isso, é isso sobre "A Apologia de Sócrates". Vamos começar logo de cara, vai. Vamos começar logo de cara.
E se você me perguntar o que é "A Apologia de Sócrates", eu vou te responder o seguinte: "A Apologia de Sócrates" é a defesa de Sócrates. Defesa contra o quê? Sócrates, em um determinado momento em Atenas, por qualquer motivo, foi acusado. Abriram um processo contra ele. Um tal de Meleto acusaram Sócrates de duas coisas: Sócrates perverte a juventude, Sócrates não acredita nos deuses da cidade, Sócrates introduz novos deuses na cidade. Então, você imagina que, para o fulano ser acusado disso, ele já deveria ter, já deveria estar enchendo o saco de um monte de gente, né?
Vocês sabem que Sócrates se dedicava a ensinar aquilo que ele chama de "A Busca Pela Verdade". Ele se dedicava a ensinar filosofia, mas não em salas de aula, nas ruas. Algo que eu sempre tive vontade de fazer e sempre me, me faltou coragem. E pro meio da rua e ensinar. Qualquer dia, quando eu tiver perdido completamente a vergonha, eu faço. Sócrates fazia. E você sabe que quem se dedica assim a ensinar, uma hora ou outra começa a ter problemas, porque não é muito bom que as pessoas aprendam, sabe? Principalmente alguma coisa que pode fazê-las pensar melhor. Eh, esse tipo de gente não é muito querida por quem está no poder.
Então, quando acusam Sócrates de perverter a juventude, Sócrates já tinha sido, entre aspas, alertado sobre isso e tinha escapado por pouco. Assim, de, teve uma hora inclusive que ele, ele, ele recebe a ordem de não mais filosofar. Ele recebe outras ordens, ele descumpre essa ordem e quando ele seria punido, o governo que o iria punir é derrubado do poder e aí ele passa em branco. Mas dessa vez não teve jeito. Dessa vez Sócrates foi processado. E aí Sócrates teria que se defender num tribunal, no tribunal que, na verdade, era, era, era a praça, diante dos cidadãos todos de Atenas.
Então, "A Apologia de Sócrates" é o discurso de defesa de Sócrates. E aí existem dois bons motivos para você continuar assistindo essa aula e ler o texto. O primeiro é porque, como você pode perder a oportunidade de ver Sócrates se defendendo? Sócrates se defendendo. Essa é uma coisa. A segunda coisa, e aí vem muito de encontro com o que nós vamos fazer hoje, hoje na aula, é que o texto, muito mais do que trazer os argumentos de Sócrates para sua defesa, ele traz alguns elementos filosóficos preciosos. E são esses que nós vamos abordar aqui.
Mais uma dica que eu dou para vocês, uma dica que eu dou para vocês. No YouTube, não sei se já tiraram do ar, mas da última vez que eu vi, não faz muito tempo, tem um filme que retrata a vida de Sócrates no YouTube. Vocês podem entrar aí, digitem aí "Sócrates filme" ou "Sócrates completo", vai aparecer um filme que retrata, um filme italiano que retrata, inclusive, tá dublado, se eu não me engano, que retrata a vida de Sócrates. Então, se vocês querem, se vocês se interessam por isso, não é um filme de Hollywood, não adianta esperar explosão, bomba, foguete, carro explodindo, arma dando 300 tiros sem recarregar. Isso não tem no filme, não tem. Mas se vocês querem conhecer um pouco mais Sócrates, esse filme é interessante. Então, fica a dica, fica a dica. Tá?
Então, vamos começar a abordar os temas filosóficos. O primeiro tema que eu quero abordar é um tema que aparece logo de cara no texto. O texto logo de cara, logo de cara, aparece com uma interrogação. Na verdade, uma proposta que vai causar um, um grande debate, mas que vai ficar para a história. Sócrates começa a sua defesa falando o seguinte: "Olha aqui, gente, muita gente". Isso é Sócrates falando. Eu vou incorporar Sócrates algumas vezes nessa aula. "Muita gente", ele diz, "que veio aqui conversar com vocês, muita gente veio com o seguinte objetivo: persuadir vocês, convencer vocês. Convencer vocês caiu no, no chão, rolou, chorou, trouxe a filha para ficar chorando, trouxe a avó para dar depoimento, veio convencer vocês". O que que Sócrates esclarece? "Eu não vou fazer isto. O que eu trago a vocês é apenas uma coisa: a verdade. A justiça. A minha narrativa aqui vai ser rigorosamente o que aconteceu. Eu não vou mentir, eu não vou omitir, eu não vou enganar, eu não vou persuadir. E muito menos vou ficar fazendo aqueles malabarismos que os caras que me antecederam fizeram de ficar falando palavras bonitas, fazendo discursos, apelos emocionais. Isso eu não farei. Eu vou expor para vocês a verdade. E quem quiser me condenar, condena. Quem quiser me inocentar, me inocenta de acordo com a própria consciência."
Qual era a pena que Sócrates estaria submetido se ele fosse condenado? Pena de morte. Portanto, Sócrates põe sua vida em jogo em nome da verdade. Nas suas próprias palavras: "Não ouvireis de mim discursos enfeitados, de locuções e de palavras ou adornados como os deles que me antecederam. Estou certo de que é justo o que eu digo e nenhum de vós espera outra coisa senão a justiça. Depois, considerai o seguinte e só prestai atenção a isto". Isso é Sócrates. "Se o que eu digo é justo ou não, só considere isto: se o que eu digo é justo ou não." Essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador: dizer a verdade. A grande virtude do juiz e do orador, e aqui não é, é só juiz criminal ou juiz, é o juiz, é juiz no sentido daquele que julga a vida: diga a verdade sempre.
Então, gente, o que há no fundo aqui para ser discutido? O que existe é o seguinte: quando Sócrates, quando Sócrates afirma "Eu estou aqui para falar a verdade e só a verdade", o que que vocês percebem? É que Sócrates tem uma convicção. A convicção é: existe uma verdade para ser dita? Existe uma verdade absoluta que tem que ser afirmada? Existe uma verdade universal que vale sobre todos, que está, digamos, sobre nós e que impõe a nós a nossa consciência, o seu exame? Certo? Nesse ponto, surge uma das grandes discussões da filosofia. A discussão é: existe a verdade ou a verdade é relativa? E, portanto, não é verdade. A a expressão "verdade relativa" é completamente esdrúxula. Não pode existir uma verdade relativa ou uma meia verdade. Por quê? Porque a verdade é uma. Ponto. A verdade é uma. A verdade não pode ser uma parte. Ou é verdade ou não é. É a verdade tem essa característica: ela é una, ela não pode mudar, ela não pode estar ao sabor das mudanças. A verdade não pode mudar. Por quê? Porque senão não é verdade, né? Eh, eh, se no outro dia vira B e no outro dia vira C, então, então como dizer, qual era o, como dizer, o que ele era realmente? Não tem como. A verdade precisa de estabilidade.
Então, a pergunta que eu deixo para vocês pensarem é essa: uma pergunta clássica da filosofia: existe a verdade ou o que existe é uma interpretação? Vou dar elementos para vocês trabalharem. Perceba o seguinte: vamos considerar a questão da existência da verdade. Tudo bem. Existe uma verdade? Perceba uma coisa: quando eu afirmo que existe uma verdade, qual é a pergunta que eu sou obrigado a fazer? A pergunta é: aonde está esta verdade? Aonde eu encontro esta verdade? Então, a primeira constatação que nós temos é que a, é una e tem que ser una. Se a verdade não pode mudar, a verdade não está no mundo. Não está nos sentidos. Por quê? Porque o mundo muda sempre. O mundo é aquilo que em filosofia nós chamamos de devir, é algo que está em constante transformação. O mundo muda sempre. Esse restinho de café aqui, se eu deixar aqui, ele fica amargo. Eu mudo, eu envelheço, mudo. Tudo vai mudando no mundo. Tudo no mundo muda. Às vezes muda mais devagar, às vezes mais rápido, mas muda. Tudo é mutável no mundo. Portanto, a verdade não pode estar no mundo.
Então, esse ponto é um ponto chave. Você afirma a verdade existe, você precisa comprar no mesmo pacote a ideia de que existe algo fora do mundo, existe algo que transcende o mundo, que dá sustentação para a verdade que eu estou afirmando, que dá estabilidade, como se fosse o chão da verdade. Se para você afirmar que a verdade existe, você precisa afirmar que existe um terreno firme para apoiar a verdade, um terreno seguro, e esse terreno está fora do mundo. Por quê? No mundo nada permanece. Nada permanece. Tudo muda. Então, vai vendo, vai vendo. Qual é a conclusão disso? A conclusão é a seguinte: todo aquele que afirma a verdade absoluta, precisa crer. Cuidado com a palavra que eu estou usando, que é palavra polêmica. Crer, acreditar que existe algo que fundamenta a verdade. Crer aqui não é ter fé. Fé é uma forma de crença, mas crer aqui é acreditar que existe algo que fundamenta a minha verdade. Por que que eu tenho que acreditar? Porque eu não vejo. Porque ela não está no mundo. Porque ela não é provável. O que não significa que seja mentira. Eu tô dizendo que ela não é provável. Eu não posso prová-la. É improvável. É impossível de ser provada.
Aristóteles falou sobre isso. Toda a ciência, a ciência, vamos falar de ciência moderna, a ciência como conjunto de verdades que se aplicam universalmente, ela deve se apoiar sobre uma crença em determinadas verdades primeiras, vamos chamar assim. O que é muito interessante, porque em geral, os cientistas gostam de dizer que não têm fé, mas a própria ciência se apoia em crenças para que ela possa ter um terreno sustentável, um terreno que não se mexa. Você pode falar algumas crenças que a ciência apoia? Posso. Claro. Uma das crenças é famosíssima: a ciência, para acontecer, para poder existir, ela precisa acreditar, por exemplo, que os nossos sentidos corporais retratam exatamente o que eles estão vendo. Ela precisa acreditar que os nossos sentidos corporais são confiáveis e são confiáveis o suficiente para nos dar um retrato fiel do mundo. Ela precisa confiar que os nossos sentidos não são capazes de nos enganar a ponto de nós contestar a nossa capacidade de de construir um conhecimento claro. Porque se você chegar, como chegou Descartes, se você chegar à conclusão, Descartes, o pai do racionalismo, se você chegar à conclusão como chegou Descartes, que os sentidos nos enganam e que não há nada nos sentidos que possa ser seguro, então fodeu com a ciência. Fodeu com a ciência.
Então, existe uma crença geral, né? Quando você olha por, no microscópio, implicitamente você já aceitou que aquilo que os seus olhos vão ver é a verdade, é a verdade. E existiriam outras crenças? O mundo moderno tem uma transcendência interessante: uma espécie de Deus, a razão. A razão. Não sei se você percebeu, mas, e não há como provar que o homem é racional. Já parou para pensar nisso? Prove que o homem é racional. Não tem provas. Não sei se você percebe, quando a gente abre o corpo humano, a gente não acha a razão. A gente acha coração, pulmão, cérebro. A gente não acha a razão. E quanto mais a gente investiga o cérebro, mais a gente vai percebendo que, no fundo, aquilo que a gente achava que era um resultado da nossa liberdade racional é resultado de conexões cerebrais que determinam em nós resultados inexoráveis. E, claro, não faltarão aqueles que interpretam partes do cérebro como, como, digamos, amostras da razão. Mas a gente não encontra a razão. E muito menos não encontra aquilo que dá fundamento à razão, que seria uma alma transcendente. Eu não vou me estender sobre isso, porque isso é assunto para outras aulas. Mas, eh, eu aconselho que vocês leiam. Aconselho que vocês leiam um livro de Nietzsche chamado "Crepúsculo dos Ídolos", e lá tem um capítulo, se eu não me engano, é "A Razão na Filosofia", é o nome do capítulo. Leiam.
Voltando a Sócrates, quando você afirma uma verdade, você precisa afirmar algo que transcenda ao mundo, que possa sustentar essa verdade. O que que Sócrates afirmou que transcende o mundo? Um outro mundo que ele chamou de mundo das ideias. Então, Sócrates é assim: "Tá vendo esse mundo aqui? Nesse mundo, tudo muda". Aí vem alguém e fala assim: "Fodeu. E agora?". Aí Sócrates fala: "Não se preocupe, amigo. Não fique preocupado. Existe um outro mundo imutável, verdadeiro, eterno. E o mundo que nós estamos vendo é um mero reflexo deste primeiro mundo, deste mundo universal, eterno". Existe o mundo das ideias, e o reflexo dele é o mundo sensível, imperfeito, ilusório, sombras. Mas fica tranquilo, existe o mundo das ideias. Ah, mas onde está esse mundo? Tá aqui. Quer dizer, não tá aqui, mas as, as ideias estão aqui. Por quê? Porque o ser humano já esteve no mundo das ideias e quando ele nasceu nesse mundo aqui, ele se esqueceu. Então, o processo de conhecimento para Sócrates é um processo de relembrar o que você já conhece. Como assim? Um mundo das ideias perfeitas. Funciona assim, colega: você pega uma galinha A e põe aqui na mesa. Pega uma galinha B, B aqui, C, D, E, cinco galinhas. Uma é vermelha, outra é amarela, outra é branca, outra é preta, outra é marrom. Uma tem um bico maior, outra tem um bico menor. Uma é maior, uma é mais gorda, outra é mais magra. Como descobrir a ideia perfeita de galinha? Simples: pega tudo que essas cinco galinhas têm de diferente e tira o acidente. Tira. Fica só com o que há em comum entre todas as galinhas. Quer dizer, todas têm bico, todas têm duas pernas, todas têm asas, todas comem milho. Agora juntem. Junte todas essas comunidades e forme uma, digamos, uma imagem de galinha. É a imagem de galinha perfeita. Tá aí a prova.
Então, para Sócrates, existe uma verdade que transcende logicamente ao mundo. E você pode dizer: "Você tem outro exemplo para me dar de verdade?". Claro. O exemplo cristão é o mais óbvio. Agostinho vai falar: "Existe uma verdade absoluta". Aonde? Agostinho escora essa verdade em Deus. Deus existe. Deus é a verdade. E Deus é o que me possibilita afirmar a existência de uma verdade absoluta e universal. Ponto. Questão resolvida. Ah, mas e o Deus? Não, o Deus você crê. Aí, pô. Mas crê é a mesma coisa que fazem os modernos, os antigos, todo mundo crê. Crê na razão, crê na sociedade sem classe, crê no comunismo, crê no cosmos, crê no mundo das ideias. Crenças, crenças, ídolos, idealidades. A verdade precisa de uma coluna de sustentação que está fora do mundo. Por quê? Porque o mundo não é um sustentáculo seguro. O mundo é mutável. Nada que muda é seguro. Senão, a coluna cai. Perfeito.
Ora, do outro lado estão os sofistas, por exemplo. Por exemplo, que afirmam o seguinte: "Não, não, não, não, não. Não existe verdade absoluta. Não existe mundo das ideias. Não existe Deus. Não existe. O que existe são interpretações. Existe o mundo, existem seres que vivem no mundo, e cada um tem a sua visão, cada um tem o seu olhar, cada um tem a sua interpretação, cada um tem a sua opinião no mundo. Não há fatos, há interpretações". Acabou. Acabou. A esse tipo de pensamento nós chamamos de relativismo. É, é aquele, aquela coisa assim: "Não, eu tenho a minha opinião, você tem a sua opinião, ele tem a opinião dele, ele tem a opinião dele, e todos temos a nossa opinião, e todos temos o direito de ter a opinião". Olha que bonito. Não existe verdade, existem opiniões. Então, é claro, como existem opiniões, faça o que quiser, porque tudo que você quiser é a tua opinião. Não sei se você percebeu. O risco do relativismo. O risco do relativismo é esse. Quer dizer, bom, tá, se não existe verdade absoluta, por que que é errado te matar? Eu posso virar e falar: "Não, não é. Na minha interpretação, matar você era legal". Se não existe verdade absoluta, por que é errado roubar teu celular? Por que que é errado, eh, eh, chutar tua bunda? Por que que é errado, eh, comer teu pai? Por que que é errado, eh, xingar você? Por que que é errado ser preconceituoso? Por que que é errado fraudar a Previdência? Por que que é errado faltar, eh, eh, eh, receber o seguro desemprego estando empregado? Por que que é errado aceitar suborno? Não existem verdades absolutas. Não existe um critério julgador de todos. Então, eu faço o que quiser.
Então, perceba, se a verdade absoluta é meio, meio complicada de aceitar, o relativismo absoluto também é absurdo. Não significa que seja mentira, mas é absurdo. Então, o que que os homens fizeram quando começaram a perceber que não existe verdade absoluta? Sabe o que que eles fizeram? Começaram a criar acordos sociais entre eles. Aquilo que a gente chama de convenção. Convenções. Quer dizer, é mais ou menos assim: "Olha, não há verdades absolutas. Então, eu posso te matar, posso te ferrar, posso te roubar. Mas vamos fazer o seguinte: um mundo onde todos se matem, todos roubem coisas dos outros, todos te xinguem, etc., não é um mundo legal para ninguém. Então, vamos fazer assim: eu não te mato e você não me mata. Tá certo assim? Tá beleza? Toca aqui, legal". Não sei se você percebeu. A coisa não é mais "existe uma verdade absoluta sobre nós que determina e como é que vai ser a coisa". Que não somos nós que determinamos. Nós firmamos um acordo, uma convenção social, e decidimos como vai ser a vida. Decidimos como vai ser a vida.
Então, essa briga, essa briga é o que existe por trás da discussão que Sócrates começou. Por quê? Quando você afirma: "Não existem verdades absolutas, tudo é uma questão de conveniência social". Então, é o seguinte: "Quando a convenção social for me prejudicar, eu desrespeito ela". Acabou. Então, se eu sou um cara que está sendo acusado em Atenas e tem uma convenção social tal, eu minto, eu engano. Por quê? Porque eu não quero me ferrar. Então, eu minto, eu engano, eu ultrapasso, eu omito. Pronto. Então, essa é a discussão que existe aqui. Discussão que vai atravessar os séculos na filosofia: existe uma verdade universal e absoluta ou a verdade é uma construção humana e, portanto, depende dos seres humanos envolvidos na transação? Se tiver numa sociedade, vai ser uma coisa. Na outra sociedade, homossexualismo, uma sociedade é aceito, na outra não é aceito, na outra é reprimido fortemente, na outra é liberou geral. Como vai ser? Questão básica da filosofia é essa. Certo?
Ah, professor, mas qual é o certo? Do lado do que acredita na verdade absoluta, existem figuras como Platão, Sócrates, Agostinho, Tomás de Aquino. Do outro lado, figuras como Nietzsche, Marx, eh, os sofistas. Mas, professor, e eu? Eu que estou assistindo, de que lado eu fico? Sei lá. Eu sei lá. De que lado você fica? Pensa aí e decide, filho. Isso é um problema seu. Você acha que vai resolver esse problema para você? Não. E professor, e você? E você, de que lado você fica? Qual é a sua opinião? Eu, a minha opinião, eu não tenho opiniões. Não me pergunte nada. Eu não sei de nada. Eu não tenho opiniões. Eu sou um boneco, eu só reproduzo as coisas, eu só falo os textos. Eu não sei de nada. Eu não sei. Não me pergunte nada. Não falo de nada. Eu só sou aqui um reprodutor de informações. E você fica com, com a, você decide o seu lado. Tá?
Próximo ponto. Próximo ponto. Eh, o segundo ponto que nós vamos analisar aqui é o seguinte, é o seguinte: quando Sócrates começa a sua defesa, Sócrates começa afirmando o seguinte: Sócrates diz assim: "Sabe o que que é, gente? O que eu percebo é que existe um clima aqui de estranhamento com a minha pessoa. O que eu, Sócrates, estou percebendo aqui é que criaram para mim uma certa reputação que não corresponde com a verdade. Dizem, por exemplo, que eu sou arrogante. Eu não sou. Dizem, por exemplo, que eu sou soberbo. Eu não sou. Dizem, por exemplo, que eu sou orgulhoso. Eu não sou. Dizem que eu sou o mais sábio. Eu não sou. Mas existe um monte de gente falando isso, inclusive aqueles merdas, daquele, aquele merda daquele comediante, tal de Aristófanes, que fica fazendo comédia de mim, espalhando essa má imagem, fazendo palhaçada, tirando sarro de mim. E, infelizmente, eu percebo que vocês estão tão influenciados por ele. Então, agora eu, Sócrates, devo contar de onde veio a fama de eu ser o mais sábio". E aqui, gente, aqui começa uma das histórias mais interessantes da filosofia. Acompanhem comigo.
Sócrates começa contando o seguinte: "Em um determinado dia, incorporei Sócrates aqui. Então, vamos lá. Em um determinado dia, o meu amigo Querefonte, ele foi até o Oráculo de Delfos. O Oráculo de Delfos era uma espécie de vidente do mundo antigo, muito famoso. Ele tinha a fama de atender as grandes figuras da Grécia Antiga, os imperadores, os reis, os príncipes, todo mundo, os heróis. Todo mundo que tinha algum problema, algum mistério que queria solucionar, procurava logo o Oráculo de Delfos. O Oráculo de Delfos era uma espécie de mandá da Grécia, só que com a diferença que ele acertava, ele não errava. Ele não errava. Já a mãe de, eu um dia liguei para ela, ela perguntou quem era. Quer dizer, não pode. Como perguntou quem era? Eu deveria saber. A mãe de, enfim. Esse meu amigo Querefonte, ele foi para esse Oráculo de Delfos. E o Oráculo de Delfos, ele tem mais uma coisa: ele costuma responder ao que é indagado em forma de enigmas. Ele não vai te dar a resposta ali, ele te dá um enigma e você tem que interpretar o que ele disse. Então, o Querefonte foi até o Oráculo e perguntou para ele assim: 'Quem é o homem mais sábio do mundo?' E o Oráculo respondeu: 'Sócrates. Sócrates de Atenas é o mais sábio'".
Querefonte ficou tão entusiasmado que me contou isso. Mas quando eu ouvi isso, eu achei muito estranho. Por quê? Porque eu não me considero nada sábio. Eu até fiquei me perguntando: "Eu sou mais sábio? Puxa, se eu fosse o mais sábio, realmente, pô, deveria ter gente me adulando, deveria ter gente aqui me aplaudindo, eu deveria estar rico. Como é que eu sou mais sábio? Eu ando nas ruas, ninguém quer nada comigo, as pessoas até fogem de mim para não ouvir eu falando. Como é que eu sou mais sábio?". Então, Sócrates percebeu que precisava interpretar aquilo que o Oráculo tinha dito. Então, o que que Sócrates fez? Sócrates começou a procurar pelos ditos grandes sábios de Atenas. Sócrates procurou pelos aplaudidos sábios da sua cidade com o seguinte intuito: "Eu não me considero o mais sábio. Tem um monte de coisa que eu não sei. Aliás, a maioria das coisas eu não sei. Então, eu vou fazer o seguinte: eu vou encontrar esses grandes sábios, esses aplaudidos sábios, esses cortejados sábios, esses caras que têm sempre um monte de gente do lado, vou procurá-los e, e, e vou lá e vou conversar com eles, vou dialogar com eles, e certamente, se eu começar a dialogar com eles, eu vou perder a discussão. E aí eu vou ter provado para mim mesmo que eu não sou tão sábio assim, que o Oráculo errou".
Acontece o seguinte: quando Sócrates procura esses grandes homens, o que que ele percebe? Quando ele começa a falar com eles, começa a indagá-los, por exemplo: "O que é a justiça? O que é a beleza? O que é o bem?". Quando Sócrates começa a fazer essas perguntas, o que que ele percebe? Ele sabia que não sabia a resposta, mas ele percebe que os caras, a quem os caras, os quais ele indaga, tão pouco sabiam. Então, um exemplo clássico é o diálogo dele com Ipias. Com Ipias Maior. O diálogo é assim, é, é divertido até. Lei o diálogo. Ele está lá andando, e aí ele passa do lado dele Ipias, todo bonitão, com aquelas roupas belas, cheio de gente do lado, algumas mulheres dando autógrafo, tirando foto, etc. paparazzo tirando foto dele. Tudo aquilo Sócrates vê, ele chegando assim e já manda: "Olha o belo Ipias se aproximando". E aí Ipias responde: "Ô Sócrates, eh, que bom te vê-lo". E aí Sócrates: "Para onde você está indo?". Ipias fala: "Ah, eu estou indo lá para o ginásio, eu vou fazer um discurso aos heróis gregos e, e, e eu acredito que esse discurso será muito bonito, muito belo". Sócrates diz: "Hum, discurso que vai ser muito belo, então certamente você sabe o que é a beleza. Você pode me ajudar? Tô procurando aí". Ipias fala: "O que é a beleza? Uma bela virgem". Tá aí. "O que é a beleza?". "Uma bela virgem". Sócrates: "Uma bela virgem? Uma boa resposta. Mas vem cá, me responde uma coisa: um cavalo belo é belo?". "Claro que é belo". "De Ipias, uma panela bela é bela?". "Claro que é bela". Sócrates: "Uma panela bela é bela, mas eu não sei porque você quer comparar a beleza de uma panela com a beleza de uma bela virgem. É óbvio que diante da bela virgem, uma bela panela fica feia". E Sócrates: "Puxa, mas que curioso, porque diante de um Deus, a beleza da virgem fica feia". E Ipias falam: "É claro". E Sócrates: "Mas eu não entendi. Você tinha me dito que a beleza era a bela virgem, e agora nós chegamos à conclusão que a virgem é feia. Mas a virgem não pode ser feia e bela ao mesmo tempo. Então, por favor, me esclareça o que é a beleza". Percebeu? Notou, ou não? Você percebeu que Sócrates acabou de quebrar Ipias no meio? E não foi só com Ipias que ele fez isso. Ele fez isso com Ipias, fez isso com, eh, os sofistas todos, fez isso com políticos. Ele procurou poetas, comediantes, políticos. Ele procurou todos aqueles que eram aplaudidos e que eram chamados de sábios. E de todos eles, ele ouviu esta mesma estranheza, essa mesma contradição.
O que que ele percebeu? Ele percebeu que ali existiam várias pessoas que eram chamadas de sábios, que eram reconhecidas como sábios, que eram aplaudidas, mas que, no fundo, não sabiam o que estavam dizendo. O que diziam era até muito bonito. Eles falavam bonito, engomadinho, andavam bem, abanando aqui o negócio, abanando. Ele, muita gente do lado, muita foto, muita bebida. Faziam discursos belos, emocionavam as pessoas. E muito legal, adornavam os discursos. Coisa que eles poderiam falar em uma frase, falavam em cinco. Tudo muito bonito, tudo muito legal. Mas, eh, a verdade mesmo não tinha. Quer dizer, Sócrates começa a perceber que as pessoas ditas sábias se preocupavam muito mais com a estética do discurso do que com a, a verdade, do que com o que o discurso tinha de verdade. E quando Sócrates leva essa discussão às últimas consequências, ele mostra, não para eles, mas para ele, Sócrates, que esses ditos sábios não sabem nada. Só que com uma diferença: com uma diferença. Além deles não saberem nada, eles ainda não sabem que não sabem. Ou seja, eles não têm consciência da própria ignorância. Percebeu?
Então, qual é a sabedoria de Sócrates? Por que o Oráculo fala que Sócrates era o mais sábio? Não é porque Sócrates detinha a sabedoria. É porque Sócrates tinha consciência da sua ignorância. Enquanto aqueles que ele indagava não sabiam que não sabiam. Sócrates também não sabia. Porque Ipias vai falar: "Bom, Sócrates, tá bom, você tá me perguntando aí, então, o que é a beleza?". E Sócrates responde: "Eu também não sei. Eu não sei. Eu tô procurando aí, mas não encontrei ainda". Então, Sócrates não tem a sabedoria, como os outros também não têm. Mas Sócrates, pelo menos, sabe disso. Pelo menos isso. E aí Sócrates percebe. E aí existe aquela frase famosa: "Só sei que nada sei". Essa é a sabedoria de Sócrates. Eu só sei que nada sei. Aqueles lá, nem isto. Nem isto. E qual é o problema? Lógico. Quando você acha que sabe, você não busca mais o conhecimento. Quem busca o conhecimento? Quem sabe que é ignorante. E é essa, é isso que é o filósofo para Sócrates. O filósofo não é o homem que sabe da sua sabedoria. Esse é o Deus. Os deuses são assim, eles sabem e eles sabem que sabem. Mas o filósofo também não é aquele que ignora a sua ignorância. Quer dizer, ele é ignorante e não sabe que é ignorante. Então, ele acha que é o sabichão. Então, ele não procura mais conhecimento, porque ele acha que o que ele tem já dá. Sócrates é o ignorante, mas que pelo menos tem, tem consciência da sua ignorância. Então, ele está a um passo além desses outros. E aí ele passa a entender as palavras do Oráculo. História famosíssima.
E aí Sócrates começa a pensar: "Por que será que o Oráculo fez questão de dizer isto?". Por uma razão muito simples: o que o Oráculo quer expor é a fragilidade do conhecimento humano. Ou seja, o conhecimento humano é muito limitado, muito limitado para alcançar a verdade. O que Sócrates está dizendo, está concluindo com as palavras do Oráculo, é que a sabedoria tem pouco mérito humano nela. O ser humano é, por excelência, um ignorante. E assim, o máximo que ele consegue é a consciência da sua ignorância. E aí passa a buscar a verdade. Dedica-se à busca pela verdade. É o máximo. Sem nenhuma almeja. E aí, meu amigo, quando você faz isso, é muito presunçoso da sua parte falar que você tem a sabedoria, falar que você é o sábio.
E agora, você vai entender a crítica que Sócrates faz aos sofistas. Sócrates fala o seguinte: "Como é que pode os sofistas cobrarem para ensinar? Como pode? Como pode os sofistas cobrarem para ensinar?". Por quê? Porque eu só posso cobrar para dar ou vender aquilo que eu tenho. Se eles não têm a sabedoria, como pode eles cobrarem? Ou seja, eles enganam seus alunos. Quer dizer, são os filhas da puta de carteirinha. A raiva de Sócrates dos sofistas, nem, nem eu, nem ele, eles sabemos de nada. A eles ainda vendem o nada. E é claro, tem idiota que compra. Ah, ainda bem que é só lá, né? Ô, professor, ainda bem que é só lá que teve isso. Ainda bem que hoje não tem idiotas comprando idiotice, né? Ufa. Ainda bem.
E por que que Sócrates contou tudo isso? Porque Sócrates vai dizer assim: "Olha, colegas, eu denuncio, denuncio diariamente a presunção desses homens ditos sábios, desses chamados detentores da sabedoria. Eu denuncio todos os dias a farsa que é isso. Eu digo que esses caras são presunçosos, não sabem de nada, ficam falando frases bonitas que não querem dizer nada. Esses caras são ignorantes e não sabem da sua ignorância. Eu denuncio isso. E é por isso que eu estou aqui nesse tribunal. É por inveja que esses caras me botaram aqui. Isso é Sócrates. É por inveja que me botaram aqui. É por raiva. É porque eu digo a verdade que eles me botaram aqui". Gostou? Sócrates usa esse primeiro argumento brilhante, brilhante, certo?
Outro ponto que nós vamos abordar é a relação de Sócrates com a morte. Sócrates com a morte. Por quê? De onde saiu isso? Porque é o seguinte: quando Sócrates é condenado, ele é condenado. Ele fez esse discurso aqui, mas não adiantou nada. Ele foi condenado. A pena inicial era a pena de morte. Aí alguém vira para ele e fala o seguinte: "Ô Sócrates, vamos fazer o seguinte: eu não quero ficar para a história como o cara que matou o Sócrates. Então, vamos fazer o seguinte: vamos trocar essa pena sua por uma multa. Você paga multa e sai numa boa. Que que você acha?". Sócrates disse: "Mas eu sou pobre, eu não tenho dinheiro para pagar. E os seus amigos? Meus amigos são tão fodidos como eu". Aí o cara continua: "Tá bom, entendi. Vamos fazer o seguinte: tem outra proposta. E você se exila da cidade, foge da cidade, vai embora da cidade, nunca mais volta". Sócrates retruca: "Ah, não, mas também não quero fazer isso. E vou para onde? Se as pessoas não me aturam aqui, imagina lá nos lugares. Vou ficar andando pelo deserto? Não, não quero, não quero". Aí Sócrates continua. Não, o camarada tá conversando com ele. Continua. "Tá bom, vai. Vamos fazer o seguinte, então: a gente troca a pena de morte pela sua liberdade. Tudo bem. Mas com uma condição: você não abre mais a boca para falar de filosofia. Você não abre mais a boca para ensinar ninguém. Você não abre mais a boca para ensinar os jovens. Você sobrevive, mas não abre mais a boca". E Sócrates diz: "Não. Prefiro a morte".
Você aí que está ouvindo isso, talvez você esteja dizendo assim: "Que babaca! Que babaca!". Mas veja a convicção de Sócrates. Quando você for agir, de Sócrates, não se preocupe com as consequências do que os seus atos podem ter para você. Não se preocupe em perder emprego, não se preocupe em perder namorada, não se preocupe em perder bens, não se preocupe em morrer, não se preocupe em ser preso, não se preocupe com nada. A única preocupação que você deve ter é se você está agindo justamente ou injustamente. Não é justo que eu, eh, aceite nenhuma dessas conversões de pena. Eu vou aceitar o meu destino. Por quê? Se eu aceitar essa conversão de pena, é como se eu tivesse confessando minha culpa, e eu não sou culpado. Eu sou inocente. Eu não perverto a juventude, não desacredito dos Deuses.
Eu quero que você entenda uma coisa: o que Sócrates está passando aqui é um dilema que todos nós passamos em vários momentos da nossa vida. Se você não passou ainda, vai passar. Fique tranquilo. O dilema é o seguinte: em vários momentos da nossa vida, impõe-se a seguinte decisão: escolho eu os meus princípios, aquilo que eu acredito, aquilo que eu considero a verdade, ou abro mão dos meus princípios em troca da minha sobrevivência, do meu cargo, do meu posto, da minha segurança, da minha mulher, etc.? Falo a verdade e corro o risco de perder tudo de material que eu tenho, mas salvo minha alma. Ou minto e preservo tudo de material que eu tenho, mas aí a minha alma fica prejudicada. Esse dilema todo mundo passa. E se você ainda não passou, você vai passar.
Situações do tipo: toma conhecimento de que um dos seus colegas está metendo a mão na cara dura. Ele tem duas opções: calar-se ou denunciar. Só que se ele denunciar, ele vai comprar uma briga capaz de ser morto, capaz de ser de levar um tiro, capaz de ser denunciado também, capaz de ser esculachado. Pode acontecer diversas coisas com ele. Então, que que você escolhe? Falar a verdade ou mentir ou omitir? Jogar o jogo? Jogar o jogo ou bater no, bater o pé e falar: "Eu, eu, eu só jogo o meu jogo"? Botar a lama na sua cara ou virar as costas para a lama? Dilema. Também. Sócrates tem a sua resposta: "Existe a verdade, existe a justiça. Faça o que é certo. Dane-se o mundo. Faça o que é certo". Sabe por quê? O importante na vida é você ser justo, correto. Porque o homem, segundo Platão, é corpo e alma. A alma se interessa pelo que é justo, correto, etc. O corpo busca a própria preservação. Só que o corpo, uma hora ou outra, morre. E a alma é imortal. Portanto, é melhor você garantir a imortalidade do que a sobrevivência momentânea. Cuide da sua alma. Faça bem para sua alma. Ponha a saúde da alma à frente da saúde do corpo.
"Ah, mas se eu falar a verdade, eu vou perder meu emprego". É, mas se você mentir, você vai perder tua alma. Escolha. Para Sócrates, se você falar a verdade, você será condenado à morte. Eu vou ser condenado à morte. Eu devo ser justo. E aí Sócrates usa um argumento que é muito legal, cara. Esse é porque Sócrates fala assim: "Ora, pensando bem, por que que eu devo temer a morte? Por que eu devo ter medo de morrer? Por quê? Porque de duas uma: ou a morte é um nada, é um sono eterno, nós não sentimos nada, e aí tanto faz, quanto fez. Ou quando eu morrer, eu vou para um lugar melhor. E aí, puxa, aí é uma maravilha morrer. Por que que o ser humano fica com tanto medo de morrer? Ou não acontece nada, e aí tudo bem. Mas se tiver um outro mundo, um mundo onde os mortos, os que já morreram, estão lá. Nossa, esse mundo deve ser, cara". Diz Platão, ele diz assim, mesmo Platão: "Esse mundo deve ser". Você imagina que legal ir para o mundo dos mortos e encontrar Homero, os grandes heróis? Como é que eu não vou querer morrer? Por que eu vou temer a morte se eu tenho essa chance? Alguém sabe o que acontece depois da morte? Não. Mas pode ser do. Como é que ninguém pensa nisso? Imagine você morrer, aí você acorda, você se vê num lugar. Puxa, imagine você começar uma conversa com Tomás de Aquino, com Kant. Imagine você ter a oportunidade de conversar com, e Sartre, com Schopenhauer. Imagina que legal conversar com Schopenhauer. Schopenhauer deve ser velho. Imagina, imagina você poder ouvir uma conversa entre Agostinho e Nietzsche no mundo dos mortos. E você é imortal. Ainda. Você não sente dor, não sente angústia, não sente desespero, não sente tristeza. A morte é do. Por que que eu vou ter medo dela? Segundo Sócrates, a morte é a liberação da alma desse mundo e desse corpo. Isso é Sócrates. Quer dizer, eu estou num corpo, eu sou uma alma, e esta alma está prisioneira neste corpo. O corpo é para mim uma jaula que aprisiona a alma. A alma, com a sua beleza, a sua capacidade intelectiva, a sua racionalidade, ela é, mas ela é limitada pelo corpo. Quando eu começo a pensar, eu sou obrigado a me preocupar com xixi, com cocô, com ir no banheiro, com alimentação, com limpeza. Olha que saco! Meu corpo é um estorvo, é uma bagagem para mim. O que que é a morte? É largar a bagagem e voar. Voar. Além do mais, tem esse mundo de merda. Com a morte, eu vou estar livre de tudo isso. Imagine que legal não ter que ouvir mais Michel Teló. Imagine que legal não ter que ouvir mais a voz do Faustão. Imagine não ter que ouvir o Galvão Bueno. Imagine não ter que ouvir os comentários do Arnaldo César Coelho. Imagine só, não ter que ouvir o vizinho ouvindo funk, forró, que pariu. Por que temer a morte? Não há motivos. Portanto, se morreu, morreu. Eu quero viver. Quero isso. É Sócrates. Tá? Mas se morrer, nossa, que legal, velho. Legal para caramba. Ou não? Ou é um nada? Ou é um show? Um show. Pô, vou poder conversar. Eu vou poder conversar com Heidegger. Ou você ainda preocupado com a morte?
Porque é claro, é claro. Depois ele vai falar isso. "É aqui na terra". Isso é Sócrates falando. "Isso parece muito o cristianismo, mas não é. Aqui na terra, eu sou julgado por vocês. Só que o julgamento de vocês é imperfeito. Por quê? Porque vocês são imperfeitos, porque a carne é imperfeita". Legal. Mas lá no mundo dos mortos, lá no Hades, eu sou julgado pelos juízes. E esses juízes vão julgar o quê? Meu corpo? Não. Minha alma. E aí eles vão ver o quê? Se eu fui justo, se eu fui correto, se eu fui honesto, se eu busquei a verdade. Esse é o que eles vão avaliar. E é para sempre. Esse julgamento. Então, para melhor saúde da minha alma, para o bem da minha alma no pós-morte, é melhor que eu seja justo. É melhor que eu seja justo.
E se você me perguntar se eu quero trocar uma sobrevida. Sócrates já era velho quando ele foi julgado. Eu acho que ele deveria ter uns 70 anos. Se você quer trocar, mas sei lá quantos anos que eu vou viver aqui, 10 anos no máximo. Se você quer trocar isso pela saúde da eternidade. Se você quer dizer que eu não vou poder filosofar vivendo aqui, eu quero que você se enfie o seu mundo no cu. Eu não quero ficar aqui. Então, se é para trocar uma sobrevivência sem a filosofia, sem a busca pela verdade, pela morte, eu prefiro morrer. Por uma das frases mais bonitas do texto: "Uma vida sem esse exame não é digna de ser vivida". Uma vida sem a busca pela verdade não é digna de ser vivida. A razão da vida do homem é a busca pela verdade, é o uso da sua razão, é aquilo que nos faz humanos. Se eu sou impedido de fazer isto, eu não tenho por que estar aqui. Então, não me diga que eu vou sobreviver sem a filosofia, porque não vou. Nada me vale sobreviver sendo injusto e desonesto. E nada me vale sobreviver se eu não posso exercer a minha humanidade. Filosofia, busca pela verdade, o uso da razão. Portanto, com todo o respeito que eu lhe devo, senhor juiz, pegue a sua, a sua vida, seu mundo, enfie no teu rabo. Eu não me interesso por isso. Eu não abrirei mão das convicções plenas em nome da minha vida curta.
E aí, no final das contas, Sócrates dá uma zoada ironizada nos juízes. Ele fala o seguinte: "Você quer saber de uma coisa? Já que vocês querem saber qual deveria ser a minha pena, eu digo: eu sempre fiz o bem para essa cidade aqui. Ensinei as pessoas, eduquei, melhorei o nível das pessoas, botei Atenas no mapa, porque eu sou Sócrates fodão. Você quer saber qual deveria ser minha pena? A minha pena é o seguinte: eu deveria ser aplaudido de pé, como são os, os vencedores das Olimpíadas", ele fala isso. "E eu deveria ser sustentado pelo Estado, como eles". Essa deveria ser minha pena. Mas como eu sei que se vocês não me dão isso, pode me condenar à morte". E aí Sócrates é condenado e é morto, e vai para o mundo das ideias. E nesse momento em que conversamos, Sócrates deve estar lá conversando com Boécio e outras figuras mais. Eu pagaria para ver uma conversa de Nietzsche com Sócrates. N com Sócrates. Que tá?
Então, é isso, meu povo. É isso. Essa foi "A Apologia de Sócrates". Leiam e comentem, correto? Então, é isso. Muito obrigado pela atenção de vocês. Eu fico por aqui. Numa próxima aula, a gente se fala. Adeus.