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Boa noite, pessoal. Sejam bem-vindos a mais um encontro, mais uma aula aqui no nosso clube de leitura. Hoje os nomes está diferente lá na tela, né? Academia Filosófica. Eu vou explicar o porquê. Mas muito obrigado pela presença de vocês em mais uma obra que estamos começando por aqui, nosso terceiro livro de 2026, o manual de epiteto de Flávia Riano.
Esse livro ele tem vários nomes, né? Tanto que acabou causando uma certa confusão nos grupos. Porque nós o chamamos de manual de picteto, o chamamos de enquidion, que do latim significa aquilo que está à mão, que tem praticamente a mesma tradução de manual. Nós muitas vezes confundimos o autor, é Epicteto ou é arriano, quem foi que escreveu? Tudo isso nós vamos explicar hoje. E eu gostaria de saber de vocês, quem já começou a leitura desse livro.
É um livro extremamente curto. É um livro que o próprio PDF que eu disponibilizei para vocês tem apenas 15 páginas. Ele é um compilado de 53 aforismos que foram anotados por Flávia Riano, o discípulo, o aluno de Epiteto, que foi um pensador históico. E diante disso, eu pensei o seguinte: "Eu vou fazer um módulo apenas sobre o estoicismo com base em epicteto. Já que o pensador tem uma obra bem enxuta e não dá para dissertar sobre ela durante um mês porque seria muito alongado, vamos falar sobre o tema mais completo que ela está instaurada, que é o estoicismo. A mesma coisa que fizemos lá em dezembro do ano passado, quando lemos carta sobre a felicidade de Epicuro, onde a obra também era bem curta. E nós não falamos somente sobre o livro, falamos sobre o epicurismo como um todo."
E é por isso que eu estou com esse material aqui, que é o material da nossa academia filosófica. um outro projeto que nós temos por aqui e depois eu dou uma pincelada sobre ele, onde nós estudamos a história da filosofia de maneira cronológica e por lá nós temos esse trecho apenas sobre estoicismo, onde eu escrevi esse material de apoio justamente para ancorarmos a obra de Epicteto. Então esse livro ele tem duas curiosidades aqui no nosso clube. Primeiro, nós abordaremos a temática e não somente o autor, ou seja, não somente o livro, o manual de picteto, mas o estoicismo como um todo. E segundo, o livro vai servir para uma aplicabilidade no seu cotidiano.
Eu não quero que você leia esse livro de maneira horizontal, capítulo por capítulo, como fizemos no livro anterior, Memórias do Subsolo. Nós tínhamos ali a primeira parte, a segunda parte, mais ou menos 10 capítulos em cada uma. E aí você foi transcorrendo a leitura e semana por semana fomos abordando os capítulos respectivos. Aqui não, eu quero uma leitura verticalizada. Eu quero que você pegue uma reflexão que seja das 53 que existem nessa obra e eu quero que você aprofunde a na sua vida. Eu quero que você entenda que existem coisas que você controla e coisas que você não controla. O estoicismo não é apenas uma dissertação teórica, é um treinamento prático para a vida. E é por isso que estamos com essa obra por aqui.
Muitas pessoas me perguntaram: "Professor, esse livro é muito curto. Por que você colocou esse livro no cronograma e etc?" Por pelo motivo que nós estamos aqui hoje, porque queremos sair dessa aula melhores do que entramos. É para isso que o conhecimento serve. Não é apenas para você se tornar um obeso mental que acumula muito saber, mas que não pratica, que não torna a própria vida melhor. Então, é a partir disso que eu quero levantar essa conotação com vocês, a conotação da prática em nossas vidas.
Vamos lá, eu vou fechar por aqui o nosso chat de mensagens. No final da nossa parte teórica, eu vou colocar tudo certinho para vocês. Deixa eu só acessar aqui o Google Meet no meu notebook porque acabou desconectando, não sei porê, mas vou acessar aqui com vocês e aí eu fecho o chat de mensagens e no final da nossa aula eu abro novamente as dinâmicas e vocês poderão comentar sobre trechos que vocês entenderam alguma coisa, que vocês tiveram dúvida, que vocês tiveram algum alguma opinião para ser dada. Eu vou só acessar por aqui porque meu computador acabou desconectando. Não sei por.
Pessoal, como vocês sabem, o Google Meet acaba deixando a gente na mão várias e várias vezes. Mas só para deixar bem claro, a nossa aula de hoje será sobre introdução. Introdução ao stoicismo, introdução a epicteto. Já consegui acessar por aqui, deixa eu descer ao chat de mensagens e assim eu fecho e nós começamos a nossa aula de hoje. Peço perdão, pessoal, por esse acontecimento. Infelizmente são questões técnicas que estão fora do nosso controle, como o próprio Epicteto vai definir na aula de hoje.
Vamos lá, pessoal, começando com o que é de comum aqui no nosso clube, ou seja, o contexto histórico, o contexto literário que nós temos na obra. Vamos lá. O nascimento do estoicismo, a ruptura histórica, quando o mundo deixa de oferecer a estabilidade. Durante o período clássico, a vida humana estava profundamente integrada à cidade. A identidade [limpando a garganta] do indivíduo não era concebida de forma isolada, mas como participação em uma ordem política e ética comum. Ou seja, é daqui que surge a famosa democracia lá na Grécia, por volta do século 4, século antes de. Cristo. Demos é o povo. Cracia, vindicatos, poder. Democracia, o poder ao povo. O homem grego se considerava um cidadão da pól e não apenas um indivíduo. Ou seja, ele participava de algo maior. E é daí que a democracia vai surgindo com mais força. E quando a democracia acaba rompendo na Grécia após o governo de Péricles, nós temos uma ruptura, não somente na política, mas dentro da alma humana. Ser homem era em grande medida ser cidadão. A justiça, a virtude e o sentido da vida estavam inscritos no horizonte da vida coletiva.
Essa estrutura, porém, começa a se desfazer. As guerras do Peloponeso expõe a fragilidade das instituições e revelam que a cidade, longe de ser um espaço de ordem racional estável, pode tornar-se palco de paixões, disputas e decisões profundamente injustas. As guerras do Peloponeso foram guerras que aconteceram entre as próprias cidades estado da Grécia, como por exemplo Esparta versus Atenas. Foram uma grande rivalidade ali. As duas cidades tiveram uma grande rivalidade por volta ali desse período, século século 5 an. Crist. Atenas acaba saindo-se perdedora da guerra. Ela acaba perdendo contra Esparta. E nós vemos que a política grega, que era uma política tão vislumbrante, tão intensa, tão magnífica, do lado de fora, começa a se romper do lado de dentro, ou seja, uma cidade contra outra cidade da mesma nação, duelando-se entre elas. E isso começa a trazer não só uma uma um alastramento, uma coisa ruim para a Grécia, mas principalmente para o cidadão que vivia ali, porque ele percebeu que a partir do momento que a Polis não está voltada à organização, a politeia, a organização do todo, a Polis pouco vai se importar comigo que sou tão pequenino. E as injustiças começaram a ocorrer na Grécia, principalmente com a figura de Sócrates. Sócrates, ele foi morto pela democracia. Sócrates ele foi morto pela escolha popular. Tivemos ali a apologia de Sócrates, a sua defesa, que nós leremos ainda neste ano. Então, percebemos que a mesma coisa que tornou a Grécia grandiosa, que foi o poder ao povo, o poder ao dem, o poder político, também foi aquela coisa que trouxe a ruptura para a cultura grega naquele momento.
E aqui continuamos. A condenação de Sócrates já havia mostrado que a própria pól poderia voltar-se contra aquilo que há de mais elevado no homem. Contudo, é com Alexandre Grande que essa transformação se torna definitiva. Suas conquistas dissolvem o mundo das cidades autônomas e inauguram um centro definido, uma um novo horizonte, o mundo vasto, cosmopólita e sem centro definido. Desculpa aqui, pessoal, acabei pulando uma linha, mas com Alexandre nós temos a inauguração do período helenístico. O que que é o período helenístico? professor, até aquele momento, como falamos, o cidadão grego se reconhecia como grego. Ele se reconhecia não somente como indivíduo, mas como alguém que fazia parte de algo maior. E no momento que a democracia tem sua ruptura e Alexandre o Grande, o imperador macedônio, começa a conquistar cidade por cidade na Grécia, ele traz a unificação grega. Não existia mais batalha entre Atenas e Esparta, entre Cretas e Tebas, entre Missenas e Íaka, por exemplo, as cidades daquela época. O que aconteceu é que toda a Grécia se unificou e agora cada grego se considera um heleno. E aí que está o problema, porque é a mesma coisa de você pegar a casa do seu vizinho e você ir morar com ele, você e sua família, junto com a família dele. E agora todos os costumes estarão mesclados, todos os hábitos vão se enclausurar em uma coisa só. E é óbvio que nós teremos rinchas, teremos rupturas, teremos conflitos. E o pior de tudo, Alexandre não unificou apenas a Grécia. Ele conquistou parte do Egito, ele conquistou parte da Índia, ele conquistou vários territórios para o sentido do Oriente Médio. E tudo isso foi se aglomerando em um império gigantesco que foi o império macedônio. E a partir dessas questões que foram unificadas, o povo grego acabou se corrompendo de dentro para fora. Não existia mais o demos, não existia mais a identidade. E a filosofia, ela tem uma grande flexibilidade de pensar a partir do contexto que ela está inserida. Ou seja, de acordo com a situação que eu estou vivendo, a minha filosofia, o meu modo de buscar sabedoria se diferencia a partir desse contexto. Nós temos os primeiros pensadores que refletiram sobre a natureza. Com o ápice da democracia, nós tivemos o ápice também do questionamento político com Sócrates, Platão e Aristóteles. Mas depois da ruptura com Alexandre Grande, por volta de 320 an. Crist, o povo grego começa a pensar sobre os problemas da vida cotidiana. E aí que surge o período helenístico. Por que helenístico? Porque agora o grego não era mais grego, o egípcio não era mais egípcio. Todos se consideravam helenos, aqueles que faziam parte do império macedônio de Alexandre Grande. Então essa grande conquista, essa avaçaladora, esse avaçalador avanço do império de Alexandre acabou trazendo grandeza a ele, sim, mas ao mesmo tempo trouxe ruptura para o povo grego.
E continuamos por aqui. A polis deixa de ser o eixo organizador da existência. O homem já não encontra na cidade um fundamento seguro para sua vida. Diante disso, ocorre uma mudança silenciosa, mas decisiva. O indivíduo passa a experimentar a si mesmo como deslocado e ele já não pertence de forma orgânica a uma ordem que lhe dê sentido. E nesse deslocamento surge uma nova forma de inquietação e não mais política, mas existencial. É o que eu disse aqui com vocês, a filosofia ela se adapta ante o contexto em que ela está inserida. Quando a filosofia é dominada pela igreja ali na era medieval, a filosofia começa a questionar sobre a crença, sobre a fé, sobre Deus. Quando a filosofia entra no período moderno com Renê Decartz, ela começa a questionar a ciência, a epistêmia, o conhecimento. Quando ela entra no século XX com os pensadores ali da Segunda Guerra, da Primeira Guerra, Sartre, Cami e dentre outros, nós temos a filosofia existencialista. Então, o período acaba revelando a criação que vem daquele período. E é daí que surgem as filosofias helenísticas, dentre elas cinismo, ceticismo, epicurismo e também o nosso estoicismo. Filosofias voltadas à prática, à existência humana, não mais à questão política como aquela Grécia democrática que existia antes do governo de Alexandre.
E continuamos, a transformação da filosofia, da cidade ao indivíduo. É nesse contexto que a filosofia sofre uma inflexão profunda. Se no período clássico ela estava orientada pela pergunta sobre a justiça e a organização da cidade, como vemos em Platão e Aristóteles, agora ela se volta para um um problema mais íntimo e urgente, como viver bem em um mundo que já não oferece mais garantias. E essa pergunta vai acompanhar toda a história humana, desde aquela época filosófica até a nossa. As questões do estoicismo são tão atuais. Por quê, professor? Porque os problemas que existiam naquela época existem até hoje. O problema de você estar ansioso perante o futuro, estar ressentido com o passado, estar preocupado com algo que você não controla, perceber que no governo não há estabilidade, perceber que a sociedade não te dá garantias, todas essas coisas existiam lá na Grécia e existem até os dias atuais. É por isso que o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo, o cinismo, essas filosofias helenísticas trazem tantas coisas cotidianas para nós, seres humanos, que vivemos nesse século.
E continuamos por aqui. A filosofia deixa de ser prioritariamente política e se torna cada vez mais uma arte de viver. É por isso que no livro de Epiteto, na capa, tem esse subtítulo: A arte de viver melhor. A filosofia se torna um manual para a vida. uma assese, como os cínicos diriam, ou seja, um treinamento. Exatamente o que queremos fazer com essa obra aqui nesse mês. Ela se desloca do espaço público para o interior do indivíduo, buscando oferecer não modelos de cidade, mas caminhos de estabilidade pessoal. A filosofia deixa de ser um questionamento coletivo, como com Sócrates, Platão e Aristóteles, em que Platão, por exemplo, na sua república, questiona sobre a pól ideal e a filosofia começa a questionar o indivíduo, o que você vai fazer com a própria vida e não mais o que a cidade vai te oferecer, o que a polis vai te garantir.
Esse movimento dá origem às chamadas escolas helenísticas, como eu falei, entre as quais o estoicismo se destaca por sua radicalidade. Enquanto outras correntes procuram reduzir o sofrimento por meio do afastamento ou da suspensão do juízo, o estoicismo propõe algo mais exigente: não evitar o mundo, mas aprender a habitar sua instabilidade sem se desestabilizar. O estoicismo entende uma coisa muito clara, aquilo que eu controlo e aquilo que eu não controlo. A vida é como ela é. E quanto antes eu perceber isso, melhor eu tendo a viver nessa vida, porque eu consigo compreender que não é sobre a qualidade que acontece do lado de fora, mas é sobre a resistência que eu tenho do lado de dentro. Não é sobre a força das ondas, mas sobre a qualidade do meu barco.
Porque o estoicismo se destacou muito mais do que, por exemplo, o cinismo de Diógenes, o cinismo de Antístenes ou o ceticismo de Pirro de Héis ou o epicurismo do próprio Epicuro de Samos. Primeiro, o estoicismo foi mais desenvolvido, o estoicismo foi mais aliado à teoria. Nós tivemos muito mais pensadores históicos do que das outras escolas. E segundo, o estoicismo trata de coisas do cotidiano como nenhuma outra escola. Por que o estoicismo está tão em voga hoje em dia? Por conta disso. É uma filosofia muito atual, é uma filosofia muito próxima da nossa realidade. E ela é imediata. Ela consegue te trazer alívio com a própria reflexão de maneira intrínseca. Isso tudo por um pensador em específico que eu chamo de Aristóteles. Aristóteles ele influenciou grandemente o estoicismo. Se você lê a obra Ética Anicôacco de Aristóteles, você percebe que tudo que ele diz ali vai desenvolver e vai influenciar o estoicismo. O estoicismo de maneira mais prática, Aristóteles de maneira mais teórica, mas porque ele era um filósofo realista. Aristóteles inaugura o realismo filosófico. Não é mais aquele idealismo platônico, é a vida como ela é. E se a vida tem dificuldades, como ser humano, que vive nessa vida, tenho que aprender a viver, apesar das dificuldades e não me afastando delas, não criando o mundo paralelo e coisas do gênero. Então, nós entendemos exatamente isso, aprender a habitar sua instabilidade do mundo sem se desestabilizar.
O nascimento da estoa, agora o nascimento do estoicismo em si, diante desse contexto da queda da democracia, o fim do governo de Péritons, que foi um grande governante em Atenas, a derrota do de Atenas no Peloponeso, a morte de Sócrates, o próprio governo de Alexandre. É aí que nasce a estoa. O estoicismo surge com zenão de sítio, que ensina em Atenas no pórtico, a estoa. A palavra estoa do grego significa pórtico, que era exatamente o local onde os estoóicos se reuniam. Era ali como se fosse a escola da época. Nós tivemos o Liceu de Aristóteles, tivemos a Academia de Platão, o Jardim de Epicura e tivemos o pórtico de Zenão, Zenão de Sítio, que foi esse grande pensador. A escolha desse espaço é significativa. Não se trata de um ambiente fechado ou reservado, mas de um lugar público atravessado pela vida cotidiana. Desde o início, o estoicismo se apresenta como uma filosofia voltada à existência concreto, não como um saber distante da experiência comum. A proposta dizer não e de seus sucessores não consiste em negar o mundo, mas em compreendê-lo em sua estrutura mais profunda. Para isso, o estoicismo se organiza como um sistema que integra a lógica, a física e a ética.
A lógica e a física são coisas que nós perdemos muito no decorrer do tempo, porque o estoicismo ele tem dois períodos. Nós tivemos o período médio que vai ali de 300 anes de. Cristo até mais ou menos 50 anes de. Crist, que ocorre na Grécia, onde nós tivemos toda a estruturação teórica do estoicismo com pensadores gregos, como Arquimedes, Crates Gitebas, Cleantes de Atenas, Posidônio, todos esses pensadores que já não conseguiram se ser serem preservados até os dias atuais. E nós tivemos o período romano, que é o período mais prático do estoicismo, onde epicteto se encaixa, que é onde nós temos a ética sendo mais estabelecida. Ou seja, a lógica e a física foram perdidas em grande parte. A ética histórica ainda permanece e acaba sendo o que mais ecoa na vida atual. E é por isso que muitas pessoas não conseguem compreender o estoicismo da maneira devida. Muitos históicos de internet tratam o estoicismo como uma filosofia de coach. Não é assim. O estoicismo tem uma lógica por detrás, tem uma física instaurada na natureza e essas coisas apenas são evidentes para aqueles que estudam a rigor o estoicismo. Não é apenas eu me tornar uma pessoa resistente a tudo. Não é isso. O histórico não representa essa coisa e nós explicaremos tudo por aqui. Mas continuando, essa unidade não é meramente formal. Ela expressa a convicção de que não é possível viver bem sem compreender a ordem do real.
A história de Zenão de City, o fundador do estoicismo, é uma história magnífica. Ele era um mercador que trazia muitos tecidos, muitas tinturas ali da região do Oriente Médio para a Grécia e ele era riquíssimo e em um certo momento, no meio ali do Maregeu, ele sofre um naufrágio e perde absolutamente tudo. E ele vai se encontrar no conhecimento. Ele tem uma frase muito legal que ele diz o seguinte: "O médico, se ele perde o seu instrumento da medicina, como por exemplo, o seu bisturia ou algo do gênero, ele continua sendo médico. Agora o mercador se perde a sua mercadoria, ele deixa de ser mercador, porque o mercador ele não possui o conhecimento, ele tem o conhecimento, ele tem a mercadoria. Ter e possuir são coisas diferentes. Porque as pessoas falam assim: "Ó, você tem que estudar porque o conhecimento ninguém tira, porque o conhecimento é possuído. Você adquire, ninguém toma, porque é algo que vai além da matéria." O mercador estava suscetível a perder tudo, como aconteceu com ele. E aí que ele se volta para coisas que iriam além da matéria, no caso conhecimento. E ele vai no centro acadêmico mais importante de todos, que era Atenas naquela época. E lá ele lê algumas obras em uma certa biblioteca da época que tinham vários pergaminhos e anotações. E ele lê um pouco sobre Sócrates. E ele pergunta para o homem que estava ali cuidando dos pergaminhos como que ele encontraria um homem parecido com Sócrates para poder aprender com ele. E esse homem vai lá e aponta para alguém que estava passando. Esse alguém que estava passando era Crates de Tebas, um grande pensador, já que tinha uma linha aristotélica instaurada em si. E Zenão se torna discípulo de Crates. E ele começa um treinamento rigoroso a tal ponto que ele se torna até mais desenvolto, filosoficamente falando, do que Crates. E ele inaugura a sua própria escola, ou seja, o estoicismo, na estoa, no pórtico de Atenas. E ali ele dava suas aulas, ele ensinava e o estoicismo surge dali justamente de um contexto difícil, um contexto difícil tanto coletivo na política grega, na sociedade, na cultura grega em si, como também no contexto individual, após ele perder ali tudo no naufrágio. E é por isso que é uma filosofia tão aplicável, tão prática em nossas vidas.
E continuamos por aqui, o logos e a racionalidade no mundo. Aqui já partindo paraa parte mais teórica do estoicismo. No centro dessa compreensão está a noção do logos, retomando e aprofundando uma intuição já presente em Heráclito. Os históicos afirmam que o mundo não é um conjunto caótico de eventos, mas uma totalidade ordenada por uma racionalidade interna. as leis da natureza, a lei da gravidade, as leis físicas, coisas que muitas vezes não entendemos, mas acontecem como devem acontecer. O logos é a palavra grega que dá origem à razão, à lógica. E essa é uma grande crítica que as pessoas têm perante o estoicismo, que é um determinismo demasiado. Os históicos acreditavam que tudo que deveria acontecer vai acontecer e tudo que acontece acontece como deveria acontecer. Então o meu naufrágio, como por exemplo no caso de Zenão, é um naufrágio que deveria ocorrer e eu devo ser grato por isso. Como assim, professor? Eu vou ser grato por uma tragédia, por uma diversidade? É eu entender que eu sou pequeno demais diante das leis da natureza e que eu sou apenas uma poeira cósmica que está suscetível a sofrer, que está suscetível a perecer e que nesse mundo as coisas acontecem perante ordens naturais. Então, assim como nós temos de um lado o inverno e do outro verão, eu também tenho momentos na minha vida que são momentos bons e momentos ruins. E eu não devo questionar o momento que as folhas caem na minha árvore ali por volta do outono, porque lá na frente, na primavera, eu vou entender essa ordem, porque eu vou ter um distanciamento, eu vou ter uma ordem racional, uma lógica, um logos. E as pessoas acabam criticando muito isso no estoicismo, porque elas seguem uma linha mais libertária, que o ser humano ele tem liberdade, que as coisas acontecem ao acaso muitas vezes, mas os históricos se ancoravam nesse logos universal, aquilo que governava absolutamente tudo. E eu costumo traduzir esse logos com a figura da verdade. As coisas são como são, você querendo ou não, como, por exemplo, a morte. Você pode ser a pessoa mais livre de todas, mas um dia você morrerá. Isso você não consegue mudar na sua vida. Então, a morte ela está happening por um propósito, nem que seja um propósito biológico que seja o fim da vida. Então, nós vamos entendendo que o estoicismo, ele não busca criar coisas para fora do campo real, ele reinterpreta as coisas da realidade. Ele se ancora no aqui e no agora e no mundo como está, por mais caótico que esteja.
E continuamos. O logos não é apenas uma faculdade humana, ou seja, a nossa racionalidade é o princípio que estrutura o próprio cosmos. A palavra cosmos do grego significa ordem, exatamente o que os históicos defendiam. Ele é, ao mesmo tempo, razão, lei e ordem. Tudo o que acontece está inserido em uma cadeia causal que não é arbitrária, mas inteligível. mesmo aquilo que nos parece contingente ou desordenado, participa de uma totalidade coerente. Essa concepção tem implicações profundas. Ela dissolve a ideia de acasa absoluto e afirma que a realidade em sua totalidade possui um sentido, ainda que esse sentido não seja imediatamente acessível à experiência humana. O exemplo que eu dei das folhas que caem no outono e que renascem muito mais belas lá na primavera.
O problema, portanto, não está no mundo em si, mas na forma limitada com que o percebemos. Isso daqui para mim é o mais interessante do estoicismo. O estoicismo nunca vai chegar na sua porta como um coach de internet vai falar assim: "Fulano, você tem que fazer isso e isso e isso e aquilo". Ele não é sobre adicionar. O estoicismo é muito simples. É sobre você olhar para dentro de si e retirar os excessos. É sobre você perceber que o mundo é dessa maneira. E quanto antes você identificar a realidade e concebê-la como algo que está fora do seu controle, melhor você tende a viver focando no que você controla, em como eu vou reagir perante cada acontecimento. Porque eu sou um ser pequeno, eu sou um ser que controla absolutamente nada, eu controlo apenas os meus pensamentos e olhe lá, Freud depois vai trazer a questão do inconsciente. Eu controlo as minhas ações e olhe lá, porque muitas vezes eu eu ajo por impulso. Então eu não controlo absolutamente nada. comparado à vastidão do universo. E quanto menor eu me reconheço, mais valoroso eu serei. Porque a grandeza do ser humano está em reconhecer a sua pequenez. Se o mundo é dessa forma, o meu papel é me adaptar ao mundo. Se o mundo não se o mundo não muda diante de mim, sou eu quem mudo diante dele. O estoico tem uma figura de autorresponsabilidade. É por isso que o estoicismo soa muitas vezes como uma filosofia fria. Porque o estoic pouco se preocupa com as críticas alias. Ele se preocupa em como ele interpreta cada crítica. E isso traz a conotação de liberdade, porque responsabilidade é liberdade e liberdade é responsabilidade. Uma vez livre, você é responsável por tudo que você escolhe, porque você foi livre para escolher. E no momento que você é responsável por cada coisa que você escolhe, você se liberta, porque você traz a responsabilidade para si e para de depender dos outros, para de depender das condições, para de depender das situações. E aquilo que nós falamos não é sobre a força dos ventos, é sobre para que lado eu viro as minhas velas. É isso que o estoicismo está ensinando, realmente uma coisa que consegue trazer percepção ao homem como um ser responsável diante da realidade.
E continuamos, destino, problema e necessidade de liberdade. Se o cosmos é é governado pelo logos, o que falamos agora a pouco, então tudo que acontece decorre de uma necessidade racional. Os históricos defendem assim uma forma rigorosa de determinismo. Cada evento está inscrito em uma cadeia de causas que o torna necessário. Cada coisa acontece como deveria acontecer para o históico. À primeira vista, isso parece eliminar qualquer possibilidade de liberdade. Se tudo está determinado, o que resta ao homem? Se todas as coisas acontecerão como devem acontecer? Cadê a liberdade humana, professor? Cadê o tal livre arbítrio, como as pessoas falam, que é algo que eu não concordo em grau algum e eu vou explicar o porquê.
É justamente nesse ponto que o estoicismo introduz uma das suas contribuições mais originais. Ele desloca a questão da liberdade do plano dos acontecimentos para o plano da relação com os acontecimentos. Não é sobre o que me acontece, é sobre como eu reajo ao que me acontece. Não somos livres para escolher o que ocorre, mas somos livres para determinar como nos posicionamos diante do que ocorre. Essa distinção inaugura uma nova compreensão do humano. A liberdade deixa de ser concebida como poder intervenção no mundo e passa a ser entendida como soberania interior. É o que eu chamo de livre escolha. O livre arbítrio, ele pressupõe uma liberdade quase total. Você não tem livre arbítrio. Se você pudesse sair voando agora, se você quisesse ter um unicórnio na sala da sua casa, você poderia? Não pode. Essa é a liberdade total. E nós não somos livres a esse nível. Nós temos a livre escolha. Que que é a livre escolha? A livre escolha é que você recebe as cartas, mas você escolhe como você vai jogar com cada uma delas. Você recebe as cartas que foram determinadas para você. Você não escolhe a família que nasce, você não escolhe os pais que você tem, você não escolhe a condição econômica do país, você não escolhe qual adversidade você vai enfrentar na sua vida, você não escolhe se, por exemplo, você vai encontrar um tumor no seu corpo e aquele tumor vai desenvolver-se em um câncer ou algo do gênero. Essas coisas estão fora do nosso domínio. O que nós podemos escolher? Como vamos reagir diante de cada acontecimento? Essa é a livre escolha. Eu não escolho o que me acontece. Eu escolho como eu reajo diante do que me acontece. A vida embaralha as cartas. Eu só tenho um papel que é jogar. E tem muitas pessoas que receberão uma mão de cartas péssima, uma mão de cartas que a pessoa ela nasce numa periferia, é o pai e a mãe drogados, a pessoa não tem acesso à educação, saneamento básico, a pessoa nasce num país de terceiro, quarto, quinto mundo, essa pessoa ela começa muito atrás na jornada da vida. Só que às vezes essa pessoa, por um acaso, ela recebe uma bolsa de estudos, ela se esforça, ela faz isso, faz aquilo e ela consegue ser bem-sucedida em algum grau, nem que seja um grau intelectual, um grau de consciência, um grau de liberdade interna. E isso muda completamente a forma como vemos a realidade. Porque agora não é sobre mais o que me acontece, não é sobre mais o vitimismo de eu reclamar sobre tudo, mas é a seguinte pergunta que é feita: o que eu farei perante isso? Filosofia históica é filosofia de autorresponsabilidade. O históico ele não trata a liberdade como eu poder fazer tudo. Ele trata a liberdade como a possibilidade de reação diante de tudo que acontece. Até mesmo uma doença terminal. Uma doença terminal chegou na minha vida. Como eu posso reagir diante dela? Eu tenho alguma saída? Eu tenho alguma possibilidade? Eu tenho alguma chance de cura? não tenho, então eu vou viver cada dia como se fosse o último. Pois essa doença ela pode até me destruir, mas ela não pode me derrotar. A destruição é um fator que vem de fora para dentro. São os ataques que a vida faz diante de você. E a derrota é uma concessão interna que vem de dentro para fora. É quando você reage de acordo com o problema e não de acordo com a solução. É tudo isso que o estoicismo diz, que eu falo com vocês, por exemplo, diariamente naqueles vídeos rápidos do diário hisóico. O estoicismo é uma pílula que você toma e você percebe que a vida tem uma chance de ser exercida pelas suas próprias mãos e não mais de acordo com o vitimismo, com uma reclamação, com uma grande um um grande queixa perante a realidade. Então nós percebemos que essa liberdade é uma liberdade reacionária. É eu reagir diante de cada fato e não querer mudar os fatos da vida, porque isso eu não consigo.
E continuamos agora entrando no nosso pensador de fatos. E já partindo aqui pro fim da nossa parte teórica de hoje. Epicteto e a liberdade interior. O estoicismo, ele tem esse período médio que eu falei ali na Grécia. E por volta de 190, 180, um homem chamado Diógenes da Babilônia pega o estoicismo da Grécia e leva para Roma. Roma já estava ascendendo em um grau inimaginável naquela época. E o estoicismo romano, ele foi muito mais intenso do que o grego, a ponto de ficar marcado até os dias, até os dias atuais, porque o estoicismo romano, ele buscava uma prática ainda maior do que o estoicismo grego. Roma tinha o direito, Roma tinha oratória, tinha a retórica, tinha a vida política, tinha ali seus vários conflitos culturais. Então, Roma necessitava mais do estoicismo até do que o povo grego. E é por isso que ali nós temos os três principais históicos. Cênca, Epiteto e Marco Aurélio. Cênca nós lemos lá no primeiro livro do ano sobre a brevidade da vida. Marco Aurélio nós lemos ano passado a suas meditações e Epicteto, três pensadores históicos completamente diferentes. Marco Aurélio, imperador de Roma, Epiteto, escravo, Cênica, conselheiro, o Côso de Nero, três categorias sociais completamente distintas. Por quê? Porque o estoicismo não é sobre condição, é sobre indivíduo, é sobre como cada um lida com a sua liberdade de reagir diante dos fatos. E Epicteto, ele foi, na minha visão, o estoico encarnado. Ele é aquele que melhor representa o estoicismo.
Epicteto, ele nasce na região da Fríja, ali mais ou menos na atual Turquia. E quando ele nasce, ele já nasce na condição de escravos. Seus pais eram escravos ali no território romano e ele é levado como escravo para Roma. Ele nem nome tinha. A palavra epicteto do grego representa o adquirido, aquele que foi comprado. E ele viveu até seus 40 e poucos anos de idade sendo escravo. Ele só foi ter a sua euforria ali por volta dos seus 45, quase 50. E ele viveu uma vida sendo escravo, uma vida sendo cativo. E ali, por volta dos 20 e poucos anos de idade, ele teve suas duas pernas quebradas. o seu mestre, o seu dono, acabou quebrando as pernas dele como um ato de dominação. Aquele que estava dominando, aquele que tinha o poderio sobre o servo, mostra que ele poderia fazer o que quisesse. E Epicteto mesmo assim demonstrou um estoicismo muito instaurado, porque desde cedo, quando ele adentrou na vida romana, ele frequentou as aulas de um homem chamado Musônio Rufo, um professor de estoicismo em Roma, ali por volta do ano de 80 depois de Cristo, que ensinava em praça pública, ensinava para mulheres, ensinava para escravos, ensinava para pobres, uma coisa que era completamente incomum naquela época. E Epicteto estava ali naquele meio e ele colocava filosofia na própria vida. Ele pensava o seguinte: "A minha liberdade, ela não vai vir de fora para dentro, porque eu sou escravo. Ela virá de dentro para fora. Eu serei livre quando eu libertar a minha mente. E até os dias atuais isso acontece. A pessoa, ela pode ter o máximo de dinheiro que alguém possa ter nessa realidade, nessa vida. Ela pode ser trilionária. Mas se essa pessoa é extremamente ansiosa, se essa pessoa é extremamente depressiva, se essa pessoa ela tem alguma obsessão interna a ponto de escravizá-la, essa pessoa não é livre. Porque a liberdade ela começa sendo cultivada no interior do ser humano. É isso que o estoicismo ensina, a autarqueia, autossuficiência. E ele teve as duas pernas quebradas, era escravo, ou seja, ele tinha uma coisa cativa no modo social, sendo escravo e de modo físico sendo alejado. E com seus 45 anos de idade, ele é libertado, ele tem só folria. E o imperador domiciano vai prender todos os filósofos ali de Roma. e Epicteto estava no meio. Então, quando ele conquistou a liberdade, ele foi preso, foi exilado. E aí, quando ele consegue ali alguma forma de ter a sua liberdade total, ele vai para Nicopolis, na Grécia e lá ele inaugura a sua escola, onde um aluno muito especial chamado Flávia Arriano vai anotar tudo que Epicteto ensinava. E Epicteto não sabia escrever, não sabia ler, até porque era um escravo, não recebeu uma educação formalizada. Ele recebeu aquela educação filosófica do seu professor Musonio Rufo. Mas Flávio Riano deixou tudo anotado. Deixou anotado o inquirid, que é o manual que estamos lendo, deixou anotado os discursos de epiteto. Então esse pensador foi um ícone do estoicismo, porque ele vivia o estoicismo no sangue. Ele era de maneira encarnada a figura daquele que sofria, mas daquele que nunca desistia.
E continuamos. É com epicteto que essa intuição atinge sua forma mais intensa e concreta. Diferentemente dos primeiros históricos, Epicteto não se dedica à elaboração sistemática da física ou da lógica. Aquilo que eu falei com vocês, o período médio do estoicismo ali com os gregos, seu foco está inteiramente voltado para a vida prática e para a formação de caráter. Sua biografia confere a sua filosofia um peso singular. nascido escravo, ele vive sob condições em que o controle externo é praticamente inexistente, ou seja, praticamente a existência dele não dependia dele, porque ele já nasceu naquela condição. Ainda assim, afirma de maneira contundente que a liberdade não depende das circunstâncias exteriores. Essa afirmação não é teórica, mas existencial. Epicteto demonstra, por sua própria vida, que há um núcleo da existência humana que permanece intocado pelas condições externas. Esse núcleo é a capacidade de julgar e de escolher a própria atitude diante do mundo. Com ele, o estoicismo se torna uma filosofia de autonomia radical. A pergunta não é mais como compreender o cosmos, mas como viver de modo que nada exterior possa destruir a integridade interior.
Epicteto inaugura esse livro, não foi ele quem escreveu, como eu disse, mas de maneira assim encarnada, nos seus ensinamentos, ele inaugura a obra dizendo o seguinte: "Existem coisas que estão sob nosso controle e coisas que não estão." Dentre aquelas que estão, nós temos nossos pensamentos, nossos impulsos, nossas ações e desejos. E aquilo que não está sob nosso controle é todo o resto da vida. A política, a sociedade, as pessoas, a minha reputação, a opinião alheia, o ato alheio, todas essas coisas que muitas vezes nos preocupamos para conquistar são coisas que não estão no nosso controle. Grande parte do seu sofrimento vem daquilo que você busca controlar, não podendo controlar. E essa é a dicotomia do controle histórica, a grande essência que falaremos durante o nosso mês de acordo com essa obra. É por isso que esse pensador ensinava de maneira tão autônoma, porque ele não esperava o mundo conceder a liberdade a ele. Epicteto conquistou sua euforria com quase seus 50 e poucos anos de idade, aforria total, a liberdade total. Mas antes ele já era livre, mesmo sendo cativo, porque ele não dependia das condições externas. Algo que eu e você podemos aprender a partir de hoje com esse pensador que diz algo lá no século depois de Cristo, mas que ecoa até agora no ano de 2026. um pensador extremamente importante para a vida prática, que mostra que, independentemente do sofrimento, o homem pode se manter lutando, ele pode se manter resistindo. Porque o estoicismo tem uma figura de resiliência, de resistência, porque as pessoas falam: "Eu fui hisóico naquela situação, eu não cedi, eu não desisti". Porque o estoicismo demonstra uma capacidade interna de continuar batalhando independente das condições externas. É isso que que eu quero falar com vocês aqui hoje, principalmente para você que está passando por uma diversidade. E eu acredito que quase todos, todos nós temos lutas a serem travadas na vida. O próprio Cênica diria: "Viver é guerrear". E nós estamos aqui e muitas vezes buscamos a vitória. Só que a vitória não está no nosso controle. Eu posso fazer tudo certo e ainda assim perder. Eu posso dar o meu melhor e ainda assim não conquistar nada na vida. Eu posso falar da maneira mais reduscada possível com vocês e mesmo assim a minha aula ser uma porcaria por algum fator externo ou porque alguém não gostou dela. Então, tudo isso está fora do meu controle. Mas é daí que vem a grande questão. O homem ele é um herói, mas é um herói muitas vezes trágico. E qual é o herói trágico, professor? É aquele herói que nem sempre vence, mas é aquele herói que nunca desiste. Ou seja, a destruição ela pode acontecer, mas a derrota jamais. A derrota é uma concessão. É quando eu deixo de focar naquilo que eu posso controlar e começo a focar nas coisas externas da vida. O estoicismo ensina uma coisa muito simples. Se a vida não muda diante de você, é você quem deve mudar diante da vida. Não espere as condições perfeitas. Espere a sua reação e a sua autonomia de acordo com o seu pensamento, de acordo com o que você pode julgar, como você pode reagir, o que você pode fazer. Tudo na vida dá margem para uma reação virtuosa diante do histórico. Até um desemprego, até a morte de alguém, até uma tragédia. Tudo dependerá de uma simples pergunta. O que eu vou fazer diante disso? Não é mais o que acontece comigo, mas é como eu vou reagir diante do que acontece comigo. Essa é uma pergunta extremamente autorresponsável. Você deixa de pensar sobre o mundo e você começa a pensar sobre si. É exatamente isso que Epicteto fazia.
Com a própria vida e nos ensina através da sua obra. E agora, pessoal, quem quiser já falar aqui na nossa aula, colocar alguma pergunta, colocar algum comentário, algum trecho, algum aforismo que gostou, já vai levantando a mãozinha no aplicativo. Eu só vou ler aqui essas reflexões práticas que eu gostaria que vocês respondessem por aqui, caso queiram. Vou abrir aqui o chat de mensagens.
A primeira pergunta: em quais áreas da minha vida eu ainda dependo excessivamente de fatores externos para me sentir estável? Eu acredito que boa parte da nossa do nosso público de hoje se preocupe com, por exemplo, fatores financeiros. O fator financeiro é inevitável. Às vezes você faz tudo certo e você tem o seu dinheiro confiscado, como por exemplo lá atrás no governo Collor. Ou você faz tudo correto e a sua empresa quebra, você faz tudo da maneira devida. E ainda assim o desastre acontece.
Então nós precisamos entender uma coisa muito simples. A estabilidade ela é ilusória. Eu só terei paz na minha vida quando eu qualificar o meu barco e não quando eu ficar me preocupando com a força das ondas. Porque o mar não está no meu controle, mas as peças do barco que eu tenho, isso sim eu posso reforçar, eu posso qualificar, eu posso cuidar.
Quando algo me incomoda, eu estou reagindo ao fato em si ou a interpretação que faço dele? Isso é interessante. Muitas vezes o mesmo fato atinge a pessoa de uma maneira distinta a depender da pessoa. Quando você sofre um desemprego, você pode reclamar, você pode processar a empresa, você pode chorar, você pode achar que é o fim da carreira, ou você pode ressignificar aquilo e pensar: "Eu vou fazer uma nova faculdade, eu vou me qualificar, eu vou abrir meu próprio negócio, eu vou empreender, eu vou estudar, eu vou fazer uma transição de carreira." Você deixa de se perguntar sobre a vida e começa a se perguntar sobre você, a interpretação que você faz do acontecimento.
Tudo é uma forma de perspectiva. O estoicismo, ele defende que a vida ela é como é, é uma coisa verdadeira. E nós temos as perspectivas que são as formas como havemos na realidade. Essas perspectivas nós chamamos de julgamentos. A forma como eu julgo a vida não é sobre o acontecimento, é sobre o julgamento que eu faço do acontecimento, ou seja, algo que está no meu controle.
O que na minha rotina atual realmente está sob o meu controle e o que eu apenas tento controlar. Essa tentativa de controlar é uma perda de controle. Quanto mais eu foco no que eu não controlo, menos controle eu tenho. Quanto mais eu foco naquilo que eu controlo, mais autocontrole eu tenho. Se eu fico me preocupando com quantas pessoas vão gostar dessa aula, daqui a pouco eu não tô conseguindo nem falar direito. E a minha essência como professor é deixada de lado, porque eu tô me preocupando com algo que eu não controlo. Eu não consigo entrar na cabeça de cada um e falar assim: "Fulano, você vai gostar da aula de hoje, ela é maravilhosa, ela é perfeita, você tem que amar". Não é isso.
A vida é sobre o que você faz e não sobre o que acontece do lado de fora. Então é necessário dividir muito claramente o que está do que não está. O que está no seu controle você persiste. O que não está você resiste. Persistência e resistência. Resistência para aguentar aquilo que eu não posso mudar e persistência para alterar aquilo que eu posso. Tanto que nós temos a famosa oração da serenidade que diz o seguinte: "Pai, dai-me forças para aceitar o que eu não posso mudar. Dai-me coragem para mudar o que eu posso e dai-me sabedoria para identificar os dois casos." É isso que o ser humano precisa na sua vida, dicotomia do controle.
E continuamos. Se eu perdesse hoje algo considerado essencial, está que eu considero essencial, status, reconhecimento ou segurança, o que restaria de mim? Se você perdesse coisas que você considera coisas essenciais na sua vida, que muitas vezes estão fora do seu controle, o que restaria de você? Epicteto não tinha absolutamente nada, mas ele pertencia a si mesmo, ele era livre para si. E é essa a lição que nós temos, que muitas pessoas têm muitas coisas, mas não possuem a si mesmas. Se lembra daquilo que falamos lá de Zenão, de sítio, sobre, por exemplo, o conhecimento? A pessoa que tem muitas coisas fora do seu controle é uma pessoa que é extremamente pobre em quesitos individuais.
Diante de uma situação difícil recente, eu reagi automaticamente ou examinei meu julgamento antes de agir? Eu tenho certeza que hoje, hoje mesmo, em algum momento do seu dia, alguma coisa que estava fora do seu controle aconteceu. E quando essa coisa aconteceu, você ou explodiu, ou ficou ansioso, ou ficou irritado, ou ficou melancólico, ou ficou depressivo. Você teve algum sentimento que esse sentimento disse muito mais respeito ao acontecimento do que ao seu julgamento sobre o acontecimento. Às vezes você recebe uma crítica e essa pessoa te critica com base em um fato verdadeiro e você fala assim: "Caramba, esse aquela pessoa ali eu nunca mais falo com ela. Ela é muito falsa. Ela veio, me criticou, falou isso, falou aquilo, me disse palavras duras", mas você não parou para analisar que muitas vezes aquela crítica era válida. Você precisava mudar algo em si ou que aquela crítica era falsa. Se ela é falsa, pouco importa. Não vai mudar quem eu sou. Se ela é verdadeira, pouco importa também, porque eu não posso mudar a verdade, eu posso mudar apenas a mim mesmo.
Então, você entende como que os fatores externos eles precisam ser melhores julgados. E o estoicismo nos ensina exatamente isso, você ter uma lente calibrada perante a vida, porque a nossa visão perante a vida é enviesada. Enviesada pelas paixões, pelas emoções e os sentimentos. E aqui, pessoal, eu finalizo a minha parte. Eu vou passar a palavra para vocês. A primeira pessoa que levantou a mãozinha aqui no aplicativo foi a Lidiane. Eu vou abrir aqui o microfone de vocês e a Lidiane poderá começar para falar aqui conosco. Pronto, Lidiane, abri aqui o microfone. Sinta-se à vontade.
>> Boa noite, professor. Boa noite a todos. Então, eu tenho uma uma eh eu tenho um uma eu não sei, uma queixa, uma angústia para fazer diante do do da situação atual que a gente vive. Você fala do do estoicismo e e aí eu me pergunto e essa pergunta eu faço para você, ver se você pode me ajudar, como a gente consegue ser uma pessoa estoica diante da eh socialidade que da sociedade que nós estamos vivendo? Por exemplo, a gente vive numa sociedade do cansaço, como Shuran fala, que é a sociedade da hiperprodução. E a gente tá sempre se comparando com o outro. E as redes sociais. É exatamente isso. Eh, eu tava falando com a eh com uma colega minha sobre o quanto é ansiogênico a gente estar nas redes sociais, mas ao mesmo tempo tornou-se necessário estar nas redes sociais quanto a quanto a nossa profissão, porque ali se tornou o cartão de visita do profissional, né? Embora você muitas vezes a depender da profissão, eu falo, a minha, eu sou, eu sou especialista em saúde mental e graduando em psicologia e eu evitei muito fazer um um perfil profissional, eh, mas eu vi que eu tava meio que ficando para trás, porque todo mundo pergunta qual o seu perfil que ele quer ver, as pessoas querem ver a sua vida, querem ver como você se comporta. E isso é extremamente ansiogênico para mim, porque eu comecei a ver quantas pessoas curtiram, quantas pessoas deram like, quantas compartilharam, quantos vídeos eu tenho que postar, eh, para chamar atenção. Ah, esse vídeo flopou, que é o que falam hoje, né? E eu fiquei assim, cara, isso não dá para mim, isso não dá para mim. Ao mesmo tempo, eu vejo a necessidade de estar nesses espaços, que é eh como uma colega minha falou, é o cartão de visita atualmente é esse. E eu queria ouvir de você como é que a gente consegue viver o estoicismo, pensar nisso diante da sociedade que nós estamos vivendo, que é da comparação, né? Obrigada, professor.
>> Perfeito. Muito obrigado, querida, pelo seu comentário. E agora eu vou depois passar a palavra para a Letícia Romero, só avisando para ela se preparar. Mas em relação à sua pergunta, o estoicismo em um mundo tão globalizado, em um mundo tão digitalizado como nós? Nós aqui, por exemplo, no nosso negócio, na nossa empresa, que é uma escola de filosofia praticamente, nós sempre tivemos dificuldades que é natural para quem ensina, para quem trabalha com educação. Nós sempre tivemos dificuldades para, por exemplo, viralização, para ter um público muito grande. Hoje nós temos um público considerável porque é um trabalho árduo que nós fazemos por aqui. Mas filosofia não é um assunto tão engajado quanto o outro. Se eu tivesse ensinando aqui a ter uma renda extra em 7 dias e em um ano você se tornasse milionário, eu teria 1 milhão de alunos nessa aula, porque é muito mais viral, é muito mais engajado. Mas o estoico ele não se preocupa com o resultado. O estoico ele se preocupa com o processo. O estoico ele se preocupa com o que ele faz e o que acontece após o que ele faz é consequência. Foi algo que eu aprendi na minha vida em um momento que nós estávamos, por exemplo, com o nosso faturamento bem estagnado. E aí eu falava com o meu sócio, a gente tem que arranjar alguma coisa pra gente fazer, para se inovar, porque empresa no Brasil que não inova é uma empresa que está fadada a quebrar, porque o o empresário ele não pode parar, porque se ele para, a inflação ultrapassa ele e ele é engolido pela pela crise. Então é necessário ele estar sempre crescendo. E aí eu falei para ele, ó, a gente tem que parar com esse negócio de meta, meta de faturar tanto, de faturar 10 tantos, de faturar 20 e tantos. Não, vamos colocar meta de esforço. Eu vou fazer 10 lives por mês, eu vou fazer 20 vídeos por mês, eu vou dar tantas aulas por semana, eu vou fazer tantos materiais de apoio, vou fazer tantas publicações. No final o resultado é consequência, porque o resultado não está no meu controle, principalmente na internet, que é um algoritmo que trabalha muito mais com o processo viral de quem não é o melhor, mas de quem é mais evidente, de quem é mais aparente, de quem está ali na vitrine. Você pode pegar os vídeos mais viralizados, não são os melhores, são os vídeos que falam sobre coisas mais generalizadas também.
Então, acredito que a melhor dica que eu posso dar diante da internet ou diante de toda a vida é você focar em como você se esforça perante algo e o resultado, que é algo que está fora do seu controle, vai ser uma consequência natural. E se esse resultado não chegar, faz parte, porque você não controla tudo. Então, a grande questão do estoicismo é uma resposta que você dá para a seguinte pergunta: "Isso está ou não está no meu controle?" Aconteceu um problema. Está no meu controle? Sim. Então, para que preocupação se eu posso fazer alguma coisa? Está no meu controle? Não. Então, para que preocupação se eu não posso fazer absolutamente nada? Então, o estoico se preocupa com o que ele pode fazer, que no caso é se preocupar com o processo. O restante é consequência, mas não significa que o seu processo vai ser um processo ignorante. Por exemplo, você só se esforçar de maneira completamente eh desprezada. Você tem que ter uma certa inteligência. Isso tá dando certo, não tá, eu vou mudar, vou me adaptar. Até porque o estoico ele não é teimoso, ele é aquele que se reage a cada situação de acordo com o que a situação acaba pedindo. E agora a Letícia Romero. Sinta-se à vontade, Letícia. Pode abrir seu microfone e falar com a gente.
>> Olá, boa noite. Eh, eu fiquei, eu li, né, pelo menos três ou quatro páginas aqui do livro e eu tive duas dúvidas, mas eu só vou colocar uma porque eu sei que não tem tempo. Eh, no ponto sete do livro do Manuel de Epicteto que você colocou lá no PDF, eh, ele fala assim: "Quando você está numa viagem, seu navio está ancorado, você desembarca para obter água fresca. Você poderá vir a colher uma concha ou um objeto qualquer ao longo do seu caminho, mas você deve manter sua atenção fixa no navio e ficar olhando na sua direção constantemente para ver se o timoneiro lhe chama. E se ele o faz, você tem que abandonar tudo ou acabar tendo de ser içado a bordo com as pernas amarradas como um carneiro. A mesma coisa acontece com a vida. Se você tem uma esposa ou filho que lhe são caros e eles são como eles são como a concha ou objeto, eles estão seguindo seus caminhos. Apenas que se o timoneiro chamar, corra de volta ao seu navio, abandona tudo o mais e sequer olhe para trás. E se você for velho, nunca se afaste mais do navio para que quando você vier a ser chamado, não falhe em comparecer." Eu fiquei com a dúvida. O que que é esse navio?
>> Perfeito. Vamos lá. O navio ele representa basicamente a vida. O timoneiro ele representa a razão, o logos, aquilo que nós podemos controlar. E porque ele diz para você estar sempre pronto ao chamado do timoneiro. E se você tem algo na sua vida que é muito caro, que vale bastante, você deve ter ali um pensamento de que a qualquer momento você pode perder isso. E por que eu devo me preparar para o chamado do timoneiro? Isso se chama premeditate o malorum, do latim, premedite os males da vida. O estoico, entendendo que não controla tudo, ele também entende que o futuro é um grande acaso, é uma grande incerteza, mas não significa que eu não possa ter probabilidades ou possibilidades para o meu futuro. Eu sei que eu estou, por exemplo, trabalhando numa empresa que o faturamento não está tão bom, que as coisas não estão indo como deveriam acontecer, que a qualquer momento eu posso ser mandado embora. Então, eu já vou guardando dinheiro, eu já vou olhando outras vagas de emprego, eu já vou planejando o meu futuro, planejando a minha aposentadoria, por exemplo, essas coisas que nós, seres humanos, fazemos porque temos a capacidade de conectar conjecturar perante o futuro. O futuro não está no nosso controle, mas nós podemos influenciá-lo a partir da nossa preparação. Esse é o premeditátil malorum. A preparação, ela vem como uma ação que você tem no presente para um alívio do futuro. E é algo que você pode controlar diante de algo que você não pode controlar. Eu não consigo prever o futuro, mas eu posso me preparar para coisas possíveis no meu futuro. Então a preparação ela vem como uma prevenção. O estoico, diante do que ele controla, ele tem duas possibilidades. Ou ele reage ou ele prepara. Aí ele se prepara como prevenção e ele reage como correção diante de algo que já aconteceu. Então esse momento que Epicteto descreve o navio que representa a vida, que ele descreve o chamado do timoneiro, que é a nossa racionalidade, a nossa capacidade de nos prepararmos para a vida, a questão do da esposa, da criança e coisas do gênero, ele está querendo dizer o seguinte: a vida ela vai acontecer como deve acontecer e muitas coisas não estarão no seu controle. Boa parte delas para ser mais exato. Então agora você deve apenas se preparar, você deve estar pronto. Se você for velho, nem fique muito longe do timoneiro, nem fique muito longe do navio para que você possa escutar o chamado melhor. Ou seja, diante das minhas condições, diante da minha existência, como que eu posso me preparar diante do que eu não posso controlar? É isso que o estoicismo está nos mostrando. Às vezes você é uma pessoa extremamente irritadiça, uma pessoa que não pode ouvir uma crítica que já tá explodindo a cabeça, que já tá xingando meio mundo. Você vai se inserir em um contexto que as pessoas são, por exemplo, inconvenientes. É a mesma coisa de você jogar lenha na fogueira. Você está se colocando em um momento que não foi premeditado. Você não parou e pensou: "Eu não controlo o que os outros vão dizer e eu não costumo lidar bem com críticas". Então eu chegando ali, há uma possibilidade e uma probabilidade muito grande de um conflito. Esse é o premeditátil malorum. O estoico prepara. Então aqui Epicteto está ensinando que esteja preparado para o que a vida lhe propõe, independentemente do que seja, para que você possa sempre controlar pelo menos uma pequena parcela da sua realidade, que é a forma como você lida com os acontecimentos externos. E agora eu passo a palavra para a terceira pessoa, a segunda pessoa que levantou a mão após a Letícia, é o Gabriel. Gabriel, sinta-se à vontade, por gentileza.
>> Olá, boa noite a todos. Boa noite, professor. Bom, professor, gostaria de fazer algumas considerações sobre estoicismo, historicismo da minha vida, a prática dessa filosofia. Eu ouvi a primeira vez sobre há cerca de uns 5 anos atrás e mais recentemente eu tenho cada vez mais praticado ela. Eh, como os principais benefícios que eu vejo para nossa vida eh são aquelas eh aquelas circunstâncias nas quais nós não temos nenhum controle eh sobre o resultado prático, né? aquelas situações adversas, eh, nas quais a gente de fato não possui nenhum controle do resultado. É claro que a depender das circunstâncias não quer dizer que a gente não vai sofrer. Por exemplo, diante de um caso extremo de uma morte, de um ente querido, não necessariamente a gente não vai sofrer com aquela situação, mas de fato a gente consegue lidar de forma diferente e quem sabe até sofrer menos e ter um outro significado para aquilo, algo que é totalmente inevitável. H, embora eu ainda seja bastante jovem, não tenha praticado o estoicismo por um longo período, eu já vejo que nesse curto período eh já tenha acolhido bastantes benefícios e e é bem notável eh como a gente consegue ter uma melhora no nosso bem-estar subjetivo. Eh, por todo esse contexto, professor, tô bastante empolgado aí com a leitura desse livro. Eh, essas são as considerações que eu gostaria de fazer. Agradeço a oportunidade e repasso a palavra para o senhor. Obrigado, professor.
>> Muito obrigado, meu querido, pelo seu comentário. E em relação ao que você disse, que eu achei muito valoroso, o estoico, ele não está isento de sofrer. Ele vai sofrer, ele vai perecer, você vai chorar, você vai ficar ansioso, você vai ficar melancólico, depressivo, porque o próprio Sêneca, que era um estoico, diria o seguinte: "O sábio, ele sente seus problemas, mas os supera. O sábio, ele sente suas emoções, mas as controla." Não é sobre castrar o sentimento, não é sobre castrar o sofrimento, castrar aquilo que está dentro de você, é sobre aprender a reagir melhor diante de cada fator que está ocorrendo na sua vida. Então, eu acho muito legal uma parte que está aqui no livro, que é a parte oito, que ele diz assim: "Não busque que os acontecimentos sejam como queres, mas queira que os acontecimentos sejam como são e assim você será feliz ou assim você terá paz." Em outras traduções, resumidamente, queira que a vida aconteça como ela deve acontecer, não com os seus desejos, porque são desejos que levarão à frustração. Você quer uma fórmula, uma equação para se frustrar? Expectativa, desejo. Quanto mais eu desejo e menos a vida me dá, mais eu me frustro. É uma equação bem simples. O estoico, ele não espera nada da realidade. Ele espera a realidade se apresentar para reagir perante ela. E quando ele consegue conjecturar alguma coisa, ele se prepara, ele se premedita, ele tem a sua prevenção, como falamos no trecho que a Letícia havia comentado aqui conosco. Então, nós entendemos exatamente isso. O estoicismo não é duro, ele não é rígido como as pessoas ensinam, ele é muito flexível. É uma filosofia que consegue se moldar ante o contexto muito bem, sempre com uma resposta bem simples. O que eu controlo e o que eu não controlo, o que eu farei perante isso? É isso que realmente importa. E agora eu passo a palavra para a Onísia. Onísia, sinta-se à vontade. Pode abrir seu microfone e comentar conosco, por gentileza.
Boa noite. Boa noite, professor. Boa noite, caros colegas. Não, eu quero compartilhar só uma parte rapidinho com vocês sobre eh o que você controla e o que você não controla. Há alguns meses atrás, em três dias, eu perdi a visão. Então, simplesmente eu perdi a visão do lado esquerdo em três dias. Então, é o que eu controlo e o que eu não controlo. E eu já vinha com estudo do estoicismo. Então, eh, realmente eu posso compartilhar com vocês o quanto ele tem me ajudado nessa situação de que eu posso, o que eu vou fazer com o que está acontecendo, né? Então assim, é fantástico. O estudo é fantástico. Eh, esse conhecimento ele traz um alívio para as dores nossas, né? As dores do dia a dia de que em três dias eu simplesmente os médicos disseram para mim: "Nunca vi isso, uma pessoa perder a visão simplesmente em três dias do nada". Então isso tem me, o estoicismo em si tem me ajudado bastante nessa, nessa, nesse entendimento do que eu estou fazendo com essa situação. Então realmente era só para compartilhar eh a importância que eu que eu tenho do estoicismo na minha vida neste momento. Muito obrigada.
Te agradeço, querida, a sua honestidade, até o seu sentimento, a emoção que você passou aqui pra gente, porque eu falei no começo da aula o seguinte: "Pessoal, eu quero uma leitura verticalizada. Eu quero que o livro se transpareça para além das páginas e ele viva dentro de você". E é exatamente o que a Onísia disse agora a pouco. Ela descobriu uma situação de saúde. A saúde ninguém controla. Você pode ser a pessoa mais treinada, a pessoa que tem os melhores índices hormonais. Você pode ser a pessoa mais bem cuidada e ainda assim sofrer um acidente de carro e morrer. E nem por sua culpa, mas porque alguém bêbado veio e deu no meio do seu carro. O que que você faz? Isso não está no seu controle. E é aí que eu tenho até um relato interessante para complementar ainda mais o da Onísia, que é um relato inspirador de uma aluna que eu tive. Eu nem sei se ela ainda está conosco, eu não sei se ela ainda participa das aulas de algum projeto meu, mas foi uma das primeiras alunas que eu tive na vida como professor de filosofia. O nome dela era Isis. E eu digo era e é porque eu não sei, eu não tenho mais contato com ela. Mas ela descobriu um quadro de saúde praticamente terminal. Ela tinha meses de vida, segundo os médicos, e ela sempre que ia fazer uma cirurgia, tentando ali de modo paliativo segurar a pouca vida que restava, a pouca saúde que restava. Ela me mandava mensagem, ela falava, e ela falava assim: "Professor, eu vou fazer uma cirurgia amanhã e eu não tenho preocupação alguma. Se eu morrer no meio da cirurgia, eu morrerei feliz, porque a morte eu não controlo, mas a vida que eu estou vivendo eu controlo. Então, eu estou fazendo de algo que eu não controlo, algo que eu posso reagir. Ou seja, eu não me preocupo com a morte. Eu me preocupo com o fato de morrer apenas existindo e não desfrutando." Então, é algo que nós podemos trazer pra vida. A Onísia trouxe o relato inspirador dela e que nós podemos levar para toda a nossa existência. Nunca se esqueça que você tem a possibilidade de reagir, a possibilidade de continuar lutando. A vitória nem sempre será garantida, mas a derrota é você quem permite, concede ou muitas vezes acaba trazendo para si mesmo através de um julgamento completamente deturpado. E agora eu passo a palavra para a Maria José. A Maria José vai falar aqui conosco. Maria José, sinta-se à vontade, por gentileza.
Eh, professor, eh, eu tive uma experiência, eu tenho já 45 anos de profissão e eu tive uma experiência muito difícil na minha carreira, que foi quando eu eh fiz uma denúncia de uma criança adotiva que foi abusada pelo pai adotivo e ela era uma criança especial. E aí eu respondi por esse processo durante 5 anos e isso maculou, manchou a minha carreira, mas não manchou a minha alma, porque eu fiquei muito em paz com a minha consciência. E aí isso me lembrou muito quando ele fala o seguinte, né, a gente escolher a própria atitude diante do mundo, né? Então assim, para mim foi muito difícil, né? E ele fala que esse núcleo é a capacidade de julgar e de você escolher a sua própria atitude diante do mundo. Eh, uma eu tinha 20 anos de profissão e aí eu realmente fiz a queixa, eu denunciei esse pai, né? E aí durante 5 anos eu respondi um processo no CRP por eu ter denunciado esse pai, denunciado de uma maneira assim muito competente, muito consciente daquilo que eu estava fazendo. Então agora quando eu tô lendo o estoicismo e e eu fico muito tranquila com essa liberdade interior que eu tive, né, de fazer a denúncia e de ter a minha carreira realmente assim manchada, mas a minha alma muito tranquila, a minha alma muito em paz, né, de ter feito uma denúncia de uma menina de 9 anos de idade especial, adotiva, né, e que era abusada pelo pai. Pai, então assim, eh, esse plano de acontecimento, essa liberdade que eu tive com 25 anos de profissão, hoje eu tenho a certeza de que eu fiz a coisa certa. Eu tenho a certeza de que a minha alma está tranquila. A minha alma não está manchada, a minha alma tá tranquila, tá livre, né? E eu não tenho vergonha de falar isso com 40 anos de profissão, não tenho vergonha de citar isso na minha carreira, porque para mim foi um passo da liberdade que eu tive, né, e da minha escolha, né, de determinar o meu posicionamento diante desse fato. Então, muito obrigado de eu estar no curso, muito obrigado de eu sempre ter a certeza, cada vez mais das minhas atitudes diante de fatos que aconteceram na minha carreira. Fiquei assim muito feliz, professor, muito feliz mesmo.
>> Muito obrigado, querida, pelo seu relato, extremamente inspirador. Eu acho que todos nós temos alguma parte da vida, algum momento, alguma situação em que a vida nos colocou contra a parede e parecia que tudo estava desmoronando, parecia que a fase de refém não acabaria nunca, ou seja, você não tem possibilidades de fuga, mas você tem um ímpeto, você tem uma vontade, você tem um desejo e você vai lá e acaba mudando a situação, por mais, eh, digamos assim, temerosa que ela seja, por mais temor que você possa sentir por mais dificuldade que você possa ter em reagir. E eu só queria esclarecer uma coisa, pessoal, que eu vi os comentários aqui no chat, que foi a minha fala sobre o livre arbítrio. Eu disse que o estoico ele busca a livre escolha e não o livre arbítrio, porque a arbitrariedade ela pressupõe uma liberdade muito maior do que o ser humano tem. A escolha ela pressupõe as opções do que eu posso escolher. A arbitrariedade em outro sentido, digamos assim, seria eu poder escolher qual sabor de sorvete eu quero comer. E eu posso escolher qualquer sabor em algum certo caso, como os defensores do livre arbítrio dizem. Eles dizem que existem questões na vida que o ser humano basta escolher. Eu estou falando nesse sentido mais essencial da palavra, a arbitrariedade. E do outro lado, na livre escolha, eu não vou poder escolher qualquer sabor de sorvete. Eu tenho algumas opções limitadas de baunilha, de chocolate e de milho. E eu tenho que escolher essas três. Então essa é a diferença entre o livre arbítrio no sentido clássico, essencial da palavra e a livre escolha. A livre escolha, por exemplo, vai ser amplamente discutida por Santo Agostinho. Eu só não vou discorrer ainda mais sobre isso, porque se eu chego, por exemplo, em Freud, o livre arbítrio praticamente some, porque nós temos a questão do inconsciente, nós temos os desejos, nós temos as pulsões, coisas que estão ainda mais fora do nosso controle. Ou quando nós entramos no behaviorismo, nós entramos nas linhas mais modernas em que você percebe que o ser humano ele é influenciado por praticamente tudo e não escolhe basicamente nada. Então eu estou falando nesse sentido mais essencial da palavra e como o estoico se comportava naquele contexto quando a polis havia desmoronado, quando a Grécia estava passando por vários quesitos instáveis e partiu para Roma e até os dias atuais. Então eu vou falar com base naquela época. Talvez a minha fala não seja tão condizente com o momento atual. Talvez sim, porque nós estamos falando de algo há 2000 anos atrás. Mas esse é o ponto que eu estou trazendo aqui, a diferença entre a livre escolha e o livre arbítrio. Não estou trazendo um conflito para dizer que um é maior do que o outro. Eu só estou dizendo com base no estoicismo, que é o que estamos estudando por aqui. E agora eu passo a palavra para a penúltima pessoa que vai falar hoje, que é a Rose. Rose, sinta-se à vontade para falar conosco. Eu acredito que o nome é Rose 23, alguma coisa que eu não consigo ler. Rose 23. Sabina, acho que é o e-mail que está. Pode abrir seu microfone, querido, por gentileza. O microfone dela tá fechado.
>> Sim, eu acho que ela está tentando abrir, então vou passar a palavra pra próxima pessoa e depois a gente volta pra Rose, caso ela consiga abrir o microfone. Vou passar a palavra para a Elizabete Alves. Elizabe, sinta-se à vontade.
>> Olá, boa noite a todos. Boa noite, professor. >> Durante a sua explicação do dessa questão do que eu posso fazer, das escolhas, né, de não me preocupar, eu tava pensando sobre a ansiedade. Eu acho que a gente vive até por questão de redes sociais, etc., num momento muito ansioso, né? >> E o estoicismo, assim, à medida que eu vou lendo, eu percebo que ele meio que afasta um pouco a gente do dessa ansiedade, né? tipo sei: "Ah, se eu não tenho controle, por que que eu vou ficar me preocupando?" Mas por outro lado, ele tem essa questão do planejar. Esse planejar dele também não é uma questão pouco ansiosa, porque se eu não posso, se eu não tenho controle, eu não vou me preocupar, mas se eu posso planejar e planejamento às vezes é um pouco de antecipação. >> Então, [roncando] como você vê essa questão da ansiedade?
Perfeito. Nesse caso, a gente tem que considerar aquilo que eu tinha dito, por exemplo, quando o Gabriel comentou, que o estoico ele sente seus problemas, mas os supera, sente as emoções, mas as controla. Então, ele não nega as suas pulsões internas. E dentro da própria psicologia, nós vemos que existem dois níveis de ansiedade. E o primeiro nível é o que o estoico se baseia, o nível basal e o nível crônico. A ansiedade basal eu, por exemplo, falaram assim: "Caramba, que que eu vou fazer amanhã? Eu estou ansiando por algo que ainda não é meu." E essa ansiedade é basal, é básica, é básica para a nossa existência humana. Toda emoção humana é necessária. A ira, a raiva, a tristeza, a melancolia, a própria ansiedade. Imagine o ser humano sem emoção alguma, seria um ser apático, seria uma ameba. Então, a ansiedade em um certo grau, ela é uma bênção e ela se transcorre como maldição quando chegamos no segundo nível psicológico, que é ansiedade crônica, que é quando você já começa a sentir prejuízos pela sua ânsia de futuro. É quando eu estou pensando lá no que vai acontecer na semana que vem. Porque eu vou ter uma reunião importante. Eu sei que o fulano vai estar lá e ele vai falar mal de mim e eu vou arranjar uma briga e eu vou ser demitido e isso, isso, e aquilo. Ou seja, eu estou criando várias hipóteses que vão além da premeditação. A minha ansiedade já está me trazendo uma perda de presente, que é aquela ansiedade que citamos, por exemplo, na primeira obra sobre a brevidade da vida de Sêneca. Então, o estoico, ele tem uma linha muito tênue entre a ansiedade básica e a ansiedade crônica. A básica é aquela que é necessária para a vida. É aquela que eu não só me preocupo, mas eu também me preparo. É a pessoa que não fica só pensando sobre o que pode acontecer de maneira ansiosa e prejudicial, mas é a pessoa que age no presente premeditando o que pode acontecer. Então existem esses dois níveis de ansiedade que a própria psicologia, a neurociência vai falar e que o estoico, sem nem estudar a neurociência, já ensinava pra gente. Então, de um lado nós temos Epicteto falando sobre a preparação e do outro nós temos Sêneca alertando sobre o fato de viver mais no futuro do que no presente. Ou seja, a ansiedade ela é uma bênção, até o grau que ela é básica, basal, e não crônica. Assim como a ira. Se eu estou irado com alguma coisa, eu vou agir, eu vou me posicionar, eu vou falar, porque eu não vou ser feito de trouxa. Mas se a ira se transcorre como um crime que eu cometi na rua, porque na briga de trânsito eu me irritei com o cara e eu fui lá e o assassinei, aí já são outros 500. Então nós vemos que todas as emoções são necessárias para a vida, desde que sejam controladas e governadas. E agora eu passo a palavra para a Rose e fechamos o nosso momento de dinâmica de hoje. Rose, sinta-se à vontade.
>> Oi, boa noite a todos. Obrigada pela oportunidade de falar aqui. E eu gostaria de fazer uma pequena reflexão, porque eu estava lendo hoje o livro, né, e gostei muito, tô gostando muito da leitura e gostaria de expor um problema meu que acontece comigo com frequência. Eu sou uma pessoa assim que eu eu acredito que eu sou uma pessoa bem verdadeira. Então assim, eu tenho muita dificuldade de relacionamentos porque eh eu sou uma pessoa assim reativa, muito reativa. E eu sei que isso é muito o oposto do do que o estoicismo prega, não é? Você não pode ser muito reativo, você tem que ter um certo um domínio, um controle daquilo que você faz. Você tem que esperar, né? você tem que ter realmente um domínio próprio assim, bem acentuado para você não arranjar complicação com pessoas. Então assim, quando eu falo alguma coisa, geralmente alguém interpreta mal ou não aceita minha forma de falar e ali começa a a haver um rompimento de de amizades. E eu estava até lendo sobre essa questão de amizade também, né, lá. E eu fico assim chateada, porque realmente eu gostaria de ter mais essa facilidade de conceber amizades, boas amizades, porque eu estava lendo ali hoje no livro de Epicteto, ele diz que a gente deve pensar bem mais antes de construir, de começar uma amizade com alguém, né? Então assim, eu queria saber o que você poderia me falar sobre isso, essa minha forma de ser, se isso tem base na minha infância, na minha história de vida, ou se tem como eu modificar a partir de uma nova postura, né, tendo esse estoicismo como modelo eh de vida.
>> Perfeito, querida. Muito obrigado pelo seu comentário. Já vou respondê-la. Deixa eu só fechar aqui os microfones para encerrar a nossa aula de hoje, o nosso encontro. Já passamos um pouquinho do horário. Em relação a relacionamentos, a coisas interpessoais, nós vivemos em um mundo coletivo. O próprio Aristóteles dizia: "O ser humano é um animal político." Do grego, zoun politique. Ninguém foi feito para viver só. Nós temos coisas que não sabemos e encontramos em quem sabe, como por exemplo aqui, nossa aula não é um monólogo, não sou só eu quem falo, eu aprendo com vocês, vocês aprendem comigo, vice-versa. Só que o relacionamento ele parte de uma coisa que é mútua, é você dar e você também receber, a não ser que você tenha um relacionamento de servidão, você tem um relacionamento de utilidade, você tem um relacionamento em que está bem explícito que aquilo não é verdadeiro, aquilo é muito mais teleológico, ou seja, voltado a uma finalidade. Vocês se relacionam por algo e não um pelo outro. Então o relacionamento depende da outra pessoa e quando depende de outra pessoa, já não depende mais de você. E aí que está a grande questão, porque você deve ser como uma pessoa que cultiva o próprio jardim e espera com que as borboletas cheguem nesse jardim pelo seu cultivo e não porque você tá chamando uma atrás da outra, não porque você tá indo atrás delas e falando: "Não, vamos lá, vamos lá, você vai ver como é bonito". O estoico, ele sabe que ele não controla tudo e perante isso, é o que eu falei lá no primeiro comentário, ele sabe que somente o processo está no seu controle. Então, uma das coisas que eu mais busco fazer, por exemplo, no meu relacionamento, eu só tenho, digamos assim, um relacionamento, um relacionamento na minha vida, que é o meu relacionamento amoroso com minha namorada. Ela está nessa aula aqui, até um beijo para ela. Eu não vou tentar impressioná-la todos os dias, eu não vou tentar cativá-la todos os dias, eu não vou tentar surpreendê-la todos os dias. Ou seja, eu não quero uma reação dela. Eu quero uma ação da minha parte, que a reação dela seja consequência. Muitas pessoas querem que o outro se impressione com você, sendo que você não faz nada. Então, eu vou agir para que eu seja melhor a cada dia voltado para ela. Então, é isso que eu quero que vocês entendam. Por exemplo, em um relacionamento, o estoico, ele não se preocupa com o que o outro vai achar e vai pensar. Ele é melhor para o outro se o outro é melhor para ele. Tudo tem uma mutualidade, tem esse relacionamento mútuo. Você dá, você recebe, você enxerga, você é visto, você fala, você é ouvido, você escuta também. Então eu acredito que a maior dica que eu possa dar aqui é que vocês precisam focar no processo. O resultado vai ser consequência. Às vezes você vai ser uma pessoa incrível com todo mundo e ainda assim vai ser apunhalado pelas costas. A figura de Sócrates era o pai da filosofia, levava sabedoria na Grécia e foi morto. Jesus foi morto. Todos nós temos algumas pessoas que vão gostar da gente, outras pessoas que não vão gostar. Nós teremos ações que serão boas e terão repercussões ruins. Teremos ações ruins que terão repercussões boas, porque a vida acaba sendo um grande acaso que muitas vezes nós não conseguimos controlar. Então, acho que o maior ato que você pode ter de, por exemplo, amor por alguém, como eu citei o meu relacionamento, é você se esforçar para controlar o que você pode para aquela pessoa. Eu posso me tornar cada dia menos pior do que eu era no dia anterior para, por exemplo, a minha namorada e ser melhor e amá-la mais do que ontem e menos do que amanhã. E isso eu vou fazer porque depende de mim. Se ela vai me querer, se ela vai gostar, são outros 500. O relacionamento acaba sendo muitas vezes uma conversa com o escuro, uma incógnita. Você não sabe, mas você faz a sua parte. E é isso que o estoico foca, porque ele sabe que a vitória vem de dentro e não do que o mundo vai dar ou vai fazer e etc. Então é isso que eu deixo para vocês, pessoal, na nossa aula de hoje. Foi uma aula até um pouquinho mais densa do que o normal. Falamos bastante sobre história, falamos bastante sobre filosofia, falamos bastante sobre estoicismo e na próxima aula aqui no nosso material de apoio, falaremos mais sobre o Epicteto e
Sobre os trechos da obra em si. Hoje eu dei uma contextualização geral da história da filosofia histórica, da história do contexto da época e eu espero que vocês tenham gostado, pessoal.
E só para fechar o nosso momento de hoje, é que o histórico ele entende que não é a força das ondas que importam, é sim a qualidade do seu barco. Não é sobre para que lado batem os ventos, mas sim para que lado você vira suas velas. É isso que importa na sua vida. Como você vai reagir diante de cada acontecimento?
O estoicismo muitas vezes é tratado de maneira anacrônica, ou seja, as pessoas falam assim: "Ah, o estoicismo não serve mais porque o mundo era outra, a época era outra". Não é isso. As ideias não mudam. O conhecimento ele não passa quando o conhecimento é verdadeiro. Nada muda o fato que o ser humano tem um ímpeto interno dentro dele que consegue ressignificar o que é externo.
Por exemplo, o grande Victor Frankel, que foi o pai da logoterapia, ele se baseou no estoicismo, ele sofreu várias torturas nos campos nazistas por aí. E ele criou uma filosofia voltada à reação, uma psicologia voltada à reação. E eu gosto muito de uma frase que ele diz o seguinte: "Se o mundo, se o mundo não muda diante de mim, sou eu quem mudo diante do mundo". É isso que eu convido vocês a fazerem.
Agradeço muito a presença de todos vocês. Semana que vem teremos a nossa segunda aula. Vou avisando tudo certinho lá no grupo. A aula ficou gravada, nosso encontro ficou gravado. Amanhã cedo já disponibilizo para vocês nos grupos, envio e aviso tudo certinho.
E só para fechar, como eu disse, esse material de apoio aqui é da nossa academia filosófica, que é um projeto de estudo somente da filosofia. Quem é aluno da academia pode comentar aqui o feedback sincero, seja para crítica ou seja para elogio. Lá no nosso projeto a gente estuda a história da filosofia desde os primeiros pensadores, a introdução ao filosofar até os pensadores modernos. Atualmente nós estamos ali revisando Aristóteles, então nós temos muito a percorrer e é um projeto que caso você queira se inscrever, nós damos 50% de desconto para quem é aluno do clube. Só me chamar no privado que eu explico bonitinho para você como funciona, quando são as aulas e vocês poderiam fazer parte se quisessem, porque é um estudo da filosofia mais aprofundado.
Como vocês viram aqui, eu não falei do livro, eu falei da ideia no geral, do estoicismo no geral. E por lá a gente aborda toda a filosofia dessa maneira, bem aprofundada. Quem quiser me chame no privado, eu ficarei disponível para explicar. E basicamente isso, pessoal. Esse daqui era Epicteto, o nosso pensador que vai marcar o nosso mês.
E lembre-se que a liberdade ela não vem de fora para dentro, mas ela é cultivada de dentro para fora. O mundo ele pode te perturbar, o mundo ele pode te atacar, as coisas podem ficar difíceis, mas a única pergunta que você deve fazer a si mesmo é quando a derrota vai ser concedida? Você pode ser destruído, mas a derrota depende de você. Você nem sempre vence, mas você nunca desiste. Esse é o estoico. É aquele que entende que ele pode ir se rastejando até o fim da jornada, mas que ele vai concluir a jornada dando o máximo de si. Ele vai, pouco se importando com o primeiro, segundo ou terceiro lugar, porque nem sempre isso estará no nosso controle.
Muito obrigado, pessoal. Tenha uma excelente noite, uma excelente semana e como eu disse, reflitam sobre esses ensinamentos. Amanhã, na hora que acontecer alguma coisa na sua vida, assim que você acordar, se você puder anotar o que eu controlo e o que eu não controlo, leva no seu bolso, leva na capinha do celular, deixa em cima da estante. Alguma coisa vai acontecer na sua vida e você vai ver esse papel, vai se lembrar da aula e vai falar: "Caramba, olha a aula já aparecendo aqui". E você vai mudar a sua reação diante daquilo, porque você vai lembrar desse cara aqui que marcou a nossa história da filosofia.
Muito obrigado, pessoal, e até semana que vem.