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Dissertação sobre João 20:28 - 'Meu Senhor e Meu Deus!"

Resistência TJ32:08

Transcription

Será que Jesus é Deus? Hoje eu vou fazer uma dissertação sobre João 20 e 28. Essa passagem é uma das mais usadas por pessoas que acreditam que Jesus é Deus, a fim de tentar provar que Ele seria, de fato, Deus. Nós podemos ler: “Em resposta, Tomé disse: ‘Ele é meu Senhor e meu Deus!’” Pois bem, não há nenhuma dúvida, então, daqui. Tomé disse tais palavras para Jesus. Com base nisso, talvez você pense: “Bom, isso prova então que Jesus é Deus, pois Tomé chamou Jesus de ‘meu Deus’”.

As Testemunhas de Jeová não acreditam que Jesus seja o Deus supremo. Então, surge a pergunta: como uma Testemunha de Jeová explica um versículo aparentemente julgado por critérios como irrefutável? Antes de explicar como as Testemunhas de Jeová entendem esse versículo, e você de fato verá que existe uma explicação coerente que não antagoniza a minha crença como Testemunha de Jeová, antes de tudo gostaria de me aprofundar um pouco nessa passagem e explicar para você que usa essa passagem para tentar provar que Jesus é Deus, todas as implicações que você tem que aceitar caso você entenda que essa passagem prova que Jesus é Deus.

Em outras palavras, se você acha que Jesus é Deus e que essa passagem prova isso, você precisa aceitar um conjunto de circunstâncias que vem junto com a sua tese. Só que esse conjunto de circunstâncias é bastante problemático, o melhor é paradoxal, mas você vai ter que aceitar todos esses paradoxos se você acredita que Jesus é Deus. Uma coisa que eu posso dizer: o seguinte, na minha experiência de conversar com trinitários, ou unissitas também que usam essa passagem para tentar provar que Jesus é Deus, eles não estão cientes dos paradoxos que essa tese implica; ou, quando eu proponho os paradoxos, simplesmente se esquivam de respondê-los. Então, os trinitários, as pessoas que acreditam que Jesus é Deus, acabam ignorando os paradoxos que essa tese de que Jesus é Deus implica diante dessa passagem. Então, vamos aos paradoxos.

Paradoxo 1: Tomé falou tais palavras para o Jesus ressuscitado. Existe o seguinte ditado popular que provavelmente você conhece: “Para morrer, basta estar vivo”. O sentido básico desse ditado é mostrar que a morte pode sobreviver a qualquer pessoa a qualquer momento. Mas nós podemos tirar um sentido secundário, precipitado também: uma pessoa que está morta não pode morrer. Você não pode, por exemplo, matar um cadáver. Então, para morrer, a pessoa precisa estar viva. Um morto não pode morrer, e o oposto disso também é verdade: para ser ressuscitado, a pessoa tem que estar morta. Ou seja, assim como um morto não pode morrer, um vivo não pode ser ressuscitado. Então, Tomé falou tais palavras para quem? Para Jesus ressuscitado. Ora, se foi para o Jesus ressuscitado que Tomé disse: “meu Senhor e meu Deus”, então este Jesus esteve morto. Quer dizer, o Deus de Tomé esteve morto, entendeu? A qual conclusão você tem que chegar se você acredita que esse texto prova que Jesus é Deus? Que Deus morreu. Esse Deus morreu e não é imortal. Não tem como você fugir disso. E agora pergunto para você: você acredita que Deus não é imortal? Se você acredita que Deus morreu e que, portanto, Ele não é imortal, então você não acredita no Deus da Bíblia, porque o Deus da Bíblia é imortal. Então, qual é a conclusão do primeiro paradoxo? Se você acredita que este texto prova que Jesus é Deus, você não acredita no Deus da Bíblia. Este é o primeiro paradoxo.

Paradoxo 2: Na perspectiva trinitária, Jesus ressuscitado tinha um corpo humano, ou seja, Ele era humano; Ele tinha natureza humana. Então, na perspectiva trinitária, Jesus tem paradoxalmente duas naturezas: a natureza divina e a natureza humana. No entanto, o Jesus que estava na frente de Tomé, na perspectiva trinitária, era humano. E sendo este o caso, na teologia trinitária, o Deus de Tomé era humano. Porém, paradoxalmente, o Deus da Bíblia não é humano. E aqui nós temos um paradoxo. Afinal, Jesus que Tomé viu era humano ou não era? Se era humano, porque então Tomé o chamou de “meu Deus”? Neste caso, Deus teria que ser um ser humano. Agora você vai ter que admitir que se o Jesus que estava na frente de Tomé não era humano, mas era Deus, e que por tal razão Tomé o teria chamado de “meu Deus”, neste caso nós voltamos para o primeiro paradoxo: neste caso, Deus morreu. Esse Deus morreu e não é imortal. Então, para concluir o segundo paradoxo: ou Deus é humano ou Deus não é imortal. Se o Jesus que estava diante de Tomé era humano, então Deus é um ser humano. Se o Jesus que estava diante de Tomé não era humano, mas era Deus, então Deus morreu e, portanto, Ele não é imortal. Você tem que aceitar esses paradoxos se você acredita que este texto prova que Jesus é Deus.

Paradoxo 3: Deus é mentiroso. O próprio Deus disse a Moisés: “Nenhum homem pode ver-me e continuar vivo”. Portanto, se Tomé chamou Jesus de “meu Deus”, então Tomé viu a Deus e continuou vivo. Logo, Deus é mentiroso, pois Deus disse que nenhum homem pode vê-Lo e continuar vivo. Então, esse é o terceiro paradoxo: se você acredita que esse texto prova que Jesus é Deus, você tem que acreditar que Deus é mentiroso. Você acredita que Deus é mentiroso?

Paradoxo 4: Onze versículos antes da passagem de João, capítulo 20 e 28, onde Tomé proferiu estas palavras, o mesmo Jesus que estava diante de Tomé disse a Maria (João 20:17): “Pare de me segurar, porque eu ainda não subi para o Pai. Vá aos meus irmãos e diga-lhes: ‘Eu vou subir para o meu Pai e Pai de vocês, para o meu Deus e Deus de vocês’”. Então, veja que o mesmo Jesus que estava diante de Tomé disse que Ele tem um Deus acima Dele. Logo, Ele tem que ser uma criatura, pois Deus, o Deus supremo, não tem Deus acima de Si. Jesus disse, na passagem, que o Deus dos irmãos de Jesus, o Deus de Tomé, é o mesmo Deus de Jesus Cristo. Então, você vai ter que aceitar o seguinte: se você acha que essa passagem prova que Jesus é Deus, você vai ter que acreditar que Jesus é o Deus supremo e que, como Deus supremo, Ele tem outro Deus supremo, que não é Ele, acima Dele mesmo; e que se Deus supremo é o mesmo Deus de Tomé, que é o próprio Jesus, ou seja, Jesus é Deus acima de Si mesmo, embora não sendo aquele Deus que está acima Dele, Ele é aquele Deus que está acima Dele. Você começou a perceber a bagunça que se forma? Você vai ter que aceitar isso. Você aceita isso? Se você não aceitar isso, então tem alguma coisa de errado com a tese de Jesus ser Deus.

Paradoxo 5: Jesus disse o seguinte, na passagem ainda: “Vá aos meus irmãos e diga-lhes…”. Como é que Jesus tratou seus discípulos como irmãos? Então, assista o seguinte: se esse Jesus é Deus, então Deus tem irmãos. Ou seja, Tomé é irmão de Deus. Nós somos irmãos de Deus. Agora eu te pergunto: alguém é irmão de Deus? Deus possui irmãos? Se você acha que Deus não tem irmãos, então você vai ter que concordar comigo que existe algo de errado nessa passagem sobre Jesus e Deus. Alguma coisa de errado tem.

Paradoxo 6: João, capítulo 20 e versículo 31 (3 versículos após João 20:28, onde Tomé proferiu as palavras): “Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”. Peraí. De quem que Jesus é filho? De Deus, o Deus de Tomé? Você vai ter que dizer que sim, afinal, existe só um Deus, não é mesmo? Então, se Jesus é o Deus de Tomé e Jesus é Filho de Deus, Jesus tem que ser Filho do Deus de Tomé. Mas, peraí, Jesus não é o Deus de Tomé. Então, você vai ter que concluir o seguinte: se a passagem de João 20 e 28 prova que Jesus é Deus, então Jesus é Filho de Jesus. Jesus é Filho de Si mesmo, ou existem dois Deuses? Você vai ter que escolher uma dessas opções. Você percebeu o paradoxo? Então, vamos nos aprofundar nesse raciocínio. Veja só: se Tomé quis dizer que Jesus é Deus e João disse que Jesus é Filho de Deus, então Jesus é Filho de Jesus. Nesse caso, Jesus seria o próprio Deus de quem é Filho. Quer dizer, Jesus seria Filho de Jesus. Mas aí você vai dizer: “Não, mas Filho de Deus”. Nesse caso, Deus é o Pai. E aí eu pergunto: quer dizer que, nesse caso, Deus não é o Filho? Aí você vai dizer: “Sim, nesse caso, Filho de Deus, Deus não é o Filho de Deus, aqui é só o Pai”. E aí eu te pergunto: bom, se Deus é só o Pai, então quem é o Deus de Tomé? Você vai ter que dizer: “É só o Pai”. Bom, se só o Pai é Deus, quanto é um Deus mais um Deus? Deuses? Politeísmo? Porque o raciocínio é o seguinte: se existe só um Deus e o Filho de Deus é esse único Deus, então a expressão “Filho de Deus”, aplicada a Jesus, tem que significar que Jesus é Filho de Jesus, do contrário, não existe um Deus, existe um paradoxo matemático aqui: quanto é um Deus mais um Deus? Deuses? Não existe nada que você possa fazer para mudar isso. De quem que Jesus é Filho? O que a expressão “Filho de Deus” significa? Tomé diz para Jesus: “Meu Senhor e meu Deus”. Aí você diz: “Aí, isso prova que Jesus é Deus”. Ok. Então vamos ler um pouquinho mais à frente: “Jesus é o Cristo, Filho de Deus”. Filho de quem? Filho do Deus de Tomé? Sim ou não? Filho do Deus de Tomé? Sim ou não? Responda sim ou não. Você vai ter que dizer que sim. Se esse é o caso, então Jesus é Filho de Jesus. Isso é um absurdo. Então vou rebater mais uma vez a possível resposta que os trinitários me dão diante dessa pergunta que eu faço, isso porque geralmente quando eu explico eu tenho a sensação de que eles não prestam atenção. O Deus aqui de quem Jesus é Filho (“Filho de Deus”) é Filho do Pai. E se Deus aqui é o Pai, mas aí surge a pergunta: ora, não é esse o Deus de Tomé? Afinal, quem é o Deus de Tomé? É Jesus ou é o Pai? Você vai dizer: “É Jesus”, se você for trinitário. Então, três versículos à frente: Jesus é Filho de Deus. Jesus é Filho de Jesus. Pronto. Você vai ter que aceitar isso se você for intelectualmente honesto. Você vai ter que aceitar isso. Não tem volta. Você percebeu o paradoxo?

Bom, eu não conheço nenhuma pessoa que acredita que Deus não é imortal. Eu não conheço nenhuma pessoa que acredita que Deus é um ser humano. Eu não conheço nenhuma pessoa que acredita que Deus é mentiroso. Eu não conheço nenhuma pessoa que acredita que Deus tem um Deus acima de Si. Eu não conheço nenhuma pessoa que acredita que Deus tem irmãos. Nós já somos irmãos. E eu não conheço nenhuma pessoa que acredita que Jesus é Filho de Jesus. Então, uma coisa que tem que ficar claro o seguinte: se você acredita que Tomé proferiu aquelas palavras direcionando-as a Jesus e identificando Jesus como sendo o Deus dele, você vai ter que estar consciente de que todos esses paradoxos são, de fato, reais. E se todos esses paradoxos são, de fato, reais, então toda essa história de defender o cristianismo com fé, razão e precisão – apologética cristã, teologia cristã – tudo isso é um teatro, tudo isso é uma bobagem, porque o cristianismo não tem razão, o cristianismo não é racional, o cristianismo é paradoxal. Você acredita mesmo nisso? Se você acredita que Jesus é Deus, você pode agora mesmo jogar fora todos os seus livros que prometem te ensinar a defender a fé cristã com razão e precisão, porque o cristianismo não é racional. Então, toda essa história de fé racional, de razão da fé, de argumentação, de lógica, tudo isso é bobagem, tudo isso é mentira. Você realmente está disposto a aceitar isso? Se você não está disposto a aceitar isso – e eu acho que você não deve estar disposto a aceitar isso – então preste atenção a esse vídeo, porque agora você vai ver a explicação unitária dessa passagem.

Existem pelo menos duas explicações de caráter unitário: a explicação representativa e a explicação doxológica. E dentre essas duas opções, eu pessoalmente acredito que a segunda faça mais sentido. Eu reconheço que a explicação representativa é, de fato, possível, sem dúvidas; porém, não me parece muito provável que tenha sido esse o caso. Ainda assim, eu vou apresentar essa explicação para vocês. Na Bíblia, quando os filhos espirituais de Deus se materializam em corpos humanos, a fim de se comunicar com humanos, eles muitas vezes são tratados como sendo o próprio Jeová, o próprio Deus, embora ontologicamente não sejam. Nesse caso, nós temos uma representatividade. Isso quer dizer: fala-se do representante espiritual materializado em corpo humano como sendo o próprio Deus, embora, em essência, ou ontologicamente, como diz a filosofia, ele não seja o próprio Deus. Vejamos alguns exemplos disso na Bíblia. O livro de Juízes, capítulo 13, nos conta o relato onde Manóah foi contatado por um anjo. Nesse relato, às vezes o anjo é descrito como homem, às vezes como um anjo de Jeová e também como o próprio Jeová. O anjo às vezes é descrito como homem porque ele tem a aparência de um homem, não porque ele seja de fato homem, mas por causa da sua aparência. Às vezes ele é descrito como o anjo de Jeová porque, de fato, em essência é isso que ele é: o anjo de Jeová. E às vezes ele é descrito como o próprio Jeová porque ele representa Jeová. Na Bíblia, muitas vezes o representante é descrito como sendo o representado. Por exemplo, se eu não aceitar a palavra do anjo, eu não estou aceitando a palavra de Deus, porque o anjo representa a Deus. Isso não significa que o anjo seja ontologicamente o Deus supremo, mas ele representa o Deus supremo. Por tal razão, ele é tratado por vezes como sendo o próprio Deus, embora ontologicamente não seja. Vejamos mais um exemplo disso na Bíblia também. Os capítulos 31, 32 e 33 do livro de Êxodo relatam várias vezes Jeová falando com Moisés e Moisés falando com Jeová. Êxodo 31 diz: “Jeová disse mais a Moisés…”. Então, note que Jeová está falando com Moisés. Porém, em Gálatas, capítulo 3, versículo 19, o apóstolo Paulo explicou que não foi Jeová que falou com Moisés, mas que a lei que foi dada a Moisés foi transmitida por meio de anjos. Então, note que era um anjo falando com Moisés, e esse anjo era identificado como sendo o próprio Jeová, embora ontologicamente não fosse o próprio Jeová, pois era um anjo. Jeová não é anjo. Em Atos, capítulo 7, versículo 38, em sua defesa no Sinédrio, Estêvão disse: “…Ele estava com o anjo que lhe falou no monte Sinai…”. Então, note que Estêvão identificou aquele que falou com Moisés como sendo um anjo e não como sendo o próprio Jeová, embora o relato de Êxodo descreva aquele com quem Moisés falava como sendo o próprio Jeová. Muitos têm tentado dizer que esses eram exemplos de teofanias, quer dizer, o anjo era literalmente Jeová, Jeová era literalmente um anjo naquele momento. Mas obviamente isso é uma coisa sem fundamento algum, pois Jeová não é anjo, anjo não é Jeová. Portanto, diante desses fatos, vemos que é possível sim que Tomé tenha se referido a Jesus como sendo o próprio Deus em sentido representativo, assim como as pessoas se referiam aos filhos espirituais de Deus, os filhos celestiais de Deus, como sendo o próprio Deus em sentido representativo.

Pois bem, conforme eu disse, embora reconheça que essa seja uma interpretação possível, eu não penso ser este o caso em questão. E aí nós vamos para a segunda interpretação possível: a doxologia. A doxologia é uma expressão de louvor a Deus por algo que acontece. O contexto de João, capítulo 20, parece indicar grandemente que, de fato, houve uma doxologia. João, capítulo 20 e versículos 24 e 25 nos contam que Tomé não estava com os outros apóstolos quando eles viram Jesus e que Tomé disse: “Se eu não vir nas mãos dele a marca dos pregos, não colocar o dedo na marca dos pregos e não colocar a mão no lado dele, de modo algum acreditarei”. Então, veja que Tomé jamais duvidou quanto a se Jesus era Deus, o Filho de Deus, ou seja, que foi a identidade de Jesus. Jamais foi, nesse relato e na vida de Tomé, uma dúvida. Tomé jamais duvidou se Jesus era Deus ou não; ele duvidava se Jesus tinha ressuscitado, não. Então, a identidade de Jesus não é em nenhum momento o foco de debate no relato. O foco do debate é: Jesus ressuscitou ou não? Essa é a questão. Então agora nós vamos nos aprofundar no relato um pouquinho de uma maneira que você nunca fez antes, e você vai perceber que a resposta de Jesus à declaração de Tomé prova que o próprio Jesus não entendeu que Tomé se referia a Ele identificando-O como Deus. João 20:26-29: “Oito dias depois, seus discípulos estavam novamente reunidos, e também estava com eles Tomé. Embora as portas estivessem trancadas, Jesus apareceu no meio deles e disse…”. Só uma pausa aqui, e veja que as portas estavam trancadas e Jesus simplesmente se materializou no meio deles, o que prova que Jesus não era humano naquele momento. Os humanos não atravessam paredes, né? A menos que Jesus destruísse o seu corpo no lado de fora, passasse por baixo da porta as partículas do seu corpo e reconstruísse o seu corpo no lado de dentro. Mas é claro que essa hipótese deve ser desconsiderada, porque isso implicaria em Jesus morrer de novo. Então vamos lá: Jesus disse: “A paz esteja com vocês”. Depois disse a Tomé: “Coloque o dedo aqui e veja as minhas mãos; estenda a mão e coloque no meu lado. Pare de duvidar e acredite”. Passamos uma pausa. “Pare de duvidar e acredite”. No que? Que Jesus era Deus? Não. Que Jesus tinha ressuscitado. O ponto de dúvida não é se Jesus é Deus, não. O ponto de dúvida é se Jesus ressuscitou ou não. Então é nisso que Jesus mandou Tomé acreditar. Jesus basicamente disse: “Pare de duvidar e acredite que eu ressuscitei”. Definitivamente, ser alguém ressuscitado não transforma essa pessoa em Deus. Em resposta, Tomé disse: “Meu Senhor e meu Deus!”. Jesus lhe disse: “Você acreditou porque me viu…”. Acreditou no quê? Que Jesus era Deus? Não. Acreditou que Jesus tinha ressuscitado. Então pergunte: como Jesus entendeu a declaração de Tomé? Será que Jesus disse para Tomé: “Agora você viu as minhas feridas e isso prova que eu sou Deus”? Será que Jesus disse isso? Não. Jesus disse: “Agora você acredita que eu fui ressuscitado”. Então, Jesus não entendeu aquelas palavras como uma identificação de que Jesus era Deus. Então como Jesus entendeu aquelas palavras? Como uma expressão de glória a Deus, uma doxologia; como uma doxologia que revelou que, de fato, Tomé passou a crer na ressurreição, não como uma identificação de que Jesus era Deus. O relato deixa isso claro. Portanto, aqui nós temos, realmente, até onde eu consigo perceber, uma expressão doxológica, uma doxologia. Eu não estou dizendo que Tomé não disse aquelas palavras para Jesus, mas a questão é outra: embora Tomé tenha dirigido as palavras para Jesus, será que Tomé se referiu a Jesus como sendo Deus? Em resposta: não. Porque? Porque Tomé não identificou Jesus como sendo seu Deus. Ele não disse: “Tu és meu Senhor e meu Deus”. As identificações de identidade na Bíblia geralmente vêm com a expressão “Tu és”. Por exemplo, em João 11:27 nós lemos: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”. E aqui nós temos uma identificação: “Tu és”. Tomé não disse isso. Ele não estava identificando quem Jesus era. E o próprio apóstolo João, escritor do Evangelho, confirmou esse fato, pois um bom tempo depois deste relato ter acontecido, o apóstolo João escreveu, na Primeira Carta de João, capítulo 4, versículo 12: “Ninguém jamais viu a Deus…”. Note que João não disse: “Ninguém jamais viu a Deus, exceto na ocasião em que Tomé tocou as feridas de Jesus e o chamou de ‘meu Deus’”. Não, ele não disse isso. Ele disse: “Ninguém jamais viu a Deus”. Ou seja, nem mesmo Tomé naquela ocasião. Se Tomé não viu a Deus naquela ocasião, então a declaração de Tomé ou revela uma representatividade ou uma doxologia. Veja o que diz, por exemplo, a Enciclopédia Britânica: “Não há certeza de que as palavras de Tomé dirigidas a Jesus (João 20:28) signifiquem o que sugerem na versão em inglês”. Veja o que disse também Joniel Ingrid, professor de divindade na Universidade de Cambridge: “‘Meu Senhor e meu Deus’ (João 20:28) ainda não é o mesmo que uma referência a Cristo como sendo Deus sem qualificação e deve ser equilibrada pelas palavras do próprio Cristo ressuscitado (versículo 17): ‘Eu subo para meu Pai e nosso Pai, para meu Deus e vosso Deus’”. Veja o que disse Mago Davis em seu livro: “Naturalmente, a interpretação das palavras de Tomé foi calorosamente debatido pelos teólogos da igreja primitiva, que queriam usá-las para apoiar suas próprias definições cristológicas. Aqueles que entendiam ‘meu Senhor’ para se referir a Jesus e ‘meu Deus’ para se referir a Deus o Pai eram suspeitos de heresia cristológica no século V depois de Cristo. Muitos comentaristas modernos também rejeitaram essa interpretação e, em vez disso, entendem a confissão como uma afirmação de que Jesus é Senhor e Deus. Ao fazer isso, eles são forçados a interpretar ‘Deus’ como uma referência ao Logos”. Veja só. Agora é interessante, mas é perfeitamente apropriado que Tomé responda à ressurreição de Jesus com uma confissão de fé tanto em Jesus como seu Senhor quanto em Deus que enviou e ressuscitou Jesus. Interpretar a confissão dessa maneira, na verdade, faz muito mais sentido no contexto do quarto Evangelho, em capítulo 14, versículo 1. A crença em Deus, e não em Jesus, é encorajada em um contexto no qual Tomé é particularmente destacado. Se nós entendermos a confissão de Tomé como uma afirmação de que Jesus é Deus, veja só, essa confissão (capítulo 20 e versículo 31) se torna um anticlímax, ou seja, perde todo o sentido. Afinal, Jesus é Deus, o Filho de Deus. Foi exatamente aquilo que eu falei no início do vídeo, do paradoxo. A expressão “Filho de Deus” contradiz a crença e a interpretação de que Tomé se referiu a Jesus como seu Deus. Se Tomé se referiu a Jesus como seu Deus, o clímax do relato (versículo 31), que Jesus é Filho de Deus, perde o seu sentido. Veja o que disse também Ei O’Ulsian em seu livro: “Essa inflamação pode ter sido direcionada por Tomé não a Jesus, mas a Deus”. Então, veja que vários autores que não são Testemunhas de Jeová concordam com o ponto que eu estou tentando provar aqui: o que Tomé fez foi uma declaração de fé, uma declaração de glória a Deus, uma doxologia por Jesus ter sido ressuscitado por Deus. E nós podemos ver exemplos disso na Bíblia. Gálatas, capítulo 1, versículo 1, diz: “Paulo, apóstolo, não da parte de homens nem por homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus, o Pai, que o ressuscitou dentre os mortos”. Hebreus 13:20: “O Deus da paz, que ressuscitou dentre os mortos o nosso Senhor Jesus…”. Então nós vemos expressões doxológicas na Bíblia no contexto da ressurreição, onde se glorifica a Jesus por ter sido ressuscitado e a Deus por tê-Lo ressuscitado. E por último, nós podemos ver que a gramática parece indicar esta conclusão. A palavra “Senhor” não está em sua forma vocativa (κύριε), mas em sua forma nominativa (κύριος), o que indica uma construção nominativa, não vocativa. Eu vou deixar claro algo para que depois eu não receba críticas de pessoas que nem ao menos entendem a minha explicação: eu não estou dizendo que toda construção nominativa requer formas nominativas. Mas se entendermos a construção sintática como nominativa e não como vocativa, isso é um poderoso indício de que Tomé não identificou a Jesus como seu Deus. Uma construção nominativa indica que Tomé, embora tenha dito tais palavras para Jesus, não se referiu a Jesus como Deus. O especialista em gramática grega E. A. Abbott, embora creia que as palavras de Tomé identificam a Jesus como Deus, admite, no que tange à gramática da passagem: “Os papiros egípcios usam κύριε livremente, mas nunca, até onde se alega, κύριος na forma vocativa. Assim, uma grande massa de evidências de todos os manuscritos gregos existentes mostra que se o vocativo tivesse sido a intenção, ele teria sido empregado. Isso é confirmado pelas versões latinas”. E. A. Abbott, embora creia que as palavras de Tomé identificam a Jesus como Deus, admitiu, no que tange à gramática, em seu livro…

Do gás boliviano, a de aspas, as palavras “meu senhor” e “meu Deus” devem ser construídas como nominativas, não vocativas, fecha aspas. Então, se peritos em gramática grega admitem que a construção das palavras “meu senhor” e “meu Deus” é nominativa e não vocativa, podemos concluir que a boa base gramatical também nos permite pensar que Tomé não se referiu a Jesus como seu Deus, mas que aquilo foi uma confissão de fé. A própria organização Torre de Vigia também admite ser esta uma possibilidade. Nós vemos um estudo perspicaz: abre aspas, “Alguns peritos têm encarado essa expressão como uma exclamação de espanto, falada a Jesus, mas realmente dirigida a Deus, seu Pai. Todavia, outros afirmam que o original exige que as palavras sejam consideradas como dirigidas a Jesus”, fecha aspas.

Agora surge a pergunta: qual das interpretações se harmoniza com a Bíblia? Conforme eu apresentei nos paradoxos da interpretação trinitária, sem dúvidas, o trinitarismo é incompatível com as palavras de Jesus: “Eu vou subir para o meu Pai e Pai de vocês, para o meu Deus e Deus de vocês”. Interpretar que Tomé se referiu a Jesus como seu Deus nunca se diz de frente. As palavras de Jesus em João 20:17 são incompatíveis. Jesus aqui disse: “O Pai de vocês é o meu Pai; o Deus de vocês é o meu Deus”, no mesmo contexto onde também falou as palavras em análise neste vídeo.

Eu já vi trinitários darem a seguinte explicação sobre João 20:17: “Aqui, Jesus se separa dos seus discípulos; ele faz uma separação entre o Pai dele e o pai dos discípulos”. Separação? Uma ova! Eu fico boquiaberto ao ouvir uma explicação dessas. A partir de um comentário: “Eu vou subir para o meu Pai, que é o Pai de vocês”, ou seja, não tem separação! O Pai é um só; ou seja, o meu Pai. Jesus não fez separação entre o Deus dele e o Deus dos discípulos: “O Deus de vocês é o meu Deus”. Que separação?

Eu sempre falo: eu respeito a opinião das pessoas. Se você quiser acreditar no que você quiser, é problema seu; eu não tenho nada a ver com isso. Mas tenha respeito pela lógica. Não venha para cima de mim com respostas que você mesmo sabe que são falsas. Então, a menos que você acredite em dois Deuses e que você ignore todos os paradoxos que eu apresentei no início deste vídeo, você também concordará que a interpretação apresentada neste vídeo é, de fato, a mais coerente para explicar esta passagem.

Eu espero ter ajudado você. Um grande abraço e fiquem com Deus. [Música]