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[Música] Vamos falar sobre o sentido da vida. Questionar ou adorar? Eis a questão.
Eh, quando a gente pensa na nossa relação com a fé, muitas vezes a gente eh imagina, né, que a relação com Deus é é alguma coisa que deve existir somente a partir de uma afirmação das verdades de alguma coisa que é definida pra gente, e a gente ah concorda com aquilo, ou nada feito.
Interessante que a tradição ah bíblica, nos seus livros, vai ter um livro muito interessante que faz a parte daquilo que tá relacionado com o rei Salomão, considerado o rei mais sábio de Israel. Onde a gente tem um livro Ah que é chamado livro de Eclesiastes, o livro conhecido como Coelêth. Ah, e muita gente que conhece, que já leu o Eclesiastes, vai ver lá que Eclesiastes assim diz o pregador. Na verdade, o pregador ali soa mais como alguém que age como uma espécie de mestre, de sábio, de alguém que ensina as coisas. E o livro, quando você vai ler, certamente você vai ter uma série de surpresas se ler com atenção e conseguir entender razoavelmente o que a gente tem lá, porque é um livro de questionamento. Tem frases assim estranhas, né? "Quem pode garantir que ah o espírito da pessoa que morre sobe para Deus e do animal não faz a mesma coisa?" Final do capítulo 3 diz isso.
E se alguém ler o Eclesiastes sem eh entendimento adequado, ele de fato vai entrar numa série de conflitos e questões assim difíceis de entender. Ah, quando a gente lê, é importante eh ver que o livro foi escrito eh com a perspectiva de quem vê a vida apenas debaixo do sol. Ou seja, essa expressão aparece muito lá. Aquilo que acontece debaixo do sol. Se você for olhar só debaixo do sol e for fazer um raciocínio sobre a vida, onde é que você vai chegar? Então, a pergunta que Eclesiastes levanta, né, que a gente talvez não imagina que o texto bíblico assim, que parece ser e simplesmente uma referência normativa pra gente seguir e ver se tá pisando no quadrado ou não. Ah, o livro vai levantar uma série de questionamentos. Por exemplo, que vantagem há nesta vida? Será que a vida tem sentido? A expectativa de achar a resposta nas várias atividades humanas. O livro vai discutindo isso. Traz uma espécie de vazio descrito com uma palavra que é a palavra hebraica "Hevel". Essa palavra é uma palavra que tá ligada com o nome de Abel. Ela significa neblina, ela significa um vapor que vai embora rapidamente. E historicamente, as diversas traduções da Bíblia chamaram isso de vaidade. Vaidade é uma palavra que confunde um pouco, né? Porque dá a impressão de uma coisa assim: "Nossa, a pessoa tem muita vaidade, ela se arruma muito." Mas vaidade significa algo vazio, vão. É nesse sentido que a coisa não tem substância. É como morder um algodão doce, né? Você morde, não tem nada. É uma coisa. Eu preciso eh sarar desses traumas pessoais profundos aqui, né? E tem a ideia de vaidade, de futilidade. Às vezes tem sentido de absurdo e até mesmo de uma coisa passageira, como acontece com a neblina.
Interessante que depois dele discorrer bastante e falar sobre esse assunto, a busca humana intensa vai ser ali apresentada. E o mestre, então, vai aí trazer uma espécie de sábia conclusão que a gente vai descobrir como é que fecha o livro de Eclesiastes. Ah, interessante. O começo de Eclesiastes vai trazer um questionamento que faz parte da discussão do mundo contemporâneo. Vocês sabem que não faz tanto tempo assim, ah, o pensamento nosso se deslocou. Antigamente, os homens estavam preocupados com aquilo que os estudiosos chamam de uma busca de um entendimento metafísico da realidade. Depois, eles passaram, especialmente a partir do século XVIII, a tentar entender como é que o nosso conhecimento pode nos dar um caminho seguro para entender a realidade e a vida. Mas à medida que o tempo passou, especialmente do século XIX para cá, o pessoal começou a dizer assim: "Olha, o ser humano não funciona tanto pela razão. Parece que existem forças mais profundas do ser humano que vão além do seu entendimento racional e analítico a respeito da vida." E aí começou-se a questionar mesmo, quais são os elementos principais que dominam o ser humano? Aí as respostas foram no caminho da compreensão dos elementos inconscientes que dominam a nossa mente, o nosso comportamento. Houve uma tentativa do elogio da arte. Houve uma uma espécie de pessimismo, sendo que o ser humano é dominado pelas forças mais negativas possíveis. E h, especialmente no século XX, surgiu uma forma de pensar que começou a dizer que, na verdade, o ser humano é um absurdo inútil, que a vida não tem sentido.
E olha só que coisa interessante. Por isso que é é interessante ler a Bíblia e ver como é magistral o texto bíblico e a sua capacidade de ter pertinência às diversas épocas de uma maneira absolutamente ah única. O texto começa dizendo o seguinte: Eclesiastes, nós vamos ver alguns textos do capítulo primeiro e segundo. "As palavras do mestre, filho de Davi em Jerusalém." Historicamente relacionado diretamente com Salomão. "Que grande inutilidade", diz o mestre, "que grande inutilidade! Nada faz sentido. O que o homem ganha com todo o seu trabalho em que tanto se esforça debaixo do sol?" E olha que ele nem estava no Brasil para dizer isso, hein? "Gerações vêm e gerações vão, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta e o sol se põe e depressa volta ao lugar de onde se levanta. O vento sopra pro sul, vira pro norte, dá voltas e voltas, seguindo sempre o seu curso. Todos os rios vão para o mar, contudo o mar nunca se enche. Ainda que sempre corram para lá, para lá voltam a correr. Todas as coisas trazem canseira. O homem não é capaz de descrevê-las. Os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de ouvir. O que foi tornará a ser. O que foi dito se fará novamente. Não há nada novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: 'Veja, isto é novo'? Não, já existiu há muito tempo, bem antes da nossa época. Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade, e aqueles que ainda virão tampouco serão lembrados pelos que vieram depois deles."
Existe a realidade dos chamados ciclos que fazem parte do mundo. E o o livro de Eclesiastes começa a dizer: "Você já reparou que a vida é um vai e volta, né? Que retorna e que há um ciclo? E a gente tá preso numa espécie de caixa determinista onde as coisas se repetem o tempo todo? E tem coisa que a gente vê que não tem como mudar. Aliás, sempre foi assim. As gerações vão, elas voltam, tudo é do mesmo jeito. A gente tá numa espécie de prisão, né?" Aí temos que achar o "prison break", né? Precisa achar a saída. Como é que a gente escapa desses ciclos? E que todas as coisas são canseira, e a gente, na verdade, não tem resposta. E esse tipo de discussão começa a se levantar. E ele tá exatamente a a falando o seguinte: Como é que uma pessoa que vive exclusivamente debaixo do sol, sem considerar uma realidade além daquilo que faz parte da nossa experiência dos sentidos, como é que ela vai encarar a vida? Se ela for honesta e sincera, ela vai prestar atenção nessa realidade cansativa, né? E essa atitude que, aliás, toma conta da sociedade de hoje. Parece que as pessoas estão sempre ah cansadas. Parece que elas estão sempre assim dominadas assim por uma espécie de marasmo, por uma coisa que é marca o jeito de ser. Essa grande náusea, para repetir uma palavra de um filósofo conhecido, o senhor Jean Paul Sartre.
Aí que acontece? Eu acho interessantíssimo. Ele vai dizer: "Peraí, pode ser que tenha um caminho. Pode ser que tenha um caminho para quebrar esse ciclo onde parece que nada tem sentido." E ele não vai aqui discutir se o conhecimento e a sabedoria em si são ruins. Não é essa a questão. A questão é que quem sabe o conhecimento seja minha tábua de salvação? Quem sabe que aquilo que realmente a pessoa procura, que é significado para a vida, sentido para a vida, aquilo que faz valer a pena, não só continuar vivendo, celebrando a vida e vivendo-a de maneira positiva, construída e vivida adiante? Existe hoje uma grande nuvem escura assim na nossa civilização, onde esse sentimento negativo que tá por trás de tanta depressão, que tá tá por trás de tanto suicídio, que tá por trás de tanto comportamento estranho, não é só uma questão que a gente pode chamar de religiosa. Não é só uma questão que a gente pode chamar até mesmo de clínica ah, ou ou de médica. Muitas vezes é uma questão de entendimento sobre a vida, porque onde a pessoa tá fundamentada não tem condição de levá-la muito longe.
Então ele falou: "Já sei, um caminho é o conhecimento." É o que todo estudante, né, quando chega lá para os seus 15, 17, 18 anos, vai entrar na universidade. Falei: "Já sei, para ser alguém na vida." Meu pai e minha mãe falaram: "Você tem que estudar e estudar para caramba. Vai rolar trigonometria, vai rolar aqueles capítulos estranhos da história do Brasil, feudalismo europeu, e tudo aquilo que a gente nem quer ouvir no domingo, vai acontecer lá." Então, o texto de Eclesiastes continua e diz: "Eu, mestre, fui rei de Israel em Jerusalém. Dediquei-me a investigar e a usar a sabedoria para explorar tudo que é feito debaixo do céu. Que coisa! Que fardo pesado Deus pôs sobre os homens! Tenho visto tudo que é feito debaixo do sol, e qual foi a sensação depois de se aprofundar tanto no conhecimento? Tudo é inútil e é correr atrás do vento. O que é torto não pode ser endireitado. O que está faltando não pode ser contado. Fiquei pensando: eu me tornei famoso e ultrapassei em sabedoria todos que governaram Jerusalém antes de mim. De fato, adquiri muita sabedoria e conhecimento. Por isso me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez. Mas aprendi que isso também é correr atrás do vento, pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento." Amém, irmãos. "E quanto maior o conhecimento, maior o desgosto."
É como isso tem marcado grande parte da história do nosso pensamento. Talvez uma das pessoas principais pelo jeito de pensar dos nossos dias foi um homem chamado Friedrich Nietzsche. E Nietzsche chegou a dizer, né: "Se minha loucura tivesse explicações, não seriam loucuras." Ou seja, o homem que, de fato, inclusive morre louco, absolutamente assim, desconectado com a realidade. H, e grande parte do nosso pensamento caminhou nessa direção. Existe hoje, nos altos círculos de reflexão sobre a vida, uma ideia de que a nossa mente, o nosso entendimento, não consegue dar uma explicação valiosa sobre a vida pela qual vale a pena viver. Isso não quer dizer que o conhecimento é ruim, que a nossa razão nos serve. A questão é outra. A questão é quando a gente põe a mente, o conhecimento, para ler o mundo simplesmente debaixo do sol, para encontrar significado, entendimento sobre a vida. Onde é que a gente chega? A gente chega nessa sensação: "A sensação que eu corri atrás do vento. Eu não consigo fechar as coisas. Eu não consigo chegar no ponto final." E é interessante como Eclesiastes revela o sentimento de uma grande parte de pessoas que se dedica à academia nos dias de hoje.
Dá uma olhada só de como é que ele descreve o assunto no capítulo 2: "Então passei a refletir na sabedoria, na loucura e na insensatez. Que pode fazer o sucessor do rei, a não ser se repetir o que já foi feito? Percebi que a sabedoria é melhor que a insensatez." Já tá razoável, né? "Assim como a luz é melhor que as trevas." Amém, né? "O homem sábio tem olhos que enxergam, mas o tolo anda nas trevas. Todavia, percebi que ambos têm o mesmo destino." Ou seja, por mais que um seja um grande especialista, olhando só debaixo do sol, os dois vão pro cemitério. Depois, que coisa! Aí fiquei pensando: "O que acontece ao tolo, também me acontecerá. Que proveito eu tive em ser sábio?" Então, eu disse a mim mesmo: "Isso não faz o menor sentido. Nem o sábio, nem o tolo serão lembrados para sempre. Nos dias futuros, ambos serão esquecidos. Como pode o sábio morrer como o tolo morre?" Essa pergunta que a gente faz, que você ouve quando conversa com alguém: "Mas como pode uma coisa dessa? Uma pessoa tão valiosa, importante, significativa, que fazia isso. O cara morreu de bala perdida." E aí o sujeito que tá fazendo mal, parece que tá tendo hora extra. Já devia ter ido, né? Faz tempo. Como é que a gente entende essas coisas? Esse tipo de pergunta já levantado aqui. Será que vale a pena o conhecimento como referência de sentido para a vida? No na sua compreensão mais ampla?
O autor de Eclesiastes, o texto bíblico, chega e diz: "Olha, eu fui atrás do conhecimento, não encontrei nada." Eu acho interessante quando eu vejo uma galera nova assim, feliz, querendo se aprofundar, entrando na universidade ou começando um mestrado. Você vê que a pessoa tá naquela assim, ó: "Com esse entendimento, eu dominarei o mundo e viveremos felizes para sempre e para sempre, amém." Quando o Eclesiastes diz que o conhecimento não trouxe o entendimento necessário, falou: "Já sei, tem outra coisa." Como a pessoa descobre na faculdade, além das salas de aula? Tem o barzinho com as rodadas de cerveja. É lá que eu vou achar a felicidade, o sentido da vida. Interessante. Parece que ele segue, segue a lógica que a gente não abandonou até hoje. Amém, irmãos. Alguém foi abençoado? Vamos ver. Ele vai dizer o quê? "Eu disse a mim mesmo, capítulo do venha, experimente alegria, descubra as coisas boas da vida, já que aquele negócio de estudar só deixa doido, não leva nada, só faz a pessoa ficar mais esquisita que os outros. É, pode até dar um bom salário, um bom emprego, mas não faz diferença no entendimento e no sentido da vida." Então, a gente vai atrás das coisas boas da vida. Mas olha só, fui atrás e isso também se revelou inútil. Aí a gente conheceu a ressaca. "Concluí, concluí que o rir é loucura e alegria de nada vale. Decidi entregar-me ao vinho, nada mais." Alista e contemporâneo. Vivemos numa sociedade narcotizada com as drogas legais ou ilegais. As pessoas afogam as suas mágoas, né, para usar uma linguagem mais antiga, e entram na dependência de uma série de medicamentos. A a semelhança da descrição de Eclesiastes, ele se entrega ao vinho e à extravagância. Aí você pode ver o que que rolou nessa história toda. Mantendo, porém, igualzinho a gente vê hoje, a mente orientada pela sabedoria. "Eu sei quantos copos eu posso beber. Não, eu estou na balada, mas eu estou no controle da situação, né? A minha cabeça não será abalada, né? Eu eu tô no domínio. Eu sei, eu uso, mas eu tenho controle. Eu sei o que eu tô fazendo. Pode ficar tranquilo, né?" É impressionante. "Eu mantive tudo isso. Eu queria saber o que vale a pena debaixo do céu nos poucos dias da vida humana." E mais adiante, no verso 10, ele vai ainda expressar com mais força: "Não me neguei nada que os meus olhos desejaram. Não me recusei a dar prazer algum ao meu coração." É impressionante a força e atualidade do texto bíblico. E não só isso, que esse texto é um texto bíblico inspirado, tá na Bíblia, e levanta pra gente a pertinência e o valor do questionamento. Um questionamento que surge de maneira espontânea no coração de toda pessoa numa época da sua vida. E o texto, então, chama a gente para essa reflexão. Por que que isso é tão valioso? Que se a gente quer dar testemunho do Evangelho, se a gente quer ter pertinência no mundo de hoje, a gente precisa aprender a conversar, a questionar, a dialogar, e entendendo que isso faz parte da referência do próprio texto bíblico. Você jamais vai alcançar uma pessoa sem ser sensível ao tipo de questionamento que essa pessoa tem. E Eclesiastes ensina isso pra gente.
Então, ele se entrega aos prazeres e descobre que entregar-se aos prazeres, às vezes, é uma situação de beco sem saída. É impressionante, né? É aquela música antiga dos Titãs: "A gente quer prazer, né, para aliviar a dor." É a fuga do sofrimento, é a tentativa de lidar com as contradições internas, é mexer com os descompassos da vida, é às vezes encontrar um sentido. E é interessante isso. Já viu aquela pessoa certinha, né, que tentou estudar, depois percebeu que isso não ia completar o "x" da equação? A pessoa fala: "Sabe uma coisa? Eu vou cair na gandaia, porque não é possível que só eu fique de fora e não aproveite nada." E quantas pessoas na faculdade ou no momento depois, no momento da vida, desligaram as suas referências, falaram: "Deixa eu pelo menos aproveitar, só para saber como é que é." E vai descobrir que não é. A euforia tem o seu lado posterior. A entrega àquilo que é chamado de prazer acaba trazendo uma conta muito elevada mais tarde. E ele descobre isso. Como, infelizmente, a nossa sociedade tá tendo o mesmo tipo de problema. Eu fico impressionado. Você vai para lugares do mundo altamente sofisticados, um lugar, por exemplo, como a Suíça ou como a Holanda, onde você vê pessoas. Eu estava numa reunião em Amsterdã com um conhecido que cuida de uma igreja brasileira. E aí eu conversei com a filha, que era adolescente, e ela falou assim: "A pergunta que a gente tem na escola é se a aula que o nosso professor tá dando no segundo período vai ser mais interessante, mais animada do que o primeiro período." Falei: "Mas por quê?" "É porque no intervalo, ele vai no chamado coffee shop, e aí ele usa de tudo que ele tenha a possibilidade lá. Então, na segunda aula, ele volta leve, rindo, fazendo um monte de piada, e a aula é diferente. Então, a gente sempre espera o segundo momento da aula." Você imagina crianças em formação ah tendo como referência a expectativa de que um dito professor vai trazer uma aula mais aprazível e terá uma didática extremamente marcada por elementos favoráveis, porque ele é dependente de narcóticos. Que mundo maluco! Mundo de muito conhecimento, de muitas vezes alta erudição e até mesmo de alta tecnologia, sem condições de encarar o sentido da vida. A impressão que a gente tá num trem em alta velocidade, e que se parar, a gente pula do trem. E se não pular, com ele em alta velocidade mesmo.
Mas tem uma solução. Solução que vai resolver, quem sabe, a coisa que a gente conhece. Já que São Paulo não é exatamente a cidade da diversão, pelo menos desse lado, a gente pode tentar. Que que a gente vai ver? Ele vai dizer: "Olha, eu vou continuar contando a história para vocês. Eu tentei ir atrás do prazer, como vocês viram. Não neguei nada que os olhos desejaram. Não me recusei a dar prazer. Na verdade, eu me alegrei em todo o meu trabalho." Quer dizer, o cara entrando para poder estudar para ter futuro, achando: "Vou achar o sentido da vida." Depois, ele se decepcionando e começando a buscar sentido nas alegrias paralelas que o ambiente oferece. E depois, ele se forma e diz: "Não, agora na minha profissão eu vou conseguir resolver o negócio. Aí eu vou ser o melhor engenheiro, eu vou ser o médico da região, eu vou ser o advogado X, eu vou ser o profissional, eu vou ser o mestre da da TI, né? Pela minha TI, eu vou tirar todos da UTI." E assim a coisa vai acontecer. Ele diz: "Eu me alegrei em todo o meu trabalho. Essa foi a recompensa de todo o meu esforço. Contudo, quando avaliei tudo que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforcei para realizar, percebi que tudo foi inútil. Foi correr atrás do vento. Não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol."
E ele prossegue no capítulo 5. Ele vai com aquilo que é o resultado do trabalho, especialmente na nossa sociedade, onde as pessoas costumam selecionar trabalho em função ah do que ela pode ter de proveito financeiro, para ter o que a gente chama de nível de vida melhor. Ele diz: "Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente." Vocês já viram isso em algum lugar? A pessoa sempre sabe que o outro é que ganha melhor e que tem um padrão de vida desejável. Ele sempre tá... Nunca encontrei ninguém que falasse: "Puxa, eu tô ganhando muito, eu preciso dar um jeito de diminuir isso." "Quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com seus rendimentos." Isso também não faz sentido. E é assustador quanto as pessoas têm rendimentos altos e dívidas mais elevadas ainda, que nunca conseguiram o mínimo. Porque essa relação de consumo é uma relação perturbada do ponto de vista psicológico, filosófico e espiritual. Porque a pessoa, na verdade, vê no ato de consumo uma uma espécie de resposta existencial para a sua própria vida. Então, é uma coisa fora daquilo que tem a ver com algo saudável para nós. "Quando aumenta os bens, também aumenta os que os consomem. E que benefício traz os bens a quem os possui, senão..." Olha só, "dar um pouco de alegria aos seus olhos." É muito legal isso aí, porque a gente compra a última coisa, né, que é o último material brilhante, produto X, e depois de duas semanas, você olha para a outra: "Que que você tá olhando feio para mim? Por que que você não é tão simpático como há duas semanas atrás?" "O sono do trabalhador é ameno, quer coma pouco, quer coma muito. Mas a fartura de um homem rico não lhe dá tranquilidade para dormir." E, de fato, a gente tem um monte de gente hoje, cuja relação com trabalho e com ganho e com proveito é doentia. Eu acho até impressionante que esse jeito cordial assim, que a gente acaba tendo na na nas reuniões religiosas da igreja, quando você vai ter uma relação de trabalho ou com a pessoa, isso desaparece. Né? Você tem direito à facada, né? Você tem direito à competição do mercado. Você se transforma em outra pessoa, porque o sentido da vida está naquele suposto sucesso.
E ele vai chegar ao entendimento que aquilo que não foi alcançado pelo conhecimento como resposta para o sentido da vida, aquilo que não foi alcançado pela alegria desmedida e pelos prazeres disponíveis de maneira imediata, também não é alcançado pelo trabalho e aparente sucesso por meio dos bens adquiridos. Olha só a reflexão que ele vai apresentar: "Por isso, desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me muito pesado." Posso ouvir um Amém aqui? "Tudo era inútil, era correr atrás do vento. Desprezei todas as coisas pelas quais eu tanto me esforcei debaixo do sol, pois terei que deixá-las para aquele que me suceder. E quem pode dizer se ele será sábio ou tolo? Todavia, terá domínio sobre tudo que realizei com o meu trabalho e com a minha sabedoria debaixo do sol." Isso também não faz sentido. Isso se pensarmos na vida de Salomão e num rei. Você fala: "Puxa, tudo que eu construí e eu vou embora, vai ficar na mão de quem?" Por isso, a pergunta: Qual é o investimento real da sua vida? Que legado você deixa para os seus filhos? Que legado você deixa para sua família? Que legado você deixa para as pessoas? Quais são os valores que permanecem ou não? E aí ele vai e diz: "Cheguei ao ponto de me desesperar por todo o trabalho no qual tanto me esforcei debaixo do sol, pois um homem pode realizar o seu trabalho com sabedoria, conhecimento e habilidade, mas terá que deixar tudo que possui para comer para alguém que não se esforçou por aquilo. Isso também é um absurdo e uma grande injustiça." Parece uma pessoa que se encontrou na na na rua de casa ontem, né? Uma grande injustiça. "Que proveito tem um homem de todo esforço, de toda ansiedade com que trabalha debaixo do sol durante toda a sua vida? Seu trabalho é pura dor e tristeza. Mesmo à noite, a sua mente não descansa." Isso também é um absurdo. Aliás, a loucura é a dor da sociedade. Não tem a pessoa deita e a cabeça dele fica rodando. A falta de descanso vem da perturbação, não só com o que a pessoa faz, mas com o sentido que isso tem para a vida. Todas as ilusões que a gente vai ser mais gente, que a gente vai ser melhor, que a gente vai ter categoria social X, que a gente vai ter isso e aquilo, que se dá através de uma ideia que a execução do trabalho vai nos propiciar ser mais gente para a gente mesmo, para os outros, e quem sabe diante de Deus. Quando se chega ao fim desse túnel, se descobre que isso não consegue dar sentido à vida.
Tão interessante a gente ver que no meio do caminho, o autor do livro é muito legal. Se eu fosse você, eu lia com atenção. Ele vai chegar e falar: "Pessoal, o negócio tá tão difícil que eu vou dar um tempo aqui. Vou apresentar para vocês uma solução provisória." Mas a gente não chega no ponto final da coisa. Ele diz o seguinte: "Olha, depois de ver que se entregar às alegrias, que esperar do conhecimento, que entender que através do trabalho eu não chego ao sentido da vida, então eu descobri o seguinte: pro homem não existe nada melhor do que comer, beber e encontrar prazer no seu trabalho. E vi que isso também vem na mão de Deus. E quem aproveitou melhor as comidas e os prazeres do que..." Olha, é o seguinte, se a gente não encontra a resposta, vamos para a churrascaria. Ó, olha a teologia brasileira de Eclesiastes. Quem foi abençoado, diga Amém aí, né? Agora sim, né? Vamos para a churrascaria. "Eu vi que isso vem da mão de Deus." E aí a gente realmente acredita que aquela picanha veio da mão de Deus. "E quem aproveitou melhor as comidas e os prazeres do que eu?" "O homem que o agrada, Deus dá sabedoria, conhecimento e felicidade. Quanto ao pecador, Deus o encarrega de ajuntar e imaginar riqueza para entregar a quem agrada." Isso também é inútil, é correr atrás do vento.
Em vários lugares, antes do final do livro, o Eclesiastes vai dizendo: "Olha, sabe o que você faz? Eh, come bem, viva bem com a sua esposa, vá, vá, vá empurrando com a barriga, vá levando, aproveite o que Deus deixou na sua mão." E quem sabe vai dar pra gente ir levando. E é interessante que é o que muita gente faz. Gente que desistiu de de pensar na vida, porque pensando no conhecimento separado da referência de Deus, não chega em lugar nenhum. Aí, então, a pessoa desliga. Fez um monte de bobagem, porque se entregou aos prazeres. Aí diz: "Não, nessa roubada eu não entro de novo, porque eu me queimei muito." Ele achou que o trabalho ia ser sua salvação. Depois surge o vazio lá dentro. Então, ele fala: "Ó, vamos lá, um futebolzinho, um churrasco, os amigos, vê se o pessoal renova o estoque de piadas de vez em quando para não repetir as mesmas." E a gente vai, vai levando.
E aí, finalmente, o Eclesiastes chega no final e vai dizer pra gente o seguinte: Não dá para encarar a vida somente debaixo do sol se você não perceber que a relação com o Criador, que também é Redentor, é fundamental. Você não chegará a lugar nenhum. Mesmo que você enriqueça, mesmo que você seja a pessoa mais divertida e alegre, que tenha experimentado de tudo, tenha bebido todas, experimentado todas, saído com todos e todas, mesmo que você tenha uma posição importante, tem um nome X, seja senior aqui, seja diretor lá, seja isso, isso nunca vai encontrar espaço de tranquilidade no seu coração. Eu tenho ficado impressionado na minha vida, e a gente conversa com algumas pessoas, é muito interessante. Eu tenho visto gente com um olhar sereno, tranquilo e abençoado, que olhando para a vida da pessoa, você vê que essa pessoa parece que perdeu muito, mas essa pessoa não só encontrou a dimensão da sua relação com Deus, não só teve o seu coração curado, e teve uma caminhada quando a sua vida teve sentido, porque ela teve sintonia com com o Senhor, com o coração da pessoa, alinhando o que precisa e na sua vida de serviço ao próximo, uma vida que abençoa a vida dos outros. Eu tenho visto gente tão bem-sucedida, tão destruída, tão marcada, tão arrebentada pelas falsas alegrias, pela construção de um ídolo próprio em torno de si mesmo, pessoas até que chegam a ser chatas e doentias, porque construíram aquilo que não tem condição de ser sustentado, porque, na verdade, não são as coisas em si, mas são o que elas significam para a gente. E se esse significado não preenche essa torre que a gente levanta, vai cair.
Por isso o autor de Eclesiastes diz: "Olha, lembre-se do seu Criador. Vá além do mundo debaixo do sol enquanto você tem tempo, nos dias da sua força, nos dias da sua juventude, porque vai chegar um tempo em que tudo que a gente fez, a gente vai colher lá na frente. Se a gente gastou a vida para se divertir, que é o paradigma que eu vejo uma obsessão hoje por essa cultura da diversão, que parece que não deixa ninguém mais feliz no na semana seguinte. Se a gente gastou com esse foco, conheço gente, por exemplo, que não não poupa recursos para tentar dar aos seus filhos a diversão mais cara e às vezes desnecessária possível, mas não tem relação real nenhuma com eles." É impressionante como há pessoas que se afundam num aprofundamento na busca de respostas com um tipo de conhecimento que você vê que vai afundando a pessoa. E quantas pessoas gastam a sua vida para depois olhar para trás e dizer: "O que foi que eu fiz?" Vão chegar os dias difíceis, e lá você faz a contabilidade última. E para que eles não se aproximem, você diz: "Eu continuo mais, absolutamente cansado, absolutamente sem disposição, não tenho nenhuma satisfação neles."
E aí ele vai fechar com chave de ouro e vai dizer o seguinte: "De tudo que se ouviu, a gente passeou bastante, a gente refletiu, a gente questionou. E questionar é importante. Questionar faz parte do adorar, porque Deus deixa a coisa em aberto para que as pessoas sinceras se levantem e façam perguntas. Joguem o jogo da verdade, não se tornem falsos religiosos, não se tornem pessoas superficiais, irrelevantes, desnecessárias, e que levem a vida, de fato, com uma atitude de seriedade." "De tudo que se ouviu aqui, está a conclusão: Tema a Deus." Essa é uma expressão interessante, porque ela significa, na verdade, "Adore a Deus". Mas porque temor? Porque temor é a compreensão da sua condição de criatura e como Deus é Senhor. Então, a sua relação com ele é de um santo respeito, porque você acha o seu lugar no universo. Quem não encontra a sua relação com Deus, nunca vai se encontrar. Se a luz de Deus não ilumina a sua vida para que você defina sua identidade, você nunca será ninguém. Interessante lembrar das sábias palavras de um bom pensador da área de olia, o senhor Viktor Frankl, que dizia: "Você nunca vai encontrar sentido na vida se não entrar em paz com o Deus." Se você não encontrar significado para a sua vida, o que você faz, você não viver a sua vida com sentido de missão. Se o trabalho que você faz, se o dinheiro que você ganha, se o conhecimento que você adquire, se as alegrias que você tem na sua vida não estão sintonizadas com esse sentimento de missão, o buraco ficará mais fundo.
Por isso, ele vai dizer: "Tema a Deus e caia na realidade. Você não sabe de nada se não sabe quem deu diretrizes." Sabe mais do que você. Você pode achar que não é tão legal, você pode achar que você sabe mais do que Deus, você pode achar que os conselhos dos profetas, dos apóstolos, não são suficientes para sua magnânima e lindíssima pessoa. Mas a Bíblia diz: "As diretrizes de Deus são superiores." Então, a favor de obedecer aos seus mandamentos, atenda suas diretrizes. Você não vai a lugar nenhum achando que você entende mais das coisas. Quem criou o universo, dá para dar uma olhadinha só no último pôr do sol? Você tem um pequeno detalhe do seu poder e da sua grandiosidade. Obedece aos seus mandamentos." E aí vem a coisa interessante. Tradicionalmente, a gente tem a frase: "Porque isso é o dever de todo homem." Não tá escrito isso no hebraico. O texto original vai dizer: "Porque isso é o todo do homem." É como se diz: "Isso é tudo que você deve considerar na sua vida." Por isso, uma melhor tradução: "Porque isso é o essencial para o homem. Isso é o fundamental para o ser humano." Porque, afinal de contas, a vida na qual a gente busca sentido nem vai terminar debaixo do sol. Ela vai prosseguir. A gente vai estar diante de Deus, pois Deus trará julgamento. Tudo que foi feito, inclusive tudo que está escondido, seja bom, seja mau. Ele não só é o Senhor, ele não é somente aquele que dá as diretrizes para nós, ele não é somente aquele que dá sentido à vida. Ele também é o juiz, o futuro juiz.
Que Deus nos abençoe nesta manhã e nos ajude a entender que uma vida séria, com responsabilidade, que questiona, é um caminho que a gente deve tomar com relação à nossa vida. Se a gente leva a vida e Deus a sério, e que a gente deve sondar na nossa vida se a gente tá colocando a construção do que a gente tá fazendo na coluna frágil. Em que coluna você tá pondo esse negócio? Vai cair. E a gente tem que ter a sensibilidade de entender em que mundo nós estamos, para que a gente tenha a condição de trazer a palavra divina para as pessoas, a salvação em Cristo, de maneira adequada. E que a gente deva seguramente entender que nós fomos criados para adorar a Deus, para viver debaixo desse Deus, para temer a esse Deus, porque, afinal de contas, é isso que foi deixado na nossa caminhada. Esse é o todo do ser humano. Deus nos abençoe nesta manhã. Amém.