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Brasil ainda tem populações indígenas que vivem totalmente isoladas

Operador Fox15:35

Transcription

No Brasil de 2019, ainda existem populações indígenas sem qualquer contato com o nosso modo de vida. São chamados povos isolados. Foram identificados 26 grupos em sete estados, dois grupos confirmados recentemente. De 3 anos para cá, o Fantástico embarcou numa expedição pela selva em busca de vestígios da presença de índios isolados. Você vai ver também imagens exclusivas e raras e conhecer o trabalho para proteger esses povos.

[Música]

Sob a mata fechada da floresta amazônica estão brasileiros que quase ninguém conhece. Pessoas com tradições e costumes muito diferentes dos nossos, distantes das grandes cidades. Índios isolados travam uma batalha diária contra o próprio fim. Quantos são? Como sobrevivem? As respostas vão surgindo em expedições de monitoramento pelo Brasil. O Fantástico embarca agora numa delas.

Nossa viagem começa em Guajará-Mirim, Rondônia. Um dia inteiro dirigindo em estrada de terra até chegar a uma base da FUNAI, a Fundação Nacional do Índio. Aqui trabalha Jair Candor, 58 anos, 31 deles acompanhando índios isolados. "A gente faz o nosso trabalho de monitoramento a distância, entendeu? A prioridade é dar, respeitar esse povo e deixar eles viver."

Esta floresta é o lar do povo Paiter Suruí. A FUNAI estima que na década de 60, 80 indivíduos viviam aqui. Por conta de alguns acontecimentos, inclusive um grande massacre, hoje a FUNAI só conseguiu localizar três indivíduos. Dois deles continuam vivendo isolados. O outro vive aqui nesta base. Bem, Dona Rita. Dona Rita, ela entende bem o português, entende, né?

"Dona Rita é uma das três sobreviventes do povo isolado Paiter Suruí. Depois de perder quase toda a família, ela decidiu viver ao lado da base da FUNAI com o marido de outro povo."

"Senhora sente saudade da família da senhora?"

"Saudade."

O irmão e o sobrinho vivem isolados na floresta.

"A senhora tá feliz sabendo que o irmão da senhora tá por aqui por perto?"

"Tom, né? Se eles não quer chegar a nós, não quer ser amigo nosso, quer viver no lugar deles. Eu acho que a nossa missão é respeitar o espaço do outro."

A existência de povos isolados está confirmada no Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia, Mato Grosso e Maranhão. Nos últimos 3 anos, a FUNAI encontrou 10 novos vestígios desses grupos.

"Esse trabalho começa a partir de algum registro, algum relato que a gente receba, ah, da presença de índios em alguma determinada área. E a partir disso, a gente coloca um grupo em campo para investigar esse relato."

Até agora, são 114 registros de índios isolados pelo Brasil. 26 já foram confirmados pela FUNAI. Os últimos dois no Acre.

"O nosso principal preocupação nesse momento é, confirmado o registro, fazer a proteção territorial, né? E traçar a melhor estratégia de contato eventual, não contato dessa comunidade."

Em Brasília, ficam guardados fotos e vídeos feitos pelas equipes das 23 bases de proteção dos povos isolados. Este vídeo é inédito. A única imagem deste grupo de identidade ainda desconhecida na Terra Indígena Massaco, em Rondônia, foi gravada em 2012.

"Momento extremamente raro, né? Foi a primeira filmagem feita por uma equipe da FUNAI em 30 anos nessa região."

Ao ver os índios, o agente rapidamente se abaixa. Por desse extremo cuidado do agente da FUNAI, a gente não saber qual é a reação deles, né? Pode ser violenta, né? Podem se sentir acuados e atacar a equipe da FUNAI. Que já houve na história diversas situações semelhantes.

Altair coordenou essa expedição.

"Como é que foi aquele momento da filmagem?"

"Os índios estavam muito próximos, as quatro pessoas numa área aberta, não tinha como se esconder ali. A gente se jogou dentro do capim ali. A gente sabia que se aparecesse, eles iam ver a gente, que era uma coisa que nós não queria."

Neste outro vídeo, também exclusivo, índios isolados ao ar carregam lanças. Pelo menos seis indígenas andam praticamente nus. É possível ver uma mulher carregando uma criança. A gravação é de 2015 e foi feita no Maranhão pelos índios Guajajara, que mantêm contato com a FUNAI.

"São grupos também que estão, são nômades, não produzem roça, então eles estão coletando e caçando sempre. E hoje a gente percebe que tá cada vez menor a área de ocupação deles, porque a terra tem sido devastada por fogos, muitas vezes criminosos."

"Esses sinais de, de muita quantidade de flecha, pode ser também por um ataque, né? Deles serem atacados e se defenderem."

"Por que que vocês guardam essas imagens a sete chaves?"

"Algum, a gente não tem um sistema de proteção, né, para esses índios. E divulgar onde eles estão pode ter uma corrida para exploração da terra deles."

Na área de proteção onde vivem os dois Paiter Suruí, só podem entrar pessoas autorizadas pela FUNAI, com atestados de vacinação e de não doença infectocontagiosa. Uma simples gripe pode matar uma comunidade inteira.

"Caso a gente encontre com eles, vamos ter o comportamento de sempre que a equipe teve aí, de manter a calma, ficar tranquilo, né, sem, sem movimento brusco."

Seguimos os Paiter Suruí. Não são um povo guerreiro, por isso a nossa equipe pode acompanhar a aproximação.

"Já passou por alguma situação de perigo?"

"Seu?"

"Já passei. Já passei. Não com eles aqui, mas aqui na outra terra indígena, no Ceará, já passei."

"Que que aconteceu com o senhor?"

"Ele acabou jogando umas flechas na gente, mas não acertou ninguém."

Logo no começo, esbarramos com um outro morador da floresta.

"É peso? Paiter Suruí come alimento deles."

"Ah, já botei. Jati. Escondidinho aqui. Tá com medo."

"Isso aí seria um belo almoço para eles."

Todo o sustento vem da mata.

"A castanha da Amazônia. Prova aí. É alimento deles. Alimento do Paiter Suruí."

"A gente tá mais ou menos 1 km de distância de um possível acampamento dos dois Paiter Suruí, né? Isso a gente só vai tentar amanhã às 5 da manhã."

Todos já estão de pé. Já são eles andando por aí. Como referência, ir e voltar.

"Nó forte com facão. Ele muitas vezes não tem um facão, então ele vai na mão, né?"

Depois de quase 10 km caminhando dentro da mata fechada, estes aqui são vestígios reais da presença dos Paiter Suruí. A equipe do Fantástico é a primeira equipe de televisão a chegar nesse ponto.

"Aqui, 40 dias mais ou menos, eles estiveram por aqui. 30, 40 dias. Isso é bom. É bom porque é um sinal que eles estão ocupando a região."

"Esse aqui é o babaçu, né? É a folha do babaçu, ó, né? Aí ele amarra uma travessa aqui, a gente chama de travessa. Aí ele escora e aqui, aí ele escora as folhas do babaçu, tudo assim. E aí ele amarra a rede, né? Então eles conseguem tirar essas folhas e fazer essa cobertura aí para passar um período aí de 15, 20 dias em um local."

O primeiro contato de Jair com os dois Paiter Suruí foi em 1989. Desde então, eles se viram 14 vezes. Estas são imagens exclusivas do último encontro em maio do ano passado.

"Um tava sentado. Isso. Sentado. E o outro, o outro tava em pé. Conversando."

"Ele tentou pegar numa árvore assim para levantar e não conseguiu por causa do problema dele, né? Tava com, perdendo o movimento das pernas."

Um dos agentes se apresenta como amigo de Jair. Jair, os agentes, os índios a irem com eles. O mais velho, Bait, enrola rede feita da casca da árvore tauari e leva nas costas como uma mochila.

"A gente colocou numa rede, trouxe até a base, né? Aí a gente comunicou o pessoal da saúde que veio no dia seguinte. E aí foi constatando que não teria como resolver o problema aqui."

De avião, foram parar em São Paulo. Bait recebeu tratamento para um inchaço na próstata e o sobrinho dele, Tamanduá, passou por uma cirurgia de desobstrução de uma artéria na cabeça. Ficaram 50 dias fora da mata e quando voltaram, escolheram a floresta. Desde então, as expedições acontecem todos os meses para checar como tio e sobrinho estão.

"A gente sabe que eles estão bem, né? Eles estão conseguindo pegar o alimento deles, a castanha, o peixe, a caça. Então isso é, isso é nota 10."

E aqui coletam o mel, né? Ah, eles fazem esse buraco aqui. Faz esse buraco para conseguir coletar o mel. Na verdade, eles não tomam o mel puro igual a gente toma. Eles só tomam o mel com água, né?

"Aham. E aqui tem o rio onde que pesca, né? Aí eles usam aquelas poças onde tem o peixe que é para pegar o bater o Timbó, né? Que é uma planta."

"Ah, tá. É uma planta que eles tiram no mato, aí solta a seiva dela na água e tira o oxigênio da água e o peixe acaba morrendo, né? E deles fazem o alimento deles."

Os agentes fotografam cada detalhe que vira prova para garantir a proteção desses povos. É assim por todo o Brasil. Estas são imagens exclusivas de uma expedição da FUNAI e do Exército em 2017 na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. A região tem confirmados 11 grupos de índios isolados.

"Pode mandar. Ainda os índios estão muito perto da gente. Conseguimos investigar que eles estavam ali naquela região plantando, abrindo novas roças."

Os agentes foram investigar uma denúncia de massacre. Descobriram que isso não aconteceu, mas explodiram balsas de garimpo ilegal de ouro.

"Uma falha do Estado, nosso, não deixar essas pessoas se aproximarem de grupos isolados."

A maior parte dos 10 novos registros de povos isolados fica em áreas de desmatamento ou fora de terras indígenas. A proteção para eles é mínima. Talvez em alguns desses novos povos que a gente está descobrindo, estudando, se existe ou não, a gente nem venha a saber se eles existem ou não.

No ano passado, três bases de índios isolados foram atacadas. A maioria, tiros. Jair cuida de uma das áreas mais violentas no país por causa da disputa de terra.

"Se eu disser pra você que a gente não é ameaçado também, eu estaria mentindo, porque a gente é muito assim, ameaçado por conta da madeira que existe na reserva."

Ainda há toras dos tempos de extração ilegal que durou até 2007, quando a área dos Paiter Suruí passou a ter restrição de uso. Ou seja, nenhum recurso natural pode ser retirado, a não ser pelos índios ou pela FUNAI para estudo.

A estrutura responsável pelas questões indígenas no Brasil sofreu alterações no governo de Jair Bolsonaro. O presidente transferiu as decisões sobre identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas da FUNAI para o INCRA, vinculado ao Ministério da Agricultura.

Esta semana, o Fantástico pediu entrevista para a ministra Teresa Cristina, mas ela não quis gravar. Em nota, a assessoria diz que, em termos técnicos, nada muda nas determinações que são constitucionais para definição de terra indígena. Que essa reorganização administrativa terá 60 dias para se efetivar. O Ministério da Agricultura afirma que se estudos demonstrarem que para proteger índios isolados será necessário restringir áreas, isso será considerado. Acrescenta que as decisões do INCRA sobre demarcação serão examinadas por um conselho interministerial antes de seguir para o presidente, a quem cabe a homologação final. E que, neste momento, não está no horizonte nenhuma revisão de terra indígena.

Mas, ainda assim, a mudança no governo sofreu críticas. A relatora especial das Nações Unidas para povos indígenas, a filipina Victoria Tauli-Corpuz, se mostra preocupada.

"O Ministério da Agricultura é o órgão que permite a expansão do agronegócio. Eles podem invadir terras que pertencem aos índios, e isso pode levar a uma violação massiva dos direitos das comunidades isoladas."

Agora, no governo Bolsonaro, a FUNAI está subordinada ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Nós pedimos entrevista à ministra Damares Alves, mas ela também não quis gravar. Em nota, a assessoria diz que será mantida a atual política de proteção dos povos isolados.

A antropóloga Marcela Coelho, que pesquisa há 30 anos o tema, defende a continuidade das ações feitas hoje.

"Uma política do isolamento voluntário é uma política, na verdade, voltada não para mantê-los isolados, não é? Mas é para dar condição que esses povos exerçam a sua própria autonomia, a sua decisão. Tirar esses povos das terras onde eles estão tentando permanecer é, na verdade, condená-los à morte."

"Pergunto quanto tempo acabou em 30 anos os Paiter Suruí procuraram contato por vontade própria? Uma única vez em 2016."

O momento foi registrado no documentário Paiter Suruí.

"A gente ganhou na loteria hoje. Dessa vez não tivemos a mesma sorte."

Depois de 27 horas na mata, é hora de voltar para a base. Mesmo sem ver Bait e Tamanduá, Jair descobriu o suficiente para saber que os dois continuam com a liberdade a que têm direito.

"E as pessoas precisam de entender que esses caras que vivem aí, eles são humanos igual eu, igual você, igual ele, igual qualquer um, entendeu? Eles têm um padrão de vida diferente, mas os caras é humano, velho. Não são diferentes de nós, são igual."