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Para entender poesia #3: semântica

Carmem Lúcia21:26

Transcription

Olá, pessoal, tudo bem? Eu sou a Carmen, do blog Kvi do Mundo, e hoje eu venho fazer um vídeo que eu prometi há muito tempo. Ahá! No mínimo, dois anos! Que é o terceiro vídeo teórico sobre poesia. Eu vou deixar aqui nos cards os dois primeiros que eu fiz. E o primeiro que eu fiz, acho que era mais assim, introdutório para gostar de poesia. Falei um pouco de recursos fonéticos… não acho que falei dos recursos fonéticos no segundo, bem… e o segundo foi sobre sonoridade. Eu falei de aliteração, de rima, falei um pouco de fonética. E nesse segundo, eu prometi fazer um terceiro para tratar de semântica. Muita gente até me cobrou, né? Viu o segundo e ficou esperando o terceiro. Eu não fiz.

E por que que eu não fiz? Porque eu tava com dificuldade de encontrar poemas que me servissem de exemplo. Pensava em um, pensava em outro… vai ser um bom poema para exemplificar o que eu quero dizer… até que eu achei um, aí um outro talvez… E aí eu resolvi fazer o vídeo logo, porque senão cai no esquecimento. Eu aproveito que é começo de ano, eu tô com mais tempo para fazer esses vídeos que me demandam mais, né? Que são mais difíceis de fazer. Mas de lambuja, eu vou apresentar um terceiro poema para tratar de um outro aspecto que é muito próximo desse semântico, que é semântico também, mas mais específico: é para abordar a questão da figura de linguagem. Então eu vou trazer um terceiro poema. Então, vamos lá!

Por que que eu resolvi falar de semântica? Porque tem poema que ele é feito – o autor, o poeta pensa nele a partir do assunto que ele quer tratar ou do significado de um termo – e se você não sabe o significado desse termo, você não entende absolutamente nada. Poeta, como eu já falei para vocês, eu acho que no primeiro vídeo, né, desses três, dessa tríade… a poesia, ela não tem o compromisso de comunicar. O compromisso da poesia é expressar. Então ela não tem compromisso com a racionalidade. Se a gente tomar isso e somar com algumas palavras que a gente não conhece o sentido – porque também tem licença poética, né? O cara, além de ter uma liberdade de expressão, ele tem uma liberdade poética de comer sílabas para dar o ritmo certo ou de mudar a grafia das palavras para dar, além do ritmo, mas a sonoridade certa. Então, assim, a racionalidade pode passar ao largo da poesia, de um poema. Não tô dizendo que necessariamente vai passar sempre, mas pode. É permitido, né? Licença poética. Muitas vezes um poeta, ele precisa lançar mão de uma palavra difícil, não usual, para dar o efeito que ele quer. Às vezes esse efeito é o quê? De rima, às vezes é de aliteração, apenas que não é exatamente rima, mas é uma repetição de som, às vezes para dar ritmo, rima, e às vezes para expressar o sentido que ele quer sem quebrar o ritmo e a rima, a depender de como o poeta resolveu fazer, os métodos utilizados, a forma do poeta… enfim, N razões. Não é por acaso que frequentemente a gente se depara com um poema e não entende uma palavra ou outra. Por conta desses recursos todos que ele tem que lançar mão ou por uma questão formal, né, de ritmo, rima, não sei o quê, ou por conta do sentido que a palavra vai ter ali. Às vezes a ambiguidade de sentido, né? Em poesia isso é muito positivo; já não é positivo na prosa.

Então agora deixa de blá blá blá e vamos para os poemas! E aí o primeiro poema que eu acho que exemplifica muito bem essa questão semântica é um do Carlos Drummond de Andrade. Está aqui em *A Rosa do Povo*, mas hoje em dia com internet, né, a gente acha tudo por aí, os poemas de qualquer forma. O nome do poema é *Aporo*. Olha só a dificuldade! Quem já ouviu falar nessa palavra? A primeira vez que eu ouvi essa palavra, ouvi falar nela, tomei conhecimento dela foi para analisar esse poema. Vejam a minha dificuldade! Vou ler o poema, depois vocês vão entender melhor. Ele é rápido, curto:

“A um inseto

Cava, cava, sem alarme

Perfura a terra sem achar

Escapatória.

Que fazer, exausto, em país bloqueado,

Em laços de noite, raiz e minério?

Eis o labirinto. Ó razão, mistério!

Presto se desata em verde, sozinha,

Anti-euclidiana, uma orquídea forma-se.”

Eu li esse poema… não entendi nada! Mas a começar pelo título: o que que significa *aporo*? Então eu li a primeira vez achando que o poema, o corpo do poema me ajudaria a entender o título, mas não. Eu continuei do mesmo tamanho, sem saber o que significava. Fui aos dicionários, fui a mais de um, não achei a palavra… ou se achei em algum, eu achei, acho que duas acepções, eu não lembro mais… ou eu não achei, ou achei apenas uma ou duas acepções desse termo *aporo*. Até que eu fui no dicionário que sempre tem todas as respostas, no dicionário que eu sempre acho tudo que eu procuro em língua portuguesa, que é o Caldas Aulete, que é um dicionário de Portugal. Lá eu achei *aporo* com três definições: três! Primeira: inseto. Segunda: problema de difícil solução. Terceira: orquídea. Percebo que são três acepções totalmente diferentes. E aí voltei ao poema, né? Agora que eu já sei o que pode significar *aporo*, vamos ver como ele usou isso, né? Como isso, como esses sentidos todos dialogam com o poema: “A um inseto… Cava, cava, sem alarme…” Aqui a gente já tem uma das acepções, que é inseto. Outra estrofe: “Que fazer, exausto, em país bloqueado, em laços de noite, raiz e minério?” Eis o labirinto… Ó razão, mistério! Presto se desata… Aqui a gente já tá vendo uma dificuldade, uma das acepções é problema de difícil solução. Perceba: tá exausto, o país está bloqueado… E a última estrofe: “Em verde, sozinha, anti-euclidiana, uma orquídea forma-se.” Aqui a terceira acepção, que é orquídea. Anti-euclidiana, ou seja, para além dos problemas, né? Problema de difícil solução. Aqui está fazendo referência a Euclides, né? A matemática lógica euclidiana, matemática euclidiana. Então vocês percebam: os três sentidos da palavra *aporo* estão aqui no poema. Falei: nossa! E como ele conseguiu fazer isso? Eu tive a sensação de que ele descobriu essa palavra no dicionário, viu as acepções e a partir daí resolveu fazer um poema. Ou seja, a palavra e seus conceitos deram ideia a Drummond para fazer esse poema. Só pode ser isso, gente! Não tem… ele não fez esse poema e depois colocou o nome *Aporo* em vão, não! Eu acho que primeiro ele teve *aporo*, depois fez um poema só para contextualizá-los.

Este poema está em *A Rosa do Povo*. Hoje em dia eu parece que vou contradizer o que eu disse há pouco, né? Que eu disse que hoje em dia na internet a gente acha um monte de coisa, poema e tal… mas a gente não pode esquecer que, falando de poesia, a gente tem que considerar a obra como ela foi publicada, principalmente se foi publicada pelo autor. Porque depois, depois da morte, ó, né? As pessoas reúnem contos, reúnem poemas e publicam, né? Os herdeiros e tal… mas quando é escolhido pelo autor, pelo poeta, o conjunto tem um significado. Às vezes é um significado que representa a fase pela qual ele tá passando, né? Às vezes o livro é temático, né? O livro de poemas é temático. E então os poemas têm sentido entre si, tem um contexto que já significa… este é o contexto de *Aporo* também. Por que *A Rosa do Povo*? É o livro de poemas que Drummond publicou, um dos mais difíceis dele, e acho que é por conta desse que ele tem a fama de ser hermético. Ele publicou quando… durante, acho que depois da Segunda Guerra Mundial, tanto que aqui há vários poemas fazendo referência à guerra, né? Trincheira e tudo mais… A gente tem aqui: “um inseto cavando… país bloqueado…” Ó, só “país bloqueado” já é uma referência à guerra. A gente pode fazer essa analogia, o poema permite que a gente faça interpretação, né? Guerra de trincheira… então os homens ficam parecendo insetos cavando a terra… “raiz e minério”… pense: tá lá cavando a terra, raiz e minério… E por aí vai… Este poema também faz lembrar um conto do Chico Buarque, que é *A Construção*, que tem uma pedra que fica cavando com dificuldade… Eu leio isso aqui, lembro do conto *A Construção*. Perceba como uma obra boa, rica, nos possibilita trocentas associações.

Agora eu vou ler o outro poema. O outro poema que eu vou ler, eu vou pegar aqui da internet, vou ler aqui no meu celular, porque ele é um do Manuel Bandeira e eu não tenho esse livro do Manuel Bandeira. Foi publicado em *A Estrela da Tarde*. O nome do poema é *Satélite*:

“Fim de tarde

No céu plúmbeo

A lua baça paira.

Muito cosmográfica,

Satélite desmentida,

Desmistificada,

Despojada do velho segredo

De melancolia.

Não é agora o golfão de cismas,

O astro dos loucos e enamorados,

Mas tão somente satélite.

A lua deste fim de tarde

Desmissionária de atribuições românticas,

Sem show para disponibilidades sentimentais.

Fatigado de mais-valia,

Gosto de ti assim, coisa em si, satélite.”

Este é um poema que eu gosto muito do Manuel Bandeira. Por quê? É engraçado porque ele, ele dá uma invertida nas coisas, porque os poetas tendem a animar objetos inanimados, eles tendem a humanizar bichos, humanizar coisas, e aqui ele faz o contrário. A lua, a gente sabe, a lua é símbolo de romantismo, a lua dos enamorados… as pessoas românticas, né? Olham pra lua, namoram sob a luz da lua… E o que que ele faz? Ele apela para a lua no seu sentido mais duro: um astro, satélite. Então: “céu plúmbeo”… olha só, cinzento, né? Plúmbeo vem de chumbo, ou seja, aquela cor cinzenta, pesada… Aí, ó: “muito cosmográfica, satélite…” ele já tá fazendo referência… E aí ele usa uma série de adjetivos de desconstrução, ele coloca o prefixo *des* para negar, né? Desmentida, desmistificada, despojada… e depois desmissionária. Então ele vai despindo a lua do seu romantismo, dessa simbologia romântica. Aí ele fala: “O astro dos loucos e enamorados, mas tão somente satélite…” Depois na outra estrofe: “Desmissionária de atribuições românticas, sem show para as disponibilidades sentimentais…” Ele tá despindo a lua dessa simbologia. E no último, na última estrofe: “Fatigado de mais-valia, gosto de ti assim, coisa em si, satélite…” E aqui a gente tem… a gente entende por que ele está destituindo a lua de toda essa simbologia romântica, dessa beleza… A vida dele é dura, fatigado de mais-valia… ele tá fazendo já referência ao capitalismo, da exploração, né? “Gosto de ti assim, coisa em si, satélite…” Ou seja, uma interpretação possível é ele com a vida concreta, prática, pesando… fatigado de mais-valia, é cansado de tanto trabalho, de tanto enriquecer os outros… ele gosta da lua sem romantismo, porque a vida não é bela, né? A vida é dura, satélite, coisa em si… a concretude da lua: ela é satélite, a vida dele é muito concreta, sem espaços para floreios. Então ele quer a lua assim: satélite, um astro. Vejam como é este poema!

Eu espero que com esses dois poemas vocês já tenham percebido a importância da semântica na poesia. E eu falei para vocês também que falaria de figuras de linguagem, né? Eu vou ler um outro poema do Manuel Bandeira pra gente ver esse aspecto. Neste outro poema do Manuel Bandeira, escolhi de propósito do mesmo poeta… ele faz o contrário do que faz aqui. Aqui ele procura deixar a lua sem essas relações simbólicas, românticas… ele quer a concretude da lua, né? Satélite. E no outro que eu vou ler agora, ele faz ao contrário: ele anima um objeto, não um objeto, né? Um ser natural, um vegetal, e o humaniza. Ele faz o oposto, o que é mais comum entre os poetas: eles animarem figuras inanimadas. Lembram daquele vídeo que eu fiz sobre o búfalo? Que ali tinha várias figuras de linguagem e a Clarice Lispector animava os animais, eles pareciam humanizados. Então normalmente em poesia isso acontece, tanto é que muita gente acha que poesia é poesia pelas figuras de linguagem, por esse descompromisso com a racionalidade, com a comunicação, e sim a expressão, a sensibilidade… a flor da pele por meio de palavras. O poema que eu vou ler é *O Cacto*:

“Aquele cacto

Lembra os gestos desesperados da estatuária

Lá, o Laocoonte constrangido pelas serpentes;

O Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o seco Nordeste,

Carnaubais, catingas.

Era enorme, mesmo para esta terra de feras,

Cidades excepcionais.

Um dia, um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou, atravessado na rua,

Que quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos

E, durante 24 horas, privou a cidade de iluminação e energia.

Era belo, áspero, intratável.”

Percebam, ele tá falando de um cacto e ele humaniza o cacto. Era áspero, belo, intratável… poema… a gente tem que ler em voz alta por conta da sonoridade, embora eu leia péssimamente poemas, já falei, hein? Não vá por mim, assim… os poemas são muito mais bonitos se bem lidos, mas como o meu objetivo aqui é analisar isso, não é sarau nem nada… então é isso… é bom que ele seja lido em voz alta por conta da sonoridade, mas é bom que a pessoa veja o poema escrito, porque a forma importa. Eu falei para vocês: a forma é conteúdo. Essa última parte, esse último verso: “Era belo, áspero, intratável”, é antecedido por um travessão, ou seja, parece que é fala, é discurso direto, certo? No som só lendo você não percebe… sem falar nos enjambements que tem aqui, aquela coisa que o verso continua na linha seguinte, mas não é outro verso. Então aqui, logo no começo, ele faz referência ao Laocoonte, que é aquela figura, aquela estátua que tá lá no Museu do Vaticano. Vou deixar uma foto aqui para vocês verem. E o Ugolino e os seus filhos esfaimados é aquela figura da estátua, né? A não sei qual deusa que manda castigar o Ugolino, alguma coisa… eu sei que isso aparece, acho que na Eneida de Virgílio… a gente toma conhecimento dessa história, que não sei por lá… alguma deusa castigou, mandando serpentes engolir os filhos do Ugolino, e ele é a estátua do Laocoonte, é isso, né? O Ugolino tentando se desvencilhar, a serpente enroscando ele e os filhos… é uma estátua bem famosa. Ele faz referência a isso… o que que isso tem a ver com cacto? O cacto… olha só como ele fala: “Aquele cacto lembra os gestos desesperados da estatuária…” A estátua é assim: os braços abertos tentando se desvencilhar das serpentes, e o cacto a gente já imagina ele todo cheio de galhos… não sei se cacto tem galhos… E aí, se você conhece a estátua e vocês já viram na imagem que eu deixei, você já começa a imaginar o cacto, um modo a mais de humanizar o cacto. Aí também tem a secura, né, do Nordeste e tudo mais… aí veio o tufão e o arranca pela raiz… e ainda assim, mesmo morto, mesmo destituído da sua humanidade, porque ele foi arrancado pela raiz, mesmo sem vida, sendo humano ou não, ele era um ser vivo: era belo, áspero, intratável. Percebam que a figura de linguagem tem essa função na poesia: de animar objetos ou coisas inanimadas, fazer com que a gente humanize ou pense nos objetos ou nas coisas… porque aqui não é um objeto, é um cacto… a gente pensa nas coisas de maneira diferente, a gente dá vida às coisas… considero esse um recurso essencial da poesia: dar vida às coisas. A poesia faz com que a gente renove o olhar, olha as coisas de outra forma… a gente se põe num estado contemplativo… faz com que a gente se coloque em estado contemplativo e às vezes até mesmo de estranhamento, porque às vezes para você olhar uma coisa de outra forma você tem que ter esse estranhamento. Se você for olhar com olhos cansados, de quem já está cansado de ver aquilo, você não vai ver nada de novo, né? Né? Precisa desse estranhamento, dessa curiosidade, dessa sensibilidade de perceber de modo diferente. Por isso que eu acho que a poesia é essencial, por isso que eu acho que, embora não seja fácil para quem não é iniciado… se você entender que poesia não é racional, não tem esse compromisso, né? Não tô falando que as poesias são irracionais, ela não tem esse compromisso, ela pode ser, pode não ser… se você se abrir diante da poesia sem se sentir obrigada a entender e apenas a sentir, você vai perceber que vai ficando mais fácil.

Esse vídeo já tá muito longo, eu vou parar por aqui. Eu espero ter cumprido o que eu prometi. Não sei se eu esclareci muito bem essa questão semântica, mas pelo menos já abordei três poemas aqui, já quebra o galho, né? Eu acho que já limpa a minha barra. E eu espero que vocês tenham gostado. Eu prometi três vídeos teóricos sobre poesia, certo? Então, assim… acho que já dei conta. E agora a poesia vai aparecer aqui neste canal com análise da obra poética, do texto poético, né? Do poema em si, embora aqui eu também tenha comentado algumas coisas, mas vai aparecer assim, poema por poema, uma hora ou outra, tá bom? Muito obrigada por assistirem! Não se esqueçam de se inscrever nesse canal, de me seguir nas redes sociais e me digam se curtem vídeos sobre poesia, né? Eu acho que não é todo mundo que gosta, mas quem gosta gosta muito, é por isso que eu faço. Muito obrigada, beijos e tchau, tchau!