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O Brasil Ainda Tem Salvação? - Dr. Dennys Xavier [Ep. 066]

Eslen Podcast2:41:09

Transcription

Salve, salve, pessoal! Sejam todos muito bem-vindos a mais um episódio do Wesling Podcast. Hoje, nós estamos aqui para falar sobre a história da filosofia e como alguns aprendizados da filosofia podem ser úteis para a nossa prática do dia a dia.

O meu convidado de hoje é o professor Dr. Denis Xavier, que é graduado em filosofia e doutor em história da filosofia. Cara, obrigado pela presença! É uma grande honra, velho. Finalmente! Finalmente! O pessoal pedia muito essa conversa. É muito legal, eu acompanho muito seu trabalho e vejo diversos pontos de interface, assim, é muito interessante. Vamos trocar uma ideia hoje.

Deixa eu te falar, teve um cara na história da psicologia chamado Wundt, sim, que ele é o pai da psicologia experimental. E ele, nos seus escritos, tinha um objetivo bastante ousado, na verdade, que era tentar descolar, não necessariamente do ponto de vista epistemológico, mas do ponto de vista institucional, a psicologia da filosofia. Porque a psicologia estava dentro, né? Veio assim como a filosofia é mãe de outras disciplinas. A psicologia também é mãe da psicologia.

Quando a gente vai olhar algumas vertentes de tratamento dentro da psicologia clínica, como, por exemplo, a terapia cognitiva comportamental e outras semelhantes derivadas dela, a gente vê inúmeros conceitos que estão dentro da filosofia, flertam com a filosofia, a influência é direta.

E aí eu te pergunto, assim, hoje, você, falando sobre filosofia e profundo conhecedor da filosofia, esses conhecimentos conseguem nos ajudar, cara, no dia a dia? Conseguem demais! Se pensarmos adequadamente no que foi uma... no que se coloca diante de nós como uma distinção de espaços da especulação filosófica. O que eu tô querendo dizer com isso? Desde muito cedo, os filósofos gregos procuraram estabelecer com clareza que a investigação filosófica muda de natureza em função do objeto ao qual ela se dedica.

Ou seja, trocando em miúdos, o tipo de investigação filosófica que eu posso fazer sobre esse copo é um tipo de ação muito diversa daquela que eu faço sobre o indivíduo ser humano, devido às suas características compositivas. Portanto, esperar alguma coisa que eu posso esperar do ser humano, por exemplo, a ideia de arbítrio, quando eu vou analisar um copo, isso é um contrassenso completo. Isso já foi estabelecido por Aristóteles de maneira muito clara.

O que nós poderíamos chamar de as razões de Aristóteles? Existe uma razão meramente especulativa que, vamos dizer, extrapola a tentativa de conhecer as coisas, o homem, o mundo, o cosmos. Existe um outro tipo de razão que é uma razão prática, que vai para a ética, vai para a política, vai para essa tentativa de conhecer as dinâmicas humanas.

E nesse universo prático, a gente tá falando de soluções terapêuticas para as coisas da vida. Portanto, não tem como descolar. O que significa dizer que existe uma dimensão da história da filosofia, essa que é teorética, que é só especulativa, que ela, inclusive, é considerada mais importante pelos filósofos antigos, porque é aquela que nos coloca no potencial máximo do nosso pensamento. É aquela que estica o pensamento no seu limiar.

Mas existe uma coisa que é mais utilitária, que é do dia a dia. Não como ser feliz, mas como suportar a vida no caos, como suportar as agruras da vida. Então, há diversas frentes da filosofia que trataram disso. Até muito recentemente, eu ofereci um curso e vou tratar disso o ano inteiro na Sociedade da Lanterna, onde eu falo de filosofia, que é a era helenística da filosofia. Não a era helênica.

A era helênica, aquela de Sócrates, Platão, Aristóteles, dos filósofos clássicos antigos. Na helenística, o que você tem é um período filosófico pós-Alexandre, o Grande. Alexandre, o Grande, que muita gente considera um grande herói, causou também uma série de problemas no mundo grego. Porque o que ele fez, quando ele avança pro Oriente, naquela conquista maluca de continentes e tal, ele causa uma distorção no grego, no modo como ele se vê.

Ele causa uma completa distorção na autopercepção que o grego tinha como um cidadão da pólis, como um cidadão de uma cidade autárquica, que era praticamente aquilo que identificava o homem grego. O homem grego era um homem profundamente político, membro da pólis. Com Alexandre o Grande, essa expansão pro Oriente, a ideia de pólis se dissolve. E você começa a ter uma perspectiva cosmopolita. Ou seja, o homem não é da pólis, é do mundo.

Ele é uma apátrida. Alexandre promovia casamentos coletivos dos seus soldados gregos com gente da Índia, do Egito. Então, cara, provocou uma crise existencial na galera. Exatamente! E isso fez com que a filosofia grega se voltasse completamente para o universo de especulação do que eu posso fazer para viver melhor. Daí surgem as correntes de tipo estoico, epicurista, cético, ecletismo, cinismo.

São essas grandes correntes filosóficas que não estão mais naquele registro de especulação filosófica alta do que eu posso conhecer ou deixar de conhecer, mas de viver melhor. Então, assim, a aplicabilidade da filosofia nessa época se deu por uma demanda. Por uma demanda! A filosofia, por mais que tenha esse caráter universal, ela tem esse caráter investigativo relativo a tudo que envolve o mundo, envolve o ser humano, mas ela também tem condicionantes históricas.

Então, em determinados momentos históricos, a especulação filosófica ganha um certo rumo em função de condicionantes históricas. Então, isso acontece o tempo todo. Por exemplo, há uma grande preocupação hoje em entender que tipo de filosofia nós estamos fazendo. Nós estamos claramente num momento de crise. Ah, que rebate em elementos estéticos. Por exemplo, hoje há coisas horrorosas que nós chamamos de arte.

Coisas que são completamente desproporcionais, nas quais nós queremos ver proporção, beleza. E a especulação filosófica vai a reboque desse momento. Então, daqui a 2000 anos, quando olharem pra gente, fatalmente vão nos avaliar em função do momento histórico que tá atrelado a um tipo de reflexão filosófica.

Então, a reflexão filosófica oferece métodos, caminhos que são plausíveis e minimamente aceitáveis. Agora, os objetos vão aqui e ali sendo ajustados em função de conjuntura histórica. Mas assim, como a reflexão filosófica vai a reboque dessa conjunção histórica? Sim, foi necessário algum tipo de toque à época, talvez suave, mas que levou o direcionamento da história para um outro lado. E as reflexões filosóficas foram juntas.

Sim, sim, obviamente. Hoje a gente não tem muita noção do que tá acontecendo porque precisa desse distanciamento histórico, imagino eu. Revolução Francesa, por exemplo, talvez a galera não tinha noção do que seria aquilo. Quem tava vivendo lá, hoje a gente tem noção, mas quem tava lá às vezes não tinha tanta noção.

Sem dúvida! O que deveria nos trazer uma vantagem, né, Wesling? Sim, a gente poderia aprender com o que aconteceu, mas não é o que acontece. E essa é a minha pergunta. Dentro dos últimos, sei lá, 300 anos, o que você acha que aconteceu para que esse rumo foi? Porque quando você fala... deixa eu só continuar, concluir minha pergunta. Quando você fala assim, a gente se preocupa com as reflexões filosóficas que nós estamos fazendo hoje, eu já rebato com uma pergunta também que é muito comum do grande público: estamos produzindo grandes intelectuais como se produzia antes, no caso, dentro da filosofia?

Já aproveitando o ensejo, não estamos! Não estamos! Mas isso é explicável pelo momento no qual nos encontramos. Bom, vamos lá. Quando você lança um olhar mais profundo para a história da filosofia, desde os pré-socráticos, por exemplo, havia uma preocupação muito severa em começar a buscar respostas que fossem profundamente ancoradas numa compreensão racional da realidade.

É isso que vai fazer com que na Grécia haja a passagem do mito religioso para a filosofia. Um evento grego, um advento grego. Condições históricas permitiram isso. Não foi uma ruptura, foi uma longa passagem que, de alguma maneira, persiste ainda hoje. Que aí a galera parou de ter o Deus trovão e começou a entender a natureza.

Na medida em que... e o grande advento para o surgimento da filosofia chama-se pólis, a organização urbana da vida social. Então, quando os homens começam a se juntar em cidades autônomas, que têm uma administração própria, e eles começam a ter problemas que antes não tinham. Por exemplo, você tinha um chefe que ordenava tudo. Fala assim: "Olha, então você planta, você colhe, você busca água, você é o responsável pela questão religiosa." Top down.

Os gregos entenderam que o melhor da vida pode ser extraído descentralizando a instância de poder e tirando a ideia de palavra sagrada para uma palavra do debate. E a palavra do debate impõe regras racionais da condução do argumento. Ou seja, eu aceito o seu argumento se você me convence, perfeito, e não por uma concessão de fé. Portanto, sempre houve um apreço muito grande na história da filosofia, especialmente no seu início, para uma absorção racional das coisas como são, em busca dos melhores resultados cotidianamente.

Hoje, o que nós vemos? Há um esforço quase que em sentido contrário. Tem um cara, para mim, o maior pensador contemporâneo, ele é economista, mas tem uma base filosófica extraordinária, chama-se Thomas Sowell. Inclusive, a gente fez um livro sobre ele, que é esse cara aqui. Onde é que a galera acha esses livros?

Cara, tá em todo lado. Isso aqui é lá no link da minha bio, tem tudo, tem os meus cursos, tá tudo lá. Mas isso aqui na Amazon tá vendendo em todas as livrarias, é bem distribuído pela LVM. Esse cara fala um negócio interessante. Ele diz assim: "Os sistemas políticos hoje, como eles dependem fortemente de instâncias totalitárias, porque há muito mais projeto de poder do que projeto de resolução de problema."

Você tem uma casta dentro das universidades e dos laboratórios, que é de um lado a casta dos intelectuais. A casta dos intelectuais, eles têm compromisso com a ideia pura e simples, ou seja, naquele sentimento grego de "eu quero conhecer", ainda que isso não esteja em harmonia com as minhas pressuposições, com os meus achismos, com a minha doxa, como os gregos vão chamar.

E existe uma subespécie dos intelectuais que ele vai chamar de "inteligência" ou "intelectuais ungidos", que são os caras que não têm compromisso com as ideias, a não ser na sua aplicação ideológica de controle de poder. Então, esses caras são a corrupção da inteligência filosófica. Eu pego uma ideia, ela não tem nenhum compromisso com a realidade, ela tem um compromisso com uma mensagem que leva a uma espécie de controle de natureza ideológica.

Por isso, se você diz assim: "Nós estamos produzindo grandes pensadores como antes, eu digo que o que nós estamos produzindo, em larga medida, são pessoas que estão comprometidas com ideologias, que estão comprometidas com mensagens tortuosas que levam a controle de realidade, muito mais do que a de compreensão pelos fatos." Portanto, a pergunta cética que moveu o espírito filosófico desde a origem desapareceu.

Os fatos se tornaram uma coisa incômoda a ser afastada e grandes pensadores não podem sair daí. Isso acaba formatando, né? Formata, coloca uma forma e a pessoa não pode pensar. Exatamente! Essa é a história da universidade contemporânea, especialmente na área em que eu atuo, né? Nas humanidades.

Porque, veja, você não pode ter um intelectual ungido à inteligência na engenharia. Porque se esse cara constrói um prédio por meio de ideologia, sim, cai e mata. Agora, na universidade e nas redes sociais, e nos bastidores de jornais, etc., você pode continuar defendendo, não devia, mas pode continuar defendendo ideias esdrúxulas, em completa antipatia com a realidade, com os fatos, e ainda extrair daí vantagem de grupo, que é o mal do coletivismo.

No coletivismo, os grupos se defendem, especialmente na mentira, especialmente na manipulação dos fatos. Então, a gente continua produzindo filosofia, mas essa filosofia tem qualidade questionável na medida em que ela deixou de ser inspirada por aqueles grandes valores dos antigos, que é: "Olha, isso me incomoda, mas é a isso que a especulação filosófica tá me levando."

Você é um cientista agora com doutorado, parabéns! Você é um cientista, então você sabe mais do que qualquer pessoa que fazer ciência é um exercício de teste que frequentemente se contrapõe às suas convicções iniciais. Sim, né? É o exercício da contrariedade. Um bom cientista é aquele que não vai pro laboratório para provar alguma coisa que ele pensa ser verdade. O bom cientista vai pro laboratório para, de início, desmentir aquilo que ele acha ser verdade.

E só depois de passados todos os testes, ele diz assim: "Puxa, eu tentei de todas as maneiras desmentir isso, mas não consegui." Aí a coisa vai. Aí a coisa vai funcionar. E a filosofia depende disso. Mas aí, você acha que no início da história da filosofia, o pessoal, eles eram... eles não tinham essa roupagem ideológica e por isso que permitia avançar mais na produção de conhecimento, por não ter essas bordas?

A Grécia, mas isso era uma coisa cultivada pelos gregos. Eles tinham cuidado. A Grécia é uma coisa incrível. Assim, durante muito tempo, nós não soubemos explicar por que surge esse tipo de racionalidade filosófica ali, daquele contexto, com Tales de Mileto, com Anaxímenes de Mileto, com Anaximandro de Mileto e depois toda uma longa corrente filosófica até bater em Sócrates.

A gente não conseguia entender muito bem por quê. Se você me permite recuar no tempo, que é coisa que eu gosto. Clo, fica à vontade. Os primeiros documentos escritos a que nós temos acesso de origem proto-grega, esses documentos chamam-se Linear A. Eles remetem ao 16º, 15º século antes de Cristo. Bastante antigo, né?

Esse nós não conseguimos traduzir até hoje. Olha só! São tabletes que a gente não conseguiu decifrar até hoje. O Linear A a gente não consegue decifrar. Existe uma língua derivada dessa, um pouquinho mais articulada, que nós resolvemos chamar de Linear B. Essa foi decifrada há pouquíssimo tempo.

O que que a gente consegue entender desse frando Linear B? Que existia ali no que depois veio a ser a Grécia um território que era conduzido, como acontecia com os territórios orientais de modo geral, um grande palácio organizado em torno da figura de um grande rei, muito poderoso. No Linear B, eles chamavam esse cara de Anax. Esse Anax é o cara que detinha todo o poder político, religioso, administrativo, militar. Tava tudo nele, muito centralizado, quase como uma figura que você vai encontrar no Egito, na imagem do faraó.

Então, em cada espaço do mundo, essas estruturas eram meio que replicadas. Do 12º século ao 8º século antes de Cristo, acontece aquilo que chamamos de Idade Média Antiga, a Idade Obscura Antiga. O que que aconteceu ali? Ninguém sabe. Ele se perdeu tudo. Nós não temos nada. Nós não temos nada. Guerras, intempéries naturais, terremotos, furacões. Sumiu! Sumiu! A gente não tem documentação. A gente pode só conjecturar de que maneira.

Pega o quadro que o Linear B oferece e pula lá pro 8º século antes de Cristo. O que que você percebe? A figura do Anax perdeu fortemente poder a ponto de que, quando essa expressão aparece em Homero, 7º século antes de Cristo, aparece como referência a um líder qualquer. Olha só! É uma doideira! A ideia de um rei todopoderoso, aquele que manda em tudo sem questionamento, desaparece.

E do 8º século antes de Cristo pra frente, até o 6º, 7º antes de Cristo, o que você tem é a laicização do poder, a descentralização do poder. Cada vez mais, a ponto de os gregos serem os pais da democracia, um regime que pegava o Kratos, o poder, e redistribuíam, ainda que não de maneira... né? Era só para os verdadeiros cidadãos. Saía mulher, saía menor de 18, saía escravo. Então, era uma classe meio fechada.

Mas já dentro de uma democracia, cara, a gente não entendia o porquê dessas coisas. Mas aí você começa a investigar fatores históricos e você percebe que a Grécia foi atingida por um entrecruzamento de elementos históricos que fizeram esses caras pensar de maneira muito diferente. As exigências, o ambiente condicionaram um modo diferente de pensar que promoveu uma ruptura com esse mundo anterior.

E uma das grandes preocupações desses primeiros pensadores nesse território laico, não tanto religioso, que busca esse tipo de resposta argumentativa, a palavra do debate, era conhecer a realidade pela realidade. Os caras eram cientistas, basicamente. É cientista na veia! Isso, né?

Olha, vou te dizer, você pega Hipócrates, que funda um certo tipo de medicina que eu poderia chamar de medicina especulativa, porque os egípcios faziam medicina de nível, mas a medicina especulativa do conhecer pelo conhecer é grega. Não existiria medicina especulativa como a gente conhece hoje se não fossem os primeiros filósofos gregos. Porque os filósofos gregos eram ávidos pela busca pelas causas.

Eu vejo um fenômeno, eu quero saber o que aquele fenômeno é a partir da sua origem, da sua causa. A história da filosofia é uma ideologia. Ou seja, é o Logos, né? Logia, Logos, a razão, a razão discursiva, a razão lógica aplicada ao conhecimento das causas. Que é o que você faz. Você tá preocupado com o seguinte: "Por que eu reajo assim quando acontece determinada coisa?"

A teologia... eu tava relendo agora, lá no meu grupo de leitura, o livro "Em Busca de Sentido", do Victor Frankl. E nas primeiras páginas do "Em Busca de Sentido", ele fala assim: "Quando você passa por experiências como viver num campo de concentração, no qual tudo que você tem é um corpo magro, adoentado e que a morte te avizinha o tempo inteiro, ele, como médico que foi e depois ele fez doutorado em filosofia, ele fala: 'Tudo que você aprende é que os compêndios de medicina mentem o tempo inteiro, porque eles partem de pressupostos estabelecidos de uma certa natureza humana compreendida em situações estabelecidas.' Isso, mas quando eu tava lá dentro do campo de concentração, aquele cara que tinha insônia, ele olhava para aquelas... eram treliches, né? Não era beliche, eram três níveis, tudo socado um no outro, piolho e fome, frio. O cara apagava! Cara, não tinha problema de sono. A insônia ia embora.

Nunca vou conseguir fazer trabalho braçal numa temperatura de -20, 10 anos fazendo. Então, você aí, o filósofo, tem um olhar: "Por que que isso acontece? Como isso acontece?" Esse é o grande legado que os gregos nos deixaram e que a gente deve tanto a eles.

Legal, legal! E que bom que tem pessoas que mantêm isso vivo, né, cara? Porque senão ia começar a se perder, velho. Mas assim, tá feio, cara. A minha próxima pergunta nessa direção. Ontem eu fiz a... e esse episódio vai sair daqui um tempo, então para quem tá ouvindo aí, provavelmente eu falei isso um mês atrás.

Ontem eu liguei a televisão e vi que tava passando a comissão de educação na TV Câmara. Cara, aí eu botei lá no meu almoço. Porque você queria vomitar? Não queria ver o que estavam discutindo sobre educação. É uma vertente que eu estudei mais na época da graduação, por conta dos estágios que eu fiz em escola pública. Então, acompanhava um pouquinho mais o debate, que já era bastante precário na época.

Mas eu decidi ver: "Pô, o que que os nossos parlamentares estão discutindo sobre educação?" Então eu entrei lá na comissão de educação que tava acontecendo. Eu queria saber, né? Pô, será que eles estão discutindo o nosso ranking no PISA? Qual que é o investimento? Aonde que a gente direciona a verba? Qual que é a melhor estratificação? Quais os modelos internacionais que funcionam e como é que a gente pode importar eles, considerando a geografia do Brasil e o tamanho do país? E blá, blá, blá. Eu imaginava que eu ia ouvir isso daqui.

Sim, é o que se espera num debate técnico sobre educação. É, quando eu vou ver um debate de cardiologistas, eu imagino que eles estão falando de drogas que funcionam, ensaio clínico, desenho metodológico do ensaio clínico, as dosagens. Cara, era isso, velho! Eram discussões com roupagem ideológica dos dois lados, de direita e de esquerda.

Eu fiquei duas horas assistindo e eu não vi um dado de educação. Cara, não tem! A discussão, ela no Brasil, ela é inviabilizada. Inviabilizada! Ela foi inviabilizada. Por quê? Porque essa galera... é a galera que ocupa o fórum de debate, nos conais da vida. É essa galera que migra dos cursos de licenciatura.

Olha, existe uma retroalimentação trágica. Onde estão os alunos mais mal preparados, de modo geral, com aquelas exceções que confirmam a regra? Geralmente, dentro das universidades, são nos cursos que têm menor concorrência. Menor concorrência! O aluno que foi mal preparado pela escola básica, né? Ele já fala assim: "Bom, eu quero estar na universidade, então eu vou fazer aquele curso que tem cinco vagas por candidato, porque certeza eu coloco meu nome na redação e já tô dentro."

Só que são cursos de licenciatura que depois vão reverberar na nossa escola, na nossa escola básica, etc. Você entra dentro de uma faculdade de pedagogia no Brasil. O que que é pedagogia? Pedagogia vem do grego: paidos, gogia. Paidos é criança, gogia é condução. Ou seja, é um curso no qual você vai tratar da melhor técnica de condução da criança no seu processo formativo.

Entra no curso de pedagogia e me fala se você tem vontade de ter filhos. Sim, exato! Cara, e assim, a ciência em termos de neurodesenvolvimento avançou tanto nos últimos 30 anos e parece que não! Essa galera não absorveu isso, né? Mas você não pode apreciar aquilo que você desconhece profundamente.

Existe um economista barra filósofo, Joseph Schumpeter, que ele fala assim: "A primeira coisa que um homem vai fazer pela sua ideologia é mentir." A primeira coisa que ele vai fazer por um ideal que ele assumiu como seu é mentir, é mudar dado, é transformar a história, ignorar dados históricos. E esses caras vivem disso.

O MEC vive disso. O discurso de fundação do MEC tá registrado em atas. No discurso de fundação do MEC, um dos seus fundadores diz assim: "O MEC está sendo criado para controle de mentalidades." Controle de mentalidades! O MEC é o segundo corpo federal com maior contingente do Brasil, só perdendo para as Forças Armadas. São 300.000 servidores vinculados ao MEC.

E aí depois os caras vão dizer assim: "Não, isso tem que ser chancelado pelo MEC." O MEC chancela o quê em termos de qualidade? Então, nós nos perdemos completamente na verdade. Teve uma conversa que eu sempre gosto de contar de um ex-ministro do governo Bolsonaro, que uma vez perguntado num café por um deputado amigo meu, perguntado no café: "Qual é a solução pra universidade brasileira?" Ele diz que...

Ele olhou para baixo, assim, e falou: "Um lança-chamas!" Porque quando você vê, os padrões foram muito desfeitos. Aquele espaço de ilustração... claro que há as exceções, afinal de contas, a gente tá falando de um organismo muito grande, mas de modo geral isso se reflete na quantidade de vagas ociosas, na depreciação dos padrões de excelência na realização de ciência.

Outro dia, eu, dentro de sala de aula, falei em excelência. Tinha um colega meu ao lado e falei: "Moçada, a gente tem que insistir na excelência do que a gente tá entregando. Afinal de contas, não tem nada gratuito aqui. Na universidade federal, um aluno custa em média R$ 2.500 a R$ 3.000 por mês, especialmente é o pagador mais pobre de impostos. Então, isso aqui é um compromisso de investimento. Vamos entregar com excelência."

Meu colega me censurou, no sentido, me chamou a atenção e falou: "Não, professor Denis, não podemos usar excelência aqui, porque isso oprime o aluno que não consegue alcançar esse grau de excelência." Portanto, resolveram fazer justiça social dentro da universidade. Fazer justiça social num espaço que deveria ser um espaço de ilustração.

E me permita usar esse nome de uma aristocracia intelectual que nada tem a ver com classe social, com cor, com sexualidade, é com capacidade de entender e se dedicar às boas coisas da ciência, da filosofia, da técnica. Eu, quando defendi meu doutorado anteontem, eu fiz uma postagem no Instagram e recebi uns feedbacks bem positivos de alguns alunos de pós-graduação.

Acho que você acompanha, né? Pós-graduação extremamente defasada na universidade pública. A gente não tem dinheiro, a bolsa sem reajuste há muito tempo. Agora reajustaram uma mixaria lá. Os critérios de repasse de bolsa não sempre são os melhores. Exatamente! O PI, né? O principal investigador do laboratório, o dono do laboratório, muitas vezes não tem a mínima autonomia, cara, de poder contratar.

Ele ganha uma edital do CNPQ e ele é obrigado a gastar em determinadas áreas que às vezes nem precisa, mas tem que gastar, tem que fazer um relatório gigantesco. Em vez de estar lendo o paper, ele tem que fazer relatório pro governo pra provar que não tá roubando. É extremamente complicado a vida na universidade. Você sabe, ela é fortemente tomada, precipuamente tomada por burocracia.

Os caras têm cinco empregos. Um é cientista, o resto é tudo burocrata. É... aí eu escrevi na legenda que, cara, toda vez... porque assim, eu fiz universidade privada, fiz o FI, lá minha graduação, com FI, pago até hoje o FI. Toda vez que eu ia ao laboratório, cara, toda vez que eu ia ao laboratório, eu lembrava que tinha um pagador de... geralmente uma pessoa pobre, um trabalhador de comércio, uma pessoa assalariada que pagava o meu imposto pra eu estar ali estudando.

E eu dei o meu melhor e hoje eu tento retribuir pra sociedade essa oportunidade que me deram. Uma pena muitos estudantes não pensarem assim, né, cara? Não, uma pena a maioria esmagadora deles. Porque isso daria um... eles entendem como... eles acreditam realmente na tese do público gratuito de qualidade. Eu vejo que é muita percepção de direito, mas pouco dever.

E não sabem que Brasília não tem um saco de dinheiro sendo reproduzido e que tudo que o estado promete como algo gratuito, na verdade, está sendo pago por um pagador de impostos que frequentemente, sempre, ele nunca foi consultado. Por isso que uma das minhas frases que eu uso sempre, né, que imposto é roubo. Roubo no sentido axiológico mesmo, aquilo que não é roubo, né?

O que que diferencia uma relação entre duas pessoas e que não é uma violência? É a concessão, é a concordância. Quando não há concordância, você vai tirar de todo jeito. Isso é uma violência. O pagamento de impostos é um roubo promovido por um sistema parasitário que é o estado, que só faz crescer e entregar cada vez menos.

Então, você, claro, tem modelos excepcionais de bom uso de gestão aqui e ali, mas não se trata de gerir bem a coisa pública. Trata-se de tirar o dinheiro do cara e aplicar de maneira muitas vezes completamente desamparada de uma percepção do que realmente funciona, de boas práticas, de evidências.

Então, é muito fácil você, político, e diz assim: "A partir de amanhã, no SUS vai ter a terapia fulana de tal." Bom, mas quais são as evidências de que eu tenho de que funciona? Não interessa! Tem um grupo que acha que tem que ter, eu sou político, eu vou ser votado por essa gente, vou colocar no SUS e tá todo mundo. Homeopatia, cara! Homeopatia, a gente sabe que não funcionou.

Foi no podcast do Leo Costa, ele é um grande... que já cansou de falar. Ele é um que apanha manhã, tarde e noite. Tem lá dinheiro público, pseudociência, tempo inteiro, extremamente mal gasto, pseudociência. E pra falar de um país pobre, se falasse assim: "Nossa, nós somos um país muito rico, a gente não sabe onde colocar dinheiro, vamos fazer homeopatia no SUS." Alguma coisa assim.

Então, há um desprezo muito grande, porque gastar dinheiro dos outros é muito bom, né, cara? Quando você vai gastar o seu dinheiro... Mas é que aí que tá, cara. Teoricamente, essa galera tá sendo representada por uma população. Esse é o argumento, entendeu?

Não, mas eles me botaram aqui, então tô representando o interesse deles. É verdade! A galera votou neles, entendeu? Isso é verdade! E a gente fica assim: "Esse país tem problemas, esse país não presta, a classe política não presta." Não, não! Cai entre nós, sejamos muito honestos, porque eu acho que um bom diagnóstico é o primeiro passo para uma tentativa de solucionar o problema.

Nós somos um povo profundamente medíocre. Profundamente medíocre! O nosso processo educacional tem os resultados medíocres que tem. Pra você conseguir ser ruim como nós somos em termos educacionais, isso é um projeto! Isso não acontece assim: "Ops, a gente errou aqui, vamos arrumar depois." Não é isso! É uma insistência em políticas que você viu lá no debate do que você tava acabando de contar, né? Do almoço.

É aquilo, cara! É trabalho de profissional! Entristecedor, cara! E sabe o que que é mais louco, velho? Eu não quero acreditar nisso que você fala, cara! Eu não quero acreditar que é um projeto de emburrecimento de massa. Pode ser que seja, eu tento não acreditar, cara! Eu tento ser ingênuo e não acreditar, mas quando eu olho aquele debate lá, cara, velho, tinha gente que falava coisas.

E aí tem o negócio de questão de ordem, tem instrumentos parlamentares que não deixam o debate andar, porque tu cita alguém, ele tem questão de ordem. Aí ele cita... eles ficaram duas horas em questão de ordem e não debateram. Não debateram educação! Aí o cara, às vezes, ele fala, aí parava o microfone, ele olhava pro lado, assim, e piscava e dava uma risadinha pros aliados.

Então, é nitidamente uma... estavam se atacando e a educação ficou de lado, entendeu? Quando eu vejo isso, às vezes eu acredito nisso daí, cara! Não, você pode acreditar, velho! Eu tive uma passagem por Brasília. Um dia eu fui dormir, eu sempre fui meio notívago. Eu fui dormir, sei lá, era 1 hora da manhã, toco meu celular, assustei. Era um deputado federal do Partido Novo me convidando para assessorar o time do Partido Novo de deputados federais.

A época eram sete, oito deputados federais que eles têm interesse em defender pautas liberais. E eu, como escrevi muito a respeito, falo muito a respeito, disse: "Denis, podia fazer pra gente o trabalho de um coordenador político que vai fazer o filtro ideológico, ou seja, não deixa a gente se desviar do caminho."

Votação fulana, como é que um defensor da liberdade se porta aqui? Olha, moçada, é aqui o caminho, é esse. Porque a pressão política vai em sentido completamente oposto. Eu quero muitas vezes agradar ao sujeito votante, mas agradar ao sujeito votante naquele momento é contrariar as melhores soluções fáticas pro problema. Isso, isso, isso!

Então, quando a proposta me foi feita, eu falei: "Maravilha! Porque isso vai se juntar a uma experiência acadêmica que eu tenho, eu vou ver o mundo por dentro, vou ver os bastidores da vida política." Irmão, fodeu! Riv Trio, eu o resto da vida, cara! Esquece, velho! Esquece! É complicado mesmo, cara! É doentio!

Caraca, velho! Por que que acontece? Você tem 503 deputados ali, a maioria analfabetos funcionais. Concordo! E é o analfabeto funcional! Você vê, muitos não conseguem articular fala. Não tem! Isso que tá com nacos de poder sobre a sua vida! Isso é o que mata! Porque eu não tenho problema com a burrice e com a ignorância. Eu tenho problema com a ignorância voluntariosa.

Porque o cara que é ignorante e fala assim: "Vou ficar vendo televisão a tarde inteira." Falo: "Fica, velho! É isso mesmo, se fode na sua vida!" Mas não! Ele resolve entrar no partido político, se candidatar e fazer projeto de lei, legislar sobre a vida do cara que tá aqui fora, trabalhando, querendo construir, etc. etc. Ferrando a vida desse cara! Por quê? Porque ele não conhece nada que não seja aquilo que não tá passando num programinha de TV qualquer merreca ou do que tá sendo debatido num grupo de WhatsApp de pessoas completamente ignorantes.

Aquele é o mundo dele! E ser liderado por gente assim é uma coisa muito deprimente! E essa é a história do Brasil! Ô, ô, Denis, eu vejo que assim, uma das saídas é, de fato, melhorar a educação para que a gente consiga melhorar a assertividade no voto naquelas pessoas que vão legislar sobre o país e como andar o país. O problema é que, pra mudar a educação, a galera precisa começar de lá pra cá, de cima pra baixo.

Então, a impressão que eu tenho é que não! A impressão que eu tenho é que talvez a galera tenha que fazer trabalhos por fora, tipo em rede social, ensinar. Eu tenho 160.000 alunos, eu tento falar: "Cara, vota em gente que tenha pauta, pauta de ciência."

Mas você tá entendendo por aí mesmo? Cara, você... eu tava vendo sua rede ali, daqui a pouco você tá batendo 2 milhões de pessoas no seu Instagram. E eu sou muito menor do que isso, mas pra um professor de filosofia tem um tanto bom. Tem outro que tem 1 milhão, tem outro que tem 100.000. Se nós, que estudamos essas coisas, ou seja, nós nos dedicamos profissionalmente a essas coisas, coisa que ninguém precisa fazer.

Às vezes o cara é engenheiro, tá tocando a vida, é advogado, tocando a vida, mas ele escuta um negócio no story, ele lê um negocinho num livro e fala: "Cara, isso!" E eu acho que nunca houve na história um momento tão propício pra gente fazer uma revolução silenciosa que se dá a partir de educação doméstica. Se dá a partir por causa... imagino que o propício seja por causa das redes sociais.

Muito, muito alcance, né? Porque a gente conversa com pessoas do mundo inteiro. Eu tenho lá a Sociedade da Lanterna, eu entro e falo: "Ah, um abração de Portugal, um abração dos Estados Unidos, um abração do Japão." Falo: "Cara, tem gente do mundo inteiro!" Então, você sabe, você passa por essa experiência. Então, você fala: "Cara!"

E outra, o que você tá falando aqui, o modo como tá chegando às pessoas. Às vezes você pensa: "Ah, não tem ninguém me ouvindo." Tem! Tá te ouvindo, tá levando em consideração. Eu faço live, você também faz isso. Às vezes a pessoa me manda um vídeo e fala assim: "Olha como é que tá aqui a minha sala. A família tá reunida pra ouvir uma live sobre como não ser um apedeuta, como não ser um ignorante a partir de elementos da filosofia."

Cara, como é que você não anima? Como é que você não continua? Agora, é uma estrutura estatal tentando sufocar esses movimentos a todo momento. Pode homeschooling? Não pode? Pode mudar o currículo do ensino médio? Não pode, do modo como vocês estão querendo? Não! Porque tem que ter tais, tais, tais conteúdos.

É muito mais fácil pro estado te educar pra você colocar a própria coleira do que depois ele sair correndo atrás de você tentando colocar a coleira. Ele já te coloca! Por isso que o estado tem tanto interesse no monopólio de educação. Ele tem muito interesse! Ele tem interesse político nisso. Por quê? Porque eu treino você a enxergar o mundo de forma limitada e a se encerrar.

Você mesmo puxa! E o tempo inteiro eu vejo isso com muita frequência. Você fala assim: "Olha como isso aqui é um absurdo." E aí o cara que tá sendo violado por uma certa situação fala: "Não, imagina! Se não fosse assim, ia ser muito pior! Olha como é maravilhoso!" E tudo... alguém já disse isso antes, né? Na época do fim da escravidão nos Estados Unidos, uma grande defensora das liberdades disse assim: "Eu libertei muitos escravos. Teria libertado muito mais se eles soubessem que eram escravos."

Às vezes o cara nem sabe o grau de servidão no qual ele se encontra. Deixa eu te perguntar uma coisa. Você é um cara que... aí eu vou entrar agora numa área que eu realmente sou bastante ignorante. Você é um cara que estuda bastante uma crítica, a crítica ao coletivismo, né? Sim! O que que é isso, cara? O que que é o coletivismo? O que que é que você critica? Qual que é o teu ponto?

O coletivismo é um modo filosófico-político de enxergar as dinâmicas da vida social, segundo o qual cada indivíduo não deve ser considerado como uma entidade autônoma e autárquica, mas deve estar em função, deve ser um instrumento. E, portanto, na filosofia, a gente tem um termo pra isso: ele deve ser reificado, coisificado, para servir a um propósito considerado assim, considerado superior, que envolve um grupo, uma classe, o estado.

Isso você tá falando não necessariamente em termos políticos, em termos de qualquer tipo de coletivismo. Em termos de qualquer tipo de coletivismo! Mas o coletivismo não envolve reuniões humanas voluntárias, não coagidas. Então, assim, ah, você tem um coletivo, você tem 160.000 alunos, mas isso não é coletivismo na acepção técnica da palavra, por não obrigar ninguém a estar ali.

Você não obrigou ninguém a estar ali. As pessoas financiam livremente por entenderem que existe uma contrapartida válida para elas. A gente pode montar uma ONG pra salvar os cachorrinhos, etc. A gente pode fazer o que a gente bem entender. Então, a união de pessoas em torno de causas, isso salvou a humanidade diversas vezes no curso da história. Isso não é coletivismo!

Não! Isso não é coletivismo! O coletivismo é, por exemplo, você olhar para uma pessoa não para que ela é, mas para o modo como ela pode te servir para uma determinada visão. Então, você olha pro outro e não na... não como um fim, mas como um meio de realização de uma outra coisa. E as estruturas coletivistas constantemente flertam com o mundo político.

Então, por exemplo, o político vai dizer assim: "Eu sou representante da classe dos pretos." Pretos, usando o termo técnico do IBGE. Aí eu falo: "Mas por que que você tem que representar a classe dos pretos ou das mulheres ou dos gays? Ou por que que você não representa a menor de todas as minorias, que é o indivíduo?"

Porque uma vez que você preserva a menor de todas as minorias, você não precisa olhar pra grupo. O grande problema do olhar pra grupo é que quanto mais um grupo chora, mais ele tem repercussão dentro da vida política. E toda conta paga a um grupo foi retirada, né? O modo de se pagar isso é retirando de outras pessoas que eventualmente nem concordam com isso.

Ou seja, você cria um sistema de financiamento dos seus antagonistas. Eu não! Eu quero ter o direito de não colocar dinheiro aí. Eu quero ter o direito de não financiar isso, de não colocar meu tempo aí, de não colocar a minha empresa trabalhando pra pagar isso, os meus funcionários, a minha vida.

Então, o coletivismo, quanto mais ele se expande, mais ele entranha na vida política e ele entranha na vida acadêmica. Por exemplo, contava ontem essa história. Eu já tentei organizar evento científico dentro da universidade numa perspectiva não ideológica, ou pelo menos uma visão diferente do establishment, né? Daquilo que se tem dentro das universidades, muito tomadas em termos ideológicos.

E tentaram me proibir dentro de uma universidade que deveria ser o espaço do debate livre, de natureza científica, por excelência. Não virou território de defesa de ideologia marcada coletivista. Entendi, entendi! E aí, o que mais chama atenção é que, como o coletivismo é muito emotivo, muito emocional, ele toca muito as emoções.

Porque as mulheres, porque os homens, ah, os brancos, os pretos. Você começa a classificar, você esvazia a pessoa, você parasita a pessoa, você esvazia ela de conteúdo e deixa só uma casca. E é essa casca que você tá olhando. O preto, o branco, a mulher, tem pênis, tem vagina, é trans. Eu não tô olhando pra isso! Eu tô olhando pra quem você é, quais são os seus valores, qual seu processo formativo, que tipo de problema você sabe resolver.

Então, esse deveria ser o olhar, mas esse é um olhar que não dá voto. O olhar que dá voto é o olhar pra casca. Uhum! Porque aí eu digo assim: "Olha, vocês todos que têm a casca fulana, eu tô aqui, votem em mim." A ponto de o cara fazer campanha política, se você acompanhou as últimas campanhas políticas, não tem um único debate sobre educação. Um único!

Eu acompanhei todos os debates presidenciais nas últimas eleições. Eu assisti os principais, assim, também. Na verdade, não tinha debate sobre nada, né? Era um apontando os erros do outro. Pelo que eu vi, isso! Mas por quê? Você é comunista? Aí o outro: "Você é socialista, você é capital, você é opressor, você é antigay." Coletivismo puro!

Você é não sei o quê e tal, mas nós temos uma população que 60% dela sai e pisa em merda ali, com efeito, porque não tem sistema público de captação de esgoto. E assim, ô Denis, então, entendi o teu ponto. Já foi importante porque a galera pode achar, assim, como eu também não achava, mas é uma conclusão óbvia do termo coletivismo.

Imaginava que qualquer reunião de grupo era um coletivo. Não, de jeito nenhum! Nós somos seres naturalmente gregários, sim, sociáveis e tal. Inclusive, a solitária é o principal dos mecanismos de punição, né? Sabe que Aristóteles, nos seus tratados éticos e políticos, especialmente no seu tratado ético, quando ele diz: "O homem é animal político." O homem é zoon politikon.

Somos animais políticos! O que significa dizer que precisamos da vida em sociedade? Porque é uma mútua resolução de problemas. Eu não vou cuidar de fazer celular, mas eu preciso dele. Denis, mas isso daí não força um coletivismo necessário em alguns momentos? Cara, não força! Boas ideias não precisam de força para serem impostas. O que força é projeto de poder.

Mas como é que organizaria uma sociedade sem tratar um grupo como um grupo? Não, mas você pode ter lideranças que são... e deixa eu contar um caso que eu acho que vai ilustrar bem o que eu tô dizendo. Durante a redação da Constituição americana, da primeira constituição americana, que continua lá, é uma folha assim, tirando algumas emendas, os estados foram sendo chamados com seus representantes para debater o que ia ter nessa constituição.

Tinha gente que não queria ir, por motivo muito simples: "Cara, eu acabei de sair de um porrete da Metrópole, tomei catracada da Inglaterra uma porrada de tempo. Agora eu vou querer instituir um tirano nacional? Não! Eu quero é descentralização! Eu quero tomar conta da minha própria vida."

A gente se organiza, nós temos essa capacidade de organização. Eles entraram num acordo: "Nós vamos montar uma constituição que não vai conferir poderes ao estado, a não ser aqueles poderes que são necessários para a preservação do indivíduo." O que teoricamente é o que a constituição americana, você tá dizendo que faz, que já tá se perdendo, mas em larga medida, que é o que deveria fazer.

Então, assim, olha, pra que que eu preciso de uma organização política? Pra garantir que você não avance sobre mim, na minha vida, na minha liberdade e na minha propriedade. Uhum! E quando é o estado que faz isso, avança sobre mim, na minha vida, na minha liberdade e na minha propriedade, eu apelo a quem?

Então, o grande problema do coletivismo não é a reunião das pessoas. É quando, encostado na ideia do coletivismo, você começa a criar sistemas de coação e violência pra dizer pro sujeito o que que ele tem que fazer do corpo dele. Por exemplo, eu sou proibido de vender um órgão. Por quê? De quem que é esse órgão?

A primeira propriedade privada que eu tenho é o meu corpo. É autodeterminação! Se eu quiser me pendurar num guindaste com um negócio nas costas aqui, ninguém tem nada a ver com isso. Se eu quiser amputar a minha mão, ninguém tem nada a ver com isso. Mas será que não é por uma questão de talvez você não esteja em plenas faculdades pra conseguir tomar essa decisão?

Bom, mas aí você entra num sistema muito perigoso de paternalismo, que sempre vem de um outro que você há de considerar superior, que vai determinar o que é grau. Eu concordo, mas eu tenho que fazer o contraponto. Por quê? Porque assim, dependendo do dano que você tiver em alguma região do cérebro, por exemplo, talvez fosse inteligente a sociedade decidir te afastar dela pra você não causar mal pra outra pessoa.

Ah, num dano comprovado, sim! E aí você concorda? Sim, num dano comprovado, sim! Até porque ele não tá fazendo só mal a ele, mas a outra pessoa. Aí violou a liberdade do... Não, não é nem porque assim, a minha preocupação não é ele fazer mal a ele.

Talvez num caso patológico, ok! Mas de modo geral, por exemplo, o sujeito que se droga, né? A ponto de perder a noção sobre si mesmo, ele não tá atrapalhando sua própria vida, que é um direito dele, no momento em que ele assumiu o risco a usar a droga. Mas ele tá acabando com... Outro dia eu vou muito a São Paulo. Uma senhorinha aposentada guardou dinheiro no apartamento lá no centro de São Paulo. Ela chorando, desesperada, na frente, acho de um político qualquer, falando assim: "Meu apartamento, que valia R$ 300.000, eu não consigo doar esse departamento porque a cracolândia tá na minha porta."

Quer dizer, essa liberdade, ela se torna uma libertinagem na medida em que ela afeta a liberdade do outro. Então, isso daí é que não pode acontecer. Nessa hora, se o estado serve pra alguma coisa, eu acho que ele serve pra muito pouco, mais pra atrapalhar do que pra ajudar. Deveria entrar ali e falar assim: "Olha, meu amigo, entendi, você quer se arrebentar, direito seu, mas você não vai fazer isso aqui porque você tá ferrando com a vida do outro."

Entendi! É, então, e é uma... essa questão da possibilidade da autodeterminação, aham, que a gente perdeu. Então, assim, eu não tenho direito... O que que você acha? Você é um cara que, pela sua competência, você tem prosperado. O que que você acha que das coisas que você adquiriu, você tem de fato? Você tem pouquíssima coisa, na verdade, você tem usufruto disso, porque o estado, nos termos em que o estado te concede.

Porque, por baixo, você vai pagar 50%, 60% de impostos sobre tudo que você faz, considerando os produtos, né? Considerando tudo, os consumos que você tem, etc. etc. Você vai contratar um funcionário, você vai ter que pagar dois, no mínimo. Depois, ele vai ter que pagar os impostos sobre os consumos. Então, é uma máquina de tirar a vida, o espaço do outro.

A Constituição Brasileira criou um negócio chamado uso social da propriedade privada. Ou seja, um burocrata estatal qualquer olha pro seu estúdio e fala assim: "Amanhã a gente precisa desse estúdio pra fazer um... gravar um programa pro MST." Você não tem apelo! Você não tem apelo! Especialmente quando você tem um judiciário que, segundo ele próprio, está abraçado a um determinado governo.

E como é que a gente faria num sistema onde olhasse mais pro indivíduo, sem esse coletivismo? Porque, pelo que você tá me falando, o Brasil, portanto, se caracterizaria como um sistema político coletivista. E não só! Isso daí é uma coisa que tá tomando conta do mundo. Você vê as políticas americanas e tal, cada vez mais do coletivismo.

Faria, cara! Porque quando a gente olha, por exemplo, em países que lideram ranking, não só de qualidade de vida, como também de saúde e tudo mais, países nórdicos, aí tudo bem, tem a diferença geográfica, etc. Mas geralmente eles são sociais democracias, né? São países que utilizam a máquina capitalista, mas têm um aspecto, um braço socialista.

É que hoje também falar que é socialista ou não tá até deturpado o conceito do próprio Marx. Mas assim, dizendo, eles têm o braço capitalista de mercado, mas também têm um viés de socialismo forte na medida em que tem uma ampla rede de saúde pública e coisas assim. Como é que isso, por exemplo, feriria um conceito coletivista?

Na verdade, seriam casos concretos que, em primeiro lugar, especialmente depois da Segunda Guerra, fizeram reformas profundamente liberalizantes no universo da economia. Ou seja, são países que trabalharam, eles apostaram num binômio que sempre funciona muito bem: educação de qualidade, excelência na entrega educacional e liberdade econômica.

Aconteceu isso agora com a Estônia. A Estônia era uma roça até 50 anos atrás. Roça! Um negócio assim, uma merda de país. A Estônia fez um compromisso com liberdade econômica e entrega educacional de qualidade. Vira uma potência em 50 anos! Vira uma potência!

No caso dos países do norte da Europa, essas social democracias, países de justiça social, o que acontece ali é que, em primeiro lugar, eles ficaram ricos por meio de práticas antic coletivistas. Livre mercado, competição, etc. etc. Depois, irmão, quando a coisa tá estabelecida, o dinheiro tá jorrando, entendeu?

Aí eles começaram a dizer: "Bom, pera aí, 13º para desempregado, por que não? Um 14º para desempregado, você quer me entregar água? É isso? Ah, obrigado! Obrigadíssimo! Por que não um auxílio maternidade, mas também um auxílio paternidade?" Então, é claro! Claro! Se você corre 100 km por dia, olha o seu gasto calórico, comer três lasanhas não é problema.

Então, você tem que... gasta muito! Só que é muito interessante essas dinâmicas. O estado, ele sempre avança no limiar das suas possibilidades e começa a avançar mais. Por quê? Porque o coletivista não para de demandar. Então, e agora fala assim: "Não, mas pera aí, eu preciso ter condições especiais para aquele outro grupo que agora já não tem mais um olhar cuidadoso do estado, como tem aquele outro grupo."

E as demandas não param! E agora você pode ver que esses países do norte da Europa, eles não crescem economicamente já faz muito tempo. 0%, 5%, 1%, volta 0%, 5%. Eles estão muito preocupados. Por quê? Porque eles vão ter que reimplantar medidas de restrição, de parar de avançar sobre as fortunas e retomar medidas capitalistas de livre mercado para continuar sustentando isso.

Então, o problema é o Brasil se inspirar nesses caras sem ter ficado rico antes. Tomar um remédio amargo ali, a gente vai ter que pagar esse preço antes. Eu não tenho nenhum problema se depois que a gente ficar rico, falar assim: "Quero distribuir à vontade! Vai ter 14º salário, ninguém vai ganhar menos do que 10.000 por mês, à vontade!" Mas você tem que ter condições de fazer isso.

As condições, hipoteticamente falando, pra fazer isso, você vai ter que... O Brasil é um dos países economicamente mais fechados do mundo. Números de agora, desde a Constituição de 88, nós publicamos dezenas de milhões de novas leis. Só no mercado, desculpa, no mercado, só no universo trabalhista, o Brasil tem aproximadamente 37.000 leis regulatórias.

O estrangeiro olha pro Brasil pra falar: "Investir? Abrir uma empresa aqui?" Ele tem crise de riso! É complicado! Ele tem crise de riso! Que que eu vou... Ele só vem pra cá se ele falar assim: "Minha margem de lucro é exorbitante." Aí faz sentido! Mas se eu tiver que concorrer com a máquina burocrática que o estado impõe pra ter monopólio de violência, porque é disso que se trata, você não pode jogar a não ser no jogo autorizado pelo estado, que ele recolhe.

Você não pode roubar, a não ser que o estado faça isso por ele próprio. Eu não posso enfiar a mão no seu bolso e tirar o seu dinheiro. O estado pode, sem apelo! Sem apelo! Eu digo, né, me inspirando na frase de um amigo, que você não paga imposto pra ter as coisas públicas. Você paga imposto pra não ser preso! Porque se fosse pra ter as coisas públicas, a gente teria outro país.

Você não paga pra ter educação pública, educação de qualidade, saúde pública. Você não paga por causa disso! Você não tem! Uhum! Você paga pra não ser preso! É muito diferente! Agora, pode ver, faz qualquer pesquisa aí. Quais são as primeiras coisas que um brasileiro médio, quando ganha um pouquinho de dinheiro, quer na vida? Se livrar de tudo que o estado oferece a ele!

Ele quer pagar plano de saúde, ele quer pagar escola privada, escola particular. Ah, meu! Ele quer tirar, comprar um carro blindado! Deixa eu te falar, no Condado, isso, né, cara? E assim, entendi! Fechou! Assim, não sei se eu concordo com tudo, mas tô entendendo o seu raciocínio.

Sim, a pergunta é: quando o país, como os países do norte, no norte da Europa, por exemplo, ainda não chegaram no enriquecimento, dentro da escola que você defende, da escola mais individualista, como é que você entende a ideia de acesso à saúde por quem não tem condições de pagar?

Quando você olha as experiências humanas em nações que experimentaram grandes graus de liberdade, você percebe que nós não precisamos de intermediários públicos fazendo uso de um dinheiro tomado pra que as coisas funcionem. Vou te dar um número. A USP, que é a universidade mais cara do Brasil hoje, né, em termos de orçamento, é a maior universidade.

Rios de dinheiro vão lá pra dentro. Todo o orçamento público da USP é equivalente ao que Harvard recebe só por doação de benfeitores. A gente tem exemplos aqui no Brasil de, especialmente, hospitais de câncer. São hospitais frequentemente administrados por iniciativa privada, grupos de interesse de pessoas que querem ajudar, podem eventualmente receber repasse público via SUS, seja lá o que for, mas a administração é privada.

Ou seja, eu vou comprar porque eu briguei pelo preço, pela qualidade, porque eu sei a importância de cada real que entra. Eu conheço muito bem o mundo da coisa pública pelos bastidores. Por exemplo, dentro de uma universidade pública, eu já fui gestor, já fui diretor de universidade. Você... eu vou comprar uma passagem pra chamar Wesling pra dar uma palestra no curso fulano de tal.

Esli, que é que você pode vir? "Ô, Denis, no dia tal, vou voltar no dia tal, hotel tal, beleza?" Eu aciono o sistema público pra comprar a sua passagem e pagar a sua diária. Por força de determinação estatal, eu não posso comprar em promoção. Não! Isso sim é... não posso comprar em valor mais baixo, não posso brigar por preço.

A agência que faz a mediação, ela já é orientada a comprar no patamar mais alto da categoria da passagem. É o hotel pra não ter que pagar remarcação. Então, você paga dia a mais. Enfim, o estado, ele não tem nenhum problema em torrar o dinheiro do jeito que ele acha que deve ser, sem qualquer critério.

Voltando ao mundo da universidade, quando abriram aquele projeto de ampliação das universidades, eu participei de debates que eram assim, tinha que ser filmado e passado em rede aberta de TV pra vocês entenderem como é que funciona. Vamos abrir um curso. Eu não vou dar nome de curso pra não saber alguma coisa. Vamos abrir um curso de astrologia, metafísica.

Inventei! Vamos! É porque tem dinheiro, né? Agora tem dinheiro e tal. Então, a gente vai ter professor de quê? Ah, professor de astrologia, da alimentação, astrologia do não sei o quê, macumbaria e metafísica do não sei o quê. Vamos embora! Beleza! Então, nós precisamos de 15 professores, mas precisamos de um corpo administrativo, precisamos de um prédio.

Estamos de um prédio! Alguém fez alguma análise de impacto? Alguém fez alguma análise de demanda? Não! Mas vamos abrir isso! Vamos! Por quê? Porque a gente pode! Porque o governo autorizou esse dinheiro a ser utilizado. E se você não utilizar, ele vai embora e não volta mais.

Então, você tá dizendo que num contexto onde o país ainda não seja rico, como do norte da Europa, teria dinheiro sobrando ainda pra fazer uma saúde pra quem não tem dinheiro pra pagar? Sem dúvida! Daria pra fazer muita coisa!

Você viu? Você viu em medidas? Eu não tô dizendo... eu sou contra medidas radicais que matam o paciente. A gente tá numa UTI. A gente tem um sistema SUS que tem lá os seus bons exemplos pontuais, por motivos óbvios. Você tem uma maratona de gente. Você tira lá uma ou duas pessoas que estão fazendo bom trabalho, o resto é massa, né? E falando, então, eu não tô dizendo assim: "Tem que acabar com o SUS, tem que acabar com tudo." Não, não! Beleza! Mas a gestão...

Entendi! Entendi isso! Eu concordo! Cara, isso eu concordo! Eu acho que o ministro da educação deveria ser um doutor em educação. Eu acho que o ministro da economia deveria ser um técnico. Eu acho que temos uma ministra da saúde que é... acho que socióloga, antropóloga, sei lá. Assim como eu acho que dentro da universidade, o sujeito que lida com burocracia tem que ser um burocrata. Não o professor!

Sim! Ele tem que estar lendo paper da Nature, da Science, pra ver... tá saindo isso, isso. O que não acontece mais! Não! Porque o que acontece é que o professor não tem tempo de estudar, cara! Cara, tem um estudo muito interessante na Universidade de Brasília. Professor não tem tempo de estudar! É! Não tem tempo de estudar!

Cara, tem uma... uns estudos muito interessantes na Universidade de Brasília sobre cientometria. No ritmo que vai a nossa ciência, ali por volta de 2030, 2040, nós vamos chegar ao nível no qual a nossa ciência é completamente sem impacto na vida, no mundo acadêmico, no mundo científico. Ou seja, a gente produz muito, você sabe disso, a gente produz muito em cal, mas é um negócio pra encher lattes.

Isso! Mas é que o sistema pede isso, cara! Pra você pedir um financiamento CNPQ, eles avaliam os teus papers dos últimos 5 anos, se eu não me engano. Então, você tem que fazer paper linguista, tu racha eles em vários, em vez de publicar um grandão. Medidas de estímulo, entendeu? Você estimula esse tipo de... isso!

Mas não! Aí eu fiz meu doutorado na Europa, fiz meu doutorado na Itália, tenho passagem de pós-graduação pela Europa, de pós-doutorado. Quando eu fui fazer prova de doutorado lá, três vagas, três vagas para doutorado em história da filosofia por ano. E não tem essa assim: "Ah, por exemplo, eu fui brasileiro." Ah, você é brasileiro, mas aqui a gente faz prova de língua estrangeira.

O que significa dizer que eu tinha que fazer a prova em italiano, mas tinha que fazer a prova de língua estrangeira a partir da perspectiva do italiano vir. Então, tive que meter um inglês, um francês e tal. Se vira! Aqui a gente não quer saber que sexo você tem, se que cor da pele que você tem, se os seus ancestrais foram bem ou mal tratados.

Meu orientador, a primeira coisa que ele me disse assim que eu cheguei no gabinete dele, tremendo diante do meu herói ali, ele falou assim: "Xavier, Denis Xavier, né? Xavier." Ele chamava assim. "Xavier, e lá tem uma coisa que é muito maravilhosa." Depois eu te conto. Ele falou: "Tá aqui uma caixa com todos os meus livros e papers." Me deu uma caixa, colocou em cima da mesa e falou assim: "Só quero que você se lembre que isso aqui foi terra de alguns dos primeiros filósofos da história e a gente trabalha à altura."

Só me falou isso! A gente trabalha à altura! Você fala de ambiente atuando no modo como a pessoa trabalha, cara! O meu registro de trabalho científico foi só com a fala dele. Aí foi lá pra cima! Porque os caras não iam aceitar qualquer coisa lá. Eles têm uma coisa que, olha, o grau de respeitabilidade. Primeiro, você entra numa universidade italiana, europeia, americana, as boas universidades, não tem uma coisa pichada.

Não tem assim, é um negócio! Você entra... eu fiz uma passagem de pesquisa pela Universidade de Dublin, Trinity College, em Dublin. Quando eu parei a primeira vez lá na porta da universidade, tinham vários ônibus parados na porta da universidade e um punhado de orientais descendo. Gente, será que tá tendo algum congresso de alguma coisa oriental aqui? Porque lá dentro tem, inclusive, a biblioteca histórica, Book of Kells, que são livros feitos à mão durante a Idade Média.

Cara, deve ser uma imersão cultural bizarra, né, brother? Eu entrei no campus, estátuas dos prêmios Nobel de literatura da Irlanda, dos grandes nomes da ciência, dos grandes nomes da política. E aí você tem The Book of Kells aqui do lado esquerdo, do lado de cá, instalações. Não vê um papel de bala, não vê um Toddy, não vê um Toddy, não vê um... um sovaco cabeludo roxo. Não verá! É gente entrando pra estudar de maneira respeitosa, falando baixo. O clima chama alta ciência!

Lá na Itália, eu cheguei no gabinete do professor, professor Maurício Milhor, que tristemente nos deixou esse ano, e tinha lá um grupo de estudantes com ele, gente já orientada por ele, doutorado e tal, graduação, e eles usando o tratamento respeitoso com ele. O senhor, lei em italiano, professor Milhor, lei não sei o que, não sei o que, lei não sei o que. E ele usando tu, tratamento informal com os alunos. Marca uma distinção, uma hierarquia e uma respeitabilidade.

Cara, eu chamo os meus professores de professor até hoje! Eu defendi o meu doutorado ontem, eu mandei uma mensagem e falei: "Cara, que professor! Faz tempo que eles falam isso, que professor!" Cara, sou tal, tal. Falei: "Cara, não tem como! Eu não consigo!" Questão! Eu não conseguia usar o "ele" e eu não consigo chamar o cara que não pelo nome de professor. Eu não conseguia! Isso me travava de uma maneira.

Quando eu terminei o doutorado e passei na prova na universidade pra ser professor, ele chama de professor ordinário, é o professor de carreira. Ele me chama no canto assim que eu defendi o doutorado. Eu desci pro segundo andar, ele me chama e fala assim: "Xavier, adesso, agora de amot, del tu." Agora usemos o "tu", ah, reciprocamente. Eu falei: "Professore, nonco!" E passei a vida inteira, lei, lei, lei.

Porque isso marca uma ritualística que, dentro do mundo da ciência e da universidade, deveria persistir. A gente perdeu muito disso. Acho isso meio triste. Aham! Eu concordo, cara! Concordo! Eu faço questão, quando vem um professor aqui, na que eu tive aula ou que passou por alguma... eu tive aula na pós-graduação ou foi meu orientador, coorientador, eu sempre chamo de professor, até pra passar uma mensagem pro público.

Aham! Eles olham, cara, um cara que eu admiro e tal, chamando ele de professor e tal. Isso precisa disso, dessa marcação de autoridade. Construir a partir de trabalho que é uma autora a qual eu me dedico muito e que me deu meu primeiro avanço como bestseller no Brasil, R. disse que da importância do orgulho. O orgulho é uma das marcas fundamentais de um produto bem entregue, de um trabalho bem realizado.

Quando você experimenta o orgulho sem ter entregue, o orgulho sem ter trabalho anterior que sustentaria a posição orgulhosa, isso é vaidade! Por aí, simples! Isso é bobagem! Agora, você escreve um livro e tem orgulho do seu livro, né? Então, assim, você fala: "Cara, você constrói uma vida como a que você construiu, você tem que olhar pra trás e falar assim: 'Eu tenho orgulho porque essa coisa não me foi dada de graça. Isso me custou madrugadas, isso me custou muito trabalho.'"

Então, essa experiência do orgulho que deriva da boa entrega. O que acontece hoje no mundo coletivizado é que as pessoas querem reconhecimento, prêmios, aplausos, sem terem entregue nada. Elas querem um tratamento que deveria ser concedido àqueles que fizeram um certo percurso e que, portanto, são balizas positivas da sociedade, sem ter entregue nada.

Nós estamos criando aquilo que alguém antes de mim já chamou de uma sociedade do sentimentalismo tóxico. Do sentimentalismo tóxico! Todo mundo se olha no espelho e se acha merecedor de alguma coisa extraordinária, mesmo sem ter feito por onde. É isso que eu falei! Eu acho que a impressão que a gente... que eu tenho, pelo menos, de boa parte da população, até fiz questão de escrever aquilo da bolsa, porque eu quis deixar claro.

Você leu o meu textinho lá? Eu quis deixar claro que, ok, eu tive um... não sei se um direito, mas eu tive uma... a sociedade me deu a oportunidade de ter uma bolsa, mas em contrapartida eu tinha o dever de devolver. Então, acho que aí isso eu concordo que tá bastante perdido, cara!

Acho que a galera tá vendo mais os direitos que têm e deixou de lado o dever, entendeu? Tal! Então, assim, se você pega um aluno que custa R$ 3.000 por mês de mensalidade, né, numa universidade pública federal, cara, você tem o dever de entregar alguma coisa. Você não precisa entregar, sei lá, no campo político, um negócio favorável à minha ideologia.

Entregue algo, mas estruturado dentro de uma obra pensada, referenciada dentro de um universo acadêmico, de um debate acadêmico, pesquisa séria. Sabe? E às vezes pesquisa séria não significa você produzir uma pesquisa que esteja na vanguarda em termos mundiais.

Ver, um grande problema que a gente tem, cara, no Brasil, nós temos uma tradição de tradução que é fraquíssima. Nós temos pouquíssimo material traduzido. Porque existe um certo desprezo do cientista brasileiro com relação a línguas estrangeiras. Então, por exemplo, um aluno que sai da graduação falando só português, a comunicação, a língua, ele não é um instrumento aséptico de fala e de escuta e de escrita.

Ele envolve uma vida cultural. Quando você aprende um outro idioma, você passa a pensar dentro de uma outra cultura, dentro de um outro mapa mental, dentro de uma outra arquitônica. Você entra no outro mundo. Por exemplo, brincando, você faz uma declaração de amor em japonês ou em alemão, parece que você quer matar. Mas se você faz uma declaração de amor em italiano ou em francês, a pessoa tá tirando a roupa na sua frente enquanto você fala. É um negócio brilhante!

Então, tem todo um mundo mental que envolve o mundo da língua. Eu mexo com grego clássico por dever de ofício. Quando eu leio a República de Platão em grego, isso me transporta pra um mundo mental que a tradução não consegue. Mas enquanto a gente ainda precisa de tradução, porque em vez, na hora de você fazer uma pesquisa lá na área de psicologia, vou procurar entender a importância do estoicismo na corrente terapêutica comportamental fulana de tal, cara, traduz um paper bom, clássico, traduz um livro bom.

Procura fazer isso numa graduação, no mestrado, você vai tá fazendo um favor pra ciência, velho, que é brutal! Que é brutal! Dentro da terapia comportamental, a gente tem um... eu não lembro o nome dele, mas tem um pesquisador brasileiro que traduziu boas obras direto do alemão e não do inglês pro português, mas do alemão pro português. Isso é maravilhoso, cara!

Muitos conceitos errados, a galera traduziu do inglês pro português, só que perdeu no meio do caminho. Se perdeu por conta de língua. E o cara foi lá, olhou no alemão, olhou lá e falou: "Cara, não era isso aqui, não!" Em graduação inteira, teve que refazer o jeito que ensina.

Cara, olha o nível de contribuição intelectual que o cara deu por traduzir uma obra! Às vezes, a pessoa quer fazer ciência pra produzir alguma coisa que vá repercutir positivamente, no sentido de um resultado positivo. E boa ciência, muitas vezes, é a ciência frustrada. Que eu imaginei uma coisa, pesquisei e dei um resultado completamente diferente do que eu imaginava.

E meu doutorado foi isso, cara! Foi inverso ao que eu... o que eu imaginava! Tá de sacanagem! Que resultado! E é um resultado! Imagina que coisa maravilhosa! Alguém que explique depois o porquê que deu. Você tá balizando toda a possibilidade de uma pesquisa que vem depois a partir de um resultado que você não esperava. Isso é maravilhoso!

Eu tenho um aluno que veio me procurar pra pedir orientação. Fala assim: "Professor, eu quero demonstrar que o conceito de justiça em Aristóteles é o fulano de tal." Eu falo: "Então, você não precisa nem pesquisar! Pra que que você vai pesquisar uma coisa que seja a parte de um pressuposto de afirmação?"

Então, quer professor, eu quero pesquisar o conceito de justiça em Aristóteles. Qual? Ele exato! E não de uma coisa que você viu um vídeo no YouTube e falou assim: "Ah, então eu acho que é isso. Agora eu vou estudar pra comprovar isso." Não! Mas às vezes lá no texto vai te desmentir! Tá tudo enviesado já!

Aliás, cara, o mundo das redes sociais é maravilhoso, mas é uma merda também, porque o que tá acontecendo de gente que pega, por exemplo, clássicos da filosofia antiga, torcem o pescoço dos filósofos pra fazerem caber dentro de perspectivas ideológicas, religiosas, seja lá o que for, é de matar! Dá vontade de perder o real primário!

Cara, eu tive um... eu troco muita ideia com um redator do Reservatório de Dopamina, que trabalha com a gente. Eu sou um cara muito fã de acadêmico, eu gosto, acho que é ali que tá o lugar de produzir conhecimento, quando você leva com seriedade. Sim! E pra ser redator do meu produto, eu chamei um acadêmico. Ele é formado em letras e faz hoje mestrado na UFRJ em letras. Coisa fina!

Eu troco umas ideias com ele, cara! E aí a gente fala sobre língua, sobre, enfim, construção de frase, desde até mesmo gramática, ortografia e tal. E aí eu falei pra ele: "Falei, cara, tu que manja pra caramba de letras, deve ser o inferno, tu lê rede social, cara!" Porque a galera não sabe mais escrever! Ele falou: "Velho, é foda!"

Me fala! É complicado, cara! Uso de vírgula se perdeu um pouco isso. Eu às vezes tenho certos cortes de podcast, né, que são publicados. Às vezes, eles... aí você deve acontecer isso com a filosofia. Isso que eu queria dizer! Não! Aí eu vou olhar os comentários. Aí eu... eu, felizmente, não sei se por uma questão de postura, mas acho que quanto mais popular você fica, mais sujeito à verborragia, ao apedeuta você fica, né?

Porque aí vai chegando uma massa de gente muito ignorante que quer entender por que aquilo é tão popular, mas chegam uns caras pra fazer uns comentários que você perde o tesão na humanidade. Você fala: "Porra, aí você entra no perfil do cara só de curiosidade." Você vai lá na bio do cara, pedagogo, professor de ensino médio, não sei o quê.

Ser um espaço impermeável, esse tipo de coisa.

Outro dia, eu tava dando uma disciplina de filosofia da ciência. Parece ironia, tava dando disciplina de filosofia da ciência. Aliás, é uma área incrível, né? Cara, negócio extraordinário. A chance que você tem de especular sobre fundamentos filosóficos na prática da ciência, qual tipo de validade exatamente.

Aí você tem Thomas Kuhn, você tem Heráclito, né? Então, umas coisas maravilhosas. Eu dando aula de filosofia da ciência, uma menina com celular na mão conversando com a outra. E eu olhando aquilo, ela falou assim: "Eu vou ter que largá-lo porque eu fui lá, fiz a quiromancia e ele certamente tá me traindo."

Eu só ouvi isso. Eu só ouvi isso numa aula de filosofia da ciência, numa universidade federal. Alguém falando que ia tomar decisão com relação à própria vida por leitura de mão. Kairos grego, kos em grego, mão, né? Mancia, predição, né? Tentativa de ver.

Cara, olha sua mão, fala assim: "Não, porque você vai adoecer, não, porque você vai morrer cedo." Vai morrer. Mas qual que é o grau de obscurantismo que tem que ter um ser humano no século XXI fazer isso? No boteco, encachaçado, eu entendo. Vamos brincar aqui, lê minha mão, né? Tá lá fumando maconha, o que você quiser. Vamos brincar de astrologia, eu entendo.

Mas agora é sério, vou tomar decisão. E o que é pior? Você tem presidentes da república que fazem isso. Você tem deputados e senadores que fazem isso. Você tem gestores públicos que fazem isso, que vão tomar decisão inspirados numa abertura aleatória da página da Bíblia.

Outro dia, a gente teve uma ministra aí que tá, inclusive, nesse governo. Mas isso não é uma característica desse governo, não. É dos últimos todos. Acho que todos. Que não, eu vou decidir um negócio no meu, do futuro do país, com relação a políticas públicas na área da... Eu não vou pelas práticas melhores científicas, eu vou abrir uma frase bíblica e o mundo aplaude. É muito louco, né, velho?

Cara, é desesperador, né? É desesperador, é desesperador. Você chega, então, aí eu vou dar aula na universidade. Eu quero dar um curso avançado na universidade, falar de grego e tudo. Eu não consigo porque os meus alunos chegam sem saber o que é o sujeito de uma frase, o que é um predicado, a construção canônica de uma frase, né? É isso. É isso que a gente enfrenta.

Então, cara, tem um percurso aí pela frente. Vai dar muito trabalho. Deixa eu te perguntar. Uma vez eu atendi um paciente, cara, que ele era um empresário muito bem-sucedido. E ele falou que o livro que mais impactou a vida dele positivamente foram três, na verdade, né? O Chamado, a Revolta de Atlas. Opa, aí sim, hein? Que aí agora a coisa mudou. Agora a coisa ficou boa.

Eu comecei a ler uma época, mas é uma leitura bem arrastada, né, cara? Bem arrastada. É de uma russa escrevendo em inglês. E ela é bastante prolixa, ela é bastante prolixa. Mas é um livro que... Qual que é a sua história com essa autora?

Cara, eu sou um estudioso de filosofia clássica desde o início. Aliás, dizem que esse livro, não sei se é verdade, foi mais vendido que a Bíblia nos Estados Unidos. Não, ele é. E houve uma pesquisa da biblioteca do Senado dos Estados Unidos sobre os livros mais impactantes entre os leitores. Ele foi considerado o segundo livro mais impactante da história nos Estados Unidos, perdendo apenas pra Bíblia.

Caramba, cara, é um calhamaço de mil e tantas páginas. Ah, que conta uma história passada num futuro distópico, num futuro que a gente não sabe exatamente qual é. Mas é uma resposta dessa autora chamada Ayn Rand. A história dessa mulher é fantástica. Ela viveu os estertores da União Soviética. Ela viveu, desculpa, não da União Soviética, os estertores da era czarista.

Então, ali, ela pegou o finzinho da era czarista com a ascensão do regime soviético, o comunismo, né? A Revolução Bolchevique. E ela viu essa ascensão de um modelo coletivista totalitário. Então, ela já dentro da universidade, começou a ver que a coisa não ia dar boa e foge pros Estados Unidos com 19, 20 anos. Ela foge para os Estados Unidos.

Quando aluna da universidade ainda, ela escapa. Ela tinha uns tios afastados que já moravam nos Estados Unidos. Então, ela viveu o período czarista, a Revolução Bolchevique e foi pro capitalismo americano. Isso deu a ela uma visão de fundo, né? De horizonte, assim, sobre os principais males da vida em sociedade.

Ela vai dizer assim: "Bom, o grande mal da vida em sociedade chama-se altruísmo, que leva ao coletivismo." Qual que é o preceito filosófico do altruísmo? É você, independentemente de qualquer situação, colocar o outro como sempre algo ou alguém mais importante do que você mesmo.

E quando você entra no registro do altruísmo, você abre as portas do demônio do coletivismo. Porque o coletivismo se sustenta nessa tese de que, como você não aceita perder alguma coisa para ajudar o outro, você é do mal, você é cruel, você é um egoísta. E a Rand vai dizer: "O egoísmo é fundamental pro processo de saneamento da vida civilizatória."

Reconhecer que o egoísmo é uma coisa positiva, desde que um egoísmo racional. O egoísmo racional, ao contrário do ismo, ele nunca colocaria alguém, um outro, um terceiro, a serviço forçadamente, a serviço de uma causa com a qual ele não estivesse de acordo e aderisse livremente a ela.

Uhum. Então, ela bate muito firme nesse sentido de, em primeiro lugar, uma ética construída pela razão. A razão como um absoluto na leitura da realidade. Ela vai dizer que uma das coisas que mais nos tiram do eixo de uma boa compreensão da realidade são as emoções, as paixões, o misticismo, a fé, a crença. Essas coisas recobrem a realidade para que a gente não veja a realidade como é, mas como nós gostaríamos que ela fosse. E isso é péssimo, né, pra um bom saneamento da vida civilizatória.

É o conceito grego de verdade. Aletheia, na origem da palavra, é retirar o véu. Então, a razão é aquilo que vai... Eu quero a real. Como é o mundo, como estão as coisas. E a partir daí eu tomo decisões que são racionalmente egoístas. Mesmo por essa é uma pré-condição fundamental de boa sobrevivência do indivíduo.

Ela usa uma comparação com os animais e com as plantas. Os outros seres vivos todos já vêm codificados biologicamente. Existe um pássaro maravilhoso, eu acho que é no interior do país. Eu não me lembro em qual estado. Eu tava vendo outro dia esses programas de natureza. Ele come uma plantinha venenosa. Só que, pra ele não sentir os efeitos do veneno, ele vai na parede de argila. Já viu essa? É lindo. Eles ficam assim, bandos. Eles abrem um paredão de argila impressionante.

Come um pouquinho de argila, vai na plantinha venenosa, come a plantinha venenosa, vai na argila pra buscar um tamponamento ali, exatamente dos malefícios que poderia causar. Chega um determinado momento que eles percebem que comeram demais daquelas árvores. Eles migram. Eles não fazem isso porque têm uma noção do amanhã. Eles não estão assim: "Ô moçada, vamos reunir aqui, fazer um board, fazer um video call aqui porque tá muito, hein? Tá muito, a gente tem que deixar um pouco aí pro ano que vem."

Não, eles são biologicamente condicionados. Eles não têm aquela parte do nosso cérebro que você estuda tanto, né? Seria o quê? O córtex pré-frontal, que é essa capacidade que a gente tem de pensar o amanhã, de projetar esse futuro. Então, eles agem biologicamente determinados. Nós não. A gente especula sobre amanhã. A gente especula sobre a ideia, sobre o nosso processo formativo.

Qual que é o melhor processo formativo? Ser comunista, ser capitalista, estudar clássico, estudar moderno, ouvir funk, ouvir música clássica. Essas são as grandes discussões. Então, a Rand vai dizer: "Nós temos que criar um sistema ético a partir de uma percepção racional que coloque o homem como eixo central de decisão da sua própria vida, de maneira egoísta, e que só a partir dessa preservação do indivíduo, todo o resto em torno dele pode usufruir das suas decisões egoístas."

Então, a pior... Eu corro desse tipo de gente. Eu estou fazendo isso pelos outros. Essa é uma conta que sai sempre muito cara. Esses caras que acordam de manhã e falam assim: "Eu não queria estar fazendo isso, mas eu preciso fazer pelos outros." Porque quando ele diz isso, ele já se coloca numa condição ungida que dá a ele, na cabeça dele, o direito de vilipendiar qualquer pessoa em nome de um propósito de vida.

E assim, geralmente, essa pessoa tem até estudo de neuroimagem mostrando isso. A pessoa que faz algum tipo de altruísmo é um comportamento quase de egoísmo, porque o sistema de recompensa dele se ativa. Eu dou um casaco pra alguém, eu fico feliz. Você sabe que a gente tinha que escrever um livro junto sobre isso. Seria legal.

Pô, é sério. Porque você trata de uma coisa que é uma interface que me comove no mundo da filosofia, que é a filosofia trabalha no mundo da especulação intelectual. Só que a gente se vale de um instrumento que é um instrumento ao qual você se dedica e que a gente depende do modo como ele reage. Porque, em última instância, Nietzsche fala isso, Freud fala isso, Rand fala isso. Todas as nossas ações, em última instância, são egoístas, mesmo quando a gente não quer reconhecer isso.

A ideia do altruísmo de "estou fazendo pelo outro". Veja bem, tudo que eu tenho à disposição é escasso. O meu dinheiro, o meu tempo, o meu corpo, tudo isso é escasso. No momento em que eu digo: "Eu vou passar R$ 50 pra uma ONG pra alimentar animais", eu deixei de passar R$ 50 pra uma ONG que cuida de crianças com câncer. Uhum. Eu fiz uma escolha.

Aí alguém vai dizer: "Mas foi uma escolha altruísta." Não foi. Foi uma escolha egoísta a partir do meu horizonte moral. Portanto, a gente não deixa de ser egoísta. O grande problema do altruísmo é que essa roupagem falsa que nós damos à ideia de que estamos fazendo pelo outro. E isso começa a nos conduzir para o mando sobre o outro e não sobre só um exercício de autonomia.

Então, Rand, por exemplo, ela tem uma passagem sobre o amor que ela vai dizer o seguinte: "O verdadeiro amor é o amor egoísta." É o amor egoísta porque, em primeiro lugar, eu estou olhando pra quem ama. Se você diz pra sua namorada: "Eu te amo a ponto de me aniquilar", isso não é amor. Isso é sujeição, que faz com que você perca a sua integridade.

Pra você se manter inteiro, íntegro, né? De cabo a rabo. Esse amor, antes de tudo, ele tem que fazer sentido pra você. Se ele começa a servir pra você como modelo de aniquilação da existência, quer dizer, já não é mais amor. É só entrega, submissão, dor, angústia. E aí ela vai dizer: "Portanto, um homem livre e racional, racional e egoísta, ele nunca faz sacrifícios."

E aí, teoricamente, as pessoas que estão em volta dele acabam se beneficiando pelo... Ou seja, ele tem um comportamento egoísta que, como efeito colateral, beneficia a galera. Exatamente.

Enfim, eu não tenho como princípio fundamental o outro. O princípio fundamental da ação, aquele que busca os maiores benefícios, sou eu, sem prejudicar ninguém. Então, você diria assim: "Digamos que a gente tem um prefeito." Não vou falar presidente porque o pessoal vai humanizar o negócio. Digamos que você tem um prefeito de uma cidade, misturando assim, que é extremamente egoísta.

E ele é tão egoísta que, assim, o ponto mais alto de fodão que ele é é ser um [ __ ] prefeito. E ele tá sendo tão egoísta que ele quer número. Ele quer os melhores números da cidade. Ele quer o asfalto novo. Claro, a galera vai se beneficiar desse egoísmo. Claro, quem vai se beneficiar do seu egoísmo? Você quer mais seguidores, você quer mais alunos no seu curso, você quer mais repercussão do seu trabalho, você quer uma série de outras coisas.

E é natural que você queira e é desejoso que você queira, desde que você faça isso honesta com o seu trabalho. Quem usufrui? Olha o quanto de conteúdo gratuito você oferece. Olha o quanto de conteúdo gratuito que ofereço. Ponto.

Cara, quando eu falei assim, quando comecei a ganhar, eu quis sempre ser professor de federal, ter meu laboratórinho ali, pesquisar meus camundongos quieto. A vida me levou a ser quem eu sou. Beleza. Quando eu comecei a ganhar grana, eu contratei um CEO e falei: "Cara, as picas são tuas, velho. Tu vai ganhar bem pra isso, mas as picas são tuas."

Aí, no meu comportamento de egoísta, e isso realmente, eu fui egoísta. Eu falei: "Eu só quero sentar a bunda na cadeira e estudar. Se vira com os problemas." E realmente, quanto mais eu estudo, melhor são as minhas aulas, melhor é minha produção de conteúdo, mais post eu posso fazer no Instagram, mais podcast eu posso gerar aqui.

E naturalmente, nesse sistema, os pau no cu vão ser afastados por natureza, né? Agora, eles vão ser egoístas, só que um egoísta de um lado é porque eles não querem admitir que são. E pra isso, eles trabalham no registro emocional de, por exemplo, essa gente não suporta a pessoa que prospera.

Ou seja, numa sociedade sã, razoavelmente saudável, os caras que estão na ponta da lança são os inspiradores de todo o resto. São eles que estabelecem padrões de excelência, são eles que fazem com que a sociedade avance para situações de conquista, evolução, etc. O que os coletivistas altruístas fazem? Gente como nós, que quer trabalhar honestamente, fazer o seu, olhando pra sua própria realização, sabendo que isso vai impactar a vida das pessoas por via de consequência, essa gente tem que ser punida.

Punida pelo seu sucesso. A Rand vai chamar isso de a era da inveja. Então, você faz um [ __ ] trabalho até conseguir uma certa posição. Quanto mais você cresce, mais você é olhado como o opressor, o mal, o cara a ser batido, o cara a ser punido. O estado tá de olho nisso porque os caras querem ser votados.

Ah, então como é que é, cara? No Brasil, você começa numa empresa como MEI, pagando uma taxa de imposto. Quanto mais você cresce, mais sobe. Você mais sobe a taxa, você é punido pelo seu sucesso. Então, eu conheço empresários que falam o seguinte: "Eu tenho que segurar o crescimento da minha empresa porque se eu passar esse patamar aqui, eu vou ser punido demais."

E aí você tem tweets e publicações de políticos brasileiros dizendo assim: "Bilionário não devia existir. Pessoas ricas deviam acabar." E não sei o que. Essas pessoas querem pegar o Michael Jordan, o maior jogador de basquete de todos os tempos, e falar assim: "Ele tá metendo muita bola porque o cara tem talento, aptidão física natural, biológica e treina como ninguém."

Treina, força, PR [ __ ] como ele tá tendo bons resultados. O que a gente faz? A gente vai cortar a perna dele porque ele tá humilhando as outras pessoas. Isso, pro coletivismo, ter alguém que se destaque, que se diferencie, que marque padrões de qualidade e excelência fora do cotidiano, isso incomoda muito.

Então, o que a gente faz? A gente cria uma lei que agora ele vai ter que jogar sentado. E assim, o que a galera acha que normalmente pega nesse ponto é: "Mas beleza, você tá sugerindo que a galera seja egoísta. Mas e a galera que é, digamos assim, maldosa?"

Aí, esse é o meu ponto. Naturalmente, eles vão ser excluídos, né? Eles naturalmente serão comidos. Não, a não ser que eles tenham poder político de coação. Não, mas eu digo nem isso, cara. Eu digo assim: "Mas na vida cotidiana, eles vão se afastando." Isso sim. Exato. Um amigo egoísta, não que o egoísmo dele não reflita em benefício pro grupo de amizade, vai sendo afastado.

Acho que aí se regula, né? Sem dúvida. Mas o meu grande medo, que era o medo da Rand, não é o cara, esse cara no cotidiano. É porque esse cara, ele é inofensivo, porque ele não tem poder político, ele não tem poder de polícia, ele não tem poder de exército sobre mim.

No caso dela, ela fala num nível... Hum, entendi. Porque esses coletivistas altruístas, eles acendem as situações de poder. Então, aí eles passam a controlar o avanço daqueles que estão na ponta de lança. Então, o que que impede, por exemplo, o que acontece hoje nas universidades? Pra gente ficar no assunto acadêmico, eu uso sempre a metáfora do avião despressurizado.

O que que é o egoísmo de Rand? O avião despressurizado. A gente viaja de avião bastante. Tá lá assim, não tá indicando assim: "Primeiro coloque a máscara no seu filho mais novo, depois salve a sua esposa ou seu marido." Não, tá assim: "Salve-se."

E uma vez que você estiver salvo, aí você vai pro resto. Aí você vai pra todo mundo. Porque uma vez que você se salva, você potencializa a possibilidade de realizar coisas que os outros vão usufruir. Agora, se você tiver um comandante que te dá a seguinte ordem: "Você poderia salvar muita gente, etc., etc., mas eu tenho uma demanda aqui de passageiros que têm, sei lá, são os passageiros... Vou brincar, são os passageiros de Goiás. Os passageiros goianos têm uma forte ascensão sobre mim, né? Porque eles votam pra eu ter um aumento de salário ou não. Então, salve eles."

E aí você começa a criar cota, cota de salvação, cota de quem vai ser visto primeiro. E aí, cara, você cria um sistema de dissensão dentro da vida na sociedade que é muito triste. Nessa experiência política que eu tive, o Brasil é Brasil. A gente tem que dar umas risadas de vez em quando.

É, não, eu ontem lá assistindo a comissão, eu comecei a achar uma... Minha namorada tava junto, stand-up. E é legal, cara, porque eles fazem algumas falas pra gerar o reels. É nítido que é pra gerar o reels. O cara que produz conteúdo fala: "Esse cara vai fazer um corte disso pra gerar o reels."

Aí depois você entra lá no perfil do cara no YouTube ou no Instagram. Dos dois lados, tá? Usam a internet como mecanismo. Tá lá: "Destruir e parlamentar da direita petista passa vergonha perto de mim." Aí tá o cara num cortezinho gritando na câmera e todo mundo em volta mexendo no telefone. Tipo, eu trabalhei na Câmara e é exatamente isso.

Os caras pedem abertura de CPI. O que que é CPI no Brasil? É show circense. Nunca deu em nada. Não tem CPI que dá alguma coisa. Não, temos que abrir a CPI pra investigar. É pra causar desgaste político, mas é pra fazer rolo. Aí já ficam os assessores lá, cheios de celular, assim, filmando o cara. E eles treinam no gabinete. Eles treinam no gabinete que eles vão falar.

E aí os paçocas, tanto à direita quanto à esquerda, que são coletivistas loucos atrás de alguém pra mandar. Tem cara que tem fetiche, né? O cara que é golpe militar, ele quer ter um sujeito vestido de militar pisando no pescoço dele. Só pode ser fetiche sexual. É a única coisa que eu consigo explicar isso no século XX.

Então, olha, e aí vem as THs, né? Não sei que... "Humilhou o esquerdista, olha, humilhou o direitista." E não sei que, um punhado de debiloide mental curtindo e replicando aquilo como se servisse pra alguma coisa num país miserável, precisando de tanta coisa.

E aí não se perguntam: "Mas isso não era um debate sobre educação?" Tem cara que não se pergunta, né, cara? Não tem. Então, assim, isso eu via lá no cotidiano. E é o grau de imbecilidade. O deputado federal, eu acho que foi o mais votado da Bahia, é um cara que anda com a Bíblia pra cima e pra baixo, gritando, fazendo manifestações circenses dentro da Câmara.

Um dia ele aprontou lá uma... É esse o nível de gente, tá? Que pensando... Eu tava lá. Isso, ele... Pensa, essa galera que vota pauta educacional, pauta de saúde, etc. Ele articulou em silêncio com um assessor dele. O assessor quase deu tiroteio lá dentro, pegou uma arma de brincadeira e deu nele numa comissão, um negócio de ketchup. E aí ele caiu.

Tá no YouTube, procura aí. E ele cai lá com negócio de ketchup, assim. E o assessor dele, porque ele era contra as armas ou a favor, não interessa. É esse o grau. Caraca, velho! É esse o nível que tem. Em vez de perguntar, em vez de perguntar: "Qual que é o nível de morte por arma de fogo?" Usar dados, né?

Esses caras não sabem ler uma... O Thomas S. diz o seguinte pra essa gente: "Os fatos são um simples detalhe a ser afastado da argumentação." Os fatos não contam. Tá no mundo normal, ninguém defenderia, e aí, falando de coração aberto, ninguém defenderia como razoável regimes coletivistas de natureza totalitária ou de controle estatal.

Porque onde isso foi testado, sempre dá muito ruim. É contra a natureza humana. A gente tem um certo modo de funcionar. Essas coisas dão resultados ruins. Mas são pessoas que pegam o seguinte: eles pegam as estatísticas. E aí o S. chama isso de estatística. Aham. Você já discutiu no Facebook uma vez que você disse uma coisa, aí um cara vem e te desmente e fala assim: "Não, tem uma pesquisa fulana que te desmente."

Aí ele cita a pesquisa. E aí você já corre no Google e fala assim: "Pesquisa que prova o meu ponto." E você vai achar. Por quê? Porque as pesquisas dependem de corte. Então, o que que você tá querendo? Você tá querendo falar dessa linha do corte, dessa linha do corte, uma visão mais complexa, etc.

Outro dia, eu tava vendo a televisão, antes de ontem, dessa gravação. Nossa, num canal de muita visualização de TV, jornalística, um grupo de repórteres repercutindo uma pesquisa que dava que, em média, os salários das mulheres no mundo da empresa privada são 20% menores, em média. E a pesquisa foi anunciada dessa maneira.

E quando nós vamos pra mulheres negras, a diferença salarial é ainda maior. Se alguém abrisse um link comigo, eu só tinha uma pergunta pra fazer: "Fosse isso assim chapado, não faltaria emprego pra mulheres, especialmente pra mulheres negras?" Não, te óbvio. Se a gente não tá falando de qualidade de entrega, se a gente não tá falando de tempo de entrega, se a gente não tá falando de nenhuma outra característica, a não ser questão salarial, essa pesquisa me levaria a pensar que nós teríamos desemprego zero entre mulheres negras.

Porque qualquer empresário ia falar assim: "Meu Deus, mulheres negras podem trabalhar por menos 25% em relação ao que eu teria que pagar pra um homem branco. Então traz pra cá, vou contratar todas elas." Mas aí um cara como Thomas S. eu diria assim: "Será que essa pesquisa tá dizendo isso mesmo? Será que não tem outras variantes importantes aí que explicam essa diferença?" Grosso modo.

E aí você começa a fazer cortes. Por exemplo, uma pergunta que um cientista social faria: "Nós estamos falando de homens e mulheres com mesmo tempo de empresa, com mesma carga horária, com mesmo tipo de competência, mesmo processo de formação, etc.?" Porque essa é a pesquisa que tem que ser feita. Eu não tô olhando se você tem pênis, se você tem vagina. Eu não tô olhando se você é preto, azul ou amarelo. Eu tô olhando o seguinte: tempo de dedicação à empresa, processo de formação, capacidade de entrega.

Quando você faz esse corte, não dá diferença salarial. Então você desarma o argumento de que é pelo fato de ser mulher, que é pelo fato de ser preto ou branco ou amarelo. Tem outra coisa ali que tá causando essa diferença. Mas pra essa galera coletivista, olha como desce suave um argumento como esse. Dizer de maneira chapada: "Mulheres ganham menos, homens ganham mais." Você causa uma dissensão entre homens e mulheres e, ao mesmo tempo, justifica uma ação parlamentar que vai dizer assim: "Temos que criar uma lei, uma lei de equiparação salarial entre homens e mulheres."

Criaram, criaram. Hoje, por lei, mulher não pode ganhar menos do que homem. Continua com 20% de diferença entre os salários. Ou seja, a lei não tá sendo cumprida. Mas não é que ela não tá sendo cumprida, ela tá sendo cumprida. É porque a lei, na hora que ela vai ser cumprida, nos cortes que são ignorados pelas pesquisas. Ah, entendi. A mulher tá assim, entendi.

A diferença continua. Claro, isso aí é que vi. Eu venho fazendo. As leis são fortemente inúteis, mas elas dão um aceno de virtude, entende? E acho que pauta um debate público também, né? Total. Aí você perde a manhã inteira discutindo uma coisa que não é nem um problema real.

Deixa eu te perguntar: por que que esse livro aí foi o da Revolta de Atlas, tá em segundo lugar, cara, nos Estados Unidos como mais impactante? Qual que você acha que é a contribuição dele pro americano?

Cara, esse livro sempre foi best-seller. Ou melhor, a primeira... Isso tudo que você falou dela tá nesse livro. Tá tudo nesse livro porque ele é uma história, né? Ele não é um livro técnico. Só que ele é uma história, ele é um romance, no interior do qual essas ideias filosóficas foram sendo trabalhadas. Ela é uma filósofa que começa por meio dos romances. Até que alguém chega nela e diz assim: "Rand, tem muita filosofia aí."

E aí, ela, depois da Revolta de Atlas, começa a escrever livros em versão não romanceada, expondo as ideias, expondo as ideias sobre epistemologia, sobre economia, etc. Eu fiz um livro em parceria com alguns amigos. Esse aqui virou best-seller. Ele, uma época, acho que dois ou três anos, ele estava entre os 20 livros mais vendidos do Brasil em todas as categorias, que é sobre ela, explicando os conceitos principais dela.

Fiz a mesma coisa com Hans Hermann Hoppe, que é um libertário. Hoppe, que é um liberal clássico. Isso aqui é tudo pra você, vou te entregar depois. Legal, obrigado. Esse livro, A Filosofia de Rand, que é chamada de objetivismo, ela é uma filosofia de um pensamento muito empreendedor e que não admite desculpas.

Objetivismo seria tipo uma escola que ela segue? É, o objetivismo é uma escola que ela funda. Ah, entendi. Ela não gosta de chamar de rismo. Entendi. Randismo, ela fala: "Essa filosofia é o objetivismo." Quer dizer, é uma leitura racional da realidade e a construção de uma ética egoísta que toma o indivíduo como ponto principal da sua própria vida e que se coloca à disposição dos outros na medida em que isso faz parte do seu próprio horizonte moral, sem coação ou sem violência.

Tá, basicamente. Então, esse livro da Rand, A Revolta de Atlas, quer que eu te conte rapidamente como é que ele aparece? Esse livro demorou muito tempo pra ser escrito e ele era pra ser publicado com o título de The Strike. Você tem mais ou menos uma ideia de quanto tempo ela demorou pra escrever?

Cara, só por curiosidade, eu tinha, mas eu não vou conseguir me lembrar agora. Cinco anos? Três anos? Bastante tempo, assim, coisa assim. É, ela é uma romancista que escreveu bastante coisa. Ela tem outros livros, como A Nascente, que é um livro grande também, que é fantástico. Ela escreveu um livro menorzinho também, que é fabuloso, que ela vai dizer que o grande problema nosso... Posso ler aqui uma passagenzinha que tá no frontispício desse livro?

Diz assim sobre o problema do altruísmo, né? Ela diz assim: "No início, o homem foi escravizado pelos deuses. Lá no começo, ele foi escravizado pelos deuses, mas ele rompeu com os seus grilhões. Depois, ele foi escravizado pelos reis, mas ele rompeu com seus grilhões. Foi escravizado pelo seu nascimento, pelos seus parentes, por sua raça, mas ele rompeu com seus grilhões. Declarou a todos os seus irmãos que o homem tem direitos que nenhum outro homem ou rei pode tirar dele, não importando em quantos estão, pois este é o direito do homem e não existe nenhum outro direito na terra acima deste, o direito de um homem. E ele viveu no limiar da liberdade pela qual todo o sangue foi derramado no passado. Mas então ele desistiu de tudo, de tudo o que conquistou e ficou numa condição inferior àquela das selvas."

Mas o que trouxe isso? A que desastre afastou a razão do homem? Que chicote deixou o homem de joelhos, submisso e envergonhado? A adoração à palavra "nós". A adoração à palavra "nós". Ela tem um livro chamado O Cântico, que é uma distopia. Pititica, pititica. Eu já vou dar spoiler porque não interessa. É a história de um cara que tá dentro de um regime totalitário, tipo 1984, isso. E esse cara, sempre sentindo um incômodo, cara, tem uma coisa errada aqui nessa distopia. Eles não conheciam a palavra "eu".

No regime distópico, pensando no Cântico, que em inglês é o hino, o hino é o nome da obra, ele fala assim: "Cara, então no livro inteiro ele fala com uma menina que ele gosta. Ele fala assim: 'Nós vamos pra nós', mas se referindo a ele. 'Nós vamos almoçar hoje e tal.' Aí ela fala: 'Não, nós temos que não sei quê.' Porque não existe a noção de indivíduo. E aí o livro vem numa crescente e numa percepção cada vez mais criteriosa da existência dele, da existência dele separada. Uhum.

Porque a existência da vida em civilização é a existência de outros. Eu não quero que você me diga o que eu tenho que fazer, como eu tenho que fazer. Esse é o grande objetivo da existência do outro ou da minha existência. Não, não ser pisado por ninguém. E no final, esse estranhamento que ele experimentava, ele fala: "Eu sei o que é agora. Eu consigo dizer eu." É a conquista do eu. Ele massacra a existência do eu. Quem eu sou? Não, você não é ninguém. Você é parte de um grupo, dos brancos, dos negros, das mulheres, dos homens, dos fulanos, dos sicrano, e tal.

O coletivismo trabalha nisso. Dos brasileiros. Mas quem são os brasileiros? Não existe isso de brasileiros que pensam assim. Não, as mulheres pensam assim. Não, quem pensa assim? A Maria pode pensar assim, mas a Joana não pensa assim. Então a comunidade decidiu o quê? A comunidade decidiu. A sociedade não quer isso. Quem disse? Wesley diz as coisas que pra ele fazem sentido, Denis diz as coisas que pra ele fazem sentido.

Então, a gente tá falando da descoberta do eu, do potencial do eu. Lá nesse outro livro, A Revolta de Atlas. Por que ele é um livro que foi profundamente vendido nos momentos de crise? Em especial, lembra a crise imobiliária de 2008? Nos Estados Unidos, as vendas da Revolta de Atlas, velho, os bagulho das hipotecas lá, cara, decolaram. Por quê?

Imagina você, hoje, que tá numa condição extraordinariamente bem trabalhada. Você dorme hoje, amanhã você acorda no seu celular e fala assim: "Ah, aqueles investimentos, aquelas ações, não tenho mais nada." De onde é que você vai tirar força? Onde é que você vai construir um espírito de empreendedor? Bíblia, né? Ou você vai pra um caminho místico-religioso, que, na verdade, na visão de Rand, vai te submeter a uma leitura de irracionalidade. Ou você chama pra si a responsabilidade e reconstrução a partir de uma visão racional, egoísta e lógica.

Cara, então é tomar aqui, ó, no pescoço, uma dose, não de um otimismo banal, mas de uma filosofia empreendedora extraordinária. Ela foi quase uma antítese à Bíblia, cara. A Rand, ela tinha verdadeira ojeriza a qualquer forma mística de concepção da realidade. E talvez por isso que ela tá em segundo mais vendido. Foi uma briga. Não, não, não. Eu digo só tá perdendo pra... Pro principal ponto. Bater com a Bíblia é difícil, né, cara? Muito antiga.

Pra gente mesmo, porque as pessoas muitas vezes, isso a gente percebe imediatamente, é que a resposta religiosa é muito mais confortável do que aquela resposta que vai fazer que você tenha que acordar de manhã e trabalhar. Aham. E fazer e construir. Então, é muito justo que ela esteja em segundo lugar, não? Um tempo, né, cara? A Bíblia tá sendo o Brain, construo há mais tempo.

Exatamente. Mas o que é mais legal é que ela vai dizer: "Olha, a religião frequentemente fala de coisas que são abissais, como a ideia do sacrifício. Sacrificar-se pelo outro." Ela vai dizer assim, essa imagem imensa que ela constrói é muito boa num livrinho chamado A Virtude do Egoísmo.

Imagine que o seu filho vai atravessar a rua e o carro vem. E o que que você faz? Você atravessa a rua na frente, tira ele da frente do carro e morre por causa disso. Alguém haveria de dizer que foi um ato de sacrifício pela vida do seu filho? Claro que não foi. Ou que foi um ato de altruísmo pela vida do seu filho? Você doou a sua vida pela vida do seu filho? Não, não, não, não. Não foi altruísmo. Isso aí foi o ápice do egoísmo bem pensado.

Você não queria sofrer por ele morrer, né? Porque a sua vida não faria sentido sem a vida do seu filho. Exatamente isso mesmo. É isso mesmo. Então, você prescinde da sua existência pra garantir a vida do seu filho. Porque você não viveria uma vida sem ele. Uhum.

Então, isso não é um sacrifício. O homem livre, ele nunca se sacrifica. Hum. Ele mantém-se íntegro. Qual que é a ideia de integridade? Isso é um conceito grego. Integridade é o que tá inteiro. E o que tá inteiro é aquele que harmoniza o que está dizendo, pensando e fazendo. Isso é manter-se íntegro. O cara que diz uma coisa, faz outra ou faz uma coisa e pensa outra, esse cara não é íntegro. Ele não é inteiro. Ele não tá inteiro ali.

Já viu aquele cara que faz um discursão sobre ética, moral na política? Tem aos montes, né? Família e não sei o que, a família sagrada e tal. No primeiro [ __ ] ele tá entrando. Então, esse cara não é íntegro. Ele tá dizendo uma coisa, mas na ação, ela tá completamente desvinculada do que ele tá dizendo. A manutenção da integridade não permite o sacrifício.

Eu sou um escritor de livros. Às vezes eu tenho que passar madrugadas escrevendo. Alguém poderia dizer: "Quanto sacrifício?" Nunca foi, porque foi um propósito que eu estabeleci pra mim, sem explorar ninguém, sem sacrificar ninguém. Tentendo isso como ação de um homem íntegro. Porque eu poderia muito bem dizer: "Não quero escrever mais livros, agora eu vou vender pipoca." Nada me impede. Uhum.

Então, a ideia do sacrifício não entra nessa filosofia da liberdade da Rand. E daí você vê o sucesso que essa mulher fez. Pois é, né, cara? É bizarro. Deixa eu te perguntar. Eu sou um profundo... Mas assim, um profundo, um profundo ignorante em sistemas políticos e organizações de economia e tal, certo?

No entanto, eu tenho... Só um homem sábio diria uma coisa parecida com ignorante. E quanto mais eu tento me aventurar, mais ignorante eu percebo que eu sou. Porque a minha bola de conhecimento toca o desconhecido mais longe. Essa é a história da vida de um filósofo, entende?

Você sabe que, só cortando a sua pergunta, mas você não perde ela, não? Não, não perde. A palavra filosofia, ela implica o reconhecimento da ausência. Filosofia, né? Eh, filos é amor, entendido quanto ausência. Você só pode amar o que te falta. E quanto mais ciente você está no exercício da pesquisa do quanto te falta, mais filósofo você é.

Por exemplo, eu estudo filosofia há 25 anos. Eu nunca fui tão ignorante. Mas eu não sou o ignorante que não é ciente da própria ignorância. É isso que me diferencia dos outros ignorantes que nem cientes são da própria ignorância. Então, eu consigo entender o tamanho, mais ou menos, do que eu não sei na neurociência, exatamente.

E então, assim, eu tenho medo de fazer uma pergunta tão imbecil aqui que... Que vergonha. São as piores. E beleza, você leu ali uma... Digo de novo, eu sou um ignorante nesse aspecto. Eu não estudo. Esse aspecto não é meu, minha área de expertise. Mas eu sou um cara muito interessado em grandes livros. Por isso que eu comprei A Revolta de Atlas, dado que é o segundo livro mais vendido dos Estados Unidos.

É o segundo livro mais importante que causou mais impacto nos Estados Unidos. Comecei a ler por várias questões, ainda não terminei. Eu tenho outros grandes livros, como por exemplo, já li a Bíblia duas ou três vezes, já li A Origem das Espécies, do Darwin, já li vários livros importantes. E uma das obras que eu tenho me aventurado, me aventurado nos meus tempos de passa-tempo, assim, como aquele livro que acompanha no café da manhã, não que seja fácil, mas é o momento que eu tenho pra me aventurar nele, são as obras do Marx.

Sim, tá. Sim. Acho que ninguém é louco o suficiente de dizer que as obras dele não impactaram o mundo, né? Meu Deus, tem que ler. Então, e aí eu dou uma olhada ali nas obras dele, tento entender, embora seja até onde eu entendi da proposta dele. Você tá mexendo mais com O Capital, os três volumes? Foi você? Foi no... É. E aí, pelo que eu entendi, é uma proposta acadêmica, tem uma técnica economista ali que é pesadíssima, né?

Isso, mas o que que eu percebo? Pelo que eu entendi, o sistema ideal na concepção dele de sociedade seria um sistema comunista, sim? E pra chegar nesse sistema comunista, a gente precisaria passar por algumas etapas, né? E nós não chegamos lá ainda. Aí eu não sei se alguém já tentou implementar. Não, não é da minha área.

Quando você leu ali que nós tínhamos os grilhões, sim, inicialmente dos reis, depois nós tínhamos os grilhões da nossa própria... dos homens, depois nós tínhamos os grilhões de não sei quem, a gente foi se libertando. Salvo engano, o Marx também fala isso. Ele não fala que a gente tinha os sistemas feudais, aí por conta até influenciado pela obra do Hegel, que eu acho que foi um dos grandes orientadores dele.

Ele tinha... Só que o Hegel, diferente do Marx, ele operava no mundo idealista, é um plano idealista. E o Marx trouxe isso, acho que até impulsionado pelas ideias do Darwin, um negócio mais materialista, né? E aí você tem a tese, a antítese, você bate as duas e nasce a síntese. Então, você tem um sistema feudal, um grupo de pessoas que não quer, isso ocorre uma revolta e nasce um terceiro termo resultante desse choque anterior.

Mil perdões se a pergunta vai ser ignorante, mas existe em algum ponto uma sobreposição entre essas duas coisas? Cara, existe. Você fala, e um sistema comunista, o sistema comunista pensado lá ao seu final, desenhado lá, você é um cara que acompanha a obra do Marx, muito, imagino que sim.

Porque muito, muito. Eu fui um aluno exemplar nas disciplinas do Marx, até pra poder criticar com autoridade, porque senão fica aquele cara de orelhada, né? O cara que fala mal de Paulo Freire nunca leu Paulo Freire. Não, eu vou aos textos pra entender bem o que eu tô dizendo. O comunismo, desenhado por Marx, primeiro que, enquanto ideia, é uma das coisas mais poéticas que eu já li na minha vida. Assim, uma coisa lindíssima a projeção que ele faz desse processo do materialismo histórico dialético, pra onde ele avança, né? O fim dessa luta de classes, a igualdade entre os homens.

Quando você pensa nessa construção mental, numa masturbação mental, é uma coisa extraordinária. E aponta pra um comunismo que é ausência de estado. É ausência de estado, mas é ao mesmo tempo uma espécie de controle dos modos de meio de produção que vão se dar por meio de um grupo de proletários. Então, assim, no desenho, é tudo muito bonito, muito interessante. E quase dá vontade de fazer. O grande problema é que aquela construção não levou em consideração aspectos da natureza humana. Aquilo nunca deu certo, não dá.

Mas alguém já tentou implantar? Mesmo ou chegaram na fase de socialista? Só não, não. Você tem... Porque qual que é o grande problema? Por que nunca vai dar certo? É o famoso erro do cálculo econômico e uma incompreensão das dinâmicas da natureza humana. Quem trabalha muito isso de maneira brilhante, inclusive ganhou Prêmio Nobel de Economia com teses nessa linha, é esse cara chamado Hayek. Um dos grandes autores da escola austríaca que ele vai falar dessa ingenuidade da mente socialista.

Eu coloquei como subtítulo porque a ingenuidade da mente socialista, que poderia ser da mente comunista, é que esses caras, eles partem de um pressuposto falso de que a faculdade da razão humana é capaz de determinar artificialmente os rumos da história. Ou seja, de que nós podemos fazer, como fez na União Soviética, planos quinquenais de economia que vão dizer assim: "Olha, no primeiro ano vai ser isso, no segundo ano vai ser aquilo, no terceiro aquilo, no quinto ano."

Só que você tem que combinar com os fatos. Você tem que combinar com as intempéries, você tem que combinar com as guerras, você tem que combinar com uma série de fatores que são absolutamente incontroláveis. Então, o Hayek chama esse pessoal de ingênuos, de uma racionalidade cartesiana que acham que podem traçar matematicamente os destinos do homem a partir de uma dimensão artificial.

Então, ele vai dizer o seguinte: "O que que eu aprendi?" Vai dizer o Hayek, lendo os gregos. Isso eu acho maravilhoso. Lendo os gregos, a vida em sociedade, ela é articulada por diversos fatores que são absolutamente irracionais e irrastreáveis. Vem a porcaria de um vírus, coloca todo mundo em casa e fala assim: "Ó, não são só 15 dias."

Detalhe, agora todo mundo vai consumir, comprar máscara. Quem que ia imaginar que a gente ia comprar máscara? Não, os caras fizeram fortuna, aqueles produtores de álcool em gel. Aqueles caras fizeram fortuna. Tinha empresa de whisky, você lembra dessa empresa de whisky que parou a produção de whisky pra fazer álcool em gel?

Então, as dinâmicas sociais criam demandas e afastam. São demandas do ponto de vista econômico. Uma empresa que não se sustenta, quebrar é saúde. Quem pode manter uma empresa que precisa quebrar funcionando? O estado injetando dinheiro artificial nela, só ele pode. É por isso que, nesses casos, ô Denis, eu quero chamar alguém acadêmico da parte de comunismo aqui pra trocar uma ideia.

Mas um acadêmico, entendeu? Quero entender o cara que estudou na raiz lá e tal. É fundamental. Vai existir a militância, mas não tem problema. Mas eu quero um cara que estudou na raiz. E acredite, cara, eu sou filho da Universidade Federal. Se o socialismo... Se eu achasse em algum momento que as teses socialistas, comunistas pudessem realmente ser implementadas, eu estaria defendendo. Eu sou muito cético.

Não, eu entendo, mas assim, eu queria entender o lado. Porque, de fato, assim, primeiro, eu achei bem interessante a construção, até onde eu li. Não é a minha especialidade, tá? Mas eu vi muita gente falando, mas sempre de um jeito ou do outro. Eu falei: "Não, vou ler o cara na íntegra pra tentar entender o que tá querendo dizer."

Muitíssimo bacana, cara. Uma ideia muito boa. Boa, velho. Muito legal. Mas aí, realmente, considerando aspectos até de aspectos motivacionais, de natureza humana e construção das nossas inclinações, interação com contingências ambientais que nos fazem querer mais ou menos alguma coisa, é um sistema como conseguir desenhar tudo isso, cara?

Você precisaria de uma arquitetura social totalitária. Seria por isso, por exemplo, que falta em lugares que tentaram implementar isso coisas básicas? Porque o pessoal não consegue mensurar o que que o público quer. Você não consegue mensurar a real necessidade de uma sociedade. Tipo, se o cara quer comer mais lentilha e feijão.

Claro, por isso que você não tem sistemas de preço em regime totalitário. Durante o regime soviético, sabe quem estabeleceu o sistema de preço? O mercado negro. Eles mais ou menos entendiam quanto custava uma lata de sardinha, vendo o que que tava sendo cobrado no mercado. Bota o preço, cara. Quem bota o preço, perdão, ignora. É a escassez ou a oferta do mercado.

Não, isso no mercado ou no mercado não, mas mesmo no mercado negro. Não, mas e lá num regime comunista ou totalitarista ou socialista, depende. Porque aí você começa... Quando você pune o sujeito, vamos lá, você é o famoso congelamento de preço. Então, vamos lá, você começa pelo congelamento de preço.

Essa garrafa d'água custa R$ 2. R$ 2. Aí a gente passa por um processo de seca. Imediatamente, o que acontece? O preço sobe. Por quê? Porque a demanda aumenta e água não é um bem infinito, certo? Água não é um bem infinito. Portanto, você aumenta o valor disso aqui. Aí o que que eu faço? O estado fala assim: "Você está proibido de vender essa água a mais de R$ 2."

Imediatamente, você fala assim: "Ô, eu não tenho interesse em mexer com isso. Por que que eu vou vender isso?" Ah, daí começa a acabar. Entendi. Acaba. A primeira coisa que você faz com controle de preço é o fim. Aqui no Brasil já foi tentado 800 vezes, nos países da América Latina, 8 milhões de vezes.

A primeira reação é prateleiras vazias, prateleiras esvaziadas. Eu não tenho interesse. Agora, se eu deixo o fluxo do mercado acontecer, o que acontece? Imediatamente, álcool gel. Álcool gel tava R$ 2. Na hora que explodiu a pandemia, foi pra R$ 20. E aí o pessoal começou: "Pô, eu preciso de álcool gel, preciso de álcool gel."

Se você controla o preço e pune o sujeito, deixa em R$ 2, ele fala: "Vou parar de produzir, vou parar de vender essa merda." Beleza, deixa o livre mercado gritar. Em dois meses, um mês, o que aconteceu? Empresa de cachaça, whisky, fundo de quintal, todo mundo produzindo, inundou o mercado, voltou a inundar o mercado, o preço baixa.

Então, e esse desespero por respostas imediatas de escassez, de preço alto, é que prejudicam todo o jogo. No sistema socialista, você pune o produtor. Olha o que que o Stalin fez, na... No caso, só por questão conceitual, esse seria um sistema comunista, né? O socialista ainda tem capitalismo.

Não, na verdade, existem distinções as mais diversas. Por exemplo, Ayn Rand vai dizer que socialismo, nazismo, comunismo são todos primos-irmãos do sistema coletivista. São variações concretas da mesma mentalidade coletivista. Tem gente que vai dizer que o socialismo é essa política comunitária aplicada em nível econômico, mas que o comunismo ingressa também no universo político.

Por exemplo, hoje você tem a China, que ela é politicamente comunista. Você tem partido único, você tem os autocratas, ninguém vota diferente em lugar nenhum, mas tem economia, né? Mas tem economia de mercado. Exato. Economicamente, a China é muito mais livre do que o Brasil. Muito mais. Mesmo sendo um país de política comunista.

Confunde, cara. Eu que não estudo, meio confuso, não. Mas assim, você pode ver que são essas... Não tem uma explicação chapada, porque você tem contextos concretos, né? Tá. E deixa eu te perguntar, o por que que você... Quais são os argumentos de quem de fato defende? Porque assim, acho que o cara que defende a implementação de um regime coletivista por meio de um comunismo, por exemplo, acho que é uma pessoa que, principalmente os acadêmicos e os estudiosos e tal, a pessoa, ela sabe disso daí dos preços, cara.

Sabe, ela não tem como não saber disso. É um cálculo, parece, me parece simples de fazer. Sabe? Por que que ela ainda continua ideologia defendendo? Cara, ideologia é um tipo de religião secular. Aí você que vai ter que me responder. São pessoas inteligentes, caramba! V toca muito, mas ela toca locais do cérebro.

Eu não sei se é alguma dimensão reptiliana do cérebro, alguma coisa que faz com que o sujeito negue os fatos. Isso eu posso entender até um determinado ponto, mas de um cara que estuda, conhece as dinâmicas da história, sabe dos resultados, sabe do tipo de controle totalitário que você tem, que não percebe a necessidade de organização espontânea da sociedade.

Eu só quero crer que esse sujeito é um baita de mau caráter que tá desejando controle político. Eu não posso pensar outra coisa. Porque eu nunca vi um defensor... Os defensores de regimes coletivistas, eles falam em aniquilação física de pessoas. Tem gente agora em podcasts de grande visualização que dizem abertamente que falam assim: "Se for pra fazer o regime funcionar, tem que estirpar, tem que matar o capitalismo."

Tem uma série de problemas, tem uma série de problemas. Mas o capitalismo tem uma coisa que nenhum outro sistema tem. Desde que foi implantado, ele criou um grau de riqueza incomparavelmente superior a qualquer outro modelo político-econômico que a gente já tem experimentado em vida tribal ou em vida social.

Quando você pega os gráficos de criação de riqueza a partir do século XIX, em especial, hoje um sujeito de classe média baixa, muitas vezes até pobre, ele tem coisas na casa dele, o gráfico, ele faz quase 90º. Ele tem coisas na casa dele que um rei no final da Idade Média não sonhava em ter. Então, de conforto material, então de possibilidade de resolver os seus problemas.

Hoje, o que nós menos nos temos de vida material é aquilo que a gente depende do estado pra ter. O pobre, ele vai lá, ele se vira, ele compra o celular dele, ele pega dinheiro no sinal, ele vende pipoca, ele se [ __ ] mas ele tem a TV na casa dele, ele tem a geladeira na casa dele, mas ele não tem esgoto, ele não tem educação, ele não tem segurança pública, ele não tem aquilo que depende do estado.

Portanto, quando eu vejo esses caras defendendo essas teses, ainda que eles eventualmente sejam bem-intencionados, o fato é que o inferno tá cheio de gente bem-intencionada. Mas eu acho que eles são... Cara, eu acho que tem uns caras que são malandros. Eu acho que tem uns malandros. Mas eu vejo uns caras acadêmicos, sabe, que manjam assim.

Mas eu não acredito. Eu tento entender o lado. Eu tento entender. Eu acredito mais na malandragem. Por quê? Porque eu nunca vi um comunista disposto a ser o comunista do baixo clero, que vai ficar lá, aquele cara que estudou a vida inteira pra ser acadêmico. Mas aí o estado disse pra ele que o melhor é que ele plante banana e batata, sei lá o quê. E ele fala assim: "Que beleza, pelo comunismo nós vamos fazer isso."

Não, geralmente, esses caras são aqueles que estão junto lá da classe aristocrática que vai tocar o modelo. Então, são as maiores fortunas do mundo, né? Algumas das maiores fortunas que nós temos. Fidel Castro, os irmãos Castro, riquíssimos, né? Sabem que esses caras que defendem esse tipo de ideia são os caras que dizem assim.

Isso tá bem descrito num livrinho que muito menino de 9, 10 anos tá lendo na escola, mas não entende, que chama-se A Revolução dos Bichos, do George Orwell. Você começa com esse discurso: "Não, olha só, a gente vai distribuir as tarefas, tá? O porco faz aqui, o cavalo faz aquilo, ele é de tração, vai ser o melhor pra sociedade."

Então, existe um organismo que vai determinar o que é melhor pra sociedade. Não sou eu que vou determinar o que é melhor pra mim. Beleza, os porcos assumem o controle. Ficam assim: "Ô, cavalo, você tem que trabalhar mais horas. Ó, porque os resultados que a gente tá tendo, ô galinha, mais ovos, aí vamos embora."

Não sei o que. No final do livro, os porcos estão de pé em duas patas, dizendo o seguinte. Eles botam as regras na parede, né? E vão apagando. Estão de pé em duas patas, abraçados numa festa com os humanos que eles começaram por combater.

Então, cara, isso vai desfazendo todo um processo que é... Você tem líderes políticos dentro da sua nação que dizem assim: "Ô, não precisa consumir tanto, gastar tanto. Vamos ter uma vida mais modesta." Mas são esses mesmos que rodam de gatinho pra cima e pra baixo com roupas de marca pra cima e pra baixo.

E aí, se você perguntar: "Mas por que que você diz uma coisa e faz outra?" Eles vão dizer, como os porcos lá da Revolução dos Bichos: "É porque nós somos os tutores, nós estamos cuidando de vocês. Então, a gente tem que comer muito bem." Então, eu tenho que ter um motel aéreo, então eu tenho que viajar e ficar em hotéis cinco estrelas.

Então, quanto mais totalitário é o regime, mais as classes que comandam o regime vão se completar, vão se completar. Países como os que a gente comentou lá na frente, né? Lá atrás, os países mais civilizados que entendem mais de liberdade, liberdades individuais.

Eu morei na Europa há muito tempo. Eu peguei metrô junto com o primeiro-ministro. E olha que é de país que nem é exatamente um exemplo anticoletivista. Na Itália, tava lá Romano Prodi, um primeiro-ministro, da esquerda, lá dentro do metrô. Porque os caras não admitem certas coisas.

Você vai pra Suécia, Noruega, Finlândia, primeiro-ministro vai de bike. Se ele tem apartamento funcional, é quarto e sala. Se quiser um... Agora foi deposto há pouco tempo porque usou milhagens de cartão de crédito que ele não deveria usar. Foi Portugal, não foi? Foi Suécia, alguma coisa assim.

Portugal também deu alguma merda. Foi uma merda com uso de milhagem, não sei se foi isso. Mas o cara fez umas cagadas. Cara, uma cagada tão pequena assim. Só sei que o cara dissolveu o parlamento, chamou eleições. E é um negócio que você olha e isso acontece.

Quando o Brasil, assim: "Ah, só roubou 10 milhões, só isso aí." Então, é isso. Então, é muita burocracia. Então, assim, eu entendo que existem algumas pessoas que são... Existem. Essa é uma frase do norte da Europa que diz assim: "Se você não é coletivista, comunista até os 20 anos, né, você não tem coração. Mas se você continua sendo depois dos 40, você é idiota mesmo."

Então, eu acho que existe uma parte da idade. Uma vez eu vi uma fala sua que eu achei maravilhosa. Jovens, até uma certa idade, funcionam em déficit cognitivo. Isso até os 20, mais ou menos. É déficit cognitivo. Então, o menino que tem déficit cognitivo, por questões biológicas, funcionais do cérebro, por isso, por exemplo, que não pode, teoricamente, não poderia beber ou dirigir.

Tá, pessoal, só pra vocês entenderem que o Vtex pré-frontal não tá totalmente... Isso, isso, isso. Votar pra quem vai ser o reitor da universidade, votar pra quem vai ser o presidente do país, etc. Não é por mal, é por uma questão de uma limitação de natureza biológica.

Eh, agora, depois de um certo momento em que você experimentou as coisas da vida, defender essas ideias, eu não consigo mais imaginar que possa ser ou por ingenuidade ou por um desejo de justiça cósmica. Porque os dados estão postos, entende? É um negócio que tá gritando aqui na sua cara.

A utopia, ela não tem compromisso com a realidade. A ideologia, ela tem compromisso com a realidade. Isso é doentio. Eu preciso de ideias que tenham congruência com a realidade. Se a sua ideia está em antipatia, está incongruente com a realidade, a sua ideia vai perder sempre. E muita gente vai morrer por causa disso.

Os regimes mais sangrentos da história, o regime mais sangrento da história foi o comunista. Por quê? Porque você tem que obrigar uma coisa a dar certo quando ela não vai dar certo. E quando ela começa a se perder e a patinar, o cara fala assim: "Eu não aceito." Aperta. E o problema é que centraliza muito o poder, né, cara? Também dificulta.

Claro, Stalin, que é comemorado até hoje por alguns políticos brasileiros, foi um cara que matou milhões de pessoas em Holodomor, numa guerra, numa fome imposta ao povo da Ucrânia, por questões de que ele não aceitava que os donos das fazendas da Ucrânia quisessem as suas produções pra si. Ele queria estatizar as produções de... E a Ucrânia sempre foi o grande celeiro da União Soviética. E falou: "Não aceito. Ah, eles estão se rebelando. Fecha tudo e toma a comida deles."

Assista aí a A Sombra de Stalin, que inclusive aparece o George Orwell. A sombra de Stalin, você tem lá, assim, casos de canibalismo, etc., em nome de ideologia. Ah, tem que matar o fulano, mata lá nos gulags soviéticos. Os caras prendiam heróis de guerra do exército vermelho porque eles não podiam voltar da Europa e contar as histórias que eles... De uma Europa maravilhosa, rica, próspera.

Ô, Denis, e pra gente ir fechando, cara, e o inverso? Dentro da... Você é um cara que defende ali o individual, né? E bate muito no coletivismo, que por vezes, por vezes não, mas tá sempre associado a esses regimes comunistas e socialistas pela natureza óbvia deles, né?

Sim. Mas e, por exemplo, ditadura militar? Cara, Deus me livre. É só uma outra... Porque aí o cara que tá te ouvindo pode achar: "Um cara defende ditadura." É uma gente [ __ ] Então, você é agressivo pros dois lados, assim? Totalmente. O que aconteceu com a direita brasileira nos últimos poucos anos é uma coisa completamente vergonhosa.

Por quê? Porque é o coletivismo vestido de verde e amarelo. Então, assim, quando você vê aquela galera da Paulista lá, cara, defendendo... Aqui, nós chegamos a inventar uma coisa que é de craqueira, que é conservador defendendo revolução político-militar. É confuso, né? Não, confuso é um eufemismo. É uma coisa doentia.

Então, assim, conservador, que que marca a postura de um conservador? Conservar aquilo que tá funcionando e tal e tal, marcado pela prudência, as modificações que são feitas em pequenos ajustes históricos. Isso não veio da Revolução Francesa, cara, que foi uma merda. Sei lá, o Edmund Burke, a galera não escreveu? Foi o Edmund, escreveu um tratado sobre a Revolução Francesa mostrando a merda que foi.

É, sim. E aí, acho que a ideia dele era falar: "Pessoal, vamos tomar cuidado com revoluções bruscas porque pode dar problemas institucionais e políticos graves, econômicos e tudo." E aí, pelo que eu entendi também do Edmund Burke, de novo, não é a minha área, tá? Só ignorante no assunto, mas pelo que eu entendi, ele falou: "Vamos não é deixar de revolucionar, mas vamos frear a revolução pra gente ir conseguindo tateando devagar."

Porque você não tem controle do processo revolucionário. Vê aquilo na Avenida Paulista, eu fico triste. Teoricamente, aquilo, tecnicamente, não é nem teoricamente, tecnicamente não é uma... Não é conservadorismo. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, Jesus acima de não sei quem, fulano acima de sicrano. Não tem nada acima, não, meu amigo. É indivíduo acima de tudo.

Eu não quero ninguém cuspindo regra na minha vida, ninguém fazendo bom uso de estado. Não, vamos fazer um bom uso do estado agora. As nossas escolas vão ensinar patriotismo. Quem ensinar patriotismo ensina pro seu filho. Então, essa ideia de que o coletivismo dos outros é ruim, mas o meu coletivismo será bom. Bom, se você perguntasse para Hitler, se você perguntasse para Mao, se você perguntasse pros grandes tiranos da história se o coletivismo deles era ruim, eles iam falar que isso...

Eu tô querendo purificar o mundo dessa raça judia. Eu quero é a raça ariana. Olha que coisa maravilhosa. Como é que você pode ser contra isso? Gente coletivista começa a fazer cálculo de utilidade sempre a partir da sua perspectiva. Portanto, eu tô em busca de um direito negativo. É o que você não pode fazer comigo. Não se meta na minha vida.

Eu não quero é coleira. Eu sempre brinco, eu não quero é coleira. Não vem de verde e amarelo, vermelha e tudo. Então, o coletivismo, e a gente explica isso nesse livro, ele está em todas as vertentes políticas. Cuidado é com ele. O problema não é direita e esquerda, o problema é coletivismo.

Então, você tá [ __ ] né, cara? Porque a minha vida é ser [ __ ] porque, cara, eu sou um professor de filosofia agnóstico. Portanto, o que mais existe nas redes sociais é professor de filosofia que é de catequese ao mesmo tempo que tenta trazer tudo pra religião. Isso atrai uma galera enorme.

Tá num país fortemente religioso. Então, eu já me fodo. Aí, na hora que eu defendo as teses do agnosticismo, sou muito racional nas minhas abordagens. As pessoas odeiam abordagens racionais. Elas são apaixonadas. Eu sou um cara que, claro, que eu sempre estive mais alinhado com certos princípios que historicamente caminharam com a direita, mas o que nunca me impediu de fazer as críticas necessárias à direita.

Então, provavelmente, quando tu fala isso daí da Avenida Paulista, dos caras, sim, eu provavelmente vou morrer só com os meus cachorros. Tá ferrado. Sabe aquele cara sozinho com o pastor alemão no goo, assim, esperando a morte chegar? Mas a vida intelectual, eh, independente, ela tende a ser um pouco solitária.

Só não é, cara, porque eu tenho grupos que estão comigo. É exatamente, eu tenho lá a Sociedade da Lanterna, que é a Sociedade da Lanterna, cara. É o meu curso, meu curso, a minha sociedade de frequentação da história da filosofia. Qual que é a dinâmica? Nós nos encontramos quinzenalmente pra ler e discutir, debater sobre história da filosofia a partir de textos e a partir de uma tentativa de compreender o que os filósofos disseram.

E a gente faz isso numa linha histórica. A gente começou com mito há quatro anos atrás. A gente começou com o mito. A natureza do mito. Bolsonaro, mito, entraria, poderia ser, mas ia dar uma merda. Aí depois a gente vem com os pré-socráticos e tal. Agora a gente tá acabando Aristóteles.

Ah, e Denis, qual é o tempo de fim? Não, é tipo clube do livro. É não, é um clube de história da filosofia. Tá. Mas aí tem um outro espaço que é o Brinco de Academia do Denão, que é uma brincadeira com a Academia do Platão. Que aí é um clube de livro, tem aula de grego, dou aula de grego clássico lá dentro, tem S, filosofia.

Aí um espaço de alta instrução intelectual que não toca elementos de história da filosofia. Então, um é muito história da filosofia e o outro é mais entretenimento intelectual. Que livros? Pega esses livros, leio, comento com os meninos. E então um é mais acadêmico assim e o outro é mais coloquial.

Então, a gente pega lá, é o livro do Calceia, eu fiz leitura dele lá. Legal, leio, exploro e tal. Lemos Victor Frankl, Solzhenitsyn, lá com Arquipélago Gulag, livros de história, literatura. Agora vai entrar Crime e Castigo.

Pra gente finalizando aqui, cara, Napoleão ou Alexandre o Grande? Alexandre o Grande. Por quê? Porque ele teve uma percepção muito clara do que ele desejava realmente e, em larga medida, conseguiu, que era a disseminação de um ideal de vida grego. E se não fosse isso, paradoxalmente, boa parte da filosofia grega teria desaparecido.

Mas como toda grande figura histórica, eu tenho um problema com ele, que é ao disseminar a Grécia pro mundo, ele também se deixou fortemente contaminar pelo mundo, mexendo com as estruturas gregas. Então, como tudo na vida, né? Não tem como perceber. E que bom que você reconhece isso, né, cara? Bom que você reconhece isso.

Filósofo contemporâneo, assim, não que tá vivo hoje, mas sei lá, dessa galera... Kant, sem ser os antigos e os católicos. Sem ser os antigos e os católicos, licas. Que eu poderia indicar? Olha, eu gosto muito de Kant. Gosto muito de Immanuel Kant, mas é um filósofo muito difícil de ser lido. Assim como Hegel, muito difícil de ser lido. Um alemão de 30 anos bem formado tem muita dificuldade de ler Hegel.

Então, é um filósofo complicado. Kant tem um problema. Você não pega a Crítica da Razão Pura ou a Crítica da Razão Prática ou a Crítica da Faculdade de Juízo e senta e fica lendo no fim de semana. Eu tô tentando com O Capital e não sai, cara. Um vocabulário, uma apropriação de vocabulário.

Então, por exemplo, Kant, eu sugiro mais algumas peças. Como eu fiz uma live outro dia sobre esse texto que é lindo, o que é o esclarecimento. O que é o esclarecimento? Aufklärung, que é uma reflexão dele sobre um homem esclarecido, um homem ilustrado intelectualmente. É uma coluna de jornal muito bem escrita.

Gosto muito, por incrível que pareça, eu gosto muito de um autor que foi associado às teses comunistas e socialistas na França dos anos 60, 70, que é Jean-Paul Sartre. Muita gente tem ojeriza por conta também das escolhas de vida que ele teve. Havia uma certa orgia dele com a Simone de Beauvoir e tal, mas como eu não transo como filósofo, eu leio, estudo, filó, né? E tal.

Foi ele que recusou o dinheiro do prêmio Nobel ou recusou o prêmio? Foi, recusou o prêmio. Anos 60, prêmio de literatura. Então, eu, independentemente dessas características da vida, que realmente são muito polêmicas, eu gosto da reflexão dele. Quando ele, no Existencialismo é um Humanismo, ele diz que o homem não é um cortador de papel. O corta-papel, aqueles de guilhotina de xerox, ele é determinado, ele não tem crise, ele não tem angústia, ele faz aquilo pra o que ele foi criado.

O homem não... O homem é um ser aberto, o homem é um ser condenado à liberdade. Portanto, a sua essência é construída nas suas escolhas cotidianas. Portanto, há uma forte componente de livre-arbítrio nessa filosofia existencialista francesa de autodeterminação e escolha dos próprios rumos, sabendo que Sartre, falando ao final, nós temos a morte. E a morte é a aniquilação de todas as qualidades de decisões que nós tomamos antes, porque a morte aniquila as decisões que nós tomamos antes, melhores ou piores.

Então, toque a sua vida do jeito que você acha legal. Legal. No, a Vaio, um buracão. Como é que a galera te acha aí, meu? Onde é que você tá? Instagram, YouTube, cara. Instagram, YouTube, basicamente. Eu não tô na... Na no Twitter, lá no X, porque eu não aguento aquilo. Acho que é muito hostil, ambiente muito ruim pras coisas do intelecto.

Mas meu nome é... Eu brinco sempre que é uma declaração de pobreza. É Denis com dois N's e Y's. Então, se você colocar Denis Xavier com X, você me acha fácil, tanto no Instagram quanto... E seus livros também na Amazon, cara. Meus livros estão bem distribuídos. Assim, eu tenho uns 20, tem de tudo.

Eu publiquei no final do ano passado um livro sobre história da filosofia de Platão, falando sobre a teoria da comunicação em Platão. Eu já tô preparando outros dessa coleção, Breves Lições, e tô preparando um outro desse modelo do coletivismo, que vai ser sobre liberdade de expressão, que é um outro tema também muito quente. Essas Breves Lições, você pega um sujeito específico e debulha ele e vou pra cima.

Então, a gente sempre abre com uma biografia, com fotos, explicando o que que foi a vida, por quê? Porque a vida diz muito sobre a filosofia do cara, diz muito sobre o modo como ele pensa, né? Então, eu não conhecia nenhum desses aí, cara. Só a... A... A...

Cara, eu acho que pelo que eu escuto você falar e tudo, você vai ficar pirado nisso aqui. Legal, maneiro. Acho mesmo, especialmente a Rand. Eu tenho que te... Ah, você falou que tem, mas eu queria ter presenteado com ele aqui, com uma dedicatória, mas já... Esse livro, felizmente, tem muita saída. Farmácia lá, farmácia de Rand, que é muito legal. E esse aqui da Rand também, que conta a vida só a vida da mulher já é um negócio brilhante, né?

Ela é a... Ela é íntegra, ela é a representação viva das ideias que ela defende. Legal, isso dá mais força, né? É, cara, obrigado pela presença. Bate-papo sensacional, uma honra. A gente conversou até que quanto tempo deu aí? Já mais do que deveria. 24. Aí, ó, normalmente é 1:40, 2 horas o podcast. Quer dizer que foi bom. Legal, cara. Obrigado pela presença.

Parabéns pelo seu trabalho. Estamos juntos. Valeu, valeu. Pessoal, obrigado por assistir até aqui. Compartilhe o episódio se você acha que alguém possa ter interesse e curta aí pra o YouTube recomendar pra mais pessoas. Nos vemos no próximo episódio. Valeu!