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O UNIVERSO COMEÇOU A EXISTIR? - A RESPOSTA DA CONDIÇÃO MODAL - Daniel Linford

David Ribeiro6:24

Transcription

Olá e bem-vindos. Hoje a gente vai mergulhar de cabeça numa ideia bem provocadora de um filósofo chamado Daniel Lford. E olha, ela pode mudar completamente o jeito que você pensa sobre, bem, sobre o começo de tudo. OK?

Vamos começar com uma pergunta que parece ser uma resposta óbvia, né? Se alguma coisa, tipo o universo tem um primeiríssimo momento de existência, um tempo zero, isso quer dizer que essa coisa teve um começo. Parece pura lógica, não é? E se eu te disser que a resposta não é tão simples assim?

Pois é, o artigo que a gente vai ver hoje propõe uma ideia que, de uma forma surpreendente, conecta dois dos maiores mistérios que existem: a natureza de Deus e a origem do universo com o Big Bang. E isso nos leva direto pra nossa primeira parte, onde a gente vai preparar o terreno para entender esse paradoxo maluco.

Então, a questão toda é a seguinte. A nossa intuição grita que ter um primeiro momento e ter um começo são a mesma coisa. Mas o Lford vem e desafia isso, dizendo que é totalmente possível ter um sem ter o outro. Como assim? Vamos desvendar isso.

Vamos começar pelo primeiro grande quebra-cabeça, um problema que aparece lá na filosofia da religião. Alguns teólogos, como William Lane Craig defendem uma ideia conhecida como hipótese da criação de Craig. A visão é mais ou menos assim: Deus existia fora do tempo, num estado atemporal, mas na hora da criação, quando ele cria o universo, ele também entra no tempo, passando a ser um ser temporal a partir daquele instante.

E aí que o bicho pega? Se Deus passa a ter um primeiro momento no tempo, um tempo zero para sua vida temporal, isso não soa muito como se ele tivesse começado a existir. E isso bate de frente com a ideia de um Deus que é eterno, que nunca teve um começo. Como o próprio Linford diz aqui, essa é uma conclusão que os defensores dessa ideia teológica precisam evitar a qualquer custo. Afinal, um Deus que começa a existir não é o mesmo Deus eterno da teologia clássica. Então, temos um problemão, um paradoxo.

Agora, segura essa ideia aí. Vamos dar um salto da teologia direto pra cosmologia e ver como um problema muito, mas muito parecido, aparece na física. A física moderna tá brincando com a ideia de que o espaço e o tempo, o tecido da nossa realidade, talvez não seja a camada mais fundamental das coisas. Pensa na Matrix. O mundo que você vê na tela parece super real para quem tá dentro, mas a realidade de verdade, a fundamental são os computadores, o hardware que tá rodando tudo aquilo.

E essa analogia é perfeita, porque o hardware fundamental por trás da nossa realidade pode funcionar com regras completamente diferentes. Ele pode não ter tempo nem espaço do jeito que a gente conhece. O nosso espaço-tempo seria então uma propriedade emergente, algo que surge a partir de uma base mais fundamental e atemporal.

Isso nos traz a versão do físico pro mesmo dilema. Se o Big Bang foi o primeiro momento do tempo como a gente conhece, mas a realidade por trás dele não tem tempo, será que a gente pode dizer que o cosmos começou existir naquele ponto? Viu a semelhança?

OK. Então, a gente tem dois enigmas paralelos, um sobre Deus e outro sobre o cosmos. E agora vem a solução elegante que o LMF propõe para resolver os dois de uma vez só. Essa é a condição modal para o começo. É basicamente uma nova regra para definir o que é um começo.

A palavra modal aqui é só um jeito de falar sobre imaginar cenários alternativos. A condição diz o seguinte: algo só teve um começo de verdade se a existência dessa coisa depende totalmente do tempo. Ou seja, se a gente consegue imaginar essa coisa existindo sem tempo, então ela não começou, ela só entrou no tempo.

A gente pode resumir isso num teste bem simples. É só se perguntar: Essa coisa, seja lá o que for, precisa de tempo para existir? A existência dela é na sua essência temporal. E o mais legal é ver esse teste funcionando na prática. Pega uma cadeira, ela poderia existir sem tempo? Claro que não. É um objeto físico, precisa de espaço e tempo. Logo, ela teve um começo.

Agora, em Deus, naquela visão teológica, a existência dele, em essência é atemporal. Ele não precisa de tempo. Então, mesmo que ele entre no tempo, ele não teve um começo. E o cosmos? Bom, se a física estiver certa e a base da realidade for atemporal, então o cosmos, mesmo tendo o Big Bang, talvez também não tenha tido um começo.

Vamos agora pra nossa parte final, onde a gente amarra tudo isso e entende o impacto gigante que essa nova forma de pensar pode ter. Então, a grande sacada é essa aqui, a distinção crucial. Ter um passado finito é uma coisa. Significa apenas que a nossa linha do tempo teve um ponto de partida, o t = 0 do Big Bang.

Mas começar a existir usando a regra do Lymod. Significa que a existência daquela coisa é impossível sem o tempo. Elas não são a mesma coisa. E essa excitação resume tudo perfeitamente. Mesmo que a ciência prove, sem sombra de dúvida, que o nosso tempo teve um ponto de partida, isso sozinho não prova que a realidade física como um todo teve um começo.

E por que isso tudo importa? Bom, isso muda as regras do jogo para vários debates filosóficos e científicos. Agora, para argumentar que o universo teve um começo, não basta mais só apontar pro Big Bang. Você teria que provar algo muito mais difícil, que a realidade no seu nível mais fundamental é temporal. Isso muda completamente o foco da busca por uma causa primeira.

Isso nos deixa com uma última pergunta para você ficar pensando. Se o universo não necessariamente começou, mas talvez só tenha feito uma transição de um estado sem tempo para um com tempo, o que isso significa pra nossa busca por origens? A pergunta, o que veio antes do Big Bang? Talvez seja a pergunta errada. Talvez a pergunta certa seja o que existe por baixo dele?

[Música]