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Narcoestado no Brasil? O verdadeiro tamanho da influência do crime na vida do país

BBC News Brasil8:49

Transcription

O Brasil está no caminho para virar um narcoestado? Você talvez tenha ouvido essa pergunta por aí. O termo “narcoestado” tem aparecido nas redes sociais, nas falas de comentaristas e autoridades. De fato, o noticiário de 2025 aponta pra um aumento do poder e da influência do crime organizado no país.

Entre os casos de grande repercussão, talvez você lembre, teve o assassinato de um ex-delegado em São Paulo que estava jurado de morte pelo PCC, a morte de um delator da facção no aeroporto de São Paulo por policiais militares, a expansão dos negócios da facção paulista em fintechs na Faria Lima, a presença de faccionados de outras regiões do país nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio, como ficou evidenciado na maior e mais letal operação policial da história do país.

Mas dá para dizer que o Brasil está se transformando em um narcoestado? Eu levei essa pergunta para especialistas em sociologia e em segurança pública. A resposta, você deve imaginar, não é simples. A ideia geral, na visão de quem estuda o assunto, é que não dá para usar a palavra “narcoestado” - ela não se encaixa com o fenômeno brasileiro. O que não quer dizer que não exista um avanço muito preocupante do crime organizado e que ele não tenha se infiltrado na política em alguns locais.

Eu sou Camilla Veras Mota, da BBC News Brasil, e divido com vocês nesse vídeo as análises de quem estuda o crime organizado: qual a situação do Brasil hoje e os dados que mostram o tamanho da influência do crime na vida do país. Vamos começar então com “narcoestado”. Esse é mais um termo que tem circulado na imprensa e no debate público do que um conceito discutido entre quem pesquisa organizações criminosas. Não existe uma definição científica precisa, mas a ideia, em linhas gerais, seria de uma nação em que o crime se apropria da estrutura do Estado e faz com que ele passe a funcionar em função da indústria das drogas - o que não é o caso quando se fala do Brasil e de praticamente nenhum outro país, segundo as fontes com quem eu conversei.

Um deles foi o sociólogo americano Benjamin Lessing, que há mais de uma década estuda organizações criminosas na América Latina. Na opinião dele, o caso da Venezuela seria o que atualmente mais se aproximaria da definição, mas apenas se fosse comprovada a acusação que vem sendo feita por figuras como o presidente americano, Donald Trump, do envolvimento em massa de agentes do Estado - no caso, membros das Forças Armadas – e até do presidente do país, Nicolás Maduro, no tráfico de drogas. Até o momento, a Casa Branca não apresentou provas. O Lessing também falou em possíveis casos históricos pontuais, como o do Panamá entre 1983 e 1989, quando o país foi governado por Manuel Noriega, que tinha envolvimento direto com tráfico de drogas. Ou o do México dos anos 70 e 80, sob o Partido Revolucionário Institucional, que meio que gerenciava os cartéis.

Ainda assim, ele acha o termo exagerado e prefere a ideia de “duopólio da violência”: na teoria, o Estado deve ser o único autorizado a usar força e a estabelecer um sistema de Justiça, mas o crime às vezes se sobrepõe ao Estado e exerce essas funções em algumas regiões. Para usar o exemplo recente do Rio de Janeiro, é só pensar no controle que o Comando Vermelho exerce sobre comunidades como o complexo da Penha e do Alemão. Controla quem entra e quem sai, emite regras de conduta e castiga quem não segue a cartilha.

O sociólogo Gabriel Feltran, que é autor de um livro sobre o PCC, também enxerga a situação no Brasil como o de poderes que coexistem – o oficial, do Estado, e o das organizações criminais. O que a gente tem visto é justamente um crescimento desse outro poder. E isso seria visível de várias formas – vou citar três.

O primeiro: as cifras bilionárias que o crime passou a movimentar. A estimativa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública é que esse número seja da ordem de R$ 348 bilhões por ano, dos quais uma pequena fração, cerca de R$ 15 bilhões, viria do tráfico de cocaína. Isso porque, depois de enriquecerem com o varejo de drogas nas décadas de 90 e 2000, nos últimos anos as facções diversificaram as atividades e as fontes de renda. Os crimes virtuais e os urtos de celulares, por exemplo, se revelaram um negócio extremamente lucrativo, de R$ 186,6 bilhões por ano. Tem toda a questão hoje da Amazônia, que o Fórum Brasileiro tem acompanhado, o garimpo ilegal, a ocupação de áreas indígenas, a própria extração de madeira. Os mercados ilegais são muito diversos. E, na verdade, o que tem acontecido no Brasil, especialmente nesta última década, que todos esses mercados ilícitos, eles acabaram se conectando. E se foram se conectando, foram aumentando, evidentemente, o poder desses grupos e a capacidade de influência numa série de setores, inclusive na economia formal. Os mercados legais, como o de combustíveis, inicialmente usados para lavar dinheiro, também se mostraram rentáveis, movimentando R$ 146,8 bilhões por ano.

O segundo indicador que eu destaco aqui é a nacionalização das facções. As duas maiores e mais antigas do país, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, o PCC, foram além das suas fronteiras de origem no Rio e em São Paulo na última década em busca tanto do controle das rotas do tráfico de cocaína quanto dos pontos de venda de drogas. E nesse processo de capilarização, foram se expandindo com empreitadas próprias, arregimentando membros pelo país, ou em associação com grupos locais – que aliás, também se multiplicaram. Hoje são 88 organizações criminosas espalhadas por todo o país. Algumas delas exercem controle territorial sobre as comunidades em que estão presentes, como eu mencionei antes, e esse é o terceiro ponto aqui: Cerca de 31 milhões de brasileiros vivem em condições como essas, em áreas dominadas por facções, conforme uma pesquisa recente feita pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso é 19% da população, 5 pontos percentuais a mais do que o verificado em 2024 - um salto que dá dimensão do avanço do problema.

Os estudiosos chamam esse fenômeno de “governança criminal”, o poder que algumas organizações criminosas exercem em determinados espaços em paralelo à governança do Estado. E já que a gente está falando aqui de palavras, outra expressão que alguns pesquisadores usam quando falam do Brasil são “organizações mafiosas”. Elas não têm o controle do Estado, como seria um narcoestado, mas têm bastante penetração por meio de corrupção e cooptação de policiais, políticos e por aí vai.

Um desses especialistas é o sociólogo Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo. Ele também não acha que o termo “narcoestado” se encaixe no Brasil, mas avalia que, sob esse panorama, dá pra falar em “narcoestado difuso” que não tem controle sobre as instituições em nível federal, mas que aparece em exemplos pontuais e em uma escala menor - em cidades e regiões, por exemplo. Até que ponto esses grupos já têm uma penetração importante nos parlamentos locais, onde muitas questões de urbanização são decididas e vereadores são eleitos, enfim, e também nos parlamentos estaduais. Enfim, até que ponto vai essa influência e em que medida um setor do sistema político está de alguma maneira já cooptado e trabalhando, num certo sentido, para dinamizar e potencializar de alguma forma essas atividades ilícitas? Isso é algo que evidentemente preocupa, né?

Ou seja, o crime organizado tem crescido e ganhado poder? Sim. Dá para chamar esse fenômeno de uma caminhada rumo a um “narcoestado”? Quem estuda o assunto diz que não - e chamam atenção pro uso do termo com fins políticos. A ideia aqui seria parecida com a discussão em torno da palavra “narcoterrorista”, que também tem circulado no debate público. Nos EUA, com o governo Trump. No Brasil, especialmente com governadores da direita, como o do Rio, Claudio Castro, ou de São Paulo, Tarcísio de Freitas. No Congresso, a oposição trabalha para incluir o termo na nossa legislação.

Bom, os especialistas dizem que, a partir do momento em que você caracteriza um criminoso como terrorista, o problema do narcotráfico vira um problema de soberania nacional, que pode abrir espaço, por exemplo, para o envolvimento das Forças Armadas – o que alguns alertam que pode ser perigoso. Ou até abrir espaço pro envolvimento de outros países. Os Estados Unidos, ao equipararem traficantes a terroristas, têm atacado barcos supostamente com drogas no Caribe e no Pacífico e muitas vezes acusam diretamente a Venezuela de ser responsável por eles. Então é muito perigoso importar esse método para o contexto brasileiro, que é um contexto de criminalidade não mais soberana e sim, inclusive porque internacionaliza uma questão nacional. Porque, se os Estados Unidos estão em guerra contra o terror e aqui dentro você tem um grupo terrorista, eles estão em guerra contra quem?

Esse é, claro, um tema super complexo, com um monte de discussões nas quais a gente não conseguiu entrar aqui: Como o Brasil chegou nesse ponto? Quais as possíveis soluções? Temas que ficam pros próximos vídeos. A gente tem outros conteúdos aqui sobre facções e sobre segurança pública, você pode buscar também se quiser saber mais. Obrigada e até a próxima!