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Nós, secularistas e progressistas, tendemos a ver as reformas protestantes como um evento histórico bom para a cultura. Sem a reforma, muitos dizem que não teríamos o Iluminismo e assim por diante. Muitas vezes, nessa leitura genérica, que não é necessariamente falsa, ignoramos seus lados horrorosos e eles foram muitos.
Se vendo o vídeo anterior você achou que Lutero foi um fanático religioso insuperável, espere até conhecer João Calvino. Ao contrário do autor das 95 teses, que era um monge agostiniano atormentado por crises espirituais nos mosteiros alemães, Jean Covan ou João Calvino era um homem do direito. No vídeo de hoje, você vai descobrir quem foi Calvino, o que ele pregava e por suas ideias foram muito influentes, não só na mentalidade protestante até hoje, mas também no modelo econômico da nossa sociedade.
Nascido na França em 1509, ele fazia parte de uma nova elite intelectual. Calvino não estudou para ser um místico. Ele estudou em Paris e Orleand para ser um jurista. Ele traz para a religião a mentalidade de um promotor de justiça. Para ele, Deus não é apenas um pai, mas o soberano absoluto, o legislador supremo de um tribunal cósmico, onde o réu já entra condenado.
Foi em Genebra que sua teoria ganhou dentes. Calvino estava de passagem pela cidade quando foi convocado, ou melhor, ameaçado de maldição divina pelo reformador Guilherme Farel para ficar e organizar a cidade. Genebra era um caos político e moral. Calvino viu ali uma oportunidade de ouro, transformar uma cidade inteira no laboratório de sua teologia.
Primeiro, o caos político. Genebra tinha acabado de expulsar o seu bispo, que era o governante de fato, e estava em pé de guerra contra o duque de Saboia. A cidade tinha conquistado a independência, mas não sabia o que fazer com ela. Era uma república jovem, cercada de inimigos e rachada por facções internas que brigavam por cada palmo de influência.
Segundo, o caos moral e social. Com a saída da autoridade católica, as antigas amarras sociais se romperam. Genebra era famosa por ser uma cidade de festas, jogos, prostituição e tavernas barulhentas. Para os reformadores que chegavam, como Guilherme Farel, a cidade era uma nova Babilônia. O povo queria liberdade política da reforma, mas não queria a disciplina religiosa que vinha no pacote.
Terceiro, o vazio institucional. As igrejas estavam vazias ou em desordem. Não havia um sistema de educação pública, nem assistência aos pobres organizada. A cidade era um corpo sem cabeça. É nesse vácuo que surge a figura de Calvino. Ele não chegou como um pastor doce, mas como um organizador jurídico. Ele percebeu que Gênebra não precisava de mais sermões inflamados, mas de instituições.
Calvino ofereceu à burguesia de gênebra um negócio tentador. Em troca de uma moralidade rígida e de submissão total ao seu sistema, ele entregaria ordem, estabilidade social e uma identidade nacional poderosa. Ele transformou uma cidade indisciplinada em um exército de santos. O caos de Genebra foi o adubo perfeito para a teocracia calvinista. Afinal, como a história nos ensina repetidas vezes, as sociedades costumam entregar sua liberdade de bandeja para quem promete acabar com a desordem. Ele não ganhou fama por ser amado, mas por ser visto como necessário.
Em uma Europa despedaçada por guerras religiosas e incertezas, Calvino ofereceu a certeza absoluta. Ele prometeu a ordem em troca da liberdade. Ele ofereceu a disciplina de um exército para pessoas que tinham medo do caos. Foi assim que um advogado francês, fugitivo de sua terra natal tornou-se o ditador espiritual de gênebra e eventualmente o patriarca moral de metade do mundo ocidental.
OK. Mas como o que ele pregava que teve tanto impacto? No calvinismo estamos falando de algo radical. Determinismo teísta ou transcendentalista. Calvino substitui o determinismo panteísta e naturalista dos históicos por um determinismo da predestinação estabelecida por Deus, onde certas pessoas estão fadadas ao céu porque Deus quer e outras ao inferno porque Deus quer.
Mas por que Deus quer que umas vão para o céu e outras para o inferno? Para Calvino não é absurdo fazer este questionamento. Mas por que é absurdo? Parece um questionamento lógico perfeitamente racional e pertinente. Pois é, mas para Calvino a lógica e a razão humana foram corrompidas pelo pecado original de Adão e Eva. Para Calvino, não devemos confiar na razão. Devemos nos submeter e confiar na vontade de Deus.
Mas ele não tem prova disso. Tem. Então, ele não tem prova do pecado original e de que a razão é corrompida e nem confiaria na prova se tivesse, porque a razão é corrompida. E com base na fé, ele institui um governo teocrático de constante tormento psicológico. O curioso é que a vontade de Deus e a verdadeira fé coincidiram direitinho com a vontade de Calvino e a fé de Calvino.
Entre 1541 e 1564. Portanto, Calvino instituiu uma república dos santos. Ué, não suou ruim para você? Então deixa eu reformular com outras palavras. Entre 1541 e 1564, Calvino instituiu uma teocracia. O poeta John Milton comentou o calvinismo dizendo que preferiria ir ao inferno do que louvar um deus assim.
Um governo teocrático inspirado na reforma, um que foi rígido tanto com relação à vida religiosa e moral dos cidadãos, como também com relação à punição dos dissidentes. O historiador protestante Roland Bayon escreveu que a sua tarefa era instaurar uma teocracia, isto é, uma república dos santos, uma coletividade em que cada membro não tivesse outro pensamento além da glória de Deus. Não era coletividade governada pela igreja ou pelo clero, nem comunidade de tipo bíblico em sentido estrito, porque Deus é maior do que qualquer livro, mesmo tratando-se do livro que contém a sua palavra. A coletividade dos santos deveria se distinguir pelo paralelismo entre igreja e estado, que foram o ideal da Idade Média e de Lutero, mas que nunca se concretizara e não podia se concretizar senão em uma coletividade seletíssima, como ele havia tentado formar em gênebra, na qual o clero e o laicato, o conselho comunitário e os ministros de Deus fossem todos igualmente inspirados pelo espírito divino. Calvino aproximou-se da concretização desse ideal mais do que qualquer outro expoente religioso do século X.
A doutrina calvinista está escrita sobretudo na instituição da religião cristã, publicada em numerosas edições a partir de 1536. Como Lutero, Calvino também defende que o arbítrio é servo e que a salvação ocorre unicamente pela fé. O historiador da filosofia Giovanni Reali comenta uma interessante diferença entre os dois reformadores. O calvinismo já foi definido como mais dinâmico dentre todos os tipos de protestantismo. Mais pessimista que Lutero a respeito do homem, Calvino foi mais otimista que ele a respeito de Deus. Enquanto para Lutero, o texto básico era o de Mateus, capítulo 9 versículo 2. Os teus pecados te são perdoados. Já para Calvino, ao contrário, era o da carta aos Romanos, capítulo 8, versículo 31. Se Deus está conosco, quem estará contra nós?
Estamos lidando com as noções centrais de providência e predestinação. Calvino escreve que Deus, pelo seu conselho secreto, governa totalmente todo real, a tal ponto que nada acontece sem que ele próprio tenha determinado, em conformidade com a sua sabedoria e o seu querer. Todas as criaturas inferiores e superiores estão de tal modo postas a seu serviço que ele as utiliza para o uso que quiser. Ele não tem em seu poder apenas os acontecimentos naturais, mas também governa o coração dos homens, volta arbitrariamente suas vontades para cá e para lá e guia de tal modo as suas ações que eles só podem realizar o que ele decretou, não podendo ser pensada nenhuma lei e nenhuma norma melhor e mais justa do que a sua vontade.
Segundo o sociólogo Max Weber, esta doutrina da predestinação não apenas moldou a fé, mas forjou a mentalidade econômica do Ocidente. Em sua obra clássica A ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber argumenta que o calvinista vivia em uma angústia existencial insuportável. Como saber se eu sou um dos eleitos ou um dos condenados? Calvino defendia que não havia como saber se alguém é eleito ou não. Restava ter fé na operação da graça do indivíduo. Contudo, a despeito de sua doutrina, a resposta prática encontrada pelos protestantes foi o sucesso no trabalho e o acúmulo de riquezas como sinais externos da bênção divina.
Em sua patética inumanidade, essa doutrina há então de ter logrado, sobretudo um resultado para a índole de uma geração que se rendeu a sua grandiosa consequência. Um sentimento de inita solitude interior do indivíduo particular. Na questão de vida mais decisiva para os indivíduos do tempo da reforma, a eterna bem-aventurança, o ser humano era instruído a traçar sozinho seu rumo, ao encontro de um destino estabelecido desde a eternidade. Nisso reside a origem do caráter utilitário da ética calvinista. E do mesmo modo, daí provieram importantes peculiaridades da concepção calvinista de vocação profissional.
Por um lado, é simplesmente tornado dever considerar-se eleito e repudiar como tentação do demônio toda e qualquer dúvida, visto que a falta de certeza com relação a si mesmo seria a rigor resultado de fé insuficiente, portanto da efetivação insuficiente da graça. A exortação do apóstolo a se ater ao próprio chamamento é interpretada aqui desse modo como dever de alcançar na luta diária a certeza subjetiva da própria eletividade e justificação. No lugar dos humildes pecadores, aos quais Lutero promete a graça, caso se entreguem a Deus em fé penitente, são cultivados assim aqueles santos convictos que reencontramos nos comerciantes puritanos daquela época heróica do capitalismo, rígos como aço e em exemplares isolados até na atualidade.
E por outro lado, trabalho profissional sem descanso foi expressamente recomendado como meio mais eminente para obter aquela certeza com relação a si mesmo. Ele e somente ele afugentaria a dúvida religiosa e daria a certeza do estado da graça. Weber observa que esse vínculo entre religião protestante e glorificação do trabalho já havia se iniciado tcitamente com Lutero e seu uso da palavra alemã Beruf. Então aqui Weber escreve que no conceito beruf, portanto, é expresso aquele dogma central próprio a todas as denominações protestantes, que condena a distinção católica dos mandamentos morais cristãos e conhece como único meio de viver de modo apresente a Deus, não uma suplantação da moralidade intramundana pela sese monástica, senão exclusivamente o cumprimento dos deveres intramundanos. tal como decorrente da posição de vida do indivíduo, a qual justamente por isso torna-se sua vocação.
Vocação, profissão, berufala que você aprende inicialmente. Por exemplo, quando você estuda alemão, você aprende a perguntar: "Vasmardu vomberuf, o que você faz de profissão?" Mas não se engane, não era uma riqueza para o prazer. O calvinismo impôs uma assese secular, onde o indivíduo deve trabalhar incansavelmente, mas é proibido de desfrutar dos frutos desse esforço. Para Friedrich Nietcher, isso é o triunfo do ideal aso, a vida sendo usada para negar a própria vida.
A República dos Santos de Calvino foi, na verdade, o maior laboratório de ressentimento da história. Ele conseguiu algo que nem os papas mais autoritários alcançaram. Ele convenceu o homem de que ser um escravo de Deus era a única forma de liberdade. Weber argumenta que o calvinista queria trabalhar por dever religioso. Mas nós, os modernos, que herdaram o mundo moldado por esse contexto, somos forçados a fazê-lo. Pense na hustle culture de hoje e no discurso de que quanto mais trabalho você fizer, melhor. O pastor é praticamente um coach. É como se a ética profissional ideal fosse a sociedade do cansaço de que fala o filósofo B Shan, onde o indivíduo explora a si mesmo e se orgulha disso.
Aos olhos de romanos como Cícero ou Cênica, o empresário, o empreendedor moderno, seria um servo que substituiu o óscio pelo negócio. Hoje, propriedade e salvação podem ser praticamente a mesma coisa na vida do protestante brasileiro. Malvino venceu no Brasil, país com ampla desigualdade social e muita pobreza, não pela fé, mas pela instalação de uma cultura onde a vida só tem valor se for útil à engrenagem e onde o prazer e o pensamento crítico são vistos como ameaças à ordem divina do mercado e do dogma.
Obrigado por assistir. Deixe um comentário e considere assistir a esses outros dois vídeos relacionados que eu selecionei para seu estudo com base em seu interesse por Calvino. Tenha uma ótima noite. Tchau.