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Contentamento - Nancy Wilson

BookCafé2:32:14

Transcription

Olá, hoje eu vou ler para você o livro Contentamento, de Nancy Wilson. Se você tem a tendência de achar que viver estressada é normal e faz parte do dia a dia da mulher moderna, então este livro é para você.

Nele, a autora nos leva a buscar contentamento em todas as áreas da vida, pegando a ansiedade pelo pescoço e colocando-a em seu devido lugar. Já adianto que esse livro, escrito inicialmente para mulheres, serve perfeitamente para os homens também. Gostou? Então vamos começar. Mas antes, curta esse vídeo e envie para todos os seus amigos, porque essa mensagem é de Deus para a nossa vida. Vamos começar. Pegue a sua xícara de café e vamos lá.

Livro Contentamento, de Nancy Wilson.

Introdução.

Imagine quão confortável seria a vida de cada uma de nós se aprendêssemos a manter os ânimos ordenados em todas as circunstâncias: tranquilas, sem perturbações, calmas, sem reações, sem irritações, dispostas, animadas. Aliás, às conturbações dos dramas diários que grande benefício espiritual, emocional e físico obteríamos! No entanto, vivemos em um mundo que torna propício, até mesmo aceitável, o estresse com as circunstâncias e os acontecimentos cotidianos. Diante deste cenário, nós chegamos a planejar e criar desculpas, acomodando a nossa vida de acordo com o estresse. Afinal de contas, é a mãe da noiva, a esposa que recém se casou, a mãe de primeira viagem. Como poderíamos esperar algo diferente durante a semana de provas finais, na primeira semana de um novo emprego, quando as contas estão atrasadas, quando o bebê já deveria ter nascido? É engraçado pensar que tivemos de criar um termo, "estresse", para descrever essa condição tão recorrente de um coração descontente. Aliás, nós até mesmo usamos a expressão "estou estressada" como um pretexto para raiva, indelicadeza, grosseria, ansiedade ou para fugir de nossas responsabilidades. Esse hábito chega a deixar pessoas doentes, mas o estresse não é um comportamento neutro. Trata-se, pelo contrário, de uma manifestação pecaminosa de um coração inquieto e normalmente traz consigo uma série de outros pecados.

O contentamento mantém controle sobre o espírito e não permite que paixões desgovernadas e emoções desenfreadas gerem perturbação no momento em que a maior compostura se faz necessária. O contentamento tranquiliza o coração e o leva a agir e falar sabiamente, mesmo sob grande provocação. Na verdade, especialmente sob grande provocação. O fato de uma situação ser estressante não me dá o direito de me estressar. Nossa vida diária é repleta de provocações. Deixaremos que essas coisas exerçam poder sobre nós? Adoecemos, ficamos presas no trânsito, perdemos um voo, alguém nos magoa, um familiar é grosseiro ou rude conosco, esquecemos um compromisso, uma amiga se atrasa. Você deixa que acontecimentos assim joguem o seu coração em raiva, impaciência, aborrecimento, irritação? Se sim, então você precisa se matricular em aulas de contentamento. Costumamos achar que o contentamento é um sentimento que repousa em nós, e não conhecimento que exige prática e esforço. É normal supor que, se não sou naturalmente predisposta ao contentamento, não há problema em aceitar um temperamento impetuoso ou uma língua fiel. Criamos desculpas para nossos comportamentos. Afinal de contas, dizemos a nós mesmas, nossos pais tiveram problemas em lidar com a raiva, e logo aceitamos o fato de que passaremos pelas mesmas dificuldades. Assim, é mais fácil prosseguirmos com os nossos impulsos naturais e de nos estressar com todos os dramas da vida. Mas tal pensamento não é verdadeiro. Cada uma de nós pode e deve aprender a estar contente. É parte essencial da vida cristã, não se trata de uma opção. Contentamento demanda esforço. Precisaremos nos empenhar durante as aulas e estudar sobre o ato de contentar-se. Devemos prestar atenção, caso contrário, as chances de adquiri-lo serão baixas ou mesmo inexistentes. Podemos aprendê-lo, mas não sem esforço espiritual e mental. Mesmo o apóstolo Paulo declara que aprendeu a contentar-se. "Por tanto, não há razão para supormos que podemos alcançá-lo sem aprendizado. Digo isto não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez. Tudo posso naquele que me fortalece." (Filipenses 4:11-13).

Paulo não diz que nasceu naturalmente contente. Pelo contrário, Deus lhe deu muitas oportunidades para que ele aprendesse a arte do contentamento. Deveríamos ser encorajadas por isso, pois se Paulo, um grande homem da fé, teve de aprender a contentar-se, logo, não é motivo de vergonha confessar que também precisaremos de algumas aulas. Aulas difíceis. Partilhamos do mesmo amor gracioso que o apóstolo Paulo teve. Nosso bom e misericordioso Deus nos deu sua palavra, suas promessas e seu Espírito para nos ensinar. Estes são recursos tremendos que tornam o contentamento alcançável. Antes, porém, precisamos fazer a nossa matrícula e devemos ser alunas dedicadas, estudando e aprendendo as lições com diligência.

Jeremy Buring compara o nosso progresso espiritual no aprendizado do contentamento com uma matrícula escolar. Ele salienta que é preciso progredir na escola do contentamento e não permanecer presa no jardim de infância espiritual, aprendendo o alfabeto pela milésima vez. Aprender é mais do que meramente recitar as escrituras; é aplicá-las, colocando-as em prática e apropriando-se delas. Desse modo, devemos ser capazes de praticar o contentamento, não apenas citar Filipenses 4:11. Como boas alunas, teremos de examinar o conteúdo e nos preparar para as avaliações que sabemos que virão. Devo alertá-la de que a maioria dessas avaliações são provas sem aviso. Contudo, quando nos dá um teste, Deus sempre permite que consultemos o nosso material. Pense nisso: ele nunca nos abandona, mas permanece ao nosso lado em cada prova, conferindo-nos todo o poder para passarmos com boas notas. É certo que, quando passamos em um teste, prosseguimos para uma matéria mais difícil, mas ainda que venhamos a falhar, podemos descansar cientes de que teremos outra oportunidade de fazê-lo muito em breve. Por isso, em nossa busca por contentamento, não faz sentido ter medo das provas. Cada teste é uma oportunidade de colocar em prática os aprendizados anteriores. Assim, quando dominarmos determinada matéria, poderemos seguir adiante para o próximo nível de crescimento em Cristo.

Para dar início ao aprendizado do contentamento e explicar de que forma podemos nos contentar em Deus, cabe a mim fornecer uma definição prática. Vejo poucas definições de fato excelentes, mas creio que a da minha sogra, Bess, vem à mente com mais facilidade e abrange todo o conteúdo em poucas palavras: contentamento é satisfazer-se profundamente na vontade de Deus.

Voltemos à passagem de Filipenses por alguns instantes. Paulo diz que está satisfeito mesmo com fome, satisfeito mesmo em abundância, satisfeito mesmo em escassez e satisfeito quando tem tudo que necessita. O apóstolo afirma que está satisfeito em todos os lugares e em todas as situações. Ele deixa claro que não considera nada insatisfatório. Como e por quê? Porque ele entende que Deus o colocou em cada circunstância com um propósito. Paulo sabe que, em cada situação, não importa quão difícil seja, Deus está agindo em favor dele e não de forma contrária, desfavorável. Ter essa compreensão dá aos olhos de ver que os acontecimentos da vida cristã são projetados por nosso bondoso Pai para nos fazer crescer em Cristo. Dificuldades não acontecem por acaso; elas nos desenvolvem, e esse crescimento é mais rápido quando as dificuldades são administradas com contentamento.

O contentamento não é listado com o fruto do Espírito em Gálatas 5:22, mas caberia muito bem ali. O contentamento é amoroso, alegre, pacífico, longânimo, benigno, bondoso, fiel, manso, tem controle de si mesmo. O fruto do Espírito não é produzido por nós, mas é Deus quem o cria em nós. De igual modo, o Senhor é a fonte de todo o nosso contentamento. A condição natural do ser humano certamente não é envolta de contentamento. Nós, homens e mulheres, acabamos encontrando diversos motivos para reclamarmos das mais variadas circunstâncias. Até mesmo as melhores situações parecem deixar a desejar. Está frio ou calor demais? É muito baixo ou muito alto? É pouco ou é demais? Foi muito cedo ou muito tarde? Está muito molhado ou muito seco? Agora, será que naturalmente Paulo se satisfazia com facilidade e leveza? Não. Ele aprendeu a ter controle sobre seu próprio espírito em cada uma das situações da vida. O apóstolo sabia que Deus está no controle de todas as coisas, exercendo sua vontade soberana sobre todos os aspectos da vida. Por esse motivo é que Paulo está satisfeito com tudo que Deus realiza.

Mas como ele exerce controle sobre seu próprio espírito, de modo a concordar e satisfazer-se com a vontade de Deus? Como Paulo não fica estressado? É justamente isto que espero tratar neste livro, de forma que nós, assim como Paulo, possamos ter um coração contente em todas as circunstâncias da vida. Antes de prosseguirmos, permita-me uma rápida análise de algumas dificuldades de Paulo para ver se ele realmente sabe do que está falando. Em que circunstâncias o apóstolo aprendeu a estar contente? "Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; três vezes fui fustigado com vara, uma vez apedrejado, em naufrágio três vezes, uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias muitas vezes, em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente: a preocupação com todas as igrejas." (2 Coríntios 11:24-28).

É o mesmo homem que declara: "Digo isto não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação." Que coisa mais extraordinária! Como ele consegue? Eis a resposta: "Tudo posso naquele que me fortalece." Sem Cristo, não há contentamento, mas em Cristo, por ele e ao seu lado, torna-se possível realizar essa grandiosa tarefa. Matricular-se em aulas de contentamento não é como ter algumas aulas de espanhol. Aprender a estar contente requer um poder sobrenatural. O contentamento só é possível porque Cristo fortalece aqueles que permanecem nele. Não há outro caminho. Contentamento não é tornar-se uma pessoa endurecida, não é ser indiferente ao que acontece, não se importando com nada na vida. Viver contente não é ser estoico, não se trata de reprimir emoções, nem de engolir em seco. Contentamento é o fruto de uma força espiritual que vem diretamente de Cristo. Contentar-se é a habilidade de permanecer satisfeita com a vontade de Deus em todas as circunstâncias, sejam fáceis, sejam difíceis. Apesar de ser simples de entender, não é uma prática simples ou fácil. Eis a razão porque precisamos de lições para aprender a arte do contentamento. Além disso, necessitamos de um professor especialista, o qual certamente temos em nosso Senhor Jesus Cristo.

Capítulo 1. O Contentamento do Pai.

Dando início a esse tópico que lida com contentamento, olhemos primeiro para o exemplo que o próprio Deus nos dá, tanto com seu caráter quanto com a vida de nosso Senhor Jesus Cristo. Em capítulos posteriores, consideraremos como podemos imitá-lo. Quando criou o mundo, Deus declarou que era boa a obra de cada dia. Após a criação da luz no primeiro dia, Gênesis 1:4 registra: "E viu Deus que a luz era boa." Ao final da obra de cada dia subsequente, o texto diz: "E viu Deus que isso era bom." Por fim, no versículo 31: "Viu Deus tudo quanto fizera e eis que era muito bom." Deus estava satisfeito com a sua obra e contente com o seu trabalho, então ele descansou. A partir disso, podemos deduzir que o contentamento conduz ao descanso. Retornaremos a esse aspecto do contentamento em breve.

Lembremo-nos, no entanto, da grande exceção feita quando Deus declarou: "Não é bom que o homem esteja só." (Gênesis 2:18). Em seguida, o Senhor solucionou esse problema criando a mulher. Mas a mulher não estava contente e sucumbiu à tentação da serpente. Estivesse contente com tudo o que Deus lhe havia dado, ela não teria tomado em suas mãos e comido o fruto proibido. O contentamento é solo fértil para o plantio de desejos ilícitos. Considere tudo que Eva tinha: ela vivia no paraíso, ganhou o marido perfeito, desfrutava da comunhão ininterrupta com seu Criador. Se alguém neste mundo desfrutou de circunstâncias perfeitas, essa pessoa foi Eva, e ainda assim a tentação de estar descontente foi grande demais. Ela então se distanciou de Deus e de seu marido, escolhendo estar ao lado do tentador e optando por seguir o seu conselho, desobedecer a Deus. Mas, de forma surpreendente e maravilhosa, o Senhor reverteu o caso quando colocou inimizade entre a mulher e a serpente. Apesar de Eva, em sua desobediência, ter escolhido seguir a serpente, Deus a trouxe de volta para o seu lado, apartando-a da escolha tola que havia feito. E, de fato, Deus reverteu a situação de uma vez por todas no evangelho da graça. Como meu marido costuma dizer, Deus escreve certo por linhas tortas.

O relato da criação expõe outro aspecto do contentamento Divino. Deus é perfeito e todas as suas obras são perfeitas. Eis a rocha: "Suas obras são perfeitas, porque todos os seus caminhos são juízo; Deus é fidelidade, e não há nele injustiça; é justo e reto." (Deuteronômio 32:4). Por que perfeito Deus poderia ter desejado uma quantidade mais perfeita, mais um animal, mais uma cordilheira, mais um oceano ou mais uma cor? Mas ele ficou satisfeito com a sua criação. Deus não necessitou de mais nada; ele descansou. Por vezes, nos iludimos pensando que ser perfeccionista é ter um bom traço de caráter. No entanto, esse rótulo traz muito problema e tentação. Um suposto perfeccionista nunca está satisfeito com o próprio trabalho ou com o trabalho dos outros. Poderia ser sempre melhor, ou seja, nunca é suficiente, nunca é o bastante. Ou porque o trabalho nunca alcança os padrões do perfeccionista, ele pode desistir completamente e usar o seu pretenso padrão de perfeição como desculpa para a preguiça e para o fracasso. "Sou tão perfeccionista que levará tempo demais para que algo seja feito nos meus altos padrões, então não tenho tempo nem para tentar." Trata-se de autoengano. Na ocasião em que o perfeccionista pensa que atingiu ou realizou algo perfeitamente, ele pode ficar temporariamente satisfeito, mas não passa de autossatisfação e orgulho. Todas essas reações ímpias são formas de descontentamento. Haja vista que somos criaturas, devemos aprender a encontrar a nossa verdadeira satisfação em nosso Deus, nosso criador, pois só assim ficaremos satisfeitas com nosso trabalho imperfeito. Desse modo, conseguiremos oferecer com gratidão o nosso trabalho imperfeito ao Senhor, pois ele se satisfaz em nós por amor a Cristo. Sabendo disso, é possível descansar. Só Deus é perfeito. A cristã que acha que pode alcançar a perfeição tropeça feito uma cega.

Além disso, Deus estava completamente satisfeito em Jesus, seu Filho amado. Os Evangelhos relatam duas ocasiões em que Deus fala audivelmente acerca de seu Filho. A primeira foi no momento do batismo de Jesus por João Batista: "E eis que uma voz dos céus que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." (Mateus 3:17). Três Evangelhos relatam uma voz vinda de uma nuvem no momento da transfiguração. Mateus 17:5, Marcos 9:7 e Lucas 9:35 todos relatam uma voz dizendo: "Este é o meu Filho amado; a ele ouvi." Mateus acrescenta: "em quem me comprazo." Isso tudo revela a satisfação de Deus em Jesus, bem como o prazer em seu Filho. Deus está completamente satisfeito; o Filho é amado do Pai, e o Pai fala com voz audível da satisfação e do agrado em seu Filho. Que vislumbre maravilhoso do contentamento do Pai para com o seu Filho!

O próprio Jesus nos oferece outro exemplo perfeito de contentamento. Enquanto encarava a prisão e a crucificação por vir, Cristo lutou no Jardim do Getsêmani, mostrando-se triste e profundamente angustiado. Isso nos mostra que tristeza e angústia não contradizem o contentamento. Jesus lutou em oração e perguntou a Deus se não havia outro caminho, e concluiu o seu momento de oração declarando: "Seja feita a tua vontade." Jesus sempre teve o pleno controle e governo tanto de si como de toda a situação. Quando Cristo foi preso, ele não resistiu; quando caluniado, não reagiu; quando zombado, permaneceu no controle de si. Ele foi à cruz contente e determinado, satisfeito com a vontade de Deus. Paulo usa esse exemplo do sofrimento de Cristo para nos admoestar em Filipenses 2:3-8: "Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós mesmo o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz."

Cristo encontrou contentamento na humildade e na obediência. Ele se submeteu a Deus e foi à cruz espontaneamente por nós. Jesus foi glorificado e exaltado, o que nos trouxe salvação. Portanto, no centro do evangelho estão um Pai e um Filho satisfeitos. O Pai contentou-se em enviar o seu único Filho amado para morrer por nós, sacrificando aquele em quem estava plenamente satisfeito. E o Filho teve plena satisfação em se sacrificar por nós. Diante disso, somos chamadas a imitar o seu modo de pensar e agir. Devemos ser obedientes e humildes, ambas companheiras necessárias do contentamento e da satisfação. A ambição egoísta opera a partir do descontentamento de uma necessidade de ser o centro das atenções. A presunção pensa apenas em si e age segundo o orgulho e a vaidade. Mas se queremos imitar a mente de Cristo, devemos estar mais preocupadas com os outros do que com nós mesmas. A mulher cristã não pode colocar a si mesma e os seus planos em primeiro lugar, considerando-se mais importante ou melhor do que tudo e todos, vez que o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. A humildade é o modo de pensar de todos aqueles que buscam o contentamento. A pessoa que deseja ser como Cristo deve tomar a forma de servo.

Sabemos que o Pai ama seu Filho e sabemos que o Filho ama o Pai. "Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim, pelo contrário, eu espontaneamente a dou." (João 10:17-18). Jesus obedeceu a Deus espontaneamente; ele estava contente em dar a sua vida. Cristo não a teve tirada de si. Da mesma forma, nós também devemos orar por obedecer e seguir a Deus espontaneamente. É nisso que consiste a nossa liberdade e a nossa vida. Quando nos recusamos a obedecer a Deus, quando somos guiadas por nossos próprios desejos, não é de admirar que o descanso e o contentamento se apartem de nós. Seguir a Cristo em obediência e humildade proporciona descanso à alma. "O Pai contentou-se com a sua obra, descansou. Jesus Cristo estava contente com a sua obra, mesmo sabendo que isso lhe custaria, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está sentado à destra do Trono de Deus." (Hebreus 12:2). Jesus manteve seus olhos fixos no dever dado pelo Pai. Mesmo odiando a ignomínia, ele encontrou o contentamento na pior circunstância de toda a história da humanidade. Cristo não esperou até sentir vontade de obedecer. Da mesma forma, em qualquer seja a situação, o contentamento busca por seus deveres. Ele depressa pergunta: "Como posso obedecer a Deus nessa circunstância? Como posso administrar essa situação de modo que honre e agrade a Deus?" Contentamento é amor a Deus, e isso requer humildade e graça. Em João 14:15, Jesus declara: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos." São palavras bem diretas. Você ama Jesus? Então faça o que ele ordena. E como sabemos o que ele ordena? Lendo a sua palavra, humilhando-nos à própria sabedoria. Temos um Salvador que fornece descanso para as nossas almas: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para a vossa alma." (Mateus 11:29). O contentamento traz descanso; o descontentamento traz inquietação.

E agora, que analisamos o contentamento do Pai e do Filho, consideramos no próximo capítulo o fundamento do contentamento de todo o cristão.

Capítulo 2. As Promessas de Deus.

O contentamento traz muitos benefícios espirituais, os quais consideraremos no Capítulo 11. Agora, desejo examinar o verdadeiro fundamento do contentamento cristão: as promessas de Deus são o único alicerce sobre o qual podemos erigir o contentamento. Nas palavras do antigo hino, "qualquer outro solo é areia movediça."

Quando ordena que o cristão esteja contente, a Bíblia o faz com uma promessa: "Seja a vossa vida sem avareza; contentai-vos com as coisas que tendes, porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei." (Hebreus 13:5). Nesse versículo, o autor de Hebreus está citando Josué 1:5. Moisés havia morrido, e Josué fora incumbido de conduzir o povo à Terra Prometida. Que dever intimidador! Mas Deus falou com Josué e lhe transmitiu palavras que devem ter sido de tremendo conforto: "Como foi com Moisés, assim sejas contigo; não te deixarei, nem te desampararei." Josué tinha a promessa dada por Deus de que ele jamais o abandonaria. O Senhor nunca o enviaria à batalha sozinho; ele prometeu sempre estar com Josué e nunca retirar dele a sua presença. Essa, no entanto, era uma promessa condicional. Josué tinha de fazer a parte que lhe cabia. Deus havia dado uma promessa, mas também deu responsabilidades e obrigações que serviriam de guia à conduta de Josué.

Olhemos os versículos 6 a 9: "Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que sob juramento prometi dar a seus pais. Tão somente sê forte e muitíssimo corajoso para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que andares. Não cesses de falar deste livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido. Não te mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares." Que palavras maravilhosas! Josué foi ordenado a ser corajoso três vezes. Crer nas promessas de Deus requer grande fé, e confiar verdadeiramente nelas implica grande força e coragem. Sem coragem, não há obediência a Deus, nem fé, nem confiança, tampouco uma vida que segue seus mandamentos.

O cristão deve esforçar-se para seguir a lei de Deus e manter-se no caminho de retidão o tempo todo. Mulher cristã, você deve meditar na lei de Deus de dia e de noite. Não se trata de trivialidade, mas de deveres urgentes, e deles esperamos grande efeito. Qual é o resultado prometido? Se Josué for corajoso, forte, obediente, prosperidade e sucesso. Mas como Josué pode ser tentado a partir do texto? Sabemos que ele será tentado a ficar com medo e desanimar. Apesar de ser retratado como um guerreiro destemido, Josué ainda é de carne e osso, podendo perder a esperança e a coragem. Deus, porém, mais uma vez o encoraja, mostrando que não é preciso ceder às tentações, porque o Senhor seu Deus está com ele em todos os momentos, durante todo o caminho. Essa realidade deveria nos dar grande encorajamento. Até mesmo o grande líder Josué teve de se esforçar para crer em Deus, obedecer-lhe e ser corajoso e forte diante da tentação e da oposição. Josué teve companheiros que cederam ao medo; da mesma forma, ele poderia ter sido tentado a desistir. Mas Deus estava com Josué e, sabendo disso, ele então fixou seus olhos em obedecer ao Senhor. Se mesmo Josué precisou de coragem, quanto mais nós! Se precisou de força, nós também precisamos. Ele não é um grande herói da fé à toa. Josué foi provado e permaneceu fiel; foi tentado e prevaleceu. Podemos crer em Deus como Josué creu. Nosso Senhor é hoje o mesmo Deus fiel dos dias de Josué.

No capítulo 11 de Hebreus, encontramos uma lista de servos fiéis de Deus. No versículo 30, vemos Josué ser mencionado: "Pela fé, ruíram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias." Deus deu instruções bem específicas a Josué, as quais ele obedeceu ao pé da letra, poupando Raabe, como prometido. E o relato termina com essas palavras: "Assim era o Senhor com Josué, e corria sua fama por toda a terra." (Josué 6:27). Deus manteve sua palavra, fez Josué prosperar e ser bem-sucedido. Nós, entretanto, não podemos esperar que Deus abençoe nossas vidas se não confiamos nele.

Agora, vimos o contexto da promessa feita a Josué. Voltemos a Hebreus 13 e verso 5: "Seja a vossa vida sem avareza; contentai-vos com as coisas que tendes, porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei." Somos exortadas a viver uma vida sem avareza. Avareza é ceder a desejos ilícitos, desejando o que não nos pertence, mas o que pertence a outra pessoa. É ganância e roubo de coração. Fosse possível, quando cobiçamos, não hesitaríamos em tomar o que não nos pertence. Deus odeia isso. Devemos estar satisfeitas, contentes com o que temos. O décimo mandamento nos explica claramente esse ponto: "Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo." (Êxodo 20:17). Trata-se de uma proibição absoluta da cobiça. Se algo não lhe pertence, não cabe a você desejá-lo, muito menos tê-lo.

Agora, tendo em vista isso, como podemos prevenir que a cobiça crie raízes em nosso coração? Estando contentes com o que temos. Boa parte do descontentamento existe por não nos satisfazermos com o que já temos, mas desejarmos aquilo que não temos. O contentamento elimina ambos os problemas. Contentar-se é estar satisfeita com tudo que tenho, em vez de sonhar acordada, desejar ardentemente coisas que não possuo, em especial aquelas que já pertencem a outra pessoa. Creio que isso se estenda a desejar coisas que são exatamente iguais àquelas que pertencem a outra pessoa. Digo isso porque normalmente somos guiadas a comprar coisas por inveja e rivalidade. "Ela comprou aquela blusinha linda, então eu preciso comprar uma igual." Precisar, nesse caso, é força de expressão. Se sou consumida pelo desejo de ter aquilo que outra mulher já tem, ainda que eu não deseje exatamente o mesmo que ela possui, afinal, eu não pretendo roubar a blusinha dela, então o desejo norteador é o problema. Trata-se de cobiçar aquilo que não é meu. Deus sabe quão propensas somos a cobiça e a ganância. Devemos, contudo, estar contentes com o que temos. Por quê? Pois o Senhor prometeu nunca nos abandonar. Essa promessa é o alicerce do nosso contentamento. Em cada necessidade, lembre-se de que ele não a deixará. Em cada circunstância, seja forte e corajosa, sabendo que o bom Salvador jamais a desamparará.

Lembre-se do que Paulo disse em Filipenses 4:11: "Ele aprendeu a estar contente." E podemos pressupor que não foi em uma única simples lição. O apóstolo aprendeu a se contentar mesmo quando faminto e também em abundância. Ele aprendeu a viver contente mesmo quando em necessidade e também quando tinha tudo aquilo do que necessitava. Esse é o contexto do famoso versículo: "Tudo posso naquele que me fortalece." Esforçar-se por se contentar sem compreender esse ponto será vão. Devemos nos lembrar da promessa e do nosso dever de crer nela. É dever de todo cristão obedecer aos mandamentos de Deus e não se desviar nem para a direita nem para a esquerda. Sua amiga comprou um carro novo ou uma casa nova? Esteja contente com o que você tem. Deus não irá abandoná-la. Sua casa pegou fogo e você perdeu tudo? Por mais terrível que isso possa ser, o mandamento continua o mesmo: "Viva contente." Você pode tudo naquele que é forte. Deus ordenou a Josué que fosse grandemente forte e corajoso. Tanto Josué quanto Paulo precisaram de força, bem como nós dela necessitamos. De onde Paulo tirou sua força? Ele fez como Josué. Quando Paulo se contentava em qualquer condição, porque Cristo lhe dava forças. Josué conseguiu ser corajoso porque Deus lhe deu coragem. Contentamento requer força e coragem, e nós podemos alcançá-lo porque o próprio Cristo nos suprirá da força necessária para estarmos contentes em tempos difíceis e em tempos fáceis, em períodos áridos e em períodos prósperos.

Portanto, à medida que formos aprendendo a nos contentarmos, próximos estemos da promessa da qual estamos firmes: "Jamais te deixarei, nem te abandonarei. Posso todas as coisas naquele que me fortalece." Essas promessas sustentam todos os nossos esforços com vista ao contentamento. Elas nos fortalecem quando nos sentimos vacilantes, nos ajudam a tirar os nossos olhos das circunstâncias e fixá-los em Cristo, nos ajudam a relembrar que aquilo que Deus está fazendo não é desfavorável, mas favorável a nós, ensinando-nos a confiar nele em toda e qualquer circunstância. Lembre-se de quem o Senhor é. No capítulo 7 de Marcos, Jesus curou um homem surdo-mudo e deu ordem às pessoas que não contassem a ninguém, mas eles não se contiveram. O versículo 37 diz que eles maravilharam-se sobremaneira, dizendo: "Tudo ele tem feito esplendidamente bem; não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos." Este é o nosso Salvador; ele faz tudo de modo perfeito. Suas promessas nunca oscilam, nem mudam, tampouco falham. Jesus Cristo é fiel. Que nosso primeiro pensamento em qualquer circunstância seja: "O Senhor faz tudo com perfeição e sabedoria." É por isso que todo cristão pode viver contente.

Capítulo 3. Descontentamento.

Visto que o contentamento é satisfazer-se profundamente na vontade de Deus, logo o descontentamento é rejeitar intimamente as obras de Deus. Mas descontentamento é mais do que isso: estar descontente é recusar-se a agradecer a Deus por aquilo que ele fez e está fazendo. Descontentamento é ingratidão. A crítica, a murmuração e a reclamação são irmãs do descontentamento, e Deus odeia todas elas. "Porque, tudo quanto de Deus se pode conhecer neles se manifesta, pois Deus lhes manifestou. Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas criadas, para que eles sejam indesculpáveis; porquanto, tendo conhecido Deus, também não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios discursos, e o seu coração insensato se obscureceu." (Romanos 1:20-21).

Paulo nos diz para tudo fazermos sem murmurações nem contendas e para sermos pessoas agradecidas. Esta deve ser a conduta básica habitual do cristão: estar contente e satisfeito. O descontentamento, pelo contrário, é uma atitude orgulhosa do coração e, apesar de ser um pecado autônomo, serve de incubadora para o desenvolvimento de muitos outros pecados. Uma vez descontente, o coração torna-se terreno fértil para muitos outros pecados. Na verdade, é difícil pensar em um pecado que não brote de seu solo. Uma vez que o descontentamento cria raízes, outros pecados da carne passam a ser inevitáveis. "Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já outrora vos previni, que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus." (Gálatas 5:19-21).

O descontentamento pode ser camuflado por certo tempo. Pode não ser óbvio que você odeie o seu trabalho. Talvez você consiga ocultar uma atitude nociva por certo tempo, mas, a menos que essa atitude seja tratada, garanto que ela um dia ficará evidente. A princípio, sua postura pode surgir em uma reclamação ou num momento de murmuração. Depois, ela pode se transformar em autocomiseração e amargura. Ambas só alimentarão o descontentamento original e o manterão em desenvolvimento. E, se não forem controladas, o descontentamento finalmente sairá à luz do dia por meio de algum outro pecado da carne que não poderá ser ocultado. Embora o descontentamento possa limitar-se a ameaças por um bom tempo, ele também pode surgir de repente, levando-a a pecar imediatamente. Pense na situação de Eva: ela tinha de tudo em seu jardim do paraíso, mas a sugestão da serpente provocou descontentamento, levando-a a questionar a bondade de Deus. A única coisa proibida de repente tornou-se algo desejável, mais desejável que obedecer o mandamento de Deus. E foi então que a mãe da raça humana caiu na desobediência do pecado. Algo tão irracional! Não há razão para acreditar que, antes da tentação, ela estivesse murmurando ou reclamando por ter sido proibida de comer o fruto de uma única árvore. Porém, havia algo a respeito da tentação em si que estimulou seu orgulho e deslumbrou a sua imaginação, tornando-a repentinamente insatisfeita com a vontade de Deus. Ela ficou tão insatisfeita que obedeceu.

Os israelitas são conhecidos por sua insatisfação no deserto. Eles murmuraram e reclamaram a respeito da comida (Números 11 e Êxodo 16). O povo reclamou de seus líderes (Números 16) e da falta de água (Êxodos 17). Eles se queixaram de seus inimigos e, por medo, recusaram-se a entrar na Terra Prometida. Todos os israelitas que saíram do Egito tiveram de morrer antes que Moisés, ou melhor, que Moisés pudesse conduzir seus filhos e netos à Terra Prometida sob a direção de Josué. Deus odeia a murmuração e a reclamação. Você já ficou chocada ao ouvir sobre alguém que foi flagrado em algum pecado escandaloso, como adultério, fornicação ou pornografia, imaginando que estava tudo bem com essa pessoa? Na maioria dos casos, se pudéssemos voltar e traçar o ingresso do pecado, descobriríamos que tudo começou com alguma forma de descontentamento. Uma vez que o descontentamento se estabelece, a tentação é recebida com pouca resistência. Em seguida, um pecado muito maior toma lugar. Quase sempre é uma questão de tempo antes que tudo comece a desabar e as obras da carne sejam expostas: a mentira, a traição, a bebedeira, a desonestidade. O pecado começa pequeno e, se não for controlado, cresce rapidamente. E quem se prostra ao descontentamento acaba perdendo toda a noção de realidade.

Todos os nossos pecados secretos são vistos por Deus, incluindo o descontentamento. "Não erreis: de Deus não se zomba; pois tudo o que o homem semear, isso também ceifará." (Gálatas 6:7). Se temos plantado descontentamento, outras ervas daninhas logo crescerão. Mesmo que o pecado não venha à tona imediatamente, ele, ainda que após um longo período de espera, produzirá uma colheita amarga. Talvez não sejamos capazes de identificar as pequenas mudas brotando do solo, mas Deus sabe exatamente o que estamos plantando, e isso, sem demora, se manifestará a todos. O Salmo 90:8 declara: "Diante de ti puseste as nossas iniquidades e, sob a luz do teu semblante, os nossos pecados ocultos." E então, no Salmo 19:13, vemos essa progressão de pecados pequenos para pecados maiores: "Também da soberba guarda o teu servo, para que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão." Pode ser que leve meses, mesmo anos, antes que pecados secretos venham à tona, mas de Deus não se zomba. Não podemos fingir que estamos andando na alegria do Senhor como se ele não soubesse de nada. Outros podem ser enganados, mas Deus jamais.

Além das terríveis consequências do descontentamento, sofreremos de dolorosos efeitos colaterais durante todo o caminho, os quais tornam o descontentamento uma condição miserável e desconfortável. Ainda que nossas circunstâncias sejam difíceis, o descontentamento só aumenta a miséria. Em vez de ficarmos felizes, tornamo-nos tristes. Em vez de olharmos para o lado positivo, o descontentamento enaltece os problemas. O descontentamento conta a triste história de que você está na miséria, mas merece algo melhor. E mesmo nesse cenário melhor, o descontentamento vem e estraga tudo, pois você creu em suas palavras. O descontentamento é desagradável a todos que cercam uma pessoa descontente. Os amigos se cansam de ouvir o quanto a sua vida é difícil, ou como seu chefe é ruim, ou como seu marido não tem consideração por você, ou como seu pé dói. Chega! Mulheres resmungonas precisam encontrar outros afetados pelo descontentamento para que possam desfrutar de alguma companhia. Às vezes, essas murmuradoras aninham-se de acordo com o assunto de seus descontentamentos e, então, formam um clube do livro para reclamar dos livros, ou um grupo de esposas para reclamar dos maridos, ou um grupo de artesanato para reclamar de alguma outra coisa. Já conversei com mulheres que deixaram grupos de mulheres por causa desse exato problema: uma estava num grupo sobre Mães de Gêmeos, e outra estava num grupo para esposas de alunos de direito. Em ambos os casos, era reclamação atrás de mais reclamação. Quanto mais ouvimos a nós mesmas reclamando e murmurando, mais aceitamos e acreditamos em nossas próprias palavras. É daí que surgem mulheres mal-humoradas e irritadiças. Quando jovens, elas reclamavam de algo, e agora, na velhice, vivem um estilo de vida murmurador. A acidez impregna a atmosfera. Mulheres assim dão a si mesmas a permissão de falar o que der na telha a qualquer um, apontando tudo que há de errado no mundo. Essa é a senhora que se pergunta o porquê de ninguém visitá-la.

Além disso, o descontentamento ajunta em torno de duas áreas gerais: coisas que temos e coisas que não temos. Ficamos descontentes com aquilo que temos, recusando a gratidão, e isso alimenta um desejo por coisas que não temos, cobiçar o que é nosso. E assim vamos seguindo a vida. Sejamos honestas: o descontentamento é feio e torna tudo feio. Ele nunca faz com que você se sinta melhor, nunca torna a situação melhor e nunca edifica seus ouvintes. O descontentamento se recusa a ser agradecido, ele critica as falhas e, pior de tudo, é um pecado grave contra o nosso santo Deus. Mais que isso, esse pecado conduz a outros pecados, pequenos e grandes, e é um desperdício do precioso tempo que temos.

Mas como se identifica o descontentamento? Peça a Deus que lhe mostre se você tem algum descontentamento específico. Faça uma lista básica de controle: você está contente em seus relacionamentos com sua família, com seus amigos e amigas, e quanto às finanças e à sua saúde e aparência? Seu guarda-roupa, sua casa, seu casamento? Você está se comparando a outras pessoas e sentindo inveja? Você fica triste quando os outros prosperam? Você vê as falhas e os sucessos dos outros e sente pena de si mesma? Você fica inquieta por coisas novas ou circunstâncias inesperadas? Você reclama do clima? São alvos fáceis de identificar. Confesse cada área de descontentamento a Deus. Depois, agradeça por aquilo que o Senhor tem feito em sua vida em cada uma dessas áreas. Submeta-se à vontade, aos propósitos de Deus e seja grata. Esse é o caminho para expulsar e abandonar o descontentamento. É assim que aprendemos e colocamos em prática o estilo de vida do contentamento. Jeremy Buring usa as seguintes palavras: "Incline-se, curve-se, preste-se. Você está debaixo dos pés de Deus e permaneça debaixo dos pés do Senhor. Mantenha-se debaixo da autoridade de Deus, da majestade de Deus, da soberania de Deus, do poder e governo que Deus tem e exerce sobre você." Submeter-se é manter-se prostrado. Abandonar o descontentamento é o começo. O próximo passo é encontrar contentamento. Somente deixar o pecado nunca é suficiente. Abandoná-lo é como tirar as ervas daninhas do jardim a fim de deixá-lo pronto para a lavoura. Por vezes, é preciso arar todo o solo antes que possa começar do zero e plantar uma nova safra. É isto que você, mulher cristã, deve fazer se deseja aprender a viver contente: plantar uma nova safra de gratidão e de satisfação.

Capítulo 4. Piedade com Contentamento.

O contentamento apresenta muitos aspectos que demandam nossa atenção. Antes de tudo, é fundamental aprendermos a identificar e confessar qualquer pecado de descontentamento que tem entrado em nosso coração. Outra questão importante é aprender a reconhecer a tentação ao descontentamento e resisti-lhe. Esse estudo exigirá concentração e esforço. Encontrar contentamento significa achar algo de grande valor. O livro de Jeremy Bongs chama o contentamento de "joia rara". É o que o espírito manso e tranquilo descrito por Pedro, senão a descrição do contentamento, o qual é.

De grande valor diante de Deus, se o próprio Deus estima tanto contentamento, quanto mais nós deveríamos ansiar por adquiri-lo. Consideremos o que o próprio Paulo escreve sobre contentamento em sua primeira epístola a Timóteo.

Em Primeira Timóteo 6, versos 1 a 5, Paulo descreve os falsos mestres e diz a Timóteo que se afaste daqueles que supõem que a piedade é fonte de lucro. Em contraste a esse tipo de fonte, está o verdadeiro ganho do contentamento. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento, porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Parece que algumas pessoas fingem ser piedosas para que consigam fazer bons negócios na igreja. Paulo diz que essas pessoas são homens cuja mente é pervertida e privados da verdade. Piedade não é uma maneira de ficarmos ricas. É verdade que a prática dos negócios em bondade e piedade, combinada a uma sólida e cristã ética de trabalho, dará frutos, mas a piedade não deveria ser vista como um meio de obter posses e prosperidade. Sim, uma vida correta a manterá livre de muitos problemas, mas ela não lhe proporcionará vida eterna.

E o velho ditado "dessa vida nada se leva para o túmulo" é um conceito bíblico. Chegamos a este mundo sem nada e, quando morrermos, deixaremos para trás tudo aquilo que adquirimos. Apesar disso, aqui está algo que podemos levar conosco: a piedade com contentamento. A piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser (Primeira Timóteo 4:8). A piedade é benéfica para a nossa alma, tanto agora quanto no porvir. E se acrescentamos algum contentamento à piedade, Paulo diz que representa grande ganho, um enorme lucro. Logo, o contentamento deve ser associado à piedade, e a piedade está associada à obediência aos mandamentos de Deus.

Mas voltemos a Primeira Timóteo 6 e sigamos o argumento de Paulo sobre não levar nada dessa vida. Tendo sustento e com o que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males, e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores (Primeira Timóteo 6:8-10).

Contentamento e a sede por riquezas não coexistem. A piedade, e não as riquezas, deve ser o nosso objetivo. O contentamento não pode coexistir com o amor pelo dinheiro. Se desejamos ser piedosas e contentes, precisamos abandonar a sede e a ânsia por riquezas, pois são ciladas e problemas que certamente nos trarão muita aflição. Concupiscências insensatas e perniciosas levam a decisões estúpidas e impensadas, e a concupiscência nunca se sacia, mas sempre deseja mais. Essa é a razão porque vivemos em uma cultura de endividamento. Sempre ouvimos que podemos ter algo agora e pagar mais tarde. A verdade é que não queremos abandonar o desejo de sermos ricas. Gostamos desse desejo e de todas as fantasias alimentadas por ele. Apreciamos, de uma forma maligna, o fato de estarmos descontentes com o que temos e com o que não temos. Se assim não fosse, não estaríamos descontentes.

Paulo diz que se tivermos comida e com o que nos vestir, devemos viver contentes. Ora, talvez você esteja pensando: "Sério? Só isso?". Mas consigo pensar em um monte de outras coisas de que preciso para ficar contente: uma cama confortável, um carro relativamente novo, uma casa espaçosa, aquecedor no inverno e ar-condicionado no verão, móveis e acessórios, eletrodomésticos e conveniências, e muito, muito mais. Exatamente antes que Paulo chegasse a mencionar esse ponto, Jesus já havia tratado de nossa necessidade de alimento e vestimenta. "Não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas essas coisas; pois vosso Pai Celeste sabe que necessitais de todas elas. Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:31).

Consideremos por um momento esse tópico sobre comida e vestimenta. Deus tem nos alimentado e nos vestido desde o momento em que saímos do ventre. Cremos que o Senhor continuará a nos sustentar. É claro que cremos, mas nos preocupamos com coisas demais. Bem como Marta, deixamos de nos contentar somente com a comida e vestimenta. Queremos roupas novas, mais roupas, roupas bonitas. Porque, em vez de enxergarmos as roupas como algo para cobrir a vergonha da nossa nudez, nós as enxergamos como sinal de condição, de posição, uma fonte de alegria ou uma maneira de competir e de aparecer. E quanta comida! Estamos satisfeitas com a comida que comemos, com o que cozinhamos e servimos, ou estamos cansadas da nossa culinária como os israelitas no deserto? Ora, não temos todo tipo de comida desse mundo disponível em inúmeros restaurantes e lojas, além de um vasto número de revistas, livros, programas culinários e sites para nos entreter e nos inspirar. Essas coisas nos deixam mais satisfeitas, mais contentes, ou elas nos deixam quietas com o que temos e criam desejo por aquilo que não temos? Por vezes, é revitalizante, relaxante e inspirador folhear uma revista ou navegar por um site para ver roupas, móveis ou comidas. Mas, sejamos honestas, essas coisas também podem se tornar uma cilada e um pecado, caso tropecemos nos descontentamentos ou deixemos alimentar uma atitude de insatisfação já existente em nosso âmago. Olhamos para o manequim e nos imaginamos ficando tão bonitas quanto fulana; depois, nos olhamos no espelho e ficamos frustradas e insatisfeitas. Olhamos para uma linda casa, para aqueles quartos ou aquele jardim exibidos em um site; depois, olhamos para os nossos móveis e logo murmuramos com insatisfação. Nós reclamamos interiormente e, por isso, murmuramos exteriormente. Esse tipo de coisa pode tirar mulheres de seus deveres e torná-las interna e externamente ociosas. Muitas horas podem ser gastas navegando em sites, enquanto suas casas são negligenciadas. Sem tentar exagerar, mais em certo sentido, essa atitude pode ter o mesmo efeito que a pornografia. Ela é alimentada pela cobiça, pelo descontentamento e pela insatisfação. Mas ela não para por aí.

A comida e a vestimenta são presentes de Deus a serem desfrutados. O que você tem no armário da cozinha? Seja criativa e glorifique a Deus com o que você tem e viva contente. O que você tem no guarda-roupas? Seja criativa e glorifique a Deus com o que você tem e esteja contente. Claro, isso não significa que não podemos ter armários ou guarda-roupas cheios. A exigência, porém, é clara: se temos o que comer e com o que nos vestir no dia de hoje, que estejamos contentes. Esse é o padrão do contentamento. Nós todas passamos por este teste. Paulo chega a dizer que nem mesmo precisava de tudo que tinha para se contentar. Se tentarmos encontrar satisfação em roupas novas ou em cardápios inovadores, o contentamento terá curta duração e, por fim, ficaremos frustradas. O contentamento duradouro torna-se uma utopia quando buscamos naquilo que comemos e vestimos. Mães, em especial, têm muito que fazer para manter suas famílias alimentadas e vestidas, mas é preciso estar determinada a fazê-lo de coração contente e agradecido, não desejando obter riquezas e possuir mais coisas, mas sendo grata pelas milhares de refeições e pelos muitos armários com roupas que, dia após dia, Deus tem concedido ao longo dos anos. O Senhor supre nossas necessidades de modo fiel, e Paulo declara que, diante de sua fidelidade, devemos viver em contentamento. "Seja a vossa vida sem avareza; contentai-vos com as coisas que tendes, porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei" (Hebreus 13:5).

O que você possui, viva contente com isso. Quero dizer que não podemos orar por uma cama mais confortável ou por uma máquina de lavar que funcione melhor? É claro que podemos, mas acabamos nos enganando se pensamos que adquirir essas coisas nos trará contentamento. Elas não trarão. O nosso contentamento não pode se basear no fato de termos ou não alguma coisa. Temos comida, vestimenta; escolhamos estar contentes. Assim, quando Deus nos abençoar com mais coisas, estaremos em uma posição de continuar gratas e contentes. Não estamos correndo atrás dessas coisas, mas, em gratidão, simplesmente desfrutando das bênçãos que provêm daquilo que o Senhor nos dá. Assim, o nosso contentamento estará nele e não em suas bênçãos. Lembre-se de que o nosso contentamento está fundamentado nas promessas de Deus. Isso é piedade com contentamento, que, por sua vez, é grande ganho, uma fonte de enorme lucro. Por isso, preste atenção em cada descontentamento que tem tentado ganhar espaço no seu coração. Abandone e agradeça a Deus pelo perdão que Ele nos concede. Ore para que você perceba quando estiver sendo tentada ao descontentamento. Aprenda a dizer não. Substitua o descontentamento pela gratidão. Lembre-se das promessas de Deus e de Sua fidelidade. Deus lhe deu o poder para fazer todas essas coisas em Cristo.

**Capítulo 5: A Armadilha Mental**

O descontentamento é um pecado interno que conduz a práticas pecaminosas. Charles Spurgeon disse: "Lembre-se de que a satisfação de um homem está em sua mente, não na quantidade de suas posses." Alexandre, com o mundo todo a seus pés, clama por outro mundo a ser conquistado. Um dos principais meios que podemos empregar para resistir às tentações mentais, incluindo a tentação do descontentamento, é prestar atenção naquilo que estamos pensando. Nossa mente é solo fértil, e precisamos prestar muita atenção àquilo que estamos plantando.

Observe as passagens das escrituras a seguir, as quais nos ordenam a inclinar, pensar e ocupar: "Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para morte, mas o do Espírito, para vida e paz" (Romanos 8:5). "Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra" (Colossenses 3:1-2). "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, puro, amável, de boa fama, se há alguma virtude e se há algum louvor, seja nisso que ocupe o vosso pensamento" (Filipenses 4:8).

Nossa mente vaga o dia todo e tem a tendência de ser facilmente levada para pensamentos infrutíferos. Mas, se deixados por conta própria, os pensamentos normalmente se afundam no lixo, escavando e desenterrando coisas carnais, mundanas, mentiras, imaginações, vias injustas, impuras, sem nenhum afeto, desagradáveis. A lixeira está sempre cheia dessas coisas: seus próprios pecados e falhas do passado, os pecados dos outros, amarguras, preocupações, concupiscências. E depois nos perguntamos por que estamos descontentes, preocupadas, sendo invejosas, cobiçosas, amarguradas, ansiosas e medrosas. Ora, entramos no depósito de lixo e nos alimentamos dessa sujeira o dia inteiro, semana após semana, ano após ano. Não é de espantar que temos a cabeça cheia de problemas. Esse é o motivo porque Deus nos diz para que coloquemos a nossa mente em coisas melhores e mais elevadas.

Faça um balanço do seu mental: que tipo de pensamento você tem tido? Com que frequência você tem ido à lixeira e buscado coisas ali? Você montou o acampamento lá? Assim que reconhecer essa verdade, você se surpreenderá em ver a precisão dos fatos. Na verdade, você realmente tem se alimentado de produtos vencidos que estão lá no fundo da lixeira, enquanto deveria estar sentada à mesa do Senhor, comendo da graça do Evangelho. Mas dará trabalho abandonar a lixeira e começar a obedecer e amar a Deus com toda sua mente. A saída da lixeira requer disciplina mental e espiritual. Você deve controlar os seus pensamentos, pegá-los pelo pescoço e colocá-los onde Deus os quer. Tome de volta as rédeas e não mais permita que tenham controle e liberdade, pois eles sempre encontrarão caminho de volta para a lixeira. Essa prática requer paciência e diligência.

Pensar nas coisas do alto significa literalmente pegar os seus pensamentos e colocá-los em outro lugar. Mas como e por onde começar? Primeiro, você precisa rever algumas coisas: o que você tem ouvido o dia todo? O que você ouve quando vai para a cama e se levanta? Quando entra no banho? Quando dirige pela cidade? Você provavelmente ficará surpresa ao perceber o número de queixas, a quantia de mágoas, ofensas e reclamações remoídas; fora a insatisfação e a murmuração pungentes, sem mencionar as conversas que você tem criado em sua mente. "Vou resolver isso e aquilo hoje." Só imagine quão trágico seria se os seus pensamentos fossem transmitidos para que o mundo todo ouvisse.

Mudar o conteúdo de seus pensamentos requer ação de sua parte. Se você não gosta da música que está tocando, você precisa trocá-la. A escolha é sua. Da mesma forma, você deve mudar a música que tem tocado pensamentos horríveis em sua cabeça. Considere o medo e a preocupação como exemplos. Entenda que a maioria das preocupações não passa de uma narrativa de histórias ruins, contadas para si mesma. Pare de ficar remoendo o que pode acontecer ou o que poderia ter acontecido. Trata-se de uma forma de descontentamento velado. Nessas histórias ruins, você diz a si mesma que Deus pode permitir que aconteça algo de que você não vai gostar. No lugar de lembrar-se das promessas de Deus, a preocupação toma para si problemas em potencial, sem a presença da graça para administrá-los. Diga a você mesma: "Mude a conversa mental para outra coisa, algo alegre, bom e verdadeiro." São muitas outras alternativas.

Se quer mudar o padrão dos seus pensamentos, você também precisa passar a pensar em coisas que são louváveis e desenraizar aquilo que é infrutífero. Isso implica investir tempo pensando e ponderando a respeito de temas espirituais saudáveis. Perceba, essa é a prática de disciplinar a mente, assim como você disciplina o seu corpo. Prática, ou melhor, prática esta que Paulo diz trazer pouco proveito: "Porque o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser" (Primeira Timóteo 4:8). A disciplina espiritual de dominar os seus pensamentos é uma maneira de crescer em piedade.

Comece hoje mesmo mudando de assunto todas as vezes que seus pensamentos não estiverem onde deveriam estar. Pegue a sua mente e fixe-a em coisas boas. Passe algum tempo pensando nelas. Planeje o jantar, faça a lista de compras, ore por uma amiga, conte suas bênçãos, costure algo, trabalhe no jardim, asse um pão, leia uma história para as crianças. Enfim, continue com a sua tarefa, seja ela qual for. Todas essas coisas são louváveis. E quando os seus pensamentos retornarem para a lixeira, arranque-os imediatamente de lá e coloque-os em coisas que são do alto, pois eles pertencem a Deus. Boa parte do descontentamento provém da liberdade dada aos pensamentos de se alimentarem de coisas erradas e da permissão de mergulhar na lixeira do passado ou das coisas que poderiam ter sido ou que não são. O que é a ansiedade senão o fruto de permanecer nas preocupações e inquietações, em vez de lançar sobre Deus toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de nós? Como já disse, a ansiedade é outra forma de descontentamento. Não costumamos relacionar a ansiedade com a cobiça, mas o que é a cobiça senão uma forma avançada de descontentamento e de pensamentos ilícitos? Todos esses pecados mentais surgem de ouvir o próprio coração em vez de pregar-lhe.

Primeiro, perceber quando se está vasculhando a lixeira; e segundo, perceber quando se está saindo da lixeira. A princípio, pode parecer que tudo que você faz é apenas trabalhar nesse sentido, mas, com prática, as coisas vão ficando mais fáceis. Assim que se transformar em um hábito mental, você verá como é abençoado habitar nos pastos verdejantes e contentes de pensamentos louváveis e virtuosos. E, assim, a lixeira será menos atrativa. Após o período de prática, você passará a se afastar da lixeira instintivamente. Para tanto, assim como em toda a nossa vida espiritual, precisamos receber a graça de Deus para fixar a nossa mente nas coisas do alto, onde o Senhor habita. Se desejamos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, não é à lixeira que devemos ir, mas à destra de Deus, onde Cristo está, porque "o pendor do Espírito dá para vida e paz" (Romanos 8:6).

O contentamento é uma realidade espiritual, não alvo imaginário. Muitas de nossas insatisfações desapareceriam se simplesmente deixássemos de pensar nelas. Com efeito, é surpreendente quando você percebe essa realidade. O problema pode não desaparecer, mas o descontentamento costuma sumir. Digamos que você tem graves problemas financeiros. Perceba que ficar pensando sobre seus problemas o dia todo, preocupando-se com eles, lamentando escolhas tolas que fez e invejando seus amigos que não têm dívidas, não resolverá suas dificuldades. Você estará simplesmente perdendo seu tempo, enquanto deveria estar procurando emprego a fim de pagar as suas dívidas. Remoer seus problemas a deixa irritada, aumenta sua ingratidão e é estressante de tal modo que você não consegue desfrutar das bênçãos que já tem. Você não é uma boa companhia nem para você mesma, que dirá para outra pessoa. Mas, tendo saído da armadilha mental do descontentamento, você agora está livre para continuar a lidar com as suas dificuldades e responsabilidades com uma atitude muito melhor e uma perspectiva mais clara. Boa parte de nossos problemas são exagerados, aumentados por causa de nossos pensamentos pecaminosos. Domine todos os seus hábitos mentais. Não permita que seus pensamentos corram de volta à lixeira. Lá dentro é um lugar perigoso. Coloque seus pensamentos em um lugar benéfico, em um lugar espiritualmente saudável. Procure, busque, persiga, corra atrás as coisas que são do alto em sua mente e em seu coração. Use sua energia mental para meditar, ponderar e refletir sobre tudo aquilo que é virtuoso. Sente-se, faça uma lista de sugestões a si mesma. Depois, ore ao Senhor para que Ele lhe dê força e sabedoria para ter domínio próprio sobre os seus próprios pensamentos. Comprometa-se a agradar a Deus com toda sua mente. O descontentamento não consegue sobreviver nesse tipo de ambiente. Você irá expulsá-lo. Das duas uma: ou se alimenta o descontentamento e mata o contentamento de fome, ou alimenta o contentamento e mata o descontentamento de fome. Defina qual das duas posições vencerá. Mate o descontentamento de fome. Não é adorável pensar assim? Uma mente determinada e um coração contente provêm um ambiente fértil e frutífero para o amor, a alegria, a paz, a bondade e todo o fruto do Espírito.

**Capítulo 6: Inveja**

A inveja é o arqui-rival do contentamento. Para obter contentamento, é preciso lutar contra a inveja com unhas e dentes, pois é isso que livrará o nosso coração e a nossa mente de toda forma de inveja e sua aliada, a cobiça. O problema é que costumamos negligenciar esses pecados, pois se tornam de estimação. Nós os satisfazemos e aparentam ser inofensivos, pois, na nossa imaginação, estão enterrados ou escondidos demais. Pensar assim pode nos levar à tola ilusão de nutri-los até que, enfim, sejam expostos à luz do dia. A inveja e a cobiça trazem muitos males quando acordam, mas quando o contentamento reina, ele se posiciona em guarda contra ambas.

Referindo-se ao décimo mandamento, João Calvino comenta: "Ele diz: Se houvessem ouvido somente 'Não matarás', 'nem adulterarás', 'nem roubarás', os ouvintes poderiam presumir que as suas responsabilidades foram completamente cumpridas pela mera observação externa da lei. Era indispensável, portanto, que Deus desse uma admoestação separada aos homens, a fim de que não só se abstivessem de fazer o mal, mas também obedecessem com a afeição sincera do coração ao que lhes fora ordenado." Paulo conclui desse mandamento que toda a lei é espiritual (Romanos 7:4-14). Ele explica que Deus, condenando a cobiça, mostrou de maneira suficiente que Ele não só impôs obediência às nossas mãos e aos nossos pés, mas também colocou restrições em nossa mente, para que não desejássemos fazer aquilo que não é lícito. Os pés e as mãos podem cair em pecado e normalmente o fazem, mas a nossa mente é o lugar onde tudo começa. O mandamento contra a cobiça ataca diretamente o nosso coração.

Quando, entretanto, o contentamento reina, a cobiça e a inveja não conseguem prevalecer. Elas continuarão tentando entrar, mas o contentamento defenderá o seu território e permanecerá cuidadosamente vigilante e alerta. Embora não consigamos sondar o coração dos outros, e se o fizéssemos, veríamos a cobiça e a inveja residindo ali, certamente conseguimos enxergar as atitudes que se manifestam do seu âmago. Além disso, atitudes de inveja e cobiça frequentemente tornam-se visíveis aos de fora. Nosso dever, contudo, não é julgar o coração dos outros, mas cuidar de nós mesmas. Não podemos ficar falando: "Olha, é que eu não percebi o que o meu coração estava fazendo, eu não percebi esses pensamentos." Que justificativa mais ridícula! É nossa responsabilidade saber. Devemos ser vigilantes e ficar atentas a nós mesmas.

Quando um homem na multidão pediu a Jesus que julgasse as partes de uma herança, Cristo depressa chegou ao âmago da questão, então Lhe recomendou: "Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza, porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui" (Lucas 12:15). O homem que disputava com o seu irmão estava lidando com a cobiça. Afinal, sabemos que o Senhor Jesus Cristo sonda corações. Na época de Jesus, as coisas não eram muito diferentes. Divisão de heranças geralmente resultava na divisão de famílias. Por quê? Por causa da inveja, da ganância e da cobiça.

Quem se depara com uma placa de "Cuidado, cão feroz" normalmente toma cuidado. É preciso cuidado ao passar em frente ao portão; a atenção esteja alerta, o cachorro pode avançar repentinamente. Da mesma forma, a inveja e a cobiça podem invadir o nosso coração sem aviso nenhum. E Jesus instalou uma placa de "Cuidado com a cobiça". Então, já fomos avisadas; precisamos estar preparadas.

Certa vez, um homem cristão que conheço recebeu providencialmente uma maravilhosa medida de sucesso. Quando seus amigos o parabenizaram, eles o aconselhavam algo do tipo: "Não vá ficar arrogante, não deixe subir à cabeça." Foi um conselho estranho para o momento que era de alegria e parabenização. Então, sugeria este homem que respondesse dizendo: "Muito obrigado, e você tome cuidado para não ficar com inveja." Imagine o choque! Costumamos ter dois pesos, duas medidas, não é mesmo? Pressupomos tentações e tentamos fazer alertas, mas deixamos o nosso próprio coração desprotegido.

O dever de cada cristã, entretanto, é cuidar de si, do próprio coração, de suas próprias tentações, e não do coração e das tentações dos irmãos. Trata-se de um conceito repetido diversas vezes na Bíblia: "Tão somente guarda-te a ti mesmo e guarda bem a tua alma, que te não esqueças" (Deuteronômio 4:9). "Guardai, pois, cuidadosamente a vossa alma; guardai-vos e não vos esqueçais da aliança... guardai-vos, não suceda que o vosso coração se engane." Muitos outros exemplos podem ser citados de Josué, primeira Reis, segunda Crônicas.

Mas voltemos aos exemplos dos relatos do evangelho e vejamos com que frequência Jesus repete esse tema: "E Jesus disse-lhes: Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus" (Mateus 16:6). "Vede não desprezeis a qualquer destes pequeninos" (Mateus 18:10). "E lhes respondeu: Vede que ninguém vos engane" (Mateus 24:4). "Atentai no que ouvis" (Marcos 4:24). "Vede, pois, como ouvis" (Lucas 8:18). "Repara, pois, que a luz que há em ti não sejam trevas" (Lucas 11:35). "Acautelai-vos, pois, por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações da vida, e não venha sobre vós de improviso o dia de repente; pois virá como um laço sobre todos os que habitam sobre a face de toda a terra. Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que acontecerão e para que possais ficar em pé diante do Filho do homem" (Lucas 21:34-36). "Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia" (Primeira Coríntios 10:12).

Em todas essas admoestações, cujos contextos são os mais variados, o ponto de partida é que prestemos atenção ao nosso andar com Deus. Devemos tomar cuidado, devemos ser boas administradoras, devemos estar alertas e atentas, devemos ser cuidadosas. Não podemos dar atenção ao mundo. Devemos tomar cuidado para que a inveja não encontre espaço no nosso coração.

Como motivação extra para essa batalha, lembre-se de que a inveja está listada juntamente com grandes pecados de Gálatas 5, nos versos 19 a 21, que dizem: "Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já outrora vos preveni, que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus." Nosso coração quer nos colocar bem no centro do mundo. Já o contentamento nos dá os olhos para que vejamos claramente quem realmente somos e em que posição nos encontramos na história de Deus. Da mesma forma, em Romanos 1:28, a inveja está no meio de uma lista de pecados graves: "E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia; ora, conhecendo eles a sentença de Deus de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem."

A inveja é fruto da carne e está em inimizade contra o Espírito. Ela traz confusão, pois "onde a inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins" (Tiago 3:16). É fácil ter inveja. Nosso espírito se inclina a esse pecado. Somos tentadas pela nossa própria cobiça, quando por ela somos atraídas e então seduzidas. A inveja satisfaz a carne, mas só temporariamente, pois sempre deseja mais. Lembre-se: a inveja é uma resposta natural, carnal, aos benefícios de que os outros desfrutam. Notar que outra pessoa é abençoada não é o problema; as ações após essa constatação é que nos conduzem à inveja.

A solução mais simples para resistir à tentação da inveja é dar graças a Deus pelas bênçãos de que os outros desfrutam. A gratidão mantém a inveja fora do nosso coração e bloqueia os desejos carnais por aquilo que não é legalmente nosso. Mas, mesmo cientes disso, a inveja continua uma grande pedra de tropeço. Podemos, no entanto, evitar de tropeçar nela se nos mantivermos atentas e aplicarmos o que temos aprendido sobre contentamento. Se primeiro damos lugar ao desejo ilícito da inveja, logo daremos lugar a pecados de ressentimento, descontentamento, autocomiseração, egocentrismo, fofoca e uma multidão de outros que acompanham o descontentamento.

O descontentamento pode vir de muitas maneiras, disfarçado de várias formas. Antes de tudo, porém, o descontentamento é o resultado da busca por satisfação no lugar errado e nas coisas erradas. Se você, assim como uma criança, só é atraída pelos brinquedos de outras crianças, seu coração jamais encontrará satisfação verdadeira. A inveja anseia por um novo brinquedo a cada minuto. Os brinquedos de cores vibrantes podem até tirar a sua mente dos problemas, mas só por um momento. Eles se tornam chatos rapidamente; eles não satisfazem e a deixam inquieta por algo novo que a mantenha distraída.

O contentamento é confortante; o descontentamento causa inquietação. O contentamento é agradecido; o descontentamento busca agradar somente a si mesmo. O contentamento é agradecido; o descontentamento se recusa a agradecer. O contentamento conta as bênçãos que tem; o descontentamento murmura suas queixas. O contentamento é alegre; o descontentamento faz cara feia. O contentamento sofre a pena; o descontentamento aponta os erros. O contentamento é generoso; o descontentamento não compartilha. O contentamento é decidido e o descontentamento é incansável.

**Capítulo 7: Uma Mudança de Perspectiva**

O contentamento é uma nova forma de ver o mundo. Por que a chamo de nova? Porque, para a maioria de nós, ela realmente é inovadora. Temos olhado para o mundo, olhado para nós mesmas e para as nossas circunstâncias pela perspectiva errada. O contentamento nos ensina a olhar por uma nova perspectiva, uma perspectiva ressurreta. O contentamento nos ensina a ler, com os olhos da fé, a história que Deus está escrevendo. Cada uma de nós é uma personagem nessa grandiosa história, e temos a oportunidade de ler as nossas respectivas partes corretamente, confiantes de que o Autor trará tudo a uma conclusão gloriosa.

Citarei agora um versículo bastante conhecido, um que é mencionado com muita frequência. Somos tentadas a ignorá-lo, pois o ouvimos ser repetido diversas vezes quando as coisas não vão bem. Mas este é um versículo que muda por completo a perspectiva de toda mulher cristã quando aplicado pela fé: "Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Romanos 8:28).

Deixe-me fazer algumas observações acerca deste versículo tão tremendo: Em primeiro lugar, perceba que Paulo diz "sabemos", significa que estamos intimamente familiarizadas com esta verdade e que, de fato, a amamos. Ela é nossa, não meramente como um conhecimento intelectual, mas também como um conhecimento espiritual. Esta é uma verdade profunda, e conhecê-la é considerá-la cuidadosa e minuciosamente com a nossa mente e o nosso coração. Em segundo lugar, perceba que "todas as coisas" – não apenas algumas coisas, nem a maioria, mas todas as coisas – cooperam, colaboram, trabalham para este fim: o nosso bem. Esta incrível verdade ultrapassa o nosso entendimento, e ainda assim sabemos que é verdadeira. Tudo que acontece a cada segundo de cada dia contribui para o nosso bem espiritual. Em terceiro lugar, essa promessa é para aqueles que amam a Deus, todos os que foram chamados. Esta não é uma promessa verdadeira para o incrédulo. Quando coisas ruins acontecem com aqueles que rejeitam a Deus, eles não podem dizer que as coisas cooperam para o bem deles, pois não fazem. Essa promessa é para nós, povo de propriedade exclusiva de Deus (Primeira Pedro 2:9).

Que concepção deslumbrante! Aqui está o versículo por completo: "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." Deus demonstra outra vez essa afeição em Deuteronômio 7:6: "Porque tu és povo santo ao Senhor teu Deus; o Senhor teu Deus te escolheu, para que fosses o seu povo peculiar, dentre todos os povos que há sobre a face da terra." Deus nos chama de "propriedade peculiar" e faz com que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Ele é digno de toda a nossa confiança.

Lembre-se do capítulo 2: Este é o fundamento para o contentamento. Deus governa e controla tudo que acontece para produzir o bem em nosso favor, não necessariamente o bem imediato, mas certamente o nosso bem definitivo. Quando recebemos essa promessa pela fé, podemos crer que tudo vem de Suas mãos e ocorre de acordo com a Sua boa e perfeita vontade. O Senhor não faz as coisas de maneira aleatória, mas com uma finalidade especial. Interpretar a vida cristã por esse ponto de vista fornece armas contra o descontentamento. A nossa perspectiva muda. O descontentamento é uma maneira alternativa de ler a história da vida. O descontentamento não requer aprendizado, nem ensino, nem prática, pois nascemos desejosas de coisas; nascemos já sabendo como resmungar, murmurar e reclamar. Crer nas promessas de Deus abre nossos olhos para vermos pela fé as coisas que o Senhor tem operado em nossa vida. Passamos a ler a história de Deus com a luz acesa, e é maravilhoso ver o que essa luz revela. Deus está nos santificando, fazendo-nos crescer à semelhança de Cristo. Ele nos dá oportunidades de exercer a nossa fé e confiança Nele. Se Deus respondesse a cada oração de maneira imediata, exatamente do jeito como pedimos, certamente perderíamos as oportunidades de crescimento. Como saberíamos que somos de fato mulheres de fé se nunca precisássemos confiar Nele? Como saberíamos que amamos a Deus se nunca tivéssemos de obedecer aos Seus mandamentos?

Em vez de buscar por mais coisas que queremos (ou seja, aquelas bênçãos externas), o contentamento procura olhar para as nossas responsabilidades diante da realidade. Cogitar possibilidades atraentes não passa de uma tentação à qual precisamos resistir. Esses pensamentos só alimentam o descontentamento, e precisamos matá-lo de fome, arrancando-o de nosso coração e de nossa mente.

Considere a sua situação atual. Você pode estar numa verdadeira bagunça. Esforce-se por achar as suas responsabilidades como mulher cristã. Conforme prossegue, interprete a história de forma certa, identificando o modo como Deus tem feito com que todas as coisas cooperem para o seu bem. Ele está lhe dando algo difícil de administrar? É algo que exigirá grande fé? Você precisará se voltar à Palavra de Deus e orar por graça e sabedoria. Excelente! Encontre suas responsabilidades e deveres e siga em frente com obediência e fé. Passe na prova. Essa pode ser uma prova que talvez dure um ano inteiro; talvez uma hora. Deus as planeja de acordo com aquilo que Ele sabe ser necessário para nós. Você é medrosa? Deus pode lhe dar oportunidades de crescer em coragem. Você é forte? Ele pode lhe dar provas a fim de ajudá-la a crescer em humildade e benevolência. Deus sabe do que a alma de cada um de nós necessita, moldando nossas provações em conformidade com nossas necessidades.

Mas o Senhor jamais nos deixa sem amparo. "Acheguemo-nos, portanto, confiadamente junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna" (Hebreus 4:16). Nosso bom Deus pensou em tudo. Ele nos dá momentos de necessidade, e é Ele próprio quem nos provê o socorro. Cabe a nós criar o hábito de encontrar misericórdia e graça, ambas oferecidas por Deus. Em vez de pensarmos que não precisamos de ajuda, devemos pedir confiadamente e devemos nos achegar ao Senhor constantemente.

Mas note a palavra "portanto". Por que ela está ali? O versículo anterior diz: "Porque não temos Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado." Você entende a grandiosidade disso? Podemos nos aproximar confiadamente para encontrarmos ajuda, pois o que Cristo tem para nos oferecer é única e exclusivamente compaixão. Jesus conhece o poder da tentação e, mesmo assim, manteve-se firme. Ele conhece absolutamente tudo a respeito de nossas fraquezas. O Salvador não quer que recuemos, mas que nos aproximemos Dele, a fim de que possa nos socorrer em momentos de necessidade.

O contentamento vê esses momentos de necessidade como oportunidades dadas por Deus para que obtenhamos certa medida de confiança. Ele nos convida a nos aproximarmos Dele. Logo, o que estamos esperando? O contentamento lê a caligrafia de Deus em momentos de necessidade com a visão da fé e verá que tudo que o Senhor faz é para o nosso bem e para Sua glória. "Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo" (Eclesiastes 3:11). Dessa forma, agradecendo a Ele, glorificamos a Deus em todo tempo. Quando contentes, nós Lhe damos graças pelos desafios e dificuldades, bem como pelas alegrias e bênçãos. Agradecemos a Deus pelo fato de que Ele nos convida a nos aproximarmos Dele com confiança. Agradecemos ao Senhor porque temos um Sumo Sacerdote que se compadece de nós e que é acessível ao seu povo e bondoso para com ele.

Dar graças pelas bênçãos que apreciamos não é algo tão difícil: o clima ameno, a comida deliciosa, a comunhão terna e a boa saúde. Mas e quando estamos em meio a um momento de necessidade? "Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco" (Primeira Tessalonicenses 5:18). Não somente é a vontade de Deus que demos graças, mas o momento de necessidade em si também é da vontade de Deus. Portanto, podemos sempre dar graças, sabendo que estamos no centro da vontade do Senhor.

"Não andeis ansiosos por coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus" (Filipenses 4:6-7). Lembre-se, o contentamento não é uma questão de ficar sentada de maneira estóica em vez de ceder à ansiedade. É preciso agir. Devemos nos achegar confiadamente àquele Trono de graça e apresentar as nossas petições a Deus. E, nesse momento, o que acontece? Quando apresentamos nossas petições com ações de graças, Deus diz que, em vez de ansiedade, teremos paz. Mas que tipo de paz? A paz de Deus. E o que essa paz faz? Ela age como um cão de guarda, mantendo a ansiedade fora do nosso coração e da nossa mente. Sendo assim, não é o nosso coração ou a nossa mente que protege a nossa paz; pelo contrário, a paz de Deus é que protege e mantém os inimigos chamados ansiedade e preocupação fora do nosso coração e da nossa mente.

Dar graças ao Senhor por todas as coisas é uma característica do povo da propriedade exclusiva de Deus. Nenhuma outra religião possui salmos, hinos e cânticos espirituais como nós. Somos um povo que canta e agradece, e é para isso que fomos criadas. O louvor e a adoração nos conformam mais à imagem de um povo santo. Nosso espírito foi criado para adorar o nosso Criador. Sabemos que Ele nos chamou, que Ele nos ouve e que nos considera valiosas. Deus nos criou e nos chamou para sermos pessoas gratas. Quando rendemos graças ao Deus que fez tudo cooperar para o nosso bem, não só cumprimos o propósito da nossa criação, mas também rendemos glórias a Ele que nos criou. Quando rejeitamos a ansiedade e apresentamos todas as nossas petições a Deus com ações de graças, demonstramos conhecer e entender o nosso relacionamento com Ele e crer em Suas promessas.

A perspectiva do contentamento, especialmente em nossos momentos de necessidade, livra-nos das preocupações, porque a paz de Deus guarda o nosso coração e a nossa mente. Quanto mais crescemos em gratidão e confiança, mais a nossa paz e o nosso contentamento crescem e superabundam.

**Capítulo 8: Alguns Métodos Práticos**

O cristianismo é uma religião bastante prática, que ensina no que crer e depois no que fazer. A parte do crer vem primeiro, mas deve ser seguida pelo elemento que executa. Thayer diz que não devemos ser somente ouvintes da palavra, mas também praticantes. A parte que age constata a vida de Cristo. Ouvimos a palavra, cremos, e então fazemos o que a palavra ordena. Nós estávamos mortas em pecado; fomos ressuscitadas dentre os mortos e agora andamos em novidade de vida. Primeiro, entendemos aquilo em que devemos crer quanto ao contentamento, e agora é o momento de olhar para o que devemos fazer.

O contentamento se destaca como um ensinamento bastante prático, e devemos priorizá-lo como uma graça cristã a ser dominada. Mas, à semelhança de todo ensinamento prático, aplicá-lo à vida demanda esforço. A vida cristã requer força e diligência. Quando fui convertida, alguém sabiamente me disse que a vida cristã não é um mar de rosas. Ser discípulo de Jesus significa tomar a sua própria cruz e segui-lo. Primeira Pedro 5:8 nos exorta a sermos sóbrias e vigilantes. Por quê? Porque o diabo, o nosso adversário, anda em derredor como o leão que ruge, procurando alguém para devorar.

O contentamento nos fortalece tanto para que nos defendamos quanto para que prossigamos na ofensiva pela fé. Em Marcos 12:30, Jesus cita o primeiro mandamento: "Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força." Permita-me destacar o último ponto mencionado aqui: "toda a tua força." Amar a Deus requer força. O nosso amor a Deus não é limitado a nosso coração, alma e mente; somos ordenadas a amar a Deus com toda a nossa força. Pense nisso: quão forte você é? Você está amando a Deus de modo fraco, débil? Você tem um amor anêmico e abatido pelo Senhor, ou você está se esforçando para servi-Lo com um amor forte, saudável, vigoroso, vibrante e poderoso?

Exercer o contentamento significa crescer em força para amar a Deus em cada circunstância e em cada situação. Ficamos mais fortes toda vez que aplicamos o contentamento ao nosso coração e à nossa mente. Quando é difícil estar contente, é preciso escolher o contentamento. É como fazer academia: quando já conseguimos levantar pequenos pesos com facilidade, adicionamos mais peso, nos esforçamos, e aí é que a nossa força cresce. Essa é a vida.

Cristã, vou lhe dar dois exercícios para ajudá-la do descontentamento para o contentamento. Esses exercícios exigem e, ao mesmo tempo, criam força. São simples, mas requerem concentração e empenho. E, por mais que deseje contentamento, o incrédulo é simplesmente incapaz de praticá-lo. Você, no entanto, tem Cristo e pode realizar tudo por aquele que a fortalece. Portanto, alegre-se no fato de estar buscando amar a Deus com mais e mais força. Lembre-se, outra vez, de que a piedade com contentamento é grande ganho.

Gratidão. O primeiro exercício é praticar a gratidão. A reclamação é o grande inimigo do contentamento, e todas nós murmuramos mentalmente muito mais do que imaginamos. Possivelmente, estamos murmurando mais e mais em nosso coração durante o dia, olhando para situações com um olhar de ingratidão. Essa postura expulsa o contentamento e aumenta o tamanho de nossas... Esse padrão deve ser mudado se desejamos alcançar o contentamento piedoso. Talvez a carne queira continuar murmurando por usufruir de certo prazer em meditar em tudo que é errado, mas se desejamos crescer em graça, precisamos batalhar contra a carne e considerá-la morta. Lembre-se de permanecer fora da lixeira.

A gratidão deve ser cultivada e encorajada, promovida e estimulada. Faça disso um hábito diário. Verbalize sua gratidão a Deus em oração. Fale dela com a sua família e seus amigos. Faça questão de recordar as palavras de Paulo a Timóteo: "Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes" (Primeiro Timóteo 6:8). Pode parecer um padrão bem baixo para nós, pois desejamos muito mais, mas precisamos aprender a concordar com Deus acerca da realidade e mudar a nossa perspectiva.

Você tem comida para hoje? Observe como Deus tem lhe provido alimento. Por exemplo, ao sentar-se para tomar café da manhã, gaste um minuto refletindo sobre o quanto Deus fez e como ele agiu para colocar aquele ovo com torradas e bacon no seu prato, sem mencionar o café quentinho e o suco de laranja. Agradeça ao Senhor pelo frango, e pelo fazendeiro, e pela plantação de trigo, e pela laranjeira, e pela plantação de café, e pelo porco, e pelo açougueiro, pelo banqueiro, pelo motorista de caminhão e pelo vendedor. Esses são apenas alguns dos muitos elos na cadeia da maravilhosa providência de Deus. Isto é o que é responsável por seu café da manhã. Você é capaz de contentar-se com tudo isso? Sim.

Tente fazer esse mesmo exercício em relação às suas roupas. Considere quantas mãos estiveram envolvidas para que você e sua família possam se vestir. Em um só dia, malhas provenientes da lã de ovelhas, camisetas de plantações de algodão e sapatos de fazendas de gado. Onde está o... com qual forrar o seu agasalho de baixo? Onde está a fábrica que fez os botões e os zíperes? Considere quantas criaturas de Deus nos servem para prover-nos diariamente o alimento e a roupa de que precisamos. Agradeça a Deus que faz tudo isso ser possível, trazendo o alimento e a vestimenta para seus filhos por todos os dias de suas vidas.

Uma vez que você começa a considerar atentamente, com frequência, a boa mão da providência em apenas essas duas áreas da alimentação diária e da vestimenta, não demorará muito até que você consiga estender a sua gratidão cada vez mais adiante, percebendo a mão de Deus em tudo. Considere sua bondade no clima, todos os tipos climáticos, na beleza da criação, na glória do seu cuidado diário e na bondade para com nossas famílias e amigos. Quando praticamos a gratidão, nossos olhos se abrem para a bondade por trás das nossas muitas bênçãos, e isso requer diligência, esforço e constância, assim como praticar um instrumento. Logo, você se surpreenderá ao ver como está acertando as notas e o quanto a gratidão tornou-se um hábito.

Subtração. Outra maneira prática de adquirir contentamento é praticando aquilo que Jeremy Burroughs chama de subtração. Ele diz que um homem chega ao contentamento não por acrescentar mais à sua condição, mas, pelo contrário, por subtrair de seus desejos, de modo a tornar as suas vontades e circunstâncias niveladas e iguais. Contar as bênçãos é uma coisa, mas e quanto às tribulações, aflições, desejos e necessidades? Essa ideia de subtração é realmente brilhante. Deixe-me tentar colocá-la em termos simples: quando você descobre que está descontente com alguma circunstância ou dificuldade, em vez de esperar até que as situações estejam resolvidas para então ficar contente, determine estar contente durante o processo.

Pensamos que, se pudéssemos somar à nossa situação e conseguíssemos uma casa nova, ou perdêssemos um pouco de peso, ou fizéssemos uma amiga, ou saíssemos das dívidas, ou encontrássemos um marido, ou conseguíssemos um novo emprego, assim estaríamos contentes. Isso significa adiar o contentamento até que nossas circunstâncias correspondam aos nossos desejos. Dessa forma, até que consigamos o que queremos, damos lugar ao descontentamento e à infelicidade. Mas por que permitir que nossos desejos tenham poder sobre nós? Estamos dando às circunstâncias a autoridade sobre o nosso coração e as chaves da nossa alegria. Em Cristo, temos o poder para irmos na direção contrária. Isto é o que Burroughs quer dizer por subtração: podemos ter poder sobre os nossos desejos em vez de permitirmos que eles tenham poder sobre nós. Podemos fazer com que os nossos desejos correspondam às nossas circunstâncias. No lugar de [estar] infelizes com o emprego ou com a situação em que nos encontramos, decidamos estar satisfeitas com aquilo que Deus tem feito. É dizer a Deus: "Eu desejo aquilo que o Senhor ordenou. O Senhor sabe o que é melhor para mim agora, e eu me alegro em Ti."

O contentamento é interno, é humilde, o contentamento é submisso a Deus e agradece a ele por todas as coisas. O contentamento decide não se preocupar, nem se exasperar, nem murmurar ou reclamar, e enxerga essas coisas como ameaças e inimigos. Isso tudo não quer dizer que deixamos de orar por um novo emprego ou por um apartamento maior, mas significa que estamos contentes enquanto oramos. Estamos satisfeitas com o que Deus tem feito. Por meio das circunstâncias difíceis, anos atrás, li em algum lugar que deveríamos plantar flores ao redor de chalés, não só ao redor de mansões. Eis uma ótima ilustração do contentamento: ele aproveita ao máximo as circunstâncias do momento, sem esperar até que as coisas mudem. E, aliás, por que Deus deveria... [ouvir] nossas orações se estamos orando de maneira descontente? Deveríamos pedir tudo com fé e alegria em nosso bom Criador.

Tendo aprendido a fazer o nosso coração corresponder às nossas circunstâncias, podemos então ver as coisas boas que estão por vir. Ficamos confortáveis, não desconfortáveis. Ficamos em sintonia com as nossas bênçãos, não desejosas por mais. Crescemos em paciência e percebemos a mesquinhez e a vaidade de nossas queixas e reclamações. Se dependente de nossas circunstâncias, o contentamento fica preso a um fundamento instável, incerto, uma vez que as circunstâncias estão sujeitas a mudanças. Mas quando o contentamento repousa sobre a soberania e a bondade de Deus, aí sim, ele se fundamenta em algo certo. Estamos a salvo, nosso coração está seguro, nossa alegria está protegida. Isso é o que significa dizer: "Posso tudo em Cristo que me fortalece."

O que Deus está lhe ensinando em suas circunstâncias? Que colheita está por vir de sua plantação? Seria paciência, contentamento, humildade, gratidão? Se sim, sua vida interior está confortável e tranquila. Esse é o tipo de paz que excede todo entendimento. Isso não faz sentido no mundo, pois é de outro mundo. Por fim, não há nada como a adoração semanal a Deus para colocarmos a mente em ordem. Nosso coração é como um instrumento que se desafinou. A adoração nos afina novamente, coloca as nossas cordas em ordem e nos ajuda a fazer um som agradável mais uma vez.

Capítulo 9. As Dificuldades de um Vaso de Barro. Mesmo hoje, mulheres fiéis a Deus necessitam de contentamento, e não só as de hoje, mas sempre foi assim. Nunca existiu, nem jamais existirá, uma era em que a mulher de Deus não precise de uma fé ativa e de uma esperança fixada em Cristo, independentemente dos problemas e desafios. Por mais específicos que sejam, devemos nos lembrar de quem somos e do que Deus está realizando. E uma das melhores maneiras de nos lembrarmos disso é olhando para a vida do apóstolo Paulo. Ele diz: "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não nossa" (Segundo Coríntios 4:7). Esse versículo pode nos ajudar a entender como os nossos problemas são, na verdade, um elemento necessário para aprendermos sobre o contentamento.

A qual tesouro Paulo está se referindo aqui? Se dermos uma olhada no versículo 4, vemos que se trata da luz do Evangelho da glória de Cristo, que brilha em nosso coração. Paulo explica que, assim como Deus deu existência à luz por meio de sua palavra em Gênesis 1:3, ele tem falado com o mesmo poder criador para trazer luz ao nosso coração obscurecido. Este é o inestimável tesouro do Evangelho de Cristo. E onde nosso bom e grandioso Deus guarda esse tesouro extraordinário? Ele o colocou em vasos de barro insignificantes. Sim, em vasos de barro, no coração dos membros do seu povo, que são, assim como Adão, feitos de barro.

Vaso de barro é uma metáfora apropriada para nós, porque fomos feitas a partir do barro e colocadas na fornalha para que nos tornemos humildes recipientes que armazenam seu tesouro. Não vasos de ouro, nem de mármore, nem de cristal, tampouco de prata refinada, mas um vaso feito de terra molhada. Agora, por que Deus colocaria seu tesouro inestimável dentro de vasos tão indignos? Paulo nos dá a resposta: "para que a excelência do poder seja de Deus, e não nossa." O maravilhoso poder de sua bondade brilha com mais glória quando [está] em vasos de barro. E quando esse tesouro brilha ainda mais? Seguindo o raciocínio de Paulo em Segundo Coríntios, veremos que ele toma brilho especial e particular quando o vaso de barro está repleto de dificuldades.

O apóstolo Paulo foi separado para passar por dificuldades. Quando Deus enviou Ananias para impor as mãos sobre o apóstolo, o Senhor disse: "Este é para mim um instrumento escolhido, eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome" (Atos 9:15). Com efeito, Paulo padeceu muitas coisas pelo nome de Cristo, e é por isso que ele pode nos ensinar especialmente o contentamento em meio às dificuldades. Embora nossas dores possam parecer pequenas em comparação com as de Paulo, elas continuam sendo as dificuldades de vasos de barro.

Os versículos seguintes de Segundo Coríntios 4 nos diz que Paulo foi "atribulado em tudo, porém não angustiado; perplexo, porém não desanimado; perseguido, porém não desamparado; abatido, porém não destruído." Aparentemente, vasos de barro não têm moleza do lado de fora; são rodeados de dificuldades, atribulados, perseguidos e abatidos. Mas do lado de dentro, onde o tesouro se encontra, não são angustiados, nem desanimados, e nem desamparados, muito menos destruídos. Como isso é possível? Lembre-se, Paulo aprendeu o segredo de estar contente, e nós também podemos aprendê-lo. Por termos a tendência de fixar nossos olhos no que é visível, nas dificuldades, podemos não notar o que está ocorrendo dentro dos vasos de barro. Isto é, onde o tesouro se encontra depositado. Essas coisas invisíveis são as que precisamos ver pela fé, tal como Paulo.

Pois, em meio a todas as dificuldades próprias dos vasos de barro, Paulo declara: "Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso 'homem exterior' se corrompa, contudo, o nosso 'homem interior' se renova de dia em dia." Portanto, enquanto caminhamos pela fé, veremos o nosso homem exterior se corrompendo, até mesmo morrendo. Não obstante, nosso homem interior pode ver a glória presente e a glória vindoura. Essa verdade não só nos encoraja ao contentamento em meio aos problemas, mas também nos dá esperança para o futuro. E quanto mais praticamos o contentamento, mais percebemos que o nosso espírito se renova.

Alguns capítulos depois, no capítulo 6, e os versículos 4 a 10, Paulo nos dá outro relato de seus problemas nesta famosa passagem: "Pelo contrário, em tudo nos recomendamos a nós mesmos como ministros de Deus, na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no Poder de Deus; pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas; por honra e por desonra; por infâmia e por boa fama; como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo."

Aqui pode-se ver outra lista de dificuldades, porque vasos de barro passam tribulações, necessidades de todos os tipos e angústias. Quando um navio está afundando, ele emite um alerta de perigo. Você alguma vez já precisou emitir esse alerta? Paulo já. Além disso, ele foi açoitado, aprisionado, esteve em tumultos, em trabalhos e esforços de todos os tipos, ficou sem dormir, faminto, foi acusado de ser mal, sofreu infâmias, foi privado de amigos, esteve perto de morrer, foi castigado, ficou entristecido, pobre, como quem nada tinha.

Ainda assim, Paulo coloca essas dificuldades próprias de vaso de barro em contraste direto com o tesouro interior: pureza, conhecimento, paciência, bondade, o Espírito Santo, amor não fingido, a palavra da verdade, o poder de Deus e a armadura da justiça. O tesouro dentro dos vasos de barro é evidenciado pelas coisas notáveis que ele e os seus cooperadores prosseguiam operando. Eles se alegraram, se entregaram e viveram como se possuíssem o mundo. Isso é contentamento em sua melhor forma.

Espero que você entenda que o contentamento é possível em meio às aflições mais intensas. Na verdade, é nessas circunstâncias que a bondade, a força e a graça de Deus mais reluzem. Porém, o mais extraordinário ainda está por vir. Em Segundo Coríntios 12:7, Paulo menciona que pediu três vezes a Deus que retirasse seu espinho na carne, mas Deus lhe disse: "A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza."

Por fim, qual é a conclusão de Paulo? Ele prossegue nos versículos 9 e 10, dizendo: "De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então sou forte."

Você captou o que isso quer dizer? A força se aperfeiçoa em nossas fraquezas. Sua graça é suficiente. Portanto, Paulo verdadeiramente gloria-se em suas aflições, pois sabe que elas evidenciam, nos vasos de barro, o poder de Cristo. Além disso, e está aí algo surpreendente, Paulo tem prazer nessas coisas. Ele tem prazer nas enfermidades, nas fraquezas físicas, nas repreensões quando os outros o acusam, ou em toda forma de necessidade física, emocional, espiritual, na perseguição, quando [é] preso ou açoitado, e na angústia, quando ele precisou enviar um pedido... [de] Paulo. Tem prazer nessas coisas porque sabe o que é ter o poder de Cristo repousando sobre si em sua fraqueza. A sua maior força é evidenciada. Eis o esplendor do Evangelho.

O autor de Hebreus lista uma galeria de santos, os quais, por meio da fé, subjugaram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros (Hebreus 11:33). Eles são elogiados por sua fé em vitórias de todos os tipos. Mas há outros nessa mesma lista que obtiveram bom testemunho por sua fé. Estes, embora não tenham saído vitoriosos em suas batalhas terrenas, venceram suas batalhas espirituais. Eles foram apedrejados, provados, cerrados pelo meio, mortos a fios de espada, andaram como peregrinos, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados, homens dos quais o mundo não era digno.

Considere, portanto, suas próprias enfermidades, doenças, fraquezas, necessidades e angústias. Você se gloria nessas coisas? Você tem prazer nelas? Se você estiver olhando para o seu vaso de barro a fim de encontrar forças, é certo que não. Você não encontrará forças lá. Se você estiver olhando para as enfermidades, você não se gloriará no Senhor. Devemos tirar os nossos olhos dessas coisas e fixá-los em Cristo. A sua graça é suficiente. Quando abordamos essa questão pela fé, começamos a ver cada dificuldade como uma oportunidade de ouro para demonstrarmos a glória de Deus. Quando começamos a ter prazer em nossas dificuldades por causa de Cristo, elas perdem o seu poder sobre nós. Somos libertas em Cristo para vermos Deus trabalhar. Ficamos mais que contentes, tornamo-nos fortes.

Caso ainda não tenhamos uma boa ideia das dificuldades de Paulo, lembre-se da lista de dificuldades em Segundo Coríntios 11:24: "ele foi fustigado cinco vezes e açoitado com varas três vezes; apedrejado; naufragou três vezes e permaneceu uma noite e um dia no mar; ele esteve em meio a todo tipo de perigo: nas águas, perigo de salteadores, perigo diante dos judeus, perigo com os pagãos, na cidade, no deserto, no mar, em meio a falsos irmãos." Paulo ficou cansado, com dor, com insônia, passou fome, sede, frio e nudez. E, além disso, ele tinha que cuidar de todas as igrejas. Este é o homem que diz ter prazer em todas essas coisas, pois "quando [sou] fraco, daí que [ele] é forte."

Pegue sua fraqueza dada por Deus e peça ao Senhor que manifeste o seu próprio poder e força nela. Pegue suas enfermidades dadas por Deus e glori nelas. Tenha prazer nessas coisas, não porque são boas em si mesmas, mas por serem dificuldades próprias de vasos de barro. E quanto mais o vaso é golpeado, mais a bondade e a glória de Deus brilham. Quando vemos que a excelência do poder não é nossa, mas de Deus, a nossa fé cresce.

Capítulo 10. Contentamento nas Aflições. O contentamento tanto sofre como se alegra. Ele não é estoico, cruel, sem sentimentos, duro. Pelo contrário, é benigno e compassivo, submetendo-se a Deus em quietude de espírito. O contentamento vê a providência de Deus em todas as circunstâncias, nos detalhes, nos pormenores. As catástrofes mais calamitosas, porque tudo em nossas vidas está debaixo do seu plano e cuidado. Mesmo no sofrimento, podemos aprender a ter o nosso coração contente. O próprio Jesus é homem de dores e que sabe o que é padecer. Quando sofremos, temos um Salvador que nos entende e olhamos para ele a fim de aprendermos como lamentar.

Lembre-se, o Senhor quer que nos aproximemos confiadamente do seu trono para que ele próprio nos ajude nos momentos de necessidade. Deus é a fonte de toda graça e misericórdia de que precisamos para cada circunstância. Considere a maneira como Jesus confortou seus discípulos. Depois de ter identificado Judas como traidor e ter previsto que seu amigo Pedro o negaria três vezes, os discípulos devem ter ficado preocupados, assustados e confusos com o que estava por acontecer. Foi neste momento que Jesus veio e os confortou: "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fora, eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós sabeis o caminho para onde eu vou" (João 14:1-4).

O sofrimento não é pecado, mas deve ser administrado com sabedoria. Não podemos deixar o nosso coração se turbar. Pelo contrário, devemos crer em Jesus, lembrando-nos do todo em questão: Cristo está preparando um lugar para nós e, por fim, seremos todas unidas a ele. Essas foram palavras de consolo aos discípulos, que elas de igual modo também nos confortem. A aflição piedosa glorifica a Deus. Isso significa que cabe a nós pensar em como devemos sofrer de modo que honre a Deus e que impeça que o nosso coração se turbe. O sofrimento piedoso não olha para dentro de si; ele continua a buscar a Deus e ao seu próximo. As responsabilidades permanecem necessárias em ambas as áreas.

Nossas aflições devem ser cristãs, o que é completamente diferente do sofrimento daqueles que não têm esperança e estão sem Deus no mundo. Nossas aflições devem evidenciar a nossa fé no Deus todo-poderoso, criador dos céus e da terra. Nossa tristeza deve ser gentil. Geralmente, aqueles que sofrem piedosamente são fonte de grande conforto para aqueles que necessitam de um ombro amigo. Quando cristãos que sofrem piedosamente recebem tentativas fracassadas, embora bem intencionadas, de consolo, tudo é recebido com bondade e graça. Mas uma tristeza descontente e ímpia afasta as pessoas, não possui graça para compartilhar e pode rapidamente se transformar em descontentamento, amargura e autocomiseração. A pessoa assim rejeita o consolo.

Deus não só tem preparado coisas boas para nós nesta vida, como também está nos preparando para a eternidade. E a eternidade para nós... Costumamos nos preocupar com o que faremos na próxima etapa da vida, mas Deus já está preparando tudo agora mesmo. Quando andamos pela fé, cremos que Deus tem preparado tudo. Esse é o melhor consolo em qualquer tribulação. Jesus sabia que seus discípulos estavam aflitos por sua morte iminente. Ele os consolou dizendo que não os estava deixando, mas indo para lhes preparar um lugar, e ele prometeu retornar. Quando alguém amado morre no Senhor, podemos nos consolar, pois o próprio Senhor Jesus Cristo está preparando um lugar para nós. É por isso que podemos manter o nosso coração longe de se turbar, mesmo quando a vida se mostra cheia de problemas.

Quando perdemos alguém que amamos, a perda deveria nos lembrar de nossa própria mortalidade e nos fazer pensar sobre realizar os preparativos para tal jornada. Samuel Rutherford escreveu estas palavras em uma carta a um de seus amigos: "Você tem agora, minha senhora, uma doença e, após ela, a morte. Junte, então, suprimento para essa jornada. Deus lhe dá olhos para ver através da doença e do sofrimento e para enxergar algo além da morte." Essas palavras servem para todas nós. Podemos ter ambas as coisas diante de nós, ou somente uma delas. Alguns morrem por outras causas que não uma doença. De toda forma, todas nós deveríamos preparar suprimento para esta jornada final. E no que consiste tal sofrimento? Eu gostaria de dizer que uma dispensa cheia de contentamento cairia muito bem.

O contentamento, sendo um estado interior, pode se ajustar a circunstâncias difíceis, incluindo doenças e a morte. Perdeu seu aguilhão por causa do que Cristo fez pelo seu povo na cruz. Sabemos que a passagem pode ser difícil, mas o destino é glorioso. Essa verdade também é alimento para a jornada. Em eras passadas, santos homens de Deus tiveram suas últimas palavras tornadas parte da herança de seus filhos. O próprio Samuel Rutherford morreu de uma doença. Em seu último dia de vida, ele disse: "Esta noite fechará a porta e recolherá minha âncora ao navio, e devo partir em um sono." Por volta das 5 da manhã, e assim sucedeu, sendo suas últimas palavras: "Glória! Glória! Habita na terra de Emanuel."

Aqueles que vivem pela fé morrerão pela fé. Aqueles que vivem bem morrerão bem. Se vivemos com ansiedade, medo, descontentamento e inveja, não estaremos preparadas para morrer bem. Esse estado nos trará pouco conforto. Mas se aprendemos a estar contentes por termos praticado contentamento durante toda uma vida, estaremos prontas para nossa promoção final e, assim, teremos coragem quando estivermos prestes a morrer. Sabemos que Deus nunca nos abandonará nem nos deixará, ainda mais no dia de nossa morte. Então, não temos nada que temer. Quanto mais meditamos e cremos nas promessas que Deus tem para nós, mais preparadas estaremos para o que virá no futuro.

Às vezes, converso com cristãs que estão tentando superar o descontentamento, mas penso eu que, na verdade, a tristeza que elas estão sentindo pode ser a morte de um amado, o fim de um relacionamento, um filho rebelde que saiu de casa. Elas confessam o descontentamento, mas este não vai embora. E o real motivo é que não se trata de descontentamento, mas de lamento. O descontentamento é, no fundo, uma atitude grosseira para com Deus, uma postura que o culpa, ao invés de agradecê-lo por suas bênçãos. É uma recusa a submeter-se, agradecer ou honrar a Deus. O descontentamento recusa o consolo.

Quando você tenta consolar uma pessoa descontente, as respostas mais comuns geralmente são: "Mas você não sabe como é? Você não entende? Me deixe em paz." Dificuldades e tribulações não nos atingem como se fôssemos feitas de pedra. Somos seres humanos, criadas à imagem de Deus. Portanto, nós sofremos. Sofrer não é errado. Seria um alerta se não sofrêssemos ou se não sentíssemos dor quando nos deparamos com uma perda grave. Não somos estoicas, somos cristãs. Mas se, em meio a um sofrimento piedoso, você confessa o que pensa ser descontentamento, saiba que seu coração só prolongará todo o processo, combinando seu sofrimento com uma falsa culpa.

Sendo assim, como fazer a distinção no sofrimento? Você corre ao Senhor por consolo, proteção e cura, confiando que ele é amável e bondoso e que usará até mesmo essa aflição para o benefício de sua alma e para sua própria glória. O sofrimento piedoso procura por suas responsabilidades em meio aos problemas e prossegue para o alvo. Já o sofrimento descontente não consegue prosseguir, mas apenas permanece ferido, fazendo do sofrimento o seu propósito. No descontentamento, você constantemente questiona, discorda, discute e reclama diante de Deus. Em vez de olhar para o Senhor, você pode estar olhando para a vida dos outros e sentindo inveja da falta de problemas deles, culpando a Deus ou até mesmo dizendo que está brava com ele.

Devemos glorificar a Deus em todas as coisas, mesmo em meio às dificuldades e frustrações. Devemos sempre agradecer a Deus por tudo. A gratidão em meio à dificuldade é a proteção contra o descontentamento. O sofrimento piedoso é diligente em manter-se no caminho correto, a fim de que não se desvie nem para o desespero e nem para o desânimo. Olhando para fora do problema, para além de nós mesmas, devemos voltar os nossos olhos para Cristo. Todos experimentam sofrimento em certo momento da vida. Como, então, devemos nos preparar de modo que estejamos preparadas na fé, não sendo mórbidas, nem nos entregando à preocupação? Antes, no entanto, estejamos preparadas para os momentos difíceis da vida, andando pela fé.

Ainda em tempos de prosperidade, confiar em Deus nas pequenas dificuldades nos prepara para confiarmos nele nas grandes tribulações. Todos têm tribulações, sejam problemas de saúde, questões financeiras, seja solidão, relacionamentos quebrados, seja qualquer outro tipo de dor de cabeça. O nosso Salvador é um homem de dores e que sabe o que é padecer. Temos um Salvador que compreende essas coisas muito melhor que nós. Portanto, podemos nos voltar ao nosso Redentor em meio a uma tribulação. É fácil pensar que ninguém mais compreende ou sente a nossa dor. Isso é verdade. Como seria possível? Você sente as dores e os problemas de todo mundo? Não. Você sente os seus próprios sofrimentos. Portanto, é importante saber que você tem um Salvador terno e compassivo. Desvie o olhar de si mesma, para fora dos seus problemas, e encontre o socorro que vem dele.

Saber que Deus é soberano sobre todas as coisas, o tempo todo, é uma doutrina doce. Não existe nada fora do seu controle, nada à parte do seu perfeito propósito e plano. O Senhor governa o mundo, ele faz todas as coisas bem e está preparando um lugar para nós. Nossa responsabilidade é guardar o nosso coração para que ele não se turbe.

Capítulo 11. Escolhendo o Contentamento. O contentamento pode parecer difícil. De efeito, ele exige, acima de tudo, submissão a Deus, morrer para si, tomar a cruz e segui-lo. Em outras palavras, o contentamento surge quando vivemos uma vida cristã consistente e obediente, e isso é sempre desafiador. É algo fácil de compreender, mas por vezes dificílimo de praticar. Quando soltamos as rédeas de nossos pensamentos, quando damos a nós mesmas permissão para a murmuração e a ira, quando nossa gratidão a Deus é esparsa e superficial, a nossa vida cristã deixa de ter a semelhança, o cheiro e o sabor de Cristo. O fruto do espírito deixa de ser evidente. Podemos chegar a duvidar de nossa própria salvação.

Este cenário se assemelha com o filho desobediente que começa a imaginar se é realmente um filho legítimo. Quando desagradamos nosso Pai celestial, sentimos que não somos suas filhas mais. Uma vez que confessamos os nossos pecados e recebemos o seu perdão, nossa certeza retorna e a nossa fé cresce. O contentamento não é opcional. Não se trata de um sentimento destinado somente a certos cristãos que desejam ser radicais no viver por Jesus. Contentar-se é uma exigência, mas não um requisito severo, pois traz paz e aquieta o nosso coração, ainda que em meio às adversidades.

O contentamento advém de exercitar o controle dado por Deus sobre o espírito. Nós, então, aquietamos o nosso coração, nós nos submetemos ao nosso Pai, nós nos livramos de nossas exigências, do mau temperamento, da inveja e da ingratidão. E quando nos recusamos a dar lugar a essas coisas, vemos que a alegria da nossa salvação retorna. Conseguimos andar em quietude e confiança mais uma vez.

Praticar o contentamento significa escolher estar contente, mesmo diante dos pequenos problemas diários. Assim, quando problemas maiores, de questões mais sérias, aparecerem, já estaremos treinadas. Estamos levantando pesos pequenos e podemos mudar para pesos mais pesados. Podemos não nos sentir preparadas para pesos maiores, mas Deus jamais nos dá um fardo que não consigamos suportar. Por vezes, quando escolhemos estar contentes, tomamos tal postura em direto contraste aos nossos impulsos carnais.

Considere o seguinte exemplo completamente ordinário: quando Doug e eu nos casamos, tínhamos apenas um carro, e ele estava vindo me buscar para uma consulta no dentista. Ele estava atrasado, eu estava no horário e me sentindo frustrada, pois chegaria atrasada para minha consulta. Lembro-me vividamente de contemplar as duas opções diante de mim: eu seria grosseira com meu marido, ou escolheria... [ser] paciente e amável. Imaginei os dois cenários: o primeiro faria meu marido se sentir mal e provavelmente resultaria em eu ter de pedir-lhe perdão por ter sido impaciente e rude. O segundo não causaria nenhuma ruptura nem colisão. Então, naquele momento de espera, Deus me ajudou a escolher estar contente. Quando Doug chegou, não parava de me pedir desculpas, mas eu estava calma. Por quê? Porque não cedi à tentação do descontentamento. A minha escolha de estar contente não me impediu de chegar atrasada. Não, não impediu, mas me deu um relacionamento pacífico com meu marido, o que é uma bênção muito maior do que chegar no horário.

O contentamento desarma uma situação que poderia tornar-se estressante. O contentamento protege a unidade e a comunhão que temos em Cristo. Você e eu sabemos que, quando damos lugar às persistentes e frequentes tentações de mau humor, crítica e grosseria, elas se multiplicam até criarem um relacionamento infeliz. A atmosfera do descontentamento é tóxica. A maioria das famílias com relacionamentos quebrados são pegas em brigas bobas e discussões sobre coisas que seriam ainda menos importantes que estar atrasada para o dentista. É aqui, nos atritos e conflitos, que o inimigo perturba nossa paz e faz guerra contra a unidade e a comunhão de que deveríamos desfrutar.

Quando, porém, vemos as tentações vindo e, pela graça de Deus, dominamos nossos impulsos carnais, torna-se possível encobrir provocações e pecados com amor. A atmosfera do contentamento é espiritualmente saudável e agradável. Relacionamentos podem florescer. De vez em quando, damos espaço demais para o descontentamento. Depressa permitimos que problemas e interrupções roubem a nossa alegria e paz. Ficamos frustradas no trânsito, com o atendente ou com o clima. Permitimos que nossos espíritos se turbem por muitas coisas. Mas há um caminho muito melhor para o povo de Deus. Por que dar poder e autoridade aos problemas? Por que permitir que destruam nossa alegria? Eles não podem nos dominar a menos que nos curvemos e permitamos que governem sobre nós.

Quando grandes problemas surgem, sabemos que temos de levantar pesos mais pesados. No entanto, se não praticamos o contentamento nem mesmo com os problemas de peso leve, logo desfalecemos. É preciso que, em cada dura providência, pratiquemos a fé, pedindo a Deus que nos ajude a administrar o problema e a lidar com a dificuldade de forma que traga honra e glória ao seu nome. Nessa postura, produz foco e propósito para cada problema. Por mais difícil que seja, o contentamento realça e realmente adoça qualquer circunstância e a torna mais suportável.

Quando determinamos estar contentes em qualquer circunstância, Deus nos abençoa e nos liberta. Ele não nos abandonará. Como meu marido sempre diz: "Deus ama alpinistas." O Senhor ama nos livrar no último instante, a fim de ver se confiaremos nele sem hesitar. Quanto mais caminhamos com Deus, mais o conhecemos e reconhecemos o tipo de história que ele ama nos contar. Um espírito manso e quieto é precioso aos olhos de Deus. Ele ama nos ver confiando calmamente nele, como um bebê em seus braços. O contentamento é confortável; ele não é facilmente perturbado ou interrompido e nem é desconfortável. O contentamento tem controle sobre seu próprio espírito. É uma vantagem tremenda ter contentamento em um mundo cheio de problemas. O contentamento não fica confuso nem inquieto, mas segue em frente, calmo e confiante, através de todo tipo de dificuldade.

Alguém já disse: "De tudo que você puder obter, obtenha contentamento. Você não pode comprá-lo, mas pode tê-lo. Você pode aprendê-lo." Então, comece o aprendizado. Pratique o contentamento. Procure oportunidades para estar contente. Não desperdice nenhuma aflição ou problema que vier ao encontro do seu caminho. Tire proveito de cada dificuldade, aplicando contentamento.

Às vezes, mulheres não ficam descontentes por nenhum motivo em particular, mas descontentes com tudo. Elas não gostam de sua história, ou de sua família, ou educação. Elas se sentem exaustas por uma infância infeliz e pelas maldades dos outros. Elas sentem vergonha das vezes que foram injustiçadas pelos seus pais e parentes. Elas estão descontentes com quem elas mesmas são. Se você é uma dessas mulheres, eis o que tenho a lhe dizer: lembre-se da mulher de Lucas 7. Ela era uma pecadora. Imagino que teve um passado infeliz, mas aquela mulher trouxe um frasco de óleo e lavou os pés de Jesus com as suas lágrimas, ela os enxugou com seus cabelos, beijou seus pés e os ungiu com óleo. Ela era aquela da parábola que Jesus contou, que devia 500 denários e não tinha como pagar. Jesus perdoou os pecados daquela mulher. Ele disse a Simão: "Por isso te digo: Perdoado lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama."

Que palavras maravilhosas! Talvez pensemos que uma mulher que teve muitos pecados perdoados seria limitada em seu acesso ao Salvador. Talvez fosse o que Simão tivesse pensado, mas Jesus a recebe para lavar os seus pés, beijá-lo e ungi-lo com óleo. Cristo permite que ela se aproxime. Que convite a todas nós! Jesus nos convida a nos aproximarmos e a experimentarmos completo perdão. Não subestime o poder da misericórdia e da graça de Cristo em transformar a sua vida e o seu coração. Não importa quão obscuro seja o seu passado, você tem o poder de prosseguir em graça e contentamento. Você pode escolher não pensar sobre o passado. Você pode trazer à memória que não você, mas o Deus, o autor da sua história, muitos pecados lhe foram perdoados. Portanto, você pode amar muito. Torne a antipatia por sua história em amor pela história de Deus. Torne suas lembranças ruins em amor por ele.

Escolha estar contente no lugar que o Senhor tem para você e com o que ele está realizando em sua vida. Elimine o descontentamento e obtenha contentamento. Para chegar lá, faça alguns exercícios práticos: como ler mais livros sobre contentamento, conversar com a sua família e amigos sobre contentamento e compartilhar o que tem aprendido com eles. Peça a Deus que lhe mostre suas falhas; ele sempre responderá a essa oração. Aprenda a ler o seu próprio coração e a reconhecer a inquietação do descontentamento. Leia a história de Deus corretamente e espere que o Senhor aja em todas as situações para o seu bem. Seja uma leitora constante da Bíblia e peça a Deus que fale com você por meio dela. Observe seus pensamentos e não deixe que eles se dispersem. Cante, ore e alegre-se no Senhor.

Finalmente, lembre-se das promessas com que começamos: ele nunca deixará, jamais a desamparará, e você pode todas as coisas em Cristo, aquele que a fortalece.