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Povos Africanos

Profa Anelize19:22

Transcription

Olá, pessoas! Da sua professora Anelise. E na aula de hoje, a gente vai falar sobre os povos africanos, sobre os reinos de Gana, Mali e Songai. Bora para a aula!

[Música]

Pensar sobre a história do Brasil é automaticamente pensar sobre a história da África. A integração do continente africano com o Brasil colônia se iniciou a partir do tráfico negreiro, do sequestro da vida de milhões de pessoas que se tornaram escravizadas para trabalharem aqui no Brasil colônia, por meio da escravidão. Mas esses povos trazem consigo não só a sua mão de obra forçada e gratuita, como também muita cultura, tradições, línguas e costumes. Então, dá para deixar de falar de história do Brasil sem falar dessa contribuição que esses africanos trouxeram para a história, para a cultura e para a formação que é o Brasil.

Embora esses povos tivessem uma contribuição enorme na história do nosso país, infelizmente, por muitas vezes, a história desses povos foi renegada, não só na escrita da história em si, mas como na cultura de forma geral. Para vocês terem uma ideia, só em 2003 que se estabeleceu uma lei que colocava como obrigatório o ensino de história da África e história cultural afro-brasileira nas escolas, assim como a história indígena. Então, só para vocês terem uma ideia, pensando historicamente, essa lei é muito recente, né? A gente pega aí mais de 300 anos de escravidão, um passado que tem como base a mão de obra da escravidão africana, a escravidão negra, e o estudo da sua história, dessa cultura, começa em 2003 nas escolas, de forma obrigatória, vamos dizer assim.

E por muitas vezes, o ensino de história é focado apenas no africano no sentido de, a partir do momento que ele vem para o Brasil como escravizado. Muitas vezes, escravidão e ser africano negro são sinônimos. E a gente aqui, nesse vídeo, espera que você quebre um pouco desse pensamento, conhecendo um pouco mais da história da África e de alguns reinos, de alguns impérios, antes mesmo de se pensar na escravidão aqui na América Portuguesa.

Só para vocês terem uma ideia da importância dos estudos de história da África e dessa questão cultural que os africanos trouxeram para o Brasil, para nossa história, eu vou ler um textinho para vocês de um estudioso de história da África, o Alberto da Costa e Silva, em que ele vai falar um pouquinho sobre isso. Prestem atenção. Ele diz: "O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só quem não conhece a África pode escapar o quanto as de africanos gestos, nas maneiras de ser e de viver, e no sentido está o brasileiro. Por sua vez, em toda a costa atlântica, podem ser facilmente reconhecer os brasileiríssimos. As comidas brasileiras, a África como as comidas africanas no Brasil, danças, tradições, técnicas de trabalho, instrumentos de música, palavras e comportamentos sociais brasileiros insinuaram-se no dia africano. É comum que las ignore de certo prato, determinado costume veio do Brasil, como entre nós esquecemos o quanto nossa vida está impregnada de África. Na rua, na praça, na casa, na cidade, no campo, o escravo ficou dentro de todos os nossos, qualquer que seja a nossa origem. Afinal, seria escravidão o Brasil não existiria como é, não teria sequer ocupado imensos espaços que os portugueses lhe desenharam, com ou sem remorsos. A escravidão é o processo mais longo e mais importante da nossa história."

E para falar de história, a gente tem que partir do bom. Então, só para ele tomar um pouquinho. Se você não conhece o continente africano, ele possui aí 54 países e em torno, mais ou menos, de 1 bilhão de habitantes atualmente. É interessante, nem sempre retomar que muitas regiões da África foram colonizadas por países europeus, não só durante o século XV e XVI, como também no século XIX, XX, durante o período do chamado neocolonialismo ou imperialismo. E por esse motivo é que muitas situações que hoje ocorrem no continente africano, muitos conflitos, muitos problemas sociais, têm origem desse passado colonial. Não tem como a gente descolar esse passado colonial das situações problemáticas que esse continente vive atualmente.

Para vocês terem uma ideia, um exemplo dessas consequências é que atualmente o continente africano, ele possui um dos menores PIB's dos continentes, e a sua economia está muito ligada a setores primários da economia. Isso é uma influência da exploração neocolonial que visava os recursos naturais do continente africano. Isso acabou permanecendo aí durante os anos e até atualmente.

Pressionando um pouco mais didática, e a gente conseguir dividir esse continente geograficamente, a gente tem uma divisão ali, basicamente feita a partir do deserto do Saara. África, então, se divide na região setentrional e na região subsaariana. A região do norte da África, essa região setentrional, ela está dividida aí, mais ou menos, em sete países que têm muita influência da religião islâmica. Até porque o Islã chega no continente mais ou menos no século VII, VIII, e tem aí essa influência da colonização nesse momento. Então, muito da cultura desses países do norte da África está ligada à cultura do Oriente Médio.

É a chamada África subsaariana. Ela está aí abaixo do céu, abaixo do deserto do Saara, e ela é a região mais extensa e mais populosa do continente africano. E também, por conta desse passado de imperialismo nessa região, é uma das regiões mais pobres também da África. Porém, a gente não consegue ali trazer para vocês a ideia de que seria uma população única, um governo único nessa região. É uma região muito extensa e por isso também muito diversa.

Ainda pensando nessa diversidade, o continente africano não pode ser visto como o único. Vou repetir aqui para vocês: deste continente, nós temos diversas crenças, religiões, línguas e etnias. E essas etnias diversas é que vão vir para o Brasil na forma da escravidão, né? E é por isso que aqui dentro a gente tem essa mistura étnica também.

Os próprios povos africanos. Hoje eu vou falar um pouquinho para vocês sobre algumas das etnias que acabaram sendo forçadas a vir para o Brasil e se tornarem escravizadas, mas que contribuíram também para a cultura brasileira. Entre os vários povos africanos, os Bantos, por exemplo, os Bantos que eram povos que viviam na região sul da África e que representam um grupo mais numeroso do continente. Apesar de a gente conseguir dividir ele em vários subgrupos, eles têm uma estrutura linguística muito importante e eles ocupam hoje em dia dezenas de países da África. Esses povos vieram para o Brasil como escravos.

Temos os Sudaneses, que eram dedicados à agricultura e que habitavam a savana localizada mais ou menos aí entre a região do Atlântico até o vale do rio Nilo. Como os Bantos, esses Sudaneses também vieram para o Brasil, contribuíram para essa dinâmica econômica da América Portuguesa, do Brasil Império, como mão de obra.

E os Berberes, que são um conjunto de povos que vivem no norte da África, que falam as línguas berberes e que têm uma característica importante porque eles são convertidos ao Islamismo a partir do século VIII. Então, essa população vai se inserir nessas variadas etnias que caracterizam o norte do continente.

Poderia falar de outras etnias aqui, eu escolhi apenas dessas para mostrar essa diversidade, esse contato com o Brasil. Mas a gente começa um contato entre os europeus e a África lá na antiguidade, principalmente na Roma Antiga, com a conquista da região de Cartago e algumas regiões ali do norte da África. Posteriormente, lá no século XV e XVI, no contexto dos descobrimentos, é que os portugueses vão ter mais contato com todo o litoral africano, por conta daquela ideia de contornar o continente para chegar às Índias. E mais intenso ainda, não só no século XV, mas no século XIX, como intercâmbio.

Então, esse tipo de encontro, vamos ver assim, muitas vezes violento ou forçado, vem aí desde a antiguidade. E a gente tem aí, basicamente, todo um relato e toda uma, todo um contato a partir do olhar do europeu. Por isso que a gente tem que tomar muito cuidado com a escrita dessa época e com a narrativa muito eurocêntrica, muito ocidental cêntrica, a partir do continente europeu.

Pô, mas eu disse para vocês que a aula de hoje é sobre os reinos africanos. Vamos focar nisso agora. Então, eu escolhi aqui alguns reinos da chamada África subsaariana, que concentram então nessa região do norte, e que tiveram destaque no período anterior à chamada colonização dos europeus, ou até mesmo esse encontro entre os portugueses e os africanos lá no século XVI.

O primeiro reino é o Reino de Gana. Esse reino surge mais ou menos ali no século III depois de Cristo. Ele tem como destaque estar numa região de hoje é atual Mali e Mauritânia. Ele está um pouquinho distante do deserto do Saara e distante também do oceano Atlântico. Fica localizado aí mais ou menos no centro desta região. Esse reino se forma a partir do contato com os comerciantes berberes que vinham para a região lá do norte da África. No momento de um clima desfavorável, trazendo produtos, então a domesticação do camelo, o uso desse animal para fazer o comércio foi um destaque nesse reino.

Um destaque importante do Reino de Gana é a exploração do ouro. Então, esse reino se devia sustentado basicamente dessa exploração e conheceu o seu apogeu entre os séculos VIII e IX. Então, veja só, né? Começa aí no século III, VIII, IX, visualiza seu apogeu. Então, é um reino de longa duração. Esse apogeu muito se deu pela questão do comércio. A exploração de ouro, de sal e o comércio, por exemplo, de tâmaras e outros produtos foram muito importantes para uma economia desenvolvida para esse reino.

Para vocês terem uma ideia de quanto era importante, a base do poder do rei era toda baseada na exploração do ouro. Esse ouro ele era levado para os árabes no norte, onde era cunhado as moedas, né? Então, tanto o apogeu desse reino foi feito pelo ouro, quanto o seu declínio, porque a escassez do mineral e a falta de tecnologias mais que explorassem o ouro mais a fundo, fez com que estes reis, esse reino, decaísse. Então, os povos que eram dominados acabam sempre voltando. Esse rei não tem mais poder político total e o reino é dominado. E essa invasão é feita pelos povos do chamado Reino de Mali, que é o nosso próximo reino aqui.

Esse reino se desenvolve entre os séculos XIII até o século XVI. Então, a gente está se aproximando na Europa do período das Grandes Navegações. O que se entende por um território um pouco maior do que o Reino de Gana. Para vocês terem uma ideia, esse reino ele ficava onde hoje estão os atuais países de Mali, Senegal e Guiné. Entre cobriu uma área, uma extensão de área maior. E se permaneceu ali dentro desse reino o comércio com os árabes do norte, com os berberes. Também. A diferença é que o imperador, aí, desse reino era conhecido como Mansa, e eram figuras muito importantes para essa administração.

Essa localização, a fundação do Reino de Mali, ela historicamente foi feita pelos Sundiata, que trouxe como capital, como centro do seu reino, essa Djenné. Mas existiam outras cidades de destaque também, como Tombuctu. Essa é uma cidade referência como centro cultural, onde você tinha bibliotecas e universidades. Então, oi gente, até porque esse é um reino islâmico, então se tinha como objetivo aí também o estudo, o estudo não só da crença em si, mas através da alfabetização para se poder ler o Alcorão.

O apogeu do Reino de Mali é dado como Mansa Musa, que se destaca pela extensão, né? Aumentou a extensão do império. Ele pega ali regiões do Atlântico até a bacia do rio Níger e era um rei de muito destaque nesse momento e se torna o rei até meio que lendário por conta de uma peregrinação que ele faz até Meca, levando muito ouro para ser oferecido. Após a morte do Mansa Musa, o reino vai entrando em declínio devido às dificuldades dos seus sucessores de conseguirem administrar seu território tão extenso. E isso dá abertura para invasão de outros povos que vão formar o Império Songhai, que é o próximo império e o último aqui.

Que bom! Império Songhai foi fundado por Sonni Ali, o Grande, no contexto aí do declínio, então, de Mali, como eu disse, em torno do século XV. Esse império ele se estendia da costa do Atlântico até as bacias do rio Níger, como já havia no Império Mali, mas estende um pouco mais além para o Lago Chade. E a capital desse império, né, capital política e militar, ficava na cidade de Gao. O Sonni Ali foi responsável pela conquista da cidade de Tombuctu e Djenné, e estimulou, né? Isso estimulou o rei a conseguir aumentar mais ainda o seu extenso império.

Este imperador também se torna alguém de bastante destaque. Ele era responsável por todas as meninas administração, né? Que toda a política do império era muito respeitada. Inclusive, se tem aí uma ideia de que ele era tão importante que ele não se fazia, ele não podia cair no chão, né? As pessoas que estavam em volta dele tinham que pegar esse golpe com a sua roupa, né? Pessoas que andavam em volta de si, o imperador, que era mais ou menos 700 pessoas. E toda vez que alguém fosse se aproximar para falar com esse imperador, eles deveriam jogar pó na cabeça. Então, existia toda essa ideia de respeito, de admiração. Esse imperador, assim como existiam entre os reis absolutistas europeus.

A base da economia do Império Songhai era a escravidão. E é importante abrir um parêntese aqui para vocês se atentarem. Existia escravidão sim, porém a ideia da escravidão era bem diferente daquela que existia na América Portuguesa e na América do Norte de forma geral. Aqui a gente tem a ideia de que o escravizado no Brasil, ele é um objeto. Existe a ideia também do tráfico negreiro que gerava lucro para muitas pessoas e a exploração gratuita da mão de obra era muito forte. Pensando, por exemplo, na África e no caso do Império Songhai, os escravizados eram inimigos vencidos de guerra ou pessoas que tinham alguma dívida, né? A ideia do tráfico negreiro como lucro não existia. E muitas vezes essas pessoas que eram escravizadas, elas eram, vamos ver assim, bem tratadas, inclusive faziam parte das famílias de elite, eram mestres, professores, médicos dentro dessa sociedade. Então, é bem importante a gente frisar que apesar de haver essa escravidão, ela não tem o mesmo conceito e ela não é igual e não justifica mesmo a escravidão aqui no Brasil.

Também havia exploração do ouro e do sal nessa região, que eram usados como referência monetária. Mas assim como na China até o século XIX, e algumas regiões da África também, a moeda de troca seria algumas conchas, moluscos chamadas de cauris, que eram usados e trocados entre as pessoas no momento do comércio.

Também existia toda uma concentração de núcleos urbanos muito grandes. Dentro desses núcleos urbanos, a ideia do estudo. Então, existiam bibliotecas e universidades. E calcula-se que a biblioteca de Sankoré tinha mais ou menos 25 mil estudantes, isso já no século XIII. Então, quando a gente pensa, por exemplo, nas universidades europeias, a universidade do Império Songhai era bem importante.

O declínio do Império Songhai se dá por dois motivos: primeiro, a pressão de reinos muçulmanos, principalmente da região do Marrocos, que começa a tentar invadir essa região do império, que era extremamente importante economicamente. E depois, a vinda dos portugueses, dos europeus, com o período das Grandes Navegações. Então, o Império de Songhai acaba caindo mais ou menos ali no século XVI por esses motivos.

Bom, pessoal, além dos reinos de Mali, Gana e do Império Songhai, existiram outros reinos na África muito importantes e que não tinham os mesmos conceitos de reino, de cultura que os reinos europeus, mas que eram reinos com organização muito complexa na política, na administração, na sua cultura, nas suas crenças. E é extremamente importante que a gente entenda isso. Aqui, isso eram reinos, isso eram organizações, diferentemente do que aquilo que o discurso europeu durante muitos anos tentou colocar ou tentou tornar invisível. Esses reinos, essas organizações, ou tentou diminuir, dizendo que eram organizações tribais, que eram organizações que, na verdade, não tinham organização. Então, o que a gente diz, passa esse conceito, tá na nossa cabeça, muitas vezes por uma visão europeia de mundo, e que visava, né, um imperialismo e não o conhecimento desses povos.

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