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Eh, gente, então, mais um ano da Escola de Teologia do Labril, escola online, né, como você sabe. Mas a gente faz a aula magna presencial aqui em Lagoa Santa. Não dá para o povo todo chegar aqui, né? Mas tem um pessoal que pegou estrada aí, dirigiu. Eh, gente, sejam todos bem-vindos. É uma alegria a gente ter essa oportunidade. Eu sempre uso essa aula magna para eh aprofundar algum tema que a gente passa o último ano pensando, conversando. Eh, nós já tivemos palestras sobre esse tema por aí em outros contextos, então a gente vai burilando até trazer algo mais organizado e denso para abrir a nossa escola. Então, se você abrir lá o canal do YouTube do Labri, você vai ver que tem um monte de palestras lá que são aulas magnas e são palestras um pouco mais avançadas assim. E assim a gente vai construindo conteúdo novo, né, para a escola. Eh, mas enfim, vamos orar e aí nós vamos direto pro nosso assunto que é extenso, como de costume também, né? Essas aulas são cumpridas e ninguém te avisou. É, o consolo é que vai ter um chazinho depois. Eh, vamos orar.
Pai celeste, nós damos graças ao Senhor por essa noite que o Senhor nos dá, por cada irmão que o Senhor trouxe aqui e particularmente pelos irmãos que vieram para a semana. E pedimos o Senhor abençoe cada um com a tua graça, com iluminação, com clareza sobre as coisas. Nos ajuda a entender os caminhos do Senhor. É o que nós pedimos. Eu peço tua bênção também para os nossos estudantes, a escola do Labri e os que estão chegando agora, que vão se inscrever ou acabaram de se inscrever. Que essa jornada durante esse ano seja um tempo de crescimento espiritual, um tempo para essas virtudes florescerem e a segurança da graça do Senhor aumentar na vida de cada um. Em nome de Jesus. Amém.
Muito bem, gente. A essência da formação espiritual. Mais cedo ou mais tarde, na vida cristã, qualquer crente comprometido vai chegar essa pergunta depois de uns anos, né? Eu melhorei ou piorei? Isso vai acontecer. Isso sempre acontece. Em outras palavras, eu cresci espiritualmente, tô estacionado, tô avançando. Como é que tá? Isso é uma pergunta muito importante, mas é uma pergunta perigosa. É importante porque cria oportunidade de você revisar o seu entendimento da vida cristã, de como ela funciona, remover obstáculos. É perigosa porque dependendo do estado que você tiver e da rede de apoio se você não tiver nenhuma, você pode desanimar de vez. Mas é uma pergunta que além de ser eh perigosa e importante, é inevitável, é necessário, não tem jeito de escapar disso, né? Não enfrentar essa pergunta se eu estou melhorando na vida cristã ou não, é como aquele senhor idoso que não vai no médico para não descobrir que tá doente, né? Né? Vai morrer do mesmo jeito, talvez mais rápido.
Eh, mais cedo, mais tarde também, o pastor, o líder cristão, o educador cristão vai fazer uma pergunta do mesmo tipo, similar. Meu povo tá melhorando ou piorando? E os membros da nossa igreja eh eh precisam de orientação clara. Às vezes eles não estão pensando se eles estão crescendo ou não ainda, né? Como as crianças muitas vezes não pensam, mas a liderança tem que pensar, né? Né? Será que na igreja a gente tá fazendo as pessoas crescerem de fato ou atuando como monitores numa sala de brinquedos ali, né? Não pode ser só isso.
Eh, essa pergunta vem sendo discutida há algumas décadas de um modo bem rigoroso por um movimento interdenominacional que a gente pode chamar, grosso modo, de movimento da formação espiritual, que alguns aqui já conhecem, incluem vários nomes famosos, como o James Hilston, Richard Foster, o James Brian Smith, claro, né? Dallas Willard, que muita gente aqui já passou por ele, já leu e talvez seja o nome mais importante. Mais recentemente a gente tem o John Marker, que publicou, iniciou, na verdade, o ministério Practic Way, praticando o caminho. Daí veio o livro, né, praticando o caminho. Eh, e esse movimento levantou um questionamento sério e profético mesmo ao movimento evangélico no final do século XX, que continua ressoando agora o século XXI. E a pergunta é: onde está o discipulado? Muita gente já fez essa pergunta sobre o discipulado, mas com outro ângulo, com outra perspectiva. Nós tivemos um movimento do discipulado nos anos 70, principalmente vindo lá do sul, do pessoal do do Rio Grande do Sul, da Argentina. E houve também muita discussão sobre discipulado no meio evangélico nos anos 90 e 2000 em termos de eh estrutura de acompanhamento da igreja, em termos de estratégia de educação cristã, que tá certo, faz parte disso. E então não é apenas os envolvidos com movimento de formação espiritual que levantaram a pergunta do discipulado, mas a clareza sobre o conteúdo do discipulado, eh, ela fica muito evidente nesse movimento de formação espiritual. É é muito mais claro do que os outros movimentos que falaram a respeito disso. Dallas Willard chamou o vazio do discipulado. E repito, não estamos falando de metodologia de evangelização, de fixação de membros na igreja, falando de mais do que isso. Estamos falando da formação cristã mesmo. Dallas Willard chamou isso de a grande omissão, que é o nome de um livro, né, dele, inclusive, a grande omissão. E eu vou citar um parágrafo aqui do livro. Há pelo menos várias décadas, as igrejas do mundo ocidental não consideram o discipulado uma condição para ser cristão. Não se exige nem se espera de um indivíduo que ele seja um discípulo a fim de se tornar um cristão. E é possível continuar sendo um cristão sem nenhum sinal de progresso rumo ao discipulado ou dentro dele. As igrejas de hoje, especialmente as americanas, não exigem como condição de memebresia que Cristo seja seguido em seu exemplo, espírito e ensinamentos. Seria ótimo encontrar exceções da tua afirmação, mas elas só serviriam para ressaltar a validade geral. No que se refere a instituições cristãs de nosso tempo, o discipolado é inequivocamente opcional. E ele mostra como exemplo disso livros importantes. Ele cita um livro que fala sobre a conversão e aí o discipulado como uma etapa ali no processo da igreja e não como a própria conversão ou como a vida cristã, né? E esse tipo de raciocínio é bastante comum. Às vezes as pessoas chegam na igreja e perguntam: "Tem discipulado aqui?" Estão pensando no quê? Num programa, né, que a igreja tem.
O movimento de formação espiritual emergiu na busca de recuperar o discipulado cristão, recuperando, na verdade, a figura de Jesus como rabi, como mestre, porque ele chamou o pessoal para seguir e aprender com ele. Ele era, em primeiro lugar, antes de ser claramente identificado como Messias, filho de Deus e tudo mais, ele foi reconhecido como um professor, como um rabi. E para recuperar também a dimensão prática do crescimento espiritual, o que que a gente faz para crescer espiritualmente? Mas esse movimento não é o único preocupado com a qualidade da vida espiritual da igreja antes dele emergir. E simultaneamente o movimento evangélico conheceu outra abordagem a questão do cristianismo autêntico nos movimentos de renovação espiritual. Esses movimentos enfatizam não só a imitação de Jesus, a prática do evangelho, ou talvez, embora falem sobre isso, a ênfase principal é o poder de Cristo na vida do cristão, a experiência do poder de Cristo na vida do cristão. E esses movimentos vieram em ondas, né? Nós tivemos o grande despertamento eh evangélico no século XVI eh nos Estados Unidos, que espalhou, né, para todos lugares, espalhou para Europa, espalhou para Inglaterra. Principalmente nós tivemos o movimento pietista também na mesma época, muito importante. Esses dois movimentos foram fundamentais para formar o que nós chamamos hoje de evangelicalismo, né, ou evangelicismo, o o avivamento no contexto puritano e e o pietismo. Nós tivemos o eh revivio na França, na eh na Suíça, mas também na França, em outros lugares, herdeiros do pietismo. na Holanda, influenciou muito na origem do neocalvinismo. Eh, Groen Van Prinster, foi muito influenciado pelo Revivio. O, eh, Abraham Kuyper também, né, que fundou o movimento neocalvinista, foi um movimento importante. Na Inglaterra a gente tem o movimento de Keswick, os vários movimentos de santidade, Holy, né? Claro, antes disso teve o avivamento wesleyano, não podia, quase cometi um crime aqui. Teve, teve o avivamento wesleyano, mas aí nós tivemos os vários movimentos de santidade e o movimento de Keswick, foi um movimento de renovação espiritual também, como a teologia da vida vitoriosa. Esse movimento foi muito forte na Inglaterra, eh eh nos eh nos Estados Unidos, em países de fala inglesa. Ele foi influenciar muito um autor que muitos conhecem aí, o Watchman Nee, né? Via Margaret Barber, uma missionária e eh inglesa. E muita gente não conhece o movimento de Keswick, mas recebeu alguma influência dele via eh os escritos de de Watchman Nee. Mas teve outros movimentos que eh tiveram influência do movimento de Keswick, que era uma grande conferência de vida cristã que acontecia na cidade de Keswick, na Inglaterra. Então nós temos o pentecostalismo no início do século XX eh início do século XX. Depois nós temos eh a os movimentos de renovação depois da Segunda Guerra Mundial, a renovação espiritual nas igrejas históricas, né? Eu mesmo fui ordenado pastor na Convenção Batista Nacional, que é uma convenção batista que surgiu na onda desse movimento de renovação nos anos 60 e que acabou se separando da Convenção Batista Brasileira, que era mais tradicional na sua teologia, né? E nós temos outros movimentos. Movimento Jesus Movement é outro muito importante, né, do movimento de Jesus nos nos anos 60. Daí surgiu Calvary Chapel, surgiu Vineyard, que revolucionou a adoração contemporânea. Tudo que vocês conhecem hoje, o louvor contemporâneo, eh resulta do dessa passagem aí da fundação da Vineyard e dos novos estilos litúrgicos que ela trouxe. E, enfim, lá antes de existir o Hillsong, existia Vineyard, né? E e daí veio muita coisa que a gente tá bem acostumado. Hoje no Brasil a gente teve também esse movimento de renovação, teve movimentos de louvor aqui que foram influenciados eh pelo Jesus Movement e pela Vineyard também. Eh, oh, por exemplo, eu conversando com AF um dia, ele me contou essa história que o pessoal que gravou o primeiro disco de músicas de adoração congregacional, eh brasileiro, que foi um um era um disco, na época ele gravou com o Don Stall, eh ele foi gravado em estúdios do pessoal do do Jesus Movement lá nos Estados Unidos, né? Mas mas o movimento surgiu aqui de forma independente, mas tinha uma correspondência ali nos anos 60. O próprio Labri, ele cresce e alcança muita gente exatamente no período do Jesus Movement, que era os anos 60. Ele começa 55, já tá pronto ali. Quando chega nos anos 60, aquele movimento hippie, aí você tem o Jesus Movement também. Nesse momento é que o Ministério do Labri acontece com a proposta do que seria a verdadeira espiritualidade, né? Também um movimento de renovação eh espiritual. Muita gente escreveu sobre história e teologia dos avivamentos e um autor que se debruçou muito sobre isso foi um professor do Seminário Gordon-Conwell nos Estados Unidos chamado Richard Lovelace, que foi professor do Tim Keller, né? E o Tim Keller fala na nova introdução do do livro que o eh o Lovelace escreveu, né? Eh, a dinâmica da vida espiritual, ele fala que muita coisa do ministério, da concepção dele de cristianismo, de igreja, veio do Lovelace e que muita gente não sabe de onde veio, até que lê o livro do Lovelace e fala assim: "Ah, é daqui que saiu". E ele confessa isso de boas, assim, na introdução que ele escreveu pro livro. Eh, e esse livro do Lovelace é é um livro importante porque é um é um clássico mesmo sobre teologia da renovação espiritual, sobre os movimentos de renovação que aconteceram na história e o que que a gente pode aprender deles e o que que seria biblicamente mais saudável, né? Então, a dinâmica da vida espiritual.
O movimento de formação espiritual em geral enfatiza o discipulado, disciplinas espirituais e a dimensão prática do crescimento espiritual. O que o movimento de formação espiritual quer ver é a conformação à imagem de Jesus. Na tradição cristã, esse movimento foi chamado antigamente de ascética cristã, sem o sentido pejorativo de ascetismo, o sentido de negação da matéria, do corpo, mas foi chamado de ascética cristã. Os movimentos de renovação tendem a enfatizar a experiência espiritual e a dimensão, essa dimensão foi chamada de mística na tradição, eh, na tradição de teologia espiritual eh cristã. Então, a ascética enfatiza as práticas, os exercícios, a mística enfatiza as experiências. Mais recentemente, um outro movimento que ainda é um pouco incipiente começou em diálogo com esses outros dois, que é a busca de recuperar a esperança do céu e a visão beatífica dentro do protestantismo. Para quem não sabe, visão beatífica é uma doutrina sobre a visão de Deus. É a ideia de que no final de todo o processo de redenção e de crescimento espiritual, o destino final é nós vermos a face de Deus. E tudo no universo gira ao redor disso. Se você lê a Divina Comédia, você vai ver que ela é estruturada assim. No final de tudo, você tem a visão beatífica, né? Você tem a visão de Deus. Essa, isso vem lá da antiguidade cristã, da idade média, tá lá em Agostinho, tá em Tomás de Aquino, mas também estava no protestantismo. Ela está em Jonathan Edwards, por exemplo, que foi o principal líder do Grande Despertamento Evangélico nos Estados Unidos. Então, não é uma doutrina católica, mas ela é pré-protestante essa compreensão, mas tá presente no protestantismo, tá lá em Jonathan Edwards, tá em C.S. Lewis, né? Quem quem tem ouvidos para ouvir, ouça, né? Tá lá presente em outros autores também. Mas esse assunto meio que tinha sumido. Eu conversei no ano passado com um teólogo importante holandês e ele observou isso para mim, que ele fez o curso de teologia inteiro dele na Holanda e ele só foi ouvir falar de visão beatífica depois que ele já tinha formado e que ele já era ordenado. No protestantismo, em vários contextos, essa essa doutrina deu uma desaparecida, deu uma sumida. E esse movimento surgiu como resposta à espiritualidade, teologias evangélicas que enfatizam a vida no mundo. Encarnação, missão, a missão de Deus, a responsabilidade social do cristão, a legitimidade do ordinário na vida cristã, que são temas, por exemplo, que o próprio Labri enfatiza muitos, né? Os calvinistas enfatizam muito. E alguns movimentos surgiram questionando a ênfase excessiva na Terra. Eu lembro de um livro que foi publicado há uns anos do Cornelius Plantinga, eh, foi publicado pela Cultura Cristã, não sei se ainda tá disponível, que o título era eh o eh o céu não é a minha casa. Então, um teólogo chamado eh Hans Boersma, eh que foi professor eh no Regent, eh tinha alguém aqui que estudou no Regent? Eh, acho que acho que tava na durante o retiro. Eh, não tá aqui. Ah, é isso. Foi o Lucas, mas ele não tá aqui. Enfim, eh, e o Hans Boersma ele faz uma crítica, alguns anos atrás, ele fez uma crítica à retórica anticéu no meio evangélico, que para enfatizar que a criação é de Deus e que a gente tem que viver a vida cristã no mundo, começou um discurso meio anticéu, antis sobrenatural, enfatizando as coisas do mundo, eh, ordinárias. Eh, então você encontra um pouco dessa retórica anticéu no movimento neocalvinista. O Cornelius Plantinga que eu citei agora, é um neocalvinista. Você encontra isso dentro eh da teologia da missão integral ou do melhor dizendo, movimento de missão integral. Eh, há um pouco disso também no ensino do N.T. Wright, que enfatiza corretamente que a esperança cristã envolve a redenção da terra. Mas aí esse elemento fica ali presente em alguns momentos, né? E gente, eu sou fã de N.T. Wright, tá? Mas eh eh isso aí é um problema mesmo, né? Esse essa dimensão anticéu, né? Para enfatizar a ressurreição, você elimina a visão beatífica ou pelo menos diminui a visão beatífica. Eh, então você tem uma ênfase muito grande na temporalidade, para de falar do eterno. E aí esses movimentos surgiram, esse movimento surgiu questionando isso, mas é é um movimento ainda no nível da teologia, às vezes até mais na teologia acadêmica. A ênfase desse movimento é a dimensão mística da fé, a união com Deus em Cristo. Mas a discussão sobre o que que é mais importante ou menos importante, que que é o centro da vida cristã? É a esperança do céu ou é a transformação da terra? Essa questão não é só de natureza eh escatológica, é uma discussão de natureza ética. É uma discussão sobre o que é mais importante, o que é menos importante. Uma questão de moralidade, que a moral tem a ver com isso, com o que é central e o que é periférico, o que é o bem maior e o que que é o bem menor e se existe uma hierarquia de bens. Então essa questão moral.
Então, eu citei esses três movimentos porque isso ilustra o modo como a gente deve pensar em teologia da vida cristã. E a gente vai desenvolver isso, vai ter uma aula sobre isso nessa semana, né, aqui na nossa semana de formação espiritual, eh, na quarta-feira, se não tô enganado. Eh, né, essa discussão combina três campos diferentes que se juntam para formar a teologia da vida cristã. Eh, a teologia eh mística trata da natureza da experiência com Deus. A teologia moral fala sobre a ordem eh de bens, o que que é o sumo bem e como os outros bens se se relacionam com ele. E a teologia ascética fala sobre eh as práticas cristãs, as disciplinas para a vida cristã eh funcionar. A teologia moral é muito importante no sentido de organizar a teologia da vida cristã. mostrando o que que é centro e o que que é periferia. E isso é importante. O que é centro e o que é periferia. Isso é muito importante para eh organizar eh a vida cristã. Unindo teologia mística, teologia moral e teologia ascética, nós temos o arcabouço para eh de teologia da vida cristã e para a formação espiritual cristã, que aí obviamente formação espiritual não é só uma coisa que você faz sozinho, é um trabalho coletivo da igreja, né? Mas a igreja para fazer isso precisa pensar nessas dimensões. Na nossa palestra a gente vai assumir que a ascética e a mística são aspectos inseparáveis da formação espiritual cristã. E até mais do que isso, que a partir da teologia moral cristã, a gente vai defender que a mística tá no coração da formação espiritual cristã. Então é disso que a gente tá falando sobre a essência, né? Então, com a ajuda da da teologia moral, a gente vai dizer que o centro da formação espiritual é a teologia mística e a periferia é a teologia ascética. São muitos conceitos para ouvir de uma vez, né? Aprender tudo ao mesmo tempo, mas vocês vão ouvindo, vocês vão entendendo, se Deus quiser.
Eh, a essência da formação espiritual, gente, não é algo que nós fazemos, mas que Deus faz. Isso é importante porque formação espiritual no sentido geral é algo que a igreja faz coletivamente, é algo que a gente recebe, mas do qual a gente também participa. Mas o coração da coisa não é algo que a gente faz, é algo que Deus faz. Uma concepção de formação espiritual, cujo centro seja coisas que nós fazemos, não seria protestante. Porque o protestantismo vai dizer que tudo começa com o movimento de Deus. em nossa direção. Essa é a fé Nicena, né? Jesus não é uma criatura que nos liga a Deus. Ele é meramente, ele é o criador e a criatura na mesma pessoa. Então, Deus é imediato em Jesus. E por isso mesmo a gente tem também uma teologia da salvação que corresponde a essa visão de quem Jesus é. E é uma teologia que vai afirmar, claro, que a gente responde ao que Deus tá fazendo, a gente participa, mas a gente não começa, a gente não inicia, a gente responde ao que Deus tá fazendo, né? Então isso é o evangelho da graça, nada menos que isso. Então uma formação espiritual evangélica teria que ter no centro o que Deus é faz e não o que a gente vai fazer. Daí eu dizer que tem uma essência da formação espiritual. E a essência da formação espiritual não é a ascética cristã, ou seja, as coisas que a gente faz para crescer espiritualmente, mas é as coisas que Deus faz para gente crescer espiritualmente. E a partir daí vem então as disciplinas e a ascética cristã e a teologia prática e como que a gente desenvolve eh isso aí. Eh, a ascética cristã seria como tirar as sandálias na terra santa. Lembra lá do Moisés? A mística cristã é a sarça ardente e a moral cristã é a ordem para tirar sandálias. Mas o centro de tudo é a sarça ardente. Ela que começa o processo inteiro. Mas antes da gente desdobrar esse ponto, eu preciso aprofundar um pouco mais no conceito de formação espiritual.
O que que é formação espiritual, gente? Formação humana, claro, é multidimensional, porque o ser humano é multidimensional. Ela pode ser ética, política, artística, afetiva, para dar uns exemplos. Eh, sendo então o ser humano espiritual, é necessária uma formação espiritual. E se a gente definir o espiritual, segundo a linguagem etimológica latina, grega e hebraica, que relaciona eh eh essa a vida com o sopro divino, né, ou com a respiração, né, o fôlego, né, é esse sentido de ruach, é esse é o sentido de pneuma e é o sentido de pneuma, né? Então, a gente poderia pensar a formação espiritual como o cultivo da relação que mantém o ser humano vivo. Formação espiritual é a relação que mantém o ser humano vivo espiritualmente, como ser humano, né? Não estamos falando, no caso de uma pessoa que já teve morte cerebral, dos aparelhos que mantém o corpo dela funcionando. Nós estamos falando do âmago da existência pessoal. Então, não meramente no sentido fisiológico, mas no sentido integral. O que que alimenta e anima o ser o ser humano no seu âmago? Colocando em outros termos, formação espiritual seria o processo de ordenar mente, afetos e hábitos ao redor de um centro de valor supremo. Porque o ser humano é assim, por ser espiritual, ele busca o que tem o valor supremo. É isso que ele precisa respirar. É isso que ele busca inspirar. Isso é o Charles Taylor chama de hiperbem. é o o que é o bem máximo e que organiza sua vida. Sua vida é organizada ao redor do que você considera o bem máximo. Na linguagem de Jesus, no sermão da montanha, é o quê? É o seu tesouro. Não é isso que Jesus ensina? Todo mundo tem um tesouro. Então o seu tesouro não pode ser as riquezas terrenas. Eh, se se os seus olhos forem maus, eles fic ficarem aprisionados por um um bem inferior, todo o seu corpo vai ser mau. Então, quando Jesus tá falando sobre o que é o tesouro e o que não é o tesouro, ele tá falando sobre o que os gregos chamariam de sumo bem, né? O do bem supremo. Tá falando disso. É por isso que no final do trecho, inclusive Jesus diz: "Buscai em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça e depois todas as coisas serão acrescentadas". Então, tem um centro e uma periferia, tem o bem máximo e o resto. O tesouro é o nome do seu bem máximo. A sua vida é organizada espiritualmente, moralmente, eh eticamente, afetivamente, ao redor do seu tesouro. É, então, e esse ordenamento convergente, quando as pessoas buscam e ou identificam o bem máximo, elas esperam que esse bem dê conta de fazê-las completas. Quando as pessoas procuram um tesouro, elas acham que o tesouro vai resolver o problema. Então, a gente pode falar que isso é um ordenamento convergente, né? Você fazer sua vida girar ao redor desse tesouro, desse centro. E esse ordenamento promete integração pessoal e fazer o indivíduo se achar. Quem achou o bem máximo é é uma pessoa feliz, né? Ou seria uma pessoa bem-aventurada.
A formação espiritual, gente, não se confunde com as outras, nem tá em conflito com as outras. Formação profissional, eh, formação afetiva, formação artística, todas essas fazem parte da nossa vida, tem importância. Mas a formação espiritual tem um lugar crucial, porque ao definir o que é o tesouro máximo, ela tem o poder de colocar todas as atitudes, hábitos e capacidades que a pessoa cultiva a serviço desse propósito. Então você tem sua formação afetiva, sua formação intelectual, tem sua formação artística, enfim, tem vários níveis, mas a sua formação espiritual vai fazer tudo isso que você aprendeu, todos os recursos que você adquiriu girarem ao redor desse centro. Então, a formação espiritual é aquela formação diferente das outras, que movimenta a pessoa inteira numa direção. Isso é formação espiritual. Formação espiritual é a formação que vai fazer com que as várias partes da vida da pessoa se integrem ao redor de um centro. Isso é formação espiritual. Isso é que é diferente das outras. Essa é a diferença em relação às outras. Todas as outras são necessárias, mas a que vai fazer a integração de tudo é a formação espiritual.
Então, a formação espiritual como as outras não é algo que a gente escolhe. Em primeiro lugar, é um aspecto da proposta educacional de cada civilização, cultura, sociedade, todo o povo, toda nação tem uma ideia, tem um projeto de construção da pessoa e da cidadania e vai ensinar pra pessoa o que que são as coisas negociáveis, eh, as coisas relativamente negociáveis e as coisas inegociáveis. Toda a cultura vai fazer isso, mas existem discursos e práticas voltados especificamente para formar a consciência das coisas supremas e nos ensinar a agir de acordo com isso. Em muitas culturas, isso era trabalho de sacerdotes, de profetas, né, de sábios. Eram figuras que estavam presentes no Mediterrâneo antigo, no Oriente Próximo. Eh, no caso, por exemplo, dos gregos, isso era a obra dos filósofos, principalmente dos filósofos ocupados com a eudaimonia, a filosofia da boa vida, né? A filosofia da felicidade, mas não felicidade no sentido psicologizado nosso, né? No sentido mais ético mesmo. As sociedades modernas não escapam do padrão. Nós temos os equivalentes aos sacerdotes, profetas e sábios. Nós temos a classe psicológica, nós temos a indústria cultural, o jornalismo, nós temos os grandes eh heróis culturais, os coaches, os consultores de negócios, inventores, temos a comunidade acadêmica, por exemplo. Nem sempre esses eh grupos enfatizam os mesmos deuses. Às vezes rola uma competição, como havia as guerras dos deuses é, entre os gregos, então no mundo moderno também os deuses muitas vezes estão em guerra, mas mesmo quando eles estão em guerra, eles fazem parte do mesmo panteão, né, a gente pode dizer. Então, a modernidade secular tem o seu panteão, os seus deuses aí que representam seus bens máximos. Sob essa perspectiva, é claro que todos nós fomos e continuamos a ser espiritualmente formados na medida em que aprendemos dos familiares, dos amigos, dos livros, dos filmes, dos costumes, das práticas, das músicas, das instituições sociais. A gente aprende a organizar os nossos afetos em direção a algum bem supremo e adotar estilos de vida correspondentes. Isso nunca é que alguém apresentou para você uma ideia e você disse: "Ah, isso é o meu bem supremo". Isso é transmitido quando tem um herói cultural que representa a devoção a um certo deus, que pode ser o dinheiro, a intelectualidade ou poder político. Então você vê a devoção a certo hiperbem encarnada em um modo de vida de um herói público. E aí você se identificando com esse herói, você aprende dele a mesma devoção. Então, os mediadores dos hiperbens são pessoas que têm seus estilos de vida e têm influência pública, são os heróis. Então, você quer saber qual é a sua verdadeira religião, você tem que identificar o seu hiperbem. Mas para você identificar seu hiperbem, você tem que identificar os seus heróis ou quais são os seus, qual é o seu herói principal ou quem é que governa sua imaginação sobre quem que você queria ser e como você tá se espelhando. Aí por aí você vai ter uma ideia clara de para onde você tá indo. Agora, gente, nesse assunto não tem vácuo. Existir numa sociedade é aprender uma espiritualidade. O que a gente pode fazer como pessoas adultas é decidir se a gente vai participar conscientemente ou não do processo de formação, porque formado você vai ser. O que você pode fazer é participar sabendo ou fingir que não tá acontecendo. Se você faz isso conscientemente, se torna então um projeto de espiritualidade. E aí você começa a falar realmente uma participação na formação espiritual. Repito, ela vai acontecer de qualquer jeito, mas ela pode ser o seu projeto. E essa é uma escolha que a gente tem que fazer, né?
O John Marker no livro dele lá, o o eh praticando caminho, diz o seguinte: "Para aqueles de nós que desejam seguir Jesus, aqui está a realidade que devemos enfrentar. Se não estamos sendo formados intencionalmente por Jesus, então é muito provável que estejamos sendo formados de maneira não intencional por outro alguém ou por outra coisa". É isso. Você precisa descobrir o que que tá acontecendo no sentido cristão. O que seria a formação espiritual? Então, não pode ser outra coisa senão o discipulado de Cristo, ou seja, o aprendizado de Jesus Cristo. Mas para aprender o quê de Jesus Cristo? Como é que Jesus funcionava espiritualmente? Porque Jesus também era uma pessoa humana. E Jesus viveu também ao redor de um centro. Então Jesus, nesse sentido, é o modelo, é o padrão, né, de exemplaridade para eh e nesse dia deve ser um herói, né? Então, se Jesus se tornar o seu herói, então aí você pode realmente aprender o que ele vivia, enxergar o que ele enxergava, ouvir o que ele ouvia, desejar o que ele desejava. Então é isso, a formação espiritual é esse processo de identificação com o exemplo, o herói, o padrão, que por sua vez eh o que ele tá exemplificando é o que como aparenta uma vida vivida totalmente ao redor de certo centro, que é o que todo herói vai fazer. E é isso que acontece, isso é que é transmitido no processo de formação espiritual.
Então, o que nós aprendemos com Jesus? Qual é o assunto do aprendizado com Jesus? Certamente se trata de aprender com ele a ser uma pessoa humana. E essa tem sido uma das respostas mais comuns sobre o sentido do discipulado. Aprender esse caminho com Jesus a partir da absorção da sua doutrina ética disposta no Sermão da Montanha, a imitação do seu caráter santo narrado nos evangelhos. Tudo isso é chave para a transformação espiritual. Mas dizer isso ainda seria pouco se nós não esclarecermos o sentido profundo da existência de Jesus Cristo. Sem essa luz fundamental e esse aprendizado da plena humanidade pelo segmento de Jesus, eh isso poderia ser indistinguível de um indistinguível de um moralismo, né? Quer dizer, Jesus é um cara muito correto. E aí ser um cristão é imitar Jesus e ser uma pessoa muito correta como Jesus foi pessoa muito correta. Tem tem que ir mais longe do que isso, né? A gente existe esse perigo. Às vezes as pessoas tentam apreender a forma moral da vida de Jesus sem captar e reviver o seu conteúdo espiritual. Então, a vida de Jesus tem uma forma moral, mas imitar o comportamento de Jesus ainda não chega lá. A questão é: Qual é o conteúdo da vida de Jesus? Essa pergunta tem que ser eh levantada, o conteúdo espiritual. E nesse sentido, então, além de recuperar a ética de Jesus e de vivenciar o poder salvador de Jesus para tirar a gente do pecado, a formação espiritual precisa recuperar o propósito de Jesus Cristo. Qual que é a espiritualidade de Jesus? Qual é a espiritualidade de Jesus? Como funcionava a mente, o coração, a existência de Jesus? Porque é isso que ele tava ensinando, era só um comportamento, né? Era mais do que isso. Agora, gente, se Jesus é Deus, como o Novo Testamento ensina, esse propósito de Jesus não pode pertencer meramente ao mundo das criaturas. Ele tem que começar a interligar em Deus, ainda que envolva toda a criação e todas as criaturas. Então, eu diria preliminarmente que a essência da formação espiritual é aprender a olhar para onde Cristo olha e caminhar por onde Cristo caminha e enxergar o que é que Cristo tava enxergando. E aqui o movimento de formação espiritual se encontra com os movimentos de renovação espiritual, no entendimento da vida espiritual de Jesus. O centro da formação espiritual tem que ser a vida espiritual de Jesus.
Mas antes disso, a gente precisa dar um um passo atrás. A gente já deu um para definir o que é formação espiritual. Vou dar mais um para entender o projeto de formação espiritual que atualmente domina a nossa cultura. Porque isso é o pano de fundo, o contraste com a formação espiritual cristã. E gente, nós estamos numa era secular que tem um projeto de formação espiritual também. Existe uma forma de apresentar o evangelho que enfatiza os benefícios que nós recebemos da ação salvadora de Deus, no sentido de nos livrar dos pecados, nos tirar da condenação e restaurar a vida humana no mundo. O pecado bagunçou a criação. Então, a salvação restaura a criação. Essa ênfase que não está errada, mas eu vou dizer que tá incompleta. Essa ênfase tem sido muito forte nos movimentos religiosos e teológicos do século XX. O evangelho como restauração da vida humana no mundo. Na teologia da prosperidade, que alguns vão dizer que nem mereceria ser chamada de teologia, né? Mas é uma teologia. Na na teologia da prosperidade, por exemplo, há uma ênfase grande em como a bênção divina vai trazer uma vida boa na Terra. Também, mais recentemente, nós temos uma outra teologia que é um spin-off da teologia da prosperidade que foi assim chamada teologia do coach, né? Que nada mais é do que uma versão psicologizada e pasteurizada da teologia da prosperidade, uma versão classe média, eh, enfim, da teologia da prosperidade, que torna Deus a chave, não meramente para a riqueza, para você vencer na vida e pros seus filhos ir pra faculdade, mas para o seu desenvolvimento pessoal, né? Para você ser uma pessoa de sucesso, que é um um objetivo um pouco mais avançado do que meramente grana, né? e prosperidade financeira. De um modo diferente, nós temos a mesma tendência em algumas teologias da missão contemporâneas que enfatizam a relevância do evangelho para a história e a vida pública. E isso também é importante. Eu participei, bom, para quem não sabe, eh eu sempre me identifiquei como, eh, defensor da assim chamada teologia da Missão Integral, até eh que em 2006 a gente publicou, eu, um grupo de amigos, publicamos um livro chamado Cosmovisão Cristã e Transformação pela Editora Ultimato, esse livro que até ganhou o prêmio Areté na época, o melhor livro de cosmovisão e cultura. E nesse livro a gente fez uma crítica eh do movimento de missão integral e eh isso gerou uma convulsão que levou alguns anos, né, dentro do contexto evangélico. Hoje a coisa já tá mais calma, né? A gente consegue conversar com mais com a cabeça fria sobre o assunto, mas é um um debate de longa data, né, que a gente participou. Mas então existem essas teologias de missão contemporâneas que enfatizam que o evangelho é relevante para a história, para a vida pública, que o cristianismo não é só evangelização, a missão não é só evangelização, mas também responsabilidade social. John Stott falava de duas asas, né? a asa da responsabilidade social, testemunho prático e a asa da evangelização. Há uns 10 anos eu participei um pouco mais participei de uma consulta teológica no Seminário Palavra da Vida em Atibaia, que discutiu a certa altura qual posição a a Fraternidade Teológica Latino-Americana que era ligada a esse movimento de missão integral, qual posição ela devia tomar em relação à teologia da prosperidade, que tinha crescido muito e tava entrando em igrejas históricas. E a gente teve um debate grande lá, vários teólogos estavam reunidos o Brasil todo. E uma tese que foi defendida nessa consulta teológica com líderes de vários país, de várias partes do país, é que o problema da teologia da prosperidade não seria a a ênfase na qualidade de vida e no florescimento humano, porque isso estaria de acordo com o evangelho. Então esse não seria o problema da teologia da prosperidade. O problema da teologia da prosperidade seria o método ou o caminho proposto para chegar na no florescimento humano. Porque o caminho proposto pelas teologia da prosperidade era um caminho ideológico, era um caminho baseado no American Way of Life. Eh, ele basicamente era inclusão no mercado de consumo e no sistema de capitalismo neoliberal. Então, o problema da teologia da missão, eh, da teologia da prosperidade não seria enfatizar que o evangelho vai transformar sua vida na Terra, mas a ideologia é errada. E se você tivesse uma visão correta da realidade, estaria tudo bem. Eh, então, o ponto seria ter uma visão mais crítica e mais inteligente da sociedade, da justiça e tal. O, eu tava nesse evento, né, o Igor Miguel também, pastor Igor lá da Esperança. E a gente ficou se entreolhando ali, né, mano, tem um negócio errado aqui. e a gente levantou essa bola e teve um debate, né, quente em torno disso, que não chegou a uma conclusão clara, mas o debate é muito importante porque ajudou a cristalizar na nossa percepção, eh, a gente constatou que realmente havia uma tendência crescente nessa altura, nos meios teológicos, evangélicos do país, de eh confundir os efeitos do evangelho com o melhoramento da vida humana aqui na Terra. Embora isso também seja verdade, mas não é o centro da coisa. Existem várias versões desse tipo de perspectiva, várias versões de que o sinal principal da presença do evangelho é a sociedade transformada, é uma sociedade justa, democrática, baseada no nos valores do evangelho. Eh, eu demorei um pouco para formular isso, mas colocando as cartas na mesa, né, depois de debater isso muito, né, eh, a gente entende que essa visão tá errada na essência, nos fundamentos. A coisa mais importante que a gente recebe no evangelho não é o florescimento humano, nem é uma coisa que Deus faz para melhorar nossa qualidade de vida aqui, nem mesmo a restauração do mundo, que é uma promessa claramente bíblica, nem mesmo a restauração do mundo. A coisa, entre aspas, mais importante que nós recebemos no Evangelho é o próprio Deus mesmo. Não são essas coisas, né? Nem a cura do mundo. A coisa mais importante que nós recebemos no evangelho é o próprio Deus. Ainda que isso, obviamente tem um impacto no florescimento humano, no melhoramento da vida temporal, nas promessas para uma vida transformada, ressurreição física, tudo isso é maravilhoso e faz parte das promessas, né? Mas o coração do evangelho é o próprio Deus, né? Salmo 63:3. A tua graça é melhor do que a vida. Mas é claro que você tem que estar vivo para desfrutar da graça, mas a graça é melhor do que a vida. Ou Salmo 27, vocês vão reconhecer uma coisa: "Peço ao Senhor e a buscarei: Que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo". Será que isso esgota o propósito de Deus para a vida humana? Não, mas define o centro. Essa é a questão. Define o centro. Essa questão é da maior importância, porque com respeito ao lugar do cristianismo na sociedade contemporânea, uma das maiores tentações, se não for a maior de todas, é a perda do telos. O que é telos? Telos é um termo grego que significa destino, propósito, finalidade. Por que o mundo foi feito? Qual o destino da história? Por que a salvação está sendo realizada? Nós estamos aqui no terreno da teologia moral, inclusive não só teologia fundamental e teologia moral. Por que isso tudo tá sendo feito? Para chegar aonde? Toda a obra de Deus na história é para transformar as coisas no quê? O termo grego telos significa destino, fim ou propósito. Toda ação ou empreendimento humano tem um telos implícito ou explícito, confessado. E pra gente saber o que a gente tá construindo coletivamente, nós temos que definir nossos telos claramente. E aqui nós temos a grande.
A tentação do homem moderno, porque uma das características centrais da modernidade foi justamente a constituição de um telos intratemporal, sem eternidade. Os antigos acreditavam que além do mundo tem algo maior e melhor do que o mundo, mas os modernos não acreditam nisso. Para os modernos as coisas acabam aqui mesmo, né? Não tem eternidade.
Charles Taylor, na obra principal dele, "Uma Era Secular", ele argumenta que nós vivemos num mundo que legitimou o ordinário, até por influência protestante mesmo, legitimou o ordinário e erigiu o florescimento humano como telos e destino supremo. Qual é a coisa mais importante da existência? É a vida boa dos seres humanos hoje. E é isso aí. Isso é o telos moderno.
Mais do que isso, a era secular incorporou aspectos da cosmovisão cristã, como a escatologia cristã de aceleração linear, de que a história estaria se movendo por uma lógica dela a um destino superior. Afirmação positiva da matéria, que nem todos viam assim, os hindus não viam assim, os gregos era ambíguo isso, a caridade cristã, o conceito de amor cristão, isso não existia até o cristianismo. E a sociedade secular mantém o conceito de caridade cristã, de auto sacrifício, eh de eh igualdade de todos os seres humanos, de fraternidade universal. Tudo isso é herdado da tradição eh da tradição cristã.
O que acontece que a modernidade toma, porque obviamente, gente, vamos pensar aqui, tá, até por uma lógica da história, um mundo que nasceu da cristandade só poderia construir as suas categorias com materiais emprestados que estavam disponíveis. Então, a cristandade foi desmantelada, né, mais ou menos como aconteceu ali com Roma, quando Roma ou enfim, com outras cidades antigas, né, que entram em colapso e ficam eh perdem população. Então, elas vão ser reconstruídas e as pedras dos templos antigos, dos edifícios, são incorporadas em outras novas construções, né? Então, quando a cristandade é desmontada, o material disponível para reconstruir as categorias são categorias judaico-cristãs, já afundidas com categorias greco-romanas e outras. E é importante ter isso em mente, tá? A gente ainda vive em um ambiente em que as pedras foram cortadas e polidas pela igreja cristã num período de 1700 anos. A as não é mais uma igreja, a construção não é uma igreja, mas você chegar perto e olhar as pedras, você se reconhece de onde elas saíram, tá? Isso é um fato da da cultura contemporânea. Eh, então, esses elementos foram incorporados, mas colocados a serviço de uma nova visão de um paraíso terreno de cidadanias intramundanas. Não tem mais o céu e um Deus lá em cima, não tem isso. Então essa é uma das características do mundo moderno.
O existe uma série de palestras muito importantes sobre eh fé, ciência e sociedade na na Inglaterra. Ela são as chamadas Gifford Lectures. Muita gente importante a palestras. Einstein, por exemplo, deu Gifford Lectures e outras pessoas. O Alister McGrath deu recentemente as Gifford Lectures e o foi foi traduzido em português como "Escatologia e História". É um livro que eu acho bastante importante. Eh, a essas palestras do McGrath se tornaram uma influência bastante importante para mim. Então, em "Escatologia e História", as Gifford Lectures do McGrath, ele fala sobre o nascimento da modernidade do ponto de vista ético, como a redenção do epicurismo. O epicurismo era uma filosofia moral grega antiga, eh entre as várias visões sobre felicidade humana, vários conceitos de eudaimonia, né? E essa a visão epicurista era uma dessas visões sobre a felicidade era de que tudo é matéria. Os deuses não existem, ou se existem, não estão nem aí pra nossa felicidade ou pro nosso destino. Então nós precisamos de forma racional, num mundo sem sentido, no mundo de matéria, organizar a nossa vida para minimizar a dor, maximizar o prazer dentro do possível pra gente ter vidas estáveis, vidas boas. Então, é uma filosofia bem pragmática, né, nesse sentido. Eh, o que importa para os epicuristas é ordem natural. A gente precisa entender como que a ordem natural funciona pra gente se adaptar e usar isso a nosso favor e ser feliz aqui na Terra, que é o que é possível.
Os estoicos também tinham uma filosofia de ordem natural, eh, mas eles tinham uma noção de transcendência que os epicuristas não tinham, né, ou não fazia parte do universo deles. Mas tudo reduzia no final a natureza. Eh, os epicuristas e estoicos, para lembrar vocês, eram os dois grupos de filósofos que estavam presentes em Atenas quando Paulo foi pregar o evangelho. E vocês vão lembrar que quando Paulo pregou, eh, ele, esses dois grupos que debatiam, eles tinham seus projetos de felicidade e de vida ética. A filosofia epicurista e estoica eram filosofias da vida moral e da felicidade terrena. Era basicamente isso. Eram diferentes, mas eram filosofias da felicidade terrena, que é o que dá para ter aqui. Então, quando o apóstolo Paulo chega dizendo que existe uma ressurreição dos mortos, isso bagunça tudo. Porque Paulo estaria propondo uma felicidade que é é uma outra racionalidade. Porque se é uma felicidade que tem a ver com a vida, com uma outra vida, com uma ressurreição e com uma outra vida que vai além da da ordem atual, então eh as metas de felicidade e moralidade dos epicureus, dos estoicos, eh seriam suplantadas. O objetivo da vida não seria o modelo, eh, epicurista de felicidade, seria um outro modelo. É por isso que os dois grupos rejeitaram. Não é só porque eles não acreditavam no sobrenatural, é porque a ressurreição, o conceito de ressurreição de um deus transcendente introduz que muda o conceito de felicidade e aí já não ia funcionar mais para aquelas filosofias. Essa era a questão ali. Então não havia chance deles apoiarem, né, o projeto de Paulo. Por isso que eles rejeitam.
Agora vamos dar um salto aí, né? 1400 anos adiante para a aurora da modernidade. A Europa tá vendo o Renascimento, o retorno aos clássicos, os textos originais estão sendo procurados. Nessa época a gente tem o humanismo bíblico, temos Erasmo de Roterdã, traduzindo eh o Novo o eh reorganizando, né, o texto grego do Novo Testamento e e buscando fazer tradução dos originais. Nós temos Lutero também vai fazer uma tradução da Bíblia para o alemão corrente. Eh, mas simultaneamente nós temos outros movimentos ad fontes que estão buscando as origens da sociedade europeia na civilização clássica. Nem todo mundo que estava ocupado em estudar Bíblia. E muita gente foi recuperar Platão, depois foram buscar Aristóteles, mas também recuperar Epicuro. Isso é muito importante. Maquiavel, por exemplo, que foi essencial para eh separação metodológica entre entre ética e poder político, né? E tá na fundação do pensamento político moderno, foi tradutor de Epicuro para o italiano. Isso é muito importante, porque o na parte de filosofia moral, o interesse por Epicuro cresceu e se generalizou na Europa. E às vezes ele não é enfatizado. Às vezes todo mundo fica pensando ali no Platão e Aristóteles e quem influenciou quem ali no na aurora da modernidade. Mas Epicuro foi muito importante para formar o imaginário moral da sociedade moderna. Por que os modernos escolheram Epicuro? Porque eles buscavam a ética que fosse, que tivesse ressonância com o antropocentrismo e com a ideia de que nós podemos e devemos assumir o controle do nosso destino, reestruturar o conhecimento, ordem social, política, reconstruir o nosso mundo por um procedimento racional e controlado. E o aristotelismo e o platonismo não eram apropriados para essa ênfase, mesmo o platonismo, né, com a sua ênfase na trans, especialmente, né, com a sua ênfase na transcendência. E eles queriam se afastar da síntese tomista, né? O Aristóteles, que era conhecido, era o Aristóteles de Tomás de Aquino, que já estava a serviço do cristianismo, a serviço da visão de Deus, a serviço da vida eterna. O Epicuro é um cara para você romper com a mente cristã e propor uma vida moral na terra, sem céu, sem nova criação. É um projeto aqui. Então a gente tem essa ciência do poder puro em Maquiavel. Enfim, resumindo a história, a dúvida sistemática em Descartes, a Nova Atlântida de Bacon, Leviatã de Thomas Hobbes, todo mundo propondo soluções, eh, de algum modo soluções terrenas, mesmo Descartes, que é um cristão de fato comprometido, né, o caso e Bacon também, mas Descartes era mais claramente o católico comprometido. Mas o sistema de filosofia, os sistemas de filosofia que eles foram construindo são sistemas da autonomia humana.
O que vai acontecer nesse contexto em que todo mundo tá enfatizando eh o antropocentrismo de um jeito ou de outro na epistemologia, na teoria política, em outros contextos, começa a emergir a noção de um paraíso terreno, que seria diferente do paraíso bíblico. Essa ideia, na época da Revolução Francesa, já tá totalmente desenvolvida. É através de esforços humanos, racionais, da técnica, da filosofia natural, da inteligência política, que nós vamos criar uma nova sociedade aqui na Terra. Vários autores cristãos estudaram isso. Um dos que documenta isso melhor é um autor que a a gente traduziu para o português, foi lançado pela editora Ultimato, chama "Capitalismo e Progresso", do Bob Halsward. Um outro autor chamado Egbert Skirman também escreveu o livro "Tecnologia e Futuro", escreveu também um livro sobre isso. A gente publicou um dos livros dele numa série de fé e ciência da editora Ultimato. Tem vários autores que falam sobre esse processo de criação do paraíso terreno. Mas eu acho que o Alister McGrath fez uma contribuição essencial nesse livro, "Escatologia e História". Tive argumento nesse livro que a ideologia do progresso moderno, que é a ideia de que nós vamos avançar através de progressos tecnológicos, políticos, eh científicos para construir um paraíso terreno, essa ideia surge de uma fusão da escatologia cristã que enxerga um paraíso, não lá em cima, mas lá na frente, um paraíso futuro. A fusão da escatologia cristã, a esperança em um mundo melhor e renovado, com o epicurismo, que não acredita em um mundo transcendente e em uma felicidade além da natureza. Quando se junta a esperança cristã, por assim dizer, de um mundo melhor, com a crença epicurista que não existe uma vida eterna ou valores transcendentes, aí o que que você vai ter? Você vai ter o paraíso terrestre no futuro que nós vamos construir por meio de ciência, tecnologia e política. A, o máximo da felicidade é a vida boa. Aqui não existe outra vida boa. Isso é epicurismo. O máximo da felicidade é a vida boa aqui. E a história tá se desenvolvendo segundo o mecanismo que vai nos levar a esse paraíso futuro em que a vida vai ser boa para todo mundo. Isso é o ideal de progresso. É uma mistura da escatologia cristã com o epicurismo. E isso é importante, a caridade cristã, por causa da ideia, então, de que nós todos vamos trabalhar juntos para construir um mundo melhor. E você pode imaginar isso comigo, né? Não vai ter céu em cima de mim, nem inferno embaixo, né? Nós vamos construir esse mundo diferente aqui na Terra e nós vamos chegar lá, tá lá no futuro, mas a gente tem que seguir as leis da história e fazer o dever de casa e nós vamos chegar lá, né? Então, todo o progressismo moderno eh tá baseado nessa expectativa, nessa interpretação, né, da do cristianismo.
Então, nós temos um telos intratemporal. Como eu disse, a ética cristã não é totalmente rejeitada, né? Sobra algo, mas é tipo um óleo de coco, assim, você não tem mais o coco, né? Não tem a água do coco, você tem o óleo do coco, você extraiu e eh tem um cheiro de coco, mas não é o coco. Eh, então eh no livro "Dominion" ou "Domínio", o historiador britânico Tom Holland vai falar sobre a caridade cristã. Ele diz que que toda essa ênfase na igualdade dos seres humanos e no dever de proteger o mais fraco e na solidariedade humana que isso não tinha os romanos de faziam ideia do que era isso, nem os gregos. Isso é cristianismo. E o Tom Holland não é cristão, mas inclusive ele gostava muito de estudar a história antiga, mas quando ele foi fazer essa história da cultura ocidental, ele chegou à conclusão de que o cristianismo venceu. E ele fala assim: "Eu não creio em Deus, mas eu sou cristão, porque eu acredito no ágape cristão". Ele fala isso abertamente no livro. Eh, deu entrevistas sobre isso e, enfim, o livro tá até disponível em português.
Agora, no finalzinho do livro, é um tijolo assim, no finalzinho do livro, o Tom Holland fala que a guerra do do identitarismo, do wokeísmo com os conservadores religiosos, seria, na verdade, uma guerra civil dentro da cristandade. É a leitura dele. Por quê? Porque o principal argumento para defender o respeito e o reconhecimento dos vários estilos de vida, das várias identidades e os direitos humanos, é a caridade cristã. Mas aí é a sacada dele. No caso desses movimentos, a caridade cristã tá misturada com conceitos de felicidade terrena que não são cristãos. Eles têm origem lá, é o epicurismo, né? Então, esses movimentos é exatamente isso. Eh, se você junta, então, a escatologia cristã com eh com epicurismo, você tem o ideal de progresso. Se você junta a escatologia cristã, epicurismo e a caridade cristã, então você vai ter um ideal de uma sociedade igualitária, afirmativa de todos os estilos de vida que forem adequados para cada um se sentir bem e ser feliz. Aí a gente chega no em algo do que a gente tem no mundo contemporâneo, né? É assim que se formou eh a modernidade secular.
Então, gente, desenvolveu seu projeto de formação espiritual. Isso é o que a gente fala nos contextos aí quando a gente fala sobre revolução afetiva. Isso é a terapêutica moderna. Terapêutica moderna é um projeto de formação espiritual que herda aspectos do cristianismo, mas tem um centro terreno, né? Essa é a terapêutica moderna descrita pelo Philip Rieff, né? As pessoas que são formadas nesse contexto é elas são o que Edgar Cabanas chama de cidadãos, né? O reino de Deus tem seus cidadãos, o reino do mundo tem seus cidadãos, mas o reino da terapêutica, né, da felicidade, dos do reconhecimento de todos os estilos de vida hedonistas, é o é o é o reino dos cidadãos, né? E enfim, talvez você seja um cidadão também. né? Você é uma pessoa que tá comprometida em buscar seu bem-estar e sua felicidade pessoal. Todos os estilos de vida valem desde que não interfira na sua felicidade pessoal. Então isso é eh é a formação espiritual da nossa sociedade.
Carl Trueman escreveu um livro muito importante, a gente sempre recomenda, "Ascensão e Triunfo do Self Moderno". É um livro que ajuda você a entender essa formação espiritual eh secular moderna. Mas eu quero mencionar aqui o o John Mark, no livro "Praticando o Caminho", elogia nas notas de rodapé logo no início o livro do Carl Trueman e ele diz o seguinte: "Considero o livro do Trueman um dos escritos mais importantes da última década". Então isso é importante. Eh, você quer ler o eh "Praticando o Caminho", você deve ler também eh "Ascensão e Triunfo do Self Moderno", porque um dá o contexto para o outro. Então, gente, a terapêutica moderna tá aí, é um assunto que a gente fala em outras palestras, mas vamos avançar no problema da formação espiritual moderna. Esse mundo que criou um paraíso terreno e que vai dizer que a felicidade que existe é a felicidade temporal e que vai tornar consequentemente os nossos heróis as pessoas que atingiram o máximo de felicidade, bem-estar e sucesso nesse mundo. Eles vão ser os nossos heróis, os representantes dos hiperbens da sociedade moderna terapêutica.
Isso cria uma situação difícil para o cristão em geral. Porque a gente tá vivendo há alguns séculos em um lugar no ocidente moderno, agora não só ocidente, em que todo mundo tá dizendo que é possível construir um mundo melhor, tendo como objetivo a felicidade individual, o bem-estar de cada um. Nós fomos educados nisso. Aí a maioria de nós pensa e trabalha com uma concepção de democracia liberal expressivista, né? Ou seja, cada um vai cultivar seu estilo de vida dentro do guarda-chuva democrático. Nesse contexto, surge a tentação de tentar mostrar que o evangelho é relevante, porque ele supostamente ajuda as pessoas a atingirem os mesmos objetivos que a sociedade inteira tá buscando. Se todo mundo diz que felicidade e amor é você buscar a melhor vida possível nesse mundo e o estilo de vida hedonista que te apetece, você vai ser tentado a explicar pras pessoas que o evangelho é bom porque ele faz exatamente isso, só que melhor do que o mundo, né? Então, isso é a tentação que surge nesse contexto. Então, isso é uma espécie de anticristo, porque é o é o ágape cristão. Você olha ali, parece o ágape cristão, não é, né? Você vê aquela serpente que tem um uma eh ela tem um membro que ele parece um inseto, né? Tem esse bicho, né? Ele tem um parece um inseto e aí o ratinho vai lá comer o inseto ou outro bicho e aí ele a serpente pega. Então, eh, o conceito, pelo menos a ideia de ágape cristão, a ideia de um mundo melhor, né, lembra muita coisa do cristianismo porque foi tirada do cristianismo, mas foi encaixada num outro projeto.
Então, esse contexto dificulta manter a distinção cristã, porque aí você vai afirmar o caminho cristão e tem hora que tá parecendo que você não quer um mundo melhor. Se você é muito radical na sua fé, parece que você não tá concordando com o mundo melhor. Você não tá concordando com o amor pelo próximo, porque você não tá concordando com o epicurismo e com o que eu chamei então de desvio teleológico. O que é desvio teleológico? É um sumo bem que não é o sumo bem das escrituras. É um outro tesouro. Ele ele é apresentado num pote cristão, judaico-cristão, mas é um outro tesouro. É, então é claro que o caminho, o amor de Cristo é diferente, né? Jesus tá tomando a cruz, abrindo mão das coisas, vivendo pelo próximo. Não é isso que a nossa sociedade propõe.
Em 2015, alguns anos depois daquela consulta teológica em Atibaia, eu participei de uma mesa da Aliança Evangélica na Igreja Batista do Povo em São Paulo, que foi presidida pelo Ziel Machado, amigão, é pastor da Metodista eh lá em eh em São Paulo e diretor do Seminário Servo de Cristo. Ele que me convidou para essa mesa e nessa mesa eu descrevi essa tentação como o grande desvio teleológico da consciência moderna. É a grande tentação e eu considero a principal heresia da modernidade. A gente teve no passado o arianismo que negou a divindade de Jesus. Tivemos as negações da Trindade, temos a soteriologia católica tridentina que mistura fé com obra de um jeito problemático, não entende direito a graça de Deus e tem muitas heresias ao longo da história cristã. Mas eu acho que a maior heresia da modernidade é esta. A grande heresia é a criação de uma versão de paraíso terrestre que nós vamos alcançar por meio da democracia e da tecnologia. Essa é a grande heresia, porque nesse caso a gente não precisa de Jesus, precisa de outro tipo de líder. E isso vai abrir as portas para um anticristo eh em uma escala civilizacional, né? Então, isso é a heresia da modernidade, é o mundo melhor sem Deus. Mas isso então se torna a grande heresia do cristianismo moderno também, transformar o melhoramento da vida terrena como o maior objetivo do evangelho. Porque nesse caso Deus não tá mais no centro da coisa. A gente mantém a casca inteira, porque a Bíblia tá cheia de ensino sobre como Deus tira a gente do Egito, liberta a gente da escravidão, cura doenças, nos dá alimento, nos dá segurança, nos dá filhos, treina as nossas mãos para a batalha e por aí vai. E tá certo, todas essas coisas Deus dá mesmo. Tá cheio disso nas escrituras. Só que nada disso é o centro. Problema é esse. Nada disso é o centro.
Dois anos depois, em fevereiro de 2017, eu escrevi um artigo que tá lá no meu Substack e em alguns outros lugares. "Para Além do Integral, o Eterno: Uma Nota Autobiográfica". E aí eu desenvolvi essa alegação. Quem quiser pode procurar depois. Na época o Ziel ficou até pensando meu argumento, mandou alguns alunos do Servo de Cristo lerem. Não sei se ainda leem, mas na época eu sei que eles leram. Mas o meu ponto, resumindo no final, é o seguinte. A Bíblia diz: "Buscai em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça e todas as coisas serão acrescentadas". Mas veja bem, se o reino e a justiça de Deus forem a mesma coisa que o melhoramento e a cura da vida temporal, que muita gente fala assim: "Ah, o que que é o reino de Deus?" Reino de Deus é o evangelho chegar e a vida das pessoas mudar. OK? Se o reino de Deus e a sua justiça for a mesma coisa que o melhoramento da vida terrena, se o todo da vida terrena renovado foi a mesma coisa que o reino de Deus e a integralidade das coisas redimidas foram o reino de Deus, qual é a diferença entre buscar o reino de Deus em primeiro lugar e buscar todas as coisas? Para você buscar em primeiro lugar o reino de Deus e todas as coisas serem acrescentadas, então todas as coisas não é o reino de Deus, é isso, são coisas diferentes. Ou pelo menos você tem que falar de centro e periferia. No mínimo, você tem que falar de centro eh e periferia. O reino de Deus tem que ter um centro, um ponto que se distingue de todas as coisas e que influencia todas as coisas. Então, buscar o reino de Deus não pode ser buscar o projeto religioso cristão, que vai melhorar a vida das pessoas, que é o que todo mundo quer e que o anticristo vai oferecer também. Buscar em primeiro lugar o reino de Deus tem a ver com telos, um outro centro que vai arrastar todas as coisas com ele, mas não é todas as coisas. E esse outro centro, repito, é Deus.
A heresia teleológica é uma ruptura com o teocentrismo bíblico que desorganiza toda a estrutura de valores do cristianismo. E eu quero enfatizar esse ponto. A ênfase cristã clássica na devoção, a prioridade da piedade na vida cristã é algo que não funciona se você confundir o centro do evangelho com o melhoramento da vida temporal, mesmo que você use uma linguagem eh religiosa para isso. E eu não estou dizendo que o melhoramento da vida temporal, a qualidade de vida, saúde, santificação no sentido holístico não sejam importantes pra igreja de forma alguma. Se eu ver as palestras do Labrício vai ver que a gente fala toda hora sobre isso, né? Sobre esses temas. A arte importa, a ciência importa, a saúde mental importa, é o ordinário, o comum é importante. A gratidão deve estar presente em todos os momentos, até no cafezinho. Tudo isso é de Deus, né? Então, e se você ouvir as palestras do Labrício, vai ver a gente dizendo que o mundo contemporâneo ele tem essa terapêutica secular e a gente tem que ter uma contratratêutica no sentido técnico da palavra, ou seja, um projeto de felicidade integral, um projeto de vida cristã integral, né? Uma contraformação que vai envolver todos os aspectos. Então, tudo faz parte, sim, da vida cristã, faz parte do horizonte pastoral, faz parte da missão. Responsabilidade social é parte da missão cristã também. Precisamos apresentar um jeito diferente de organizar vidas afetivas. Sim, tá tudo certo. A questão é que e então a vida cristã não é só o centro. A vida cristã é o centro e a periferia. Tudo que gira ao redor do centro faz parte da vida cristã, né? A questão é que o valor não é igual, é assimétrico. Então tem as coisas mais importantes e menos importantes. Então quando a gente entende isso, muita coisa vai ficar mais fácil eh na vida cristã. Inclusive, você vai entender um ponto. É assim que as práticas espirituais não vão virar um um moralismo. É assim, porque aí você tem um centro e o centro vai impedir que as práticas espirituais que a gente precisa ter se sejam confundidas com esse centro. Ou seja, a essência da vida cristã, ao invés de ser o encontro com Deus, ser as práticas cristãs que organizam a sua vida moralmente, te deixam uma pessoa completa, que esse é o perigo, a gente começar a falar de disciplinas espirituais, dos benefícios que elas trazem e daí a pouco qual é a diferença entre o que a gente tá falando e o wellness, né? A gente vai virar a mesma coisa, né? Como que a gente sabe que não é a mesma coisa? É que o centro é diferente, né?
Nesse ponto, inclusive, que eu acho aí para os que gostam de teologia bíblica, que o Tom Wright não ajuda tanto porque ele recupera muitas coisas importantes de teologia bíblica, mas esse centro e o lugar da doutrina da Trindade, no meu julgamento não fica tão claro na teologia do Wright. E aí, para quem gosta, como eu disse, John Barkley apresentou umas críticas importantes à teologia bíblica do Wright, questionando a ênfase no projeto antiimperial de Deus em Cristo, eh, e colocando no lugar disso, né, como se o a ênfase fosse que o reino de Deus tá vindo em oposição ao Império Romano, né? Então, o centro é outra coisa, é a vinda da graça de Deus e a comunhão na Trindade. Isso isso é mais central no cristianismo do que o confronto dos impérios dos homens, embora a vinda do reino de Deus e o encontro do Deus Trino naturalmente leve à queda dos impérios humanos, né?
Então, gente, a questão é o que tá no centro de tudo. Efésios 2:18. Por meio dele, ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito. Aqui nós temos juntos o Pai, o Filho, o Espírito e a Igreja, todos juntos em uma relação. E essa, então agora a gente vai pro positivo, né? Né? Fiz várias críticas aqui agora um propositivo. Essa é a resposta sobre o que tá no centro, a relação. No centro de tudo está a relação, mas não a relação no sentido abstrato. Eu me refiro a uma relação específica ou a um conjunto específico de relações que já estavam aí antes do mundo ser criado. Porque se Deus vai se dar a nós, o que ele vai dar a nós, o que ele vai dar a nós não é algo que ele criou e que ele fez. Deus pode fazer muitas coisas e nos dar. Deus nos deu a vida, nos deu corpos, Deus nos dá respiração, Deus nos dá filhos, amigos, parentes, nos dá um mundo, né? Nos dá luz, Deus dá um monte de coisa. Mas se Deus vai dar a si mesmo, a nós, o que ele vai dar não é algo criado. A sua saúde, seu corpo, sua felicidade, seus amigos, seus parentes, tudo isso são coisas feitas. O que não é feito, Deus. Deus é o que não é feito. Então essa é a coisa mais importante. O que Deus nos dá no evangelho é o incriado. O que Deus nos dá no evangelho é o incriado. É por isso que o centro do evangelho não é a restauração do mundo, embora o evangelho inclua a restauração do mundo. Mas o centro é a dádiva do incriado. O mundo criado existe por causa do incriado.
Em primeira João, vocês vão lembrar disso, o apóstolo diz: "O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos e o que contemplamos e as nossas mãos apalparam a respeito do Verbo da vida, pois a vida foi manifestada e nós a vimos e damos testemunho dela e anunciamos a vida eterna que estava com o Pai e a nós foi manifestada." O que é que apareceu, gente? Vejam só. O que apareceu diante dos discípulos foi algo que estava com o Pai. Não estamos falando de coisas criadas. É a vida que estava com o Pai. É a vida da qual veio o mundo. É isso que foi manifesto. É a vida da qual veio o mundo. Então, é claro que o florescimento humano e a boa vida nesse mundo são importantes, mas eles resultam dessa outra vida que estava com o Pai antes da criação. Então, João diz assim: "O que vimos, ouvimos e nós apalpamos. Isso anunciamos para que tenhais comunhão conosco e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo." Então, vejam, antes de tudo, o que existe? A relação divina, a comunhão do Pai com o Filho. E a vida existe dentro dessa relação, porque o Filho é o depositário da vida. Isso é o que estava lá. E essa vida nos foi manifestada. E aí os apóstolos dizem a nós: "Venham, participem da nossa comunhão." A a nossa comunhão é com o Pai, com seu Filho Jesus Cristo. Então, a nossa comunhão, vejam bem, eh não fomos nós que inventamos, né? Os apóstolos não foram de uma comunhão que eles inventaram. Essa comunhão que os apóstolos estão convidando é a participação em uma outra comunhão que já estava lá, que é a comunhão do Pai e do Filho, ou seja, a relação divina. E quando nós participamos dela, o que acontece? A resposta tá no verso 4, para que a nossa alegria seja completa. A alegria completa é o que resulta de participar da comunhão, da relação que estava lá antes do mundo existir.
Então, imaginem, imaginem que o mundo, você olha pro mundo, ele pode parecer opaco. O homem secular nos ensina a ver o mundo opaco. Mas imagina que escondido por trás da matéria, por trás do universo, como a gente vê, existe um grande sol e a temperatura desse sol é altíssima. Esse sol é força, amor, alegria, os atributos que a Bíblia atribui a Deus. Esse sol é a Trindade. Todo o drama da história, do universo, da revelação bíblica, é apenas tão somente o processo de revelação desse sol. É como se fosse o sol nascendo diante das criaturas. Toda a história é isso. Deus montou o horizonte que se chama criação para que a gente assistisse o nascimento do sol atrás dele para isso. Mas o centro é algo mais importante do que esse mundo e esse horizonte. É o que vai nascer, que é esse sol.
O que é a vida cristã? A vida cristã é mergulhar nessa luz que emana desse sol e receber esses efeitos. É claro que a vida cristã é vivida nesse mundo, mas a vida cristã que é vivida nesse mundo é vivida recebendo a luz desse sol, sendo aquecida por esse sol. E aqui está então o coração do cristianismo. O florescimento humano, claro, como uma plantinha, né, que recebe o sol. O florescimento humano vai acontecer sob esse sol. Vai nascer, vai ter chuva, a terra vai ser molhada e a luz vai invadir o espaço, as plantas vão florescer, os animais vão se multiplicar, mas o que faz tudo isso acontecer é o sol. Então você olha através da criação para além da criação. O seu horizonte tem que ir além do tempo, além da matéria, além desse mundo aqui. Então esse telos é diferente do telos secular. Por isso que não é transformação do mundo. É mais do que isso. A gente tá falando agora da contemplação de Deus, que na teologia clássica foi chamada de visio beatifica ou visão beatífica. É essa capacidade de enxergar a luz que ilumina a nossa vida, que ilumina o mundo. É isso que a gente vai encontrar em C.S. Lewis, a gente vai encontrar isso em Jonathan Edwards. Antes de a gente vai encontrar isso em João Calvino, em Tomás de Aquino, em Agostinho e no apóstolo Paulo lá em Coríntios 13, por exemplo. Mas isso, infelizmente, você não vai encontrar em vários autores cristãos modernos que querem nos dizer que a coisa mais importante pro cristão é a missão de Deus de fazer o mundo melhor. Parece que tá certo, mas tá errado. Tem vários teólogos importantes contemporâneos, como o Hans Boersma, que eu já citei aqui, ou o Allen, eh, ou nós temos o o Michael Allen, né, ou Stephan Pass, que é um missiólogo holandês que tem questionado essas missiologias que dizem que a missão nossa é fazer o mundo melhor. Então vários teólogos estão apontando para isso. Gente, cadê o o centro da vida cristã? Não pode esquecer disso.
Quero repetir, não tô negando que Deus quer levar a criação toda para esse lugar elevado. Em Apocalipse a gente tem isso, né? A união dos céus e os céus e da terra. Mas a coisa mais importante no final de Apocalipse tá lá. Os seus servos verão a sua face. No último livro, no último capítulo da Bíblia. Os seus servos verão a sua face. É isso que tá no final. Essa é a coisa mais importante. Então, o foco está na comunhão.
Agora, como essa comunhão acontece no processo da vida cristã? O que a gente pode dizer sobre essa relação divina que eu descrevi com a imagem do sol? Então, a pista tá aqui, né, em João. Essa vida estava oculta desde o princípio com o Pai, foi manifestada agora. E nós somos convidados a entrar na festa e ter alegria completa com os apóstolos. Claro que eh João tá falando de Jesus, né? Jesus é esse Verbo. Mas eh a gente precisa olhar para a vida inteira de Jesus por esse ângulo como uma manifestação desse sol. Quando a gente lê as histórias do Evangelho e as parábolas e os ensinos de Jesus, a gente pode perder o quadro geral, quem é Jesus e o que que ele manifesta. Então, a teologia bíblica é sempre útil nesse momento, né? Deus estabeleceu um sacerdócio real no mundo, sacerdócio adâmico. A gente sempre fala sobre isso no Labr, né? Instalou um jardim sagrado, é onde aconteceria o que o Kaiser e o Bav chamam de princípio Emanuel, né? Deus ia descer e se encontrar com o ser humano ali. E o ser humano seria um sacerdote de um culto cósmico, sendo que o o Santo dos Santos desse templo cósmico, em que todas as criaturas adoram a Deus, o Santo dos Santos era esse lugar ali, era o jardim eh dentro da terra do Éden, né? E só que o homem pecou, o culto cósmico cessou, o homem foi expulso e o santuário foi eh profanado, né? Né? O homem foi expulso da presença de Deus, mas Deus através de, enfim, de várias aventuras vai levantar um povo que ele quer que esse povo seja um sacerdócio real para restaurar o plano lá de Gênesis, né? Então isso tá lá em Êxodo 12. Deus chama esse povo e vai estabelecer uma aliança e eles vão ser seu sua seu povo especial, né? Sua nação sacerdotal. Eh, e claro, eh, é um longo processo, né, para que isso eh aconteça, né, formar esse povo, né, Deus, o povo tá escravo no Egito, Deus chama Moisés, realiza o milagre da sarça ardente. Como é possível esse esse arbusto queimar, eh, eh, arder e não ser consumido? E isso é um milagre, porque a natureza do fogo é consumir. Mas ao longo da história do Êxodo vai se revelar como que isso, o que que Deus queria dizer com isso, né? Eh, Deus desce no Sinai, ele é fogo consumidor, fica todo mundo apavorado, mas Deus diz: "Não, vamos fazer uma aliança e vocês vão andar comigo e a minha presença vai estar no meio de vocês, vocês vão ser santificados." E aí Deus realiza um milagre que é o Tabernáculo. Porque no Tabernáculo, através dos sacrifícios expiatórios, o fogo de Deus desce no meio do povo e o povo não é destruído. E o que que Deus tá revelando ali? O seu propósito de habitar nos homens, né? De algum modo, Deus vai fazer isso. Deus é um fogo consumidor e eu sou palha. Deus tem que fazer um milagre para o fogo arder aqui e eu não ser queimado. Como é que um Deus santo vai habitar no meio de um povo pecador? Né? Então essa esse é o é um mistério que vai demorar muito tempo pra gente entender como isso acontece.
Quando a gente chega no Novo Testamento, a gente vai entender, né, como que isso acontece. Mas a pista já tá dada lá, né? Eh, o cordeiro pascal, eh, o Tabernáculo, o sacerdócio, todos apontam para Jesus, né? Jesus é o cordeiro, Jesus é o templo, Jesus é o é o sacerdote da ordem de Melquisedeque. Jesus é o sistema, por assim dizer, de Deus, para que a sua presença desça no meio do povo e o povo não seja queimado, né? Então Jesus é o caminho para que a união do homem com Deus possa acontecer e Deus possa estar presente no homem e aí o plano de Gênesis seja eh restaurado, né? Enfim, esse é o grande plano de Deus. Dando um super resumo aqui. Quem é Jesus? Jesus é Emanuel, Deus conosco, porque Deus anunciou isso para Israel, mas Israel fracassou, pecou. Eh, tudo isso foi foi apresentado, esse plano de Êxodo, de forma tipológica, né? O povo não conseguiu realizar esse propósito de ser portador da glória de Deus. Mas aí chega Jesus, o israelita fiel, Emanuel, Deus conosco. Ele é o templo, é o cordeiro, é o sumo sacerdote.
Então Jesus começa o seu ministério como ele pede o batismo a João Batista e João Batista fala assim: "Não, não vou te batizar, não sou digno, para com isso". E Jesus fala: "Não convém cumprir toda a justiça". Eh, e o que é cumprir toda justiça, né? Além do profeta Isaías, a gente entende que Jesus é o servo do Senhor, que vai fazer toda a vontade de Deus, que vai trabalhar para que a justiça de Deus seja estabelecida na terra. E depois Jesus vai explicar que o seu batismo é a sua morte. Então aquele batismo ali com João, ele tá dizendo para todos e para Deus que ele aceita o cálice que Deus deu para ele, aceita o batismo, que é a cruz. Ele vai entregar sua vida para que a justiça de Deus seja estabelecida na terra. Ele sinaliza que ele está comprometido com o plano do Pai. E nesse momento que Jesus diz isso, o que acontece? Nós temos uma visão da Trindade ali, né? Porque vem uma voz do céu dizendo: "Este é meu Filho amado, em quem minha alma se compraz. Eh, tu és meu Filho, né? O que tá lá no salmo dois, né? O pacto davídico, né? E eh em quem meu servo, o meu servo em quem minha alma se compraz, é Isaías, né? Isaías 42. É uma referência também ao Messias. É o rei e o servo do Senhor, né? E essa é a voz que vem do céu. Quando Jesus aceita, então, a vontade de Deus, vem a proclamação de Deus dizendo que ele é o Filho amado, o servo e o Espírito Santo se manifesta, né, na forma de pombo. Então você tem a Trindade ali manifesta. Eh, gente, vejam só, Jesus tem uma relação especial com Deus. O Pai e o Filho têm uma relação pessoal. Jesus é capaz de agradar a Deus e fazer toda a sua vontade. Então, ele é o amado de Deus. E Deus é aquele que ama Jesus. "Este é meu Filho amado." Eh, o que se proclama nesse momento é a relação. No batismo fica claro que não é Jesus não é só um um bom judeu. Jesus tem uma relação especial com Deus, com o Pai. Ele é o servo, ele é o Filho amado, que vai fazer toda a vontade de Deus. Isso repete, né, essas profecias do Antigo Testamento. O Filho de Deus que vai fazer toda a vontade de Deus. Então ali se manifesta a relação do Pai e do Filho, a relação do do Filho como herdeiro também de todo universo. Porque o salmo dois que foi referido nessa nessa voz do céu, o que que ele diz? "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Pede-me, te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão, né?" Então, o que Jesus, a voz do céu tá dizendo é que Jesus é herdeiro do mundo, porque ele é o digno, é o único que é digno, que faz toda a vontade de Deus, é o servo, faz toda a vontade de Deus. Por
Isso que o cordeiro lá, ele se diz também que ele é digno de tomar o livro, abrir o livro e abrir os sete selos e tomar posse do mundo, né? Aquele é o termo de posse do mundo lá em Apocalipse. Então, Jesus é essa pessoa que tem direito de receber isso, né, de Deus.
Eh, e o gente, e ele recebe então o espírito. E o espírito representa a o dom do pai ao filho, é a comunhão do pai com o filho. Ele foi chamado na tradição cristã de vínculo um caritáis, né? O vínculo do amor. É o espírito de Deus, é a comunhão dos dois, gente. Então, isso é muito importante porque no batismo está condensado toda a vida de Jesus e recapitulada a história de Israel. Porque Israel sai do Egito, passa pelo Mar Vermelho e vai pro Sinaiber lei de Deus e receber o fogo de Deus para ser sacerdote entre as nações. Mas Israel fracassa nisso, eles conseguem fazer. Mas então vem Jesus agora e ele atravessa o batismo e ele recebe o espírito de Deus, né? Não foi a lei como no Sinai, né? Ele recebe o próprio espírito de Deus e a voz do céu proclama o seu direito de reinar. E isso antecipa toda a vida de Jesus, porque a vida de Jesus é a caminhada até o batismo quando ele morre na cruz, não é isso? Mas aí depois ele morre na cruz, cumpriu toda a vontade de Deus. Paulo no seu sermão em Antioquia da Psídia vai citar o Salmo 2 de dizer que aquilo era uma profecia da ressurreição, que quando a voz do céu diz: "Tu és meu filho, hoje te gerei", Jesus foi ressuscitado dos mortos. Sermão de Paulo lá em Atos. E então Jesus vai receber o quê? o espírito de Deus derramar sobre a igreja, né? Então, o batismo recapitula a história de Israel e antecipa toda a vida de Jesus. Então, isso é muito importante para entender o significado eh de Jesus.
O Messias concentra em si a história e o significado e a vocação de Israel. Ele concentra tudo em si. Jesus é o israelita fiel que cumpre toda a vontade de Deus e manifesta na sua vida uma vida perfeita. Depois do batismo, é claro, Jesus é tentado por Satanás. Ele vai pro deserto e precisa enfrentar Satanás ali. Assim como Israel teve que enfrentar eh Satanás no deserto, só que Israel fracassa no deserto, mas Jesus tem vitória, né? Israel depois dos 40 anos, aquela geração morre, né? Mas Jesus passa todos aqueles dias, derrota Satanás naquelas tentações. Satanás o que propõe para Jesus? Uma saída fácil. Quando Satanás fala, diz assim, eh, tudo isto te darei se prostado me adorares e tal, Satanás tá propondo para Jesus o que era de direito de Jesus, porque a voz do céu, citando o Salmo 2, já tinha confirmado, pede-me, te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão. Era tudo o direito de Jesus mesmo, né? Qual a diferença? É que Satanás vai propor isso para Jesus sem cruz, né? Essa é a proposta de Satanás, é tomar posse de tudo sem cruz. Então Jesus vence essa tentação. Onde Israel fracassou e isso representa a vida inteira de Jesus. No último momento, Satanás ainda mandou um cara para dizer: "Desce da cruz se você é filho de Deus", né? Todo o esforço de Satanás era pressionar Jesus e tentar para ver se na última hora ele desistia, mas ele não desistiu. Ele foi obediente até a morte e a morte de cruz. Então, o batismo de Jesus é como se fosse a vida inteira de Jesus comprimida em um gesto. E a vida inteira de Jesus é o seu batismo, culminando com aquele momento eh da cruz, não é isso? E quando Jesus morre, a lei de Deus foi cumprida e o homem herdou o direito de posse do universo. Esse é o assunto de Apocalipse, né? como logo Jesus tinha esse direito, mas como homem ele toma posse desse direito através da sua obediência. É o cordeiro que foi morto que pega o livro lá em Apocalipse, né? A gente precisa lembrar disso. E agora então Jesus tem toda a autoridade, né? Salmo 2 diz: "Pede-me, te darei as nações por herança". E Mateus 28 diz: "Toda a autoridade me foi dada nos céus e na terra". Então Jesus cumpriu o projeto inteiro até o final.
E isso vai nos levar então ao ponto crucial para nós nesse drama inteiro que Jesus vem para assumir o controle do mundo e resgatar o povo de Deus. O que ele tá fazendo? Ele tá salvando o mundo. Sim. Mas nesse processo inteiro em que ele tá derrotando Satanás, salvando o mundo, cumprindo a vontade de Deus e trazendo o seu reino, ele também está fazendo algo essencial. Ele está revelando o mistério da vida do Deus que é criador e redentor. Porque enquanto Jesus tá ali obedecendo a Deus e fazendo o que tem que ser feito para salvar os homens e salvar o mundo, o que transparece? A relação de Jesus com seu pai. Só que essa relação de Jesus com seu pai não é só a relação de um judeu fiel com seu Deus. é a relação do Deus unigênito com o Pai Eterno, traduzida em língua aramaica, em uma caminhada humana de um judeu de Nazaré. Isso é crucial pra gente entender a natureza do cristianismo. Por que eu digo relação eterna, né? Se você ler Colossenses, Efésios, Romanos, João, você vai ver que o mundo nasce de algo que tinha antes. Eh, em Colossenses, Paulo diz que eh dele eh eh tudo foi criado por meio dele e para ele, né? Isso é muito legal. Isso diz, então, que Deus fez o mundo por causa de Jesus, né? Por isso que não dá para entender o sentido da vida olhando paraa vida, porque o sentido da vida, quem sabe é é aquele que para quem ela foi feita, né? O mundo foi feito para Jesus. Então as coisas estão lá, o sentido, a direção, o propósito de tudo tá lá em Jesus, não tá aqui, né? Por isso, se você não tiver em Jesus, a vida não vai fazer sentido mesmo. Ela não foi feita para você, ela não tinha que fazer sentido para você. Ela tem que fazer sentido para Jesus, porque as coisas foram feitas para ele. Mas se você é colocado em Cristo, então você participa com ele do propósito do mundo. Essa é a diferença que a união com Cristo vai trazer.
Então, gente, antes do mundo ser feito, havia essa relação do Pai com o filho do espírito inacessível. Eu me arrisco a dizer que nem os anjos sabiam disso, porque quem é que pode penetrar a intimidade divina? Quem teria os olhos para enxergar eh o mistério divino por sua conta, sem o próprio Deus revelar? Quem poderia ver isso? Ninguém poderia ver isso, nem os anjos. Antes da fundação do mundo havia a comunhão trinitária. Deus em alegria perfeita, infinita, quando a gente fala de afeto, né, a gente fala de calor, não é? Então, um abraço caloroso, um abraço afetuoso, não é isso? Então, imagina o seguinte, pensa no amor como temperatura. Então, imagina que Deus ele vive uma alegria e um amor que é uma temperatura infinita. Pensa no abraço mais caloroso que você já recebeu, nas palavras mais amorosas e reconfortantes que você já recebeu de alguém. A gente tá usando a metáfora do calor. Agora imagina que a alegria e o amor de Deus é comparar o sol com um palito de fósforo. Imagina que Deus vive numa temperatura moral altíssima. Quando nós sentimos alegria, a gente sente amor, né? A gente sente um calorzinho, né? Uma ardência. no coração. Imagine a quantos graus queima esse sol divino lá no on de onde o mundo nasceu. Pensa nisso. Até a luz que a gente conhece, OK? Existe a luz. E a Bíblia diz que Deus é luz, mas Deus não é feito de fótons, né? Não é que nós usamos a nossa luz como ilustração para falar de Deus. é que Deus criou essa luz para expressar a sua luz. A nossa luz, o nosso sol, o nosso fogo é um análogo criado por Deus para comunicar as criaturas o fogo e a luz que ele é e que não são físicos. Então esse é o mistério de onde o mundo saiu. O que a gente conhece é um símbolo dessa luz encriada, que é a nossa luz e que não é uma metáfora que a gente inventou. Essa glória, gente, estava oculta no mistério. Mas o que acontece? Quando o unigênito que está no seio do Pai, a segunda pessoa da trindade, se encarna e toma forma humana e se relaciona com Deus. Como um ser humano diante dos discípulos, uma abertura para esse mistério é feita na ordem do tempo. O que nós estamos vendo, eu repito, não é só o hebreu Jesus falando com Deus. A gente está vendo dentro do tempo, no ritmo do tempo e linguagem forma, afetos, expressões humanas, a relação encriada de onde o mundo nasceu, que é a relação do unigênito com o pai. É por isso que a gente fala que em Jesus aconteceu uma revelação, alguma coisa absolutamente inacessível paraa criatura. É como Moisés vendo a glória de Deus pela fenda da pedra. Alguma coisa que seria inacessível se abriu ali na encarnação. Então, quando Jesus está conversando com o Pai diante dos discípulos, eles aos poucos começam a entender que aquela conversa é uma conversa divina, é a conversa de Deus com Deus. Aquela relação é relação de Deus com Deus e ela tá transparecendo na caminhada de Jesus, na frente dos discípulos. Não era fácil de entender. A gente percebe que os os discípulos pareciam bem tolinhos, né, quando a gente lê os Evangelhos, né? Isso é para te dar uma pista do quão toos nós somos, né? Porque os apóstolos de Jesus eram aquelas figuras que não entendiam o que tava acontecendo. Mas era isso, era esse mistério. Então, gente, a relação que o unigênito do pai tinha no seio do pai antes da fundação do mundo, nesse milagre da encarnação, ela foi temporalizada e materializada por causa da encarnação do verbo. E à medida que Jesus vai se relacionando com Deus diante dos discípulos, o mistério trinitário vai se manifestando na ordem do tempo. E os apóstolos aos poucos vão entendendo que Jesus é mais do que um rabino. Então, a vida de Jesus é uma vida humana na qual transparece esse mistério que é a relação de amor do Pai e do Filho. Quando Jesus olhava para cima e dizia: "Meu pai", os discípulos ficavam estupefatos, os judeus ficavam revoltados, né? Os fariseus ficavam loucos com isso. E os discípulos foram entendendo aos poucos, né? que o que o evangelho tá ensinando ali, na verdade, é que a vida de Jesus completa, a vida de Jesus servindo os discípulos, ouvindo a Deus, caminhando com Deus, se comunicando com Deus, a vida de Jesus completa é a tradução humana da relação eterna do Logos com o Pai. A vida de Jesus é a tradução humana dessa relação. É por isso que Jesus diz: "Quem vê a mim vê ao Pai não é só olhar pra cara de Jesus, é a vida de Jesus inteira. É a persona de Jesus completa. O que que é contemplar Jesus, né? Tem gente que acha que é ver só o rosto de Jesus. É mais do que isso, é entender quem foi essa pessoa e e reconhecer toda a sua história. Então essa vida inteira, que é a vida do israelita fiel, é a manifestação da comunhão em criada.
Agora, isso não é tudo. A questão crítica é que com a encarnação e a obra de Jesus, Deus não estava apenas revelando o mistério, Deus estava vindo, abrindo uma porta pra gente entrar. Porque quando Jesus assume a carne humana e a nossa natureza humana e ele serve a Deus e leva essa natureza humana à morte e depois leva essa natureza humana à ressurreição e aí sobe pro céu e leva essa natureza humana para lá. Eh, nós somos levados com ele. Nós, como diz a Bíblia, morremos com ele, ressuscitamos com ele, somos ascensos a céu com ele e nos assentamos à direita eh do Pai com ele, né? Tudo isso acontece. Então, agora nós não temos só o logos se relacionando com Deus como Deus. Nós temos o Deus homem se relacionando com Deus como Deus. Agora existe um homem no céu. Não era para acontecer isso. No céu é Deus aqui, aqui os homens aqui na terra. Mas agora existe um homem no céu, um homem que se relaciona com Deus Pai e conversa como de com Deus Pai, como Deus Filho. Então, existe um homem agora que vivencia a comunhão que Deus tem com Deus, que é o logos encarnado. Então, vocês estão entendendo o dom que tá sendo dado para nós através da encarnação e da obra de Jesus? Toda essa obra era necessária para que a gente se relacionasse com Deus, não apenas como criaturas, mas como filhos. Era necessário que o filho virasse homem para nós nos relacionarmos com Deus como filhos. Essa é a troca que Atanásio é enfatizável. Jesus se relaciona com o Pai como uma criatura do Pai, mas também como filho divino do pai. Só que isso podia ficar só para Jesus, mas não ficou. Porque Jesus puxou os discípulos e disse assim para eles: "Vocês vão orar assim: Pai nosso que estás nos céus". E isso é muito poderoso. É daí que vem o que tá lá em João, capítulo 1. Aos que o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus. De onde que saiu esse discurso na conversa dos apóstolos? é que eles viram a relação de Jesus com Deus como pai, como filho do pai. E então eles ouvem Jesus dizendo: "É para vocês falarem com com Deus como eu falo". Mas como assim? Pode pode isso? E Jesus disse: "Sim, pode isso. Eu estou concedendo isso para vocês." Então Jesus está transferindo para os discípulos não apenas o bom exemplo do israelita fiel, mas o acesso à relação encriada que ele tinha com o pai. É isso que Jesus tá transferindo, é o acesso a essa relação. Então, por isso eu disse que Deus não está nos dando apenas uma vida boa, corpos ressurretos, uma nova criação, uma vida eterna feliz. É mais do que isso. O que Deus tá concedendo é ele mesmo, porque nós estamos sendo introduzidos dentro dessa relação.
Então, eh, ao se vestir da carne humana, o Logos arrastou todo mundo com ele para o céu. E aí nós temos as imagens bíblicas, a imagem da adoção, tem uma outra imagem que é o casamento, não é isso? Então, Deus fez o mundo. É uma outra imagem que eu sempre uso quando eu faço o casamento, né? Para que que Deus fez o mundo? Deus fez o mundo para casar o seu filho. É isso. Por isso que a Bíblia diz que tudo foi feito por meio dele e para ele. Tudo foi feito para Jesus. Mas aí Deus faz o mundo. E então do sono do segundo Adão ou do segundo homem, né, do último Adão, Deus tira a nova Eva, que é a igreja. E o mundo inteiro então se torna nada mais do que a festa, o salão de casamento, aonde o casamento vai acontecer do filho eh com a noiva. E quando a noiva se casa com o filho, ela herda todas as prerrogativas, o trono e o acesso ao pai que o filho tinha. É, essa é a história da Bíblia. Por isso que a Bíblia começa com um casamento em Gênesis termina com um casamento em Apocalipse, né? Então essa é a história. São imagens para explicar essa união que é a união mística, a união eh com Jesus. Então tudo isso que Deus tá fazendo por meio de Jesus é transmitir essa relação. E toda a obra de Jesus é para isso. Então é necessário, era necessário salvar o mundo e nos salvar do pecado pra gente poder participar dessa relação. Mas o objetivo final de Deus não era só tirar a gente do pecado e devolver a gente pra terra. Era mais do que isso, era nos levar para o céu, né? Então, a gente tem que parar de falar mal do céu, porque Efésios diz que nós estamos assentados nos lugares celestiais com Cristo. Então, a nossa posição última final nesse sentido é o céu.
E como que a gente vive isso na prática? Aí eu já tô terminando, gente. Eu falei sobre a relação de Jesus com o Pai, não falei sobre o Espírito Santo, mas o que é a obra do Espírito Santo se não trazer para dentro de nós essa relação divina. Porque Jesus na sua obra abriu essa possibilidade na encarnação, na sua obra, na sua ascensão. A possibilidade do acesso foi concedida. Mas é necessário que o Espírito Santo entre em nós. E isso tá lá em Romanos, né? Romanos capítulo eh capítulo 8, eh, versículo versículo 15, né? Então, vou ler aqui. Romanos 8. Porque não recebestes um espírito de escravidão para vos reconduzir ao temor, mas o espírito de adoção, pelo qual clamamos: "Aba, pai". E o próprio espírito testifica com o nosso espírito que nós somos filhos de Deus. Gente, nós encontramos então toda a trindade envolvida nesse processo. Aba era uma palavra que ninguém usava para servir a Deus, mas Jesus usava o tempo inteiro. A gente sabe disso porque no Evangelho de João, toda hora Jesus fala: "Meu pai, meu pai para cá, meu pai para lá". Ele usa o termo, João usa o termo páter. Mas quando Jesus estava no Getsêmani, lá em Marcos 14, Marcos nos nos dá a dica, ele dá a letra que Jesus orava assim: "Aba, se possível, passa de mim esse cálice". E Marcos, para explicar o que isso significa para os leitores romanos do Evangelho de Marcos, ele coloca a tradução pro grego: "Aba pater." Então, a gente, às vezes, a gente fala assim: "Aba pai". Mas aba pai não, não faz sentido. É aba, pai é a tradução, né? Então quando aparece aba pai, o que que é isso? É a memória de um termo que era usado em aramaico. E aí você põe a tradução para quem não fala aramaico entender. Por que que o pessoal tinha que colocar o termo aramaico? Porque era o termo que era usado o tempo inteiro e ficou na memória da igreja. É por isso que em Marcos, quando o pessoal vai lembrar de Jesus no Getseman, lembra de Jesus falando aba e quando Paulo vai explicar que nós recebemos o espírito de adoção, ele diz que a gente também fala aba, que significa pai. Do que ele tá falando? Da transmissão do nome do pai que Jesus fez. Jesus transmitiu o nome do pai para os discípulos. Ele falou: "Orem, Pai nosso que estás nos céus, aba! Orem desse jeito." Mas aqui em Romanos tem uma diferença. Aqui em Romanos, Paulo tá dizendo que não apenas Jesus concedeu esse direito lá quando ele ensinou os discípulos, mas que agora o Espírito Santo vem nos dar o poder dessa relação. Então o Espírito entra em nós para nós orarmos. Aba, Pai. O espírito vem fazer isso em nós. Isso tá aqui em Romanos 8, tá em Gálatas. também é o espírito de seu filho pelo qual clamamos, aba pai, né, gente? O que que isso significa? Quando é, é claro, existe a comunhão do Pai e do Filho no Espírito Santo. E essa comunhão pela encarnação é dada para nós. Mas quando a comunhão do Pai e do Filho, que é o Espírito, entra no coração do crente, ele não apenas tem o direito, mas agora ele tem o poder de fazer isso, de se relacionar com Deus como Pai. Isso acontece porque essa relação, quando o Espírito Santo entra em você, essa relação que Jesus tinha com o Pai antes da fundação do mundo nasce dentro de você na forma de uma oração. É isso que acontece. A obra do Espírito Santo é fazer a relação eterna que Jesus revelou nascer dentro de você na forma de oração, de um jeito de perceber a Deus e de se comunicar com Deus e de olhar para ele. O Espírito Santo faz isso. Você olha pro céu e você fala assim: "Os céus me receberam". E aí você sabe que você é filho de Deus e que você tá nessa relação. Todo o processo da encarnação é o processo de Deus revelar essa relação. A obra de Jesus na cruz, a ressurreição e a ascensão é obra de nos introduzir na relação. E a descida do Espírito Santo é a obra de nos de nos fazer experimentar eh a relação. E o resultado disso, então, é que se nós somos filhos, o que que Paulo diz aqui em Romanos 8? Se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo. Se é certo que sofremos com ele, para que também com ele sejamos glorificados. Então, qual é o nosso chamado? É claro que nós somos chamados para herdar o governo do mundo. Adão foi posto para governar, mas ele perdeu esse direito. Mas Jesus herdou toda a autoridade do céu e na terra. E nós somos agora herdeiros de Deus e cordeiros com Cristo. Todo o processo de adoção nos coloca nessa posição. Então, nós temos um grande chamado de, como filhos de Deus, participantes da comunhão da divindade, representarmos os interesses de Deus no mundo, como Jesus representou, né? Então, eh, o objetivo de Deus é que a gente chegue realmente nessa posição. E nós somos, pela obra do Pai, do Filho e do Espírito, feitos dignos dessa herança. Mas assim como para entrar na herança Jesus teve que obedecer até a morte, Paulo diz: "Se com ele sofrermos, também com ele seremos glorificados". O que que Paulo tá falando de Jesus aceitando o batismo, da vida de Jesus, da obediência até a cruz. O que é a vida cristã? Então, a reprodução da relação que Jesus tem com o Pai na nossa vida. Então, OK. O Espírito Santo vem pro seu coração e te capacita a reconhecer e a sentir o amor de Deus e a orar a Deus como filho e confiar em Deus como Jesus confiava. Mas isso é só o começo. Porque assim como Jesus recebeu o Espírito Santo lá no batismo, ele teve que enfrentar o deserto, né? Enfrentar Satanás confiando em Deus. Então isso é o começo. Você recebe o Espírito Santo e vivencia a comunhão do Pai com o Filho. Para quê? para você agora transformar isso numa vida. É por isso que se com ele sofrermos também com ele seremos glorificados. Então o discipulado cristão é isso que Paulo tá é isso que ele tá se referindo em Romanos 8 e Romanos 8 do verso 15 em diante, né? Os sofrimentos do tempo presente não se podem comparar com a glória que há de ser revelada em nós. Do que que Paulo tá falando? da vida cristã, enfrentando o mal, enfrentando o mundo, a carne e o diabo, que você vai precisar enfrentar até a hora da glorificação, assim como Jesus viveu, você recebeu o espírito de Cristo para ter a vida de Cristo. Você foi introduzido na comunhão do Pai e do Filho para viver em comunhão com o Pai, como Jesus vivia e conseguir realizar as obras que Jesus realizou. Então isso é é o é é o discipulado cristão. Ele não pode ser separado da trindade. Por isso que ser um discípulo de Cristo e viver na trindade é a mesma coisa. Ser um discípulo de Cristo é no poder do testemunho do espírito no coração do aba é você seguir o caminho de Jesus até o final e viver em comunhão com o Pai como Jesus viveu, né? Então, o coração do cristianismo é a relação, essa relação do Pai com o Filho que o Espírito Santo traz para você. Andar no Espírito Santo. Paulo fala sobre isso em Romanos e Gálatas. É isso, é viver dentro dessa relação, momento após momento, viver essa relação de comunhão, da comunhão com o Pai através do Espírito Santo.
Então, eh, essa seria a minha forma até de colocar as três etapas que o John Mark Comer coloca no livro dele de estar como Jesus, ser como Jesus e viver como Jesus. A teologia disso é esta que eu procurei explicar de forma mais completa. Então, alguém poderia perguntar nesse ponto: "O centro do cristianismo seria então a imitação de Cristo?" Quase. A imitação de Cristo faz parte, a gente pode dizer, mas existe algo mais central do que isso. É o centro dentro do centro. O centro dentro do centro. é viver em comunhão com o Pai, momento após momento. É a prática da presença de Deus. Isso é muito bem resumido pelo John Mark Comer no no livro dele. Eu vou citar um trecho aqui eh pra gente terminar. Em todos os ensinamentos de Jesus, o que chamamos de Deus é de uma forma misteriosa, mais bela, um fluxo de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Deus é uma comunidade de amor abnegado. Cada membro da trindade, como os teólogos o chamam, é distinto, mas de alguma forma ainda é um. Estar com o Espírito é estar com Jesus. Estar com Jesus é estar com o Pai. é entrar no fluxo de amor da vida interior do próprio Deus. Voltemos à história. O objetivo número um do aprendizado com Jesus é viver nesse fluxo de amor, momento a momento em meio à trindade. Eu gosto muito dessa expressão porque não sei se foi de propósito, talvez sem querer. Ele usa o moment by moment aqui, né, Vanessa, que é um tema fortíssimo do Shafer, né? Mas então viver nesse fluxo de amor, momento após momento, em meio à trindade, gente, isso é o coração do cristianismo, do discipulado cristão. Não importa o que a gente fizer em termos de formação espiritual, disciplinas espirituais, teologia prática, recursos didáticos e modo de organização que a igreja pode assumir para que os crentes se desenvolvam, nada vai andar paraa frente se essa relação não tiver viva. Isso é o verdadeiro centro do cristianismo e o centro da formação espiritual. Isso é, para usar a imagem que eu coloquei no início, a verdadeira sarça ardente. E isso é que precisa de um milagre para acontecer. Porque quando você levanta todos os dias, você olha pra sua vida e fala assim: "Cara, eu sou muito pecador para estar na presença de Deus". E aí, ao invés de praticar a presença de Deus, o que que você faz? Esconde no mato igual Adão. A lição número um, a primeira e a última lição da vida cristã, é você entender que esse fogo não vai te destruir, que a sarça vai arder, mas não vai se consumir. E aprender isso é viver nesse fluxo do amor, na comunhão com o Pai. atendendo ao chamado do Espírito Santo momento após momento. A coisa mais difícil pro crente é ele acreditar que ele pode praticar a presença de Deus momento após momento. Mas se você aprender isso, isso é a essência da formação espiritual. Amém.
Muito bem, gente. Eh, eu acho que a gente pode, eu sei que alguns já vão ter que ir porque como de costume, a palestra durou 2 horas, mas quem quiser pode fazer perguntas agora e a gente vai ter uns 15 minutinhos antes do char.
>> Acho que não precisa. Você quer >> que >> não acho que a gente pode deixar aberto. Pode deixar aberto só repetindo as perguntas, OK? Gente, algumas perguntas, então a gente tá aberto ou comentários nesse contexto do geralmente na idolat ele entra em relação cidade buscar um outro que não seja Deus Algo que assassina a alma e que traga prazer e felicidade.
>> Sim, >> nesse contexto, formação espiritual é uma é um meio para se devir nailatia ou a idolatria ela é a que cientista para chegar na espiritual? Que ordem isso dá ou existe essa ordem?
>> Eh, não faz parte do processo. Eh, a questão de idolatria, claro que é o primeiro mandamento, né? E o último é a cobiça. E os dois estão sempre envolvidos. Quando tem idolatria, tem cobiça. Tem cobiça, tem idolatria. Mas eh é isso é a estrutura do pecado. Então a o potencial para o risco da idolatria tá sempre presente. É sempre presente. Então não existe um momento em que você não vai mais precisar vigiar eh para não cair nessa tentação, né? não existe esse momento. Então, eu não diria que eh que isso é uma questão que você precisa resolver primeiro para depois ter a formação espiritual, né? Eu acredito que faz parte do processo de formação espiritual você tratar não só esse pecado, mas todos os outros que estão referidos lá em Romanos capítulo 1. Agora, certamente certamente eh se você eh Jonathan Jonath Edia tem que se se arrepender até das suas lágrimas de arrependimento, né? Então quando eu digo que você vai continuar tratando desse potencial pecaminoso, isso não significa que você não tenha que ter se arrependido e tomado uma decisão a respeito disso. Agora, certamente se você conserva idolatria no coração sem se arrepender, isso vai bloquear seu crescimento espiritual. Certamente seu progresso vai ficar eh vai ficar paralisado, mas isso vai acontecer com qualquer pecado sem arrependimento, né? Isso tá lá em eh eh isso está no Salmo 33, tá no Salmo 51. Você não confessa, não lida com pecado, aquilo começa a comer você por dentro. E então você tem que tratar. Agora eu não, eu eu teria dificuldade com a ideia de que você precisa atingir um nível de perfeição para depois crescer espiritualmente, entendeu? Não faz muito sentido. Não faz muito sentido.
>> Mais de direção, né? Então aqui ele tira o foco do >> é >> coloca lugar pega as bolas livrar do coração não necessariamente aquilo que você pensa ou aquilo que você entende mas aquilo que você pelo eros você seia que aí é o cero disso estaria tá não, tudo bem. Talvez você tá falando então o seguinte, eh, você pode ter tentações com ídolos, mas você tá, a sua questão é se Jesus não é o sumo bem da pessoa. Se realmente não for, então aí nada pode acontecer. Aí precisa de conversão ou reconversão, né? problema encontrar Deus si mesmo todos ele exatamente esse esse desafio de buscar Deus exatamente porque ele trazer não por um meio trazer uma bíblia e por isso que nós falamos hoje.
>> Sim. >> Ou seja, até a busca de Deus ela pode ser motivada por um anio que não seja Deus. Pode, pode, mas mas o mas a gente a gente é ambíguo e isso acontece em muitos níveis da nossa experiência. Então eu não diria que é porque você eh tomou uma decisão de ter um comport não é tudo preto no branco nesse sentido. Eh, mesmo, por exemplo, nos momentos em que você tá aprendendo o caminho da humildade, existe soberba. mesmo quando você tá aprendendo a perdoar e receber o outro, eh, a vontade de da vingança, eh, a vontade de dar uma banana pro outro, ela não desaparece completamente. Então, essas ambiguidades estão ali, elas continuam presentes de alguma forma. Eh, então, eh, eu acho que a gente precisa lidar com isso, que as ambiguidades estão lá. Agora, realmente assim, o que eu quero dizer com isso é que pode estar presente a adoração a Deus, pode estar presente, mas ainda vê os pés sujos, entendeu? Isso ainda pode estar acontecendo. Agora, realmente, se a direção central do coração não for para Deus, for para o ídolo, aí não é não é um convertido. A gente pode dizer isso. Então, uma coisa é dizer que existe o verdadeiro misturado com o falso. Outra coisa é quando não tem o verdadeiro, é só o falso mesmo. Então, a ambiguidade acontece, mas eh mas isso é diferente do da falsificação, né? Então, existe o falso crente mesmo que tá enganado, ele não sabe que no centro da vida dele é não é Deus, é uma outra coisa. E a iluminação pode mostrar isso para ele e ele se, enfim, tratar isso, né, e realmente se converter. Agora, mesmo quando você tá seguindo Jesus e tá fazendo a coisa certa, você percebe a sujeira. E o e primeiro João fala sobre isso, né? a gente não consegue dizer nenhum momento que não tem pecado nenhum, mas não tem esse momento. Eh, então eu acho que a gente precisa aceitar essa ambiguidade. Jesus nos aceita a despeito dessa ambiguidade. Se a gente esperar a gente ter plena certeza de que o nosso coração é puro para andar com Deus, nós estamos perdido. A gente vai encontrar pureza de coração caminhando com Jesus, entendeu? Mas se a gente entrar numa armadilha psicológica da introspecção, de falar assim, nossa, será que meu coração tá totalmente puro? Deixa eu ver se tá, porque se não tiver, então eu não tô realmente com Deus, então é tudo mentira. Aí você pira. Então tem que tomar muito cuidado com a tentação da introspecção, que quando junta com toque religioso, então aí virou uma loucura. Então você tem que aceitar no começo da caminhada cristã o seguinte: eu estou na direção de Jesus e estou. Eu posso confiar na minha na minha perfeição? Em nenhum momento eu preciso estar 100% limpo para Jesus me receber. Não, eu preciso ser recebido para ficar limpo, né? Então você tem que tem que ir assim na humildade total e sabendo que a inimizade contra Deus mora dentro de você e mesmo assim Jesus te recebe. Você entendeu o ponto? Tem que tomar muito cuidado para não cair numa armadilha psicológica aí porque sempre você tem pecado, então tem idolatria aí em algum lugar, entendeu? E aí então então não tô não sou crente não. Não é isso, entendeu? Então, a formação espiritual acontece junto. Ótima pergunta, mas acabou que eu demorei. É, pelo menos duas perguntas aí a gente pode fazer.
>> Eh, parece que eh pode acontecer nesse caminho da formação espiritual como uma vida dualista. Quando você fala que a gente recebe o Espírito Santo, a gente ele nos leva para demoração, para entender que é bíblico só o começo e depois a gente vai enfrentar o pecador a casa. Então acho que existe o perigo da da nossa vida ser agora eu preciso aqui eh parar para receber os piqu e aí eu vou sair daqui e daqui a duas horas eu vou vou enfrentar o mundo. Ah, o mundo tá difícil. Deixa eu voltar aqui e alimentar meu espírito como se fosse coisas que não estão caminhando concomitantemente. Então
>> acho que isso pode ser um perigo se realmente como não não ser dessa forma.
>> Então eh isso pode ser meio cansativo esse processo, sabe? Mas eh a gente tem algumas razões para acreditar que em parte é assim. Uma é que a gente precisa periodicamente confessar pecados e a gente precisa fazer o movimento de volta, né? E o movimento de volta é experimentado assim, né? De repente você cai em pecado, o movimento de volta tá lá nos Salmos, né? Você precisa entrar no santuário e e ser iluminado novamente, enxergar, reconhecer o seu pecado. Eh, pensa em Efésios, né? Paulo tá orando ali para os crentes serem eh o os crentes serem eh eh ilum os olhos do coração iluminados para eles serem cheios da plenitude de Deus. Quando você vive isso, a sensação que você tem é que você foi mais longe do que você tava antes. Você teve uma experiência nova que te colocou em outro lugar que você não tava. Então você vai ter essa sensação de olhar para trás, olhar pro momento anterior e perceber que você estava mais longe de Deus do que você tá agora. Eh, e nós temos exemplos no em termos de práticas espirituais da vida de Jesus, que às vezes ele se afastava para orar também. Se fosse só um contínuo, não precisava dele fazer isso, ter momentos de dedicação. A igreja também teve momentos que ela parou para ficar orando, né? Eh, então, eh, eu acho que rola um pouco disso. Não tem que ser um pêndulo, né? Porque um pêndulo dá a impressão que você tá voltando para você não tá saindo do lugar, né? que você anda dois passos paraa frente e volta dois passos. Isso não pode ser. Mas faz parte da vida cristã você ter momentos em que você precisa encontrar renovação, enxergar coisas que você não viu, eh, reconstruir coisas que você perdeu. E isso faz parte da caminhada cristã. Então, eu não sei se tem jeito de escapar dessa dinâmica, sabe? Só um momento você vai isolado e você tá no >> Não. Sim. eh também lá no evento restaurar.
>> É isso. É. Então, então a pergunta é que a vida cristã não pode ser eh dois momentos estanques. Um você tá com Deus, o outro você tá sem Deus, aí você tem que voltar para ficar com Deus de novo, né? Não, você tem uns momentos para oração, mas aí tem o orar e sem cessar, né? Então, a prática da presença de Deus é um negócio que tem que ser contínuo. Então, corretíssimo. E até a ênfase aqui, o ponto da saça ardente era que Israel, o o fogo nunca se apagava, os sacrifícios eram diários, a fumaça nunca podia parar de subir lá do tabernáculo, né, do altar. E aí a o tabernáculo andava e a comunidade de Israel ia junto. Então a vida cristã tem que ser o tempo inteiro, a prática da presença de Deus, ora sem cessar e não só num momento, né? Então certíssimo. Isso tem que ser um contínuo, né?
>> Pode ser uma pergunta do online?
>> Pode.
>> Como conciliar a expectativa dos céus sem abrir mão do que se pode fazer pela?
>> Como conciliar a expectativa do céu sem abrir mão? do queer >> se pode fazer na terra.
>> É, então isso é um outro tema, né? A gente tem um tem palestra abri sobre o sacramento do momento presente, né? O ponto é o seguinte, é que todos os momentos e as coisas comuns, ordinárias sejam vistos como oportunidades e lugares de encontrar com Deus, tá? Então é, tem um jeito fácil de entender isso. Você pode sair para, sei lá, comer uma pizza para quem gosta de pizza ou quem gosta de camarão, tá? Você pode sair e comer uma pizza, comer um camarão e desfrutar. Mas você pode também sair com os amigos para comer uma pizza. Quando você sai com os amigos para comer uma pizza, é claro que você quer comer pizza, mas você não quer só comer pizza, você quer comer pizza com eles, porque o que tá sendo celebrado ali não é só o sabor, o sabor está sendo usado para celebrar a amizade, né? É como um casal que sai para celebrar o aniversário de casamento, né? Vai para um lugar legal. É claro que o pessoal quer ir para um lugar, eu levei a Alessandro num lugar muito legal no ano passado. Eu posso dar dicas aí para quem quiser. Eh, você leva para lugar muito legal, mas essa coisa muito legal, essa comida extraordinária, ela está encapsulada num gesto maior, que é a nossa celebração de 30 anos de casamento. Então, Deus fez o mundo, não é só pra gente comer. Ele não pôs as árvores no jardim, frutí no jardim pra gente comer. Ele pôs lá o jardim, ele pôs a mesa pra gente comer com ele. Inclusive lá em Êxodo acontece isso. Quando sobe Moisés com os 70 e Arão, eles vão lá em cima, eh, eles veem, o Senhor, veio o pavimento, né, que que parece um céu, né, de vidro com o a cor era de fugiu agora azul. Eh, e aí eles vêm o trono de Deus e aí eles comem na presença de Deus, né? Tem isso ali é bem legal, isso bem bonito lá em Êxodo. Então é Deus pôs na mesa. Então o segredo é o seguinte: cada coisa que você viver tem que ser uma coisa que você está vivendo com Deus, na presença de Deus e que importa porque é com ele. Esse é o ponto. Então, a gratidão é a chave para que você possa desfrutar do ordinário, momento após momento, sem que o ordinário entre no lugar de Deus. Porque a gratidão faz com que as coisas boas sejam vividas como dádivas e parte da relação. Por isso, em tudo dai graças é tão importante. É um versículozinho, mas por um certo ângulo é a vida cristã inteira. Amém.
>> Muito bem. Vamos pro chazinho.
>> Tchau, pessoal. Eh, até eu ia falar assim, até o a aula magna do ano que vem, não, todos matriculados na Escola de Teologia Vida Cristã do Labr, que já está aberta aí paraas matrículas. Sejam todos bem-vindos.