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PAULO GUEDES FALA COMO O BRASILEIRO PODE FICAR RICO COMEÇANDO DO ZERO

Poder dos Dividendos11:39

Transcription

A minha paixão é economia. Eu gosto muito, sempre estudei muito, era um bom aluno, ganhei bolsa para ir para fora, fiz doutorado e, quando eu voltei, o Brasil era um acelerador de partículas, como se fosse um físico que entra num acelerador de partículas, ou seja, alguém que está especializado e que tem um laboratório porque as coisas estavam acontecendo.

Então, eu tive uma formação muito forte em macroeconomia, economia internacional e, de repente, cheguei ao Brasil, o Brasil indo para um processo de hiperinflação. Então, eu fui praticamente arrancado das universidades. Dava aula na PUC, na GV, no IMPA, Instituto de Matemática Pura e Aplicada, mas o mercado começou a procurar conhecimento. Eu tinha o conhecimento que era necessário e o mercado começa a procurar o conhecimento e buscar.

Eu me lembro que isso é interessante sobre gestão e sobre como é que se monta uma empresa. Eu fui procurado por um sócio, quer dizer, ele é que formulou a ideia de fazer o banco, virou o Banco Pactual. Ele colocou uma múltipla escolha para os sócios potenciais que ele estava procurando. Ele me procurou e falou assim: "Vou entregar uma múltipla escolha aqui. Você coloque em ordem de importância. O que que é mais importante para você? O que que é melhor para você? Quero ficar milionário. Queremos ser milionários. Queremos ganhar muito dinheiro, por isso que nós vamos fazer esse banco. Outra opção: quero me divertir muito, fazer o que eu gosto. Outra opção: quero ter excelência no que faço, quero ter um desenvolvimento cada vez melhor, dominar profundamente o meu assunto, ser um especialista, etc. Você tem que colocar em ordem, vai do mais importante para o menos importante."

Para mim foi imediato. Eu peguei, falei: "Bom, primeira coisa, eu quero fazer o que eu gosto. Eu quero me divertir, eu quero fazer um troço que eu gosto. Eu adoro a economia, eu quero fazer isso." E isso é importante. Você tem, às vezes, na empresa as pessoas falando assim: "Ah, eu preciso corrigir aquele defeito daquela pessoa, preciso." Não, usem sempre a força. Todas as pessoas têm pontos fortes e deficiências. Usem o que a pessoa tem de melhor, coloquem aquela pessoa no lugar certo para fazer a coisa certa. Para mim isso era óbvio. Era assim, eu tenho que fazer o que eu gosto, porque eu fazendo o que eu gosto, por exemplo, o Pelé virou o melhor jogador de futebol do mundo, porque ele adorava jogar futebol. Se ele ficasse estudando piano, ele não seria o melhor jogador. E o Nelson Freire virou um dos melhores pianistas, porque ele não ia jogar futebol, ele ficava o dia inteiro tocando piano.

Então, consequentemente, você chegou ao segundo ponto, que é excelência. Isso eu nunca tinha lido sobre isso. Agora tem um livro, tem livro sobre isso, né? Outliers. O sujeito é um outlier. Aí você vai ver por que ele é um outlier: 10.000 horas, ele passou 10.000 horas fazendo aquilo. Aí você fala: "Ele é um outlier. Não existe o cara. Ele tem que ter paixão. Se você tiver uma paixão por aquilo, você pode chegar à excelência."

Você chegando à excelência, o dinheiro vem. Você não pode procurar o dinheiro. Você, "vou procurar o dinheiro, quero ficar rico". Você pode jogar sua vida fora se você fizer isso. Imagina que você dedique sua vida a ganhar dinheiro. E aí, ou porque morreu antes de conseguir o dinheiro, ou porque perdeu o dinheiro, foi roubado, ou porque aconteceu uma desgraça qualquer, você não chegou lá, você jogou sua vida toda fora, você passou a vida toda correndo atrás, enquanto que, se você fizer o que você gosta, você passou a sua vida toda bem, feliz, você nem percebe que você estava trabalhando.

Se você perguntar, você trabalha? Eu trabalho 10, 12, 15, 20 horas por dia. Eu não acho que eu estou trabalhando. Eu estou aqui conversando com vocês. Eu estou me divertindo. Estudei, aprendi, pratiquei, distribuo o que eu conheci, compartilho. Não sei o que é trabalhar. É hoje.

Por que existem pianistas, os jogadores de futebol, essa sociedade super complexa? Você sabe fazer esse microfone? Sabe fazer isso aqui? Sabe fazer isso aqui? Sabe fazer isso aqui? Isso. Como é que a gente usa isso tudo? Porque tem alguém que é muito bom para fazer isso, tem alguém que é bom para isso, alguém. Então, cada um vai numa direção. Essa é a essência da cooperação humana.

Você faz bem um negócio, pô, tem um cara que só sabe cantar, tem o outro que é bom de jogar tênis, o outro é um pugilista, dá soco em todo mundo. Em vez de ser um negócio de usar aquela agressividade mal, aquele cara está distraindo, sei lá, a luta do Cassius Clay naquela época, né, do Mohammed Ali. Uma luta de um EJOF, que era um campeão brasileiro. Eram lutas que mobilizavam 1 bilhão de pessoas no mundo inteiro assistindo uma luta, a final do campeonato mundial de boxe, um negócio desse tipo. Hoje o futebol, né, as pessoas, milhões de pessoas no mundo inteiro, a Copa do Mundo, bilhões de pessoas no mundo inteiro assistindo, o jogador de futebol fica riquíssimo. Todo mundo: "Ó, como é que pode um negócio desse? Que injustiça!" Como injustiça? Ele faz, gera uma economia absurda, né, gera.

Se você pegar os maiores bilionários do mundo, nenhum deles é herdeiro. Todos eles criaram coisas. O Bill Gates criou softwares aí, aquele Steve Jobs criou a Apple. São caras que criaram coisas que são extraordinárias, beneficiam milhões de pessoas, bilhões de pessoas.

Olha, quando eu tinha a idade de vocês, "o que que você quer ser?", etc., etc. A primeira coisa que vinha era "eu quero passar num concurso público", uma coisa desse tipo, era uma busca de segurança. Eu não pensava em ser empreendedor, mas também não pensava em segurança. Se você perguntasse para mim: "O que que você quer fazer?", eu diria: "Eu quero estudar economia." Então, eu vou estudar economia, depois vou ser um professor de economia, que aí eu posso estudar a vida inteira. Se eu for um professor, posso ficar na universidade estudando a vida inteira. Esse era o meu plano de vida.

Aí, como é que despertou esse negócio de empreendedorismo em você? E o sistema financeiro, como é que ele começou a se deslocar para o setor real? Eu dizia, eu cheguei, foram me buscar na universidade, né, falando: "Esse cara tem conhecimento." O empresário chegou para mim e falou assim: "Vem cá, você fica falando no jornal todo dia, o que que vai acontecer? Você dá de graça para todo mundo o seu conhecimento todo. Por que que você não vem fazer um banco com a gente?" E a gente vai transformar isso em recurso. Nós vamos ganhar dinheiro, vamos preservar riqueza, vamos investir bem os recursos. Vem trabalhar conosco. Em vez de você dar de graça o seu conhecimento, vem aqui que nós vamos transformar isso em riqueza econômica.

Até quando nós fundamos o banco, eu falei assim: "Ó, eu só vou à tarde, só trabalho à tarde, porque de manhã eu estudo e quero fazer meus modelos e quero dar aula." Eu fiquei 2 anos, 2 anos e meio no Pactual, que eu só trabalhava de tarde, não trabalhava de manhã, porque eu queria continuar estudando e dando aula. Aí eu acabei sendo arrancado, porque aí o banco começa a crescer e você vai.

Mas o interessante é o seguinte, por isso que eu digo que é bom você ver isso como um ecossistema. Porque naquela época você tinha que preservar a riqueza porque o país estava indo para uma hiperinflação. Nós fomos para 5.000%, depois veio o Plano Real, mas nós estávamos indo para 5.000%.

Até, curiosamente, os menos autores do Plano Real foram os que primeiro levaram o Brasil para 5.000%, depois aprenderam e consertaram, mas primeiro eles tentaram o Plano Cruzado, congelaram os preços todos. A inflação era 200% ao ano, 2, 3 anos seguidos. Aí eles congelaram os preços, suprimiram, reprimiram a inflação. Aquilo ficou ali preso 6 meses, 9 meses, depois explodiu e foi embora até 5.000%. Aí eles aconselharam o presidente Collor, que entrou logo depois, a congelar os ativos financeiros.

Eles estavam combatendo os sintomas, né? Os sintomas. Primeiro, tem preço subindo, congela o preço. O dinheiro está circulando muito rápido. País do overnight, todo mundo com poupança. Você não botava dinheiro por um mês, por dois meses. Primeiro você botava, poupava por um ano, a inflação subia, você botava por três meses. A inflação continua subindo muito, todo mundo com medo, você botava no overnight. É de um dia para o outro. Você decidia se vai deixar o dinheiro ou se vai tirar. Vai deixar ou vai tirar todo dia. E o juro 5.000%. Então, o país também estava indo para explosão.

Então, eles acabaram entendendo que eram, na verdade, sintomas de um fenômeno mais grave que estava embaixo, que era o excesso de gasto do governo financiado por moeda. O Plano Real, então, foi um plano monetarista brilhante, monetarista. Ele não cuidou da coisa fiscal, ele não consertou a taxa de câmbio. Nós fomos aprendendo aos trancos e barrancos por tentativa e erro. Congela preço, não funciona. Congela os ativos de todo mundo, não funciona. Porque a inflação voltou para 2.000%, ela foi a 5.000%. Nós congelamos preço, ela foi de 200%, ela caiu para zero, depois foi para 5.000%. Aí nós congelamos a poupança da população. Ela voltou para zero de novo, depois foi para 2.500%. Aí nós fizemos um Plano Real, um plano monetarista, uma reforma monetária. Aí a inflação veio descendo devagar, mas com juro muito alto. O governo continua gastando muito, só que em vez de financiar com inflação, ele agora financia com endividamento em bola de neve.

Aí o país continua com juro muito alto, cresce pouco, está sempre com problema de finanças públicas. Então, toda hora grandes empresas, boas empresas e pequenas empresas são feridas mortalmente pelos juros altos. E tem que botar isso na cabeça. Juro alto é problema de excesso de gasto de governo. Não tem jeito. Você fala assim: "Ah, o Banco Central não, Banco Central é um espelho. Se o governo é gastador, o Banco Central está com aquele juro lá em cima para tentar derrubar a inflação. Se o governo é bem comportado, não gasta, está tudo certinho, o espelho do Banco Central, o juro fica baixinho, o país cresce, está tudo certo."

Como o governo brasileiro não se comporta, ele está sempre saindo das quatro linhas, fazendo uma bagunça, gastando muito, volta e meia empresas são abatidas em pleno voo, elas estão crescendo, têm uma mistura às vezes equilibrada de juros e de capital próprio com capital de terceiros, mas de repente aquele juro vai lá em cima e fere mortalmente a empresa e ela é abatida.

E aí alguns estados começam a se destacar. Alguns estados se equacionam melhor até do que o governo federal, conseguem fazer bons ambientes de negócio. O mercado financeiro, ele vai se adaptando. Então, eu que era, na verdade, um estrategista, um economista-chefe, um sócio importante de um banco que, na verdade, sobrevivia, de repente ele começa a participar do financiamento, do crescimento de um país.

O primeiro private equity, lá fui eu que fiz. Ou seja, vamos financiar empresas do setor real, grandes empresas brasileiras hoje, na época eram pequenininhas, nós ajudamos a convencer para virem para o mercado: Natura, Localiza, essa empresa toda, nós falamos: "Ó, vocês têm que vir para o mercado de capitais." Ou seja, esse ecossistema começou a evoluir. Ele escapou do modo sobrevivência, que é como é que se sobrevive numa hiperinflação, que é como o nosso banco no início vivia, e passou aí para o modo crescimento. Agora não é só sobreviver a uma hiperinflação, é como é que o mercado financeiro e o mercado de capitais podem ajudar as empresas a crescerem, ajudar a criar vários partnerships.

E aí começou o mercado financeiro brasileiro começou a se sofisticar, se aprofundar. Hoje você tem dívida. Não existia esse negócio de título de 10 anos, 15 anos. Eu cheguei a fazer até um título eterno lá. Se você for lá agora, nós fizemos um pouquinho antes de sair, o prêmio Nobel Merton Miller ajudou a fazer um bônus para aposentadoria que você vai comprando, vai comprando, ele vai acumulando, ele não te paga nada por enquanto. Aí, quando você tiver lá na frente, o velhinho, você vai se aposentar e sim ele começa a te pagar tudo, principal e juro, tudo de uma vez só. Então, é quase que um título eterno. Ele vai até o fim de sua vida.