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O Cortiço | Análise Literária [Fuvest] - Brasil Escola

Brasil Escola Oficial10:29

Transcription

[Música] Olá moçada, estamos aqui para mais uma aula de literatura e o tema da nossa aula hoje é um tema muito importante: é a análise da obra O Cortiço, obra que está presente nos grandes vestibulares Brasil afora. Eu sou a professora Mirele Costa, sua professora de literatura. Vamos para a nossa aula? Mais antes, não se esqueça de se inscrever em nosso canal e ficar atento ao Sininho para que você possa receber as nossas [Música] atualizações.

A obra O Cortiço foi feita por Aluísio de Azevedo, um grande nome do naturalismo brasileiro. Aluísio de Azevedo inaugura este movimento no Brasil com a publicação da obra O Mulato. O naturalismo é um movimento voltado mais, mais para a razão, assim como o realismo, só que com um olhar cientificista para o mundo. É um movimento muito importante que analisa o homem e as suas patologias. Essas narrativas vão privilegiar os ambientes coletivos: cortiços, pensões, hospedarias. É nesse ambiente que o autor faz a análise de seus personagens.

Em relação à estrutura da obra, temos um narrador em terceira pessoa onisciente. O espaço é o Rio de Janeiro do século XIX, especificamente o bairro de Botafogo. O tempo é cronológico, mas há momentos que, na narrativa, nós temos a presença do flashback.

Ao pensarmos no enredo do Cortiço, é importante o leitor visualizar de um lado os personagens moradores do cortiço, do outro lado os personagens moradores do sobrado. E vale lembrar que há momentos em que nós teremos conflitos entre moradores do sobrado versus moradores do cortiço, principalmente com a figura de João Romão e Miranda.

Ao pensarmos nessa obra, vale lembrar que, para muitos críticos, o Cortiço é o grande personagem da narrativa. Ele passa por um processo de personificação. Só que, antes de falarmos deste cortiço que está prestes a nascer, vamos pensar em João Romão.

João Romão era um português que trabalhou dos três anos aos 25 anos numa mercearia no bairro de Botafogo. Aos 25 anos, o seu patrão, um velho português, resolve voltar para Portugal e ele, como forma de receber até suas dívidas trabalhistas, passa a ser o proprietário dessa mercearia. João Romão é um homem ambicioso, é um homem que sonha em ser rico. No primeiro momento, este é o grande sonho, este é o grande desejo e, para isso, ele vai fazer tudo: economizar, inclusive dormindo no próprio balcão da mercearia.

Na frente desta mercearia, temos uma quitandeira: Bertoleza. É uma escrava de aluguel, ou seja, todo mês ela manda o valor específico para o seu patrão para pagar o aluguel de sua liberdade. Tudo que ela faz, ela consegue juntar para um dia conquistar a tão sonhada carta de alforria. Ela é uma mulher que trabalha muito.

Num primeiro momento, mostra que Bertoleza tinha um marido e, no livro, eles vão até usar o termo: "Bertoleza era amigada". Esse marido, que não cita o nome, ele morre logo no capítulo dois, puxando uma carroça muito pesada e morrendo estropado como uma besta. É a primeira cena de zoomorfização.

Ao lado do cortiço que nasce, e esse cortiço nasce, vale lembrar, porque João Romão ele vai comprar um grande terreno ao lado da mercearia e, junto com Bertoleza, na madrugada, os dois vão roubando material de construção para construir as primeiras casinhas do cortiço. Bertoleza jura que a sua carta de euforia é legítima, mas não, meus alunos, é falsificada por João Romão.

Ao lado desse cortiço que nasce, temos o sobrado de Miranda. Miranda é um comerciante português, casado com Estela, pai de Zumira. Ele morava no centro do Rio de Janeiro e decide mudar para o bairro de Botafogo. Oficialmente, é porque o clima do bairro iria fazer bem para sua filha. Na verdade, o que ele queria era afastar Estela de seus amantes.

Um dos momentos em que temos a zoomorfização mais evidente é no capítulo 13, em que nós temos o despertar do Cortiço. Por isso trouxemos esse trecho para vocês:

"Daí a pouco, em volta das bicas, eram um zum-zum-zum crescente, uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas, uns após outros, lavavam a cara incomodamente debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se; as mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhe a tostada no des dos braços e do pescoço que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco. Os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo; ao contrário, metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, forçando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam; era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tréguas; não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias. As crianças não se davam ao trabalho de lá ir; despachavam-se ali mesmo no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas."

É interessante que os personagens são comparados a animais. E se você vê essa última cena, olha só: "as crianças despachavam-se ali mesmo no capinzal ou próximo da horta". Gente, isso daria uma boa questão de intertextualidade lá na Biologia, uma questão de verminose.

Dentre os personagens de destaque do Cortiço, temos o português Jerônimo, casado com Piedade, que vai trabalhar na pedreira no fundo do cortiço. Ele é um cavouqueiro, é aquele que quebra a pedra. Vale lembrar que esta pedreira também é de João Romão. Logo na sequência, chega uma figura emblemática da narrativa: Rita Baiana, uma mulher bonita, uma mulata sensual e envolvente, e acaba fazendo com que Jerônimo fique louco por ela.

Jerônimo vai mudar o seu comportamento radicalmente. Antes, Jerônimo tomava café; agora, Jerônimo toma pinga. Jerônimo, antes, era trabalhador; agora, ele é preguiçoso. Jerônimo era econômico; agora, ele já gasta sem regras. Segundo o narrador, Jerônimo "abrasileirou-se". O meio do cortiço vai determinar o novo comportamento de Jerônimo.

Vale lembrar que Rita Baiana tem um amante, Firmo. Quando Firmo percebe que Rita e Jerônimo estão envolvidos em uma roda de samba, Firmo acaba ferindo Jerônimo. Jerônimo vai para o hospital, ele vai se recuperar e ele volta com dois desejos: matar Firmo e casar-se com Rita Baiana. Sim, Jerônimo consegue colocar o plano em prática e acaba abandonando Piedade.

Outra personagem que vale ressaltar é Pombinha, a "flor do cortiço", virgem pura. Já tem um noivo, tá tudo certinho para a vida de Pombinha, só que todos esperam a sua menarca, que demora a aparecer. Pombinha também muda o seu comportamento. Lembrem-se que ela vai se envolver com a personagem Leone, ela vai embora do cortiço e Leone e Pombinha acabam fundando um prostíbulo. Como essa personagem se transformou ao longo da narrativa!

Na sequência, vale relembrar de João Romão, o dono do cortiço. Se num primeiro momento João Romão queria ser rico, agora ele já é. Então, o próximo desejo de João Romão é conseguir o status social e, para isso, ele tem um plano: casar-se com Zumira, a filha de Miranda.

Vale lembrar que a personagem Piedade, aquela que era esposa de Jerônimo, após a partida do marido, ela conhece a degradação social. Essa mulher abandonada, ela cai no alcoolismo e acaba sendo expulsa do cortiço.

Na sequência, temos Bertoleza. Sim, aquela que vivia com João Romão. Como agora ele deseja casar-se com Zumira, é preciso livrar-se de Bertoleza. Então, o plano de João Romão é reencontrar os antigos donos de Bertoleza para devolvê-la. Afinal de contas, a sua carta de alforria é falsa.

Chegamos ao ponto alto da narrativa, o grande final. Bertoleza, que estava de cócoras limpando um peixe, ao perceber que o filho de seu antigo dono chega acompanhado da polícia, não pensa duas vezes. Com a mesma faca que ela limpa o peixe, ela crava no seu ventre, abrindo ele de um lado a outro. Bertoleza prefere a morte do que voltar a ser escrava.

Chegamos ao final da obra O Cortiço e ficou evidente, com a leitura da obra, com a nossa análise, que essa narrativa temos personagens fortemente influenciados pelo meio. Se você gostou da nossa aula, curta, compartilhe, acesse os nossos links, mas não deixem, lembrem-se de ler o original, porque vale muito a pena.