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Módulo 1 - Empatia e escuta empática - Bloco 3 - 1.3 Um estudo de caso

EJEF EAD11:56

Transcription

G1. E aí, dessa questão é trazer um pouco de reflexão sobre o ponto que pertencimento e significado incluem. Por exemplo, uma produtividade no ambiente de trabalho. Você já parou para pensar como que muda a sua própria produtividade, o seu foco, o resultado que você consegue produzir quando você se sente bem naquele espaço? Melhor quando você sente parte de um determinado grupo, ou ainda quando você vê que você é significante ali, que o que você faz tem um impacto e que você é inclusive considerado, que você é escutado, que você tem voz e vez naquele lugar? Como que muda isso? Como que muda o seu modo, como você age, o que você se dispõe a fazer, a qualidade do resultado que você traz?

Para a gente refletir um pouco sobre isso, eu quero trazer um estudo de caso. Eu vou preservar aqui a empresa, eu vou preservar aqui os dados sobre funcionários. Eu vou tentar trazer ao máximo um lugar que não seja identificado. Então, isso vai me trazer um pouco menos de riqueza em relação a dados para vocês. Eu vou falar de maneira mais genérica, mas eu vou falar o contexto geral para que vocês captem do que a gente está falando. Eu atuei em uma empresa aqui em Minas Gerais que ela, basicamente, ela tem uma ligação muito profunda na sua atividade-fim relacionada à mineração. E essa era uma empresa de renome, uma empresa enorme, grandiosa no porte mundial, e uma empresa de muitos lucros, muitos dividendos. Uma empresa que não era fácil você ser um engenheiro dela. Então, até o incidente que eu vou falar agora, normalmente esses engenheiros tinham meio que um peito aberto, Guido. Sabe aquele olhar confiante? Eles almejavam, na sua carreira, pertencer a essa empresa, trabalhar nessa empresa, ter um cargo ali, desenvolver uma carreira naquele espaço. O salário deles era bom, o status social era alto. Era realmente um lugar de destaque, era um sinônimo de sucesso. Então, muitas pessoas que eram engenheiros em empresas como essa, elas sorriam ao dizer: "Sou engenheiro na empresa X". E elas eram meio que referendadas socialmente falando. Então, quando uma pessoa dessa dizia qual que era a sua profissão, onde trabalhava aqui em BH, por exemplo, para você: "Nossa, sério?", automaticamente você escutava e dizia: "Com certeza, Fulano só pode ser um bom profissional, é certo que Fulano tem um bom salário, os filhos de Fulano devem ter uma qualidade de vida tremenda". Com certeza, é uma pessoa que realmente sabe o que faz, eu deveria ouvir Fulano quando for me perguntar sobre engenharia, por exemplo.

Nesse aspecto aqui, o que acontece é que algo que teve uma proporção nacional tremenda, que foi exatamente aquilo que aconteceu em Mariana, quando a gente rompe uma barragem, e o número de pessoas afetadas, atingidas, mortas, de instruções de tantas esferas. E aquela pessoa naquela empresa, que não era uma das empresas que estavam envolvidas diretamente com o que aconteceu em Mariana – se quer me lembro as empresas que trabalhavam com essa questão de barragem na situação de minério específica – mas a partir do momento que fala: "Eu sou engenheiro da empresa X", e no imaginário popular as pessoas sabem que é uma empresa que trabalha com mineração, como que essa pessoa passou a ser vista? E como que vocês acham que uma semana, um mês ou alguns poucos meses depois do que aconteceu em Mariana, essa pessoa passou a falar sobre: "Sou engenheiro na empresa..."? Então você acha que ela chegou assim com aquele peito aberto, ou vocês acham que ela começou a falar miudinho, ou ela se limitou a dizer: "Sou engenheiro. Você trabalha aonde? Ah, mas eu não fui ao formulário básico ainda, fazer o exame de sangue... tinha trabalhado aonde? Ah, bom..."? E como que era a resposta recebida pelo interlocutor? Quando você diz: "Eu trabalho na...", e a pessoa: "Ah...", e vou mandar um pouquinho até a expressão facial, como que isso ressoa bem nessa empresa específica?

O que aconteceu foi que essas pessoas começaram a ter uma vergonha de fazerem parte daquele contexto. A maioria desses engenheiros que eu cheguei a conhecer era mineiros, muitos deles nem eram nascidos em Belo Horizonte, mas em cidades próximas, e eles tinham também uma experiência específica sobre aquilo, muitas vezes quando eles eram pequenininhos, que geram às vezes filho de outros engenheiros que atuavam em empresas como essa, tinham contatos, conexões próximas, e eles pensavam: "Nossa, isso aqui é uma coisa legal, isso aqui é uma questão de sucesso, que um ponto bacana para testar". E nesse momento, quando começou a falar miudinho, quando começou a rever: "Putz, o que que eu tô fazendo? E é o que eu quero continuar nesse emprego? Será que isso que eu tô fazendo efetivamente realiza meu propósito? E aqui eu tô servindo a qual impacto? O que que eu tô fazendo aqui?". E essa mesma pessoa que passou a trazer esse tanto de reflexão, como vocês acham que ela acordava todo dia de manhã, ia para o trabalho? E como que vocês imaginam que essa pessoa passou a estar trabalhando, com que gás, com que foco? Vocês imaginam que esse mesmo engenheiro foi fazer uma planilha, trazer um cálculo, oferecer um trabalho, fazer um relatório? E você acha que ele deu o máximo de si, para a maior eficiência, com a maior felicidade, com orgulho pessoal tremendo? Vocês imaginam que depois que aconteceu, pode ser que uns tantos deles, um bocadinho dele, tinha parado de sentir, e tenha se celular enrolado um tiquinho para produzir aquele relatório, ou "vamo, cabeça cheia", ou emocionalmente abalado, ele tomar um café e demorado por mais tempo ali até voltar para aquele computador, outra voltada àquele cálculo? Bem, o que eu posso falar dessa empresa específica, entre o ato em si, é que vários engenheiros passaram por isso, vários deles começaram a se perguntar: "O que eu estou fazendo aqui? O que é sucesso? O que está por trás desse dinheiro que tem que pagar as minhas contas e as contas da minha família? Há outras maneiras de ser um profissional de sucesso que não trabalhando aqui fazendo esse serviço? E qual que é o impacto desse cálculo que eu tô fazendo aqui, que parece tão hermético enquanto eu vejo, mas que traz esse resultado específico? O que pode ser metido nesse resultado específico?".

Vou trazer uma rememoração para vocês: depois que Mariana aconteceu, a gente teve o alarme sobre plantas, outros lugares que também estavam sobre o mesmo risco. Um tempo depois, inclusive, aconteceu em Brumadinho. E talvez quem mora aqui em BH lembre que por um tempo a gente não conseguiu nem ir para Ouro Preto pelo caminho mais simples, pelo caminho mais curto, porque ali também, até nas proximidades do Alphaville, tava com mais um risco de rompimento de uma outra barragem, e foi interditada determinada das avenidas. É o cara que essa pessoa ficou pensando sobre tudo isso, que não era um caso isolado. Bom, então pensar um pouco sobre isso é importante, porque quando a gente fala em produtividade, por exemplo, no ambiente de trabalho, às vezes parece que é uma coisa muito superficial e distante de pertencimento, significado, e no fundo não é. O que eu quero trazer como reflexão a partir desse estudo de caso é o quanto que muda o fato da gente entender que, por exemplo, no caso desses gêneros específicos, o que eu faço tem um valor social, o que eu faço traz, por exemplo, nível de transformação, ou ainda que aquilo que eu faço tem um impacto em, auxilia justamente a realizar aquele mundo que eu desejo, que eu espero que aconteça, é aquele meu mundo imaginado, e é uma contribuição social, mínimo para isso, ou como que muda, por exemplo, quando eu tomo espaço de trabalho em que eu acredito que eu sou significante. Por exemplo, nessa empresa, uma das coisas que começou a acontecer foi quando reduziu drasticamente a produtividade, sem que ninguém tivesse sido mudado. Uma das coisas que eles começaram a fazer foi uma espécie de oficina, de encontro de contatos, para que essas pessoas pudessem falar de como se sentiam, o que precisavam, e a gente oferecer esses encontros periodicamente. Então, processo uma vez por semana, nas quartas-feiras, no turno tal, quem quiser poderia simplesmente aparecer, saber que era uma oferta periódica, como que é um cinto também.

Quando eu tenho um lugar de valorização profissional, então entendo que isso aqui se importa em como eu estou, que isso aqui não é indiferente ao que eu trago, como eu me sinto, do que eu preciso, que alguém se importa, que essa instituição não tá nem aí. Então, isso também muda muito sobre o trabalho que eu sou capaz de realizar. Nunca fique bem de imediato, que tudo seja flores, mas nem com a circunstância. Uma das coisas que acaba acontecendo lá: um "ok, ainda não consigo lidar muito bem com isso, tá sendo difícil, mas eu tô conseguindo fazer alguma coisa a respeito", a outra fluindo aqui: "alguém se importa, eu não tô só, e não é só sobre mim". Olha, tudo isso muito importante para que a gente possa entender um pouquinho mais sobre o que é estar fazendo parte dessa empresa, por exemplo, e para que eu consiga produzir efetivamente resultados, para conseguir realizar esse trabalho, me senti motivado no meu trabalho. O mesmo acontece com o pertencimento em outros momentos. Já cheguei a nomear no nosso curso que, na minha experiência pessoal, especialmente posso falar com muita franqueza, que nos últimos 10 anos trabalhando com empresas ou com órgãos públicos de modo mais aprofundado que trabalham nessas partes de trabalho coletivo, eu ainda não consegui pisar em um único lugar em que as pessoas me dissessem: "O meu maior desafio é realizar o meu trabalho". Normalmente as pessoas me falam: "O meu maior desafio é a relação com o grupo de trabalho", e não é aquilo que eu tenho competência para fazer, que é o que mais me desgasta no meu trabalho. Muitas amigas nossas, com pessoas que vão ver dó, e quem trabalha com atendimento ao público, então, Senhor... Então, justamente por isso aqui é importante que a gente conecte o quanto que de produtividade está muitas vezes relacionada à pertencimento, significado. E se eu quero estar no meu trabalho, e se eu tô falando aqui, tu és, por exemplo, gestor, gestora, pensa um pouco sobre isso. Uma das maneiras de trazer um espaço mais produtivo é desenvolver pertencimento, conexão, confiança e segurança daquele espaço, e ao mesmo tempo significado, ou seja, as pessoas fazem um trabalho que elas veem que tem um impacto bacana, algo que elas acreditam que é legal naquele espaço, mas não só ainda, que elas têm voz e vez naquele lugar, que elas são consideradas enquanto sujeitos, que a opinião, a perspectiva, o ponto de vista delas é considerado, o ponto a ponto, que não é uma coisa imutável com o modelo, e a gente simplesmente segue independentemente de quem é, o que você fala, matrícula em uma nesse legal. Isso é muito importante a gente pensar também, e eu queria então finalizar essa resposta com essas reflexões.