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A Fé Explicada - Leo J. Trese (Capítulo 10)

Via Veritas (Audiobooks Católicos)47:00

Transcription

Capítulo 10: As virtudes e dons do Espírito Santo

O que é virtude? O que significa ser virtuoso? Se alguém fizesse essa pergunta a mim, eu responderia: não, não de um modo especial. Entretanto, se você é batizado e vive em estado de graça santificante, possui as três virtudes mais altas, as virtudes divinas da fé, da esperança e da caridade. Se cometer um pecado mortal, perderia a caridade (o amor de Deus), mas ainda assim lhe restariam a fé e a esperança. Mas, antes de prosseguir, talvez seja conveniente repassar o significado da palavra virtude na religião. A virtude se define como o hábito ou qualidade permanente da alma, a querida inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal. Por exemplo, se você tem o hábito de sempre dizer a verdade, possui a virtude da veracidade ou sinceridade. Se tem o hábito de ser rigorosamente honesto com os direitos dos outros, possui a virtude da justiça. Se adquirimos uma virtude por nosso próprio esforço, desenvolvendo conscientemente um hábito bom, denominamos natural esta virtude. Suponhamos que decidimos desenvolver a virtude da veracidade: vigiaremos nossas palavras, cuidando de nada dizer que não seja verdade. A princípio, talvez nos custe, especialmente quando dizer a verdade nos causa inconveniente. O sono sem vergonha é um hábito, seja bom ou mau, que se consolida pela repetição de atos, pouco a pouco. Se não for mais fácil dizer a verdade, mesmo que suas consequências nos contrariem, será do momento em que dizer a verdade é para nós como que uma segunda natureza, e para mentir temos que fazer força. Quando for assim, poderíamos dizer sinceramente que adquirimos a virtude da veracidade; e porque a conseguimos com o nosso próprio esforço, essa virtude chama-se natural. Mas Deus pode infundir na alma uma virtude diretamente, sem esforço de nossa parte. Pelo seu poder infinito, pode conferir a uma alma o poder e a inclinação para realizar certas ações que são sobrenaturalmente boas. É uma virtude deste tipo, o hábito infundido na alma diretamente por Deus, que chamamos sobrenatural. Entre estas virtudes, as mais importantes são as três aqui chamadas teologais: fé, esperança e caridade. E são chamadas teologais ou divinas porque dizem respeito diretamente a Deus: em Deus cremos, em Deus esperamos e a Deus amamos. Estas três virtudes, junto com a graça santificante, são infundidas em nossa alma pelo sacramento do batismo. Mesmo uma criança, se estiver batizada, possui as três virtudes, ainda que não seja capaz de praticá-las enquanto não chegar ao uso da razão. Uma vez recebidas, não se perdem facilmente. A virtude da caridade, a capacidade de amar a Deus com amor sobrenatural, só se perde pelo pecado mortal. Mas, mesmo que se perca a caridade, a fé e a esperança permanecem. A virtude da esperança só se perde por um pecado direto contra ela, pelo desespero de não confiar mais na bondade e misericórdia divinas. E, é claro, se perdemos a fé, perdemos também a esperança, pois é evidente que não se pode confiar em Deus se não se crê nele. A fé, por sua vez, se perde por um pecado grave contra ela, quando nos recusamos a crer no que Deus revelou.

Além das três grandes virtudes a que chamamos teologais ou divinas, existem outras quatro virtudes sobrenaturais que, juntamente com a graça santificante, são infundidas na alma pelo batismo. Como estas virtudes não dizem respeito diretamente a Deus, mas sim às pessoas e coisas em relação a Deus, chamam-se virtudes morais. As quatro virtudes morais sobrenaturais são: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Possuem um nome especial: virtudes cardeais. O adjetivo cardeal deriva do substantivo latino *cardo*, que significa "dobradiça", e são assim chamadas por serem virtudes principais, pois delas dependem as demais virtudes morais. Se um homem é espiritualmente prudente, justo, forte e moderado, podemos afirmar que possui também as outras virtudes morais. Poderíamos dizer que estas quatro virtudes contêm a semente das demais. Como, por exemplo, a virtude da religião, que nos inclina a prestar a Deus o culto devido, emana da virtude da justiça. De passagem, diremos que a virtude da religião é a mais alta das virtudes morais.

É interessante mencionar duas diferenças notáveis entre a virtude natural e a sobrenatural. Uma virtude natural, precisamente porque se adquire pela prática frequente e pela autodisciplina habitual, nos torna mais fáceis o uso dessa virtude. Chegamos a um ponto em que, para dar um exemplo, se nos torna mais agradável ser sinceros. Já uma virtude sobrenatural, que é diretamente infundida e não adquirida pela repetição de atos, não torna necessariamente mais fácil a prática da virtude. E não é difícil imaginar uma pessoa que, possuindo a virtude da fé em grau eminente, tenha tentações de dúvida durante toda a vida. Outra diferença entre a virtude natural e a sobrenatural é a forma como cada uma cresce. Uma virtude natural, como a paciência adquirida, aumenta com a prática repetida e perseverante. Uma virtude sobrenatural, porém, somente pela ação de Deus. E esse aumento Deus o concede em proporção com a bondade moral de nossas ações. Por outras palavras, tudo o que aumenta a graça santificante aumenta também as virtudes infusas, e crescemos em virtude tanto quanto crescemos em graça.

O que queremos dizer exatamente quando afirmamos "creio em Deus", "espero em Deus" ou "amo a Deus"? Em nossas conversas habituais, é fácil usarmos destas expressões com pouca precisão. É bom recordar, de vez em quando, o sentido estrito e original das palavras que utilizamos. Comecemos pela fé. Das três virtudes teologais infundidas pelo batismo, a fé é fundamental. É evidente que não podemos esperar em Deus nem amar um Deus em quem não cremos. A fé divina se define como a virtude pela qual cremos firmemente em todas as verdades que Deus revelou, baseados na autoridade do próprio Deus, que não pode enganar-se nem enganar-nos. E aqui duas frases-chave merecem ser examinadas: "admitir algo como verdadeiro" e "autoridade do próprio Deus". Crer significa admitir algo como verdadeiro. Cremos quando damos nosso assentimento definitivo, inquestionável, a determinada afirmação. Já vemos a pouca precisão de nossas expressões quando dizemos "creio que vai chover" ou "creio que foi o dia mais agradável do verão". Em ambos os casos, a expressão é simplesmente uma opinião: supomos que choverá, temos a impressão de que hoje foi o dia mais agradável do verão. Convém ter presente este ponto: uma opinião não é uma crença. Crer implica certeza. Ah, mas nem toda certeza é fé. Não digo que creio em alguma coisa se a vejo e compreendo claramente. Não creio que dois e dois sejam quatro porque é algo evidente; posso compreendê-lo e prová-lo satisfatoriamente. Esse tipo de conhecimento se refere a fatos que posso perceber e demonstrar; é compreensão, não crença. Outra é a aceitação de algo como verdadeiro baseando-nos na autoridade de outro. Eu nunca estive na China, mas muitas pessoas que lá estiveram asseguraram-me que esse país existe. Porque confio neles, creio que a China existe. Igualmente, sei muito pouco de física e absolutamente nada de fissão nuclear, e apesar de nunca ter visto um átomo, creio que eles existem porque confio na competência dos que asseguram que isso se pode fazer. Esse tipo de conhecimento é o da fé: afirmações que se aceitam pela autoridade de outros em quem confiamos. Havendo tantas coisas na vida que não podemos compreender ou não temos tempo livre para comprová-las pessoalmente, é fácil ver que a maior parte de nossos conhecimentos se baseia na fé. Se não tivéssemos confiança em nossos semelhantes, a vida pararia. Se a pessoa que diz "não vejo, não creio" ou "se não entendo, não creio" atuasse de acordo com suas palavras, bem pouco poderia fazer na vida. E que tipo de fé é a nossa aceitação de uma verdade baseados na palavra de outro? Chamamos humana. O adjetivo *humana* a distingue da fé divina. Aceitamos a verdade pela autoridade de Deus quando nossa mente a declara verdadeira porque Deus a manifestou. A nossa chama-se divina. Vê-se claramente que a fé divina implica um conhecimento muito mais seguro que a fé meramente humana. Não é comum, mas é possível que todas as autoridades humanas se enganem em determinada afirmação, como aconteceu, por exemplo, com o ensinamento universal de que a Terra era plana. Não é comum, mas é possível que todas as autoridades humanas procurem enganar, como acontece, por exemplo, com os ditadores que enganam o povo. Mas Deus não pode enganar-se a si mesmo nem enganar os outros; ele é sabedoria infinita e verdade infinita. Não poderá haver nem sombra de dúvida nas verdades que Deus revelou. E por isso a verdadeira fé é sempre uma fé firme; andar com dúvidas sobre uma verdade de fé é questionar a sabedoria infinita de Deus ou sua infinita verdade. Especular se haverá três pessoas em Deus ou se Jesus está realmente presente na Eucaristia é questionar a credibilidade de Deus ou negar sua autoridade. Na realidade, é rechaçar a fé divina. Pela mesma razão, a verdadeira fé deve ser completa. Seria uma estupidez pensar que podemos escolher e ficar com as verdades que nos agradam dentre as que Deus revelou. Dizer "eu creio no céu, mas não no inferno", "creio no batismo, mas não na confissão", é o mesmo que dizer que Deus pode enganar-se. A conclusão que logicamente se seguiria seria esta: afinal, porque crer em Deus?

A fé de que falamos é fé sobrenatural, porque surge da virtude divina infusa. É possível ter uma fé puramente natural em Deus ou em muitas de suas verdades. Esta fé pode basear-se na natureza que dá testemunho de um Ser Supremo de poder e sabedoria infinitos. Pode basear-se também na aceitação dos testemunhos de numerosas pessoas grandes e sábias, numa atuação da providência divina em nossa vida pessoal. Uma fé natural deste tipo é uma preparação para a autêntica fé sobrenatural que nos é infundida junto com a graça santificante na pia batismal. Mas é só esta fé sobrenatural, esta virtude da fé divina que nos é infundida no batismo, aquela que nos dá condições para crer firme e inteiramente em todas as verdades, mesmo as mais inefáveis e misteriosas que Deus nos revelou. Sem esta fé, os que alcançaram o uso da razão não poderiam salvar-se. A virtude da fé salva a criança batizada, mas quando se adquire o uso da razão deve haver também atos de fé.

Parte 2: Esperança e Amor

É doutrina de nossa fé cristã que Deus dá a cada alma que criou a graça suficiente para que alcance o céu. A virtude da esperança, infundida na alma pelo batismo, baseia-se neste ensinamento da Igreja de Cristo, e dele esse nasce e se desenvolve com o decorrer do tempo. A esperança se define como a virtude sobrenatural pela qual confiamos que Deus, que é todo-poderoso e fiel às suas promessas, nos concederá a vida eterna e os meios necessários para alcançá-la. Por outras palavras: ninguém perde o céu senão por culpa própria. Da parte de Deus, nossa salvação é certa; é somente da nossa parte, nossa cooperação com a graça de Deus, o que a torna incerta. Esta confiança que temos na bondade divina, em seu poder e fidelidade, só se abala nos contratempos da vida. Se a prática da virtude nos exige às vezes autodisciplina e abnegação, talvez mesmo a auto-imolação e o martírio, vamos encontrar nossa fortaleza e valor na certeza da vitória final. É a virtude da esperança, implantada na alma no batismo juntamente com a graça santificante. Mesmo um recém-nascido, se for batizado, possui a virtude da esperança. Mas devemos acautelar-nos: ao chegarmos ao uso da razão, esta virtude deve traduzir-se no ato de esperança em Deus e em suas promessas. O ato de esperança deveria destacar-se de modo permanente em nossas ações diárias; é uma forma de oração especialmente grata a Deus, já que manifesta ao mesmo tempo nossa completa dependência dele e nossa absoluta confiança em seu amor por nós. É evidente que o ato de esperança é absolutamente necessário para nos salvarmos. Nutrir dúvidas sobre a fidelidade de Deus em manter suas promessas ou sobre a efetividade de sua graça em superar nossas fraquezas humanas é um insulto, uma blasfêmia a Deus. Nessas condições, sendo assim impossível superar os rigores da tentação e praticar a caridade, é negada a salvação. Não poderíamos viver uma vida autenticamente cristã se não tivéssemos confiança no resultado final. Um pouco seria uma fortaleza suficiente para perseverar no bem se só tivéssemos uma possibilidade em um milhão de ir para o céu. Daqui se segue que nossa esperança deve ser firme; uma esperança fraca, mesquinha, em Deus, no seu poder infinito ou em sua bondade ilimitada, não serve. Isso não significa que não devemos manter um são temor de perder a alma, mas este temor deve proceder da falta de confiança em nós, não da falta de confiança em Deus. Se Lúcifer pode rejeitar a graça, nós também estamos dispostos a fracassar, mas esse fracasso não seria imputável a Deus. São aqueles que se lembram de dizer ao arrependimento de seu pecado: "Ó Deus, tenho tanta vergonha de ser tão fraco! Ó meu Deus, tenho tanta vergonha de ter esquecido como sou fraco!". Pode-se definir um santo como aquele que desconfia absolutamente de si mesmo e confia absolutamente em Deus. Também é bom não perder de vista que o fundamento da esperança cristã se aplica aos outros tanto quanto a nós mesmos. Deus quer não só a minha salvação, como a de todos os homens. Esta razão levar-nos-á a não nos cansarmos de pedir pelos pecadores e descrentes, especialmente pelos mais próximos, pelas relações de parentesco ou de amizade. Os teólogos católicos ensinam que Deus nunca retira completamente sua graça, nem sequer aos pecadores mais empedernidos. Quando a Bíblia diz que Deus endurece o coração para com o pecador, como, por exemplo, diz do faraó que se opôs a Moisés, não é senão modo poético de descrever a reação do pecador; é este que endurece o seu coração ao resistir à graça de Deus. Se falecesse um ser querido aparentemente sem arrependimento, também não deveríamos desesperar. Não nos aflijamos como os que não têm esperança. Enquanto não chegarmos ao céu, não saberemos que torrentes de graças Deus derramará sobre o pecador recalcitrante em seu último segundo de consciência, graças que nossa oração confiante terá obtido.

A confiança na providência divina não seja exatamente o mesmo que a virtude divina da esperança, está suficientemente ligada a ela para merecer nossa atenção. Confiar na providência divina significa que cremos que Deus nos ama, a cada um de nós, com amor infinito; um amor que não poderia ser mais direto e pessoal se fôssemos a única alma sobre a terra. A este preceito junta-se a convicção de que Deus só quer o que é para o nosso bem e que, em sua sabedoria infinita, conhece melhor o que é bom para nós do que nós mesmos. E, por seu infinito poder, ao confiarmos no sólido apoio do amor, cuidado, sabedoria e poder de Deus, estamos seguros; não caímos no estado de ânimo sombrio quando as coisas correm mal. Se nossos planos se impõem, nossos sonhos se frustram e o fracasso aparenta acossar-nos a cada passo, sabemos que Deus fará que tudo contribua para o nosso bem definitivo. A ameaça de uma guerra atômica não nos altera, porque sabemos que até os males que o homem produz Deus fará que, de algum modo, se encaixem em seus planos providenciais. Essa confiança na divina providência é a que vem em nossa ajuda quando somos tentados. E quem não é, uma vez ou outra, tentado a pensar que somos mais espertos que Deus, que sabemos melhor do que ele o que nos convém? Em certas circunstâncias concretas, pode ser que seja pecado, mas não podemos permitir-nos nenhum atalho. Pode ser que não seja muito honesto, mas nos negócios todo mundo faz o mesmo. Já sei que parece um pouco escuso, mas a política é assim. E quando nos vierem estas desculpas à boca, devemos desfazê-las com nossa confiança na providência de Deus. "Se fizer o que é correto, pode ser que apanhe muitos desgostos", devemos dizer, "mas Deus conhece todas as circunstâncias, sabe mais do que eu e ocupa-se de mim. Não me afastarei nem um milímetro de sua vontade."

A única virtude que permanecerá sempre conosco é a caridade. No céu, a fé alugará o conhecimento; não haverá necessidade de crer em Deus quando o vemos. A esperança também desaparecerá, já que possuímos a felicidade que esperávamos. Mas a caridade não só não desaparecerá como será unicamente no momento estático em que vemos a Deus face a face que esta virtude, infundida em nossa alma pelo batismo, alcançará a plenitude de sua capacidade. E então nosso amor a Deus, tão obscuro e fraco nesta vida, brilhará como o sol em explosão quando nos vemos unidos a esse Deus infinitamente amável, que é o único capaz de satisfazer os anseios de amor do coração humano. Nossa caridade se expressará eternamente num ato de amor. A caridade, virtude divina implantada em nossa alma no batismo juntamente com a fé e a esperança, define-se como a virtude pela qual amamos a Deus por si mesmo, sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos, por amor a Deus. É chamada rainha das virtudes porque as outras, tantas teologais como as morais, nos conduzem a Deus, mas a caridade é a que nos une a ele. "Ama a Deus e faz o que quiseres", diz um santo. É evidente que se amarmos de verdade a Deus, nos será grato fazer somente o que for do seu agrado. Evidentemente, o que se infunde em nossa alma pelo batismo é a virtude da caridade; e quando alcançamos o uso da razão, nossa tarefa é fazer atos de amor. O poder de fazer tais atos de amor fácil e sobrenaturalmente nos é dado pelo batismo. Uma pessoa pode amar a Deus com amor natural ao contemplar a bondade e a misericórdia divina, os benefícios intermináveis que nos concede. Podemos sentir-nos impelidos a amá-lo como se ama qualquer pessoa amável. É certamente uma pessoa que não teve ocasião de ser batizada, que está em pecado mortal e não tem possibilidade de se confessar, que não poderá salvar-se a não ser que faça um ato de amor perfeito a Deus. Isto é, um ato de amor desinteressado: amar a Deus por ser infinitamente amável, amar a Deus só por ele mesmo. Para um ato de amor assim, também necessitamos da ajuda divina, sob a forma de graça atual, mas ainda assim estamos em face de uma ação natural. Só pela habitação de Deus na alma, pela graça sobrenatural a que chamamos graça santificante, é que nos tornamos capazes de um ato de amor sobrenatural a Deus. A razão pela qual nosso amor se torna sobrenatural está em que realmente é o próprio Deus quem se ama a si mesmo através de nós. Para esclarecer isto, podemos servir-nos do exemplo de um filho que compra um presente de aniversário para seu pai e paga utilizando a conta de crédito do pai, com autorização deste. É como a criança que escreve uma carta à mãe com a própria mãe a guiar sua mão inexperiente. De modo semelhante, a vida divina em nós nos torna capazes de amar a Deus adequadamente, proporcionalmente com o amor digno de Deus e também agradável a Deus, apesar de ser, de certo modo, o próprio Deus quem realiza a ação de amar.

Essa mesma virtude da caridade, que acompanha sempre a graça santificante, nos torna possível amar o próximo com amor sobrenatural. Amamos alguém, não como mero amor natural, pelo simples fato de ser uma pessoa agradável, por termos ambos a mesma índole, por nos darmos bem ou porque de alguma maneira essa pessoa atrai nossa simpatia. O amor natural não é mau, mas não há nele nenhum mérito sobrenatural. Pela virtude divina da caridade, tornamo-nos veículos, instrumentos, pelo qual Deus, através de nós, pode amar nosso próximo. Nosso papel consiste simplesmente em oferecer-nos a Deus e não levantar obstáculos ao fluxo do amor de Deus. Nosso papel consiste em ter boa vontade para com o próximo por amor a Deus, porque sabemos que a isto Deus quer. Nosso próximo, de passagem, inclui todas as criaturas de Deus: os anjos e santos do céu, as almas do purgatório e todos os seres humanos vivos, inclusive nossos inimigos. E precisamente neste ponto tocamos o coração do cristianismo; é precisamente aqui que nós encontramos a cruz que prova a realidade ou a falsidade do nosso amor a Deus. É fácil amar a família e os amigos, e não é muito duro amar todo mundo de uma maneira vaga e geral; mas querer bem e rezar por estar disposto a ajudar a pessoa do escritório que lhe passou uma rasteira, a vizinha da frente que fala mal de você, aquele parente que conseguiu com artifícios a herança da tia Josefina, aquele criminoso que saiu nos jornais por ter violentado e morto uma menina de seis anos e se perdoá-lo hoje... é bastante duro! Como será uma luta de fato! Naturalmente falando, não somos capazes de fazê-lo, mas com a virtude divina da caridade podemos, mais ainda, devemos. Nosso amor a Deus será uma falsidade e uma ficção, mas tenhamos presente que o amor sobrenatural, seja a Deus ou ao nosso próximo, não tem que ser necessariamente emotivo. O amor sobrenatural reside principalmente na vontade, não nas emoções. Nós podemos ter um profundo amor a Deus, conforme prova nossa fidelidade a ele, e não senti-lo de modo especial. Amar a Deus significa simplesmente que estamos dispostos a qualquer coisa antes que ofendê-lo pelo pecado mortal. Da mesma maneira podemos ter um sincero amor sobrenatural ao próximo e, no plano natural, sentir uma marcada repulsa por ele. Eu o perdoo, por amor a Deus, o mal que me fez; rogo por ele; confio em que alcance as graças necessárias para salvar-se; estou disposto a ajudá-lo se tiver necessidade, apesar da minha natural resistência. Se assim amo sobrenaturalmente, a virtude divina da caridade opera no meu interior e posso fazer atos de amor que deveriam ser frequentes a cada dia, sem hipocrisia e sem afetação.

Parte 3: Maravilhas Interiores

Um jovem a quem eu acabava de batizar dizia-me pouco depois: "Sabe, padre, não sinto nenhuma das maravilhas que o senhor dizia que experimentaria ao batizar-me. Sinto um alívio especial em saber que meus pecados foram perdoados e alegro-me de saber que sou filho de Deus e membro do corpo místico de Cristo, mas isso da habitação de Deus na alma, da graça santificante, das virtudes da fé, esperança e caridade, e os dons do Espírito Santo... bem, não sinto de maneira nenhuma." E é assim: não sentimos nenhuma dessas coisas, pelo menos não é comum senti-las. A espantosa transformação que ocorre no batismo não se localiza no corpo, no cérebro, no sistema nervoso ou nas emoções, mas no mais íntimo do nosso ser, em nossa alma, fora do alcance da análise intelectual ou da reação emocional. Há, porém, se por um milagre pudéssemos dispor de umas lentes que nos permitissem ver a alma como é quando está em graça santificante e adornada de todos os dons sobrenaturais, tenham a certeza de que andaríamos de um lado para outro como que em transe, deslumbrados, em estado perpétuo de assombro ao ver a superabundância com que Deus nos equipa para enfrentarmos esta vida e nos prepara para a outra. No riquíssimo dote que acompanha a graça santificante estão incluídos os sete dons do Espírito Santo. Esses dons – sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus – são qualidades que se comunicam à alma e que a tornam sensível aos movimentos da graça. Eles facilitam a prática da virtude; despertam nossa atenção para ouvirmos a silenciosa voz de Deus em nosso interior, somos sensíveis aos delicados toques da mão divina. Poderíamos dizer que os dons do Espírito Santo são o lubrificante da alma, enquanto a graça é a energia. O primeiro dom, a sabedoria, nos dá o adequado sentido de proporção para sabermos apreciar as coisas de Deus; damos ao bem e à virtude seu verdadeiro valor; encaramos os bens do mundo como degraus para a santidade, não como fim. Se um homem, por exemplo, perde seu fim de semana para assistir a um retiro espiritual, foi conduzido pelo dom da sabedoria, mesmo que não o saiba. Depois vem o dom do entendimento: dá-nos a percepção espiritual necessária para entendermos as verdades da fé em consonância com nossas necessidades. Em igualdade de condições, um sacerdote prefere, sem vezes, explicar um ponto de doutrina a quem está em graça santificante do que a alguém que esteja em pecado. O primeiro possui o dom do entendimento e, por isso, compreenderá com muito mais rapidez o ponto em questão. O terceiro dom, o dom do conselho, auxilia nosso juízo. Com sua ajuda, percebemos e escolhemos a decisão que será para maior glória de Deus e nosso bem espiritual. Tomar, em estado de pecado mortal, uma decisão de importância – seja sobre a vocação, a profissão, os problemas familiares ou sobre qualquer outra matéria das que devemos enfrentar continuamente – é um passo perigoso. Sem o dom do conselho, o juízo humano é demasiado falível. O dom de fortaleza mal requer comentário. Uma vida cristã tem que ser necessariamente, em algum grau, uma vida heróica. E sempre palpitará nela o heroísmo, o culto da conquista de si mesmo. Às vezes, perde-se de vista o heroísmo maior, quando fazer a vontade de Deus acarreta o risco de perder amigos, bens, saúde... Também temos o heroísmo mais alto dos mártires, que sacrificaram a própria vida por amor a Deus. Não é então que Deus logo acentua nossa debilidade humana com seu dom de fortaleza? O dom de ciência comunica-nos a faculdade de saber fazer, a destreza espiritual para reconhecer o que nos é espiritualmente útil ou prejudicial. Está intimamente unido ao dom do conselho: escolher o útil e repelir o nocivo. Mas para escolher, devemos antes conhecer. Por exemplo, se percebo que excessivas leituras frívolas estragam meu gosto pelas coisas espirituais, o dom de ciência me induz a deixar de comprar tantas publicações desse tipo e me inspira a começar uma leitura espiritual regular. E o dom de piedade é frequentemente mal entendido pelos que o representam de mãos juntas, olhos baixos e orações intermináveis. A palavra piedade, no seu sentido original, diz respeito à atitude de uma criança para com seus pais: uma combinação de amor, confiança e reverência. Se essa for nossa disposição habitual para com nosso Pai, Deus, estamos vivendo o dom de piedade. O dom de piedade incita-nos a praticar a virtude, a manter uma atitude de confiança e intimidade com Deus. Finalmente, o dom do temor de Deus, que equilibra o dom de piedade. É muito bom contemplarmos a Deus com olhos de amor, confiança e reverência, mas é também muito bom nunca esquecer que ele é o juiz de justiça infinita, diante de quem um dia teremos que responder pelas graças que nos concedeu. Esta lembrança nos dará um santo temor de ofendê-lo pelo pecado.

Sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus são esses os auxiliares das graças, seus lubrificantes, são predisposições para a santidade que, junto com a graça santificante, são infundidas em nossa alma pelo batismo. Muitos dos catecismos que conheço enumeram os doze frutos do Espírito Santo: caridade, gozo, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade. Mas até agora, e pela minha experiência, vejo-os fazer mais do que mencioná-los de passagem nas aulas de instrução religiosa, ah, e ainda mais raramente são explicados em sermões. É uma pena que seja assim. Se o professor de ciências começa a explicar na aula a macieira, descreverá naturalmente as raízes e o tronco, e dirá que o sol e a humidade a fazem crescer; mas não lhe ocorrerá terminar sua explicação com essa brusca afirmação: "E esta é a árvore que dá maçã". Se considerar a descrição do fruto como uma parte importante de sua explicação didática, do mesmo modo é lógico falar da graça santificante, das virtudes e dons que a acompanham, e fazer uma referência casual aos resultados, que são precisamente os frutos do Espírito Santo. Frutos exteriores da vida interior, produto interno da habitação do Espírito. Utilizando outra figura, poderíamos dizer que os doze frutos são as grandes pinceladas que compõem o retrato do cristão autêntico. Talvez o mais simples seja ver como é esse retrato, como é a pessoa que vive habitualmente em graça santificante, que procura com perseverança subordinar seu ser à ação da graça. Antes de mais nada, essa pessoa é generosa; vê Cristo em seu próximo; invariavelmente o trata com consideração; está sempre disposta a ajudá-lo, mesmo à custa de transtornos e aborrecimentos. É a caridade. Depois, é uma pessoa alegre e otimista; parece irradiar um resplendor interior que a faz ser notada em qualquer reunião. Quando está presente, é como se o sol brilhasse com um pouco mais de luz; a gente sorri com mais facilidade, fala com maior delicadeza. É uma pessoa idônea, sem ranger os dentes nem culpar sua sorte. É a paciência. É amável; todos que a procuram em seus problemas e encontram nela o confidente sinceramente interessado saem aliviados pelo simples fato de terem conversado com ela. Tem uma consideração especial pelas crianças e anciãos, pelos aflitos e atribulados. É hábil; defende com firmeza a verdade e o direito, mesmo que todos a deixem só. Não está orgulhosa de si própria nem julga os outros; é lenta em criticar, e mais ainda em condenar; suporta a ignorância e as fraquezas dos outros, mas jamais compromete suas convicções, jamais contemporiza com o mal. Em sua vida interior é várias vezes realmente generosa com Deus, sem procurar a atitude mais cômoda. É a bondade. Não se revolta com o infortúnio e o fracasso, com a doença e a dor, e desconhece a autocompaixão. Levantará seus olhos cheios de lágrimas, mas nunca cheios de revolta. É a longanimidade. É delicada, está cheia de recursos; entrega-se totalmente a qualquer tarefa que lhe seja dada, mas sem a menor sombra da agressividade do ambicioso; nunca procura dominar os outros; sabe raciocinar com pessoas; usa mais do que dá; chega a disputas. É a mansidão. Sente-se orgulhosa de ser membro do corpo místico de Cristo, mas não pretende coagir os outros nem fazê-los engolir sua religião. Por outro lado, menos ainda sente respeitos humanos por suas convicções; não oculta sua piedade e defende a verdade com prontidão quando está atacada. Em sua presença, a religião é para ela o mais importante da vida. Essa é a fé. Seu amor a Jesus Cristo a faz estremecer ante a ideia de atuar como cúmplice do diabo, de ser ocasião de pecado para alguém. Em seu comportamento, modo de vestir e linguagem, há uma decência que a faixa. Ela ou ele fortalecerá a virtude dos outros, jamais enfraquecê-la. É a modéstia. É uma pessoa moderada, com as paixões felizmente controladas pela razão e pela graça; não está um dia no auge da exaltação e no dia seguinte em abismo de depressão; quer como quer, trabalha, se diverte em tudo; mostra um domínio admirável de si mesma. É a continência. Sente uma grande reverência pela faculdade de procriar que Deus lhe deu; perante o fato de Deus ter querido compartilhar seu poder criador com os homens, vê o sexo como algo precioso e sagrado, um vínculo de união para ser usado unicamente dentro do âmbito matrimonial e para os fins estabelecidos por Deus, nunca como divertimento ou como fonte de prazer egoísta. É a castidade. E aqui temos o retrato do homem e da mulher cristãos: caridade, gozo, paz, paciência, benignidade, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, continência e castidade. Podemos conferir nosso perfil com o do retrato e ver onde nos separamos dele.

Parte 4: As Virtudes Morais

É um axioma da vida espiritual dizer que a graça aperfeiçoa a natureza. O que significa que quando Deus nos dá sua graça, não aniquila, antes, nossa natureza humana para colocar a graça em seu lugar. Os efeitos da graça em nós, o uso que dela fizemos, está condicionado em grande parte pela nossa constituição pessoal física, mental e emocional. A graça não faz de um idiota um gênio, nem endireita as costas do corcunda, nem normalmente transforma o neurótico numa pessoa equilibrada. Portanto, cada um de nós tem a responsabilidade de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para tirar os obstáculos à ação da graça. Não falamos aqui de obstáculos morais, como o pecado, o egoísmo, cuja ação nociva a graça evidentemente combate; o referimo-nos agora ao que poderíamos chamar obstáculos naturais, como a ignorância, os defeitos do caráter e os maus hábitos adquiridos. É claro que é um obstáculo à graça reduzirmos nosso panorama intelectual a jornais ou revistas populares; que nossa agressividade nos conduza facilmente à ira; é outro obstáculo à graça. Também são obstáculos à graça nossa moleza e a falta de pontualidade, na medida em que, por causarem inconvenientes aos outros, supõem uma falta de caridade. Estas considerações são especialmente oportunas quando se estudam as virtudes morais. Por virtudes morais, distintas das teologais, entendemos as virtudes que nos inclinam a levar uma vida moral, ajudando-nos a tratar as pessoas e as coisas com retidão, quer dizer, de acordo com a vontade de Deus. Nós possuímos estas virtudes na sua forma sobrenatural quando estamos em graça santificante, pois esta nos dá certa predisposição, certa facilidade para sua prática, juntamente com o mérito sobrenatural correspondente ao seu exercício. Esta facilidade é semelhante à que uma criança adquire ao chegar a certa idade para ler e escrever. A criança ainda não possui a técnica da leitura e da escrita, mas o organismo já está preparado; a faculdade já está ali. Talvez se compreenda melhor o que acabamos de dizer se examinarmos mais em detalhe algumas das virtudes morais. Nós sabemos que as quatro principais virtudes morais são aquelas aqui chamadas cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Prudência: a faculdade de julgar retamente. Uma pessoa temperamentalmente impulsiva, propensa a ações precipitadas e a juízos instantâneos, terá de enfrentar a tarefa de tirar essas barreiras para que a virtude da prudência possa atuar nela efetivamente. É também evidente que, em qualquer circunstância, o conhecimento e a experiência pessoais facilitam o exercício desta virtude. Uma criança possui a virtude da prudência em germe; por isso, em assuntos relativos ao mundo dos adultos, não se pode esperar dela que faça juízos prudentes, porque carece de conhecimento e experiência. A segunda virtude cardeal, a justiça, aperfeiçoa nossa vontade, como a prudência aperfeiçoou a inteligência, e salvaguarda os direitos de nossos semelhantes: a vida, a liberdade, a santidade do lar, o bom nome e os bens materiais. Um dos obstáculos à justiça que salta à vista é o preconceito de cor, raça, nacionalidade ou religião, que nega ao homem seus direitos humanos e dificulta seu exercício. Outro obstáculo pode ser a mesquinharia natural, que é um defeito resultante, talvez, de uma infância cheia de privações. É nosso dever tirar estas barreiras se queremos que a virtude sobrenatural da justiça atue com plenitude em nosso interior. A fortaleza, terceira