Transcription
E hoje é celebrado o dia dos povos indígenas. Em um pronunciamento, a ministra Sônia Guajajara afirmou que a data celebra a riqueza dos povos que vivem no Brasil e fazem parte da tradição do país. De acordo com o último levantamento do IBGE, o Brasil conta com mais de 200.270 línguas indígenas. Além disso, são mais de 817.000 indígenas com mais de 300 etnias diferentes.
Apesar da data, ainda há obstáculos no Brasil. Uma questão é a educação e valorização de professores indígenas. Com o objetivo de reafirmar a identidade étnica, uma lei de 1996 estabeleceu que a educação escolar indígena precisa ser bilíngue e intercultural.
Agora, a gente recebe o líder indígena, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak. É um prazer tê-lo aqui. Ailton, obrigado pela participação. Eu queria começar justamente com isso que a Renata falou sobre a questão escolar indígena. Hoje é um dia importante para celebrar, mas a gente tem o que comemorar olhando para a educação dos povos indígenas?
Boa noite, Gustavo. Boa noite, Renata. Que bom falar nesse dia com vocês, que é o dia dos povos indígenas no nosso país. Fazendo uma, uma correção histórica, que nessa data se comemorava o dia do índio. Então, o Brasil está se atualizando com relação à convenção internacional dos direitos dos povos indígenas, que cria essa nova, eh, maneira de se referir a esses povos, que são plurais, são muito diversos e são no singular, né? São povos indígenas. Eh, o que temos a comemorar é que nós temos conquistado, eh, passo a passo, alguns lugares de onde nós nunca acessamos. E isso deve ser comemorado pela sociedade brasileira como uma conquista social importante, não só para os povos indígenas, mas para nossa sociedade plural, né? Nós somos povos de vários lugares do mundo.
Ailton, o Brasil tem 1.700.000 indígenas, pessoas que muitas vezes são esquecidas, têm seus direitos desrespeitados, suas terras arrancadas. Qual a importância do dia de hoje para esses povos que ainda têm tantas causas para lutar?
O estabelecimento dessa data, que já é bastante antiga, ela só mudou o sentido singular dela, de dia do índio para dia dos povos indígenas, no plural. Ele sempre foi pensado como uma maneira de ressaltar, Renata, essa dificuldade que os estados nacionais têm de lidar com essas populações, porque são povos de tradições diversas e de uma antiguidade nas suas formas de organização social que não tem muito vínculo com a coisa da nossa sociedade, eh, colonial, né? Essa sociedade moderna tem muitos, tem muitas práticas e muitos experimentos que os povos ainda não compartilham com a sociedade nacional. É recente as conquistas dos povos indígenas aos equipamentos de educação, de comunicação e mesmo o acesso à universidade. Ainda é a primeira geração de indígenas que acessam a um número significativo. Hoje nós temos mais de 50.000 indígenas fazendo ensino superior, alguns doutores, alguns além de doutores já fazendo seus mestrado, doutorado, pós-doutorado. É uma novidade desse século XXI e talvez dos últimos 10 anos.
Krenak, eu queria tocar num ponto também sobre a participação dos povos indígenas, justamente na política. Você citou a educação, hoje a gente tem uma ministra, ministra Sônia Guajajara. Mas qual é a importância, qual é o olhar que a gente tem que ter para uma participação mais atuante dos povos indígenas, até pelo pela luta dos direitos?
O Executivo, assim como o Legislativo e outras áreas, eh, de governança, eh, tem, eh, promovido de certa maneira uma entrada de pessoas indígenas de diferentes áreas de conhecimento para ações como essa de estar num cargo de ministro, de estar à frente da FUNAI, a presidente da FUNAI, Joênia Wapixana, a, a ministra dos povos indígenas, Sônia Guajajara, e muitos outros, outros indígenas com diferentes formações estão também em gabinetes dirigindo alguns projetos de relevância nacional em políticas públicas. Outros estão membros de conselhos, como o Conselho Nacional de Política Indigenista, que deliberou sobre a demarcação de duas terras indígenas. Foi um ato publicizado pelo governo recente. Mas tem uma reclamação de que ainda tem terras indígenas expondo a comunidade a situação de risco e violência e que precisam ser homologadas, precisam ser demarcadas, precisam ser definitivamente reconhecidas. E nós acreditamos que a crescente participação dos indígenas nas agências de estado do governo, governo federal, governo estadual, vai diminuir os conflitos entre povos indígenas e seus vizinhos, agricultores, alguns inclusive garimpeiros. Mas que tem, eh, agravado muito a crise sanitária, por exemplo, entre os povos indígenas. Os Yanomami estão passando por um período de gravíssima, eh, condição sanitária. Eles não podem beber a água dos rios deles, não podem comer os peixes, que os peixes estão contaminados com mercúrio do garimpo e estão também tendo dificuldade de obter caça, porque os animais fogem dos lugares que estão sujos, né, como pelo garimpo, pela mineração. Então, nós precisamos de uma ação mais determinada do estado brasileiro, independente de quem seja o governo, de estabelecer uma relação respeitosa com esses territórios, porque eles têm sido reconhecidos como áreas prioritárias para conservação da biodiversidade no planeta. Quer dizer, o modo de habitar as terras indígenas que os povos originários perseveram nele, ele aumenta a qualidade do serviço ambiental, ele acrescenta, eh, ele estende a duração da diversidade biológica nesses territórios. E alguns representam uma espécie de, eh, hotspot, né, que é o lugar de maior biodiversidade concentrada numa mesma região, como, por exemplo, a Amazônia, o Alto Rio Negro, o território Yanomami, Rondônia, território do povo Suruí, do povo Cinta Larga, do Zoró, o Xingu. Que durante muito tempo as pessoas achavam que o único lugar que ainda era responsabilidade do estado preservar o território e manter o povo, eh, livre de ataques, achavam que era só o Xingu. Mas hoje, até o Xingu já está pedindo socorro, porque ele está sendo estrangulado pelo agronegócio. A floresta do Xingu virou uma pequena ilha no mar de soja.
Krenak, você está falando da participação na política. Agora, a gente não pode deixar de falar que no ano passado, você foi o primeiro indígena eleito a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Eu queria te perguntar qual o simbolismo dessa eleição, levando em conta o grande preconceito que os povos indígenas enfrentam no Brasil.
Renata, não é simbolismo. Eu entendo a expressão que você usou, mas, mas a gente podia dizer que o que significa essa mudança? Uma mudança, eh, na relação histórica de alguns espaços como a Academia Brasileira de Letras, que só admitiu, eh, uma mulher quando Raquel de Queiroz entrou lá lá em 97. Significa que não foram só os indígenas que ficaram de fora desses lugares tão distintos, tão distinguidos na sociedade brasileira, tanto aquelas que são estruturas de governo do estado, quanto aquelas que são estruturas de representação do poder, do poder social, político, intelectual. Um indígena na Academia Brasileira de Letras significa uma abertura, eh, significativa, exemplar, para que o resto da sociedade brasileira mude o seu trato desrespeitoso, preconceituoso e muitas vezes racista contra os povos originários.
Krenak, só para a gente fechar, a gente pode fechar esse dia tão importante, eh, com um ar de esperança pelo que você falou? A gente tem avançado. Esse avanço está, eh, devagar, rápido? Poderia ser melhor? Como que a gente pode fechar essa noite agora com esse dia tão importante para a história do Brasil, não só dos povos originários, povos indígenas?
Eu não sei se onde vocês estão, Gustavo, vocês podem ver o céu e ver que tem lua. Então, nós podemos celebrar esse dia solar que foi comemorado o dia dos povos indígenas, dizendo para a lua. [Música] Cantando para a lua.
Ailton Krenak, foi um prazer te receber aqui no Jornal da Record News. Parabéns pelo dia de hoje. Uma boa noite. Até mais.
Gratidão. Tchau, tchau. Tchau, tchau.
Prazer.