📱

Get Our Mobile App

Take your business learning on the go!

Download on the App StoreGet it on Google Play

28 de outubro de 2025

MARCONDI MARQUES CORTES E NOTÍCIAS URGENTES 47:05

Transcription

O Ministério Público tem a palavra, doutores.

Dona Cátia, bom dia. Novamente, sempre meus sentimentos de uma mãe para outra, por favor. Inicialmente um relato amplo, se a senhora quiser, quem tá julgando são os jurados, eles não estão sendo filmados, mas é bom que a senhora possa, se possível, olhar para eles e nos narrar o que que aconteceu aqui.

Quem está sendo acusado inicialmente é o quê da senhora? É meu irmão.

É meu irmão.

É seu irmão.

Tio da vítima, portanto.

Tio e padrinho do Andrei.

Certo. A senhora tinha algum problema com o seu irmão até então?

Não, eram irmãos normal visitarem.

Certo? Então, até então, a senhora não teria nenhum motivo para querer acusá-lo ou tomar qualquer atitude contra seu irmão? Correto?

Correto?

Então, pode nos narrar exatamente eh o que que aconteceu, como é que se sucederam os fatos e de preferência, Dra. Juía, se ela pudesse até assim virando e segurando o microfone, mas olhando pro jurado.

Eu e o Jeverson, né, somos irmãos de, somos de cinco irmãos. Tem o mais velho, tem o Jeverson, que é o Ré, tem o Réges, sou eu, a Cátia, e tem o Everton, o caçula. Nós fomos, viemos de Santa, de Santa Maria para Porto Alegre, pequenos e meu pai era brigadiano, minha mãe depois auxiliar em enfermagem e uma família tradicional, normal, bom relacionamento. Eu sou madrinha da filha dele, ele é padrinho dos meus três filhos, né, do Anderson, da Andressa e do Andrei. O Andrei era um filho caçula, dos três irmãos e nos ele morava em Porto Alegre com a família, a gente se visitava um a casa ao outro, né? Aquela coisa normal de uma família do Rio Grande do Sul. Ele foi embora para pro Rio de Janeiro com a família dele e ele entrou em contato comigo perguntando se ele poderia ficar um período na minha casa, que ele tinha havia recebido um convite para trabalhar no Ministério Público.

Isso foi quando, dona Cátia?

Foi início de novembro de 2016.

Certo? Então, em início de novembro de 2016, ele entrou em contato para eh estava morando no Rio de Janeiro, perguntando se ele podia ficar na sua casa, porque ele recebeu um convite para trabalhar no Ministério Público aqui do Rio Grande do Sul.

Aqui do Rio Grande do Sul.

Certo? Quando ele foi embora pro Rio de Janeiro, ele foi com a família dele. A família dele é constituída, né, por ele, a esposa e quatro filhas. E a esposa dele, ã, por um período foi entiada dele, porque no próprio depoimento do meu irmão, ela confirmou que ela, que a mãe dela e o meu irmão tiveram um relacionamento. Ou seja, ele tinha uma companheira e a e a esposa dele, como é que é o nome?

É Fabiana.

Fabiana, ela tem um apelido, né?

É Bana.

Bana. A Fabiana era entiada dele e ele passou de padrasto a ser companheiro da entiada. É isso.

Isso. Casaram e tiveram quatro filhas.

Certo? E essa e essa esse essa relação, ela ainda ela é jovem essa menina, quando eles começaram esse relacionamento?

Sim, quando ele conheceu, né. Posso citar o nome da mãe dela?

Claro.

A quando ele conheceu a dona Áurria, a Fabiana, minha cunhada, era pequena. Tanto é que eles sempre falavam, né, nas reuniões de família, quando a gente tava juntos. Ele dizia: "Ah, eu que tirei o bico da Fabiana, porque senão a banda ia continuar chupando o bico até hoje." E ela sempre diz: "Ah, eu gosto de chupar bico". Então ela, ele conheceu ela, era pequena. Tinha uns dois, três anos. E aí ele, eles tinha um relacionamento que não era divulgado, né? Por ele ser mais novo que ela e essa senhora do lado.

Ela ser mais novo que ele.

Não. E a o relacionamento do meu irmão com com a sogra.

Ah, tá. Era um relacionamento discreto, porque o meu irmão era já era um sargento da Brigada Militar, mais novo que a sogra, né? A sogra era mais velha que ele.

E ela era cozinheira do clube. Então não era um relacionamento que se sabia, mas não se tinha prova. Mas no depoimento do meu irmão, a minha a Fabiana foi testemunha e confirmou que o meu irmão teve um relacionamento amoroso com a mãe dela.

E a Fabiana foi crescendo e eles assumiram publicamente. O meu irmão e a minha cunhada se assumiram publicamente, noivaram, casaram e construíram a família deles com quatro filhas. E o a sogra dele faleceu um ano após o casamento do meu irmão.

Então, de padrasto ele passou a ser.

Marido.

Marido. Ela era jovem.

Ela era jovem. A Fabiana, eu não tenho bem certeza da idade que ela se casou, mas ela se casou jovem. E esse relacionamento dele com essa, com a esposa, com a Fabiana, começou com que idade?

É, publicamente para nós, foram nos 14 anos dela que a gente começou a saber que eles estavam namorando. Mas se sabia através de de amigos, de pessoas, que eles tinham relacionamento antes. Com uns 12 anos já havia comentário que eles andavam jun estavam juntos, ficavam sozinho em casa, né? Porque ele ficava na casa dela, da Fabiana, e a dona Áuria saía para trabalhar e aí ficavam os dois sozinhos em casa. Ele já sargento da Brigada Militar.

Tá bom. Ã, e aí ele foi morar com a Fabiana e as quatro filhas no Rio de Janeiro.

Isso. Depois de da depois de de adultos, né, das as crianças maiores, já tinham as quatro filhas, foram morar no Rio de Janeiro e lá nós ias visitar. Eu tenho um outro irmão que naquela época morava no Rio de Janeiro, no Rio de Janeiro e nós íamos paraa casa desse outro meu irmão e eu cham.

Qual que é o outro irmão?

Se. É o é o Everton.

Certo?

É o Éton. Então eu chamo ele até meu irmão de do bem para porque era um irmão caçula e a gente estudava super bem. Então nós íamos pra casa do Éton nossas férias, nas férias dos meus filhos. Tanto é que antes do Andrei falecer, um pouco antes, ele tava organizando, ele queria ir passar as férias na casa do Éeverton, desse meu irmão do bem, que é padrinho também do André e da Andressa e do Anderson.

Então o seu filho estava fazendo planejamentos.

Sim, sim. Ele estava planejando ir pras férias, né? Independente dele passar ou não na escola, ele sempre ele sempre iam iram pra casa do meu irmão do Everton.

Uhum. E ele estava até inclusive organizando uma festa de de final de ano lá no condomínio, porque nós morávamos numa casa. 7 meses depois nós que o Andrei, antes do Andrei falecer, a gente tinha se mudado para esse condomínio.

E ele estava feliz com essa nova moradia?

Estava. Eu estava muito feliz porque tinha piscina, né? E meu sonho sempre foi poder oferecer uma coisa melhor paraos meus filhos, né? Eu sou auxiliar de enfermagem, trabalho há quase 32 anos no Hospital de Clínicas como auxiliar de enfermagem na pediatria. E então ele estava, eu pude realizar o sonho dele que era ter uma piscina, né? Piscina, quadra, era um condomínio fechado, então não tinha perigo dele estar na rua. Antes nós morávamos numa numa rua, numa vila lá perto do presídio central, inclusive perto da linha de tiro, né? Então, eh, era uma, começou a ficar perigoso e eu trabalhava de noite, eu pensei, eu quero dar uma estrutura melhor paraos meus filhos. E a gente se mudou, eu comprei esse apartamento, nós fomos morar nesse condomínio. O Andrei estava realizado porque ele podia brincar, tinha amizade, né? Tinha piscina, tinha quadra para ele jogar futebol. E ele estava organizando com uma outra turma de amiguinhos pequenos a festa pro final de ano e infelizmente não foi concluída porque meu irmão assassinou o Andrei.

Então ele tinha planejamentos de uma viagem pro Rio, de estava organizando uma festa no condomínio.

Isso.

Ele tinha amigos nesse novo nesse novo condomínio.

Sim, bastante. Inclusive o a nós fazia cinco dias que nós tínhamos nos mudado para lá. uma uma vizinha convidou ele pro aniversário e eu disse: "Mas já, filho?" Ele disse: "Ah, agora já são meus amigos". Porque o Andrei era uma criança falante, alegre, feliz. Ele não tinha problema de se socializar, mas ele tinha personalidade. Então o o Andrei não ia se deixar ser levado por chantagem. Então o isso que ocasionou a morte do Andrei, porque o que aconteceu o Andrei ia me contar.

Ele era uma criança que te contava as coisas.

Contava. Era muito meu amigo, eh, a irmã dele, né, eh, 4 anos mais velha que ele, então eles também tinha um ótimo relacionamento. É, briga de irmãos, aquelas coisas que, né, não sei, então não tem irmão, a gente briga aqui, né, irmão.

Mas eles eram muito unidos, né, os meus outros dois, o Anderson e Andressa também. Só que o Andrei e a Andressa, eles eram mais próximos, né, de idade.

A senhora tem três filhos, a senhora falou, né?

Eu tenho três filhos.

Os três moravam com as senhora?

Os três moravam comigo.

Certo? Bom, ah, aí voltando então pra situação que a senhora nos trouxe, a senhora disse que seu irmão ligou perguntando se ele podia morar com a senhora.

É, não morar. Ele queria ficar hospedado um período ali porque logo ia ter o recesso em no em dezembro e aí ele ia arrumar uma residência porque ele disse para mim que estava separado da esposa dele, que já estava tudo acertado, que ele ficaria aqui em Porto Alegre e ela lá no Rio de Janeiro. Eu não quis tomar partido, interferir ali se realmente era ou não, mas ele disse: "Ah, eu tô separado da Fabiana, a gente já conversou e cada um vai ficar num estado e tá tudo certo".

Certo. E daí ele veio mesmo?

Ele veio no início de de novembro, ficou uns dias, aí foi quando começou a fazer os os exames, né, pro para trabalhar no Ministério Público. E ele sempre dizia: "Nossa, cá, tinha muito exames, era folhas assim que eles chegavam pedindo exames. Até odontológico diz que pediram o exame dele, psiquiatra, psicológico, vários exames pedindo para ele. Aí ele voltou, acho que foi 11 de novembro. 11 de novembro acho que foi o ah, agora acho que foi 11 de novembro. E tava tudo correndo normal. Chamei meus filhos, convidei, conversei com eles, né? Disse: "Ó, o padrinho tá vindo para cá". As crianças estavam contente porque até então a gente tinha um ótimo relacionamento, né? Padrinho dos três e o meu apartamento é pequeno. Então eu chamei eles e falei assim: "Ó, vamos fazer o seguinte, ó, porque o meu pai ensinou a gente a separar menino de menina. Então fica eu e minha filha, porque morava eu e meus três filhos no apartamento. Fica eu e a minha filha num quarto e o meu irmão e os meus outros dois filhos no outro quarto. E tá tudo certo, né? A gente é família, a gente se aproxima assim. Você aperta, aliás, e dá tá tudo bem. E tava tudo correndo normal. Foi um período que eu tinha feito uma cirurgia na coluna, então era o período que eu mais fiquei próxima deles em casa, porque eu não podia me mexer muito. Então foi o período que eu fiquei bastante em casa. E aí na madrugada na a gente gosta muito de futebol na minha casa, né? Uma Andreira gremista.

A senhora também?

Sim.

Ele gostava de em jogos.

Ele gostava de jogo e eu levava eles desde na época do Olímpico, levava eles na na arena. Então tem muitas lembranças minhas, as jogos de futebol que que é como se eu tivesse com Andrei lá na arena, porque ele era muito muito parceiro comigo, né? E por ele ser o caçula, né? A gente sempre trata diferente, porque a maturidade, a idade é diferente da maternidade quando a gente tem mais idade e para quando tem menos. E o Andrei era, ele era muito carinhoso, afetivo, ele ele se preocupava comigo, se preocupava com as pessoas e aí eu dizia: "Eu vou no mercado". E ele falava: "Eu vou junto, mãe". E aí ele convidava a minha filha, falava: "Vamos, Dedé, que o apelido dela é Dedé. Vamos, Dedé, vamos com a mãe no mercado". E no mercado assim, ele era muito prestativo, ele queria pegar as compras e botar no carrinho. Ele via algumas coisas fora do lugar. das prateleira e aí ele queria guardar e eu falava: "Filha, por que tu tá guardando? Tem uma um funcionário para esse". Ele falou: "Mãe, mas as pessoas têm que botar as coisas no lugar certo". E ele gostava muito de cozinhar, né? Ele tinha 12 anos. Ele sabia fazer chimarrão, ele sabia fazer eh bolo, pudim de pão.

Ao seu tempo, dona Cátia. To ao seu tempo. Calma, dona Cátia. Se precisar lavar o rosto de novo, a gente lava. Mas a gente precisa da sua ajuda hoje aqui.

Desculpa as pessoas, mas é que o Andrei me faz muita falta, muita saudade dele. Então quando eu relembro esses momentos que a gente viveu juntos e saber que eu não tenho mais o Andrei para fazer isso e e quem é lutado, quem perdeu um filho sabe que essas essas lembranças tocam no coração da gente porque depois que o Andrei faleceu vai fazer 9 anos. Eu tomei muito chimarrão, mas todo chimarrão tem o gosto dele, gosto da saudade, isso é o que dói. Então, por isso que talvez em algum momento eu vou ter um choro mais intenso. E aí, então o André era uma criança alegre, comunicativa e não tinha problema, né, na escola ele conversava com todo mundo, ele estava mal nas notas, mas isso não era de comportamento, né? Não era uma coisa que mudava o comportamento dele. E no condomínio também tinha bastante amigos. E então o Andrei não tinha problema de falar, ele conversaria com qualquer pessoa, né? Assim, ele me contaria se acontecesse alguma coisa, porque às vezes aconteceu alguma coisa na escola, coisa assim. Ele sempre me contava, ele era, nós éramos amigos, porque eu sempre ensinei meus filhos a confiarem em mim e eu ia confiar neles. Então o Andrei sabia que o que ele me contasse eu ia acreditar, independente de que fosse quem que fizesse algum mal para ele. Porque desde eu porque eu quando ele era pequenininho, eu sempre falava: "Filho, a pessoa que mais te ama, a pessoa que mais ama um filho é a mãe. Então tu sempre pode confiar na mãe. Então ele sempre confiou em mim. E aí ele sabia o que aconteceu naquela noite no quarto, ele me contaria, eu ia acreditar. Ele, infelizmente, não teve a oportunidade de me contar.

Certo. Mas, Ktia, a gente tem que então compreender. A senhora disse que seu, o irmão veio para cá fazer os exames e aí dele, ele voltou pro Rio de Janeiro ou como é que foi isso?

No início do mês ele veio na minha casa, ficou um período na minha casa, depois ele foi pro Rio de Janeiro e aí quando ficou ficou acho que confirmado, né, que ele viria trabalhar no Ministério Público, ele ficou hospedado na minha casa, ele veio com as malas, né, para ficar lá em casa.

Certo? E aí, como é que ficava a disposição no quarto? Como é que funcionava esse quarto?

Era uma triliche, né? Que daí o Andrei dormia na cama de cima, o meu irmão na cama do meio, e o Anderson, meu filho mais velho, na cama auxiliar, que é uma cama de puxar. E na noite do crime, o meu irmão, o meu filho estava de serviço, estava, ele trabalhava de noite, o Anderson.

O que dormiria embaixo.

Isso. Ele estava, então só estava os dois.

Só estavam os dois.

Só estavam os dois.

Certo? Fazia quantos dias que seu filho estava morando? Desculpa que o acusado Jeverson estava morando ali.

Em torno de uns, não dava 20 dias, eu acho. É porque chegou dia 15, ele veio no início do mês, ficou acho que uns três, quatro dias, não lembro bem preciso. E depois ele voltou, eu acho que foi dia 11 ou dia 14 de novembro e aí aconteceu dia na madrugada do dia 30 de novembro. Então ele ficou poucos dias.

Certo? Eh, me chama a atenção eh uma fala de uma psicopedagoga, a dona Maria Rita, que eu não sei se a senhora sabe de quem que eu estou falando.

Sei.

A senhora conversou com ela?

Sim, porque ela é uma das que estava organizando a festa do condomínio. E ela disse: "Cá é o Andrei". E ela tem um filhinho pequeno que o Andrei gostava de brincar com esse filho dela, jogar futebol na quadra. E ela diz: "Cátia, eles estão organizando uma festa do pro condomínio pro final de ano, né, que aquele era novembro e aí a seguida seria o Natal, né? Então estava organizando uma festa de de final de ano pro condomínio.

Certo? Mas eh ela fez uma referência no sentido de que seu filho teria cortado o cabelo.

Tá. O Andrei cortou o cabelo porque o o Andrei ele gostava de ter o cabelo comprido, né? Ele sempre gostou de ter o cabelo comprido, mas chegou uma, às vezes dava uma época nele assim, ele falava: "Ah, eu quero cortar o cabelo". Eu lembro que uma vez que ele cortou o cabelo, que estava bem comprido, que nós estava, nós fomos numa festa e nós estava na fila para do bifet para se servir e aí alguém perguntou: "Cadê o Andrei?" E aí eu falei: "Ah, tá ali". Daí a pessoa disse: "Ah, nem reconheci ele por causa do cabelo comprido". E aí ele foi lá e cortou o cabelo. Então às vezes dava isso aí dele querer cortar o cabelo, mas ele gostava de ter o cabelo comprido, mas não era rebeldia nem nada, era a opção dele. É porque daí quando ele cortava, ele pedia para cortar bem curtinho e ficava bastante tempo sem cortar.

Certo. Bom, ã, então vamos para os momentos do do fato. Ah, aqueles dias que antecederam ali, teve aquele tragédia da Chapecoense, né, pelo seus relatos.

Isso.

Tá. Vamos então tentar recordar o dia dos fato ou as dias que os momentos antes do fato.

Tá? Naquela semana correu tudo normal lá em casa, né? Meu irmão levantava cedo, ia pro quartel lá, pro Ministério Público. O Anderson e às vezes chegava do.

O Anderson, seu filho mais velho.

Meu filho mais velho. O Anderson, meu filho mais velho, trabalhava de noite. Então ele chegava às vezes do plantão e ia pra aula para ele fazer um curso naquela época. Ou às vezes ele não tinha aula, chegava, ia dormir. E o André e a André saíam pro colégio que eles estudavam de manhã na mesma escola. Aí às vezes eles iam a pé, às vezes conforme eu estava eu também levava eles de carro, tá? Então tá na naquela semana estava tudo normal, mas aí nós somos lá em casa, a gente é gremista, a gente gosta muito de futebol, estava em função que o Interva para cair e nós acompanhando o futebol em 2016. Aí o na na segunda-feira que antecedeu, né, tinha nós vimos um jogo que eu não tô me lembrando quem era o time, mas que dependia assim pro Inter cair. O Andrei estava faceiro porque ele era gremista, seria a primeira vez que ele via o Inter cair, aquela coisa de uma criança de de 12 anos, né, aquela empolgação do futebol, porque ele ele sempre foi muito de de ir na nos jogos comigo, né? Aí, eh, ele, fizemos uma janta, ele inclusive foi que fez a janta, né? Nós estava a Não, vou voltar um pouquinho antes. Na segunda de manhã ele estava mal na escola, né? Aí na época namorava o Luciano e ele disse, eles combinaram ali para ensinar, para aprender ensinar matéria lá que ele estava mal na escola. E aí ele na noite de segunda-feira, quando ele estava estudando, estavam os dois sentados na mesa, o Luciano disse assim: "Cia, tu tem um caderno aqui para pra gente fazer anotar as anotações?" Eu disse: "Ah, parei que eu tenho lá no meu quarto". E eu trouxe um caderno pequeno assim, pera aí que eu vou só largar o microfone para falar. Um caderninho pequeno assim, né? Não, aquele grandão, pequeno. E aí eles eh escreveram e daí eu disse: "Ah, Andrei, liberou o caderno, guarda lá de volta". E o André era muito regrado assim, muito disciplinado, né? Ele guardou o caderno lá no meu quarto de volta e aí daqui um pouco vai entrar esse caderno de novo na história. Aí eles estudaram e o Luciano disse: "Para, eu tô com fome". Aí o Andrei olhou para ele e falou assim, ó: "Ô, bem que tu podia assar uma carne para mim que ele, o André gostava muito de churrasco de carne." Daí o Luciano disse: "Eu aço se tu fizer com uma janta para nós aí, porque o Andrei gostava de cozinhar. Ele sabia fazer massa com molho branco, ele sabia fazer bolo, churros, pudim". Então ele ele tinha prazer de fazer essas coisas quando chegava alguém lá na minha casa, sabe? lá em casa, que é uma maneira acho que dele acolher a pessoa. E eu e ele disse: "Tá, eu faço a massa com molho branco". Ele cheio de orgulho assim que ele ia fazer a massa com molho branco e o Luciano ia assar a carne. Nós jantamos, né, vimos o jogo ali e fomos deitar, né? Que no outro dia tem um jogo importante do Grêmio que a gente ia assistir e aí aconteceu a tragédia da Chapecoense pela manhã, pela madrugada, né? Nós já acordamos com a com a notícia triste da Chapecoense e naquela manhã seg, né? O meu irmão foi pro.

Terça-feira.

Terça-feira. Exato. Aí na terça-feira meu irmão foi para foi pro quartel, o Anderson foi pro curso que ele estava fazendo, a Andressa e o Andrei foram pro colégio e eu fiquei em casa. E aí a Andressa tinha combinado comigo que ela tinha que fazer um trabalho escolar na casa de uma coleguinha dela. Ela falou: "Mãe, eu não vou vir para casa, só vou vir no final do dia porque eu vou lá na casa da minha colega fazer um trabalho". Eu disse: "Ah, tudo bem". E o Andrei disse: "Ah, eu venho para casa". E o Andrei veio para casa. Aí era umas 10 horas, mais ou menos. O Andrei chegou, eu estava tomando chimarrão e o Andrei gostava de chimarrão e inclusive ele tem uma, ele tinha uma cuia e aí quando ele fazia chimarrão e o chimarrão dele era ótimo assim e ele dizia assim, ó, quem é que fez chimarrão? Por isso que o chimarrão é bom, porque a cuia dele e a bomba era dele. E ele chegou, me deu um beijo como normal e perguntou: "Mãe, por que que tu não tá vendo o teu jornalzinho?" Que eu gostava de ver notícia notícias, né? E eu disse: "Filho, hoje tá tá muito triste". Porque aconteceu a tragédia da Chapecoense. E eu disse: "Filho, quando uma mãe sofre, todas as mães sofres, sofrem junto" e na maturidade dele, ele disse: "Mãe, que triste para essas mães perder os filhos desse jeito, né?" E eu nunca imaginei que eu ia me tornar uma mãe dali há horas que também perdeu um filho de uma maneira trágica. Aí ele ficou, eu disse: "Filho, vê sério, porque eu eh a tragédia é triste, mas eu queria poupar ele de ver aquela tristeza, né?" E eu disse: "Não, filho, porque ele ele se emocionava com essas coisas tristes, né? Eu lembro do caso do do da Rafaela, não, daquela da Nardone que jogaram de elevador da pela Isabela Nardoni. Ele sofreu ali. Depois tinha o do Boldrini também porque eu acompanhava. Então ele ah, eu sabia que ele ia sofrer com a tragédia da Chapecoense, ainda mais porque era de futebol, né? Aí eu falei: "Filho, eh, vê tua sériezinha, vê teus filme". Aí daí ele viu, nós fomos almoçar, ã, tinha sobrado a janta, né? Daí esquentei ali, só estava eu e ele em casa, porque o Anderson já estava estava deitado, que o Anderson ia trabalhar naquela noite, né? E a Andressa não estava em casa e meu irmão voltava só no final do dia. E aí nós deitamos, deitamos bem abraçado. Foi meu último sono com ele.

Senhora quer parar um pouquinho? Dona Cátia. Será quer parar um pouquinho?

Não, eu daqui um pouco me daqui um pouco eu me recupero.

Desculpa. Aí foi meu último sono com ele. Nós deitamos bem abraçado porque ele sempre que chegava e a gente ia deitar, ele era muito carinhoso, ele gostava de estender os bracinhos e falava assim: "Mãe, me dá um abraço". E eu falava com ele, um abraço. Não, mãe, te dá um muito abraço. E ele também fazia isso comigo, né? Ele esticava o bracinho. Eu esticar o braço para ele. Dá um abraço, filho. Ele falou: "Um abraço?" Não, mãe, um monte de abraços. E aí ele passava assim por mim e dizia: "Ah, faz 6 horas, 30 minutos, 40 segundos que uma mãe não dá um um beijo que diz que ama seu filho." E assim era o Andrei, ele gostava de dar carinho, mas ele também gostava de receber carinho. E sempre foi muito prazeroso poder dar abraço, dar beijo, dizer: "Eu te amo, Andrei". E aí, como eu disse, eu tinha feito a cirurgia e eu ficava mais tempo sentada assim. Aí tinha uma cobertinha que era dele, que ele tinha ganho de de uma tia, ele ia lá e buscava essa coberta, né? Às vezes eu estava encolhida no sofá e ele dizia assim: "Ai, eu vou tapar minha bebezona" e me tapava. Ou então eu dizia: "Ah, eu tô com sede". Daí ele: "Par aí, mãe, que eu pego água para ti". E aí quando acontecia o inverso, ele estava assim, ele falava que estava com sede. Eu falava: "Par que a mãe vai buscar água para ti". Aí meus outros dois filhos mais velhos falavam assim: "Ah, o mim o mimadinho da mãe vai ganhar água na boca, vai ganhar água na no sofá". Aí ele respondia: "É, mas quando a mãe quer, eu faço as coisas paraa mãe". Então ele tinha um olhar diferente, ele era muito zeloso com os irmãos também. Ele gostava de de, por exemplo, no dia que aconteceu a tragédia, ele eh eh o assassinato do Andrei, ele estava preocupado que a Dedé estava na casa da amiguinha dele, porque a minha filha é mais quieta, mais tímida e ele dizia: "Ô mãe, será que a Dedé vai comer na casa da coleguinha ou vai ficar com vergonha e não vai comer?" Eu falei: "Ah, filho, acho que ela vai comer, né?" Então ele para ver a noção dele assim. E tanto é que na na noite que aconteceu o o ele e o Anderson também se cruzaram e um conversou com o outro, ele desafiando o Anderson para fazer negócio de de videogame, tá? Aí ã perdi ele. É aí no dia, tá? Daí eu a gente dormiu, acordamos, né? Eu falei: "Filho, levanta para para te tomar um café para e não dormir até muito tarde porque depois de noite não vai ter sono." Então aquilo, criança que estuda de noite, eles não gostam de dormir de tarde, mas também depois quando dorme não querem acordar. E aí ele até disse assim para mim, ele dizia, nesse dia ele não falou, mas às vezes ele dizia assim: "Ô mãe, eu não te entendo, tu quer que eu durma, mas daí quando eu durmo tu quer que eu acorde?" Aí eu falava: "Filho, tu é que tem que ser meio termo assim, ó. Tu não pode dormir muito para não perder o sono de noite. E é para dormir para acordar com soninho, para de noite tu ter sono. Aí a gente levantou, ele, eu disse, eu arrumei o café, ele falou: "Mãe, eu vou ali no mercado". E eu perguntei: "Que que tá fazendo no mercado, filho?" Mercado é pertinho de casa assim. Aí ele, eu vou lá buscar guisado. Eu falei: "O que que tu quer fazer com guisado?" Porque ele gostava de fazer receita, né? Que ele falava, ele gostava de fazer comida. Então ele chamava as comida de receita. E aí ele disse: "Ah, vou buscar guisado que é sempre bom ter guisado em casa, mãe, para quando quiser fazer alguma coisa já estava ali o alcance dele." Aí ele buscou o guisado, nós tomamos café e eu reforcei de novo o convite para ele. Filha, tu não quer ir no aniversário do tio Deva? É ele disse: "Não, eu vou ficar em casa, eu vou fazer chimarrão pro padrinho." Porque ele estava contente com a com a visita do padrinho lá em casa, né? E eu não vi maldade, não vi erro em deixar o Andrei, porque o Andrei estaria dentro de um condomínio com padrinho, um policial militar. uma figura eh referente na família, assim que não achei. Aliás, se eu tivesse percebido qualquer coisa, eu não teria nem aberto as portas da casa pro meu irmão. E eu fui pro aniversário, passei.

Foi para o aniversário e ele ficou em casa esperando o padrinho.

Isso. Ele falou: "Mãe, eu vou ficar em casa, vou ficar esperando o padrinho com chimarrão". Aí passei na casa da minha da colega da minha filha, pegamos ela e fomos pro aniversário. No caminho, o Andrei estava de castigo do celular, né, porque ele estava com as notas ruim. Aí eu falei pra minha filha, liga pro telefone fixo e vê se de repente se o Andrei não mudou de ideia, porque quando eu fui buscar minha filha, eu passava de volta pela frente da minha casa. Daí era só eu parar e o Andrei viria pro carro. Aí eu falei: "Filha, liga pro Andrei para ver se ele não quer ir, se ele não mudou de ideia". Aí ela ligou, aí o telefone dele estava, ele não tá, ligou pro celular, levou pro fixo, o fixo não completou a ligação. Aí ela falou: "Mãe, não tá completando a ligação". Falei: "Bom, então vamos nós, porque o combinado já era ele não ir pro aniversário, né? Nós fomos para aniversário, eu e a Andressa. Aí nós chegamos em casa, eram mais ou menos umas 11:23 da noite. 11:23, 11:25. Meu apartamento é pequeno assim, né? E aí quando eu entrei, veio eu e a Andressa. O então como o quarto estava dos guris, né? As roupas da minha filha estavam no ficaram naquele roupeiro. Aí quando eu entrei no quarto assim, na casa, no apartamento, as luzes estavam todas desligada. Só estava a luz da TV que eu enxerguei assim por baixo da porta. E sempre quando eu saio, eu sempre vou chego, vou dar oi paraos meus filhos, né? E aí eu entrei, vi a luz ligada, eu bati na porta, abri a porta, o Andrei estava deitado na trili, né? Uma triliche é mais alta que um beliche. O Andrei estava deitado na trilixe, o meu irmão na cama de baixo, na do meio, e a cama de a auxiliar estava recolhida porque o Anderson tinha ido trabalhar. Aí o meu irmão me recebeu me cumprimentando assim com a mão, né? E aí automaticamente o Andrei também fez e o Andrei estava tapadinho de cobertor e aí ele tinha uma coisa que ele não queria mais que eu dissesse que ele precisava tomar banho, né? Adolescência assim. Então nós tinha um código, eu fazia assim, ó, eles era eu perguntando se ele tinha tomado banho. Aí eu fiz: "E aí, filho?" E ele fez assim com a mão, ele tirou a mãozinha debaixo da coberta e fez assim: "Ó, tô cheiroso." O cabelinho dele estava limpo, guardou de volta. E antes de de eu ter ido lá pegar minha filha, eu eu tinha dito para ele que eu ia pegar, passar na loja para comprar uma camisa do Grêmio que eu tinha encomendado, uma rosa que o Grêmio tinha lançado, né? É, tá em função acho do outubro rosa. E aí ele disse e na hora eu não gostei da rosa, peguei azul. E aí eu mostrei a camisa para ele quando eu entrei no quarto e ele disse: "Ué, não era rosa, mãe?" Eu falei: "Ah, não gostei da rosa, filho. Comprei azul". E ficou só isso que o Andrei falou. Andrei quase não falou comigo. E o meu irmão dizia o tempo todo assim, ó. E agora eu tô nervosa, tô falando acelerada. Mas ele falava muito mais rápido que eu. Ele dizia assim, ó: "Ah, eu tô com sono, Kaia, eu quero dormir. Eu tô com sono. Amanhã eu tenho uma missão importante. Quero dormir." E eu vi que naquele momento a minha presença estava incomodando meu irmão ali, que ele queria dormir. E o Andrei quase não falava comigo. Eu pensei: "Bom, vou deixar eles dormir porque amanhã, amanhã eles têm compromisso cedo, né? né? O Andrei teria aula e meu irmão ia pro serviço.

A eh Ktia, agora deixa eu só te fazer assim uma interrupção. Ã, pensando agora, né, a a percepção que tu tens é que havia uma tentativa de que tu não conversasse com teu filho.

Sim, eu acredito que sim.

Por parte do réu.

Por parte do meu irmão, porque o Andrei, ele chegaria me cumprimentando e esticando o braço, como ele costumava fazer. E o meu irmão, o primeiro cumprimento foi do meu irmão que ele fez assim, ó. E aí o Andrei na cama de.

É, tipo, fez um cumprimento assim. E o Andrei na cama de cima do atrilíco também já fez assim.

Cátia, e o a camisa do Grêmio era para ele?

Não, era minha.

Ah, tá.

A camisa do Grêmio era minha.

Mas ele não quis ver.

O Andrei.

É.

Eu mostrei aí. Eu disse: "Olha aqui, filho, a camisa que a mãe comprou.

Estava fora do pacote.

Estava fora do pacote." E aí ele olhou e disse assim: "Ué, não era rosa, mãe?" Porque eu tinha dito, eu tinha comentado com eles que eu queria essa rosa e estava difícil de conseguir. Tanto é que ele teve a percepção de perguntar: "Não era rosa?" Eu falei: "Não, filho, peguei azul". Foi só o que ele falou comigo e do banho que ele fez que tinha tomado banho.

Bom, então sigamos.

Isso. Então, 11:25 da noite.

É 11:25. Eu porque mais ou menos 11:25 aí enquanto eu.

A TV ligada.

A TV ligada. A TV está aqui, daí a trilha aqui e o meu irmão aqui. O Andrei na cama de cima da trilha, meu irmão aqui e a cama.

É TV com controle por um.

Sim, controle remoto. E o roupeiro deles ficava aqui. A minha filha foi pro meu quarto, mas as roupas dela ficaram aqui atrás, né, no roupeiro. Quando enquanto eu estou conversando com o meu irmão, ele falando que está com sono, quer dormir, a minha filha passou despachando a sensação tipo assim, ensai. E aí a minha filha passou pelas minhas costas, pegou a toalha para tomar banho e o Andrei nem mexeu com ela, sabe? E o Andrei era uma criança, né? como fala de indicar gostar de mexer com ela. Ele não me perguntou como é que estava o aniversário, porque eles.

E e essa não é um comportamento padrão do Andrei?

Não. O Andrei quando eu saía por essas feiras assim da da de amigas ali que nós íamos nessa janta, ele porque era de família que ele conhecia, ele era acostumado a ir, ele sempre frequentou o meu meu ciclo de amizade. E aí ele perguntaria: "Mãe, quem é que estava? Quem é que não foi?" Foi porque as minhas amigas também conheciam ele, acompanhavam eles, algumas até cuidavam às vezes quando eu ia trabalhar de noite, né? Então elas conheciam meus filhos, meus filhos conviviam com no nosso núcleo, né? E aí ele não perguntou como é que quem é que estava no aniversário, o que que tinha, porque ele sempre queria saber o que que tinha comida para saber que que é, porque ele queria comentar. E ele não perguntou.

Não perguntou nem quem estava, nem a comida, que não era, não era um ponto.

Não era normal, nem esticou o braço, nem me deu beijo, né? Porque ele sempre dizia, sempre que eu saía ou ele saía, nós tinha essa fala de dizer, faz tantas horas que uma mãe não diz que ama seu filho e ele porque tu colocas ele até até agora na tua fala sempre como uma criança muito afetiva, né?

Muito, muito.

E nesse momento tu não sentiu esse afeto que era o a conduta normal dele. Isso no momento.

Nem contigo, nem com a tua filha.

Momento. Isso no momento eu não me dei conta. com ela, ele não não estaria não trataria ela com esse carinho, mas a maneira dele de indicar com ela, né, de mexer com ela, porque da criança, né, os dois, ela com ela, ele tinha 12 e ela tinha 15, ele ficava se bicando, sabe, tipo, ah, que que tu fez? Ele não perguntou nem o que que ela fez na escola lá com na casa dessa coleguinha.

E é o comportamento diferente quando ele era uma criança curiosa, ele queria saber das coisas, sabe?

Certo. Bom, certo. Aí tu saiu do quarto.

Aí eu saí pro quarto e aí quando eu fui puxar a porta, eu disse para eles, né, Ã, qualquer coisa vocês me chamem.

E deixou a porta fechada.

Deixei fechada. E quando eu fui fechar a porta, eu pensei: "Ah, o Andrei nem me conversou comigo. Amanhã eu vou perguntar, vou mexer com o Andrei, que ele não me deu atenção, que preferiu ficar olhando a série." Só que outro dia não chegou, porque duas horas depois o o meu irmão entrou no quarto gritando: "Cátia, aconteceu uma tragédia". E eu não sabia.

Quando a senhora diz 2 horas depois, a senhora está se referindo a.

Não, duas horas não. Meia-noite não. Ele entrou às 2as da manhã.

2a da manhã.

2 da manhã. É. Eh, uma hora, duas horas que eu digo, porque eu saí do quarto, devia ser, eu era 11:23 mais ou menos, cheguei em casa, eu fiquei pouquinho tempo ali no quarto porque ele não me deixava ficar ali, ele falava, falava como se a minha presença estivesse incomodando ele, não o Andrei, porque o Andrei quase nem falou. Aí, eh, ele entrou no meu quarto gritando, não. Ele gritou assim: "Aconteceu uma tragédia". E aí eu me acordei com o barulho da maçaneta da porta. E aí eu não entendi muito o que está acontecendo. Eu pensei, sei lá, não sabia o que que não tem como tu pensar quando tu acorda num susto, né? Eu só vi que era alguma coisa que ele estava eh desesperado. E aí eu levantei assim, ó. E quando eu vou indo, o quarto é pequeno, seu apartamento é pequeno. É a pior cena da minha vida. Assim, estava o Andrei na cama de cima da triliche com rasgo na cabeça enorme aqui assim, né? tecidos pro lado. Eu sou auxiliar de enfermagem, então eu conheço a cor de uma de uma pessoa em óbito, né? Já vi que o Andrei estava na cor do óbito.

Porque tu após da tua profissão aí?

É, sou auxiliar de enfermagem. Então, infelizmente na minha profissão eu já vi muitas crianças em óbito, né? a cor do do paciente óbito e o o Andrei com aquela lesão enorme na cabeça e eu gritei e aí a minha filha acordou com o meu grito e aí ela ficou aqui assim desse lado, o o Andrei morto aqui em cima da cama e o meu irmão nesse tanto aqui, ó. E meu irmão só gritava assim, ó: "Eu".

Não sei o que aconteceu. Eu não sei o que aconteceu com o nosso anjinho. Ã, eu tava dormindo, me acordei com um barulho de bateria de celular estourando, mas meu celular táular.

Aham. Ele disse que identificou como barulho de celular, de bateria de celular, como se tivesse estourado uma bateria. Isso. Ele disse: "Ah, eu acordei com um barulho de uma bateria de celular estourando. Meu celular tá carregando." Ele apontou ali e o Andrei tá de castigo do celular. Eu nem lembrava que existia celular, quanto mais que o Andrei estaria de castigo naquele momento.

Eu tava tentando entender que que levou o óbito do meu filho com rasgo na cabeça, ele tapado de cobertor, né? Eu olhava pro Andrei e não conseguia entender. Aí o trilixe é alto, né? Daí eu subi assim no trilich comecei a destapar o Andrei pelas coberta. Quando eu comecei a destapar o Andrei assim, tipo panqueca, né? desenrolar para cá para porque não fazia sentido. Duas horas eu saí do quarto, o André tava bem vivo e como é que ele tava com rasgo na cabeça e eu querendo que proteger minha filha porque ela tinha 15 anos e ela nervosa, chorando e e também sem entender. E ele só falava, falava. Agora eu fiquei mais acelerada e ele mais ainda falava. Cátia, eu não sei o que aconteceu com o nosso anjinho. Ele botava a mão na cabeça e ele olhava o o mundando aqui, ó. Digamos que aqui é a cabeça do Andrei e ele olhava pro roueiro, ele não olhava pro Andrei. Ele disse: "Eu não sei o que aconteceu com o nosso anjinho quando não sei". E ele ficava de costas pra tô destapando o Andrei, ele gritou: "Destapando."

A senhora fez um gesto assim, mas a senhora destapou. Eh, depois eu vou, eu, infelizmente, dona Cátia, pode perguntar. Cátia, eu gostaria de não ter que lhe mostrar, mas e eu sei se a senhora tiver disser que não tem condições, eu vou eu eu vou lhe poupar, mas e eh eu vou ter que lhe mostrar a a imagem, tá? Não tem problema. Eu vi o pior, eu vi ali. Então pode pode ficar bem à vontade. Mas quando a senhora faz assim, destapei. A senhora destapou a os pés, a parte de cima? Não, não, porque quando eu entrei no quarto, quando meu irmão, quando o meu irmão me chamou, o Andrei tava tapado. Deixa oig. O Andrei tava tapado com cobertor assim, só tava com essa parte para fora aqui, ó, do corpo dele. Só daqui para cima. O Andrei tava destapado. Ah, só da da do do peitinho assim, mais ou menos. Não, um pouco aqui assim do ombro porque tava de ladinho assim, ó. Ele tava de ladinho e aí tapado até aqui assim, ó. Aí eu comecei a destapar. Andei daqui para baixo como se fosse panqueca, né? Panque, tu rola para cá, ó. Porque como era muito alto, eu não alcançava direito.

Qual que é sua altura, dona Caia? Ah, eu acho que eu tenho 54. E o trilixo em cima? É fic, eu não sei, mas é mais alto. Era mais alto que eu, porque eu tive que subir nessa cama que a senhora, senhora, poderia ficar assim de pé, só para mim poder entender mais ou menos quanto que a senhora precisava para alcançar o triliche. Eh, é só poder assim assim eu não conseguiria alcançar no no Andrei. Eu tive que subir na cama auxiliar para daí pegar o o cobertor e destapar para cá, pros pés. Ah, então assim, só para poder assim a gente eh tentar transmitir pros jurados. A senhora teve que puxar a cama auxiliar? Não, não, porque daí era a a trilxa é assim, ó. É a cama de cima aí, a cama do meio e a cama de baixo. Eu subi na cama do meio, na na guarda da cama do meio, me segurei ali e aí vim para cá destapando.

Tinha a escadinha? Tinha, mas aí a escadinha ficava nos pés do Andrei, lá onde estava os pés do Andrei. E o seu irmão ficou exatamente em qual posição aí? Tá, eu posso mostrar aqui como é que era? Claro. Tá. É assim, ó. A câmera aqui, né? O quarto eu entrei por aqui, tá? A cama, a cama é assim, né? Aí aqui era trilixe, a cama de cima que o Andrei tava. Aqui é a cama auxiliar que daí é mais baixa assim, né? Porque tem uma distância, acho que eu não sei a distância, mas eh tipo assim, ó, a cama, a a trilíche tava nessa minha altura, certo? E a cama auxiliar, a cama que o meu irmão dormia era mais próxima do chão. E a bem auxiliar ela ficava bem lá embaixo, né? Tá bem nos pés. Aí aqui eu não ia conseguir ver o Andrei, né? Eu eu enxergava, mas eu não conseguia pegar o cobertor para puxar. Aí quando eu subi aqui, eu peguei e subi na fiquei na na cama que o meu irmão dormia e aí t fui destapando o Andrei. Quando eu tô destapando, meu irmão gritou, porque daí ele ficou aqui assim, ó, na cabeceira onde tava a mochila e o computador, o espaço pequeno.

Certo. E aí e a E e ele subiu em alguma coisa ou ele tinha visibilidade? Eu não prestei atenção. Não, ele subiu porque depois ele gritou, ele subiu na cabeceira e aí foi que ele gritou. Quando eu tô lá, tava lá nos pés do André, ele gritou: "Como nos pés?" A senhora não tava no meio? Não, porque eu vim vindo, eu fui destapando o Andrei porque eu queria entender o que que tinha acontecido com o corpo do Andrei. Ah, então a senhora foi vindo na cama e tentando e desapar. Isso, porque eu vim vindo assim, ó. Entendi. Porque como o Andrei tava com rasgo na cabeça, eu não sabia se ele tinha mais alguma coisa. Eu eu queria entender do que que o que que tinha acontecido com o Andrei, certo? E aí eu vim vindo assim, né? pulando pro pro lado da dos pés do Andrei. Aí quando eu tava lá nos pés, ele gritou: "Minha arma!" Ele fez bem assim, ó: "Minha arma, minha arma tá aqui." Aí que eu lembrei que tinha arma na casa, né? Porque ele recebeu a pistola do Ministério Público para trabalhar com ela. E aí quando ele recebeu a arma, nós somos filhos de brigadiano, né? Meu pai era brigadiano, eu tenho um outro irmão também que é brigadiano. Então a gente eh sabia como é que se conduzia.

Senora falou: "Cinco irmãos, a senhora única mulher". Eu sou a única mulher. Quando o nosso pai sempre ensinou a gente a nunca mexer nas armas, nunca mexer em nada que não fosse nosso e sempre deixava claro que a gente tinha que que ele tinha arma em casa, mas nós não tínhamos acesso aonde ficava essa arma. E foi que o meu irmão fez. Nós nós chamamos o o André e o Anderson e a Dedé para dizer que nós tinha uma que o meu irmão recebeu uma uma arma e que ficaria sobe. Disia, não vou dizer nem para ti onde fica essa arma para para porque era de responsabilidade dele, né? E eu pensando, bom, ele é um policial militar, ele é um tenente da brigada militar, ele vai saber onde guarda a arma, né? Então fiquei confiando porque até então eu tô confiando nele, né? Tanto é que abri as portas da minha casa para ele. Aí ele gritou: "Minha arma, minha arma tá aqui". Aí quando eu voltei, porque quando eu destapei o Andrei, eu não vi a arma porque eu tava focada naquele, naquela lesão do Andrei. Por isso que eu tenho certeza da lesão do Andrei, porque eu não olhei pras mãos do Andrei. Eu olhei porque aquela aquela aquele rasgo, doutora, era impactante assim, sabe? Certo? Era seu filho com rasgo na cabeça e era e ele recém tinha cortado o cabelo, fazia uma semana, então o cabelinho dele tava bem bem curtinho assim e um rasgo na cabeça dele. E eu eu olhava para aquele rasgo, não conseguia entender. E aí quando eu voltei, o Andrei segurava o cano da pistola.

Então vou eu vou fingir aqui que é uma uma arma, tá? Aí a aqui tu segura para dar o tiro, né? E o Andrei segurava Cano, tanto é, eu tenho ceros rezando. Isso. Eu tenho certeza que o o policial militar, quando ele me conversou comigo lá, eu disse para ele, o Andrei, o meu filho segurava o cano como se tivesse rezando. E eu tenho certeza que esse esse policial da Polícia Civil, ele deve lembrar desse depoimento que eu falei lá no apartamento antes de de acontecer de a gente sair. E aí ele, o meu irmão começava, ele gritava, ele falava. Só ah, um detalhe importante, doutora, que eu a gente tem aqui a arma, tá, dona Cátia? Tá? E eu não vou lhe alcançar a arma por questões até de segurança, certo? Ela eh Só para que fique bem claro a todos, a equipe de segurança do Tribunal de Justiça verificou essa arma, né? A Dra. Juiz, acho que até já ia explicar a todos, mas eu, se não me permite, doutora quer explicar? Pode explicar. A gente verificou, ela não tem nenhuma bala, não tem nada, né? Mas quando a senhora diz segurou o cano, a gente tem aqui senhora quer parar um pouquinho, dona Cátia? Tá? Vamos interromper então, pessoal, 5 minutinhos pra gente tomar uma água e a gente já volta.

Pessoal, momento de muita emoção aí no Tribunal do Júrio, do caso André Gular. da Cátia, que já esteve aqui várias vezes também no canal do Marconde semana passada, inclusive tá tendo que reviver os piores momentos da vida dela. Ele não está presente, ele está ali no telão, como vocês estão vendo, num telão ali tomando água, porque ele coube esse direito, foi deferido, então ele não está presente em loco ali, mas presente virtualmente. Eh, ele que é julgado, né? tem depo tem entrevista com ele aqui nesse canal no Exposed Brasil, eh, feita pelo Marconde Marques. Eh, a sentença deve sair entre hoje e amanhã. Eu acredito que esse juri deva durar um ou dois dias, tá, gente? E então tá bem difícil mesmo, um depoimento muito, muito, muito emocionante. Eh, uma relação que a Cátia tinha com o filho de muita amizade, de muita cumlicidade e ela não aguentou nesse momento. Então, a juíza pediu que interrompesse, né, a transmissão para que ela pudesse se recuperar. Compreensível, né? Então vamos aguardar aí que retorne o julgamento.