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Ana Mercez Bahia Boque, Odair Furtado, Maria de Lourdes Trac Teixeira. Psicologias: Uma Introdução ao Estudo de Psicologia. 13ª edição, reformulada e ampliada. 1999. Terceira tiragem, 2001. ISBN 8502 029002. ISBN 85 02290.
Livro do Professor:
Ana M. Bahia Boque: Doutor em Psicologia Social pela PUCSP. Professora de Psicologia Social e Educacional da Faculdade de Psicologia da PUCSP.
Odair Furtado: Doutor em Psicologia Social pela PUC SP. Professor de Psicologia Social e Institucional da Faculdade de Psicologia da PUC SP.
Área de Lourdes Trac Teixeira: Psicóloga e Psicanalista. Supervisor em Psicologia Institucional da Faculdade de Psicologia da PUC SP. Membro do Instituto Sedes Sapientiae.
Supervisão Editorial: José Lino Fruet.
Editora EB: Cristina Espada.
Cine Assistente Editorial: Sérgio Paulo MT Braga.
Revisão: Fernanda Almeida Mil.
Supervisão: Ana M. Cazo Silva, Cecília B. A. Teixeira, Glácia TM Tomé, Nel Alves Viscaino.
Gerência de Arte: Nair de Medeiros Barbosa.
Supervisão de Arte: Wagner Castro Duis Santos.
Projeto Gráfico e Capa: Wilson Bezas.
A partir de foto de Gury B. Agência Keystone.
Diagramação: Francisco Augusto Costa Filho.
Apresentação:
Desde a primeira edição, lançada em 1988, temos recebido sugestões e questionamentos dos leitores sobre o livro. Essa edição revisada, modificada e ampliada é fruto desse diálogo permanente com alunos e professores, cujas opiniões nortearam nosso trabalho. Assim, alguns capítulos foram ampliados ou desmembrados em dois ou três, permitindo o aprofundamento da abordagem e atualização dos conteúdos de cada tema. Além disso, incluímos capítulos que cobrissem novos temas e novas áreas de interesse. Outros capítulos ainda foram apenas revisados e atualizados.
A organização básica do livro, no entanto, continua a mesma. Psicologias apresenta-se dividido em três partes.
Primeira parte: Caracteriza a Psicologia como ciência, traz sua história, seu objeto de estudo, as principais teorias, as áreas de conhecimento e sua aplicação prática. O estudo dessa parte oferece uma visão geral da Psicologia.
Segunda parte: Trata de alguns temas teóricos: multideterminação do humano, inteligência, vida afetiva, grupos sociais, identidade e sexualidade. O estudo desses temas enriquece e complementa conteúdos teóricos da primeira parte. No capítulo 13, o livro apresenta nossa posição quanto à visão de ser humano em Psicologia.
Terceira parte: Do ponto de vista da Psicologia, alguns aspectos da realidade vivida pelo jovem em nossa cultura: família, escola, adolescência, escolha profissional, violência. O estudo dessa parte proporciona ao jovem uma visão mais crítica dos fenômenos sociais e, consequentemente, maior lucidez quanto à atuação presente e futura nos grupos sociais a que pertence.
O texto está subdividido em, a fim de permitir melhor compreensão e assimilação do conteúdo. Após o texto, em quase todos os capítulos, encontram-se as seguintes seções:
Leitura complementar: Trata-se de um texto extraído de fontes diversas que amplia, retoma, enriquece ou aborda sob outro ângulo o conteúdo do texto.
Questões: Um questionário objetivo que possibilita avaliar a compreensão do conteúdo estudado.
Atividades em grupo: São propostas de atividades mais abertas que motivam o debate de questões polêmicas ou de interesses geradas com a leitura do texto.
Bibliografia indicada: Algumas sugestões de leitura extraclasse, que está subdividida em: Bibliografia para os alunos, na qual são indicados os textos básicos sobre o assunto do capítulo, e a Bibliografia para o professor, que traz sugestões de textos que aprofundam os temas abordados. Essa divisão tem apenas um caráter didático. A bibliografia para o professor aborda assuntos mais complexos, mas nada impede que os alunos interessados entrem em contato com as obras.
Filmes: Algumas sugestões de filmes a partir dos quais professor e alunos podem avançar nos debates de questões atuais, possibilitando uma melhor compreensão e aproveitamento dos textos.
Psicologias é uma introdução ao estudo da Psicologia, que é apresentada em seus vários aspectos: sua história, as abordagens teóricas, os temas básicos, as áreas de conhecimento, as principais características da profissão, os temas cotidianos vistos sob a ótica da Psicologia. Enfim, desde a primeira edição, sempre tivemos a certeza de que ensinar a diversidade do universo da Psicologia é a melhor forma de iniciar o aprendizado dessa ciência, daí o título escolhido: Psicologias.
Este livro foi estruturado para adequar-se ao planejamento da disciplina. Os capítulos podem ser estudados em qualquer ordem, dependendo da prioridade estabelecida para o curso. É possível reunir, com grande proveito, capítulos de partes diferentes do livro sob um mesmo eixo. Por exemplo, se houver interesse em debater especificamente adolescência e questões emergentes nesta etapa da vida, pode-se iniciar o estudo do tema pelo Capítulo 7, "A Psicologia do Desenvolvimento", e em seguida passar para os capítulos sobre adolescência, sexualidade, a escolha profissional e violência.
Temos muito claro que o livro didático é instrumento fundamental na mediação entre o professor e o aluno. Eles dialogam através do livro. Nossa responsabilidade é grande, procuramos cumprir a tarefa de dar qualidade a essa relação. Além disso, a escola, como local socialmente estabelecido para o aprendizado, precisa contar com instrumentos que, além de bons, sejam motivadores, interessantes e inovadores. Esses princípios nos guiaram também na revisão que ora lhe entregamos, esperando e desejando a todos, professor e alunos, um bom estudo.
Estamos com vocês,
Os Autores.
Quero falar de uma coisa. Adivinha onde ela anda? Deve estar dentro do peito ou caminha pelo ar? Pode estar aqui do lado, bem mais perto que pensamos. A folha da juventude é o nome certo desse amor. Coração de estudante. Há que se cuidar da vida, há que se cuidar do mundo. Tomar conta da amizade, alegria e muito sonho espalhados no caminho. Verde, plantas e sentimento. Folhas, coração, juventude e fé.
Milton Nascimento e Wagner Tiso. Coração de Estudante.
Para concretizar este trabalho, contamos com a ajuda de vários amigos, aos quais gostaríamos de agradecer: Francisco, Hilda, João, Leonardo, Lumena, Nelson, Odet, Renate, Silvio, Vilma, Vilma, Jorge, Vanda, Ia. Nesta reedição, contamos com a colaboração de Maria Mália, Maria da Graça, Marcos Vinícius e de muitos professores, aos quais somos imensamente gratos, pois eles dão vida e sentido ao nosso trabalho de escrever um livro. Ressaltamos que este livro tem a marca intelectual e afetiva da professora Silvia TM Leine, nossa mestra e companheira.
Sumário:
Parte 1: A Caracterização da Psicologia
Capítulo 1: A Psicologia ou as Psicologias: Ciência e Senso Comum (15)
Capítulo 2: A Evolução da Ciência Psicológica: Psicologia e História (31)
Capítulo 3: O Behaviorismo: O Estudo do Comportamento (45)
Capítulo 4: A Gestalt: A Psicologia da Forma (59)
Capítulo 5: A Psicanálise: Sigmon Freud (70)
Capítulo 6: Psicologias em Construção: Vigotsky, a Psicologia Socio-histórica (85)
Capítulo 7: A Psicologia do Desenvolvimento: Uma Área da Ecologia (97)
Capítulo 8: A Psicologia da Aprendizagem: A Aprendizagem como Objeto de Estudo (114)
Capítulo 9: A Psicologia Social: O Encontro Social (135)
Capítulo 10: A Psicologia como Profissão: Que Profissão é Essa? (150)
Parte 2: Temas Teóricos em Psicologia
Capítulo 11: A Multideterminação do Humano: Uma Visão em Psicologia (167)
Capítulo 12: A Inteligência: Somos Seres Pensantes (179)
Capítulo 13: Vida Afetiva: A Importância da Vida Afetiva (189)
Capítulo 14: Identidade: Identidade e Crise (207)
Capítulo 15: Psicologia Institucional e Processo Grupal: A Construção Social da Realidade (215)
Capítulo 16: Sexualidade: Sexualidade Nossa Desconhecida (229)
Parte 3: Psicologia: Uma Leitura da Realidade
Capítulo 17: Família: O Que Está Acontecendo com Ela? (251)
Capítulo 18: A Escola: Problemas da Escola (263)
Capítulo 19: Meios de Comunicação de Massa: Meios de Comunicação e Subjetividade (277)
Capítulo 20: Adolescência: Tornar-se Jovem (290)
Capítulo 21: A Escolha de uma Profissão: A Escolha Profissional Também Tem História (300)
Capítulo 22: As Faces da Violência: Agressividade e Violência: O Enfoque Psicológico (330)
Capítulo 23: Saúde ou Doença Mental: A Questão da Normalidade (346)
Bibliografia (361)
Nota da Digitalizadora: A numeração de páginas a que refere-se à edição original que encontra-se inserida entre colchetes no texto. Entende-se que o texto que está antes da numeração entre colchetes é o que pertence àquela página e o texto que está após a numeração pertence à página seguinte.
Parte Um: A Caracterização da Psicologia
Capítulo 1: A Psicologia ou as Psicologias
Capítulo 2: A Evolução da Ciência Psicológica
Capítulo 3: O Behaviorismo
Capítulo 4: A Gestalt
Capítulo 5: A Psicanálise
Capítulo 6: Psicologias em Construção
Capítulo 7: A Psicologia do Desenvolvimento
Capítulo 8: A Psicologia da Aprendizagem
Capítulo 9: A Psicologia Social
Capítulo 10: A Psicologia como Profissão
Capítulo Um: A Psicologia ou as Psicologias: Ciência e Senso Comum
Quantas vezes, no nosso dia a dia, ouvimos o termo psicologia? Qualquer um entende um pouco dela. Poderíamos até mesmo dizer que, de psicólogo de louco, todo mundo tem um pouco. O dito popular não é bem "este de médico e de louco todo mundo tem um pouco", mas parece servir aqui perfeitamente. As pessoas em geral têm a sua psicologia. Usamos o termo psicologia no nosso cotidiano com vários sentidos. Por exemplo, quando falamos do poder de persuasão do vendedor, dizemos que ele usa de psicologia para vender seu produto. Quando nos referimos à jovem estudante que usa seu poder de sedução para atrair o rapaz, falamos que ela usa de psicologia. E quando procuramos aquele amigo que está sempre disposto a ouvir nossos problemas, dizemos que ele tem psicologia para entender as pessoas. Será essa a psicologia dos psicólogos? Certamente não. Essa psicologia usada no cotidiano pelas pessoas em geral é denominada de psicologia do senso comum. Mas nem por isso deixa de ser uma psicologia. O que estamos querendo dizer é que as pessoas normalmente têm um domínio, mesmo que pequeno e superficial, do conhecimento acumulado pela psicologia científica, o que lhes permite explicar ou compreender seus problemas cotidianos de um ponto de vista psicológico. É a psicologia científica que pretendemos apresentar a você, mas antes de iniciar o seu estudo, faremos uma exposição da relação ciência-senso comum. Depois, falaremos mais detalhadamente sobre ciência e, assim, esperamos que você compreenda melhor a psicologia científica.
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O Senso Comum: Conhecimento da Realidade
Existe um domínio da vida que pode ser entendido como vida por excelência: é a vida do cotidiano. É no cotidiano que tudo flui, que as coisas acontecem, que nos sentimos vivos, que sentimos a realidade. Neste instante, estou lendo um livro de psicologia; logo mais, estarei numa sala de aula fazendo uma prova e, depois, irei ao cinema. Enquanto isso, tenho de tomar um refrigerante na cantina da escola, sinto um sono irresistível e preciso de muita força de vontade para não dormir em plena aula. Lembro-me de que havia prometido chegar cedo para o almoço. Todos esses acontecimentos denunciam que estamos vivos.
A ciência é uma atividade eminentemente reflexiva. Ela procura compreender, elucidar e alterar esse cotidiano a partir de seu estudo sistemático. Quando fazemos ciência, baseamo-nos na realidade cotidiana e pensamos sobre ela. Afastamo-nos dela para refletir e conhecer, além de suas aparências, o cotidiano. O cotidiano e o conhecimento científico que temos da realidade aproximam-se e se afastam. Aproximam-se porque a ciência se refere ao real; afastam-se porque a ciência abstrai a realidade para compreendê-la melhor. Ou seja, a ciência afasta-se da realidade, transformando em objeto de investigação o que permite a construção do conhecimento científico sobre o real. Para compreender isso melhor, pense na abstração, no distanciamento e trabalho mental que Newton teve de fazer para, partindo da fruta que caía da árvore, fato do cotidiano, formular a lei da gravidade, fato científico. Ocorre que, mesmo o mais especializado dos cientistas, quando sai de seu laboratório, está submetido à dinâmica do cotidiano, que cria as suas próprias teorias a partir das teorias científicas, seja como forma de simplificar, seja para o uso no dia a dia, ou como sua maneira peculiar de interpretar fatos, a despeito das considerações feitas pela ciência. Todos nós, estudantes, psicólogos, físicos, artistas, operários, teólogos, vivemos a maior parte do tempo esse cotidiano e as suas teorias, isto é, aceitamos as regras do seu jogo.
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O fato é que a dona de casa, quando usa garrafa térmica para manter o café quente, sabe por quanto tempo ele permanecerá razoavelmente quente, sem fazer nenhum cálculo complicado e muitas vezes desconhecendo completamente as leis da termodinâmica. Quando alguém em casa reclama de dores no fígado, ela faz um chá de boldo, que é uma medicinal já usada pelos avós de nossos avós, sem, no entanto, conhecer o princípio ativo de suas folhas nas doenças hepáticas e sem nenhum estudo farmacológico. E nós mesmos, quando precisamos atravessar uma avenida movimentada com tráfego intenso, mesmo não dispondo de instrumentos, sabemos avaliar a distância e a velocidade de um veículo. Quando atravessamos a rua, veículos em alta velocidade, sabemos perfeitamente medir a distância e a velocidade do automóvel que vem em nossa direção. Até hoje, não conhecemos ninguém que usasse máquina de calcular ou fita métrica para essa tarefa. Esse tipo de conhecimento que vamos acumulando no nosso cotidiano é chamado de senso comum. Sem esse conhecimento intuitivo, espontâneo, de tentativas e erros, a nossa vida no dia a dia seria muito complicada. A necessidade de acumulamos esse tipo de conhecimento espontâneo parece-nos óbvia. Imagine termos de descobrir diariamente que as coisas tendem a cair, graças ao efeito da gravidade; termos de descobrir diariamente que algo atirado pela janela tende a cair e não a subir; que um automóvel em velocidade vai se aproximar rapidamente de nós; e que, para fazer um aparelho eletrodoméstico funcionar, precisamos de eletricidade. O senso comum, na produção desse tipo de conhecimento, percorre um caminho que vai do hábito à tradição, a qual, quando estabelecida, passa de geração para geração. Assim, aprendemos com nossos pais a atravessar uma rua, a fazer o liquidificador funcionar, a plantar alimentos na época e de maneira correta, a conquistar a pessoa que desejamos, e assim por diante. E é nessa tentativa de facilitar o dia a dia que o senso comum produz suas próprias teorias. Na realidade, um conhecimento que, numa interpretação livre, poderíamos chamar de teorias médicas, físicas, psicológicas, etc.
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Senso Comum: Uma Visão de Mundo
Esse conhecimento do senso comum, além de sua produção característica, acaba por se apropriar de uma maneira muito singular de conhecimentos produzidos pelo homem. O senso comum mistura e recicla esses outros saberes, muito mais especializados, e os reduz a um tipo de teoria simplificada, produzindo uma determinada visão de mundo. O que estamos querendo mostrar a você é que o senso comum integra, de um modo precário, mas é esse o seu modo, o conhecimento humano. E, claro, isto não ocorre muito rapidamente; leva um certo tempo para que o conhecimento mais sofisticado e especializado seja absorvido pelo senso comum, e nunca o é totalmente. Quando utilizamos termos como "rapaz complexado", "menina histérica", "ficar neurótico", estamos usando termos definidos pela psicologia científica. Não nos preocupamos em definir as palavras usadas e, nem por isso, deixamos de ser entendidos pelo outro. Podemos até estar muito próximos do conceito científico, mas, na maioria das vezes, nem o sabemos. Esses são exemplos da apropriação que o senso comum faz da ciência.
Áreas do Conhecimento
Somente esse tipo de conhecimento, porém, não seria suficiente para as exigências de desenvolvimento da humanidade. O homem, desde os tempos primitivos, foi ocupando cada vez mais espaço neste planeta e, somente com esse conhecimento intuitivo, seria muito pouco para que ele pudesse dominar os cálculos matemáticos que, já considerados difíceis pelos gregos, seus aritmetas navais, etc., era uma questão de sobrevivência. Com o tempo, esse tipo de conhecimento foi-se especializando cada vez mais, até atingir o nível de sofisticação que permitiu ao homem atingir a Lua. A este tipo de conhecimento, que definiremos com mais cuidado logo adiante, chamamos de ciência.
Mas o senso comum e a ciência não são as únicas formas de conhecimento que o homem possui para descobrir e interpretar a realidade. Povos antigos, e entre eles cabe registro de crenças e tradições para as futuras gerações, sempre mencionaram os gregos, que buscaram o significado da vida humana em rituais e em um conjunto de mitos sobre a origem do homem, seus mistérios, princípios morais. Um outro corpo de conhecimento humano, conhecido como religião. No Ocidente, um livro muito conhecido traz as crenças e tradições de nossos antepassados; para muitos, o modelo de conduta: a Bíblia. Esse livro é o registro do conhecimento religioso judaico-cristão. Um outro livro semelhante é o Livro Sagrado dos Hindus, o Livro dos Vedas. Veda, em sânscrito, antiga língua clássica da Índia, significa conhecimento. Por fim, o homem, já desde a sua pré-história, deixou marcas de sua sensibilidade nas paredes das cavernas, quando desenhou a sua própria figura e a figura da caça, criando uma expressão do conhecimento que traduz a emoção e a sensibilidade. Denominamos arte a esse tipo de conhecimento.
Arte, religião, filosofia, ciência e senso comum são domínios do conhecimento humano. A psicologia científica, apesar de reconhecermos a existência de uma psicologia do senso comum, de certo modo estarmos preocupados em defini-la, é com a outra psicologia que este livro deverá ocupar-se. A psicologia científica foi preciso definir o senso comum para que o leitor pudesse demarcar o campo de atuação de cada uma sem confundi-las. Entretanto, a de definir a psicologia como ciência é bem mais árdua e complicada. Comecemos por definir o que entendemos por ciência, que também não é simples, para depois explicarmos porque a psicologia é hoje considerada uma de suas áreas.
O Que é Ciência?
A ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade, objeto de estudo, expresso por meio de uma linguagem precisa e rigorosa. Esses conhecimentos devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controlada, para que se permita a verificação de sua validade. Assim, podemos apontar o objeto dos diversos ramos da ciência e saber exatamente como determinado conteúdo foi construído, possibilitando a reprodução da experiência. Dessa forma, o saber pode ser transmitido, verificado, atualizado e desenvolvido.
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Essa característica da produção científica possibilita a sua continuidade. Um novo conhecimento é produzido sempre a partir de algo anteriormente desenvolvido. Negam-se, reafirmam-se, descobrem-se novos aspectos, e assim a ciência avança. Nesse sentido, a ciência caracteriza-se como um processo. Pense no desenvolvimento do motor a álcool hidratado. Ele nasceu de uma necessidade concreta (crise do petróleo) e foi planejado a partir do motor a gasolina, com alteração de poucos componentes. No entanto, os primeiros automóveis movidos a álcool apresentaram muitos problemas, como seu funcionamento nos dias frios. Apesar disso, esse tipo de motor foi se aprimorando. A ciência tem essa característica fundamental: aspira à objetividade, seus conteúdos passíveis de verificação e isentos de emoção, para assim tornarem válidos para os objetos específicos. Linguagem rigorosa, métodos específicos, processo contínuo, objetividade, fazem da ciência uma forma de conhecimento que supera muito o conhecimento espontâneo do senso comum. Esse conjunto de características é o que permite que denominemos científico a um conjunto de conhecimentos.
Objeto de Estudo da Psicologia
Como dissemos anteriormente, um conhecimento para ser considerado científico requer um objeto específico de estudo. O objeto da astronomia são os astros e o objeto da biologia são os seres vivos. Essa classificação, bem geral, demonstra que é possível tratar o objeto dessas ciências com uma certa distância. Ou seja, é possível isolar o objeto de estudo. No caso da astronomia, o cientista observador está, por exemplo, num observatório e o astro observado há anos-luz de distância de seu telescópio. Esse cientista não corre o mínimo risco de confundir-se com o fenômeno que está estudando.
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O mesmo não ocorre com a psicologia que, como a antropologia, a economia, a sociologia e todas as ciências humanas, estuda o homem. Certamente, essa divisão é ampla demais e apenas coloca a psicologia entre as ciências humanas. Qual é, então, o objeto específico de estudo da Psicologia? Se dermos a palavra a um psicólogo comportamentalista, ele dirá: o objeto de estudo da Psicologia é o comportamento humano. Se a palavra for dada a um psicólogo psicanalista, ele dirá: o objeto de estudo da Psicologia é o inconsciente. Outros dirão que a consciência humana e outros, ainda, a personalidade.
Diversidade de Objetos da Psicologia
A diversidade de objetos da Psicologia é explicada pelo fato de este campo do conhecimento ter se constituído como área do conhecimento científico só muito recentemente (final do século XIX). O Observatório Nacional, Rio de Janeiro, estudar o fenômeno físico é pensar sobre algo externo ao homem; estudar o homem é pensar sobre si mesmo. Despeito de existir há muito tempo na filosofia enquanto preocupação humana, esse fato é importante, já que a ciência se caracteriza pela exatidão de sua construção teórica e, quando uma ciência é muito nova, ela não teve tempo ainda de apresentar teorias acabadas e definitivas que permitam determinar com maior precisão seu objeto de estudo.
Um outro motivo que contribui para dificultar uma clara definição de objeto da Psicologia é o fato de o cientista, o pesquisador, confundir-se com o objeto a ser pesquisado. No sentido mais amplo, o objeto de estudo da Psicologia é o homem e, neste caso, o pesquisador está inserido na categoria a ser estudada. Assim, a concepção de homem que o pesquisador traz consigo contamina inevitavelmente a sua pesquisa. Em Psicologia, e isso ocorre porque há diferentes concepções de homem entre cientistas, na medida em que estudos filosóficos e teológicos e mesmo doutrinas políticas acabam definindo o homem a sua maneira, e o cientista acaba necessariamente se vinculando a uma destas crenças. É o caso da concepção de homem natural, formulada pelo filósofo francês Rousseau, que imagina que o homem era puro e foi corrompido pela sociedade e que,
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cabe então ao filósofo reencontrar essa pureza perdida (veja Capítulo 10). Outros veem o homem como ser abstrato, com características definidas e que não mudam, a despeito das condições sociais a que esteja submetido. Nós, autores deste livro, vemos esse homem como ser datado, determinado pelas condições históricas e sociais que o cercam. Na realidade, este é um problema enfrentado por todas as ciências humanas, muito discutido pelos cientistas de cada área e, até agora, sem perspectiva de solução. Conforme a de homem Jean Jacques Rousseau, filósofo francês, adotada, teremos uma concepção de objeto que combine com ela. Como, neste momento, há uma riqueza de valores sociais que permitem várias concepções de homem, diríamos, simplificadamente, que no caso da Psicologia, esta ciência estuda os diversos homens concebidos pelo conjunto social. Assim, a psicologia hoje se caracteriza por uma diversidade de objetos de estudo. Por outro lado, essa diversidade de objetos justifica-se por os fenômenos psicológicos serem tão diversos que não podem ser acessíveis há o mesmo nível de observação e, portanto, não podem ser sujeitos aos mesmos padrões de descrição, medida, controle e interpretação. O objeto da Psicologia deveria ser aquele que reunisse condições de aglutinar uma ampla variedade de fenômenos psicológicos. Ao estabelecer o padrão de descrição, medida, controle e interpretação, o psicólogo está também estabelecendo um determinado critério de seleção dos fenômenos psicológicos e, assim, definindo um objeto. Essa situação leva-nos a questionar a caracterização da Psicologia como ciência e postular que, no momento, não existe uma psicologia, mas ciências psicológicas embrionárias e em desenvolvimento.
A Subjetividade como Objeto da Psicologia
Considerando toda essa dificuldade na conceituação única do objeto de estudo da Psicologia, optamos por apresentar uma definição que lhe sirva como referência para os próximos capítulos, uma vez que você irá se deparar com diversos enfoques que trazem definições específicas desse objeto: o comportamento, o inconsciente, a consciência, etc. A identidade da Psicologia é o que a diferencia dos demais ramos das ciências humanas e pode ser obtida considerando-se que cada um desses ramos enfoca o homem de maneira particular. Assim, cada especialidade (a economia, a política, a história, etc.) trabalha essa matéria-prima de maneira particular, construindo conhecimentos
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distintos, específicos, a respeito dela. A psicologia colabora com o estudo da subjetividade. É essa a sua forma particular, específica, de contribuição para a compreensão da totalidade da vida humana. Nossa matéria-prima, portanto, é o homem em todas as suas expressões: as visíveis (nosso comportamento) e as invisíveis (nossos sentimentos); as singulares (porque somos o que somos) e as genéricas (por somos todos). Assim é o homem: corpo, homem pensamento, homem afeto, homem ação, e tudo isso está sintetizado no termo subjetividade.
A subjetividade é a síntese singular, individual, que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural. É uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. Essa síntese, a subjetividade, é o mundo de ideias, significados e emoções construído internamente pelo sujeito a partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua constituição biológica. É também fonte de suas manifestações afetivas e comportamentais. O mundo social e cultural, conforme vai sendo experienciado por nós, possibilita-nos a construção de um mundo interior. São diversos fatores que se combinam e nos levam a uma vivência muito particular. Nós atribuímos sentido a essas experiências e vamos nos constituindo a cada dia. A subjetividade é a maneira de sentir, pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um. É o que constitui o nosso modo de ser. Sou filho de japoneses e militante de um grupo ecológico, detesto matemática, adoro samba e black music, pratico yoga, tenho vontade, mas não consigo ter uma namorada. Meu melhor amigo é filho de descendentes de italianos, primeiro aluno da classe em matemática, trabalha e estuda, é corintiano fanático, adora comer sushi e navegar pela internet. Ou seja, cada qual é o que é: sua singularidade.
Entretanto, a síntese que a subjetividade representa não é inata ao indivíduo; ele a constrói aos poucos, apropriando-se do material do mundo social e cultural, e faz isso ao mesmo tempo em que atua sobre este mundo. Ou seja, é ativo na sua construção, criando e transformando um mundo externo. O homem constrói e transforma a si próprio; um mundo objetivo em movimento, porque seres humanos o movimentam permanentemente com suas intervenções; um PG 23
mundo subjetivo em movimento, porque os indivíduos estão permanentemente se apropriando de novas matérias-primas para constituírem suas subjetividades. De um certo modo, podemos dizer que a subjetividade não só é fabricada, produzida, moldada, mas também é automoldável, ou seja, o homem pode promover novas formas de subjetividade, recusando-se ao assujeitamento e à perda de memória imposta pela fugacidade da informação, recusando a massificação que exclui, o estigma diferente, a aceitação social condicionada ao consumo, a medicalização do sofrimento. Nesse sentido, retomamos a utopia de que cada homem pode participar na construção do seu destino e de sua coletividade. Por fim, podemos dizer que estudar a subjetividade nos tempos atuais é tentar compreender a produção de novos modos de ser, isto é, as subjetividades emergentes, cuja fabricação é social e histórica. O estudo dessas novas subjetividades vai desvendando as relações do cultural, do político, do econômico e do histórico na produção do mais íntimo e do mais observável no homem, aquilo que o une, o submete ou o mobiliza para pensar e agir sobre os efeitos das formas de submissão da subjetividade. Como dizia o filósofo francês Michel Foucault, o movimento e a transformação são os elementos básicos de toda essa história. E aproveitamos para citar Guimarães Rosa, que em Grande Sertão: Veredas consegue expressar de modo muito adequado e rico o que aqui vale a pena registrar: "O importante, o bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas." Que elas vão se mudando, afinal.
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"Pessoas não estão iguais, ainda não foram terminadas." Na verdade, as pessoas nunca serão terminadas, pois estarão sempre se modificando. Mas por quê? Como? Simplesmente porque a subjetividade, este mundo interno construído pelo homem como síntese de suas determinações, não cessará de PG 24
modificar-se, pois as experiências sempre trarão novos elementos para renová-la. Talvez você esteja pensando: "Mas eu acho que sou o que sempre fui, eu não me modifico." Por acompanhar de perto suas próprias transformações, não poderia ser diferente. Você pode não percebê-las e ter a impressão de ser como sempre foi. Você é o construtor da sua transformação (veja Capítulo 13), e por isso ela pode passar despercebida, fazendo pensar que não se transformou. Mas você cresceu, mudou de corpo, de vontades, de gostos, de amigos, de atividades, afinou e desafinou, enfim, tudo em sua vida muda e, com ela, suas vivências subjetivas, seu conteúdo psicológico, sua subjetividade. Isso acontece com todos nós. Bem, esperamos que você já tenha uma noção do que seja subjetividade. Possamos, então, voltar à nossa discussão sobre o objeto da Psicologia.
A Psicologia, como já dissemos anteriormente, é um ramo das ciências humanas e a sua identidade, isto é, aquilo que a diferencia, pode ser obtida considerando-se que cada um desses ramos enfoca de maneira particular o objeto homem, construindo conhecimentos distintos e específicos a respeito dele. Assim, com o estudo da subjetividade, a psicologia contribui para a compreensão da totalidade da vida humana. É claro que a forma de se abordar a subjetividade e mesmo a forma de concebê-la dependerá da concepção de homem adotada pelas diferentes escolas psicológicas (veja capítulos 3, 4, 5 e 6). No momento, pelo pouco desenvolvimento da Psicologia, essas escolas acabam formulando um conhecimento fragmentário de uma única e mesma totalidade: o ser humano, o seu mundo interno e as suas manifestações. A superação do atual impasse levará a uma psicologia que enquadre esse homem como ser concreto e multideterminado (veja Capítulo 10). Esse é o papel de uma ciência crítica, da compreensão da comunicação e do encontro do homem com o mundo em que vive, já que o homem que compreende a história, o mundo externo, também compreende a si mesmo, sua subjetividade, e o homem que compreende a si mesmo pode compreender o engendramento do mundo e criar novas rotas e utopias. Algumas correntes da Psicologia consideram-na pertencente ao campo das ciências do comportamento e outras das ciências sociais. Acreditamos que o campo das ciências humanas é mais abrangente, condizente com a nossa proposta que vincula a psicologia à história, à antropologia, à economia, etc. PG 25
A Psicologia e o Misticismo
A Psicologia, como área da ciência, vem se desenvolvendo na história desde 1875, quando Wilhelm Wundt (1832-1926) criou o primeiro laboratório de experimentos em psicofisiologia em Leipzig, na Alemanha. Esse marco histórico significou o desligamento das ideias psicológicas de ideias abstratas e espiritualistas que defendiam a existência de uma alma nos homens, a qual seria sede da vida psíquica. A partir daí, a história da Psicologia é de fortalecimento de seu vínculo com os princípios e métodos científicos. A ideia de um homem autônomo, capaz de se responsabilizar pelo seu próprio desenvolvimento e pela sua vida, também vai se fortalecendo a partir desse momento.
Hoje, a psicologia ainda não consegue explicar muitas coisas sobre o homem, pois é uma área da da ciência relativamente nova, com pouco mais de 100 anos. Além disso, sabe-se que a ciência não esgotará o que há para se conhecer, pois a realidade está em permanente movimento e novas perguntas surgem a cada dia. O homem está em movimento, em transformação, colocando também novas perguntas para a psicologia. A invenção dos computadores, por exemplo, trouxe e trará mudanças em nossas formas de pensamento, em nossa inteligência, e a psicologia precisará absorver essas transformações em seu quadro teórico.
Alguns dos desconhecimentos da Psicologia têm levado os psicólogos a buscarem respostas em outros campos do saber humano. Com isso, algumas práticas não psicológicas têm sido associadas às práticas psicológicas. O tarot, a astrologia, a quiromancia, a numerologia, entre outras práticas adivinhatórias e/ou místicas, têm sido associadas ao fazer e ao saber psicológico. Estas não são práticas da psicologia; são outras formas de saber, de saber sobre o humano, que não podem ser confundidas com a psicologia, pois:
* Não são construídas no campo da ciência a partir do método e dos princípios científicos.
* Estão em oposição aos princípios da Psicologia, que vê não só o homem como ser autônomo que se desenvolve, se constitui a partir de sua relação com o mundo social e cultural, mas também o homem sem destino pronto, que constrói seu futuro ao agir sobre o mundo. As práticas místicas têm pressupostos opostos, pois nelas há concepção de destino, da existência de forças que não estão no campo do humano e do mundo material.
A psicologia, ao relacionar-se com esses saberes, deve ser capaz de enfrentá-los sem preconceitos, reconhecendo que o homem PG 26
construiu muitos saberes em busca de sua felicidade, mas é preciso demarcar nossos campos. Esses saberes não estão no campo da Psicologia, mas podem se tornar seu objeto de estudo. É possível estudar as práticas adivinhatórias e descobrir o que elas têm de eficiente, de acordo com os critérios científicos, e aprimorar tais aspectos para um uso eficiente e racional. Nem sempre esses critérios científicos têm sido observados e alguns psicólogos acabam por usar tais práticas sem o devido cuidado e observação. Esses casos, seja o daquele que usa a prática mística como acompanhamento psicológico, seja o do psicólogo que usa desse expediente sem critério científico comprovado, são previstos pelo Código de Ética dos Psicólogos e, por isso, passíveis de punição: no primeiro caso, como prática de charlatanismo; e, no segundo, como desempenho inadequado da profissão.
Entretanto, é preciso ponderar que esse campo fronteiriço entre a psicologia científica e a especulação mística deve ser tratado com o devido cuidado quando se trata de pessoas, psicóloga ou não, que decididamente usam do expediente das práticas místicas como forma de tirar proveito pecuniário ou de qualquer outra ordem, prejudicando terceiros. Temos um caso de polícia e a punição é salutar. Mas muitas vezes não é possível caracterizar a atuação daqueles que se utilizam dessas práticas de forma tão clara. Nestes casos, não podemos tornar absoluto o conhecimento científico como o conhecimento por excelência e dogmatizar a ponto de correr o risco de criar um tribunal semelhante ao da Santa Inquisição. É preciso reconhecer que pessoas que acreditam em práticas adivinhatórias ou místicas têm o direito de consultar e de serem consultadas. E também temos de reconhecer, nós cientistas, que não sabemos muita coisa sobre o psiquismo humano e que muitas vezes novas descobertas seguem estranhos e insondáveis caminhos. O verdadeiro cientista deve ter os olhos abertos para o novo. Enfim, nosso alerta aqui vai em dois sentidos:
* Não se deve misturar a psicologia com práticas adivinhatórias ou místicas, que estão baseadas em pressupostos diversos e opostos ao da Psicologia.
* Em mente, como paraquedas, melhor aberta. É preciso estar aberto para o novo, atento a novos conhecimentos que, tendo sido estudados no âmbito da ciência, podem trazer novos saberes, ou seja, novas pistas para a pergunta não respondida.
A ciência, como das deveres do homem, tem seu desenvolvimento, métodos e princípios como forma de conhecimento e nunca estará acabada. A ciência é, na verdade, um processo permanente de descoberta. Um exercício de diálogo entre o pensamento humano e a realidade em todos os seus aspectos. Nesse sentido, tudo que ocorre com o homem é motivo de interesse para a ciência, que deve aplicar seus princípios e métodos para construir respostas.
Texto Complementar: A Psicologia dos Psicólogos
Somos obrigados a renunciar à pretensão de determinar para as múltiplas investigações psicológicas um objeto, um campo de fatos unitário e coerente. Consequentemente, e por sólidas razões, não somente históricas, mas doutrinárias, torna-se impossível à psicologia assegurar-se uma unidade metodológica. Por isso, talvez, fosse preferível.
Falarmos ao invés de psicologia em ciências psicológicas. Por os adjetivos que acompanham o termo psicologia podem especificar ao mesmo tempo tanto um domínio de pesquisa (psicologia diferencial), um estilo metodológico (psicologia clínica), um campo de práticas sociais (orientação, reeducação, terapia de distúrbios comportamentais, etc.), quanto determinada escola de pensamento que chega a definir para seu próprio uso tanto sua problemática quanto seus conceitos e instrumentos de pesquisa. Não devemos estranhar que a unidade da Psicologia hoje nada mais seja que uma expressão cômoda, a expressão de um passadismo ao mesmo tempo prático e enganador, de não haver nenhum inconveniente em falarmos de psicologias no plural.
Numa época de mutação acelerada como a nossa, a psicologia se situa no imenso domínio das ciências exatas, biológicas, naturais e humanas. A diversidade de domínio e diversidade de métodos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: os problemas psicológicos não são feitos para métodos, os métodos é que são feitos para os problemas. Interessa-nos indicar uma razão central pela qual a psicologia se reparte em tantas tendências ou escolas: a tendência organicista, a tendência fisicalista, a tendência psicossociológica, a tendência psicanalítica, etc. Qual o obstáculo supremo impedindo que todas essas tendências continuem a constituir escolas cada vez mais fechadas, a ponto de agregarem a outrora chamada ciência psicológica? A meu ver, esse obstáculo é devido ao fato de nenhum cientista, consequentemente nenhum psicólogo, poder considerar-se um cientista puro. Como qualquer cientista, todo psicólogo está comprometido com uma posição filosófica ou ideológica. Este fato tem uma importância fundamental nos problemas estudados pela psicologia. Esta não é a mesma em todos os países, depende dos meios culturais. Suas variações dependem da diversidade das escolas e das ideologias. Os problemas psicológicos se diversificam segundo as correntes ideológicas ou filosóficas venham reforçar esta ou aquela orientação na pesquisa, consigam ocultar ou impedir este ou aquele aspecto dos domínios a serem explorados, ou consigam esterilizar esta ou aquela pesquisa, opondo-se implícita ou explicitamente a seu desenvolvimento.
*Rilton Japiaçu. A psicologia dos psicólogos. Expedição Rio de Janeiro: E.M.A.G., 1983. p. 246.*
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**Questões**
1. Qual a relação entre cotidiano e conhecimento científico?
2. Dê um exemplo de uso cotidiano do conhecimento científico em qualquer área.
3. Explique o que é senso comum. Dê um exemplo desse tipo de conhecimento.
4. Explique o que você entendeu por visão de mundo.
5. Cite alguns exemplos de conhecimentos da Psicologia apropriados pelo senso comum.
6. Quais os domínios do conhecimento humano? O que cada um deles abrange?
7. Quais as características atribuídas ao conhecimento científico?
8. Quais as diferenças entre senso comum e conhecimento científico?
9. Quais são os possíveis objetos de estudo da Psicologia?
10. Quais os motivos responsáveis pela diversidade de objetos para a Psicologia?
11. Qual a matéria-prima da Psicologia?
12. O que é a subjetividade?
13. Por que a subjetividade não é inata?
14. Por que as práticas místicas não compõem o campo da Psicologia científica?
**Atividades em grupo**
1. Você leu no texto que existem a psicologia científica e a psicologia do senso comum. Supondo que o seu contato até o momento só tenha sido com a psicologia do senso comum, relacione situações do cotidiano em que você ou as pessoas com quem convive usam essa psicologia.
2. Baseando-se no texto e na leitura complementar, responda: por que falamos em "ciências psicológicas" e não em "uma psicologia"?
3. Discuta a nossa apresentação da Psicologia científica, sua matéria-prima e seu enfoque. Para isso, retome as respostas que cada membro do grupo deu às questões 10, 11, 12 e 13.
4. Verifique quantas pessoas do grupo já procuraram práticas adivinhatórias. A partir da leitura do texto, discuta a experiência.
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**Bibliografia indicada**
Para o aprofundamento da relação ciência e senso comum, indicamos o capítulo 10 do livro *Filosofando: Introdução à Filosofia*, de Maria Lúcia Aranha e Maria Helena P. Martins (São Paulo: Moderna, 1987), e o capítulo 3 do livro *Fundamentos da Filosofia: Ser, Saber e Fazer*, de Gilberto Cotrim (São Paulo: Saraiva, 1993). Esses dois livros podem ainda ser utilizados para explorar melhor o método científico: em *Filosofando: Introdução à Filosofia*, o capítulo 14; e em *Fundamentos da Filosofia*, o capítulo 12.
Quanto ao aprofundamento da questão do objeto das ciências humanas, sugerimos ainda as partes 1 e 2 do capítulo 16 de *Filosofando: Introdução à Filosofia*.
Para o professor, para o aprofundamento das questões colocadas no texto, sugerimos a introdução do livro *A Construção da Realidade*, de Peter Berger e Thomas L.man (Petrópolis: Vozes, 1983), onde os autores discutem e apresentam, com muita profundidade, a relação realidade-conhecimento.
Quanto à questão específica da psicologia, seus objetos e métodos, indicamos o livro *A Psicologia dos Psicólogos*, de Hilton Japiaçu (Rio de Janeiro: E.M.A.G., 1983). Esse livro supõe um bom conhecimento das teorias e sistemas em psicologia, já que procura discuti-los do ponto de vista metodológico. Não é uma leitura fácil, mas importantíssima para os psicólogos. Ressaltamos a introdução e o capítulo 1.
Indicamos ainda, para aprofundamento da questão da psicologia, o livro *Psicologia da Conduta*, de José Bleger (Porto Alegre: Artes Médicas, 1987), que aborda a psicologia do ponto de vista de seu objeto de estudo.
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**Capítulo 2**
**A Evolução da Ciência: Psicologia e História**
Toda e qualquer produção humana – uma cadeira, uma religião, um computador, uma obra de arte, uma teoria científica – tem por trás de si a contribuição de inúmeros homens que, num tempo anterior ao presente, fizeram indagações, realizaram descobertas, inventaram técnicas e desenvolveram ideias. Isto é, por trás de qualquer produção material ou espiritual, existe a história. Compreender em profundidade algo que compõe o nosso mundo significa recuperar sua história. O passado e o futuro sempre estão no presente, enquanto base constitutiva e enquanto projeto. Por exemplo, todos nós temos uma história pessoal e nos tornamos pouco compreensíveis se não recorremos a ela e à nossa perspectiva de futuro para entendermos quem somos e por que somos de uma determinada forma. Essa história pode ser mais ou menos longa para os diferentes aspectos da produção humana. No caso da Psicologia, a história tem por volta de dois milênios. Esse tempo refere-se à psicologia no Ocidente, que começa entre os gregos, no período anterior à era cristã. Para compreender a diversidade com que a psicologia se apresenta hoje, é indispensável recuperar sua história. A história de sua construção está ligada ao momento histórico, às exigências de conhecimento da humanidade, às demais áreas do conhecimento humano e aos novos desafios colocados pela realidade econômica e social e pela insaciável necessidade do homem de compreender a si mesmo.
**PG 31**
**A Psicologia entre os Gregos: Os Primórdios**
A história do pensamento humano tem um momento ímpar na antiguidade, entre os gregos, particularmente no período de 700 a.C. até a dominação romana, às vésperas da era cristã. Os gregos foram o povo mais evoluído nessa época. Uma produção minimamente planejada e bem-sucedida permitiu a construção das primeiras cidades-estado (pólis). A manutenção dessas cidades implicava a necessidade de mais riquezas, as quais alimentavam também o poderio dos cidadãos, membros da classe dominante. Na Grécia antiga, assim iniciaram a conquista de novos territórios no Mediterrâneo, Ásia Menor, chegando quase até a China, que geraram riquezas na forma de escravos para trabalhar nas cidades e na forma de tributos pagos pelos territórios conquistados. As riquezas geraram crescimento e este crescimento exigia soluções práticas para a arquitetura, para a agricultura e para a organização social. Isso explica os avanços na física, na geometria, na teoria política, inclusive com a criação do conceito de democracia. Tais avanços permitiram que o cidadão se ocupasse das coisas do espírito, como a filosofia e a arte. Alguns homens, como Platão e Aristóteles, dedicaram-se a compreender esse espírito empreendedor do conquistador grego. Ou seja, a filosofia começou a especular em torno do homem e da sua interioridade. É entre os filósofos gregos que surge a primeira tentativa de sistematizar uma psicologia. O próprio termo psicologia vem do grego *psyché* (que significa alma) e de *logos* (que significa a razão). Portanto, etimologicamente, psicologia significa estudo da alma.
A alma ou o espírito era concebida como a parte imaterial do ser humano e abarcaria o pensamento, os sentimentos de amor e ódio, a irracionalidade, o desejo, a sensação e a percepção. Os filósofos pré-socráticos, assim chamados por antecederem Sócrates, filósofo grego, preocupavam-se em definir a relação do homem com o mundo através da percepção. Discutiam se o mundo existe porque o homem o vê, ou se o homem vê um mundo que já existe. Havia uma oposição entre os idealistas (a ideia/forma o mundo) e os materialistas (a matéria que forma o mundo já é dada para a percepção).
Mas é com Sócrates (469-399 a.C.) que a psicologia na antiguidade ganha consistência. Sua principal preocupação era com o limite que separa o homem dos animais. Desta forma, postulava que a principal característica humana era a razão. A razão permitia ao homem sobrepor-se aos instintos, que seriam a base da irracionalidade. Ao definir a razão como peculiaridade do homem ou como essência humana, Sócrates abre um caminho que seria muito explorado pela psicologia. As teorias da consciência são, de certa forma, frutos dessa primeira sistematização na filosofia.
O passo seguinte é dado por Platão (427-347 a.C.), discípulo de Sócrates. Esse filósofo procurou definir um lugar para a razão no nosso próprio corpo. Definiu esse lugar como sendo a cabeça, onde se encontra a alma do homem. A medula seria, portanto, o elemento de ligação da alma com o corpo. Este elemento de ligação era necessário porque Platão concebia a alma separada do corpo. Quando alguém morria, a matéria (o corpo) desaparecia, mas a alma ficava livre para ocupar outro corpo.
Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, foi um dos mais importantes pensadores da história da filosofia. Sua contribuição foi inovadora ao postular que alma e corpo não podem ser dissociados. Para Aristóteles, a *psyché* é o princípio ativo da vida. Tudo aquilo que cresce, se reproduz e se alimenta possui a sua *psyché* (alma). Desta forma, os vegetais, os animais e o homem teriam alma. Os vegetais teriam a alma vegetativa, que se define pela função de alimentação e reprodução. Os animais teriam essa alma e a alma sensitiva, que tem a função de percepção e movimento. E o homem teria os dois níveis anteriores e a alma racional, que tem a função pensante. Esse filósofo chegou a estudar as diferenças entre a razão, a percepção e as sensações. Esse estudo está sistematizado no *Da Anima*, que pode ser considerado o primeiro tratado em psicologia.
Portanto, 2300 anos antes do advento da Psicologia científica, os gregos já haviam formulado duas teorias: a platônica, que postulava a imortalidade da alma e a concebia separada do corpo; e a aristotélica, que afirmava a mortalidade da alma e a sua relação de pertencimento ao corpo.
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**A Psicologia no Império Romano e na Idade Média**
Às vésperas da era cristã, surge um novo império que iria dominar a Grécia, parte da Europa e o Oriente Médio: o Império Romano. Uma das principais características desse período é o aparecimento e desenvolvimento do cristianismo, uma força religiosa que passa a ser força política dominante. Mesmo com as invasões bárbaras por volta de 400 d.C., que levam à desorganização econômica e ao esfacelamento dos territórios, o cristianismo sobrevive e até se fortalece, tornando-se a religião principal da Idade Média, período que então se inicia.
E falar de Psicologia nesse período é relacioná-la ao conhecimento religioso, já que, ao lado do poder econômico e político, a Igreja Católica também monopolizava o saber e, consequentemente, o estudo do psiquismo. Nesse sentido, dois grandes filósofos representam esse período: Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274).
Santo Agostinho, inspirado em Platão, também fazia uma cisão entre alma e corpo. Entretanto, para ele, a alma não era somente a sede da razão, mas a prova de uma manifestação divina no homem. A alma era imortal por ser o elemento que liga o homem a Deus. E sendo a alma também a sede do pensamento, a Igreja passa a se preocupar também com a sua compreensão.
São Tomás de Aquino viveu num período que prenunciava a ruptura da Igreja Católica: o aparecimento do protestantismo, uma época que preparava a transição para o capitalismo com a Revolução Francesa e a Revolução Industrial na Inglaterra. Essa crise econômica e social leva ao questionamento da Igreja e dos conhecimentos produzidos por ela. Dessa forma, foi preciso encontrar novas justificativas para a relação entre Deus e o homem. São Tomás de Aquino foi buscar em Aristóteles a distinção entre essência e existência. Como o filósofo grego, considera que o homem, na sua essência, busca a perfeição através de sua existência, porém, introduzindo o ponto de vista religioso. Ao contrário de Aristóteles, afirma que somente Deus seria capaz de reunir a essência e a existência em termos de igualdade. Portanto, a busca de perfeição pelo homem seria a busca de Deus. São Tomás de Aquino encontra argumentos racionais para justificar os dogmas da Igreja e continua garantindo para ela o monopólio do estudo do psiquismo.
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**A Psicologia no Renascimento**
Pouco mais de 200 anos após a morte de São Tomás de Aquino, tem início uma época de transformações radicais no mundo europeu: é o Renascimento ou Renascença. O mercantilismo leva à descoberta de novas terras: a América, o caminho para as Índias, a rota do Pacífico. E isto propicia a acumulação de riquezas pelas nações em formação, como França, Itália, Espanha, Inglaterra. Na transição para o capitalismo, começa a emergir nova forma de organização econômica e social. Dá-se também o processo de laicização do homem. As transformações ocorrem em todos os setores da produção humana. Por volta de 1300, Dante escreve *A Divina Comédia*; entre 1475 e 1478, Leonardo da Vinci pinta o quadro *Anunciação*; em 1484, Botticelli pinta *O Nascimento de Vênus*; em 1501, Michelangelo esculpe *Davi*; e em 1513, Maquiavel escreve *O Príncipe*, obra clássica da política.
As ciências também conhecem um grande avanço: em 1543, Copérnico causa uma revolução no conhecimento humano, mostrando que o nosso planeta não é o centro do universo; em 1610, Galileu estuda a queda dos corpos, realizando as primeiras experiências da física moderna. Esse avanço na produção de conhecimentos propicia o início da sistematização do conhecimento científico. Começam a se estabelecer métodos e regras básicas para a construção do conhecimento científico.
Neste período, René Descartes (1596-1659), um dos filósofos que mais contribuiu para o avanço da ciência, postula a separação entre mente (alma, espírito) e corpo, afirmando que o homem possui uma substância material e uma substância pensante, e que o corpo, desprovido do espírito, é apenas uma máquina. Esse dualismo mente-corpo torna possível o estudo do corpo humano morto, o que era impensável nos séculos anteriores. O corpo era considerado sagrado pela Igreja por ser a sede da alma e, dessa forma, possibilita o avanço da anatomia e da fisiologia, que iria contribuir em muito para o progresso da própria psicologia.
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**A Origem da Psicologia Científica no Século XIX**
No século XIX, destaca-se o papel da ciência e seu avanço. Torna-se necessário o crescimento da nova ordem econômica: o capitalismo. Traz consigo o processo de industrialização, para o qual a ciência deveria dar respostas e soluções práticas no campo da técnica. Há, então, um impulso muito grande para o desenvolvimento da ciência enquanto um sustentáculo da nova ordem econômica e social e dos problemas colocados por ela. Para uma melhor compreensão, retomemos algumas características da sociedade feudal e capitalista emergente, sendo esta responsável por mudanças que marcariam a história da humanidade.
Na sociedade feudal, com o modo de produção voltado para a subsistência, a terra era a principal fonte de produção. A relação do senhor e do servo era típica de uma economia fechada, na qual uma hierarquia rígida estava estabelecida, não havendo mobilidade social. Era uma sociedade estável, em que predominava uma visão de um universo estático, um mundo natural organizado e hierárquico, em que a verdade era sempre decorrente de revelações. Nesse mundo, vivia um homem que tinha seu lugar social definido a partir do nascimento. A razão estava submetida à fé como garantia de centralização do poder. A autoridade era o critério de verdade. Esse mundo fechado e esse universo finito refletiam e justificavam a hierarquia social inquestionável do feudo.
O capitalismo pôs esse mundo em movimento: com a necessidade de abastecer mercados e produzir cada vez mais, buscou novas matérias-primas da natureza, criou necessidades, contratou o trabalho de muitos que, por sua vez, tornavam-se consumidores das mercadorias produzidas. Questionou as hierarquias para derrubar a nobreza e o clero de seus lugares há tantos séculos estabilizados. O universo também foi posto em movimento: o sol tornou-se o centro do universo, que passou a ser visto sem hierarquizações. O homem, por sua vez, deixou de ser o centro do universo (antropocentrismo), passando a ser concebido como um ser livre, capaz de construir seu futuro. O servo, liberto de seu vínculo com a terra, pôde escolher seu trabalho e seu lugar social. Com isso, o capitalismo tornou todos os homens consumidores em potencial das mercadoricas produzidas. O conhecimento tornou-se independente da fé, os dogmas da Igreja foram questionados. O mundo se moveu, a racionalidade do homem apareceu, então, como a grande possibilidade de construção do conhecimento.
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A burguesia, que disputava o poder e surgia como nova classe social e econômica, defendia a emancipação do homem. Para emancipar-se, também era preciso quebrar a ideia de universo estável, para poder transformá-lo. Era preciso questionar a natureza como algo dado, para viabilizar a sua exploração em busca de matérias-primas. Estavam dadas as condições materiais para o desenvolvimento da ciência moderna. As ideias dominantes fermentaram essa construção: o conhecimento como fruto da razão, a possibilidade de desvendar a natureza e suas leis pela observação rigorosa e objetiva, busca de um método que possibilitasse a observação para descoberta dessas leis, necessidade de os homens construírem conhecimento por si mesmos, e não pela autoridade eclesial. Sentiu-se necessidade da ciência.
Nesse período, surgem homens como Hegel, que demonstra a importância da história para a compreensão do homem, e Darwin, que enterra o antropocentrismo com sua tese evolucionista. A ciência avança tanto que se torna um referencial para a visão de mundo. A partir dessa época, a noção de verdade passa necessariamente a contar com o aval da ciência. A própria filosofia adapta-se aos novos tempos com o surgimento do positivismo de Augusto Comte, que postulava a necessidade de maior rigor científico na construção dos conhecimentos nas ciências humanas. Desta forma, propunha o método da ciência natural, a física como modelo de construção de conhecimento.
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Em meados do século XIX, os problemas e temas da Psicologia, até então estudados exclusivamente pelos filósofos, passam a ser também investigados pela fisiologia e pela neurofisiologia, em particular. Os avanços que atingiram também essa área levaram à formulação de teorias sobre o sistema nervoso central, demonstrando que o pensamento, as percepções e os sentimentos humanos eram produtos desse sistema.
É preciso lembrar que esse mundo capitalista trouxe consigo a máquina. A máquina, que criação fantástica do homem, foi tão fantástica que passou a determinar a forma de ver o mundo: o mundo como uma máquina, o mundo como um relógio. Todo o universo passou a ser pensado como uma máquina, isto é, podemos conhecer o seu funcionamento, a sua regularidade, o que nos possibilita o conhecimento de suas leis. Essa forma de pensar atingiu também as ciências do homem. Para se conhecer o psiquismo humano, passa a ser necessário compreender os mecanismos e o funcionamento da máquina de pensar do homem: seu cérebro. Assim, a psicologia começa a trilhar os caminhos da fisiologia, neuroanatomia e neurofisiologia.
Algumas descobertas são extremamente relevantes para a Psicologia. Por exemplo, por volta de 1846, a neurologia descobre que a doença mental é fruto da ação direta ou indireta de diversos fatores sobre as células cerebrais. A neuroanatomia descobre que a atividade motora nem sempre está ligada à consciência, por não estar necessariamente na dependência dos centros cerebrais superiores. Por exemplo, quando alguém queima a mão em uma chapa quente, primeiro tira a da chapa para depois perceber o que aconteceu. Esse fenômeno chama-se reflexo, e o estímulo que chega à medula espinhal, antes de chegar aos centros cerebrais superiores, recebe uma ordem para resposta, que é tirar a mão.
O caminho natural que os fisiologistas da época seguiam quando passam a se interessar pelo fenômeno psicológico enquanto estudo científico era a psicofísica. Estudavam, por exemplo, a fisiologia do olho e a percepção das cores. As cores eram estudadas como fenômeno da física e a percepção como fenômeno da Psicologia. Por volta de 1860, temos a formulação de uma importante lei no campo da psicofísica: é a Lei de Fechner-Weber, que estabelece a relação entre estímulo e sensação, permitindo a sua mensuração. Segundo Fechner e Weber, a diferença que sentimos ao aumentarmos a intensidade de iluminação de uma lâmpada de 100 para 110 watts será a mesma sentida quando aumentamos a intensidade de iluminação de 1000 para 1100 watts. Isto é, a percepção aumenta em progressão aritmética, enquanto o estímulo varia em progressão geométrica. Essa lei teve muita importância na história da Psicologia porque instaurou a possibilidade de medida do fenômeno psicológico, o que até então era considerado impossível. Dessa forma, os fenômenos psicológicos vão adquirindo o status de científicos, porque, para a concepção de ciência da época, o que não era mensurável não era passível de estudo científico.
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Outra contribuição muito importante nesses primórdios da Psicologia científica é Wilhelm Wundt (1832-1920). Wundt criou na Universidade de Leipzig, na Alemanha, o primeiro laboratório para realizar experimentos na área de psicofisiologia. Por esse fato e por sua extensa produção teórica na área, ele é considerado pai da Psicologia moderna ou científica. Wundt desenvolve a concepção do paralelismo psicofísico, segundo a qual aos fenômenos mentais correspondem fenômenos orgânicos. Por exemplo, uma estimulação física como uma picada de agulha na pele de um indivíduo teria uma correspondência na mente deste indivíduo. Para explorar a mente ou consciência do indivíduo, Wundt cria um método que denomina introspeccionismo. Nesse método, o experimentador pergunta ao sujeito, especialmente treinado para auto-observação, os caminhos percorridos do seu interior por uma estimulação sensorial (a picada da agulha, por exemplo).
A Psicologia científica, o berço da Psicologia moderna, foi a Alemanha do final do século XIX. Wundt, Weber e Fechner trabalharam juntos na Universidade de Leipzig. Seguiram para aquele país muitos estudiosos dessa nova ciência, como o inglês Edward Titchener e o americano William James. Seu status de ciência é obtido à medida que se liberta da filosofia, que marcou sua história até aqui, e atrai novos estudiosos e pesquisadores que, sob os novos padrões de produção de conhecimento, passam a:
* Definir seu objeto de estudo: o comportamento, a vida psíquica, a consciência.
* Delimitar seu campo de estudo, diferenciando-o de outras áreas de conhecimento, como a filosofia e a fisiologia.
* Formular métodos de estudo desse objeto, formular teorias enquanto um corpo consistente de conhecimentos na área.
Essas teorias devem obedecer aos critérios básicos da metodologia científica, isto é, deve-se buscar a neutralidade do conhecimento científico, os dados devem ser passíveis de comprovação e o conhecimento deve ser cumulativo e servir de ponto de partida para outros experimentos e pesquisas na área. Os pioneiros da Psicologia procuraram, dentro das possibilidades, atingir tais critérios e formular teorias. Entretanto, os conhecimentos produzidos inicialmente caracterizaram-se muito mais como postura metodológica que norteava a pesquisa e a construção teórica. Embora a psicologia científica tenha nascido na Alemanha, é nos Estados Unidos que ela encontra campo para um rápido crescimento, resultado do grande avanço econômico que colocou os Estados Unidos na vanguarda do sistema capitalista. É ali que surgem as primeiras abordagens ou escolas em psicologia, as quais deram origem às inúmeras teorias que existem atualmente. Essas abordagens são: o funcionalismo de William James (1842-1910), o estruturalismo de Edward Titchener (1867-1927) e o associacionismo de Edward Thorndike (1874-1949).
**PG 38**
**O Funcionalismo**
O funcionalismo é considerado como a primeira sistematização genuinamente americana de conhecimentos em psicologia. Uma sociedade que exigia o pragmatismo para seu desenvolvimento econômico acaba por exigir dos cientistas americanos o mesmo espírito. Desse modo, para a escola funcionalista de W. James, importa responder: o que fazem os homens e por que o fazem? Para responder a isto, W. James elege a consciência como centro de suas preocupações e busca a compreensão de seu funcionamento na medida em que o homem a usa para adaptar-se ao meio.
**O Estruturalismo**
O estruturalismo está preocupado com a compreensão do mesmo fenômeno que o funcionalismo: a consciência. Mas, diferentemente de W. James, Titchener irá estudá-lo em seus aspectos estruturais, isto é, os estados elementares da consciência como estruturas do sistema nervoso central. Essa escola foi inaugurada por Wundt, mas foi Titchener, seguidor de Wundt, quem usou o termo estruturalismo pela primeira vez no sentido de diferenciá-la do funcionalismo. O método de observação, assim como Wundt, é o introspeccionismo, e os conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente experimentais, isto é, produzidos a partir do laboratório.
**O Associacionismo**
O principal representante do associacionismo é Edward Thorndike, e sua importância está em ter sido formulador de uma primeira teoria de aprendizagem na psicologia. Sua produção pautava-se por uma visão de utilidade deste conhecimento, muito mais do que por questões filosóficas que perpassam a psicologia. O termo associacionismo origina-se da concepção de que a aprendizagem se dá por um processo de associação das ideias, das mais simples às mais complexas. Assim, para aprender um conteúdo complexo, a pessoa precisaria primeiro aprender as ideias mais simples que estariam associadas àquele conteúdo. Thorndike formulou a Lei do Efeito, que seria de grande utilidade para a psicologia comportamentalista. De acordo com essa lei, todo comportamento de um organismo vivo (um homem, um pombo, um rato, etc.) tende a se repetir se for recompensado (efeito), o organismo, assim que este emitir o comportamento. Por outro lado, o comportamento tenderá a não acontecer se o organismo for castigado (efeito) após sua ocorrência. E pela Lei do Efeito, o organismo irá associar essas situações com outras semelhantes. Por exemplo, se ao apertarmos um dos botões do rádio formos premiados com música, em outras oportunidades apertaremos o mesmo botão, bem como generalizar essa aprendizagem para outros aparelhos, como toca-discos, gravadores, etc.
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**As Principais Teorias da Psicologia no Século XX**
A psicologia, enquanto um ramo da filosofia, estudava a alma. A psicologia científica nasce quando, de acordo com os padrões de ciência do século XIX, Wundt preconiza a psicologia sem alma. O conhecimento tido como científico passa, então, a ser aquele produzido em laboratórios, com uso de instrumentos de observação e medição. Se antes a psicologia estava subordinada à filosofia, a partir daquele século ela passa a se ligar a especialidades da medicina, que assumirá, antes da Psicologia, um método de investigação das ciências naturais como critério rigoroso de construção do conhecimento.
Essa psicologia científica, que se constituiu de três escolas (associacionismo, estruturalismo e funcionalismo), foi substituída no século XX por novas teorias. As três mais importantes tendências teóricas da Psicologia neste século são consideradas por inúmeros autores como sendo:
* O behaviorismo ou teoria S-R (do inglês *stimulus-response* – estímulo-resposta).
* A Gestalt.
* A psicanálise.
1. **O behaviorismo**, que nasce com Watson e tem um desenvolvimento grande nos Estados Unidos, em função de suas aplicações práticas, tornou-se importante por ter definido o fato psicológico de modo concreto, a partir da noção de comportamento.
2. **A Gestalt**, que tem seu berço na Europa, surge como uma negação da fragmentação das ações e processos humanos realizada pelas tendências da Psicologia científica do século XIX, postulando a necessidade de se compreender o homem como uma totalidade. A Gestalt é a tendência teórica mais ligada à filosofia.
3. **A psicanálise**, que nasce com Freud na Áustria, a partir da prática médica, recupera para a psicologia a importância da afetividade, postula o inconsciente como objeto de estudo, quebrando a tradição da Psicologia como ciência da consciência e da razão.
Nos próximos três capítulos, desenvolveremos cada uma dessas principais tendências teóricas, a partir da apresentação de alguns de seus conceitos básicos. Em um quarto capítulo, apresentaremos a psicologia socio-histórica como uma das vertentes teóricas em construção na psicologia atual.
**PG 40**
**Questões**
1. Qual a importância de se conhecer a história da Psicologia?
2. Quais as condições econômicas e sociais da Grécia antiga que propiciaram o início da reflexão sobre o homem?
3. Quais as contribuições fundamentais para a Psicologia, apresentadas nos textos de Sócrates, Platão e Aristóteles?
4. A hegemonia da Igreja na Idade Média: qual contribuição de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino para a concepção de Psicologia?
5. Qual período histórico situa a contribuição de Descartes para a Psicologia?
6. Quais as contribuições da fisiologia e da neurofisiologia para a Psicologia?
7. Qual o papel de Wundt na história da Psicologia?
8. Quais os critérios que a psicologia deveria satisfazer para adquirir o status de ciência?
9. O que caracteriza o funcionalismo, o associacionismo e o estruturalismo?
10. Quais as principais teorias em psicologia no século XX?
**Atividades em grupo**
1. Quais as diferenças entre a psicologia como ramo da filosofia e a psicologia científica?
2. Como a produção do conhecimento está relacionada com as condições materiais do momento histórico em que ela se dá? Exemplifique.
3. Construam uma linha do tempo e registrem nela os principais marcos da história da humanidade e os principais momentos da construção da Psicologia.
**PG 41**
**Bibliografia indicada**
A história da Psicologia é um tema que não apresenta obras adequadas aos alunos de ensino médio. Mesmo livros introdutórios como os de Fred S. Keller (*A Definição da Psicologia*, São Paulo: Herder, 1972) e de Anibal Rosenfeld (*O Pensamento Psicológico*, São Paulo: Perspectiva, 1984) destinam-se a leitores que tenham um mínimo de familiaridade com as questões da Psicologia. O primeiro trata da Psicologia a partir de sua fase científica até o behaviorismo e a Gestalt, excluindo a psicanálise. O segundo é mais denso e percorre os caminhos da Psicologia desde os filósofos pré-socráticos até a fase científica.
Uma bibliografia mais avançada é composta pelos livros de Antônio Gomes Pena (*Introdução à História da Psicologia Contemporânea*, Rio de Janeiro: A.A.R., 1980) e de Fernando Sim Miller (*História da Psicologia*, São Paulo: Na, 1978).
**PG 42**
**Capítulo 3**
**O Behaviorismo**
Os autores agradecem à Profª. Maria Malandrino, do Laboratório de Psicologia Experimental da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, a contribuição na revisão deste capítulo.
**O Estudo do Comportamento**
O termo behaviorismo foi inaugurado pelo americano John B. Watson em artigo publicado em 1913, que apresentava o título "Psicologia como os behavioristas a veem". O termo inglês *behavior* significa comportamento, por isso, para denominar essa tendência teórica, usamos behaviorismo e também comportamentalismo, teoria comportamental, análise experimental do comportamento, análise do comportamento.
Watson, postulando o comportamento como objeto da Psicologia, dava a esta ciência a consistência que os psicólogos da época vinham buscando: um objeto observável, mensurável, cujos experimentos poderiam ser reproduzidos em diferentes condições e sujeitos. Essas características foram importantes para que a psicologia alcançasse o status de ciência, rompendo definitivamente com a sua tradição filosófica.
O Watson também defendia uma perspectiva funcionalista para a Psicologia, isto é, o comportamento deveria ser estudado como função de certas variáveis do meio. Certos estímulos levam o organismo a dar determinadas respostas, e isso ocorre porque os organismos se ajustam aos seus ambientes por meio de equipamentos hereditários e pela formação de hábitos. O Watson buscava a construção de uma psicologia sem alma e sem mente, livre de conceitos mentalistas e de métodos subjetivos, e que tivesse a capacidade de prever e controlar.
Apesar de colocar o comportamento como objeto da Psicologia, o behaviorismo foi, desde Watson, modificando o sentido desse termo. Hoje, não se entende comportamento como uma ação isolada de um sujeito, mas sim como uma interação entre aquilo que o sujeito faz, o ambiente onde o seu fazer acontece. Portanto, o behaviorismo dedica-se ao estudo das interações entre o indivíduo e o ambiente, entre as ações do indivíduo (suas respostas) e o ambiente (as estimulações).
Os psicólogos desta abordagem chegaram aos termos resposta e estímulo para se referirem àquilo que o organismo faz e às variáveis ambientais que interagem com o sujeito. Para explicar a adoção desses termos, duas razões podem ser apontadas: uma metodológica e outra histórica. A razão lógica deve-se ao fato de que os analistas experimentais do comportamento tomaram como modo preferencial de investigação um método experimental e analítico. Com isso, os experimentadores sentiram a necessidade de dividir o objeto para efeito de investigação, chegando a unidades de análise. A razão histórica refere-se aos termos escolhidos e popularizados, que foram mantidos posteriormente por outros estudiosos do comportamento devido ao seu uso generalizado.
Comportamento, entendido como interação indivíduo-ambiente, é a unidade básica de descrição e o ponto de partida para uma ciência do comportamento. O homem começa a ser estudado a partir de sua interação com o ambiente, sendo tomado como produto e produtor dessas interações.
**PG 43**
**A Análise Experimental do Comportamento**
O mais importante dos behavioristas que sucedem Watson é B. F. Skinner (1904-1990). O behaviorismo de Skinner tem influenciado muitos psicólogos americanos e de vários países onde a psicologia americana tem grande penetração, como o Brasil. Esta linha de estudo ficou conhecida por behaviorismo radical, termo cunhado pelo próprio Skinner em 1945 para designar uma filosofia da ciência do comportamento que ele se propôs defender por meio da análise experimental do comportamento.
A base da corrente de Skinner é o comportamento operante. Para desenvolver este conceito, retrocederemos um pouco na história do behaviorismo, introduzindo as noções de comportamento reflexo ou respondente, para então chegarmos ao comportamento operante. Vamos lá!
**O Comportamento Respondente**
O comportamento reflexo ou respondente é o que usualmente chamamos de não voluntário e inclui as respostas que são eliciadas (produzidas) por estímulos antecedentes do ambiente. Como exemplo, podemos citar a contração das pupilas quando uma luz forte incide sobre os olhos, a salivação provocada por uma gota de limão colocada na ponta da língua, o arrepio da pele quando um ar frio nos atinge, as famosas lágrimas de cebola, etc. Esses comportamentos reflexos ou respondentes são interações estímulo-resposta (ambiente-sujeito) incondicionadas, nas quais certos eventos ambientais confiavelmente eliciam certas respostas do organismo, que independem de aprendizagem.
Mas interações desse tipo também podem ser provocadas por estímulos que originalmente não eliciavam respostas em determinado organismo. Quando tais estímulos são temporalmente pareados com estímulos eliciadores, podem, em certas condições, eliciar respostas semelhantes às destes. A essas novas interações chamamos também de reflexos, que agora são condicionados devido a uma história de pareamento, o qual levou o organismo a responder a estímulos que antes não respondia.
Para deixar isso mais claro, vamos a um exemplo. Suponha que numa sala aquecida, sua mão direita seja mergulhada numa vasilha de água gelada. A temperatura da mão cairá rapidamente devido ao encolhimento ou constrição dos vasos sanguíneos, caracterizando o comportamento como respondente. Esse comportamento será acompanhado de uma modificação semelhante e mais facilmente mensurável na mão esquerda, onde a vascularização também será induzida. Suponha agora que a sua mão direita seja mergulhada na água gelada um certo número de vezes em intervalos de três ou quatro minutos e que você ouça uma campainha pouco antes de cada imersão. Lá pelo vigésimo pareamento do som da campainha com a água fria, a mudança de temperatura nas mãos poderá ser eliciada apenas pelo som, isto é, sem necessidade de emergir uma das mãos.
*F. S. Keller. Aprendizagem: Teoria do Reforço. p. 13.*
Neste exemplo de condicionamento respondente, a queda da temperatura da mão eliciada pela água fria é uma resposta incondicionada, enquanto a queda da temperatura eliciada pelo som é uma resposta condicionada (aprendida). A água é um estímulo incondicionado e o som, um estímulo condicionado.
**PG 44**
No início dos anos 30, na Universidade de Harvard, Estados Unidos, Skinner começou o estudo do comportamento justamente pelo comportamento respondente, que se tornará a unidade básica de análise, ou seja, o fundamento para a descrição das interações indivíduo-ambiente. O desenvolvimento de seu trabalho levou a teorizar sobre um outro tipo de relação do indivíduo com seu ambiente, a qual viria a ser a nova unidade de análise de sua ciência: o comportamento operante. Esse tipo de comportamento caracteriza a maioria de nossas interações com o ambiente.
**O Comportamento Operante**
O comportamento operante abrange um leque amplo da atividade humana: dos comportamentos do bebê de balbuciar, de agarrar objetos e de olhar os enfeites do berço aos mais sofisticados apresentados pelo adulto, como nos diz Keller: "o comportamento operante inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se possa dizer que em algum momento têm efeito sobre ou fazem algo ao mundo em redor. O comportamento operante opera sobre o mundo, por assim dizer, quer direta quer indiretamente."
*F. S. Keller. Op. cit., p. 10.*
A leitura que você está fazendo deste livro é um exemplo de comportamento operante, assim como escrever uma carta, chamar o táxi com um gesto de mão, tocar um instrumento, etc. Para exemplificarmos melhor os conceitos apresentados até aqui, vamos relembrar um conhecido experimento feito com ratos de laboratório. Vale informar-te: animais como ratos, pombos e macacos, para citar alguns, foram utilizados pelos analistas experimentais do comportamento, inclusive Skinner, para verificar como as variações do ambiente interferiam nos comportamentos. Tais experimentos permitiram-lhes fazer afirmações sobre o que chamaram de leis comportamentais.
Um ratinho, ao sentir sede em seu habitat, certamente manifesta algum comportamento que lhe permita satisfazer a sua necessidade orgânica. Esse comportamento foi por ele mantido pelo efeito proporcionado: saciar a sede. Assim, se deixarmos o
**PG 45**
ratinho privado de água durante 24 horas, certamente apresentará o comportamento de beber água no momento em que tiver sede. Sabendo disso, os pesquisadores da época decidiram simular esta estação em laboratório sob condições especiais de controle, o que os levou à formulação de uma lei comportamental.
Um ratinho foi colocado na caixa de Skinner, um recipiente fechado no qual encontrava apenas uma barra. Esta barra, ao ser pressionada por ele, acionava um mecanismo camuflado que lhe permitia obter uma gotinha de água que chegava à caixa por meio de uma pequena haste. Que resposta esperava-se do ratinho? Que ele viesse a pressionar a barra. Como isso ocorreu pela primeira vez por acaso, durante a exploração na caixa, o ratinho pressionou a barra acidentalmente, o que lhe trouxe pela primeira vez uma gotinha de água que, devido à sede, fora rapidamente consumida. Por ter obtido água ao encostar na barra quando sentia sede, constatou-se a alta probabilidade de que, estando em situação semelhante, o ratinho a pressionasse novamente.
Neste caso de comportamento operante, o que propicia a aprendizagem dos comportamentos é a ação do organismo sobre o meio e o efeito dela resultante: a satisfação de alguma necessidade. Ou seja, a aprendizagem está na relação entre uma ação e seu efeito. Este comportamento operante pode ser representado da seguinte maneira: R → S<sup>r</sup>, em que R é a resposta (pressionar a barra) e S<sup>r</sup> é o estímulo reforçador (a água). O ratinho, por acaso, pressiona a barra e recebe a gota d'água, iniciando-se o processo de aprendizagem. O estímulo reforçador (a água, que tanto interessa ao organismo) é chamado de reforço. A flecha significa "leva a". O termo estímulo foi mantido da relação S-R do comportamento respondente para designar a responsabilidade pela ação, apesar de ela ocorrer após a manifestação do comportamento.
O comportamento operante refere-se à interação sujeito-ambiente. Nessa interação, chama-se de relação fundamental a relação entre ação do indivíduo (a emissão da resposta) e as consequências. É considerada fundamental porque o organismo se comporta emitindo esta ou aquela resposta, sua ação produz uma alteração ambiental, uma consequência que, por sua vez, retroage sobre o sujeito, alterando a probabilidade futura de ocorrência. Assim, agimos ou operamos sobre o mundo em função das consequências criadas pela nossa ação. As consequências da resposta são as variáveis de controle mais relevantes. Pense no aprendizado de um instrumento: nós o tocamos para ouvir seu som harmonioso. Há outros exemplos: podemos dançar para estar próximo do corpo do outro, namorar uma garota para receber seu olhar, abrir uma janela para entrar luz, etc.
**Reforço**
Chamamos de reforço a toda consequência que, seguindo uma resposta, altera a probabilidade futura de ocorrência dessa resposta. O reforço pode ser positivo ou negativo.
* O reforço positivo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da resposta que o produz.
* O reforço negativo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da resposta que o remove ou atenua.
Assim, poderíamos voltar à nossa caixa de Skinner, que no experimento anterior oferecia uma gota de água ao ratinho sempre que encostasse na barra. Agora, ao ser colocado na caixa, ele recebe choques do assoalho. Após várias tentativas de evitar os choques, o ratinho chega à barra e, ao pressionar acidentalmente, os choques cessam. Com isso, as respostas de pressão à barra tenderão a aumentar de frequência. Chama-se de reforçamento negativo ao processo de fortalecimento dessa classe de respostas (pressão à barra).
**PG 46**
**Questões**
1. Qual a importância de se conhecer a história da Psicologia?
2. Quais as condições econômicas e sociais da Grécia antiga que propiciaram o início da reflexão sobre o homem?
3. Quais as contribuições fundamentais para a Psicologia, apresentadas nos textos de Sócrates, Platão e Aristóteles?
4. A hegemonia da Igreja na Idade Média: qual contribuição de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino para a concepção de Psicologia?
5. Qual período histórico situa a contribuição de Descartes para a Psicologia?
6. Quais as contribuições da fisiologia e da neurofisiologia para a Psicologia?
7. Qual o papel de Wundt na história da Psicologia?
8. Quais os critérios que a psicologia deveria satisfazer para adquirir o status de ciência?
9. O que caracteriza o funcionalismo, o associacionismo e o estruturalismo?
10. Quais as principais teorias em psicologia no século XX?
**Atividades em grupo**
1. Quais as diferenças entre a psicologia como ramo da filosofia e a psicologia científica?
2. Como a produção do conhecimento está relacionada com as condições materiais do momento histórico em que ela se dá? Exemplifique.
3. Construam uma linha do tempo e registrem nela os principais marcos da história da humanidade e os principais momentos da construção da Psicologia.
**PG 47**
**Bibliografia indicada**
A história da Psicologia é um tema que não apresenta obras adequadas aos alunos de ensino médio. Mesmo livros introdutórios como os de Fred S. Keller (*A Definição da Psicologia*, São Paulo: Herder, 1972) e de Anibal Rosenfeld (*O Pensamento Psicológico*, São Paulo: Perspectiva, 1984) destinam-se a leitores que tenham um mínimo de familiaridade com as questões da Psicologia. O primeiro trata da Psicologia a partir de sua fase científica até o behaviorismo e a Gestalt, excluindo a psicanálise. O segundo é mais denso e percorre os caminhos da Psicologia desde os filósofos pré-socráticos até a fase científica.
Uma bibliografia mais avançada é composta pelos livros de Antônio Gomes Pena (*Introdução à História da Psicologia Contemporânea*, Rio de Janeiro: A.A.R., 1980) e de Fernando Sim Miller (*História da Psicologia*, São Paulo: Na, 1978).
**PG 48**
**O Comportamento Respondente**
O comportamento reflexo ou respondente é o que usualmente chamamos de não voluntário e inclui as respostas que são eliciadas (produzidas) por estímulos antecedentes do ambiente. Como exemplo, podemos citar a contração das pupilas quando uma luz forte incide sobre os olhos, a salivação provocada por uma gota de limão colocada na ponta da língua, o arrepio da pele quando um ar frio nos atinge, as famosas lágrimas de cebola, etc. Esses comportamentos reflexos ou respondentes são interações estímulo-resposta (ambiente-sujeito) incondicionadas, nas quais certos eventos ambientais confiavelmente eliciam certas respostas do organismo, que independem de aprendizagem.
Mas interações desse tipo também podem ser provocadas por estímulos que originalmente não eliciavam respostas em determinado organismo. Quando tais estímulos são temporalmente pareados com estímulos eliciadores, podem, em certas condições, eliciar respostas semelhantes às destes. A essas novas interações chamamos também de reflexos, que agora são condicionados devido a uma história de pareamento, o qual levou o organismo a responder a estímulos que antes não respondia.
Para deixar isso mais claro, vamos a um exemplo. Suponha que numa sala aquecida, sua mão direita seja mergulhada numa vasilha de água gelada. A temperatura da mão cairá rapidamente devido ao encolhimento ou constrição dos vasos sanguíneos, caracterizando o comportamento como respondente. Esse comportamento será acompanhado de uma modificação semelhante e mais facilmente mensurável na mão esquerda, onde a vascularização também será induzida. Suponha agora que a sua mão direita seja mergulhada na água gelada um certo número de vezes em intervalos de três ou quatro minutos e que você ouça uma campainha pouco antes de cada imersão. Lá pelo vigésimo pareamento do som da campainha com a água fria, a mudança de temperatura nas mãos poderá ser eliciada apenas pelo som, isto é, sem necessidade de emergir uma das mãos.
*F. S. Keller. Aprendizagem: Teoria do Reforço. p. 13.*
Neste exemplo de condicionamento respondente, a queda da temperatura da mão eliciada pela água fria é uma resposta incondicionada, enquanto a queda da temperatura eliciada pelo som é uma resposta condicionada (aprendida). A água é um estímulo incondicionado e o som, um estímulo condicionado.
**PG 49**
No início dos anos 30, na Universidade de Harvard, Estados Unidos, Skinner começou o estudo do comportamento justamente pelo comportamento respondente, que se tornará a unidade básica de análise, ou seja, o fundamento para a descrição das interações indivíduo-ambiente. O desenvolvimento de seu trabalho levou a teorizar sobre um outro tipo de relação do indivíduo com seu ambiente, a qual viria a ser a nova unidade de análise de sua ciência: o comportamento operante. Esse tipo de comportamento caracteriza a maioria de nossas interações com o ambiente.
**O Comportamento Operante**
O comportamento operante abrange um leque amplo da atividade humana: dos comportamentos do bebê de balbuciar, de agarrar objetos e de olhar os enfeites do berço aos mais sofisticados apresentados pelo adulto, como nos diz Keller: "o comportamento operante inclui todos os movimentos de um organismo dos quais se possa dizer que em algum momento têm efeito sobre ou fazem algo ao mundo em redor. O comportamento operante opera sobre o mundo, por assim dizer, quer direta quer indiretamente."
*F. S. Keller. Op. cit., p. 10.*
A leitura que você está fazendo deste livro é um exemplo de comportamento operante, assim como escrever uma carta, chamar o táxi com um gesto de mão, tocar um instrumento, etc. Para exemplificarmos melhor os conceitos apresentados até aqui, vamos relembrar um conhecido experimento feito com ratos de laboratório. Vale informar-te: animais como ratos, pombos e macacos, para citar alguns, foram utilizados pelos analistas experimentais do comportamento, inclusive Skinner, para verificar como as variações do ambiente interferiam nos comportamentos. Tais experimentos permitiram-lhes fazer afirmações sobre o que chamaram de leis comportamentais.
Um ratinho, ao sentir sede em seu habitat, certamente manifesta algum comportamento que lhe permita satisfazer a sua necessidade orgânica. Esse comportamento foi por ele mantido pelo efeito proporcionado: saciar a sede. Assim, se deixarmos o
**PG 50**
ratinho privado de água durante 24 horas, certamente apresentará o comportamento de beber água no momento em que tiver sede. Sabendo disso, os pesquisadores da época decidiram simular esta estação em laboratório sob condições especiais de controle, o que os levou à formulação de uma lei comportamental.
Um ratinho foi colocado na caixa de Skinner, um recipiente fechado no qual encontrava apenas uma barra. Esta barra, ao ser pressionada por ele, acionava um mecanismo camuflado que lhe permitia obter uma gotinha de água que chegava à caixa por meio de uma pequena haste. Que resposta esperava-se do ratinho? Que ele viesse a pressionar a barra. Como isso ocorreu pela primeira vez por acaso, durante a exploração na caixa, o ratinho pressionou a barra acidentalmente, o que lhe trouxe pela primeira vez uma gotinha de água que, devido à sede, fora rapidamente consumida. Por ter obtido água ao encostar na barra quando sentia sede, constatou-se a alta probabilidade de que, estando em situação semelhante, o ratinho a pressionasse novamente.
Neste caso de comportamento operante, o que propicia a aprendizagem dos comportamentos é a ação do organismo sobre o meio e o efeito dela resultante: a satisfação de alguma necessidade. Ou seja, a aprendizagem está na relação entre uma ação e seu efeito. Este comportamento operante pode ser representado da seguinte maneira: R → S<sup>r</sup>, em que R é a resposta (pressionar a barra) e S<sup>r</sup> é o estímulo reforçador (a água). O ratinho, por acaso, pressiona a barra e recebe a gota d'água, iniciando-se o processo de aprendizagem. O estímulo reforçador (a água, que tanto interessa ao organismo) é chamado de reforço. A flecha significa "leva a". O termo estímulo foi mantido da relação S-R do comportamento respondente para designar a responsabilidade pela ação, apesar de ela ocorrer após a manifestação do comportamento.
O comportamento operante refere-se à interação sujeito-ambiente. Nessa interação, chama-se de relação fundamental a relação entre ação do indivíduo (a emissão da resposta) e as consequências. É considerada fundamental porque o organismo se comporta emitindo esta ou aquela resposta, sua ação produz uma alteração ambiental, uma consequência que, por sua vez, retroage sobre o sujeito, alterando a probabilidade futura de ocorrência. Assim, agimos ou operamos sobre o mundo em função das consequências criadas pela nossa ação. As consequências da resposta são as variáveis de controle mais relevantes. Pense no aprendizado de um instrumento: nós o tocamos para ouvir seu som harmonioso. Há outros exemplos: podemos dançar para estar próximo do corpo do outro, namorar uma garota para receber seu olhar, abrir uma janela para entrar luz, etc.
**Reforço**
Chamamos de reforço a toda consequência que, seguindo uma resposta, altera a probabilidade futura de ocorrência dessa resposta. O reforço pode ser positivo ou negativo.
* O reforço positivo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da resposta que o produz.
* O reforço negativo é todo evento que aumenta a probabilidade futura da resposta que o remove ou atenua.
Assim, poderíamos voltar à nossa caixa de Skinner, que no experimento anterior oferecia uma gota de água ao ratinho sempre que encostasse na barra. Agora, ao ser colocado na caixa, ele recebe choques do assoalho. Após várias tentativas de evitar os choques, o ratinho chega à barra e, ao pressionar acidentalmente, os choques cessam. Com isso, as respostas de pressão à barra tenderão a aumentar de frequência. Chama-se de reforçamento negativo ao processo de fortalecimento dessa classe de respostas (pressão à barra).
É a remoção de um estímulo aversivo. Controla a emissão da resposta. É condicionamento, por se tratar de aprendizagem. E também reforçamento, porque um comportamento é apresentado e aumentado em sua frequência ao alcançar o efeito desejado.
O reforçamento positivo oferece alguma coisa ao organismo, gotas de água com a pressão da barra, por exemplo. O negativo permite a retirada de algo indesejável, os choques do último exemplo. Não se pode, a priori, definir um evento como reforçador. A função reforçadora de um evento ambiental qualquer só é definida por sua função sobre o comportamento do indivíduo.
Entretanto, alguns eventos tendem a ser reforçadores para toda uma espécie, como, por exemplo, água, alimento e afeto. Esses são denominados reforços primários. Os reforços secundários, ao contrário, são aqueles que adquiriram a função quando pareados temporalmente com os primários. Alguns destes reforçadores secundários, quando emparelhados com muitos outros, tornam-se reforçadores generalizados, como dinheiro e aprovação social.
No reforçamento negativo, dois processos importantes merecem destaque: a esquiva e a fuga. A esquiva é um processo no qual os estímulos aversivos condicionados e incondicionados estão separados por um intervalo de tempo apreciável, permitindo que o indivíduo execute um comportamento que previna a ocorrência ou reduza a magnitude do segundo estímulo. Você, com certeza, sabe que o raio (primeiro estímulo) precede a trovoada (segundo estímulo), que o chiado precede ao estouro dos rojões, que o som do motorzinho usado pelo dentista precede à dor no dente. Estes estímulos são aversivos, mas os primeiros nos possibilitam evitar ou reduzir a magnitude dos seguintes. Ou seja, tapamos os ouvidos para evitar o estouro dos trovões ou desviamos o rosto da broca usada pelo dentista. Por que isso acontece? Quando os estímulos ocorrem nessa ordem, o primeiro torna-se um reforçador negativo condicionado (aprendido), e a ação que o reduz é reforçada pelo condicionamento operante. As ocorrências passadas de reforçadores negativos condicionados são responsáveis pela probabilidade da resposta de esquiva.
No processo de esquiva, após o estímulo condicionado, o indivíduo apresenta um comportamento que é reforçado pela necessidade de reduzir ou evitar o segundo estímulo, que também é aversivo. Ou seja, após a visão do raio, o indivíduo manifesta um comportamento (tapar os ouvidos) que é reforçado pela necessidade de reduzir o segundo estímulo (o barulho do trovão), igualmente aversivo.
Outro processo semelhante é o de fuga. Neste caso, o comportamento reforçado é aquele que termina com um estímulo aversivo já em andamento. A diferença é: se posso colocar as mãos nos ouvidos para não escutar o estrondo do rojão, este comportamento é de esquiva, pois estou evitando o segundo estímulo antes que ele aconteça. Mas se os rojões começam a pipocar e só depois apresento um comportamento para evitar o barulho que incomoda, seja fechando a porta, seja indo embora, ou mesmo tapando os ouvidos, pode-se falar em fuga. Ambos reduzem ou evitam os estímulos aversivos, mas em processos diferentes. Ao ouvirmos o som do motorzinho usado pelo dentista, antecipamos a dor. Desviar o rosto é esquivar-se dela. Diferente no caso da esquiva, há um estímulo condicionado que antecede o estímulo incondicionado e me possibilita a emissão do comportamento de esquiva. Uma esquiva bem-sucedida impede a ocorrência do estímulo incondicionado. No caso da fuga, só há um estímulo aversivo incondicionado que, quando apresentado, será evitado pelo comportamento de fuga. Neste segundo caso, não se evita o estímulo aversivo, mas se foge dele depois de iniciado.
Extinção. Outros processos foram sendo formulados pela análise experimental do comportamento. Um deles é o da extinção. A extinção é um procedimento no qual uma resposta deixa abruptamente de ser reforçada. Como consequência, a resposta diminuirá de frequência e até mesmo poderá deixar de ser emitida. O tempo necessário para que a resposta deixe de ser emitida dependerá da história e do valor do reforço envolvido. Assim, quando uma menina que estávamos paquerando deixa de nos olhar e passa a nos ignorar, nossas investidas tenderão a desaparecer.
Punição. A punição é outro procedimento importante que envolve a consequência de uma resposta quando a apresentação de um estímulo aversivo ou remoção de um reforçador positivo presente. Os dados de pesquisas mostram que a supressão do comportamento punido só é definitiva se a punição for extremamente intensa. Isto porque as razões que levaram à ação que se pune não são alteradas. Punição punir a ação leva à supressão temporária da resposta, sem, contudo, alterar a motivação.
Por causa de resultados como estes, os behavioristas têm debatido a validade do procedimento da punição como forma de reduzir a frequência de certas respostas. As práticas punitivas correntes na educação foram questionadas pelos behavioristas. Obrigava-se o aluno a ajoelhar-se no milho, a fazer inúmeras cópias de um mesmo texto, a receber reguadas, a ficar isolada, etc. Os behavioristas, respaldados por crítica feita por Skinner e outros autores, propuseram a substituição definitiva das práticas punitivas por procedimentos de instalação de comportamentos desejáveis.
Esse princípio pode ser aplicado no cotidiano e em todos os espaços em que se trabalhe para instalar comportamentos desejados. O trânsito é um excelente exemplo. Apesar das punições aplicadas a motoristas e pedestres na maior parte das infrações cometidas no trânsito, tais punições não os têm motivado a adotar um comportamento considerado adequado para o trânsito. Em vez de adotarem novos comportamentos, tornaram-se especialistas na esquiva e na fuga.
Controle de estímulos. Tem sido polêmica a discussão sobre a natureza ou o grau do controle que o ambiente exerce sobre nós, mas não há como negar que há algum controle. Assumir a existência desse controle e estudá-la permite maior entendimento dos meios pelos quais os estímulos agem. Assim, quando a frequência ou a forma da resposta é diferente sob estímulos diferentes, diz-se que o comportamento está sob o controle de estímulos. Se o motorista para ou acelera o ônibus no cruzamento de ruas, discriminação de estímulos, resposta diferenciada ao verde ou ao vermelho do semáforo, onde o semáforo que ora está verde, ora vermelho, sabemos que o comportamento de dirigir está sob o controle de estímulos.
Dois importantes processos devem ser apresentados: discriminação e generalização.
Discriminação. Diz-se que se desenvolveu uma discriminação de estímulos quando uma resposta se mantém na presença de um estímulo, mas sofre certo grau de extinção na presença de outro. Isto é, um estímulo adquire a possibilidade de ser conhecido como discriminativo da situação reforçadora. Sempre que ele for apresentado e a resposta emitida, haverá reforço. Assim, nosso motorista de ônibus vai parar o veículo quando o semáforo estiver vermelho. Ou melhor, esperamos que para ele o semáforo vermelho tenha se tornado um estímulo discriminativo para a emissão do comportamento de parar. Poderíamos refletir também sobre o aprendizado social, por exemplo. Existem normas e regras de conduta para festas: cumprimentar os presentes, ser gentil, procurar manter diálogo com as pessoas e elogiar a dona da casa, etc. No entanto, as festas podem ser diferentes, informais ou pomposas, dependendo de como interpretamos esses diferentes estímulos e de como nos comportamos.
Generalização. Na generalização de estímulos, um estímulo adquire controle sobre uma resposta devido ao reforço na presença de um estímulo similar, mas diferente. Frequentemente, a generalização depende de elementos comuns a dois ou mais estímulos. Poderíamos aqui brincar com as cores do semáforo: se fossem rosa e vermelho, correríamos o risco dos motoristas acelerarem seus veículos no semáforo vermelho, pois poderiam generalizar os estímulos. Mas isso não acontece com o verde e o vermelho, que são cores muito distintas e, além disso, estão situadas em extremidades opostas do semáforo. O vermelho maior e o verde maior permitem estímulos na generalização.
Portanto, respondemos de forma similar a um conjunto de estímulos percebidos como semelhantes. Esse princípio da generalização é fundamental quando pensamos na aprendizagem escolar. Nós aprendemos na escola alguns conceitos básicos, como fazer contas e escrever. Graças à generalização, podemos transferir esses aprendizados para diferentes situações, como dar ou receber troco, escrever uma carta para a namorada distante, aplicar conceitos da física para consertar aparelhos eletrodomésticos, etc. Na vida cotidiana também aprendemos a nos comportar em diferentes situações sociais, dada a nossa capacidade de generalização no aprendizado de regras e normas sociais.
Behaviorismo: sua aplicação. Uma área de aplicação dos conceitos apresentados tem sido a educação (veja Capítulo 17). São conhecidos os métodos de ensino programado, o controle e a organização das situações de aprendizagem, bem como a elaboração de uma tecnologia de ensino. Entretanto, outras áreas também têm recebido a contribuição das técnicas e conceitos desenvolvidos pelo behaviorismo, como a de treinamento de empresas, a clínica psicológica, o trabalho educativo de crianças excepcionais, a publicidade e outras mais. No Brasil, talvez a área clínica seja hoje a que mais utiliza os conhecimentos do behaviorismo.
Na verdade, a análise experimental do comportamento pode nos auxiliar a descrever nossos comportamentos em qualquer situação, ajudando-nos a modificá-los.
Texto complementar: O eu e os outros numa análise comportamental. Uma pessoa é um organismo, um membro da espécie humana que adquiriu um repertório de comportamento. Uma pessoa não é um agente que origina; é um lugar, um ponto em que múltiplas condições genéticas e ambientais se reúnem num efeito conjunto. Como tal, ela permanece indiscutivelmente única. Ninguém mais, a menos que tenha um gêmeo idêntico, possui sua dotação genética e, sem exceção, ninguém mais tem sua história pessoal. Daí se segue que ninguém mais se comportará precisamente da mesma maneira.
Uma pessoa controla a outra no sentido de que se controla a si mesma. Ela não o faz modificando sentimentos ou estados mentais. Dizia-se que os deuses gregos mudavam o comportamento infundindo em homens e mulheres estados mentais como orgulho, confusão mental ou coragem, mas desde então ninguém mais teve êxito nisso. Uma pessoa modifica o comportamento de outra mudando o mundo em que esta vive. As pessoas aprendem a controlar os outros com muita facilidade. Um bebê, por exemplo, desenvolve certos métodos de controlar os pais quando se comporta de maneiras que levam a certos tipos de ação. As crianças adquirem técnicas de controlar seus companheiros e se tornam hábeis nisso muito antes de conseguirem controlar-se a si mesmas.
A primeira educação que recebem no sentido de modificar seus próprios sentimentos ou estados (introspectivamente observados) pelo exercício da força de vontade ou pela alteração do seu estado emotivo e motivacional não é muito eficaz. O autocontrole, que começa a ser ensinado sob a forma de provérbios, máximas e procedimentos empíricos, é uma questão de mudar o ambiente. O controle de outras pessoas, aprendido desde muito cedo, vem por fim a ser usado no autocontrole. Eventualmente, uma tecnologia comportamental bem desenvolvida conduz a um autocontrole capaz.
A questão do controle. Uma análise científica do comportamento deve, creio eu, supor que o comportamento de uma pessoa é controlado mais por sua história genética e ambiental do que pela própria pessoa enquanto agente criador iniciador. Todavia, nenhum outro aspecto da posição behaviorista suscitou objeções mais violentas. Não podemos, evidentemente, provar que o comportamento humano como um todo seja inteiramente determinado, mas a proposição torna-se mais plausível à medida que os fatos se acumulam, e creio que chegamos a um ponto em que suas implicações devem ser consideradas a sério.
Subestimamos, amiúde, o fato de que o comportamento humano é também uma forma de controle. Que um organismo deva agir para controlar o mundo a seu redor é uma característica da vida, tanto quanto a respiração ou a reprodução. Uma pessoa age sobre o meio e aquilo que obtém é essencial para sua sobrevivência e para a sobrevivência da espécie. A ciência e a tecnologia são simplesmente manifestações desse traço essencial do comportamento humano. A compreensão, a previsão e a explicação, bem como as aplicações tecnológicas, exemplificam o controle da natureza. Elas não expressam uma atitude de dominação ou uma filosofia. São os processos inevitáveis de certos processos de comportamento. Sem dúvida, cometemos erros; descobrimos, talvez rápido demais, meios cada vez mais eficazes de mudar nosso mundo e nem sempre os usamos sensatamente. Mas não podemos deixar de controlar a natureza, assim como não podemos deixar de respirar ou de digerir o que comemos.
O controle não é uma fase passageira. Nenhum místico ou asceta deixou jamais de controlar o mundo em seu redor. Controla-o para controlar-se a si mesmo. Não podemos escolher um gênero de vida no qual não haja controle; podemos tão só mudar as condições controladoras.
Contracontrole. Órgãos ou instituições organizados, tais como governos, religiões e sistemas econômicos, em grau menor, educadores e psicoterapeutas, exercem um controle poderoso e muitas vezes molesto. Tal controle é exercido de maneiras que reforçam de forma muito eficaz aqueles que o exercem. Infelizmente, isto, via de regra, significa maneiras que são ou imediatamente adversativas para aqueles que são controlados ou os exploram a longo prazo. Os que são assim controlados passam a agir, escapam ao controle pondo-se fora de seu alcance (se for uma pessoa, desiste de um governo; aposta de uma religião, demitindo-se ou mandriando) ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador (como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil). Em outras palavras, ele se opõe ao controle com contracontrole.
BF Skinner sobre o behaviorismo.
Maria da Penha Vila Lobos. São Paulo: Cultrix/Editora da Universidade de São Paulo, 1982. P. 145-164.
Questões:
1. Quem é o fundador do behaviorismo e quais as diferentes denominações dessa tendência teórica?
2. Para os behavioristas, qual é o objeto da psicologia e como é caracterizado?
3. Como o homem é estudado pelo behaviorismo?
4. Qual o mais importante teórico do behaviorismo?
5. O que é comportamento reflexo ou respondente? Dê exemplos.
6. Como o comportamento respondente pode ser condicionado? Dê exemplo.
7. O que é comportamento operante? Dê exemplos.
8. Como se condiciona o comportamento operante? Dê exemplo.
9. O que é reforço? O que é reforço negativo e positivo? Dê um exemplo para cada caso.
10. Explique os processos de esquiva e fuga com os reforçamentos negativos.
11. O que é extinção e punição? Dê um exemplo para cada caso.
12. O que é generalização e discriminação? Dê exemplos.
Atividades em grupo:
1. A partir do capítulo estudado e do texto complementar apresentado, discutam:
a. Como a análise comportamental vê o homem/a pessoa?
b. Pela proposta da análise comportamental, o que é preciso fazer para se conhecer e para conhecer os outros?
c. Como se dá a questão do controle e do contracontrole dos comportamentos?
2. Escolha uma situação social cotidiana e, a partir da perspectiva do behaviorismo, procure entender o que está acontecendo com o comportamento das pessoas, esforçando-se em conhecer as contingências ambientais que as levam a se comportarem daquela maneira.
3. Assistam ao filme "O Show de Truman" e debatam sobre o controle social do comportamento. Somos mais livres do que Truman? Nossa vida é menos controlada do que a dele?
P. 57
Bibliografia:
Para o aluno:
Sobre a análise do comportamento, existe um ótimo livro para principiantes que utiliza o método de instrução programada para ensinar os principais conceitos da teoria. Trata-se de "Análise do Comportamento" de J. G. Rolland e B. F. Skinner. São Paulo: Herder/USP, 1969. Um outro livro introdutório, entretanto mais complexo que o primeiro, é o de Fred Keller, "Aprendizagem: Teoria do Reforço". São Paulo: EPU, 1973. Muito interessante para o jovem é a leitura do livro de ficção científica de B. F. Skinner, "Walden I: Uma Sociedade do Futuro". São Paulo: Herder/USP, 1972, onde o autor, a partir da concepção da análise experimental do comportamento, apresenta sua visão utópica sobre um mundo onde as contingências estariam todas controladas.
Para o professor:
Indicamos dois livros que podem ajudar a aprofundar a compreensão dos conceitos: "Princípios Elementares do Comportamento" de D. L. Vale e R. W. Malot. São Paulo: U, 1980, e "Princípios de Psicologia" de F. S. Keller e W. N. Schoenfeld. São Paulo: Herder/USP, 1970. Sem dúvida, os livros mais interessantes são os do próprio Skinner, pois além dos conceitos, o autor desenvolve reflexões sobre o controle, o papel da ciência, o mundo interno do indivíduo. Indicamos "Ciência e Comportamento Humano" de B. F. Skinner. Brasília: Universidade de Brasília/São Paulo: FC, 1970. Na Seção I, apresenta a discussão sobre a possibilidade de a ciência ajudar na resolução de problemas que a sociedade enfrenta; na Seção II, os principais conceitos; na Seção III, o indivíduo como um todo; na Seção IV, o comportamento das pessoas em grupo; na Seção V, as agências controladoras do comportamento; e na última, a discussão sobre o controle. E o livro "O Behaviorismo" de B. F. Skinner. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1982, em que o autor retoma a questão do mundo interior do indivíduo, a questão do controle, apresenta discussões e análise sobre alguns comportamentos como perceber, falar, pensar, conhecer. O livro "Questões Recentes na Análise do Comportamento" contém artigos de Skinner em seus últimos 20 anos de trabalho. A vantagem deste livro é sua atualidade. Consulte também o livro "Coerção e suas Implicações" de Murray Sidman. Campinas: Editorial Psy, 1995.
Filmes indicados:
* "Meu Tio da América", direção Alan Resnais. França, 1980. O filme apresenta a relação entre a tese de um biólogo comportamentalista e o conflito vivido por pessoas de diferentes níveis sociais.
* "Laranja Mecânica", direção Stanley Kubrick. Inglaterra, 1971. O líder de um bando de jovens delinquentes é preso e sofre um processo que visa a eliminação de sua conduta violenta. O filme permite uma discussão sobre o caráter ético dos limites do Estado no controle da conduta dos cidadãos.
P. 58
Capítulo 4: A Gestalt: a psicologia da forma.
A psicologia da Gestalt é uma das tendências teóricas mais coerentes e coesas da história da Psicologia. Seus articuladores preocuparam-se em construir não só uma teoria consistente, mas também uma base metodológica forte que garantisse a consistência teórica. Gestalt é um termo alemão de difícil tradução. O termo mais próximo em português seria "forma" ou "configuração", que não é utilizado por não corresponder exatamente ao seu real significado em psicologia.
Como vimos no capítulo do final do século passado, estudiosos procuravam compreender o fenômeno psicológico em seus aspectos naturais, principalmente no sentido da mensurabilidade. A psicofísica estava em voga. Ernest Mach (1838-1916), físico, e Christian von Ehrenfels (1859-1932), filósofo e psicólogo, desenvolviam uma psicofísica com estudos sobre sensações. O dado psicológico de espaço, forma e tempo, forma o dado físico, e podem ser considerados como os mais diretos antecessores da psicologia da Gestalt.
Max Wertheimer (1880-1943), Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1941), baseados nos estudos psicofísicos que relacionaram a forma e sua percepção, construíram a base de uma teoria eminentemente psicológica. Eles iniciaram seus estudos pela percepção e sensação do movimento. Gestaltistas estavam preocupados em compreender quais os processos psicológicos envolvidos na ilusão de ótica, quando o estímulo físico é percebido pelo sujeito como uma forma diferente da que ele tem na realidade.
É o caso do cinema. Quem já viu uma fita cinematográfica sabe que ela é composta de fotogramas estáticos. O movimento que vemos na tela é uma ilusão de ótica causada pela pós-imagem retiniana. A imagem demora um pouco para se apagar em nossa retina. Como as imagens vão se sobrepondo em nossa retina, temos a sensação de movimento. Mas o que de fato está na tela é uma fotografia estática.
A percepção é o ponto de partida e também um dos temas centrais dessa teoria. Os experimentos com a percepção levaram os teóricos da Gestalt a questionarem um princípio implícito na teoria behaviorista, que é a relação de causa e efeito entre o estímulo e a resposta. Pois, para os gestaltistas, entre o estímulo que o meio fornece e a resposta do indivíduo, encontra-se o processo de percepção. O que o indivíduo percebe e como percebe são dados importantes para a compreensão do comportamento humano.
O confronto Gestalt-behaviorismo pode ser resumido na posição que cada uma das teorias assume diante do objeto da Psicologia: o comportamento. Pois, tanto a Gestalt quanto o behaviorismo definem a psicologia como a ciência que estuda o comportamento. O behaviorismo, dentro de sua preocupação com a objetividade, estuda o comportamento através da relação estímulo-resposta, procurando isolar o estímulo que corresponderia à resposta esperada e desprezando os conteúdos de consciência pela impossibilidade de controlar cientificamente essas variáveis. A Gestalt irá criticar essa abordagem por considerar que o comportamento, quando estudado de maneira isolada de um contexto mais amplo, pode perder seu significado e seu entendimento.
Para o psicólogo, na visão dos gestaltistas, o comportamento deveria ser estudado nos seus aspectos mais globais, levando em consideração as condições que alteram a percepção do estímulo. Para justificar essa postura, eles se baseavam na teoria do isomorfismo, que supunha uma unidade no universo onde a parte está sempre relacionada ao todo. Quando eu vejo uma parte de um objeto, ocorre uma tendência à restauração do equilíbrio da forma, garantindo o entendimento do que estou percebendo. Esse fenômeno da percepção é norteado pela busca de fechamento, simetria e regularidade dos pontos que compõem uma figura/objeto.
Rudolf Arnheim dá um bom exemplo da tendência à restauração do equilíbrio na relação parte-todo: "De que modo o sentido da visão se apodera da forma? Nenhuma pessoa dotada de um sistema nervoso perfeito apreende a forma alinhavando os retalhos da cópia de suas partes. O sentido normal da visão apreende um padrão global." (Arnheim, R. Arte e Percepção Visual: uma psicologia da visão criadora. P. 447).
Os fenômenos deste tipo encontram sua explicação naquilo que os psicólogos da Gestalt descrevem como a lei básica da percepção visual: "Qualquer padrão de estímulo tende a ser visto de tal modo que a estrutura resultante é tão simples quanto as condições dadas permitem." Nós percebemos a figura como um quadrado e não como uma figura inclinada ou um perfil (figura 2), apesar de essas últimas também conterem os quatro pontos. Se forem acrescentados mais quatro pontos à figura 1, o padrão muda e perceberemos um círculo (figura 3). Na figura 4, é possível ver círculos brancos ou quadrados no centro das cruzes, mesmo não havendo vestígio de seus contornos.
A boa forma. A Gestalt encontra nesses fenômenos da percepção as condições para a compreensão do comportamento humano. A maneira como percebemos um determinado estímulo irá desencadear nosso comportamento.
Muitas vezes, os nossos comportamentos guardam relação estreita com os estímulos físicos e, outras, eles são completamente diferentes do esperado porque entendemos o ambiente de uma maneira diferente da sua realidade. Quantas vezes já nos aconteceu de cumprimentarmos a...
Os fenômenos deste tipo encontram sua explicação naquilo que os psicólogos da Gestalt descrevem como a lei básica da percepção visual: "Qualquer padrão de estímulo tende a ser visto de tal modo que a estrutura resultante é tão simples quanto as condições dadas permitem."
Distância, uma pessoa conhecida e, ao chegarmos mais perto, depararmos com um atônito desconhecido. Um erro de percepção nos levou ao comportamento de cumprimentar o desconhecido. Ora, ocorre que, no momento em que confundimos a pessoa, estávamos de fato cumprimentando nosso amigo. Esta pequena confusão demonstra que a nossa percepção do estímulo (a pessoa desconhecida) naquelas condições ambientais dadas é mediada pela forma como interpretamos o conteúdo percebido. Se os elementos percebidos não há equilíbrio, simetria, estabilidade, simplicidade, não alcançaremos a boa forma. O elemento que objetivamos compreender deve ser apresentado em aspectos básicos que permitam a sua decodificação, ou seja, a percepção da boa forma.
O exemplo da figura C ilustra a noção de boa forma. Geralmente percebemos o segmento de reta A maior que o segmento de reta B, mas na realidade, isso é uma ilusão de ótica, já que ambos são idênticos. A maneira como se distribuem os elementos que compõem as duas figuras não apresenta equilíbrio, simetria, estabilidade, simplicidade suficientes para garantir a boa forma, isto é, para superar a ilusão de ótica. A tendência da nossa percepção em buscar a boa forma permitirá a relação figura-fundo. Quanto mais clara a forma (boa forma), mais clara será a separação entre a figura e o fundo. Quando isso não ocorre, torna-se difícil distinguir o que é...
Dois perfis (fig. 6 ambígua) não oferecem figura-fundo, figura e o que é fundo, como da seis. Nessa figura, fundo e figura substituem-se, dependendo da percepção de quem os olha. Faça o teste: é possível ver a taça e os perfis ao mesmo tempo.
Meio geográfico e meio comportamental. O comportamento é determinado pela percepção do estímulo e, portanto, estará submetido à lei da boa forma. O conjunto de estímulos determinantes do comportamento (lembre-se da visão global dos gestaltistas) é denominado meio ou meio ambiental. São conhecidos dois tipos de meio: o geográfico e o comportamental. O meio geográfico é o meio enquanto tal, o meio físico em termos objetivos. O meio comportamental é o meio resultante da interação do indivíduo com o meio físico, implica a interpretação desse meio através das forças que regem a percepção (equilíbrio, simetria, estabilidade, simplicidade).
No exemplo, a pessoa que cumprimenta um desconhecido: esse deveria ser o dado percebido. Se só tivéssemos acesso ao meio geográfico, ocorre que, no momento em que vimos a pessoa, a situação (encontro casual no trânsito em movimento, por exemplo) levou-nos a uma interpretação diferente da realidade e acabamos por confundi-la com uma pessoa conhecida. Esta particular interpretação do meio, onde o que percebemos agora é uma subjetivação da mente, é o meio comportamental. Naturalmente, do meio geográfico, entre o exemplo visto e a tendência a estabelecer a unidade das semelhanças entre as duas pessoas mais que as suas diferenças, essa tendência a juntá-los é o que a Gestalt denomina de força do campo psicológico.
Campo psicológico. O campo psicológico é entendido como um campo de força que nos leva a procurar a boa forma. Funciona figurativamente como um campo eletromagnético criado por um ímã: a força de atração e repulsão. Esse campo de força psicológico tem uma tendência que garante a busca da melhor forma possível em situações que não estão muito estruturadas.
Esse processo ocorre de acordo com os seguintes princípios:
1. Proximidade: Os elementos mais próximos tendem a ser agrupados. Vemos três colunas e não três linhas na figura 2.
2. Semelhança: Os elementos semelhantes são agrupados. Vemos três linhas e não quatro colunas.
3. Fechamento: Ocorre uma tendência de completar os elementos faltantes da figura para garantir sua compreensão. Vemos um triângulo e não alguns traços.
Insight. A psicologia da Gestalt, diferentemente do associacionismo (capítulo 2), vê a aprendizagem como a relação entre o todo e a parte, onde o todo tem papel fundamental na compreensão do objeto percebido. Enquanto as teorias de SR (associacionismo, behaviorismo) acreditam que aprendemos estabelecendo relações dos objetos mais simples para os mais complexos, exemplificando, é possível a uma criança de 3 anos que não sabe ler distinguir a logomarca de um refrigerante e nomeá-lo corretamente. Ela separou a palavra na sua totalidade, distinguindo a figura (palavra) e o fundo (figura 7). No caso, a criança não aprendeu a ler a palavra juntando as letras como nos ensinaram, mas dando significação ao todo.
Nem sempre as situações vividas por nós apresentam-se de forma tão clara que permita sua percepção imediata. Essas situações dificultam o processo de aprendizagem porque não permitem uma clara definição da figura-fundo, impedindo a relação parte-todo. Acontece, às vezes, de estarmos olhando para uma figura que não tem sentido para nós; de repente, sem que tenhamos feito nenhum esforço especial para isso, a relação figura-fundo elucida-se. A esse fenômeno a Gestalt dá o nome de Insight. O termo designa uma compreensão imediata, enquanto uma espécie de entendimento interno.
A teoria de campo de Kurt Lewin. Kurt Lewin (1890-1947) trabalhou durante 10 anos com Wertheimer, Koffka e Köhler na Universidade de Berlim e dessa colaboração com os pioneiros da Gestalt nasceu a sua Teoria de Campo. Entretanto, não podemos considerar Lewin como um gestaltista, já que ele acaba seguindo um outro rumo. Lewin parte da teoria da Gestalt para construir um conhecimento novo e genuíno. Ele abandona a preocupação psicofisiológica (limiares de percepção) para buscar na física as bases metodológicas de sua psicologia.
O principal conceito de Lewin é o do Espaço Vital, que ele define como a totalidade dos fatos que determinam o comportamento do indivíduo num certo momento. O que Lewin concebeu como Campo Psicológico foi o espaço de vida considerado dinamicamente, onde se levam em conta não somente o indivíduo e o meio, mas também a totalidade dos fatos coexistentes e mutuamente interdependentes. Segundo Garcia Rosa, o campo não deve, porém, ser compreendido como uma realidade física, mas sim fenomênica. Não são apenas os fatos físicos que produzem efeitos sobre o comportamento; o campo deve ser representado tal como ele existe para o indivíduo em questão num determinado momento e não como ele em si. Para a constituição desse campo, as amizades, os objetivos conscientes e inconscientes, os sonhos e os medos são tão essenciais como qualquer ambiente físico.
A realidade fenomênica em Lewin pode ser compreendida como o meio comportamental da Gestalt, ou seja, a maneira particular como o indivíduo interpreta uma determinada situação. Entretanto, para Lewin, esse conceito não está se referindo apenas à percepção enquanto fenômeno fisiológico, mas também a características de...
... Rosa, Psicologia Estrutural em Kurt Lewin, p. 45.
... C. T. Lewin, Behavior and Development as a Function of a Total Situation, in Michael (ed.), Handbook of Child Psychology, p. 45.
... Garcia Rosa, op. cit., p. 136.
Como exemplo de Campo Psicológico e Espaço Vital, contaremos um breve encontro: um rapaz, ao chegar à sua casa, surpreende os pais no final de uma conversa e escuta o seguinte: "Ele chegou. É melhor não falarmos disso agora." Ele entende que os pais conversavam sobre algo sério de que ele não tinha conhecimento. Resolve não comentar sobre o assunto. Depois, novamente encontra seus pais na sala. Dois homens inteiros, escuros. Imediatamente associa os homens ao final da conversa escutada e entende que eles, de alguma forma, estariam relacionados às preocupações dos pais. Ocorre que a conversa referia-se a uma surpresa que os pais preparavam para o seu aniversário e os dois homens eram antigos colegas de faculdade de seu pai, que aproveitavam a passagem pela cidade para fazer uma visita ao colega que há tanto tempo não viam.
Nessa história, o campo psicológico é representado pelas linhas de força, como no campo da eletromagnética, que atraem a percepção e lhe dão significado. O rapaz interpretou a situação pelo seu aspecto fenomênico e não pelo que ocorria de fato. A sua interpretação ganhou consistência com a visita de duas pessoas que ele não conhecia e, nesse sentido, as linhas de força estavam fazendo um corte no tempo. Isso foi possível porque o rapaz havia memorizado a situação anterior a ela, associada à seguinte. A partir da experiência anterior, a cena ganhou significado. O Espaço Vital esteve representado pela situação mais imediata que determinou o comportamento: foi o caso do rapaz quando surpreendeu os pais conversando e procurou fingir que nada havia escutado, ou a surpresa ao encontrar aqueles homens na sua casa. O entendimento desse Espaço Vital depende diretamente do Campo Psicológico.
Como Lewin considerava que o comportamento deve ser visto em sua totalidade, não demorou muito para chegar ao conceito de grupo. Praticamente todos os momentos de nossas vidas se dão no interior de grupos. Segundo Lewin, a característica essencialmente definidora do grupo é a interdependência de seus membros. Isto significa que o grupo, para ele, não é a soma das características de seus membros, mas algo novo, resultante dos processos que ali ocorrem. Assim, a mudança de um membro no grupo pode alterar completamente a dinâmica deste. Lewin deu muita ênfase ao pequeno grupo por considerar que a psicologia ainda não possui instrumental suficiente para o estudo de grandes massas. Transportando a noção de Campo Psicológico para a psicologia social, Lewin criou o conceito de Campo Social, formado pelo grupo e seu ambiente. Outra característica do grupo: uma atmosfera autocrática, democrática, irá determinar o desempenho do grupo. Veja um minucioso trabalho de Lewin pesquisou a dinâmica de grupo e foi, sem dúvida, um dos pioneiros mais contundentes para a psicologia, contribuições que estão presentes até hoje, embasando as teorias e as técnicas de trabalho com os grupos.
Texto complementar: Chaves da Vaguidão. Era um bar da moda naquele tempo em Copacabana e eu tomava meu whisky em companhia de uma amiga. O garçom que nos servia, meu velho conhecido, H. "Horas tantas", se aproximou: "Não leve a mal, eu sair agora que está na minha hora, mas o meu colega ali continuará atendendo o senhor." Ele se afastou e eu voltei ao meu estado de vaguidão habitual. Alguns minutos mais tarde, vejo diante de mim alguém que me cumprimentava cerimoniosamente com um movimento de cabeça: "Boa noite, Doutor Sabino." Era um senhor careca, de óculos, num terno preto de corte meio antigo. Sua fisionomia me era familiar e, embora não o identificasse assim à primeira vista, vi logo que devia se tratar de algum advogado ou mesmo desembargador de minhas relações do meu tempo de escrivão. Naturalmente, disfarcei como pude o fato de não estar me lembrando de seu nome e me ergui, estendendo-lhe a mão: "Boa noite, como vai o senhor? Há quanto tempo! Não quer sentar-se um pouco?" Ele vacilou um instante, mas impelido pelo calor de minha acolhida, acabou aceitando. Sentou-se meio constrangido na ponta da cadeira e ali ficou, erecto, como se fosse erguer-se de uma para outra. Ao observá-lo assim de perto, de repente, deixei cair o queixo: "Saiu agora, Dr. Sabino?" Minha amiga ali ao lado, também boquiaberta, devia estar achando que eu ficara maluco, pois o meu desembargador não era outro senão o próprio garçom, e meu velho conhecido, que nos servira durante toda a noite, e que havia apenas trocado de roupa para sair.
Fernando Sabino. A falta que ela me faz. Quarta edição. Rio de Janeiro: Record, 1980. P. 143-144.
P. 67
Questões:
1. Qual o ponto de partida da teoria da Gestalt?
2. Qual a crítica que a Gestalt faz ao behaviorismo?
3. Qual a importância da percepção do estímulo para a compreensão do comportamento humano na teoria da Gestalt?
4. Cite um exemplo que mostre uma percepção do ambiente diferente de sua realidade física.
5. O que é necessário para alcançarmos a boa forma?
6. Qual a importância da relação figura-fundo na percepção?
7. Como é denominado o conjunto de estímulos determinantes do comportamento?
8. Explique através de um exemplo o meio geográfico e o meio comportamental.
9. O que é campo psicológico?
10. Quais princípios regem o campo psicológico na busca da boa forma?
11. O que é Insight? Dê um exemplo.
12. Na teoria de Lewin, explique os conceitos de Espaço Vital e Campo Psicológico. Segundo Lewin, qual a característica definidora do grupo?
Atividades em grupo:
1. Discutam a importância da percepção na compreensão do comportamento humano que a teoria da Gestalt propõe.
2. A partir do texto complementar, imagine que você e seus colegas foram detetives durante uma caminhada. Ao retornarem para a classe, cada um deverá escrever um relato sobre o que observou. Em seguida, comparem os relatos e suas possíveis explicações, a partir de conceitos como suspense, por exemplo. Relatem as diferentes hipóteses sobre quem é o assassino.
3. Assistam ao filme "Rashomon" e debatam sobre as diferentes percepções da realidade e como elas influenciam o comportamento humano.
P. 68
Bibliografia indicada:
Para o aluno:
Sobre a teoria da Gestalt, os textos mais acessíveis são encontrados em manuais de história da Psicologia. Os mais indicados são os livros "A Definição da Psicologia" de Fred Keller. São Paulo: Herder, 1972, e "O Pensamento Psicológico" de Anatol Rosenfeld. São Paulo: Perspectiva, 1984.
Para o professor:
Para uma leitura mais avançada, sugerimos um clássico da literatura dessa corrente, escrito por um de seus fundadores: Wolfgang Köhler, "Psicologia da Gestalt". Belo Horizonte: Itatiaia, 1968. Ainda um livro denso, recomendável para quem pretenda uma verdadeira viagem pela Gestalt, também escrito por um de seus fundadores: Kurt Koffka, "Psicologia da Gestalt". São Paulo: Cultrix/USP, 1975.
Como a Gestalt trabalha muito com a questão da forma, ela acaba por influenciar os teóricos das artes visuais. Um bom exemplo é o livro de Rudolf Arnheim, "Arte e Percepção Visual: uma psicologia da visão criadora". São Paulo: Pioneira/Edusp, 1980.
Temos também a psicologia de Kurt Lewin, que também só é encontrada em textos mais avançados. Indicamos os livros de Luís Garcia Rosa, "Psicologia Estrutural em Kurt Lewin". Petrópolis: Vozes, 1972; o de Kurt Lewin, "Princípios de Psicologia Topológica". São Paulo: Cult/USP, 1973; e ainda do mesmo autor, "Problemas de Dinâmica de Grupo". São Paulo: Cultrix, 1978.
Filmes indicados:
* "Vida de Solteiro", direção Cameron Crowe. Estados Unidos, 1992. O filme trata de relações pessoais, conflitos, encontros e confusões gerados pela significação que cada pessoa atribui aos fatos vividos. O professor poderá aproveitar exatamente esse aspecto para trabalhar as noções de Espaço Vital, realidade fenomênica e Campo Psicológico.
* "Rashomon", direção Akira Kurosawa. Japão, 1950. No Japão medieval, um bandido violento mata uma mulher. Quatro pessoas testemunham o crime, mas cada uma delas dá uma visão diferente do crime.
P. 69