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Quem foi Clarice? – Os 100 anos de Clarice Lispector

Antofágica17:41

Transcription

E o adulto é sempre solitário? É uma pergunta triste.

Solitário em quê? A criança e a caroço têm a fantasia. Um solta. A partir deste momento, de acordo com a escritora, o ser humano vai se transformando em triste e solitário.

"Na massa, segredo. Me desculpa, não vou responder." Ela deu poucas entrevistas, e essa para a TV Cultura em 1977 é preenchida mais por silêncios do que palavras, que ela sabia muito bem, não dão conta de transmitir tudo aquilo que se deseja.

"Fazer um solitário não tem muito amigos. Ah, e só tô triste hoje porque eu tô cansada." Vou gerar os alegres. É só literatura. Causa espanto e estranhamento, assombro. Uma mesma frase pode produzir no leitor atração e repulsão. A sua figura é magnética.

E hoje em dia, ela tem uma verdadeira legião de fãs. Exatamente hoje, dia 10 de dezembro, Clarice Lispector completaria 100 anos. E é claro que eu não podia deixar de fazer um vídeo sobre ela. Mas nem se aqueles recados básicos que eu vou até falar rápido para a gente não gastar muito tempo: se inscreve no nosso canal, dá o joinha e ativa o sininho de notificação para saber que eu não tem vídeo novo. Desse jeito, você ajuda a gente e a gente te ajuda, podendo trazer mais conteúdo.

E ela é uma autora imensa. E no vídeo de hoje, eu vou explorar quem foi Clarice Lispector e por que a sua literatura foge dos rótulos. É claro que essa é uma pergunta imensa e eu não tenho como responder ela por inteiro. Ai, ai, eu me pergunto se alguém tem. Acho que não. Eu vou me aproximar aos poucos do universo de Clarice Lispector, contando principalmente com a minha experiência como leitora e com o apoio de alguns dos principais biógrafos e pesquisadores da autora.

Você já deve ter passado pela situação de ler um conto ou romance da Clarice e pensar: "Isso aqui é muito estranho". E é isso mesmo. A sua literatura causa estranhamento. A gente considera estranho aquilo que não se encaixa exatamente nos nossos padrões de normalidade. Uma pessoa que a gente julga estranha é alguém que a gente não consegue entender os hábitos, comportamentos e ideias. Aquilo que está fora das nossas convenções costuma ser estranho.

Eu sugiro: Clarice Lispector se sentia ela própria estranha. Ela não se percebia completamente pertencente ao mundo. Esse estranhamento pode ser sentido nos seus textos. Para entender porque ela sentia esse estranhamento na sua própria vida, a gente precisa recuar até o seu nascimento. Ela nasceu na Ucrânia, na pequena cidade de Tchetchelnik. Sua família judia fugiu da perseguição aos judeus. Só que a família não morava nessa cidade, eles estavam em trânsito. E essa ideia de que Clarice nasceu em deslocamento, fora de um lugar fixo, é uma chave para entender a sua obra. Personagens fora de seus lugares aparecem muito nos contos e romances de Clarice Lispector. E Macabéa é a protagonista da Hora da Estrela, é só personagem fora do lugar mais famosa.

Bom, a família ficou em dúvida se ia para os Estados Unidos ou para o Brasil e acabou parando na cidade de Maceió, em Alagoas. Depois, eles vão dar um pulo em Pernambuco, e foi lá que Clarice Lispector fez os seus primeiros estudos e aprendeu o inglês e francês. Em casa, ela conversava em iídiche, uma língua falada pelos judeus, que é uma espécie de mistura de vários idiomas. Depois que a sua mãe morre, a família vai para o Rio de Janeiro, onde ela entra na faculdade de direito. Em 1939, ela mesmo conta que quando criança era muito defensora dos direitos e por isso mesmo todo mundo a sua volta tinha certeza que ela seria advogada.

Entrou na universidade de direito querendo reformar as penitenciárias femininas e só por isso já dá para perceber como ela estava à frente do seu tempo. O fato é que ela nunca exerceu o direito. Na universidade, ela conheceu o seu futuro marido, Maury Gurgel Valente, que se tornaria Embaixador. Em 1940, um ano depois dela entrar na universidade, ela inicia a sua atividade como jornalista, que permite o tom a vida em paralelo com a carreira de escritora. Com o seu marido, Clarice tem dois filhos e vive durante 15 anos em países como Itália, Suíça e Estados Unidos, onde escreve seus primeiros livros.

Seu romance de estreia, Perto do Coração Selvagem, se diferenciou do regionalismo, principal expressão literária naquele período. Era época de autores como Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, que se debruçavam sobre os problemas sociais do país. O livro de estreia de Clarice Lispector recebeu elogios de críticos como Antônio Cândido. Ele fala sobre a renovação que a sua linguagem estava promovendo e nota também a exploração vocabular e aventura da expressão da autora. Além disso, ele disse que Clarice é capaz de estender o domínio da palavra sobre regiões mais complexas e inexprimíveis.

No vídeo de hoje, eu vou comentar os pontos da autora e, para isso, quero pegar como gancho essa observação de Antônio Cândido sobre as zonas inexprimíveis que ela explora. A literatura de Clarice é uma busca incansável e até exasperada pelo magma primeiro, pela lava essencial, pelo centro de toda a vida. Mas, afinal, o que é o centro de toda a vida e como dar forma a ele? É por isso que muitos defendem que Clarice Lispector é autora do indizível, ou seja, daquilo que não se tem como ou não se pode dizer.

Nessa busca intensa, Clarice está aberta a atravessamentos de todos os tipos. Tudo que existe pode chamar atenção, causa espanto e maravilhamento. As suas tramas são mínimas: uma mulher que observa um ovo na mesa, uma menina que pede um livro emprestado para uma amiga, um homem que observa outro homem jantar. O primeiro ponto que eu quero comentar, ele se chama "O Jantar" e faz parte do livro Laços de Família. O narrador é um homem que observa outro homem de meia-idade jantando. O garçom serve o vinho, leva o prato, e nada mais. Basicamente, o que acontece é isso. Mas de uma simples garfada num pedaço de carne, ou da imagem de satisfação no rosto depois que o apetite é saciado, Clarice extrai muito.

"O personagem que o narrador observa mastiga de boca aberta, limpa os olhos com guardanapo e deixa o azeite umedecer os lábios, até que de repente, eis que o velho se mobiliza de novo, como se tivesse o peito contraído e barrado. Sua violência, potência, sacode-se presa. Ele espera até que a fome parece assaltá-lo e ele recomeça a mastigar com apetite, de sobrancelhas franzidas. Eu, que já comia devagar, um pouco nauseado, sem saber por que participando, eu não sabia de quê. De repente, ele vai estremecer todo, levando guardanapo aos olhos e apertando uma brutalidade que me leva." Ou seja, a simples observação de alguém mastigando a comida atravessa o narrador e causa de várias sensações.

Esse é um traço da literatura de Clarice. Os seus personagens parecem perceber e observar as coisas pela primeira vez, como crianças fascinadas. As personagens da autora passam por transformações e revelações a partir das coisas que aparentemente são banais. A pesquisadora e professora de literatura da USP, Yudith Rosenbaum, diz que Clarice pinta os detalhes do cotidiano como espécie de espiritualidade e se espanta com as coisas todas que existem. E nós, leitores, nos espantamos com a sua linguagem.

A pesquisadora explica que ela faz um jogo muito próprio entre substantivo e adjetivo. Clarice escolhe o motivo e a cópula, ele um adjetivo completamente inesperado que nós normalmente nunca usaremos. Por exemplo: "alegria difícil", "felicidade insuportável", "horrível mal-estar feliz". O adjetivo gera uma tensão com o substantivo e nos joga no estranhamento. Ué, a felicidade não é o estado que todos nós mais procuramos? Como ela pode ser, então, insuportável? Felicidade e insuportável. A partir desse momento, a gente adentra o terreno do insólito, da surpresa, do novo, e não saímos do mesmo jeito depois de um texto de Clarice Lispector. A gente passa a enxergar tudo de um jeito diferente, justamente porque ela quebra tantas convenções e normas.

O estranhamento nos convida a despertar e a sentir as coisas. Só que isso nem sempre é fácil. A autora mexe em zonas sombrias, pode investigar paixões malditas e trazer à tona mal-estar, a negatividade. Esse é um dos traços, por exemplo, do conto "Perdoando Deus", que está no livro Felicidade Clandestina. Nesse conto, novamente temos uma voz em primeira pessoa, dessa vez uma mulher que começa dizendo que faz um passeio em Copacabana e observa tudo: o mar, as pessoas, os edifícios. Ela se sentia livre e muito bem. Ela experimenta uma sensação de carinho por tudo e todos e se sente a mãe do mundo, a mãe da terra e a mãe de Deus.

Até que de repente, ela pisa em um enorme rato morto. Pois bem, ela fica apavorada de medo e começa a perceber um estranho sentimento. Ela fica revoltada com Deus e quer se vingar dele. Como é possível que ele tenha tirado ela de todas aquelas sensações de bem-estar e feita ela pisar em um rato morto? Ela é tomada por um forte sentimento de revolta e diz o seguinte: "A grosseria de Deus me feria. Eu estava me... Deus era bruto, andando com o coração fechado. Nem a decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continue andando, procurava esquecer, mas só me ocorria a vingança. Mas quem vingança poderia eu contra um Deus todo poderoso? Contra um Deus que até com rato esmagado por dia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só... Ai, assim, pois então não guardar em segredo e vou contar."

A narradora disse que vai então contar todos os segredos e vergonhas de Deus e começa um longo parágrafo em que diz que ela e o rato são a mesma coisa, e ela precisa aceitar sua natureza. E mais, aceitar a natureza de alguém que deseja a morte de um animal. E termina dizendo: "Eu, que jamais me habituei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse, porque enquanto eu amar a um de... é só porque não me quero. Serei um dado marcado e o jogo da minha vida maior não se fará enquanto eu inventar Deus. Ele não existe." Ufa! Clarice quer mostrar os ratos, baratas e insetos e animais que existem dentro de nós mesmos. E para isso, ela exige, entrega o texto. Existe uma frase dela própria, e que ela diz: "As coisas não são fáceis, mas é preciso dizê-las."

Retomando a sua biografia, em 1956, já separada do marido, ela volta dos Estados Unidos e se estabelece definitivamente na cidade do Rio de Janeiro. É nesta época também que ela recomeça a publicar matérias jornalísticas voltadas para o público feminino e também dá uma entrevista para a revista Mundo Ilustrado com o seguinte título: "Os Dois Mundos de Clarice: Livros e Filhos". Eu fiquei muito emocionada nessa parte quando ela disse que era vista pelos seus filhos como uma mãe sempre ocupada e por isso ela colocava a máquina de escrever no colo, na sala, junto com eles, e escrevia enquanto eles estavam ali com ela. Ela deixava que eles a interrompessem sem e comenta como interrompiam.

Em 1966, ela passa por uma experiência traumática. Sofre um incêndio no seu apartamento, fica gravemente ferida, em estado de coma por quatro dias. Sobre tudo isso, ela disse: "O incêndio que sofri algum tempo destruiu parcialmente minha mão direita, minhas pernas ficarão marcadas para sempre. O que aconteceu foi muito triste e prefiro não lembrar. Só posso dizer que passei três dias no inferno, aquele que dizem espera os maus depois da morte. Eu não me considero má e o conheci ainda viva."

Uma das biografias de Clarice, a pesquisadora Nádia Battella Gotlib, autora dessa "foto biografia" Os Filhos, publicada pela Edusp, que usei muito como fonte de pesquisa para o vídeo, recolheu um depoimento de uma das grandes amigas de Clarice Lispector, Olga Borelli, que passou os últimos sete anos ao lado da autora, inclusive ajudando-a com seus textos, porque por conta do incêndio, ela não conseguia mais escrever com a mão direita. Aos 56 anos, muito doente e no hospital, Clarice queria levantar da cama e andar. A enfermeira não deixou. E Olga Borelli conta que Clarice respondeu: "Você matou o meu personagem."

Porque está por trás dessa frase? Clarice mergulhou tão intensamente na sua própria ficção que se transformou em personagem de si mesma. A autora se transfigurou na sua própria ficção. Isso acontece ainda agora de você produzir alguma coisa e rasgar e eu deixo de lado rápido. Não é o raio. Você... [Aplausos] o produto de reflexão ou uma emoção, um pouco de raiva comigo mesmo, porque, olha, agora tô meio cansada. É do que? Diminuir a... É, mas você não renasce, se renova a cada trabalho novo. Tá bom. Agora eu morri e não mereceu renascer de novo. Por enquanto, eu tô morta.

E a biógrafa e autora conta que Clarice deu essa entrevista quando se sentia muito triste e depressiva. Ela inclusive pediu para o entrevistador só divulgá-la depois da sua morte. Clarice morre em 1977 e a entrevista vai ao ar no ano seguinte, em 78. Mas a mesma autora que diz que o adulto é triste, solitário, também disse em uma de suas crônicas: "O mundo parece chato, mas eu sei que não é."

Eu fico muito emocionada pensando em todos os textos da Clarice Lispector e como tanta gente encontra ela pela primeira vez na adolescência e leva a vida. A Rocco está editando a obra completa da autora e, olha só que interessante, nas capas estão as pinturas dela própria. Sim, ela tentava. Em uma carta que escreveu para o seu filho Pedro, diz inclusive que a pintura é mais libertadora do que a escrita. Olha só, tinta de acrílico, pincéis e telas. É uma libertação. Pintar liberta mais do que escrever.

E para ela, escrever é libertador. Para nós, leitores, Clarice também é. É difícil dar uma resposta absoluta sobre o que ela escreveu e como. Clarice é absolutamente singular, como disse o poeta Carlos Drummond de Andrade: "Clarice veio de um esterco, partiu para outro. Ficamos sem saber a essência do mistério." Clarice não foi um lugar comum.

Agora, quero saber de vocês: qual a relação que vocês têm com essa autora tão maravilhosa? Me conta tudo aqui embaixo que eu vou adorar saber. Também quero te convidar para seguir o Instagram @antofagica e o meu pessoal @livpiccolo. Hoje eu também posto conteúdo sobre livros, filmes, séries e conto uma história bem curiosa que aconteceu comigo enquanto eu preparava esse vídeo da Clarice. A gente se vê na próxima semana com mais um vídeo. E aí? [Música] E aí? E aí? Alô, alô, alô. [Música]