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[Música] Olá pessoal, eu sou Marcos Aurélio Carolina de Sá. Sou engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Cerrados. Atuo na área de manejo e conservação do solo e da água, e esse será o tema da nossa palestra de hoje. Então, vamos lá.
Começando aqui a nossa apresentação, um desafio que a humanidade tem para esse terceiro milênio é o desafio de produzir e, ao mesmo tempo, preservar. Então, nós temos que aumentar a produtividade nas áreas já incorporadas ao processo produtivo, ou seja, não desmatar mais, visando atender às demandas de alimentos, fibras e energia para uma população que cresce e, ao mesmo tempo, conservar recursos naturais e preservar as áreas virgens. Ou seja, temos um longo caminho pela frente.
E para termos uma ideia sobre o tamanho desse nosso desafio, vamos observar aqui o crescimento populacional. No início da era cristã, a população da Terra era em torno de 300 milhões de pessoas, estimado. E ao longo da história, se manteve mais ou menos estável, até que chegamos lá, no meado do século 18 e início do século 19, com as melhorias nos meios tecnológicos, nos meios de produção, própria Revolução Industrial. Isso melhorou a qualidade de vida das pessoas e a população começou a aumentar de forma exponencial. Chegamos a 2016, ou seja, já nos nossos dias, com 7,6 bilhões de habitantes. Se a população continuar a crescer nessa mesma taxa, nós chegaremos em 2100, 11 bilhões de pessoas, e em 2000 e 221 bilhões de pessoas na Terra. Naturalmente, a exemplo do que já acontece hoje em alguns países desenvolvidos, a gente espera que em algum momento da história essa população pare de crescer e se estabilize, né? Mas nós não sabemos quando será isso.
Então, só para a gente ilustrar um pouco isso, vamos fazer um cálculo bem simples com base em um levantamento feito pela NASA. A área agrícola do planeta, a área ocupada com agricultura no planeta, em torno de 1,87 bilhão de hectares, ok? Nós não temos muitas perspectivas de expandir essa área, apenas no Brasil algumas áreas, mas no mundo, de forma geral, não temos muitas perspectivas de aumentar. E considerando que uma pessoa adulta consome cerca de uma tonelada de alimentos por ano, é considerado alimento sólidos e líquidos, é um dado médio. Se considerarmos a área agrícola que nós temos e a população hoje, né, nós teríamos que produzir quatro toneladas de alimentos por hectare para alimentar toda a população da Terra, ou em outras palavras, cada hectare deveria alimentar quatro pessoas. Em 2100, já seriam 5,6 toneladas por hectare, ou seja, um hectare alimentando 1,56 pessoas. E em 2000, 2,21 toneladas por hectare. Então, para se conseguir isso, é só realmente investindo em tecnologia e pesquisa.
Se considerarmos as produtividades médias no Brasil hoje, algumas culturas nós já estamos numa média acima dessas quatro toneladas que seria a demanda hoje. Mas para algumas culturas, ainda podemos melhorar muito. Exemplo, o caso do milho, a média em torno de 4,8 toneladas por hectare/ano, mas alguns produtores conseguem até 10, 12 toneladas. Então, basta aplicar as tecnologias que já existem de forma correta.
E aí vem aquela pergunta: por que conservar solo e água? Isso é uma questão de sobrevivência para a própria humanidade. Na verdade, nós temos que cuidar bem dele porque ele não pertence a nós, ele pertence aos nossos filhos, netos e os netos e nossos netos. Então, nós não queremos deixar essa paisagem para eles. Nós queremos sim, deixar uma agricultura produtiva, estável, uma agricultura que atenda às nossas necessidades hoje e atenda às necessidades das gerações futuras.
Quando falamos em manejo e conservação do solo e da água, o que nos vem à mente? Da maioria das pessoas, vem a questão da erosão e do terraceamento, que foi um grande problema em décadas passadas. Só que o conceito de manejo e conservação do solo e da água, ele vai muito além. Ele passa pela manutenção da fertilidade do solo, ou seja, nós temos que derrubar as nossas culturas de forma equilibrada, não só para produzir, mas também para repor os nutrientes do solo e produzir alimentos, grandes frutos, o que quer que seja. Mas também produzimos biomassa, produzimos palha. Essa biomassa, essa palha, é o que vai contribuir para a manutenção da matéria orgânica do solo, e que nós vamos ver mais adiante, é fundamental para a sustentabilidade de qualquer sistema agrícola.
Outra questão é a questão do manejo físico do solo, manejo do maquinário, evitando ou minimizando a compactação do solo, mantendo o solo bem estruturado. E isso é fundamental para garantir permeabilidade, retenção de água. E finalmente, adotar o manejo que mantenha ativa a biologia do solo. Essa é uma das partes mais fascinantes da ciência do solo, a parte biológica do solo, e que nós já conhecemos tão pouco sobre ela. Para se ter uma ideia, o Brasil economiza hoje em torno de 13 bilhões de dólares por ano só com a fixação biológica de nitrogênio, que é feita por bactérias fixadoras de nitrogênio, tanto na cultura da soja quanto em outras culturas, e adubos verdes que produzem, no caso, incorporam nitrogênio para outras culturas. E é importantíssimo também ressaltar o papel dessa microbiota em serviços ambientais. Pesticidas, resíduos de agrotóxicos são degradados por microrganismos do solo. Então, é importante manter uma microbiota ativa no solo, manejar bem o solo para que ocorra isso, né? Minimizar a poluição, minimizar as perdas de nutrientes, que também atua na ciclagem de nutrientes.
Aqui, essa frase se diz respeito a um princípio básico de conservação do solo. O solo completamente coberto com vegetação, ele está em uma condição ideal para manter a umidade e resistir à erosão, desde que a cobertura seja contínua e o solo bem permeado com raízes. Então, guarda isso: cobertura contínua, solo bem permeado com raízes.
Essas fotos elas mostram aquilo que a gente tenta fazer de melhor na agricultura hoje. Pelo menos a produção de grãos mostra a colheita da soja, o plantio do milho logo em seguida, solo coberto, sem revolvimento. Nessa foto aqui, nós temos a colheita de milho no oeste da Bahia. Observem aqui esse verde, é o capim braquiária que foi semeado junto com o milho. Então, esse milho é colhido, esse capim vai ficar cobrindo a área junto com a palhada de milho durante a estação seca. Depois, ele é dessecado e entre outras culturas, aqui como exemplo, o feijão sobre a palhada de braquiária, a área, a soja germinando no meio da palhada de braquiária comigo. Então, vejam, a ideia é tentar manter o solo coberto a maior parte do tempo possível e protegido da erosão.
Complementando esse princípio, um aumento na matéria orgânica do solo pelo crescimento das raízes, especialmente no caso de uma cobertura permanente, ou pela incorporação da vegetação como adubo verde, melhora a capacidade de retenção de água do solo e favorece a infiltração de água. Lembram daquela braquiária no slide anterior? Aqui, ela está com oito meses, em plena estação seca. Taquicardia de raízes que ela tem aqui. As gramíneas em geral, elas têm o chamado sistema radicular fasciculado, ou raiz em cabeleira, explora um grande volume de solo e podem chegar à grande profundidade também, em torno de 3 metros, 3 metros e 40. Imaginem vocês, quando essa braquiária for dessecada com herbicidas para se fazer o plantio da próxima safra, o local onde estão essas raízes ficaram canais. O solo, suas raízes vão morrer, se decompor, incorporar carbono, matéria orgânica ao solo. E por onde o solo vai se infiltrar água. Enfim, isso vai melhorar o solo como um todo.
Embora as fotos sejam atuais, esses princípios são bastante antigos. Neodi Bennett publicou isso 80 anos atrás. Então, vejam, tecnologias recentes que nos permitem atender a preceitos e princípios básicos de conservação do solo de forma cada vez mais eficiente.
E para a gente ilustrar a questão do manejo do solo, isso é voltado mais para o Cerrado, embora possa ser adaptado também a outras regiões. É importante que o manejo do solo seja feito de forma harmônica. Então, vamos usar aqui a figura de um edifício imaginário para ilustrar isso. Então, essa escadaria que seria a base do nosso edifício, alicerce, e nada mais é do que o conhecimento técnico-científico. Esse edifício tem pilares. O primeiro pilar é a correção da acidez do solo superficial e subsuperficial. Superficial seria o calcário, subsuperficial o gesso, nas doses adequadas, segundo análise de solo. Segundo pilar é a adubação coletiva e de manutenção, também de acordo com as recomendações de análise de solo, enfim, as necessidades da cultura de cada sistema de produção. O terceiro pilar é a rotação de culturas e práticas conservacionistas. Essa rotação de culturas é muito importante para formar, para incorporar matéria orgânica ao solo, quebrar o ciclo de pragas e doenças. E finalmente, a dinâmica de sistemas de preparo de solo. Aqui, nós entendemos que o preparo de solo é importante. Hoje, nós preconizamos plantio direto ou não preparo. Mas antes de se entrar no sistema plantio direto, como nós vamos dizer mais adiante, é necessário fazer um bom preparo para eliminar camadas compactadas, corrigir o solo, formar, fazer o perfil do solo. Então, espera-se que esses pilares, construídos de forma harmônica, possam sustentar uma agricultura produtiva e estável. E é isso que nós queremos.
Por outro lado, apenas para ilustrar o que seria a desarmonia, a desarmonia entre esses elementos de manejo do solo: uma super calagem, adubação desequilibrada, monoculturas em práticas conservacionistas, preparo excessivo ou inadequado do solo. Então, fica o questionamento: será que dessa forma é possível mantermos uma agricultura produtiva e estável? O fato é que você pode construir uma casa mal construída e ficar o resto da sua vida tampando buracos, se escorando em paredes, mas pode acontecer dessa casa um dia cair na sua cabeça. Ou seja, isso seria o colapso da nossa agricultura, o colapso da própria civilização. E isso é tudo o que nós não queremos.
Então, para entendermos os sistemas de preparo do solo, as formas como podemos planejar o solo, vamos falar rapidamente sobre o sistema de preparo. O plantio convencional é um sistema bastante antigo. Ele existe desde a invenção do arado, o que supõe-se ter acontecido há cerca de cinco mil anos atrás, ou três mil anos antes de Cristo, de forma concomitante no Egito, Oriente Médio, China. Esse sistema não teve muitas modificações até o início do século, até o século 19, e começou a ser modernizado já no século passado, início do século 20, com o advento das primeiras máquinas, os primeiros tratores, multiplicando a capacidade de trabalho. E ao longo da história, foi melhorado, máquinas novas foram construídas, enfim. E esse sistema se baseia basicamente no preparo de solo, que é o uso do arado, a aração e gradagem. Então, o solo é preparado, é revolvido, e o plantio é feito em uma condição de solo solto, solo descoberto. E isso expõe o solo à erosão e às perdas de matéria orgânica. Uma vez revolvido, os agregados do solo são quebrados, e essa matéria orgânica do solo, em resposta ao ataque microbiano, se decompõe.
Para termos aqui uma ideia do efeito de um sistema convencional de solo em algumas regiões tropicais, aqui um exemplo de um trabalho feito por colegas aqui da Embrapa Cerrados no oeste da Bahia. Temos aqui no nosso gráfico, teor de matéria orgânica. Matéria orgânica é basicamente carbono, né? E aqui o tempo de cultivo em anos. Aqui o tempo zero seria logo no ano de desmatamento. São solos bastante arenosos. Então, uma vez desmatado o solo e cultivado em sistema convencional com grade pesada, os teores de matéria orgânica tendem a diminuir, tendendo a se estabilizar baixos. Com a diminuição da matéria orgânica, ocorre também a diminuição da CTC, ou capacidade de troca de cátions. Podemos entender a capacidade de troca de cátions, CTC, como a capacidade do solo em armazenar nutrientes e fornecer esses nutrientes para as plantas. Então, a matéria orgânica do solo, ela está intimamente relacionada com a fertilidade do solo, com a capacidade produtiva do solo, de forma que a perda de matéria orgânica do solo é uma medida da degradação do ecossistema, podendo ser utilizada como critério para a avaliação da sustentabilidade. Solos argilosos, essa perda não é tão expressiva, mas em solos arenosos, clima tropical, pode ser bastante drástica.
Aqui um exemplo, né, para um solo argiloso, da relação entre a CTC e o carbono orgânico do solo, é uma forma de expressar a matéria orgânica. Um latossolo típico do Cerrado, do sul de Goiás, com 60% de argila. Vejam que as plantas absorvem nutrientes, cálcio, magnésio e potássio, nitrogênio, fósforo, enxofre, que são macronutrientes e micronutrientes que são absorvidos em menor quantidade: boro, cobre, cromo, ferro, manganês, molibdênio e zinco. Em especial, cálcio, magnésio e potássio são absorvidos em grandes quantidades e ocupam boa parte da CTC em solos cultivados. Estão aqui para a gente entender teor de carbono orgânico do solo e a CTC. Notem que para esse solo, à medida que aumenta o teor de carbono orgânico, de matéria orgânica, aumenta também a CTC. É uma relação linear. Ajustamos uma linha de tendência, uma equação linear, e temos esses valores aqui. Então, o que significa na prática? O intercepto da equação, o 70, reguladores, diz respeito à parte em que essa reta cruza o eixo Y. Ou seja, se o teor de matéria orgânica nesse solo fosse zero, a CTC dele seria 0,2. E essa CTC proporcionada por 60% de argila, ok? O restante é contribuição da fração orgânica do carbono orgânico, a matéria orgânica do solo. Então, esse coeficiente, os 5,3, diz respeito a essa contribuição. Cada 1% de carbono orgânico contribui com 5,3 nas CTCs. Ou seja, 11% de carbono orgânico contribui muito mais com a fertilidade do solo do que 60% de argila nessas condições.
Então, para ilustrarmos na comparação simples, como seria no solo de clima temperado. Aqui um trabalho clássico feito em Lancaster, nos Estados Unidos. Só um aproximadamente 20% de argila. Naquelas condições, se a matéria orgânica fosse zero, a CTC seria 8. Naturalmente, há uma contribuição da matéria orgânica. Então, em clima tropical, perdas de matéria orgânica podem ser muito mais drásticas para a fertilidade do solo do que em condições de clima temperado.
Essas questões, além da erosão do solo, levaram ao advento do Sistema Plantio Direto. Nesse sistema, nós já não revolvemos mais o solo, só não é mais arado, gradeado, e a semeadura é feita sobre a palhada da cultura anterior, mantendo o solo coberto com palha, protegido. Para tanto, foi necessário adaptarmos as semeadoras a disco para corte de palha. Esses discos cortam a palha e logo em seguida vem o sulcador, depositando adubo, semente. Mais uma ressalva: Sistema Plantio Direto. A palavra sistema, ela não está aqui à toa. Sistema significa um conjunto ordenado de elementos que se encontram interligados, em que interagem entre si. Ou seja, um conjunto de coisas que agem em conjunto. Então, na prática, não basta apenas semear sobre a palha e não preparar o solo para ser considerado o Sistema Plantio Direto. É preciso muito mais. Exemplo: rotação e diversificação de culturas, que é o que garante a formação de palha em quantidade e qualidade. Também a quebra do ciclo de pragas e doenças. Manejo racional de corretivos e fertilizantes. Isso é muito importante para quê? Se utiliza fertilizantes nas doses adequadas e mantém as áreas produtivas formando palha. Também o manejo integrado de pragas, doenças e plantas daninhas é uma forma de minimizar o uso de agrotóxicos. Já existem esses preceitos, né? Só um dado interessante de colegas da Embrapa Solos é que o Brasil poderia economizar em torno de 1 bilhão de dólares por ano apenas realizando manejo integrado de pragas na cultura da soja. Ou seja, isso levaria à utilização mais racional de pesticidas e evitaria os excessos. E finalmente, a adoção de práticas conservacionistas complementares, como terraceamento, cultivo em contorno.
Em resumo, as boas e velhas práticas agronômicas. Nesse slide, podemos observar como o agricultor via a sua lavoura antes do advento do plantio direto, na época do sistema convencional. Isso é um experimento de longa duração, conduzido na Embrapa Cerrados. Aqui, o solo preparado, solto, após uma chuva, erosão. E esse era muito comum. Aí, com o advento do plantio direto, a paisagem mudou. Passamos a observar solo coberto com palha, se não totalmente, parcialmente coberto, e não vimos tanta erosão aparente assim. Além de uma outra questão, além da proteção do solo, a redução de custos. Porque não preparando o solo, não arando, não gradeando, o agricultor economiza, economiza combustível, deixa de gastar combustível fóssil, no caso do óleo diesel, deixa de emitir gás carbônico e afetar a camada de ozônio, economiza mão de obra. Enfim, o Sistema Plantio Direto ele proporcionou, melhorou as questões de conservação do solo e proporcionou economia, redução de custos.
Só que muitos agricultores ficaram entusiasmados e muito desse entusiasmo acabou levando a erros. Infelizmente, alguns erros foram cometidos. Gerou-se a crença, uma crença errônea, de que o plantio direto sobre a palha e sem preparo de solo resolveria todos os problemas anos de erosão. E mesmo sem embasamento científico ou recomendação técnica, muitos agricultores, por conta própria, eliminaram terraços e abandonaram o cultivo em nível, adotando plantio em linha reta, sob alegação de que poderia utilizar máquinas maiores e aumentar o rendimento operacional. Ou seja, o rendimento de máquinas, menor custo, ok? Então, ao invés de dar três passadas de semeadora, passaria uma semeadora grande dessa, única passada. Plataformas de colheita maiores. Só que essas máquinas, elas foram projetadas e desenvolvidas para áreas mais planas, talhões regulares, né? Não se adequam a todas as áreas. Infelizmente, principalmente nos solos mais suscetíveis à erosão, nas áreas mais acidentadas, observamos resultados péssimos. Infelizmente, isso aconteceu em todas as áreas, mas principalmente nas áreas de solo mais suscetível à erosão.
E aí fica a pergunta: o que seria mais lógico? Adequarmos a terra ao maquinário ou adequarmos o maquinário à terra? Aqui, no sentido de paisagem, né? O conceito de terra e globo, o solo, ao relevo, vegetação, enfim. Mas adequarmos o maquinário ao solo, ou só o maquinário? Entendemos melhor a questão da erosão, né? Temos que observar que a erosão hídrica depende de vários fatores. O primeiro deles é a própria chuva. O segundo, a resistência do solo. Existe solos mais e menos resistentes à erosão. A topografia, se uma topografia mais suave ou mais acidentada. A cobertura do solo e o manejo. E cada um desses fatores depende de uma série de fatores. Por exemplo, chuva depende da quantidade e intensidade, energia cinética, tempo de duração. E a chuva é um dos fatores que o homem não interfere. É isso aí, natureza é que proporciona. Enfim, nós não interferimos.
A questão da resistência do solo, também chamado de erodibilidade, ela depende basicamente da permeabilidade do solo e da resistência à desagregação. Solos mais permeáveis permitem infiltração da água da chuva, mas de forma mais rápida e melhor o escorrimento. Então, resistem mais à erosão. Solos com maior resistência à desagregação também resistem mais à erosão. Os agregados não são tão carreados. E esses fatores dependem basicamente da textura do solo, que é o teor de argila, areia, estrutura, mineralogia, matéria orgânica, grau de compactação. Então, vejam, textura e mineralogia, nós não temos como alterar num solo. Mineralogia diz respeito ao tipo de argila, a qualidade da argila, isso é inerente ao solo. Agora, a estrutura do solo, nós podemos alterar, compactando o solo, degradando a estrutura, ou adicionando matéria orgânica, melhorando a estrutura.
Outra questão, topografia, depende da declividade, formato de rampa, se é uma rampa reta, com cauda convexa, o comprimento da rampa. O terraceamento é que a gente pode parcelar uma rampa. No Cerrado, nós temos rampas de 12 quilômetros. Podemos alterar sim, é só parcelar essa rampa com terraços, reduzimos a velocidade de escoamento da enxurrada e minimizamos o problema da erosão.
Outra questão, cobertura do solo, depende da quantidade e qualidade da palha e do estande da cultura. Aqui, nós podemos interferir com o manejo, de maneira que proporcione mais ou menos palha, é regular bem a semeadora, enfim. E o manejo propriamente dito, é que é onde o ser humano consegue realmente trabalhar o solo, mexer, melhorar as condições. Então, qual é o sentido do preparo do solo em nível? Morro abaixo, o sistema de cultivo convencional, onde eu faço o revolvimento do solo. Sistema Plantio Direto, onde eu só faço o plantio sobre a palhada, além dos outros preceitos já dito anteriormente. Qual é o sentido do plantio em nível? Morro abaixo, linha reta, e o manejo da adubação, rotação de culturas. Tudo isso faz parte do manejo do solo e são questões que a gente pode interferir. E todos esses parâmetros, uma vez quantificados, eles podem ser utilizados até para estimar a quantidade de erosão. Mede em toneladas por hectare/ano. Aqui, o modelo chamado Equação Universal de Perdas de Solo, ou de modelos foram propostos posteriormente, mas não é um assunto dessa palestra.
Aqui, um trabalho feito por colegas da Embrapa Cerrados, que avaliaram as perdas de solo por erosão em um latossolo vermelho, um solo típico do Cerrado. Observem que esse solo descoberto apresentou uma perda em torno de 50 toneladas de solo por hectare/ano. O mesmo solo, cultivado com soja, essas perdas foram reduzidas para 9 toneladas por hectare no sistema convencional, com aração e gradagem. Quando cultivado sob o sistema plantio direto, as perdas foram reduzidas para cinco toneladas, ou seja, quase a metade. Então, aqui é o efeito da cultura protegendo o solo com palhada. Um solo descoberto e sobre pastagem. Lembra-se daquela braquiária, quantidade de raízes, da cobertura do solo que as gramíneas proporcionam? 10 toneladas, ou seja, 100 quilos de solo por hectare/ano, contra 5 mil quilos.
Aqui, com relação às perdas de água, aqui expressas em milímetros, lembrando que um milímetro corresponde a um litro por metro quadrado. Observe que as perdas foram bastante elevadas sobre solo descoberto. E comparando preparo convencional, plantio direto, elas não foram reduzidas na mesma intensidade que a redução das perdas de solo. Isso porque as taxas de infiltração de solo já são naturalmente bastante altas. Tá? Mas sobre plantio direto, como nacional, foram praticamente as mesmas. Mas foram bastante elevadas quando havia a pastagem, ou seja, a gramínea no sistema. Então, isso nos leva à seguinte conclusão de que, embora as perdas de solo sejam reduzidas pela metade sobre o sistema plantio direto, é necessário que sejam adotadas práticas complementares no sistema plantio direto, como rotação de culturas e práticas conservacionistas mecânicas, como terraceamento, cultivo em contorno.
Aqui, um trabalho muito legal feito por colegas da Embrapa Trigo em Passo Fundo. Aqui, uma área, uma propriedade rural que foi cultivada por muito tempo convencional, depois plantio direto. Então, 12 anos após a conversão do sistema plantio direto, ela ainda mantinha a estrutura de terraços oriunda do sistema convencional. Cada linha dessa seria um terraço. Então, terraços bem espaçadas, uma marca bastante densa de terraços. Ao invés de retirar os terraços, esses terraços foram redimensionados. Então, com base nas características do solo, das chuvas, nas características das chuvas da região, na infiltração de água no solo, eles dimensionaram um novo sistema de terraços, terraços mais espaçadas para o sistema plantio direto. Então, observe bem aqui, provavelmente esse agricultor não vai poder ter o maior maquinário existente no mercado em termos de tamanho, mas com certeza ele poderá ter máquinas maiores do que aquelas que ele usava, que ele utilizava anteriormente. Então, para o sistema plantio direto, é necessário que seja feito um redimensionamento dos terraços e um redimensionamento do maquinário. Os maquinários devem ser adaptados à condição do sistema plantio direto.
E aqui, contra a questão na cana de açúcar. O sistema de produção de cana de açúcar também evoluiu ao longo do tempo. O Brasil é um grande produtor de álcool e de açúcar. Antes, nós queimávamos a palha, a colheita era feita a queima, colheita manual, e não sobrava palha. Com o advento da colheita mecânica, nós deixamos de queimar a palha na colheita da cana de açúcar. Então, as máquinas colhem e é depositada palha sobre a superfície do solo. Em sistemas de sequeiro, chega ter em torno de 10, 18, 20 toneladas de palha por hectare. Em sistemas irrigados, podemos chegar até 40 toneladas de palha por hectare. E aqui, após a colheita, 40 dias após a colheita da cana, brotando no meio da palha. Seis meses após a colheita, palha continua protegendo o solo. Enfim, poucas culturas produzem a palha e tanta proteção do solo quando a cana de açúcar.
Novamente, veio aquele questionamento: será que podemos eliminar terraços, plantar em linha reta? Ok. Então, esses slides mostram por que recomendamos manter terraceamento, plantio em nível, principalmente nos solos mais suscetíveis à erosão. Aqui, o exemplo de uma área, são imagens do Google Earth, uma área de solo altamente suscetível à erosão. Em 2004, essa área estava terraceada e plantio em nível de cana de açúcar. Em 2011, continuou do mesmo jeito, sem problemas. 2013, em 2016, o sentido de sulcamento foi alterado. Então, foi feito um plantio em linha reta e vejam o que aconteceu. Felizmente, nós não vemos isso em todas as áreas de cana de açúcar, apenas nas áreas mais suscetíveis à erosão.
Então, vamos dar um zoom aqui nessa área para entendermos melhor, visualizarmos melhor. Aqui, em 2013, era feito o plantio em nível. Em 2016, esse plantio foi feito em linha reta. Isso fez com que a água tivesse canais preferenciais de escorrimento, se concentrassem em alguns pontos do terreno e causando o rompimento, erosão. Então, mesmo com tanta palha, é interessante manter o cultivo em nível. E outra questão muito importante também, mesmo nas áreas onde os terraços foram removidos e cultivo em nível também deixou de ser feito, e não se observa erosão, se observa um sulco de erosão da forma como essa área que mostrei a pouco. É interessante, é mantemos o cultivo em nível pensando na conservação da água.
Observe o próximo slide aqui, a importância do terraceamento do cultivo em nível para a conservação da água. Os terraços, eles são práticas mecânicas de conservação do solo, são auxiliares na conservação do solo, mas são muito importantes para a conservação da água. Se essa área não fosse terraceada, a água escorreria livremente encosta abaixo, chegando ao curso da água. Com certeza, essa água carrearia resíduos de pesticidas e fertilizantes, partículas de solo. Isso causaria poluição. E outra fixação dessa água. Com a construção dos terraços, utilização de terraços de cultivo em contorno, a tendência é reduzir a velocidade de escorrimento e fazer com que a água seja infiltrada nos canais dos terraços, ok? Essa água vai se infiltrar. E aí vem a pergunta: ela vai levar pesticidas e fertilizantes por lençol freático? Bom, esperamos que se mantivermos um bom manejo nessa área, de forma a manter a microbiota ativa, boa parte desses pesticidas sejam degradados nas camadas superficiais do solo pela microbiota. Ainda faltam dados de pesquisa para a gente quantificar isso, né? Mas sabemos que boa parte da degradação dos pesticidas acontecem por fungos de solo e microrganismos do solo. Então, o solo funcionaria como um grande filtro. Essa água infiltrando abasteceria os lençóis freáticos, é, e abasteceria as nascentes. Ou seja, é aquela água que pode chegar à nossa torneira. Então, isso beneficiaria não apenas a agricultura, mas toda a sociedade. Então, a utilização de terraceamento, cultivo em contorno, é fundamental para conservarmos a água. E as áreas agrícolas, se bem manejadas, podem ter um papel muito importante na conservação da água.
E aqui, um exemplo para o bioma Cerrado, né? Aqui o mapa do Brasil, as grandes bacias hidrográficas. Aqui em vermelho, destacado o bioma Cerrado. E observem que no bioma Cerrado estão as cabeceiras de importantes bacias hidrográficas brasileiras: aqui do São Francisco, do Paraná, Araguaia, Tocantins e parte da bacia Amazônica. Vamos pegar aqui como exemplo, a bacia do Rio São Francisco. Quarenta e sete por cento da área dessa bacia está no bioma Cerrado. Só que 94% da vazão do Rio São Francisco, que eu tô falando aqui a vazão na foz do rio, aqui em Penedo, em Alagoas, ela é oriunda de afluentes que estão no bioma Cerrado. Já no caso do complexo Paraná-Paraguai, 48% a bacia está no bioma Cerrado, mas 71% da vazão provém de afluentes que estão no bioma Cerrado. Em resumo, nós temos que cuidar bem dos solos e da água na área do bioma Cerrado, porque tudo que fazemos e cometemos de erro, todos os erros que cometemos aqui no manejo de solo, podem se repetir em outras áreas.
Agora, faremos um pouco sobre a evolução do manejo do solo no Cerrado. No passado, as áreas eram desmatadas, cultivava arroz no primeiro ano e cultivo de soja, normalmente convencional. Então, é o que mostra a imagem aqui: cultivo convencional, solo descoberto, nas plantas de soja, pousio na estação seca. O cultivo era feito durante a estação chuvosa. Na estação seca, o rio. Vejam que a soja produz pouca palha, é uma palha que se decompõe muito rápido. Na próxima estação chuvosa, novo preparo de solo, plantio de soja, ok? Essa monocultura, ela começou a causar problemas, principalmente problemas fitossanitários, nematóides. Oviram o aparecimento do nematóide do cisto da soja. Isso levou os agricultores a inserirem o milho nos seus sistemas de produção. Então, plantio de milho aqui em sistema convencional, pousio na estação seca, já o solo com mais palha do milho, proporcionando uma boa produção de palha, e em seguida a soja. Nem todos os produtores utilizavam um ano de milho, um ano soja. Muito implantavam um ano de milho, dois ou três anos soja, ou plantando soja até que os problemas fitossanitários aparecessem. Enfim, tivemos alguma evolução. Veio o advento do plantio direto. Paramos de preparar o solo e começamos a semear sobre a palha. Então, plantio de milho, pousio, soja sobre plantio direto, já com o solo mais protegido. Mas ainda uma rotação pobre, duas culturas. E veio o advento dos sistemas integrados, integração lavoura-pecuária, quando começamos a cultivar o milho consorciado com gramíneas forrageiras, aqui no caso, para que a área. Então, o milho na safra, plantado, consorciado com braquiária durante a estação seca, o solo protegido pela palhada do milho, pela braquiária que fica vegetando nessa condição. Então, pode ser utilizado aqui como pasto para o gado, né? Então, a braquiária era deixado apenas como plano de cobertura e depois a soja sobre plantio direto, vejo com muito mais palha, solo bem mais protegido.
Aqui, um exemplo, regiões mais secas, né? Não é só da Bahia. Primeiro ano, na safra, a soja. Pousio na entressafra. Segundo ano, milho com braquiária, como sem gado. E no terceiro ano, algodão. Aqui, é importante ressaltar que a cultura do algodão, por questões fitossanitárias, ela exige a eliminação da soqueira e a destruição dos restos culturais, o que em muitos casos é feito com o preparo de solo, gradagem. Então, volta seus antigos problemas do convencional, de perda de matéria orgânica, sobretudo em solos mais arenosos, que é o caso do oeste da Bahia. Então, nesse caso, o cultivo do milho com a braquiária pode atenuar essa questão do preparo do solo, minimizar esses efeitos e uma tentativa de manter o solo coberto, permeado por raízes, na maior parte do ano.
Evoluímos um pouco mais aqui com o advento da soja precoce. A soja precoce, ela praticamente revolucionou o sistema de produção no Cerrado, porque nos permitiu fazer duas safras por ano, chamada safra e safrinha. Então, antes nós colhíamos soja com 120 dias, variedades precoces permitindo essa colheita com 100, 110 dias. Então, observem aqui no slide, a soja precoce plantada na safra, o início das chuvas, outubro/novembro, colhida normalmente em janeiro e fevereiro. Ainda há chuvas para o plantio de uma segunda safra, no caso, o milho safrinha. Esse milho é colhido, a área fica em pousio por parte da estação seca, depois novo plantio de soja, milho. Nós até recomendamos que se utilize plantas de cobertura para quebrar um pouco essa questão da soja e do milho, ou seja, enriquecer mais o sistema de produção. Esse sistema é muito adotado no Mato Grosso, em algumas regiões chove mais, tipo sudoeste goiano, por exemplo. E aqui, a variação desse sistema com soja precoce na safra, milho consorciado com braquiária, safrinha na segunda safra. E aqui o milho, a braquiária crescendo no meio da palha. Nesse caso, quando a braquiária é semeada sobre o milho safrinha, as taxas de lotação têm que ser menores, caso se utiliza o gado, porque sabe que terá um período de crescimento menor, mas ela também pode ser deixada apenas como plantas de cobertura, melhorando o sistema. E dentro do possível, intercalando-se com outras plantas de cobertura de outras espécies.
Aqui, um exemplo, a primeira safra, safra soja precoce. Segunda safra, ainda na mesma estação chuvosa, milho com braquiária. E a terceira safra, também chamada safrinha de boi, ou deixando apenas aqui, apenas com plantas de cobertura. De qualquer forma, mesmo utilizando o gado na área, a sobra bastante resíduos, né? É possível manter o solo bem coberto, e isso é o que nós queremos: solo coberto, permeado por raízes, na maior parte do ano.
Regiões onde o clima é um pouco mais seco, que limita o uso do milho como safrinha, como segunda safra, é temos aqui a soja precoce como segunda safra. Pode ser utilizado o sorgo, girassol ou plantas de cobertura, milheto, ovinho, enfim, crotalária, no na estação seca e novo ciclo no ano seguinte, soja e segunda safra com alguma cultura econômica como o sorgo, girassol, plantas de cobertura. O importante é ressaltar aqui que essa diversificação, ela quebra o ciclo de pragas, é, ela estimula a microbiota do solo, porque você melhora a qualidade da palha, aumenta a diversidade, melhora a questão de ciclagem de nutrientes, enfim, é o que seria mais recomendado: diversificar ao máximo.
Aqui, outra questão com relação a culturas perenes. Um exemplo para a cultura do café no sudoeste da Bahia, cultivado em solos arenosos, provavelmente não só os craques areníticos. Trabalho feito por colegas da Embrapa Cerrados. Eles estudaram o cultivo de braquiária nas entrelinhas do café e o manejo dessa braquiária com roçadeira. Eles observaram que isso permitiu melhorias na estrutura do solo e no armazenamento de água. É o efeito da cobertura do solo, das raízes de uma gramínea, poderia ser outras passageiras, talvez, mas o estudo foi feito com braquiária. E a intenção é essa: manter o solo coberto, permeado por raízes, na maior parte do ano. Já virou jargão, né?
Aqui, a importância das gramíneas nos sistemas de produção. Trabalho clássico feito aqui na Embrapa Cerrados também. Uma área que vinha sendo cultivada com culturas anuais. Em determinado período, em 1978, parte da área passou a ser cultivada com pastagem e outra parte continuou com culturas anuais. Aqui, o preparo de solo. Observem aqui, teor de matéria orgânica. Na área que recebeu a gramínea forrageira, os teores de matéria orgânica aumentaram e permaneceram mais elevados do que na área cultivada apenas com culturas anuais.
Outra questão interessante, principalmente no caso da braquiária. Aqui são plantas de braquiária crescendo num solo extremamente compactado, solo argiloso com densidade de 1,5. E se densidade de leito da estrada. Vejam que as raízes conseguiram atravessar essa camada de solo compactado. Então, isso mostra o potencial que as gramíneas têm em melhorar o solo, estruturar o solo e melhorar os sistemas de produção. E a pergunta que eu sempre faço, principalmente quando apresento palestras para agricultores, né, é que tal a gente pensar a respeito de inserir a braquiária nos nossos sistemas de produção, ou outras gramíneas, ou plantas de cobertura? Que tal melhorarmos os sistemas de produção? Acho que todos ganham.
Aqui, um exemplo de como essas gramíneas forrageiras, elas podem melhorar a estrutura do solo. Aqui, um resultado de pesquisa: são agregados estáveis em água. Então, veja aqui a barra verde são os agregados maiores do que 2 milímetros. Em seu solo sob Cerrado, então, quanto melhor, quanto mais bem estruturado um solo, maior a proporção de agregados maiores. Então, solo do Cerrado é um solo bem estruturado, uma quantidade grande, mais de 70% de agregados maiores do que 2 milímetros. O mesmo solo, quando cultivado sob o sistema convencional, vejam que reduziu muito essa proporção de agregados maiores, então o solo ficou desestruturado, predominam agregados de tamanho menor, menores do que 1 milímetro. Aqui, o sol, mesmo solo cultivado sob o sistema plantio direto, houve uma melhoria da estrutura, porém o solo não chegou ao mesmo patamar de um solo do Cerrado. Mas aqui é interessante, isso após dois anos com braquiária, uma área que era cultivada com grade pesada, um solo muito desestruturado, desse nível assim, mais ou menos, né? Houve uma recuperação da estrutura do solo. Então, isso mostra a importância do sistema radicular das gramíneas na recuperação da estrutura do solo e na melhoria das condições físicas do solo e também da matéria orgânica. Se há uma incorporação de matéria orgânica, há uma melhoria na estrutura.
Esse gráfico mostra os teores de matéria orgânica e um diâmetro médio de agregados. Então, quanto mais matéria orgânica, maior o diâmetro de agregados, ou seja, melhor a estrutura do solo.
Vamos falar brevemente sobre a compactação do solo. A compactação, basicamente causada pelo maquinário, pelo tráfego de máquinas. O maquinário é o chamado fator ativo. Então, a compactação, ela depende da carga sobre o implemento, do pneu, do rodado, da pressão de inflação nos pneus e da patinagem. Uma questão bastante interessante, nós podemos dizer que o mesmo solo, ele pode ser altamente suscetível à compactação ou altamente resistente à compactação, depende da sua umidade. Depende da umidade na qual foi feita o tráfego da máquina. Então, observem aqui um latossolo típico do Cerrado. Tá? Quando com umidade abaixo de 18%, o teor de água abaixo de 18%, o solo apresenta baixo risco de compactação. Ele está seco, só que apresenta maior demanda energética. Um solo seco é mais duro, mais difícil de parar, gradear, enfim, e até plantar. Quando esse solo está com o teor de água entre 18 e 24%, ele está no estado friável, ou seja, ele tem um menor risco de compactação e menor demanda. Ele apresenta menor demanda energética, é mais fácil trabalhar esse solo. Então, seria o ponto ideal para tráfego de máquinas. Em teores de água acima de 24%, o solo já se encontra no estado plástico. Ele é um solo mais propenso à compactação, elevado risco de compactação e apresenta maior demanda energética, porque a maior parte, o trator patina mais, então acaba gastando mais combustível.
Por que estamos falando isso? Falamos um pouco sobre a questão da safrinha, que foi uma evolução nos nossos sistemas de produção, mas também ocorre o risco quando esta safra é colhida sob condições de umidade elevada. Safrinha plantada sob condições de umidade de solo mais elevada. Então, isso pode potencializar os riscos de compactação. Então, é importante redobrar os cuidados quando a colheita da safra, a semeadura da safra foi feita em condições do solo úmido. Então, tem que evitar o tráfego. Se não for possível, adotar outras medidas como o uso de pneus de alta flutuação ou mesmo tráfego controlado, que é um conceito que bastante recente no Brasil, pelo menos, né? Que seria o tráfego controlado. Essa foto, ela não é no Brasil, é um observa aqui os rastros da máquina. Então, é feito um ajuste nas bitolas do maquinário. Então, todas as máquinas vão trafegar nos mesmos trilhos. Então, nós teremos zonas trafegadas com o solo compactado e zonas sem tráfego, com o solo em boas condições. Isso está mais avançado programas na Austrália, alguns países da Europa, tá? Requer padronização de bitolas, larguras de pneus ou esteiras, uso de GPS RTK, que já é uma realidade em alguns produtores aqui no Brasil, mas aí não está ao alcance de todos. O piloto automático, operação no sentido das linhas. E no Brasil, está mais adiantado, está mais avançado na cultura da cana de açúcar, com o tráfego mais concentrado nas entrelinhas. Então, foi possível, em alguns trabalhos de pesquisa, demonstraram que para a cana de açúcar, apenas controlando o tráfego, concentrando-se o tráfego no centro das entrelinhas, foi possível aumentar a produtividade em 20% sem usar mais fertilizante ou mais insumos, apenas minimizando a compactação próximo às linhas ou o pisoteio, chamado tráfego na linha, que causa o abalo de soqueira.
E já finalizando a nossa apresentação, a conservação do solo e da água nas áreas incorporadas ao processo produtivo é crucial não apenas para garantir a produtividade e a estabilidade da nossa cultura, mas também para minimizar a pressão sobre as áreas nativas e contribuir para a disponibilidade dos recursos hídricos num curto e médio prazo, né? Apenas a aplicação correta de tecnologias já existentes poderia proporcionar bons resultados. Essas tecnologias já estão disponíveis, mas pensando no longo prazo, ainda são necessários investimentos em pesquisa para garantir que a produtividade e a sustentabilidade da nossa cultura a longo prazo. Esses investimentos em pesquisa são fundamentais.
Eu gosto muito dessa frase de um filósofo francês, René Descartes: "A agricultura foi a maior invenção da humanidade, tão grande que ainda nem terminou de ser inventada." Ou seja, nós inventamos a agricultura há mais de dez mil anos atrás e continuamos inventando, porque sempre há algo que melhorar, sempre há algo para inovar. É, e nós precisamos inovar justamente para enfrentar os desafios que encontraremos pela frente.
Desde já, eu agradeço a sua atenção. Espero que essa apresentação tenha contribuído para que você formular suas ideias, seus conceitos da base do solo, da importância da conservação do solo na sua vida e na vida de todos nós. Muito obrigado.