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Esse não é mais um vídeo falando mal do cigarro. Pelo contrário, no vídeo de hoje, eu vou te contar como o cigarro está abarcando mais tecnologias para se tornar mais interessante e mais viciante para os fumantes.
Pode não parecer, mas o cigarro tem tanta tecnologia envolvida quanto o seu carro. E é justamente aí que tá o perigo, galera. Quais tecnologias são essas? Como a indústria está se reinventando? Por que sabores como baunilha, caramelo e até unicórnio estão começando a fazer parte de produtos de tabaco? Afinal, eles não são só tabaco enrolado em papel: são produtos desenhados para atrair e viciar. Essa é a engenharia do vício.
À primeira vista, o cigarro parece um produto simples. Trata-se de um tubo de papel especial, carregando um filtro e folhas de tabaco moídas. Mas esse é o truque: o cigarro não é algo natural. Ele é um projeto minucioso de engenharia desenhado para capturar a sua mente. E tudo começa antes mesmo da planta do tabaco nascer.
É do tabaco que vem a nicotina, que é responsável pelo sabor amargo e pelo vício. E a nicotina nada mais é que uma defesa natural da planta, produzida quando ela sofre algum dano. Só que a indústria aprendeu a hackear essa defesa. Durante o plantio, os agricultores machucam intencionalmente a planta. Cortam, podam, fazem uma lesão para estimular ainda mais a produção de nicotina. Mais nicotina por planta significa mais poder de vício. E é isso que interessa.
O problema: nicotina é uma substância de gosto amargo, tão amargo quanto o pior café preto de beira de estrada que você já tomou na vida. É por isso que durante a etapa de secagem das folhas, a indústria testou e continua testando variações milimétricas de temperatura, tempo e ventilação para reduzir o amargor. Tornar o vício… mais palatável.
Mas o grande truque mesmo está na queima do cigarro. Folhas secas queimam rápido demais e geram muita fumaça. Então o cigarro moderno ganhou retardantes de chama, como o fosfato de amônio e fosfato de sódio, que controlam o ritmo da combustão. Tudo calibrado pra ele queimar de forma constante, do começo ao fim. Parece um detalhe qualquer, mas todo esse controle da queima, exigiu um baita investimento científico em pesquisas, que inclusive, culminou em várias outras substâncias adicionadas com um propósito diferente.
A amônia, por exemplo, é incorporada ao tabaco para converter a nicotina em uma forma que é absorvida mais rápido pelos pulmões. O ácido levulínico é colocado para reduzir a dureza da nicotina, para que ela deixe menos gosto na boca. São adicionados açúcares para tornar a fumaça mais suave e mentol para anestesiar a garganta e diminuir a irritação. Tudo milimetricamente calculado para disparar o sistema de recompensa do cérebro sem causar desconforto.
O problema é que o cérebro se adapta rápido a essa recompensa e logo pede doses maiores de nicotina em busca do mesmo efeito. Ou seja, não é que você se vicia porque o produto é bom e prazeroso. Você se vicia porque o cigarro foi desenhado exatamente pra isso. Não conseguir parar de fumar não é uma falha sua. É o sucesso deles.
Mas nem todo mundo foi fisgado por essa tecnologia. Mascarar o sabor amargo e áspero não era suficiente para algumas pessoas que se incomodavam bastante com o cheiro e o gosto. Foi quando, ainda na década de 70, os engenheiros do vício decidiram incorporar mais uma tecnologia ao cigarro: os novos aditivos de sabor. Baunilha, caramelo, menta, mel, cereja. A solução para reinventar o cigarro, atrair novos fumantes e manter quem já fumava mais preso no vício.
Eu sei que hoje é fácil pensar em cigarros com sabores por conta dos narguilés e vapes, que estão por aí com mais de 10 mil sabores. Mas essa novidade surgiu muito antes, com versões saborizadas do cigarro tradicional. Baunilha, caramelo, mel, cereja… Colocaram perfume até na embalagem. Assim quando você abre, vem aquele cheiro bom. Um convite pra tragar.
Só que preservar o sabor e o cheiro no próprio cigarro era algo tecnicamente difícil, porque do momento da produção até a hora do fumo, poderia demorar meses. Era preciso uma inovação ainda mais tecnológica… e traiçoeira. Cápsulas de sabor. Pequenas bolinhas concentradas que vinham embutidas no filtro, e que o fumante pode estourar na hora de fumar, liberando todo o sabor. E não era só no cigarro pronto. Essas cápsulas também passaram a ser vendidas separadamente, permitindo que até os fumantes mais “raiz”, que enrolam o próprio cigarro, criassem suas próprias combinações. Um toque de baunilha aqui, um mentol ali um playground aromático criado pela engenharia do vício.
A novidade fez e ainda faz sucesso, especialmente entre os jovens, e também abriu caminho para experimentações. Quer misturar morango com menta? Fácil. Quer testar o sabor “purple mix”, “wild mix” e “fresh ice”? Beleza! É só comprar um cigarro com sabor, apertar a cápsula e o sabor é liberado na hora. Sabores que não existem na natureza, mas que geram sensações agradáveis, limpas, frescas, o oposto do que um cigarro realmente é.
O avanço na venda de cigarros com aditivos saborizados de fato ajudou a fisgar o público jovem no mundo, inclusive no Brasil. Uma pesquisa de 2012 com brasileiros de 13 a 15 anos mostrou que mais da metade prefere cigarro com sabor. Pessoal, são adolescentes, que não deveriam nem estar fumando, mas que já foram capturados pelos sabores, já que 90% dos fumantes começam a fumar antes dos 19 anos. Não é à toa que a OMS considera o tabagismo uma doença pediátrica. E pior. Uma vez fisgado por essa armadilha, sair dela se torna ainda mais difícil, já que pessoas que começam fumando cigarro saborizado têm o dobro de dificuldade de largar no futuro.
Veja, os aditivos de sabor são MAIS uma porta de entrada para o mundo do cigarro, que é acima de tudo uma droga. Estamos falando de componentes que facilitam a iniciação de jovens e atrapalham a vida de quem quer parar. Pessoas que, provavelmente, nunca fumariam se não fosse pelo sabor. Ou então que deixariam o cigarro de lado porque não tiveram uma experiência tão agradável fumando. Transformar um produto tóxico em algo que lembra sobremesa e outros sabores doces é um truque de mestre… ou de vilão.
E o que atrai tanto é, além do sabor, a percepção de que eles geram menos risco do que os cigarros sem sabor comuns. O que está completamente errado. Trata-se de um produto viciante e extremamente danoso cujo resultado é uma exposição maior a riscos de doenças como câncer de pulmão, bronquite, doença pulmonar obstrutiva crônica, e enfisema. No fim das contas, os estudos mais recentes apontam que, mesmo com a redução do número de fumantes devido a políticas públicas de combate, o cigarro ainda causa 174 mil mortes por ano no Brasil e um prejuízo anual de 112 bilhões de reais.
É por essas e outras que, em 2012, a Anvisa tentou avançar com uma das medidas mais ambiciosas do mundo para a prevenção contra o tabagismo: proibir o uso dos aditivos de aroma e sabor em produtos derivados do tabaco. Mesmo assim, entre 2012 e 2023, a indústria do cigarro conseguiu registrar mais de 1100 produtos com aditivos que já estavam na lista da Anvisa para serem banidos. Ou seja: a regra foi criada, mas nunca saiu do papel.
Por quê? Se já sabemos dos perigos e surgiu uma medida para frear esse mercado, por que os cigarros com sabor continuam à venda no Brasil? A resolução da Anvisa de 2012 é uma das mais avançadas do mundo, pessoal. Mas por meio de uma série de ações judiciais e estratégias políticas, as empresas de tabaco conseguiram adiar por tempo indeterminado a implementação efetiva da medida. O caso foi parar lá no STF e segue lá até hoje, 2025.
Uma das alegações da indústria é que a resolução da Anvisa viola a liberdade do consumidor de escolher o que quer consumir. Mas… é mesmo liberdade quando a pessoa está tomando decisões de compra baseada no vício? Outra alegação é de que muitos aditivos já são usados na indústria de alimentos, então não teria problema colocar no cigarro. Mas perceba que uma coisa é você consumir aditivos pela alimentação. Outra completamente diferente é INALAR. Ao serem absorvidas no intestino, as substâncias passam primeiro pelo fígado, onde a maioria é metabolizada, antes de ir para o sangue. Quando você inala fumaça, o que quer que tenha no cigarro vai direto para a circulação na sua forma original, podendo chegar a todos os órgãos, inclusive o cérebro. Essa é a explicação do porquê o cigarro não apenas vicia, mas está por trás de vários tipos de câncer, além do câncer de pulmão.
Enquanto a indústria atrasa o julgamento, ela mesma registra cada vez mais produtos que criam um novo ciclo de dependência. Uma séria ameaça à décadas de progresso no controle do tabagismo no Brasil. A tecnologia não está sendo usada para salvar vidas, mas para viciar uma nova geração. Enquanto a ciência e políticas públicas são alvos de sabotagem, as pessoas seguem inalando nicotina com gosto de morango. O cigarro é o mesmo, só mudou o sabor. Isso não é inovação, é retrocesso e todo cuidado é pouco. Até quando vamos aceitar a engenharia do vício?
É por isso que é tão importante a continuidade do julgamento sobre a resolução da Anvisa, que proíbe os aditivos de aroma e sabor nos cigarros. Precisamos de uma aplicação efetiva de políticas públicas. Eu prometi que esse não seria mais um vídeo para falar mal do cigarro, eu acho que essa abordagem pode afastar quem mais precisa ouvir. Por isso, eu vou por outra linha: qual foi a última vez que você viu alguém fazer um alerta sobre cigarro ou narguilés com sabor? Campanhas educativas nos espaços públicos, escolas, redes sociais?
Se você é pai, mãe ou alguém que tem contato com crianças e adolescentes, aproveita para falar com eles sobre os riscos dos produtos de tabaco, incluindo os com sabor. Algumas pessoas tem medo de despertar o interesse dos jovens para esses produtos ao falar sobre o assunto, mas é justamente tratando o tema como tabu que você cria uma distância do jovem e desperta ainda mais curiosidade.
Para você que conhece alguém que fuma, ou que já fuma, saiba que nunca é tarde para parar. De 2 a 3 meses sem cigarro, sua circulação e capacidade pulmonar já melhoram. Em até 2 anos, a sua traqueia volta ao normal, a tosse e a falta de ar diminuem e o risco de ataque cardíaco cai drasticamente. 5 a 10 anos, o risco de câncer de boca, garganta e cordas vocais é reduzido pela metade. E 15 anos depois de parar de fumar, o seu risco de ter uma doença cardíaca volta a ser praticamente o mesmo de alguém não fumante.
Me conta o que você acha que pode ser feito para reduzir o tabagismo ainda mais e saiba que você não precisa esperar de braços cruzados, torcendo para que os políticos tomem as medidas que você apoia. Você pode apoiar organizações como a ACT Promoção da Saúde que trabalha incansavelmente para transformar essas propostas em políticas públicas. Se quiser conhecer, o link para o site deles está na descrição e continue comigo nesse vídeo aqui, onde eu falo sobre o risco de deixar os nossos jovens expostos… às redes sociais, um tema abordado muito bem na série Adolescência. Um grande abraço. Manda esse vídeo no seu grupo de amigos e familiares para essa mensagem chegar mais longe e siga o Olá, Ciência, se inscrevendo no canal. Tchau.