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Boa noite, pessoal. Sejam bem-vindos aqui a mais um encontro, mais uma aula no nosso clube de leitura. Muito obrigado pela presença de vocês. Boa noite a todos que digitaram aqui no chat de mensagens. Agradeço mais uma vez e estar aqui com vocês em mais uma noite de muita sabedoria, de muita filosofia, de muito estoicismo, que é o nosso tema do livro deste mês.
E eu gostaria de saber de vocês, quem já concluiu a leitura? O livro é bem curtinho, vocês viram lá que o PDF tem apenas 15 páginas, então acredito eu que muitos já até finalizaram a obra, já leram todos os aforismos. E com base nisso, eu tinha dito para vocês na última aula, que foi a primeira, como que essa leitura ela seria muito mais verticalizada do que horizontal, ou seja, não era um capítulo após o outro, mas sim uma leitura mais densa de você pegar uma reflexão, aprofundá-la na sua vida, colocá-la em prática e assim por diante para que o estoicismo, essa filosofia tão prática, como falamos na primeira aula, se torne uma coisa do seu cotidiano.
Então, muitas pessoas já comentaram aqui. O Tarciso disse que está lendo novamente, a Vera já concluiu, o Adelino também, o João disse que ainda está lendo. Perfeito, pessoal. No tempo de vocês, como eu disse, essa leitura aqui, ela não vai ter um ritmo como nós tivemos na anterior, Memórias do subsolo de Dostoyevski.
E já falando um pouquinho sobre o nosso encontro de hoje, falaremos sobre Epicteto e a liberdade interior. Vamos aprofundar um pouquinho na filosofia de Epicteto, não mais no contexto histórico, não mais na biografia do personagem de Epicteto, do nosso filósofo. Vamos falar um pouquinho sobre as ideias dele e eu estou aqui com o nosso material de apoio, que é o material de apoio da nossa Academia Filosófica.
Como eu havia dito com vocês, o livro é curtíssimo, então não tem muito sentido eu ficar batendo nas teclas que o livro já bate. Se eu for pegar aforismo por aforismo e falar de parte por parte, como fizemos nos capítulos de Memórias do Subsolo, por exemplo, as aulas ficarão bem monótonas e repetitivas. Então, vale muito mais a pena falarmos sobre a temática geral do que sobre o livro estritamente.
Então, falaremos sobre o estoicismo mais uma vez, por isso que o nome está aqui, Academia Filosófica, porque esse material é de um outro curso nosso, onde estudamos a história da filosofia corrente por corrente, pensador por pensador, de maneira mais abrangente, de maneira mais geral, digamos assim. Então, quem quiser saber mais sobre esse curso, me chame no privado que eu apresento para vocês com todo o carinho. Esse curso ele aborda desde da introdução ao filosofar até os pensadores mais modernos e contemporâneos. Então vocês que são do clube de leitura tem até 50% de desconto na assinatura dele.
Mas falando sobre o que realmente importa hoje, vamos lá para a nossa temática que é a liberdade interior através de Epicteto. Epicteto está aqui, o nosso grande pensador que foi um escravo, foi alejado, foi exilado, sofreu muitíssimo na vida e era o histórico de maneira encarnada. Estamos aqui com o nosso material de hoje. Só vou fechar o chat de mensagens para que possamos prosseguir sem interrupções e no final, como de costume, eu abro a dinâmica para vocês. Vamos lá.
O ponto de partida. Com Epicteto, o estoicismo assume sua forma mais prática. A filosofia deixa de ser apenas compreensão do mundo e se torna critério para viver. Exatamente o que falamos na última aula ali no período helenístico, quando os pensadores se voltam para as problemáticas da vida após a queda da democracia, após a ruptura da cultura grega com o governo de Alexandre, o Grande. Tudo isso que nós já falamos na aula anterior, mas aqui com Epicteto, a filosofia histórica, sendo mais específico, ganha uma conotação de assese.
Que que é assese, professor? Assese é a palavra grega que significa treinamento. Os cínicos tratavam a sua filosofia como uma filosofia treinada, uma filosofia praticada, executada. Exatamente o que acontece com o estoicismo, mais precisamente em Roma, através de Epicteto. Então, não era apenas o fator retórico, mas também o fator de ética, você agir de maneira histórica e não só falar de maneira histórica. A filosofia deixa de ser essa compreensão teórica e começa a ser uma prática de vida, um critério para se viver.
E tudo começa com uma distinção fundamental apresentada bem no primeiro capítulo, no primeiro aforismo do manual de Epicteto. Algumas coisas dependem de nós e outras não. Nós chamamos isso de dicotomia do controle, a dicotomia do controle histórica. Essa divisão não é apenas psicológica, não é apenas teórica, mas estrutural. Ela define dois campos: o da liberdade e o da necessidade.
O corpo, os bens, a reputação, os acontecimentos externos pertencem ao segundo, ou seja, não dependem de nós todas essas coisas. Como assim, professor? Nem o meu corpo, nem o seu corpo. Você pode ser a pessoa mais saudável, mais treinada, a pessoa que tem os melhores índices hormonais e ainda assim descobrir um câncer, descobrir uma doença terminal ou algo do gênero que estava fora do seu controle.
Então, percebemos que pouquíssimas coisas dependem de nós. E é justamente aí que reside a nossa grandiosidade. O fato de você não poder controlar muitas coisas é o fato que faz de você um ser humano poderoso. E como assim, professor? Poderoso? Isso não é contraditório, nunca, porque a grandeza do ser humano está em reconhecer a sua pequenez. Quanto menos você tem, mais valioso é aquilo que você tem. Quanto menos você controla, mais valioso é aquilo que você controla, porque nós temos esse limite, nós temos a escassez.
Então, quanto antes eu perceber que a vida depende pouquíssimo de mim e aquela pequena parte que é o meu pensamento que vamos falar agora, ou seja, já nossos julgamentos, escolhas, atitudes pertencem ao primeiro, ou seja, dependem de nós. Julgamentos nada mais são do que a forma como você julga e interpreta a realidade, interpreta aquilo que está fora do seu controle. Suas escolhas, o que você decide fazer e o que você decide não fazer. E as suas atitudes, as suas ações, as suas execuções, essas coisas dependem de ti.
Então, essas coisas precisam ser melhores valorizadas, precisam ser privilegiadas para que você entenda que a vida é como uma grande alocação de recursos. Quanto mais eu foco no que eu não posso controlar, menos controle eu tenho. E quanto mais eu foco no que eu posso controlar, menos eu me perturbo por coisas que não estão no meu controle. Então você começa a reparar que é na pequenez que reside a grandiosidade do ser humano.
Epicteto escravo, ou seja, ele não era dono do controle nem da própria liberdade social. Ele também era aleijado, não era dono da liberdade física. Ele foi exilado, não era dono da liberdade legislativa, ou seja, nem no campo jurídico. Ele não era livre em campo algum, mas era livre dentro de si. E era ali que estava o valor de Epicteto.
Então, entendemos que boa parte da vida, 99.9% dela não estará em nosso controle. Mas aquele 0.01% que você controla é o que importa. É o famoso princípio de Pareto. Não são as quantidades que importam na vida, mas a qualidade, aquela pequena coisa que você consegue manejar, executar e modificar ante aquilo que é incontrolável.
A partir disso, Epicteto redefine a liberdade. Ela não está em controlar o mundo, mas em reconhecer onde o controle é realmente possível. É aqui que está a real liberdade do ser humano. O homem mais livre não é aquele que pode fazer de tudo. Porque esse que pode fazer de tudo, muito provavelmente será um tirano. Será um homem que não controla a si mesmo. O homem mais livre é aquele que entende o tanto que ele não pode controlar, o tanto que ele não pode fazer, porque esse reconhece os próprios limites.
A mesma antítese que nós temos no caso da sabedoria. O homem mais sábio não é aquele que sabe de tudo, é aquele que reconhece o quanto não sabe. Então a liberdade começa a ser um fator muito mais despertado, muito mais cultivado de dentro para fora do que buscado de fora para dentro. E aí nós entendemos como Epicteto, sendo um escravo, é uma figura identitária para classificar, para categorizar o que chamamos de liberdade.
E continuamos. A prohairesis, o centro dessa liberdade é a prohairesis, a faculdade racional de escolha. Prohairesis do grego significa isso: escolha racional, discernimento racional. É nela que julgamos, aceitamos ou recusamos aquilo que nos acontece. Nada externo pode atingir diretamente essa dimensão. Os acontecimentos nos afetam, mas não determinam automaticamente nosso modo de responder.
Você pode perceber que lá atrás, muitas vezes na sua vida, quando alguém te provocava, quando alguém te irritava, você já dava na lata, você já brigava, já respondia, já criava um escarcel, um alarde. E hoje você não é mais assim. Hoje a pessoa fala para você, você fala: "Caramba, é mesmo, fulano? Isso é porque você nem conhece meus outros defeitos porque senão você falava muito mais". Aquilo entra por um ouvido, sai pelo outro, você pouco se importa, absorve o que é aprendizado e joga fora tudo aquilo que é desprezível, porque você amadureceu. O seu julgamento, a sua prohairesis estão mais calibrados.
O que que significa, professor, prohairesis? A forma como eu interpreto, a forma como eu vejo, a forma como eu enxergo e aceito a realidade. A prohairesis é moldável, ela é adaptável. É tudo aquilo que eu consigo discernir da realidade a partir da minha visão. Um exemplo que Epicteto deixa em sua obra, lá no aforismo de número nove, ele diz assim: "A doença é um obstáculo para o corpo, não porém, para a vontade, a não ser que esta a queira." A sua mente, diante de Epicteto, diante dos históricos, ela é uma mente livre, a não ser que ela mesma se aprisione a partir de um julgamento deturpado. "A claudicação é um obstáculo para as pernas, mas não, porém, para a vontade." Epicteto era um aleijado, mas ainda assim se considerava livre. E diz isso diante de cada um dos acontecimentos que o atingem a ti.
E com efeito descobrirás que algo serve de barreira a alguma outra coisa, mas não a você. Resumidamente, as coisas podem acontecer da forma que aconteçam, mas ainda assim você tem uma liberdade interior e uma capacidade de julgar cada acontecimento de maneira maleável e de maneira adaptável a partir de uma prohairesis, uma racionalidade. Ou seja, eu fui demitido. Eu posso levar isso para o campo emocional ou para o campo racional. A emoção vai querer que eu brigue, vai querer que eu chore, vai querer que eu reclame, vai querer que eu faça um escarcel. E tudo isso é comum, é natural. Nós não devemos castrar nossas emoções, mas devemos entendê-las, devemos direcioná-las e agir com a razão.
O que a razão vai dizer nesse caso? Eu fui demitido por conta disso e disso, daquilo. Vou melhorar nesses aspectos. Caso eu não tenha que melhorar, vou me qualificar, vou fazer uma faculdade, vou abrir meu negócio, coisas do gênero. A vida termina. Isso é um fator determinístico. Nós não podemos mudar. Mas o que eu vou fazer a partir do final da vida? Nós temos várias culturas africanas que ao invés de termos ali um funeral em que todo mundo veste preto e choramos pela pessoa que partiu, nós fazemos festa para festejar a vida que ela viveu. É o mesmo fator, é o mesmo elemento, é o mesmo acontecimento, a morte, mas julgamentos diferentes.
Então você começa a entender que a vida ela é estática, mas a forma como você a percebe é uma forma variável. Cada um tem sua opinião, cada um reage de uma maneira. E aí que você começa a entender que a autorresponsabilidade e a liberdade surgem de dentro quando eu entendo que não é sobre o que me acontece, mas sobre como eu julgo e lido com o que me acontece. Porque a doença pode ser um fator determinante para o corpo, mas não determinante para a minha razão, para a minha vontade.
Exatamente o caso que foi levantado aqui na última aula, eu me esqueci o nome da aluna, mas caso ela esteja aqui, ela poderá falar depois, que ela perdeu a visão do dia para a noite. E ela disse: "O quê? Eu não estou me importando com o que me aconteceu, mas como eu vou reagir diante disso?" Foi um relato belíssimo de maneira encarnada o que estamos falando aqui.
Então, continuamos. Nada externo pode atingir diretamente essa dimensão. Os acontecimentos nos afetam, mas não determinam diretamente nosso modo de responder. Ou seja, eles influenciam, mas não vão determinar. O que vai determinar é a forma como você vai agir e julgar. Por isso, Epicteto insiste: o verdadeiro dano não está nos fatos, mas no juízo que fazemos deles.
Você já percebeu que muitas vezes nós temos uma incrível capacidade de multiplicar os problemas? Uma certa vez eu era muito novo e desde novo eu fui mandado para cursos. A minha mãe sempre me mostrou o caminho do estudo, do trabalho. Eu fazia um certo curso de inglês e tinha uma apresentação muito importante nesse curso. Eu tinha 11 anos na época. Era um curso público que eu fazia lá no meu antigo bairro. E chegando lá, eu nervoso, tendo que falar inglês para a turma inteira, com 11 anos, sempre fui tímido, introspectivo, e eu nervoso começando a suar. 11 da manhã, fazendo 11º e eu suando bicas. E o professor viu o meu nervosismo e perguntou: "Brian, a apresentação do trabalho para você é um problema?" E eu falei assim: "Professor, para mim é, eu não queria apresentar não", falei com toda a sinceridade de uma criança. E ele foi lá e disse assim: "E você ficando nervoso não é mais um problema que você está criando?" Ou seja, eu já tinha um fato, eu já tinha um elemento, um evento que era a apresentação, só que o meu julgamento daquela apresentação ser algo ruim transformava o problema que antes era um em dois. Eu estou aumentando os problemas pelo meu julgamento.
É aquela briga que você tem com seu marido que começa desse tamanho e quase dando no divórcio. É aquele olhar meio atravessado de algum familiar seu que nem foi intencional, mas você discorre como se fosse pura falsidade. É aquele momento que você está com problema financeiro na vida e você não para para pensar que talvez o dinheiro não importe tanto o quanto você tem dado a atenção a ele e que você vai conseguir passar por isso. Porque quantas e quantas vezes você já não enfrentou um problema desse gênero.
É isso que nós estamos falando, essa capacidade de ter melhores perspectivas diante da vida. Não é um otimismo barato, não é ter gratidão perante os problemas, não é isso. É você simplesmente calibrar a sua lente para ver o fato tal como ele é e julgar a sua forma, a sua perspectiva da maneira mais maleável e positiva possível para você. Não é aumentar os problemas, é erradicar cada um deles. É isso que o histórico faz.
E continuamos. A liberdade, então, não é a condição externa, é capacidade interna de manter a coerência diante do mundo. É isso que o histórico faz. Ele mantém a sua integridade mesmo diante do caos. Nós temos uma palavra que vem da Grécia chamada ataraxia. Ataraxia significa imperturbabilidade de espírito, ter um espírito imperturbável.
Essa palavra, ela surge em um contexto bem interessante. Nós temos ali anotações de um historiador antigo chamado Diógenes Laércio. Ele era um historiador grego e certa vez ele estava em um barco junto com um filósofo, um filósofo chamado Pirro de Élides. Pirro de Élides é o pai do ceticismo, a escola que duvida de tudo. E nesse barco eles estavam navegando pelo mar Egeu e ali começou uma grande tempestade com muitos ventos, o barco quase naufragando. E ele vai reparando no comportamento de Pirro de Élides: uma serenidade mesmo diante da tempestade. E ali ele deixa em suas anotações uma palavra grega: Pirro de Élides estava em ataraxia, estava com um espírito imperturbável.
O que que significa isso, professor? A paz. E a paz, ela não vem das condições perfeitas. A ataraxia não é você ter uma vida maravilhosa, é mesmo diante da tempestade você encontrar calmaria no seu interior, encontrar integridade e coerência dentro de você, porque dentro você é livre. Pouco importa se você está na guerra, se você está na batalha, se você está no naufrágio. O que importa é como está o seu espírito, como está aquilo que você pode controlar. Porque eu não controlo a força das ondas, mas eu controlo a qualidade do meu barco. Eu não controlo para que lado batem os ventos, mas para que lado eu viro as minhas velas. É isso que nós já falamos e repetimos várias e várias vezes.
Então, entendemos que a imperturbabilidade ela não vem das condições perfeitas, ela vem da coerência interna, apesar das condições imperfeitas. O próprio Alexandre, o Grande, ali nas suas expedições, ele falava essa palavra para os seus guerreiros. Cada guerreiro deve ter consigo a ataraxia, deve ter um espírito imperturbável. Ou seja, não é na praia, não é de férias, não é quando eu tenho dinheiro, não é quando eu tenho saúde, é mesmo na doença, é mesmo na tempestade, é mesmo na guerra eu encontrar esse refúgio interior, essa coerência para reagir, apesar dos acontecimentos que muitas vezes são desastrosos na minha vida.
E continuamos. O erro fundamental da vida humana. Segundo Epicteto, a maior parte do sofrimento nasce de uma confusão bem básica. Tratamos como controlável aquilo que não depende de nós. Desejamos o que não controlamos. Tememos perder o que nunca esteve garantido. Resistimos ao inevitável e com isso tornamo-nos dependentes do instável.
Aqui nós temos mais uma palavra grega surgindo: autarquia. Autarquia significa autossuficiência. Ou você dependerá daquilo que você não controla, como por exemplo, quando você cria tantas expectativas no seu cônjuge e acaba se frustrando porque ele não fez aquilo que você esperava. Quem criou as expectativas foi você. Não que você esteja errado em esperar algo de bom dele, mas que você não pode depender 100% daquilo que não é teu. O que você teme perder se nada no mundo realmente te pertence? Ou seja, as coisas são emprestadas. A única coisa que você tem é a racionalidade. São seus pensamentos, suas ações, suas escolhas e coisas do gênero. Aquilo que depende de você.
E diante dessa confusão de tentar controlar o incontrolável, de tentar evitar o inevitável, de tentar mudar aquilo que é inalterável, é aí que o ser humano sofre, porque você acaba querendo planejar 100% do seu futuro, sendo que ele é uma incerteza. Daí surge a chamada ansiedade. Ou tentar alterar o passado que já não tem mais alteração. É daí que surge muitas vezes uma depressão. Ou tentar querer tudo na vida a ponto de se transtornar em uma pessoa obsessiva. O TOC, todos esses sintomas que são neurológicos, que são mentais, estão interligados a esses fatores históricos que estamos falando. E não só isso, mas como a busca de aprovação externa, mas como a dependência emocional em uma pessoa, mas como o medo do futuro, como todas as coisas que estamos falando por aqui.
Então, quanto antes você calibrar a sua mente para entender que existe uma pequena parcela, uma pequenina parcela que você controla, melhor sua tendência para viver nessa realidade com uma serenidade, com uma ataraxia, como estamos falando aqui. O problema não está no mundo, mas na relação equivocada que estabelecemos com ele. Corrigir essa confusão é o primeiro passo para a liberdade.
Eu citei a palavra e não acabei a explicando. Desculpa, pessoal. A autarquia, a autossuficiência significa que você busca aquilo que depende de você. Por exemplo, nessa aula, eu poderia estar mega nervoso, porque eu tenho quase 300 pessoas participando dessa aula. E eu quero agradar todo mundo. Eu quero ser um bom professor, eu quero ser didático, pedagógico, eu quero ensinar. Só que se eu fico pensando em o que cada um está pensando sobre mim, a aula não sai. Ou seja, eu busco depender de algo que eu não posso depender, de algo que não é meu, que é a opinião alheia. Eu posso chegar aqui e falar, falar em latim, falar em grego ático, explicar sobre as maiores coisas da filosofia e alguém não vai gostar da aula. E tudo bem, isso não depende de mim.
Agora, se eu chego aqui e dou o meu melhor, busco a minha autossuficiência, aquilo que flui de dentro para fora e não que eu espero de fora para dentro, é aí que reside a minha liberdade. Porque eu já entendi previamente que existem coisas que eu não controlo, como por exemplo, a aprovação de vocês na aula. E existem coisas que eu controlo, como, por exemplo, a forma como eu falo, a forma como eu penso, a forma como eu me preparei para chegar aqui hoje à noite e falar sobre esse tema. Tudo isso está no meu controle.
Então, a autarquia é uma ferramenta poderosa para você se tornar mais livre, mais autônomo, quando você consegue colocar tudo que realmente vale na vida, que no caso que estamos falando aqui, é a felicidade, é a bondade, a serenidade, essas coisas fluindo de dentro para fora. Ou seja, uma fonte que não cessa, que só depende de você. Agora, se você espera para ser feliz quando, para estar bem quando, para fazer e se alguém me fizer alguma coisa também, então esteja pronto para viver nas ondas de uma tempestade, sempre oscilando, sempre instável. Em dias bons você faz, em dias ruins você não faz. Em dias em que as pessoas te aprovam, você tá bem. Quando alguém te critica, você desaba. Você depende demais daquilo que não depende de você.
Então, é aí que está a grande instabilidade e a fonte de sofrimento para o ser humano de acordo com Epicteto. Agora, o juízo como centro da experiência. Nada nos afeta diretamente para Epicteto. Entre o acontecimento e a reação, há sempre um juízo. A prohairesis, o julgamento, a forma como interpreto a realidade. É esse juízo que transforma um evento em algo bom, ruim, injusto ou desejável. Assim, a experiência humana é mediada pela interpretação.
Como diria Shakespeare em sua obra Hamlet: "Não existe nada de bom ou de ruim, mas o pensamento é que assim o tornam." A forma como eu penso sobre algo vai determinar se aquilo é bom ou ruim. Diante do estoicismo, só deixando bem claro, os estoicos acreditavam em uma realidade completamente determinada, pura e em cor, como uma folha em branco. A cor que vai ser desenhada ali dependerá de mim. É o que eu disse: um acontecimento pode ser bom para alguém ou pode ser ruim para alguém. Você foi em uma entrevista de emprego e foi desclassificado. Você não foi escolhido para a vaga. Para você isso é um lixo, mas para a pessoa que adquiriu a vaga no seu lugar é uma bênção. Você percebe como a vida é só uma questão de perspectiva diante do estoicismo e como a forma como eu penso pode lidar muito melhor com a realidade do que as minhas emoções que são enviesadas, que são tendenciosas, em que uma coisa chega desse tamanho na minha vida e eu vou aumentando ela até se tornarem uma grande bola de neve e que eu já não consigo mais sair daquela problemática. Porque eu a aumentei, eu a multipliquei.
Então você vai reparando que o estoicismo fala muito sobre interpretação, sobre julgamento. Esse intervalo entre o acontecimento e a sua reação. Controlar o juízo não significa negar a realidade, mas examiná-la antes de reagir. Trata-se de interromper a resposta automática e introduzir a consciência. É nesse espaço que a liberdade aparece.
Os históricos eles falaram de coisas que a neurociência só foi descobrir anos e anos e anos depois, séculos depois. A nossa neurociência fala muito claramente que nós temos uma região na parte da frente da testa chamada córtex pré-frontal, uma região que só vai se maturar lá pelos 24, 25 anos de idade, na mulher um pouco mais cedo. E ela também começa a se degradar com a velhice, quando a pessoa vai envelhecendo. É uma região muito cara, fisiologicamente falando pro nosso corpo, porque essa região é dotada de pensamento lógico, de cálculo, de análise. É ali que você gasta mais calorias quando você vai pensar analisando e examinando cada detalhe.
Agora, quando eu tenho uma emoção muito elevada, por exemplo, a raiva, a ira, o estresse, que é um hormônio chamado cortisol, a primeira região a ser inibida em um pico de cortisol é o córtex pré-frontal. Por isso que pessoas raivosas, irritadiças, fazem tanta besteira, porque elas não estão em pleno ofício da razão. Então, quanto antes eu aguardar, quanto mais eu aguardar, melhores condições eu terei para reagir com mais consciência, com mais realidade. Não é um julgamento sujo e deturpado, como aquela água que é chacoalhada, que é agitada e eu não consigo ver o meu reflexo. É aquele aguardar, é o esperar, ver as coisas como são e assim poder reagir de acordo com o julgamento limpo, de um julgamento claro.
Aquela pessoa te criticou no trabalho, ela te provocou. Qual é a vontade? É sentar a mão na boca dela. É você dar um murro que a mão sai do outro lado da cabeça. Essa é a vontade que dá. Mas quando você para e pensa, essa crítica talvez seja válida. Eu errei nesse ponto, eu errei naquele momento, então eu vou adquirir isso. Mas essa pessoa ao mesmo tempo foi muito rude comigo. Então não é porque eu vou aceitar a crítica e aprender com ela que ela pode ser arrogante dessa maneira comigo. Eu vou me impor, vou falar. Olha que julgamento mais analítico, olha que julgamento mais evidente. Não é aquele murro que eu falei que você arranca todos os dentes da pessoa. É aquilo que você fez com calma, com cautela, com segurança. Ah, fazendo exatamente o que depende de você. O resto é simplesmente o resto para o histórico.
Então nós entendemos que o julgamento nada mais é do que a forma como eu consigo lidar melhor com a realidade. É esse intervalo entre o acontecimento e a minha reação, o que me dá uma liberdade, uma autonomia para não ser tendencioso ou enviesado a partir do que eu sinto ou do que eu acho naquela situação.
E continuamos, já partindo pro final do nosso momento teórico de hoje, pessoal. A liberdade como independência interior. O homem livre para Epicteto não é aquele que realiza todos os seus desejos, mas aquele que não depende de nada externo para manter a sua estabilidade, a autarquia, o que flui de dentro para fora e não aquilo que vem de fora para dentro.
Se você só está feliz quando você tem dinheiro, se você só está bem quando as pessoas estão ao seu derredor, os colegas, os amigos, se você só sente serenidade quando você não tem problema algum batendo na sua porta, a instabilidade é o resultado final de tudo isso, porque você é como uma montanha russa que só desce ante os acontecimentos da realidade. O espírito humano, ele deve ter essa ataraxia, essa imperturbabilidade de se libertar dos fatores externos para depender apenas de si.
Significa que eu não vou sofrer? Jamais. Significa que eu não vou chorar? Jamais. Significa que eu não vou reclamar? Jamais. Tudo isso faz parte. Mas como você vai lidar diante de cada acontecimento? Eu gosto muito de uma história da mitologia grega, só para trazer uma conotação mais interpretativa para vocês, que é a história de Deméter e Perséfone. Deméter e Perséfone, elas eram mãe e filha. Deméter, mãe de Perséfone, uma menina belíssima. E Deméter era a deusa das colheitas, a deusa da agricultura na Grécia antiga. Em um dado momento, a filha dela, Perséfone, uma bela filha, uma bela moça, é raptada por Hades, o deus do submundo. E ao ser raptada, aquilo causou um grande transtorno no coração daquela mãe que perdeu a filha. E como uma forma de depressão, uma forma de ressentimento, nada que plantava na terra dava fruto, porque Deméter, a deusa da colheita, estava totalmente lamuriosa.
E ali nós vemos um fator muito interessante acontecendo, que é a misericórdia. Os deuses veem aquela situação e pensam: "Se as coisas continuarem dessa forma, não haverá mais alimento para os homens. Nada será cultivado, nada irá nascer." Então nós precisamos de um pacto, de um acordo entre Deméter e Hades, já que ambos querem ali a menina, a Perséfone. E eles fazem um acordo. Perséfone passaria 6 meses do ano com Hades no submundo e 6 meses do ano com a mãe na superfície. E é daí que surgem as quatro estações diante da mitologia grega.
Enquanto Perséfone estava com a mãe, a mãe estava feliz e radiante. E ali nós temos a primavera e o verão. E quando Perséfone voltava para o submundo, é aí que a mãe voltava para a depressão. Nós temos o outono e o inverno. E qual é a lição, professor, que você quer passar por aqui diante desse mito grego? A vida ela é cíclica, ela vai ter altos e baixos. Você vai passar pelo inverno, como também vai chegar no verão. E qual é a grande lição que o estoicismo nos ensina? Não é depender dos fatores externos a ponto de ser depressivo no inverno e ser feliz no verão, porque eu não posso depender de coisas que não dependem de mim. É eu entender que no verão eu devo desfrutar o máximo que eu posso, porque aquilo passa. E é entender que no inverno eu devo me preparar o máximo que eu posso para resistir e saber que um dia vai chegar o verão. E eu não preciso criar aqui um sofrimento maior do que o necessário.
Então o estoico, ele consegue navegar ante as ondas e as tempestades da vida, porque ele pouco se importa com cada uma dessas ondas. Ele se importa como ele vai reagir, como ele vai lidar com cada uma delas. Exatamente essa questão das estações, essa instabilidade externa com essa estabilidade interna, como falamos, ele não exige que o mundo se ajuste às suas expectativas. Em vez disso, ajusta a sua relação com o mundo aquilo que é possível. Essa postura exige disciplina e lucidez. Significa abandonar a ilusão de controle e assumir a responsabilidade sobre a própria resposta.
Você quer uma fórmula grandiosa para você se frustrar? Expectativa e desejo. Essas são as duas causas para a frustração. Quanto mais eu desejo, quanto mais eu espero e quanto menos a vida corresponde aquilo que eu desejei ou esperei, maior é a minha frustração. Esse é o cálculo bem simples. Por isso que o ideal de exacerbado, o idealismo de idealizar muitas coisas, de desejar muito perante coisas que eu não controlo, é um grande risco. O histórico ele é realista. O histórico, ele vai chegar, por exemplo, no começo do ano, ele não vai falar assim: "Esse ano eu vou ler 50 livros." Essa pessoa nunca leu nenhum livro. Como que ela vai ler 50? Isso é um idealismo muito grande em demasia. Eu vou ler um livro por mês de 100 páginas cada. Isso é plausível. Isso é possível. O histórico ele se ancora com a realidade. Ele tem o amor fati. Amor fati: amor aos fatos, amor àquilo que é e não amor àquilo que parece, amor àquilo que eu idealizo, amor àquilo que eu desejo. Não, amor aos fatos. Por mais difíceis, por mais duros que sejam, mas eu vou amar cada um deles, porque eles são a única coisa que eu tenho para viver. Eu não consigo negar o fato de que a vida é como ela é. Eu não consigo negar o fato da morte. Então, o que que eu faço? Vou viver cada dia como se fosse o último. É isso que nós estamos falando, é adequar a sua régua para aquilo que você pode fazer e não para aquilo que está fora do seu domínio.
E isso é uma coisa até muito interessante para você que faz metas, que trabalha com resultados. Quanto antes você colocar os seus esforços, as suas expectativas naquilo que você controla, maiores serão seus resultados também. A pessoa que fala assim: "Eu quero emagrecer 20 kg". Isso é uma idealização, é algo que não depende apenas de você. Muitas pessoas têm condições genéticas que acabam impossibilitando o emagrecimento. Agora, se eu falo assim: "Eu vou na academia quatro vezes por semana e vou comer besteira somente no sábado", isso depende de mim. Você percebe que eu troquei a projeção pela ação, não é mais o resultado final, é o que eu vou fazer para alcançar esse resultado final por consequência. Exatamente. O exemplo que falamos lá na última aula, quando uma moça havia perguntado sobre o Instagram, sobre postar nas redes sociais, ter engajamento e etc. Não é esperar o resultado, é fazer com que o resultado seja uma mera consequência, focar no que eu controlo, no que eu posso fazer. E é exatamente isso que nós podemos aprender como a fonte da liberdade, depender apenas de si.
Nesse ponto, a filosofia como prática. Com Epicteto, a filosofia se torna exercício constante. Não basta compreender a distinção entre o que depende e o que não depende. É preciso aplicá-la. Exatamente o que estamos falando aqui. Do que adianta eu falar essas coisas para vocês durante três aulas, que serão a quantidade de aulas aí do nosso mês, sendo que no final ninguém absorveu absolutamente nada. Uma vida não examinada é uma vida que não vale a pena ser refletida, como diria Sócrates. E o próprio Sêneca tem uma frase ainda mais linda que ele fala sobre entregar uma alma melhor do que lhe foi dada. Olha como isso é belíssimo. É um progresso, é uma evolução, um desenvolvimento. É eu me tornar menos ignorante do que eu era ontem, menos vicioso, menos perturbável. E é isso que o estoicismo está nos ensinando.
Filosofar é vigiar os próprios julgamentos, resistir à reação imediata e construir uma forma de vida em que a estabilidade não dependa das circunstâncias. A liberdade histórica é exigente porque elimina as desculpas. Ela coloca no indivíduo a responsabilidade por sua própria atitude no mundo. Autorresponsabilidade. Autorresponsabilidade é igual à liberdade e liberdade é igual a autorresponsabilidade. Uma vez livre é uma vez que você é responsável por tudo aquilo que você escolhe. Porque ninguém te forçou aquilo. Foi você quem escolheu realizar daquela maneira. E uma vez que você é responsável por tudo aquilo que você faz, você se transforma em alguém mais livre, porque você não vai buscar aquilo que não depende de você. Você vai se perguntar: "O que eu posso fazer?" e não "O que a vida me dá?", "O que os outros fazem?", "O que os outros dizem?". É aí que o histórico começa a ganhar essa tal serenidade, é aí que ele começa a ganhar essa tal força que falamos desde a primeira aula até agora.
E agora algumas reflexões práticas que eu vou abrir o chat de mensagens para quem quiser responder alguma delas ou comentar sobre o livro, conversar aí entre vocês. Fiquem à vontade.
Em quais situações recentes eu tentei controlar algo que não dependia de mim? Hoje talvez você tenha feito isso. Talvez não. Eu tenho certeza absoluta que todos nós, as pessoas, as 300 pessoas que estão aqui na aula, todas tentaram controlar alguma coisa que não poderiam controlar. Todos nós fizemos isso em algum momento. E qual é a grande questão? Identificação. É você começar a tomar consciência. Como diria Dostoyevski: "A melhor forma de manter um homem preso é fazer com que ele não saiba que está na prisão." A consciência é o primeiro passo para a liberdade. Então, quando você está naquele momento extremamente difícil da vida, você tá ansioso, você tá irritado com alguém, quando você toma consciência daquela prisão e fala assim: "Caramba, eu não dependo disso, eu não controlo isso, é outra pessoa que está causando isso, é outra pessoa que pode mudar essa situação porque eu tô tão preocupado, sendo que a solução não vai partir de mim." É aí que você começa a se libertar com essa consciência.
Quando algo me afeta, eu consigo identificar qual julgamento eu estou fazendo? Isso é algo que você deve se perguntar diariamente. O que que eu estou usando? A razão ou a emoção? Meu julgamento é deturpado ou é coerente? Meu julgamento depende de mim ou está dependendo de outras coisas, de outras pessoas? Eu estou sendo instável do lado de dentro e, por consequência, levando mais estabilidade, instabilidade pro lado de fora? Esse julgamento deve ser analisado.
Eu reajo automaticamente ou consigo pausar antes de responder? Algumas questões que você deve levantar diariamente para você. Pausar antes de agir. A pausa representa nada mais nada menos do que a evolução do seu córtex pré-frontal, a reação, a normativa. Ele voltando à normalidade para você agir da maneira mais racional possível. Você pode perceber que boa parte dos erros que cometemos são assim: Aquilo acontece, em 10 segundos você corresponde. E aí depois às vezes são 10 anos, 20 anos, 40 anos, uma vida inteira pensando: "Por que eu falei aquilo? Por que eu fiz isso?" Às vezes era só questão de ganhar tempo.
O histórico entende isso também. Meu estado emocional depende mais de fatores externos ou da minha atitude? Você é aquela pessoa que acaba caindo na montanha russa, quando a vida tá boa, você tá dando risada. Quando a vida tá ruim, você tá xingando todo mundo. Como que você é? Isso é infernizante. Viver com uma pessoa assim é algo extremamente ruim. Eu não sei se você já conviveu com uma pessoa dessa maneira, uma pessoa que hoje ela tá dando risada para você e tudo tá bem, amanhã ela descobre um problema e ela já vira a cara para você também. Parece que ali naquela companhia você tem um inferno, é um demônio do seu lado. A pessoa não consegue lidar com os próprios problemas e fica despejando em você. Então isso vale a pena também ser analisado.
E agora para fechar a nossa aula de hoje, a parte teórica e já passar a palavra para vocês. A primeira pessoa que levantou a mão aqui, deixa eu só verificar, foi a Maria José. Aí eu vou passar a palavra para ela. Eu estou orientando a minha vida pelo que depende de mim ou pelo que está fora de meu controle? Eu acho que uma das piores coisas que pode acontecer na vida humana é você chegar no final e perceber que você não controlou absolutamente nada, que tudo aconteceu de maneira determinada, que tudo te influenciou, que tudo te abalou, que as suas escolhas pouco valiam porque você não fazia questão de priorizá-las e que toda aquela vida foi apenas como a vida de um de uma marionete ali, de um fantoche em uma pecinha de teatro infantil. E aí não tem mais tempo para a correção. Então que a partir de hoje você perceba se a vida está dependendo de você ou se não está.
Como Epicteto, um escravo, era livre porque ele entendeu antes de qualquer um que a liberdade não viria dos fatores externos. Ninguém é verdadeiramente livre ao ponto de poder fazer tudo o que quer, mas Epicteto entendeu que nós podemos ser menos escravos a partir da forma como reagimos, lidamos e interpretamos a nossa realidade. Então é isso que eu deixo aqui para vocês no nosso momento mais teórico de hoje. Eu finalizo por aqui, pessoal, e agora eu passo a palavra para a Maria José. Deixem comentários, deixem a interpretação de vocês sobre algum ponto. A nossa troca aqui, ela é sempre muito agradável, agrega muito para a interpretação do livro para todos nós, até porque o livro é bem aforístico, né? São frases curtas que possibilitam várias interpretações. Então isso é importante.
Deixa eu passar a palavra aqui para a Maria José. Deixa eu só ligar os microfones e aí ela já poderá compartilhar conosco a visão dela. Perfeito. Maria José, abrir aqui os microfones. Sinta-se à vontade.
>> Boa noite, professor. Eh, eu eu tô eu comprei um livro chama Diário Histórico, né? É do Ryan Holiday do Stephen Hansen, não sei se o senhor conhece, deve conhecer, né? E ele diz assim, tem uma frase que diz assim, Sêneca, né, sobre a tranquilidade da alma. "Acima de tudo, é necessário fazermos uma verdadeira autoavaliação, pois no geral pensamos que podemos realizar mais do que realmente somos capazes." Sêneca sobre a tranquilidade da alma. E aí, baseado nisso,
Eh, eu fiz um comentário, né? Eh, o homem adoeceu porque ele idealiza o seu futuro com base nas redes sociais. Ele se identifica com aquilo que ele não tem e aprisiona dentro dessa fantasia e perde a sua liberdade e morre. Ele usa a emoção, a razão. Ele não consegue usar a razão porque está mergulhado nessa fantasia. Ele perde a liberdade porque se baseia no outro, se baseia no grupo social e adoece. E essa doença hoje que abate o esse século, tanto os homens quanto as mulheres, são as depressões, são os quadros psicóticos, são as dependências químicas, né, justamente porque ele perdeu a liberdade de ser ele mesmo. Esse é o meu comentário, né, e a minha contribuição hoje.
Professor, >> maravilhoso, querida. Seu comentário citou um pouco sobre a comparação e eu me lembro da frase de Kirkard, né, que ele diz que a raiz da felicidade humana reside na comparação de uns para com os outros. A única comparação válida que nós podemos ter em nossa vida, acredito eu, muitas pessoas defendem a comparação, falam assim: "Ah, eu tenho que me comparar mesmo para eu me tornar melhor, evoluir e etc." Tudo bem. Você ter referências, balizas, é uma coisa. Agora, você querer ser o outro, ter o que o outro tem, chegar na onde o outro chegou, sem trilhar o que ele trilhou e ser quem ele é, é uma desonestidade gigantesca, porque você não é o outro. A única comparação válida é de você consigo mesmo. A mesma coisa que acontece quando eu tento medir a quilometragem de uma via com uma balança. Ou seja, o objeto é incompatível com o instrumento. Eu estou medindo o meu valor pela régua alheia. Isso não pode acontecer. Então é muito melhor você ter essa autarquia, autossuficiência e se comparar consigo mesmo, como falamos aqui, como a Maria José levantou, muito bem levantado.
E em relação ao livro, o Diário Histórico é o livro que eu utilizo diariamente naqueles videozinhos que eu envio para vocês lá de manhã nos vídeos matinais, eu utilizo ele. Os 365 dias do ano são através dessa obra do Ryan Holiday. É um livro maravilhoso, eu gosto bastante, é um autor que vale a pena ser lido, é um um autor moderno que fala bastante sobre o estoicismo. Ele tem uma grande defasagem filosófica de maneira teórica. Ele fala muita coisa que não existe ali, mas quando ele fala, eu tento corrigir, mas ainda assim a aplicabilidade que ele traz é ímpar. Agora eu passo a palavra para a Rose. Rose, sinta-se à vontade para ligar o seu microfone e compartilhar conosco o que você tem a dizer.
Boa noite a todos. Boa noite, professor. Eu queria fazer só uma pergunta de um parágrafo. Do parágrafo, Deixa me ver. Acho que eu não anotei o parágrafo e ficou um pouco de dúvida assim em mim. Por exemplo, ele diz assim: "Caso a injúria se apresente a paciência, habituando-te desse modo, as representações não te arrebentarão." Eu fiquei assim pensando, né? Como uma pessoa é injuriada, né? É tipo um falso assim, alguma coisa ruim, uma uma mentira que se levanta contra a pessoa e a pessoa tem que exercer a paciência. Como se daria essa questão, professor? Você poderia me ajudar a entender?
>> Claro, sem problemas. Se você conseguir trazer depois o número, né, do aforismo, eu consigo verificar aqui melhor. Mas em relação a críticas, em relação a injúrias, a calúnias, coisas do gênero, o próprio Platão diria: "É melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma". Sofrer uma injustiça não depende de você. Imagine que você está num relacionamento e a pessoa que está se relacionando com você te traiu um adultério. Aquilo dói demais, aquilo é uma faca nas costas. Só que o adultério diz muito mais respeito à pessoa que te traiu do que a você, porque você sofreu uma injustiça, você foi a vítima. Mas se é você quem comete o adultério, aí são outros 500. Nós percebemos que as ações alheias são ações alheias, são coisas que não dependem de nós. E quando ele diz sobre reagir com paciência, é sobre você não ser cúmplice daquilo que está acontecendo. Porque boa parte das vezes que perdemos a cabeça é por conta da concessão que nós permitimos para que a pessoa se torne ali em algum dado momento, o nosso mestre, a pessoa consiga controlar o que você está sentindo através do ato dela. O próprio Marco Aurélio nos dá uma um ensinamento muito valioso. Ele diz para deixar os erros dos outros onde os erros dos outros estão. Muitas vezes nós queremos corrigir, nós queremos mudar, nós queremos nos redimir através do que o outro fez pra gente, mas infelizmente o outro é o outro. Imagine se você pudesse controlar a todos. Seria um mundo sem graça, seria um mundo tirânico, mas a vida reside nessa liberdade, na possibilidade do outro errar com você. E aí cabe a grande questão do que nós chamamos de razão, de sabedoria, de prudência. A pessoa errou comigo, ela merece uma nova chance? Ela merece uma ruptura, ela merece uma correção, ela merece uma nova oportunidade? É você quem vai fazer essa análise. Mas a grande questão é: Eu devo reagir com virtude quem age comigo com vício. Por quê? Porque é melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma. É melhor sofrer um mal do que cometer um mal. Porque eu foco no que eu posso controlar e não no que eu não posso. E quando eu parto para esse lado mais agressivo e reajo e pago na mesma moeda que a pessoa me pagou, isso é muito perigoso, porque você acaba agindo pela instabilidade dos fatores externos, como falamos. E eu gosto até, só para fechar aqui a minha fala, eu gosto bastante, agora me fugiu da cabeça a comparação que eu ia trazer aqui para vocês, mas era nesse quesito de você agir com virtude para com o outro para que você purifique a si mesmo e não dependa dessa pessoa, não dependa do que ela faz com você. Me perdoem pessoal, acabei esquecendo aqui, é muita coisa na cabeça, desculpa.
Agora eu passo a palavra para a terceira pessoa que levantou a mão, que foi no caso aqui na minha tela não está aparecendo. Eu vou passar a palavra para a Letícia Romero e depois eu procuro a pessoa que estava >> é a Naara. Naiara Gonçalves, terceira pessoa.
>> Perfeito, Naiara, sinta-se à vontade. Obrigado, Letícia.
>> Oi, boa noite. Estão me ouvindo?
>> Sim. Então, eu tenho muito que aprender e com o Epicteto, eu vejo assim, é emocionante ele ser um escravo, saiu da escravidão, superou a maldade alheia, superou a dor e ainda transformar essa dor em um propósito de vida. Isso é muito impressionante. E a capacidade também que há a sabedoria eh transforma vidas, né? E eu separei um aforismo que eu gosto muito, que foi o 51, que ele fala dessa parte que me lembrou muito do Dostoyevski, da inércia do Dostoyevski. E em contrapartida, o Epicteto, ele fala dessa ação. Eh, recebeste os princípios filosóficos que deves aceitar e tu os aceitaste. Assim, qual é o mestre que ainda aguardas a ponto de protelares o teu aprimoramento? Não és mais um adolescente, mas um jovem plenamente adulto. Eu também gosto da parte que ele fala. É o momento de ingressares na arena, que tens diante de ti os Jogos Olímpicos, que não podes adiar mais e que há um único dia e uma única coisa a decidirem a condenação do do progresso ou a salvação. Então, assim, além dele eh do Epicteto ser uma pessoa, um autor, né, no caso foi o aluno dele, mas eh ter essa serenidade, ele também motiva a gente, né? Então, eu gostei muito dessa leitura.
>> Muito obrigado, Naara, pela sua colocação. E esse aforismo é poderosíssimo, né? exatamente que falamos, a filosofia na prática e eu me recordo bastante até do próprio Sêneca, né? Sêneca, ele dizia que enquanto adiamos a vida acelera. Nós muitas vezes negligenciamos o nosso progresso justamente nessa dependência do que não depende de nós. Quando eu tiver melhores condições, quando eu tiver isso, quando eu tiver aquilo, quando eu fizer tal coisa, o feito é melhor do que o perfeito, porque o perfeito nunca é feito. Essa frase eu levo comigo para entender que muitas vezes o primeiro passo precisa ser dado, porque um passo dado eu já não estou mais no mesmo lugar. Então é importante termos essa visão da prática da procrastinação sendo erradicada das nossas vidas para que a dependência, a autarquia somente de nós surja.
Agora a palavra para a Letícia. Pode falar, Letícia, fica à vontade.
>> Olá, boa noite. Eu queria tirar uma dúvida, eh, porque a gente sempre passa por isso, né? Aí eu passei por isso recentemente e a gente vê no livro do do Epicteto que ele fala da morte, né? E ele fala de uma forma que soa um pouco fria na questão de você, né, eh, não ligar se seu filho foi retirado, se a sua esposa foi retirada. E assim, a gente tem sentimentos, né? Como eu passei por isso de uma pessoa muito nova, eh, você sente, você tem aquele luto. Então, qual é a linha tênue, né, entre você ser histórico diante da morte e você aprender a lidar com ela de uma forma eh madura, mas também eh não reprimir os seus emoções, seus sentimentos, aquilo que a morte te traz. Então eu fiquei com essa dúvida porque tem uma linha tênue aí, né, onde que não é não sentir, porque a gente sente, a gente vai sentir a perda, mas como o histórico se posiciona, né, diante dessa questão da morte do outro, não da nossa.
>> Perfeito, Letícia. Uma pergunta muito importante, eu acredito que vai esclarecer até para todos os alunos. Primeiro, em relação a esses exemplos, né, ele acaba sendo até um pouquinho esdrúxulo. O exemplo do caramujo, o exemplo do navio, o exemplo da morte, porque eram coisas do cotidiano dele. Naquela época, uma pessoa vivia o quê? Seus 45, 50 anos no máximo. Um escravo, principalmente, Epicteto até conseguiu viver um pouquinho mais. Então, a morte era muito mais recorrente e principalmente a mortalidade infantil, né? as crianças que morriam naquela época, ele fala bastante da morte do filho. Então, se um filósofo histórico hoje falasse de rede social, era equiparadamente o que Epicteto fala do seu exemplo da morte naquela época, século I depois de Cristo em Roma. Mas qual é a linha tênue entre eu sentir aquilo que acontece e não ser dominado pelo que acontece? O Platão, ele tem uma alegoria na sua obra A República, que ele diz sobre a alma tripartite. O que que seria a alma tripartite? É a alma dividida em três partes. Nós temos a primeira parte, que é a razão, nós temos a segunda, que é a emoção. E nós temos a terceira, que é o impulso, o ímpeto, o ímpeto de agir. Essas três partes vão compor uma carruagem. E essa carruagem nós chamamos de alma. E nós temos uma divisão bem clara. Nós temos na frente os dois cavalos. que representam o ímpeto e a emoção, ou seja, duas partes da nossa alma. E nós temos o auriga, o coxeiro, que governa a carruagem, que é a parte racional. E aí vem a grande questão que nós nos fazemos desde os primórdios filosóficos até hoje. Qual parte importa mais nossa vida? Razão ou emoção? Os racionalistas vão dizer que há razão, os empiristas vão dizer que há emoção e assim por consequência. Mas a pergunta que eu te faço é: aonde que a carruagem vai chegar sem o auriga, sem a razão, sem o coxeiro? Em lugar algum, porque os cavalos vão correr desgovernados. Em que lugar nós chegaremos sem os cavalos? Em lugar nenhum, porque nós não temos força, não temos pulsão para viver. Então, a grande questão das emoções que nós temos, que é uma questão dificíima de ser praticada, não é inibir um lado ou inibir o outro, não é favorecer um lado ou favorecer o outro, é direcionar os nossos cavalos e a nossa carruagem de maneira racional para que nós possamos viver apesar dos acontecimentos, apesar das emoções. Então, eu vou sentir aquele luto, vou, porque é natural. Eu vou sentir aquela perda, vou, porque é natural. E o tempo que você precisar passar para superar o luto é um tempo válido. Não é você ficar se forçando, você se castrando, até porque aquilo que a razão não consegue corrigir, o tempo pode. Então, nem que você demore 10 anos para superar um luto e consiga viver de maneira mais saudável, mas aquilo é o seu tempo. Às vezes você perdeu uma mãe, você perdeu um pai, você perdeu uma pessoa importante, mas é sempre com essa concepção de direcionar os acontecimentos para o melhor lado possível. Os acontecimentos, não, as emoções. Perdão, pessoal. Então, qual é a lição que eu quero deixar aqui? De acordo até com a frase de Sêneca. O sábio ele sente seus problemas, mas o supera. Ele sente suas emoções, mas as direciona, mas as controla. Então não tem problema algum em você sentir, porque os cavalos são importantes. Tanto que daí surge a palavra apatia. Apatia significa ausência de emoções. É daí que surge também no termo mais da medicina uma pessoa apática. A apatia significa a ausência patos emoção. Uma pessoa apática é uma pessoa que está sem vida, uma pessoa que está sem vitalidade. Então, sem a emoção, a vida não prossegue. Como que o meu pai vai morrer? Eu não vou chorar. É impossível. Mas o que eu farei a partir disso? A pergunta que o histórico se faz para alcançar esse direcionamento da carruagem é ele se perguntar assim: "O que eu farei a partir dessa situação? Meu pai morreu, mas eu levarei o legado dele mais longe. Eu levarei tudo que ele me deixou para dentro de mim de maneira mais intensa. Eu serei uma extensão das virtudes que ele cultivou nessa vida. eu serei uma extensão do legado que ele deixou para mim e coisas do gênero. Tal pessoa acabou morrendo, mas e a vida que ela viveu? E os bons momentos? Quantas e quantas vezes vocês não riram juntos, vocês não se abraçaram, não se amaram e coisas assim. Então o estoico ele consegue direcionar não inibindo o sofrimento porque é impossível, mas ele não vai aumentar o sofrimento a partir dos seus julgamentos. Ele não vai soltar as rédias dos cavalos e deixar que corram por aí e a carruagem capote. Então é esse ponto não de oposição, mas de serem complementares. Razão a emoção. Eu sinto, mas direciono. Eu governo. Eu faço algo apesar do que eu estou sentindo.
E agora eu passo a palavra para a Carla. Carla, sinta-se à vontade, por gentileza. Só ligar o seu microfone aí no cantinho da tela e aí nós conseguiremos te ouvir. Não tá achando? Sem problemas. Então vou passar a palavra para o Adelino e aí depois nós retornamos para a Carla, caso você consiga. Perfeito. Adelino, sinta-se à vontade.
Ah, não está dando para ligar. Perdão, pessoal, desculpa, eu não me toquei aqui que eu havia desligado o microfone porque enquanto eu estava falando alguém ligou o microfone, estava com chiado. Não sei se vocês perceberam, mas eu desliguei e esqueci de ligar. Perdão, Carla. Pode ligar agora. Sinta-se à vontade.
>> Agora acho que foi. Boa noite, professor. Boa noite, grupo. Eh, eu queria comentar sobre o aforisma 27, né? Na verdade, eu queria que, se possível, a gente eh fizesse uma reflexão sobre isso. Do mesmo modo que um alvo não é fixado para não ser atingido, assim também a natureza do mal não existe no cosmos. Achei forte, né, eh, ler esse aforismo. E como a gente, né, se eu entendi bem aí do início da sua fala, né, o estoicismo ele pega muito essa questão de entender a realidade como uma folha em branco, como algo neutro, né, e a gente ampliar pro pensamento ali, né, muito além do pensamento dicotômico, né, de certo e errado, eh, justo, injusto, bem e mal, né, mas eh tem algumas coisas que assim dentro, né, da nossa, acho que até da nossa moral e da nossa ética, né, para mim, né, particularmente eu tenho um entendimento daquilo aquilo como mal, né? E como que a gente consegue ampliar esse olhar? Por exemplo, uma pessoa que comete um crime contra uma criança ou qualquer crime que seja, né? Como não como eh olhar para isso e e dissociar dessa ideia de julgamento moral, né, do bem e do mal, enfim, e ampliar um pouquinho essa reflexão, se possível.
>> Claro. Perfeito. Como você já propriamente disse, os históricos tinham essa visão mais purificada da realidade. A realidade é pura. Nós aqui a colorimos. Nós é que atribuímos à bondade ou a maldade, mas nós temos uma outra coisa que existe aqui, que é o que chamamos de antimaniqueísmo. Os maniqueístas foram pensadores que surgiram ali por volta do século 4, século V depois de Cristo, já quando Roma estava em decadência, e foram pensadores amplamente criticados por Santo Agostinho, que será um pensador que falaremos aqui. Os maniqueístas defendiam que o mal ele tem uma essência, ou seja, o mal ele existe, ele é gerado no universo já se antagonizando a Epicteto e o mal ele tem uma substância própria. Já os antimaniqueístas, que são pensadores mais clássicos, que vêm, por exemplo, através de Epicteto, eles acreditavam que o mal era do que a ausência do bem. O mal era do que um ente privativo, assim como a escuridão é a ausência da luz. A escuridão, ela não tem uma essência própria, ela nada mais é do que a ausência de fótons. Então, é aí que percebemos da onde surge essa ideia, mas principalmente através do que você disse, Carla, como a realidade sendo uma coisa pura, uma coisa que eu é quem vou colorir, eu quem vou atribuir valor e como nós podemos fazer essa essa visão. Eu já parto aqui para um ponto mais estatístico, digamos assim. Se boa parte das pessoas, a grande maioria trata aquilo como ruim, evidentemente aquilo tem uma grande chance de ser ruim, como por exemplo, uma pessoa abusar de uma criança. Não é uma opinião, é um fato. Já começa a ser um fato, porque se eu entrevistar 1000 pessoas, eu sei que 999 vão falar que isso é errado. E realmente é porque eu estou fazendo um julgamento racional perante a realidade. E aí entra a grande questão do estoicismo, que também acaba caindo em uma crítica que as pessoas fazem a ele. Se é eu quem julgo a realidade como a forma que eu quero julgar da maneira como eu a interpreto, então eu tenho uma grande amplitude para me tornar, digamos assim, um niilista, negar coisas que importam e até negar a realidade num dado momento, porque eu posso pegar essa folha e rasgá-la, já que eu faço o que eu quero com ela. E esse é o grande risco. Só que essas pessoas que fazem essa crítica não interpretam o estoicismo da maneira como ele é elaborado, que é com base em virtudes. Os históricos eles vão buscar essa reinterpretação do real a partir do que é bom, a partir do que é virtuoso. E quando eu vejo que um fato é um fato e uma opinião que é uma opinião majoritária, uma opinião em escala, uma opinião ampliada, é uma opinião que pode resultar também em uma coisa factual, é aí que eu começo a perceber como que aquilo deixa de ser apenas uma reinterpretação do real e se torna real de fato. Resumidamente, eu posso falar aqui, ah, que o brasileiro que não lê, ele não perde absolutamente nada. ele não tá perdendo nada porque a leitura é um lixo, porque a pessoa não deve ler. Ah, é minha opinião diante da realidade, tudo bem, mas aí eu vou lá e amplio isso para dados. Eu chego a uma análise mais evidente. Ele reinterpreta, mas analisa. Eu analiso que boa parte das pessoas que passam em vestibulares são pessoas que leem os clássicos que caem nos vestibulares. Então aí a minha opinião já começa a ficar defasada. Eu percebo que boa parte das pessoas que leem tem mais senso crítico. Eu percebo que boa parte das pessoas que leem tem melhor vocabulário, tem melhor análise da realidade. Então a minha opinião deixa de ser apenas uma reinterpretação e começa a ser uma falácia. Então o estoico ele se ancora no que é real. Então nós devemos ter essa ampliação desse julgamento, como falamos aqui.
Agora eu passo a palavra para o Adelino. Adelino, sinta-se à vontade, por favor.
Muito boa noite a todos. Muito boa noite. Boa noite, professor Brian. Eh, eu, como já escrevi no grupo, tô no outono e o que tá me ensinando a apagar essa nova jornada. exatamente a interpretação e a contribuição de todos em torno da jornada que nós estamos caminhando. o subsolo humano, já vivi eh muitas angústias por opiniões alheias e hoje eh sinto que o que tá acontecendo comigo faz com que eu faça uma profunda reflexão eh de uma nova jornada. Eu fui professor universitário por 28 anos em ciências sociais Aplicadas e e nessa jornada e outras representações sempre houve a necessidade de estar em evidência e me importava muito com a opinião alheia. E hoje eu percebo que a introspecção faz com que isso me ajude a refletir sobre o reinício de uma jornada, de uma nova trajetória. Mas a minha dúvida, eh, talvez não não seja na leitura atual, é conhecimento a priori, caminhando a a posteriori no sentido filosófico. Essa é a contribuição que eu queria muito ouvir do professor. Ah, tem um tem uma razão. nessa jornada de professor universitário. E eu percebi que muitos alunos eh tinham uma grande facilidade eh na no entendimento e na compreensão e outros eh assim um uma grande dificuldade. E aí é que vem essa minha pergunta. eh conhecimento no sentido filosófico a priori, eh caminhando a posteriori. Qual é a sua contribuição nesse sentido?
>> Muito grato, meu amigo, pela sua pela sua pergunta. Deixa eu só ajeitar aqui o meu microfone. E em relação a conhecimento a priori e a posteriori, né, que foi o que você levantou, vou falar bem rapidamente porque não é a nossa temática de hoje e depois já passando a palavra para Mara, mas o conhecimento a priori ele foi muito levantado, principalmente por Kant, né? Vem através da filosofia kantiana e o a posteriori também. É um conhecimento que ele vem independente da experiência sensível, como por exemplo a matemática. Eu não preciso sentir para entender. Eu não preciso ver. Eu não preciso ouvir, eu não preciso tocar os números. Eu consigo conceber de maneira a priori, de maneira inata aquilo que eu tenho dentro de mim, de maneira independente ao que eu sinto, a minha sensibilidade, diferentemente do conhecimento a posteriori, que depende da minha sensibilidade. Por exemplo, essa mesa, ela é retangular. Eu preciso ver a mesa, eu preciso tocar a mesa. Então nós percebemos como que cada um cumpre a sua função. Por que eu sei que essa mesa é retangular? Porque antes eu já concebi de maneira geométrica o que é um retângulo. Um retângulo é uma estrutura plana que tem quatro lados em que a sua largura é muito maior do que a altura. Isso é um retângulo. E aqui eu consigo perceber que essa mesa em específico, de maneira a posteriori, ela é retangular. Então nós temos esse conjunto de sensibilidade ou não sensibilidade de maneira inata ou de maneira adquirida através das sensações. Isso é muito importante porque é uma resposta que Kant vai trazer diante de uma discussão epistemológica muito antiga, que é a discussão do racionalismo versus o empirismo. O racionalismo defendia que o ser humano apreende através da razão. A razão dá o conhecimento ao ser humano, ou seja, de maneira mais inata. O próprio René Descartes falava bastante sobre isso. E o David, o pai do empirismo, vai falar que o ser humano ele apreende através das suas sensações, das suas experiências. E aí Kant traz uma resposta e vai unir, vai complementar, vai mesclar através do conhecimento a priori e a posteriori com a sensação ou a não sensação, o núo razão e emoção.
E agora eu passo a palavra para a Mara. Mara Dias. Sinta-se à vontade, Mara, por gentileza.
>> Olá, boa noite. Boa noite a todos. Boa noite, professor. Tudo bem? Meu nome é Eugênia Lara e eu trouxe uma reflexão para eh que é para mim importante e eu gostaria da sua da sua ajuda, por gentileza. Eh, é o seguinte, 1.4 eh, pensando no arquiteto como escravo, é escravizado da onde que ele tem os limites. A fronteira dele de viver é a fronteira em que o os donos, aspas, as donas, as pessoas o o o o eh tinham sobre ele. E nesse ponto eu trouxe pra minha reflexão duas coisas. 1. O ponto quatro, quando ele coloca, quando te dispôs a realizar alguma ação, recorda-te de qual é a natureza dessa ação e se prepara. Quer dizer, ele tá preparando mentalmente sobre o que acontece. Ele coloca uma posição à sala de banho, né? que tinha as grandes casas de banho. E eu colocaria, tiraria da casa de banho e colocaria serviçal em uma em um serviço feito com um homem escravo, mas da onde que a liberdade que ele conquista tá no pensamento, ele se liberta, entend para si. e fazionais, imaginando o que ele pode acontecer de acordo com o tipo de serviço que exigiram que ele faça, né? E e como que ele dentro de si vai manter a sua humanidade, independente se ele é jogado à esquerda, à direita, ele é colocado num palco lá onde que ele tem como ordens, mas que ele para manter a sua divindade humana, é o que eu tô pensando, tá? Ele vem e fala assim: "Olha, eu tenho que exercitar a tolerância, a benevolência, né? E entender que eu estou livre, livre, livre dentro de mim. Deim, pensei, dentro de mim, de mim para mim, né? é uma é uma deve ser uma solidão desgralada daqueles que na naquela situação. Então eu eh aí entra a fala conversar com os outros. Eu quero entender exatamente isso. Esta essa situação que ele está vivendo, professor, é a tentativa de se manter eh eh como um homem livre, nem que seja dentro de si na construção do pensamento, mesmo que o mundo ao redor, que seria a realidade do do poder, era totalmente contrária a à dignidade humana deles.
Muito obrigado, Mara, pela sua colocação. O som estava um pouquinho baixo, tava dando um chiado, mas eu vou tentar responder de acordo com o que eu entendi aqui. Eu já vou finalizar aqui, pessoal. Nós finalizamos o nosso encontro. Não vou mais passar a palavra a ninguém porque o horário já está bem à frente, mas a Mara ela resumidamente, pelo que eu entendi, se estiver errado, Mara, depois você pode complementar lá no grupo de alunos, fique à vontade. Mas eu entendi que ela citou o ponto quatro, que fala sobre como nós devemos entender a natureza de cada ação de maneira prévia, de maneira preparativa para que você não venha se frustrar diante daquele acontecimento. E Epicteto cita até a casa de banho, que era onde os escravos iriam ali justamente para tomar banho. E acontecia ali aquela aquela farra, brigas, roubos, muitas vezes roubavam as roupas ali, acontecia bastante. Então o Epicteto, ele está dizendo: "Quero tomar banho e também conservar minha vontade com a harmonia da natureza, igualmente no que toca a todas as ações. Com efeito, por via de consequência, se durante o banho acontecer de te veres diante de algum obstáculo, estarás pronto a dizer. Por que estarás pronto? Porque previamente você já calculou, você já se premeditou, premeditate o malorum, premedite os males da vida. Todavia, eu não queria somente isso, mas também conservar minha vontade em harmonia com a natureza. A harmonia, essa palavra é belíssima. A Deus, ela era filha de Ares, Deus da guerra, e Afrodite, deusa do amor, deusa do sexo. A harmonia não é perfeição. A harmonia é o equilíbrio. O equilíbrio entre os lados bons e ruins da vida. Exatamente o que falamos lá da ataraxia. Quanto antes você buscar harmonia ao invés de perfeição, melhor você viverá. Viver apesar da tempestade, apesar da guerra, apesar do que é ruim. E continuamos. mas não a conservaria se me aborrecesse com os acontecimentos externos. Ou seja, a minha harmonia não estaria intacta se eu me aborrecesse com o que vem de fora, se eu fosse levado por fatores que não dependem de mim. Então, o que a Mara disse aqui, só resumindo, se estiver errado, como eu disse, Mara, depois você pode elaborar seu comentário por escrito lá no grupo. Ela resumidamente disse que Epicteto ele conseguia ter uma autonomia humana a partir da sua preparação, a partir da sua do seu julgamento, da sua interpretação da realidade e da sua harmonia interior. O que nós falamos hoje, a chamada liberdade.
Então, pessoal, eu agradeço muito a presença de vocês na nossa aula de hoje. Nossa última aula será semana que vem sobre esse livro. O livro é curto, eu não tenho mais o que ficar elaborando, colocando por aqui. Então, nós vamos falar sobre a vida histórica, disciplina, caráter e serenidade, que eu vou trazer mais alguns conceitos históricos para vocês. Nós não falamos sobre amor fati ainda como merece ser falado. Nós não falamos sobre as questões, por exemplo, do memento mori e como merece ser falado. e eu vou tentar trazer na próxima aula para fecharmos por fim a nossa abordagem e Epicteto. Por que esse livro só tem três aulas, professor? Porque o livro é curto e porque no dia 29, a última quarta do mês de abril, nós teremos uma mega aula sobre a Ilíada de Homero, uma obra grandiosíssima que inspirou, por exemplo, lá o filme Troia com o Brad Pitt, que nós temos, aquele filme de 2004, bem interessante. E eu falarei com base em obras de arte, em várias pinturas, como que a Ilíada é grandiosa no sentido literário e no sentido filosófico. abordaremos o ímpeto de Aquiles, abordaremos a honra e o dever de Heitor e abordaremos o amor de Priíamo, os três personagens centrais, digamos assim, da Ilíada no sentido filosófico. Então, conto com vocês nessa aula. Amanhã eu acredito que eu envio ali para vocês as informações principais, o horário da aula, o tema, o grupo que vocês precisarão estar para participarem da aula, porque é uma aula à parte, ela não faz parte do clube de leitura, então vocês precisarão estar em outro grupo, até porque a aula vai ser aberta ao público, não só para nossos alunos matriculados. Então não posso misturar aqui tudo de uma vez. Então eu aviso vocês com calma. Essa aula ficou gravada, esse encontro ficou gravado. Amanhã cedo, 8 da manhã, 7 da manhã, já disponibilizo a gravação para vocês. E é isso, pessoal. Espero que vocês tenham gostado. Nós estamos aqui em uma forma de prática, de ascese, de treinamento, que você possa anotar em alguma folha, algo do gênero, porque eu acho que esse exercício é muito associativo. Anote o que depende de mim, o que não depende. Anote a palavra ataraxia, anote a palavra autarquia, algo que te faça ter uma janela para você ver além da sua realidade, além daquele momento de estresse e que faça você se lembrar da aula de hoje e que você possa aplicar aquilo que nós falamos por aqui. Isso começa com dificuldade, começa de maneira pequena, não é fácil, não é simples, mas quanto mais você pratica, mais habitual vai ficando e quando você percebe, você já é um histórico em ação, em prática, em ethos. Ou seja, em ética, em identidade. Muito obrigado, pessoal. Tenham uma excelente noite, uma excelente semana e lembrem-se, não é o acontecimento que nos perturba, mas sim o nosso julgamento diante do acontecimento, como o interpretamos. Até nossa próxima quarta-feira.