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SEM DEUS NÃO HÁ LÓGICA? - UMA REFUTAÇÃO AO ARGUMENTO DA LÓGICA - Alex Malpass

David Ribeiro8:03

Transcription

E aí, pessoal? Será que dá para usar a própria lógica, as regras do nosso pensamento para provar que Deus existe? Pensa só nisso. É uma ideia assim super ousada na filosofia, mas como a gente vai ver hoje, o contra-ataque a essa ideia é igualmente poderoso.

A grande questão é essa. A nossa capacidade de pensar de forma lógica já é por si só uma prova de Deus? Tem dois filósofos, o James Anderson e o Greg Welty, que acham que sim, com certeza. Mas aí chega outro filósofo, o Alex Malpas, e diz: "Opa, calma aí, não é bem assim." E olha, as objeções que ele traz são muito, mas muito sérias.

Então, o nosso roteiro é o seguinte, bem direto. Primeiro, a gente vai entender o argumento a favor de Deus. Depois a gente vai começar a desmontar esse argumento olhando cada uma das três críticas principais do Malpas, uma de cada vez. No final, a gente vê o que sobrou. Beleza?

Vamos começar pelo argumento em si. A tese do Anderson e do Welty, que ficou conhecida como argumento da lógica, é surpreendentemente simples. Para eles, as leis da lógica simplesmente não poderiam existir se Deus também não existisse. Bora ver como é que eles chegam nessa conclusão.

O argumento deles é basicamente um silogismo, sabe? Funciona assim. Primeira premissa: Se existe algum pensamento que tem que existir, que é necessário, ele precisa estar numa mente que também tem que existir. Segunda premissa: as leis da lógica são exatamente esses pensamentos necessários. A conclusão então parece inevitável: Logo, existe uma mente necessária e para eles essa mente só pode ser Deus. Parece um cheque mate, né? Mas é aí que o jogo começa a virar.

E aqui, com as palavras dos próprios autores, a gente vê a linha de raciocínio completa. Eles fazem uma conexão direta. A lógica é uma verdade. Verdades são proposições. Proposições são pensamentos. E, claro, pensamentos precisam de uma mente por trás. Cada um desses elos da corrente é fundamental pro argumento funcionar. E é exatamente aí que o Alex Malpas vai mirar. Ele vai atacar cada um desses elos, um por um. E aqui começa o contra-ataque.

O primeiro alvo do Malpas é a base de tudo. Essa ideia de que as leis da lógica são metafisicamente necessárias, sabe? A crença de que elas são verdades absolutas em qualquer universo possível. Mas será que são mesmo? A prova que eles dão para essa tal necessidade é um desafio para a sua imaginação. Eles basicamente dizem: "Tenta aí, tenta imaginar um mundo onde uma coisa pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo". Você não consegue, né? A lógica deles é essa: se a gente não consegue nem imaginar, então simplesmente não pode existir.

E olha só que exemplo perfeito do problema que o Malpas aponta. Pro Kant, um dos maiores filósofos de todos os tempos, a ideia de uma geometria não euclidiana, onde retas paralelas se encontram, era loucura, era inconcebível. Hoje a gente sabe, graças à teoria da relatividade do Einstein, que o nosso universo funciona com essas regras malucas. A lição aqui é bem clara. Só porque a nossa mente tem um limite e não consegue conceber algo, não quer dizer que seja impossível na realidade.

E o Malpas acha mais um furo aqui. O Anderson e o Welty dizem que o argumento deles funciona para qualquer lei da lógica. Só que a única justificativa que eles dão pra necessidade se baseia na impossibilidade de imaginar uma contradição. E se alguém, tipo esses lógicos que estudam sistemas com contradições, os dialeteístas, simplesmente virar e falar: "Ah, mas eu consigo sim imaginar". Pronto, o argumento inteiro da necessidade deles desmorona.

Vamos para a segunda grande objeção. E aqui o Malpas ataca o que talvez seja o pulo mais importante do argumento. Essa ideia de que as leis da lógica, por serem proposições, tem que ser obrigatoriamente pensamentos. Pra gente entender isso, a gente precisa de um conceito chave: intencionalidade. É o nome chique da filosofia para uma coisa simples, a propriedade de algo ser sobre alguma outra coisa. Meu pensamento sobre pizza é intencional. A frase "O gato está no telhado" é sobre o gato. As leis da lógica, então, são sobre a verdade.

E aqui tá o pulo do gato do Anderson e do Welty. Para eles, qualquer coisa que tenha essa característica de ser sobre outra coisa precisa ser um pensamento, algo mental. Mas o Malpas devolve a pergunta: "Ué, por quê? Será que não pode existir algo que aponta para outra coisa, que é sobre outra coisa sem ser um pensamento?"

O Malpas usa a teoria do filósofo Fred Dretske como um contra-ataque perfeito. Pro Dretske, intencionalidade é só carregar informação. Pensa na fumaça. A fumaça carrega a informação sobre o fogo. Ela indica que tem fogo ali, mas a fumaça não pensa. Se essa ideia do Dretske estiver certa, a conexão obrigatória entre ser sobre algo e ser um pensamento acaba de ser quebrada.

E não para por aí, não. Pensa em 2 + 2 = 4. Isso é um pensamento privado, só seu. O grande lógico Gottlob Frege diria que de jeito nenhum. A graça de uma proposição como essa é que ela é pública. Todo mundo pode entender a mesma ideia. Já os meus pensamentos, ah, esses são só meus. Então, pro Frege, essas proposições não são pensamentos de ninguém. Elas existem num tipo de terceiro reino abstrato que todo mundo pode acessar.

E agora a gente chega no clímax da crítica do Malpas. Ele vai apresentar o que ele acha que é um dilema fatal para essa ideia de que as leis da lógica são os pensamentos de Deus. É o golpe final. Para se defender das outras críticas, o Anderson e o Welty fazem uma concessão bem importante. Eles separam o ato de pensar, que é privado, do conteúdo do pensamento, que pode ser público. Eles precisam dessa separação pro argumento deles não cair antes.

O problema é justamente essa separação que o Malpas vai usar para montar a armadilha final dele. E aqui o Malpas armou o bote com uma pergunta super simples, mas que é devastadora. Se a lei da não contradição é ela mesma um pensamento na mente de Deus, sobre o que exatamente Deus está pensando? Qual é o conteúdo desse pensamento?

E essa pergunta cria um dilema com duas saídas, e as duas são ruins. Primeira opção: o pensamento de Deus é sobre ele mesmo. Malpas diz que isso é como colocar um espelho na frente de outro espelho, sabe? Cria uma repetição infinita que nunca define a imagem original. É uma armadilha lógica. Segunda opção: o pensamento de Deus tem outro conteúdo ou nenhum. Mas aí a conexão entre esse pensamento e a lei da lógica vira uma coisa totalmente aleatória, arbitrária. De um jeito ou de outro, o argumento quebra.

Então, depois de todos esses golpes, qual é o veredito final do Malpas sobre o argumento da lógica? Para ele, a conclusão é que os três pilares do argumento simplesmente não aguentam o tranco. Primeiro, essa necessidade toda da lógica é só uma suposição baseada na nossa imaginação limitada. Segundo, a ponte entre ser sobre algo e ser um pensamento é derrubada por teorias bem plausíveis como as de Dretske e Frege. E por fim, a ideia da lei ser um pensamento de Deus te joga num beco sem saída lógica.

E essa citação resume a posição do Malpas de forma bem direta. Para ele, o argumento, por mais inteligente que pareça, não sobrevive a uma análise filosófica mais rigorosa. As bases dele são, na visão de Malpas, insustentáveis.

E tudo isso deixa a gente com uma última pergunta que é bem provocadora. A crítica do Malpas pode ser muito convincente, mas ela não responde à pergunta original. Se as leis da lógica não são os pensamentos de Deus, então o que elas são? São só uma invenção humana? São características da própria realidade? A verdade é que a discussão está longe, muito longe de acabar. E essa é a beleza da filosofia. Obrigado por acompanhar.

[Música]