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Salve, salve, pessoal! Sejam todos muito bem-vindos a mais um episódio do Wesle Podcast.
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Hoje nós estamos aqui com o Dr. Renato Silva, pela terceira vez. Acredito que terceira vez no podcast, com assunto muito interessante hoje. Particularmente, adoro esse assunto, que são os limites entre ou a diferença e as similaridades entre a genialidade e a loucura. Quantos gênios que recebem esse título que, qualquer diferença pequena na vida deles, poderiam ser enquadrados como popularmente o que se conhece como loucos, né? Obrigado pela presença aí, cara.
Mais uma vez. >> Eu que agradeço pelo convite. E esse assunto dá pano pra manga, como diriam lá em Minas Gerais.
Pois é. >> Tem muita coisa que é polêmica no assunto. A gente tem estudos, mas nem tantos assim para ter certezas sólidas, e é um assunto fascinante.
Legal. Quando eu li a biografia do Elon Musk, a escrita pelo Walter Isaacson, não sei se você leu também, aquele de capa preta. Sim. >> Maravilhosa. >> É, ele é muito curioso, né, cara? Porque tem tudo pro cara ser enquadrado como o que popularmente a gente chama de louco, né? Termo popular aqui, tá, pessoal? Não um termo técnico, que é uma pessoa que não tá muito conectada com a realidade, que toma decisões que a média das pessoas não tomariam, porque o cara vendeu o PayPal por, não lembro, 150 milhões de dólares, alguma coisa assim, e comprou foguete, tipo, >> abriu, >> é, abriu a Tesla e a SpaceX pra caramba, né, cara? Eh, como é que, por exemplo, na na questão do Elon Musk, você que que você pensa disso?
>> É, existe, inclusive, toda a pesquisa nessa área começou por aí, que é essa ideia de o gênio louco ou o louco que, na verdade, é sábio, que tá muito no imaginário popular e basicamente na literatura, na história, por todos os lados, né? Desde ali de Diógenes, que era o filósofo que vivia no barril, que vivia na rua, passando pela imagem icônica do Einstein, mostrando a língua e todo descabelado, por exemplo, até mitologia grega, mitologia nórdica, com a figura do Loki, que é uma figura meio louca, mas é sábia ao mesmo tempo. Se existe o ermitão, a figura do eremita solitário, que ele tem uma sabedoria, mas ele é meio louco. Então, essa associação, ela tá no imaginário popular e a gente pode falar que ela é até meio arquétipica de tão arraigado que tá pra gente essa ideia. Então, a ciência foi tentar analisar isso: é verdade mesmo? Existe algo entre genialidade e transtornos psiquiátricos de alguma maneira? Existe alguma correlação? E essa polêmica, ela foi fomentada ainda mais porque algumas pesquisas iniciais, aquelas primeiras que foram feitas, eram bem enviesadas, como, por exemplo, lá na década de 1980, alguma coisa. Na década de 1980, um pesquisador observou assim: "Dos autores, 81% deles têm transtorno de humor. Das pessoas que não são autores, nunca escreveram um livro, 30% só tem transtorno de humor." Então, será que transtorno de humor tá associado a escrever livro? Mas observa que isso é uma correlação, mas não é uma causalidade, né? Às vezes você já escreveu um livro, eu já escrevi um livro. A gente já teve depressão no passado. A gente escreveu livro porque teve depressão? >> Não, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas é algo que chama atenção. Pera aí. Aí veio uma psicóloga que provavelmente você até conhece, que é a Kay Redfield Jamison, que ela é muito famosa no campo do transtorno bipolar e escreveu o livro, o maior bestseller sobre transtorno bipolar, que é "Uma Mente Inquieta", no qual ela conta a história dela com o transtorno bipolar, tipo um. E ela é uma grande especialista no tema. E ela escreveu um livro que chama, uma tradução livre seria "Tocado pelo Fogo", que ela descreve várias pessoas que provavelmente tinham transtorno bipolar e eram gênios. Ah, nós estamos falando de Beethoven, Van Gogh, Schumann, eh, Hemingway, Virginia Woolf e por aí vai. Mais recentemente, revisando o histórico no Brasil, Santos Dumont também tem um quadro bem claro de transtorno bipolar, só que na época ele >> Curioso que muitos, inclusive, atentaram contra a própria vida, né? Se suicidaram, que é um >> A história não é muito boa, né? Porque se a gente olha para Van Gogh, ele suicidou, estava internado no hospital. Se a gente olha para Virginia Woolf, suicidou-se afogando no final da sua vida. Ela é uma escritora britânica muito importante. Santos Dumont também suicidou-se enforcado no quarto de hotel. E lembrando que Santos Dumont, na época, eles tentaram encobertar esse fato devido ao preconceito. Falaram, né? >> É, falaram que era ataque cardíaco, quando, na verdade, foi claramente suicídio, e ele tinha muito provavelmente o transtorno bipolar, tá? Inclusive no livro do Elio sobre o Santos Dumont, que ele revisita essa biografia dele.
Interessante, cara. Interessante. >> É o Elio Santos Dumont, ele teve períodos de episódios maníacos bem claros, no qual ele tinha uma grandiosidade muito grande, uma grandiosidade muito grande, uma grandiosidade bem grave a ponto de chegar e falar: "Vamos marchar até o outro país." E ele era riquíssimo na época, né? O Santos Dumont seria como um bilionário hoje, né? Ele era herdeiro de fazenda de café e e ele colocava em prática essas ideias grandiosas dele naquele período, durante episódios maníacos, e depois era seguido de episódios depressivos graves também.
Uhum. O, inclusive, se você for parar para pensar, você ter a coragem, a ideia e a coragem de se jogar de um lugar dentro de um de um de um princípio de avião, realmente tu tem que ter uma confiança digna de um quadro hipomaníaco, né? >> Nem nem tudo que ele fez foi durante episódios hipomaníacos e maníacos, mas certamente muito do que ele fez foi influenciado por episódios hipomaníacos e maníacos. Isso tem uma descrição bem interessante em um livro de um autor brasileiro que é o Eli Shen, que é professor no Rio de Janeiro, que ele descreve ali os períodos tanto de depressão quanto de episódios maníacos, revisitando a vida do de Santos Dumont. Hemingway foi outro também, que é um escritor ganhador de prêmio Nobel, um dos meus prediletos. Não sei se você leu lá o livro "O Velho e o Mar". >> Livro excepcional. E ele também, infelizmente, suicidou. Ele, assim como a filha, o o pai, o tio, o avô, porque existe uma genética em relação a isso também, >> que é mais um indicativo de que é bipolaridade, porque background genético é importante, né? Hereditariedade do bipolar? >> Exato. A hereditariedade é muito alta, né? Então, com com esse livro, a Kay Redfield Jamison colocou mais ainda a ideia no imaginário popular, que já vem desde aquele arquétipo, o gênio louco, de que transtorno bipolar estaria associado de alguma maneira à genialidade. Isso lá na década de 90. Isso ficou ainda na cabeça de muita gente, mas o que os estudos, vamos dizer, com uma metodologia melhor mostraram, foi algo bem diferente. Na verdade, nem tão diferente assim. Existe, e aí que o assunto começa a ficar mais sutil, porque por um lado existe uma certa relação, por outro lado nem tanto. Vou explicar. Pessoas com transtorno bipolar são mais inteligentes do que a população geral? A resposta é não. Um não bem claro. Não existe uma inteligência média maior em pessoas com transtorno bipolar. Vários estudos já mostraram isso de forma assim inequívoca. Apesar dessa ser uma mensagem impopular, porque é evidente que a pessoa, se eu vir e falo que pessoas que são bipolares são mais inteligentes, como eu já ouvi muita gente falando, isso vai dar um monte de like na rede social, evidente, porque eu tô achando alguma vantagem em ter transtorno bipolar, mas isso não é embasado pelos estudos. Todos os estudos são claros. Não existe um QI acima no caso de transtorno bipolar. E pelo contrário, o que nós temos provavelmente é uma queda cognitiva na maior parte das pessoas com transtorno bipolar, apesar de não em todas as pessoas com transtorno bipolar, ao longo do tempo, principalmente se não tratado.
Só que a pesquisa aponta outra coisa: pessoas com transtorno bipolar são mais criativas. Aí a resposta é bem mais complexa, bem mais complexa. Então, mais inteligente já tá claro que não, na pesquisa. Mais criativas, aí já é outra história. Aí nós vamos precisar entrar em detalhes dessas pesquisas e o que elas nos contam. A a porque a inteligência seria, dependendo da definição, né? Em linhas gerais, de fato, pessoas que têm um transtorno bipolar, principalmente quando não tratado, elas tendem a perder funcionalidade, né, social, interpessoal, emocional, etc. E isso vai, dependendo do número de quadros que teve de virada de humor, vai acabando criando essas cicatrizes, né, de de de funcionalidade. E a criatividade, o que que essas pesquisas apontam?
Então, >> aí as pesquisas são muito heterogêneas, por quê? Eu preciso definir o que é criatividade. Então, o que é criatividade? É a qualidade do seu pensamento, ou seja, você tem um pensamento original ou não? É a velocidade do seu pensamento, ou seja, a fluência desses pensamentos? Ou é você associar ideias totalmente diferentes ou que estão em domínios diferentes e aí você consegue associar elas de uma forma criativa? Ou seja, eu começo a falar aqui para você sobre como a girafa e o filósofo alemão Kant têm tudo a ver. >> E se eu consigo realmente produzir essas ideias, gerar essas ideias de uma forma inovadora, fluente e rápida, você vai virar e pensar: "Nossa, Renato é bem criativo". Então, a gente já sabe que existe essa criatividade ou o que é essa criatividade. Outra questão é separar o que é potencial de criatividade do que é realização criativa. E isso daqui faz muita diferença quando a gente tá discutindo se pessoas com transtorno bipolar são ou não mais criativas. O que é essa associação? Se eu faço uma pesquisa com você e falo: "Você é criativo, Wesley?", eu tô fazendo uma medida subjetiva. Você vai falar que é ou talvez você me diga que não. Quando eu faço essa medida subjetiva nos estudos com transtorno bipolar, acaba que vem realmente as pessoas com transtorno bipolar subjetivamente informam que são mais criativas, mas isso não quer dizer que seja. >> Mas realmente subjetivamente existe. Outra forma de ver isso seria: pessoas com transtorno bipolar vão mais para profissões criativas ou não? E as pesquisas mostram que sim. Quando e teve uma pesquisa grande em relação a isso, com inclusive foi uma pesquisa sueca com mais de 300.000 pessoas que aí tinha esquizofrenia, transtorno bipolar e depressão unipolar. E o que que descobriram? Que pessoas com esquizofrenia e transtorno bipolar realmente estavam super representadas em profissões mais criativas, e pessoas com depressão unipolar não estavam. Era igual à população geral. Ótimo. Então, por isso eu posso deduzir: pessoas com transtorno bipolar são mais criativas? Calma, pequeno gafanhoto, né? Calma. Por quê? Porque eu posso estar numa profissão criativa e não ser criativo. Eh, eu posso ser ruim naquilo que eu faço, simplesmente. >> Mas já é algo ali que nos leva a pensar de talvez realmente existe alguma associação entre transtorno bipolar e criatividade a mais do que na população geral. E aí a gente foi para outros estudos tentando achar essa criação, essa relação ou não. E o que os estudos mostraram? Sim, de forma geral, pessoas com transtorno bipolar, em média, têm uma criatividade maior do que na população geral. Porém, essa criatividade maior é um pouco maior. Não é uma coisa, não é um tamanho de correlação imenso. Nossa, como é muito maior. Mas verdadeiramente é maior. Depois de muitos estudos, a gente chegou na seguinte conclusão até o momento: pessoas com transtorno bipolar são mais inteligentes? Não. São tão inteligentes quanto a população geral, nem mais nem menos. Pessoas com transtorno bipolar são mais criativas? Sim, é muito provável que são mais criativas. Eu encontro uma criatividade maior em pessoas com transtorno bipolar, apesar desse tamanho de criatividade jamais ser pequeno, não é uma grande coisa. Mas a gente ainda precisa responder por que, então, tantos gênios com transtorno bipolar. E aí, o que pode estar acontecendo? Então, eu fico pensando por que primeiro, por que essas pessoas elas têm, mesmo sendo pouco, esse tamanho um pouquinho elevado nos índices de criatividade. Claro que deve ter esse background genético, mas porque assim, pelo pela sua pela sua definição de criatividade, >> ela não é necessariamente a pessoa ter ideias fora da caixinha dentro de um determinado campo. É a pessoa conseguir associar a girafa com Kant de uma forma fluida, rápida, que faça sentido. >> Perfeito. Então não é, não, não diz respeito apenas a a background de leitura, por exemplo. Claro que vai ajudar, né? Mas, mas você entende a >> Maravilha. A sua pergunta é maravilhosa. Por quê? E e para isso a gente precisa explicar um conceito bem básico. Imagina que você tem R$ 10.000, eu tenho R$ 500 e o nosso câmera tem R$ 50. Em média, cada um de nós vai ter R$ 3.000, R$ 3.400. Então, em média, todos nós temos 3.400, mas na realidade é muito diferente. Você tem 10.000, eu tenho 500. Então, a média, ela não nos diz muita coisa. >> Quando a gente entra para dentro do transtorno, entra para dentro, é ótimo. >> Você conhece o Rafael Lara? >> Conheço, conheço. >> É o Rafael. Outra questão da média, só o exemplo aqui. Esse ano eu já li 40 livros. >> Ele leu dois. Ele cada um leu 21 em média. >> Em média estamos no 21. Aí quando me perguntam quantos livros eu li, eu sempre respondo: "Eu e o Wesley estamos numa média de 21." >> Numa média 21. Exatamente. Então a média não nos conta muito. Quando eu vou analisar os dados no transtorno bipolar, o que que eu encontro? Uma curva em U invertida. O que que isso quer dizer? Tipos de transtorno bipolar são diferentes. É uma curva em U invertida. Se eu não tenho transtorno bipolar, minha criatividade tá aqui. Se eu tenho um transtorno bipolar subclínico, que a gente pode chamar, vamos chamar de leve para facilitar, mas é subclínico, é o ponto máximo da criatividade. E se eu tenho um transtorno bipolar grave, bem clínico, como no transtorno bipolar tipo 1, minha criatividade volta a cair.
>> Então, quando eu entro nos dados, eu percebo que o tipo de transtorno bipolar vai me dizer algo muito importante. Maior criatividade está em forma subclínica de transtorno bipolar e não no transtorno bipolar completo, vamos chamar assim, ou mais grave. Quanto mais completa e grave, a minha criatividade vai caindo. Se eu tenho uma forma subclínica, a minha criatividade tá bem mais alta e tem a ver com o que você falou, com a sua questão sobre por que dessa criatividade. Entrando mais ainda, se dependendo do episódio, eu vou ter ou não maior criatividade. O que isso quer dizer? Se eu tenho depressão, novamente a mesma curva de U invertido. Se eu estou em depressão, minha criatividade cai claramente. Então, a depressão ela não te dá mais criatividade, ela te tira criatividade. É, se você entra aí na Wikipedia, por exemplo, e vai ver a história da Virginia Woolf, que foi essa escritora genial, britânica, lá tem até um trecho de uma carta dela, que foi a carta de suicídio dela, que ela fala: "Olha, tá começando de novo a depressão, eu tô começando de novo a ouvir vozes, eu não consigo ler". Mesmo a carta dela de suicídio foi mal escrita, com repetições, coisas que uma autora brilhante como ela nunca escreveria daquele jeito. Mas por quê? Estava afetada pela depressão. Então, você vê claramente que mesmo em uma autora brilhante, quando ela deprime, ela não consegue escrever direito e ela mesmo descreve lá: "Eu não tô conseguindo ler de novo, não tô conseguindo escrever de novo". Então, tá claro que no episódio depressivo, sua criatividade cai. No episódio hipomaníaco, ou, e seria melhor dizer no subclínico e hipomaníaco, sua criatividade aumenta. E na mania, que já seria o episódio completo de ativação, cai de novo, porque eu já estou em um tal nível de gravidade, sintomas, que eu não consigo mais. Então, resumindo a história: formas subclínicas de transtorno bipolar têm uma criatividade muito maior e, principalmente, formas subclínicas durante episódios quase hipomaníacos ou episódios hipomaníacos. Então, quando a gente entra nos dados, a gente vê que é um tipo específico de transtorno bipolar que está muito associado à criatividade. E esse tipo é hipomania.
>> E o que que seria esse tipo hipomaníaco? Os próprios sintomas já vão nos dar pistas. Como que uma pessoa está quanto a hipomaníaca? Aumento de energia em geral, dirigida a um determinado objetivo. Aceleração de pensamento, aceleração de fala. Olha, a velocidade aumentada, a fluência aumentada, a minha energia é aumentada para produzir. Então, isso começa a pensar: "Não, espera aí, quer dizer então que alguém em hipomania pode aumentar a produtividade?" Pode, porque essa esse aumento de energia, ela pode ser dirigida a diversos alvos. Então, o cara pode aumentar a energia e dirigir isso para jogo de cassino. Ele só vai detonar o patrimônio dele. Ou ele pode aumentar energia e dirigir para compor música no piano.
Uhum. E se ele vai compor música no piano, ajuda muito se ele tiver uma formação excelente desde criança e ajuda mais ainda se ele é um gênio naquela atividade. É o que acontecia com um compositor extremamente famoso que é o Schumann, que inclusive a gente sabe exatamente em episódios hipomaníacos ele produzia, compunha cerca de 13,8 músicas em piano e durante episódios depressivos ele compunha também 2,8. Então, ele saía de 14 composições para três composições. Olha a diferença de criatividade que vai acontecer de produção, porque os sintomas hipomaníacos vão levar a pessoa a realizar o potencial criativo. E isso que a gente precisa dividir. Van Gogh era a mesma coisa. Vários artistas são assim: entrou no episódio hipomaníaco, aumento de energia dirigida aquilo que é a paixão da vida da pessoa. É escrever livro, é pintar obra, é compor música. E aí ele vai compor muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, né? Porque o gênio, é o contrário do que as pessoas pensam, não cai do céu. Ele, quando você vai olhar, é uma intensa dedicação focada em uma coisa só na vida dele. Isso que começa a explicar porque que algumas pessoas com transtorno bipolar, mas não em média, não na média quando eu pego todo mundo, mas algumas com determinado subtipo específico de transtorno bipolar têm e muito uma produtividade aumentada e uma genialidade que se destaca dentre outras pessoas.
>> Você chegou a atender alguém assim no consultório? >> Ah, já, vários, vários. >> E é nítido assim que você vê o >> Ah, bem claro, bem claro, né? Inclusive para a própria pessoa, às vezes ela não consegue nomear: "Eu estou numa fase hipomaníaca ou estou numa fase depressiva". Mas ela fala de fases de baixa produtividade, que "eu não faço nada", que "eu largo tudo", e de fase que "eu estou extremamente focada no trabalho". Porque esse sintoma, aumento de energia direcionado a um objetivo, vai depender do seu objetivo. Se o seu objetivo é trabalho, produção artística, você vai conseguir fazer isso com intensidade muito grande durante as fases hipomaníacas, não durante a fase depressiva. E por que na fase de mania isso não é bom e a criatividade cai? Porque a fase maníaca tem um aumento de energia, porém é tão intensa esse aumento de energia que ela fica desorganizada. Eu não consigo focar minha energia mais como na hipomania. Uhum. >> Na fase, no episódio maníaco, é tão grande que ela extravasa. >> Eu costumo falar, >> comparar que uma fase hipomaníaca é como um fogo que tá ali no seu fogão da cozinha, ele tá controlado, então ele consegue, dependendo, produzir uma boa comida, um fruto interessante. Agora, se aquele fogo aumenta, aumenta, aumenta, vira um incêndio, ele vai queimar a sua casa inteira, você não consegue controlar mais ele. É por isso que na hipomania eu tenho um aumento de produtividade, mas na fase maníaca eu não tenho. E a pesquisa continuou, porque eu já tô te falando das pesquisas mais recentes para responder essa pergunta entre genialidade e transtorno bipolar e descobriu algo surpreendente que não se esperava. Na verdade, vamos entender. Criatividade é aquela curva em U invertida. Então, se eu não tenho transtorno bipolar, eu tô aqui. Se eu tenho formas subclínicas, eu tô aqui. Se eu tenho formas completas e graves, eu tô eu volto de novo a não ter essa criatividade aumentada. O que descobriram? Parentes em primeiro grau. Existe uma relação clara entre parentes em primeiro grau não afetados pelo transtorno bipolar, mas que têm a carga genética de transtorno bipolar. Seria um filho, um irmão, >> um filho, um irmão e tudo que é parente de primeiro grau, pai, mãe. Então, esse parente de primeiro grau não afetado pelo transtorno bipolar, mas que evidentemente tem a genética, a predisposição para o transtorno bipolar e pode nunca abrir o quadro de transtorno bipolar, em média tem uma criatividade muito acima da do restante da população. Não só isso, uma criatividade muito acima e uma produção criativa muito acima. Isso foi uma surpresa nas pesquisas, mas que se mostrou verdadeiro e foi replicado em várias em várias outras pesquisas. Tanto é que isso tem um nome que é a teoria da vantagem bipolar, mas as pessoas também entendem mal por conta do nome. Teoria da vantagem bipolar não quer dizer que existe uma vantagem em ter transtorno bipolar. Existe uma vantagem aparente nos estudos de ser parente em primeiro grau de alguém que tem transtorno bipolar e não ser afetado pelo transtorno bipolar. Essa carga genética, aparentemente, vai te dar essa estado mais hipomaníaco, né, que vai te dar, pode te dar em alguns casos um estado mais hipomaníaco, porém sem constituir sintomas. E você pode se aproveitar desse estado um pouco mais hipomaníaco. Isso foi uma surpresa bem interessante dos estudos.
Uhum. E e o background genético que você comentou, porque quando você fala da vantagem bipolar, a impressão que dá é que uma das pessoas, digamos assim, a genética na na metáfora do fogão aqueceu demais e na outra pessoa o fogo veio na medida certa. Como é que é esse a >> A melhor analogia que eu consigo explicar isso e que eu achei até hoje para explicar isso, eu chamo de teoria de pão de queijo. Ah, em homenagem à minha terra mineira. O que que seria isso? Imagina que você tem um pão de queijo e ele tá ali congelado, frio. Você vai comer isso? Vai ser horrível. Você começa a aquecer aquele pão de queijo, ele tá morno, aí é uma maravilha, né? Aquela coisa cheirosa, super bom e você vai comer e ficar feliz. Começou a esquentar além daquele ponto, começa a ficar meio queimado. Você já não tá gostando tanto, mas ainda dá para comer aquilo ali. Começou a subir ainda mais a temperatura, ele vai ficar absolutamente queimado. Quando você colocar na boca, vai ser péssimo gosto e vai queimar o céu da sua boca. O que que a gente teve aqui? É o mesmo pão de queijo. O que eu mudei foi a temperatura e isso fez você sair de algo agradável para algo muito complicado. Do mesmo jeito seria essa ativação genética. Os genes são o mesmo, os mesmos. Depende do quão ativados eles estão. Então, se eu tenho genes que vão me dar um pouquinho de hipomania, no caso subclínico, isso vai melhorar o seu desempenho. Começa a dar hipomania, isso pode piorar o seu desempenho ou pode, em alguns casos, melhorar. Ficou maníaco, ou seja, já é aquela temperatura muito, muito alta, isso já vai começar a te dar graves problemas, inclusive internação, quem sabe sintomas psicóticos, né? Então são os mesmos genes, do mesmo jeito que é a mesma massa de pão de queijo. O que mudou foi a ativação desses genes.
Porque eu fico pensando assim, para você, eh, bom, a gente vive numa sociedade, né, que você tem que, de certa forma, tem uma via canônica para você seguir, né? Nasce, faz a escola, vai pro mercado de trabalho, faz a graduação, vai pro mercado de trabalho, entra como júnior, né? Vai escalando até você chegar a sênior lá. E aí quando você tá sênior, como diz o Clovis de Barros numa palestra, o pessoal te demite, te dá uma plaquinha, você botar em cima da geladeira e contrata um outro júnior com mais energia e mais disposição para chegar no sênior também. Eh, pensando em termos criativos, sei lá, criar uma grande obra ou alguma coisa assim, eu eu compreendo essa lógica do background genético, mas agora indo mais para a funcionalidade, o cara para tirar da cartola uma ideia e executar essa ideia que a média não teve, que o pessoal formatado que estava nessa corrida dos ratos não teve, ele tem que realmente enxergar o mundo com outras lentes, né? Onde você vê esse microfone, ele enxerga um bicho e assim ele consegue consegue ser mais criativo. É, e não apenas isso, eu acho que algo que eu sempre insisto porque causa confusão é as pessoas acharem que ideia vale alguma coisa. Inclusive, eu tenho amigos que acham que, nossa, eu tive uma ideia, eu vou esconder, não vou contar para ninguém e tal. Toda vez que você vê alguém falando assim, você sabe que ela não realizou grande coisa ainda na vida para compreender que ideia não vale de nada. O que vale é execução dessa ideia. Aí já é outra história. Ideias geniais, um monte de gente tem o tempo todo, né? Pode pedir pro pessoal colocar as ideias geniais no YouTube que você vai ver lá aquele monte de ideias geniais. Mas quem é que vai fazer isso? Eh, eu quero. E se o foguete desse ré, seria ótimo, porque abaixaria muito o custo da viagem espacial. Pronto, foi uma ideia genial. Agora vai lá e executa. Quem é que vai executar algo nessa magnitude? Então, não é só ter a ideia, é eu tomar risco suficiente para concretizar, executar uma ideia totalmente diferente daquilo que as pessoas fazem. Porque se a gente para para olhar, a gente só repete o que a maioria das pessoas fazem na maior parte da nossa vida. É por isso que a gente admira tanto pessoas que vão lá e fazem algo inédito, por exemplo, porque a gente sabe que aquilo é difícil. Executar uma ideia original é extremamente difícil. Por quê? Não é ter ideia, é ter a energia, assumir o risco de fazer algo totalmente diferente. Então, nós temos aí três grandes barreiras. E nessas três grandes barreiras, esse estado levemente hipomaníaco pode ajudar, porque quando a pessoa tá num estado levemente hipomaníaco, ela está extremamente positiva, achando que tudo vai dar certo, que os problemas e as consequências não vão acontecer negativamente, e sim só aquelas consequências positivas. Isso me leva a assumir riscos que normalmente eu não assumiria, eu não tomaria aquele risco, eu ficaria ansioso. Então, ao contrário daquele alto traço de neuroticismo que, nossa, tudo vai dar errado, né? Pelo contrário, a pessoa olha e fala: "Tudo vai dar certo, não vai, vai ter como". Mas ninguém fez um foguete da ré, Renato. Não, mas vai dar certo. Nós vamos conseguir, a gente consegue, por aí vai, né? E terceiro é barreira, é ter energia. É ter energia para enfrentar tudo. Porque quando você faz tudo igual, igual o caminho que você terminou de falar, existe pouco atrito nesse caminho. Já é um caminho esperado, já é um caminho percorrido que todo mundo fez. Agora, esse outro caminho completamente original, você vai ter que abrir a trilha no meio do mato você mesmo. Não tem nada pavimentado. Então, é muita energia, muito risco que a pessoa toma.
>> Então, realmente, provavelmente várias pessoas na história tiveram algo próximo à ideia de escrever "O Velho e o Mar", mas o cara foi lá e escreveu. >> Ah, com certeza. Com certeza. >> Né? Várias pessoas tiveram algo próximo à ideia de escrever uma obra como "O Conde de Monte Cristo", mas o cara foi lá e escreveu. >> E venceu a barreira de fazer e por isso se eternizou e a gente lembra deles, né? >> E é isso que separa, né? Realização criativa é a coisa mais rara do mundo. Ser criativo, eu sinto dizer para as pessoas que se acham criativas, não é raro, é algo comum. Parado para pensar dessa forma, cara. >> É. Então, ter ideias criativas, não. Você conhece e certamente quem está nos vendo tem. Até vou falar que você deve ter um familiar assim: o cara é artista, só que ele está dois anos atrasado na faculdade, o pai paga as contas, em algum momento vai dar certo. Você vira e fala: "E aí, quantas músicas você compôs aí no seu violão?" Ah, isso é um processo. A vida não é assim, tem que ter inspiração. Quantas músicas? Uma. E é assim, a maioria das pessoas que se acham criativas são dessa maneira. Quando você vê o que você realmente fez, é pouca coisa. >> Uhum. >> E pouquíssimas pessoas criativas são altamente produtivas. Então, Picasso pintou mais de 60.000 quadros. O que é pintar 60.000 quadros, né? Quantos livros que Hemingway escreveu? Quantas músicas que o Bach escreveu? Eh, é algo assim, quando você vai olhar a vida desses gênios mesmo, o que eles produziram é uma coisa excepcional, assim, é muita coisa, é a vida inteira produzir.
Realmente, quando você quando você olha as obras do do dos grandes gênios, eles sempre foram muito prolíficos, né? Isto é, muito produtivos. Prolíficos, acho que é isso, né? Muito, muita produtividade. O próprio Leonardo da Vinci, >> pessoal disse que se você empilhasse as anotações, ele ficava o dia inteiro escrevendo num diário, né? Exato. >> Empilhasse aquilo lá, dava o tamanho de um prédio de tanto anotação que ele fazia, estudava tudo que era coisa e desenhava e fazia. Mas eu nunca tinha parado para pensar, porque geralmente a gente acopla a ideia, o conceito de um sujeito ser criativo a a via teórica. Mas todos os exemplos que você me traz de sujeitos criativos e que a gente entende como criativo são pessoas que fizeram, né, materializaram a criatividade. >> Mas você fala isso, você diz claramente isso. É só uma dedução lógica do que você ensina lá no Reservatório de Dopamina: você se torna o que você pratica. Você precisa praticar e ter constância, constância, constância, constância. Porque o trabalho, por exemplo, de Picasso, para quem gosta da obra dele, ele não nasceu daquele jeito. Vai ver as primeiras, tem o museu dedicado a Van Gogh, né, em Amsterdam. Eh, as primeiras obras dele, você olha e fala: "Eu não gosto". Eu olho e falo: "Coisa normal assim, não parece, não tem a cara do Van Gogh". Aí quando vai caminhando mais para frente na vida, opa.
Uhum. E isso daqui é a genialidade aparecendo. O que que é genialidade? É muito potencial com muito, muito, muito, muito, muito, muito trabalho e muita prática em cima daquilo. Aí que eu vou produzir aquelas grandes obras que de repente eu olho e falo: "Nossa, isso aqui é genial. Esse cara é uma inspiração divina".
Uhum. >> Não, não foi do nada. Se você for olhar, ele vai ter tido uma prática assim fenomenal ao longo da vida. Então, o que você tá falando é que, provavelmente, 99,5% dos grandes eh gênios da história ficaram no caminho por não terem executado. >> Ah, com certeza. Ou mais. A gente sabe que segue uma determinada lógica matemática isso, uma proporção que é, não é uma proporção muito diferente, por exemplo, de funcionários numa empresa, né? O, dizem que 10% dos funcionários fazem 50% do trabalho ou mais, ou mais. Do mesmo jeito, 1% dos artistas produzem no mínimo aí 50% de todas as obras. E quando você olha a curva, por exemplo, de vendas de livro, vendas de eh de álbuns na época que era vendido, como que é a venda de livros? Só olhar aí a curva como que é. Pouquinho, pouquinho, pouquinho, pouquinho, pouquinho, pouquinho, pouquinho, pouquinho. Chega aqui, tem um ou dois autores, vendem todos os livros. É uma curva desse jeito. Ou seja, nada para ninguém, nada para ninguém, ou, ou melhor dizendo, nada para todo mundo, nada para todo mundo, tudo para um ou dois autores, né? A produção científica, a produção artística obedece isso mesmo. Só pensar quantos pintores você conhece, quais nomes que você conhece? Você vai citar cinco.
Sim. Quais músicos clássicos que você conhece? Mozart, Beethoven. É a maioria que as pessoas vão falar. Quantos físicos você conhece? Einstein.
Uhum. >> Por aí vai, né? Então é assim mesmo. A produção artística, ela é totalmente desigual. Mas mas, mas não é porque, e acho que esse que é o ponto pra gente desacoplar essas ideias, não é porque os outros não eram criativos no sentido de ideias, é porque eles não executaram. >> É a falta de execução, claro. E mesmo na execução, eu tenho execução em quantidade e em qualidade, do mesmo jeito que a gente tem a a ideia. E e às vezes eu até tenho quantidade, mas não tenho qualidade. Porém, em geral, a quantidade tá mais associada a conseguir aumentar a minha qualidade do que as pessoas pensam.
Porque a ideia geral das pessoas é que Van Gogh começou a pintar do jeito que ele sempre pintou. E não é, ele não nasceu assim. Ou Mozart começou com 4 anos de idade e ele já produzia obras. Ele é um gênio, né? É uma inspiração completa, não é? Porque ele começou com 4 anos que ele teve tanta, tanto tempo para treinar, praticar, compor. E evidentemente o cérebro dele já era um processamento muito diferente do que outras pessoas processavam.
Uhum. >> Mas é à toa que a família toda dele era de músico e que ele já sabia tocar piano com 4 anos? Claro que não. A produção ela é muito importante.
Uhum. E esse livro aqui, Renato, coloca aí na tela pra galera nesse câmera lá. Ah, esse o meu primeiro livro sobre o tema, né? >> "Sem Mistérios do Diagnóstico: Uma Vida Melhor". É direcionado para quem? >> É principalmente para pessoas com transtorno bipolar e seus familiares. E, claro, profissionais também podem se aproveitar do livro, podem tirar muito conhecimento desse livro, mas não foi para profissionais que eu visei esse livro. Eu fiz ele principalmente para o público de pacientes e familiares para compreender o que é o transtorno bipolar de forma fácil.
Você tá foliando, eu tô olhando em qual gráfico você tá >> de melatonina. >> Mas foi um prazer imenso escrever esse livro e assim, tô super feliz que a recepção tem sido muito positiva do livro.
Como é que foi a experiência de escrever aí? Um parto. Eu só não digo que é um parto em respeito à esposa, parto, eu sei o eu sei o qu o quão difícil foi, né? Um parto é um exagero, mas sem dúvida alguma é algo extremamente difícil. Inclusive, eu compreendi bem melhor a diferença entre ter uma ideia e realizar a ideia. Porque o que as pessoas às vezes que não escreveram um livro ainda não sabem, é que começar a escrever um livro é só 10%, eu diria. É a primeira versão. Depois você revisa, aí você revisa, aí você revisa, você fica um mês sem tocar, aí você mexe nele, tá tudo errado, você quer mexer tudo. Fal é uma coisa impressionante. Eu e eu brinco que livro provavelmente você nunca acaba, você só desiste de revisar. Sim, >> porque se você continuar revisando, vai continuar achando coisa para revisar. >> Meu orientador de doutorado dizia que tá pronto quando você decide que tá pronto. Nunca vai tá pronto. >> Mas eu eu gostei demais do processo de escrever e o segundo já tá já está sendo escrito, já tá no forno.
Tá bem bonito, ó, pessoal, cheio de gráficos aqui, ó. Você pode conseguir lá na Amazon. >> Na Amazon tem >> Renato Silva Bipolar, já vai aparecer, né? Bipolar sem mistérios, com certeza vai aparecer.
Muito bom, cara. >> Apesar de não ter tido espaço no livro, ele é bem completo, explicando o transtorno bipolar para a gente entrar nessas questões da cognição, como entramos nesse podcast. Então, esse podcast fica como complemento a essa dúvida sobre transtorno bipolar. E que você vai genialidade, >> que que você vai falar no dois, no livro dois? >> É tratamentos não farmacológicos. Então, nós vamos falar tudo sobre estilo de vida. >> Menos a questão do medicamento. Não é que medicamento não é importante, medicamento é extremamente importante, é que o segundo livro será dedicado a todos aqueles tratamentos que não são os farmacológicos. E um terceiro livro vai ser dedicado a tratamentos farmacológicos, >> que é inclusive indispensável para quem tem para quem tem transtorno bipolar, né? Um tratamento não farmacológico, né? >> Tanto >> o pessoal acha que é só o medicamento, né? É, então o medicamento é importante, mas também muito importante a questão de estilo de vida e hábitos e rotina.
Muito bom, cara. Muito bom. Então, eu tô para escrever o meu técnico, sabia? >> É mesmo? Vai. Qual o assunto? >> Escrev. Pois é, eu escrevi um romance recentemente, tá disponível na Amazon para vocês comprarem também. Basta botar meu nome lá. >> Qual que é o dia que vai ser a estreia? >> Acho que vai ser lançado. Pré-lançamento, né? É, >> tá pré-venda. Vai ser liberado para as casas das pessoas em janeiro.
Ah, que ótimo. Vou ler. >> E foi muito difícil, cara. >> Foi a coisa mais difícil que eu fiz, velho, na minha vida. >> Imagina, eu imagino. >> E mas eu quero escrever um um técnico também. Eu só não escrevi um técnico até agora porque eu acho que o compórtice do Sapolsky resolveu o problema. >> É excepcional. Nossa, que livro é excepcional. >> Que que eu vou escrever, cara? >> Que aquele livro é excepcional. >> Que que eu vou escrever? Inclusive, quando alguém escreve um livro daquele, ele não deve escrever o segundo livro. Eu não gostei. Eu não gostei muito daquele. Você gostou? Eu não gostei tanto como compórtice. Eu acho que eu estava >> numa barra tão alta. >> Mas tinha um problema para resolver, né? Você entendeu, né? Determinar. Ele abriu uma questão no no livre arbítrio. O o behavior dele, o compórtice, >> ficou basicamente conhecido por ele defender que não tem livre arbítrio, gerou um burburinho gigantesco. Aí ele escreveu aquele outro para >> contribuir pro debate, né? >> Mas ele mostra bem como é possível escrever um livro técnico de uma forma criativa. >> É. E e quando você vai ouvir as aulas do Sapolsky, que incrivelmente estão disponíveis no YouTube, você percebe o nível de inteligência dele. E muitas vezes a gente tá inferindo o nível de inteligência de uma pessoa é por essa questão de associação entre ideias diferentes do que ele faz o tempo todo com analogias diferentes para explicar o tema e a fluência com a qual ele entrega, o tipo de humor que ele tem.
E a e realmente tu lê o livro dele é ele, né? É isso. Não tem como, né, cara? As piadas. Acho que daria para ler sem saber que é ele que escreveu. Já ouvi, já vi jeito de escrever em algum lugar. >> Você também acha que foi a coisa mais difícil então que que fez na vida? O livro? >> Foi romance. Foi. Acho que foi mais difícil que a minha tese de doutorado. >> Ah, não. É claro. Muito mais difícil. >> Porque escrever escrever academicamente é não é não é difícil, né? >> Existe uma fórmula, né? >> É. Exato. E aí tu tá formatado, tu não pode falar assim, eh, sei lá, o rato teve, o rato ficou mais depressivo. Não, você tem que mostrar como.
Não pode nem falar que ele ficou depressivo, porque ele não tem depressão. Tem que ser um comportamento do tipo depressivo.
A escrita acadêmica, tu só pode fazer aquilo que é permitido, né? A escrita de romance tá livre, tu pode ir para qualquer universo, inclusive, se tu quiser nem usar ponto, precisa usar. A Virgínia Wolf, por exemplo, escreve influxo de consciência. Nem nem te aponto nas frases dela.
Então, eh, que, aliás, é um marcador da hipergrafia, que é um sintoma de episódio maníaco. É, você vai pulando a a a pontuação. É, eu li o dela o Mister Mrter Senhora Senhora Dolway. Sei. É um clássico. Foi o que eu li dela que você passa em um dia só. Cl. É um clássico.
E aí? Aí eu tava pensando em escrever um técnico, cara. Eu não escrevi um técnico até hoje porque tem o Sapovsk.
Mas não apaixonou pela escrita criativa, vamos dizer assim, não técnica? Sim. Não técnica. É, você não se apaixonou por já tem outro no forno. Não técnico. Romance. Mais um romance. Tá no forno.
A a sinopse do seu livro me lembrou muito, sabe? De de que pensei na hora. Era das histórias do dos livros do Jo Soares, que ele também tinha uma ideia. Ele partia de uma ideia bem criativa, diferente, tipo um assassino de seis dedos que só dá errado, né? Que do Jo Soares. Eram ideias criativas. E a sua também, né? Partiu dessa ideia que desaparece o quê? Os livros. Os livros. Os somem. É.
É. E E eu gostei assim, já tá, já tô com uma, já tô pensando em escrever o segundo, só que daí eu fico pensando, pô, cara, eu tinha que escrever um técnico, né? Eu estudei tanto, sei lá. Contribuir tanto para não vou deixar um livro técnico pro pro rolê. Só que aí o Sapos que escreveu comporto para caramba aquilo.
Que que eu tava pensando em fazer? Eu tava pensando em fazer um livro eh que seria o background dele seria neuroplasticidade e no livro eu tentaria defender a tese de que é possível desenvolver talento. Aham. Aham. Tipo assim, aí uma definição de talento específica lá que é você ser melhor do que a média das pessoas usando menos esforço, etc. E a minha tese no livro seria tentar, eu tentaria defender a tese de que é possível com o tempo e com o treinamento você desenvolver talento, você ficar tão bom em algo que o custo para executar aquilo é muito baixo e você fica muito melhor que a média e tal. Só que cara, zero motivação, cara. Sapos, que destruiu o meu sonho de escrever um livro técnico.
Mas a ideia é interessante. Principalmente se você defender, o que eu acho mais difícil ser defendido, que isso pode ser desenvolvido na idade adulta e não na infância, né? Porque na infância é a neuroplasticidade é tão grande que é realmente é bem defensável, bem possível isso. Mas é isso daí. Ferrou, né, cara? Aí agora eu fui pro vou pensar em escrever meu segundo de romance.
Mas não sei se é pelo meu viés de leitor compulsível da vida inteira, né? Eu acho o o livro não técnico em um outro nível do livro técnico, a não ser que você coloque uma criatividade, uma forma diferente para falar no livro técnico, né? que é que é o que eu espero ter feito e pelos comentários e avaliações, aparentemente eu consegui fazer nesse livro de bipolar sem mistérios, que é pegar um tema técnico e apresentar ele de uma forma descomplicada, completamente compreensível pra maioria das pessoas que vão ler aquele livro, né, com analogias e com formas diferentes de fazer. É o Sol que fez isso muito bem no Exatamente. Ele é o melhor exemplo de quem fez isso. Mas a a escrita completamente criativa me parece que tá em um outro nível.
Eu acho muito, achei muito diferente de arte, né? Além do livro téc nível onde você tá produzindo arte. Pensa o seguinte, você tem três personagens, quatro personagens e um lugar e um objetivo, né? um arco narrativo, um conflito ali, né? E você é Deus, você pode criar tudo naquele universo, né? Naquele micro, o cara pode ser rico, você pode matar o cara que te deu pão de manhã e a partir dali vai se desenrolar um monte de coisa. Então, em alguns momentos você se sente meio Deus assim, porque eu tinha uma ideia do livro seguir mais ou menos aquilo. Eu fiz muita coisa errada, tá? Eu descobri na metade do livro que tinha que fazer ficha de personagem. Eu não tinha feito. Eu descobri que o personagem tem que ter um conflito. Então, por exemplo, você é um sujeito que tem quer escrever livro e vive numa época que tem que escrever só com material, né? E você não tem mãos e a partir dali você começa a desenvolver a trama. Só isso já dá um, você tem que achar alguém que escreve para você, você vai ditar pra pessoa porque você não tem as mãos, né? Eh, então eu descobri que tinha, cada personagem tinha que ter esse ponto dele. Cada personagem tem que fazer alguma coisa na trama, mas ele tem que ter alguma dificuldade que empeça ele te fazer que permita com que tenha histórias paralelas correndo para aquele personagem, né, para ter um arco dele mesmo. Eu não sabia disso. Fui, fui desenvolvendo, fui desenvolvendo, fui aprendendo e escrevendo.
Agora, ao mesmo tempo, depois que lá na metade do livro, quando eu voltei, fiz os as fichas de personagens, organizei o arco de cada personagem, aí eu comecei a ser em alguns momentos o meu primeiro leitor. O primeiro, porque tem personagens que tu construiu tão bem que ele só poderia fazer aquilo naquela cena. Aí você começa, o Stephen King disse isso no manual de escrita dele, você começa a ser o primeiro leitor do seu livro, mesmo você sendo escritor dele.
Então é é muito legal, cara. É muito massa assim você criar e aí só que daí depois tu lê assim, ele tem que ter que ser verossímilo. A pessoa tem que tá lendo o diálogo e não sacar que é um diálogo de livro. Tem que parecer real. É um desafio. É um desafio, mas é muito, é muito legal. É, é o que eu gostaria de escrever um dia. É um livro não técnico.
Eu não sei se no Brasil, porque a gente, infelizmente, não tem uma cultura de ler, de ler muito, mas cancelado. Hã, faz o corte e ele é cancelado, né? Apesar de falar a verdade, né? Eu acho que a média de leitura do brasileiro é dois livros por ano, enquanto a francesa é 40. É. É. E aí assim, a gente pela primeira vez tem mais não leitores do que leitores, tá? Tá compleco, complexo.
Mas por outro lado, num cenário onde as pessoas leem, acho que o livro de o livro de de ficção, ele consegue pegar mais a pessoa do que o livro técnico. Ah, você tem maneiras de ensinar. É, você tem bom você tem maneiras de ensinar por meio da história fictícia.
Então, é verdade que os livros técnicos raramente sobrevivem ao tempo, né? Agora um Donk Shot tem 600 anos e ainda é vendido, né? Raramente. É bem lembrado. Bem lembrado. Então ele sobrevive mais porque a história passa mais e você aprende mais com a história se você escrever um bom livro de romance. Eh, o que tem a ver com aquele efeito ou o efeito lint seria simplesmente quanto mais tempo algo sobrevive, maior a chance que ele vai sobreviver pra frente.
O o que quer dizer que o o maior julgador, o maior crítico de longe de todas as obras é o tempo. Exato. Exatamente. É o tempo. Quanto mais uma obra sobrevive, maior a tendência é sobreviver. Então, o livro que foi, o seu livro foi lançado, qual a chance dele tá aqui sendo lido daqui 200 anos? Não muita, né? Assim como qualquer livro lançado, mas e Don Shot? É, é quase certeza que ele vai tá sendo até hoje, né? 400 anos.
Outra coisa interessante, você falou que o Sapski foi um dos caras que fez bem isso, né, de ensinar um conteúdo técnico com uma boa escrita, escrita criativa. Tem um outro autor que faz muito bem isso, que esse ano eu li três livros dele, que é o Jonathan Heid. Ele escreveu o Geração Ansiosa, é um livro bem famoso que tem sido falado hoje. Ele tem um livro muito bom também chamado A Mente Moralista. Esse, especialmente esse, acho que você ia gostar muito de ler.
A mente moralista. Eu nunca li. Mente moralista. Ele, o Jonathan Heidet, ele tem um artigo que ele publicou, ele é um dos maiores psicólogos sociais do mundo, é vivo ainda, e ele é um dos maiores eh estudiosos de psicologia moral. Ele descobriu e ele tem um artigo publicado na APA, salvo engano, tem 20.000 citações esse artigo dele. E aí esse livro a mente moralista explicando essa tese que ele desenvolveu. Então ele é um ele é um um cara pai na área. Assim agora ele foi para problema de tela com as crianças porque ele viu que tava gerando um problema muito grande, ele precisava ajudar.
A tese desse livro dele é que o nosso julgamento moral e a tese do trabalho de vida dele na psicologia moral, o nosso julgamento moral é, ao contrário do que se imaginava antes, emocional e não racional. você julga emocionalmente e depois você traz a cognição para justificar a tua emocionalidade. Um dos experimentos clássicos que ele fez foi chegar para uma série de pessoas e colocar o seguinte dilema moral. Dois irmãos foram viajar. Eles foram para um lugar desanha, na neve, passar um final de semana. Eles estavam jantando, um irmão e uma irmã, e eles acharam por bem naquele momento ter uma relação transar. Os dois irmãos e eles usaram camisinha, eram maior de idade, prometeram não contar para ninguém. E que que você acha disso? A maior parte das pessoas, né, naturalmente diz que é repugnante, que isso é moralmente errado, não pode fazer eles. Por quê? É porque o filho deles vai ter uma deficiência. Não, mas eles usaram camisinha. Não, porque o pai e a mãe deles vão ficar Não, mas eles prometeram que não vão contar para ninguém. Eles estavam num momento isolado. Não, porque isso não se faz. Aí geralmente a pessoa recorre a outro universo, religião, né? Que aí é difícil você debater no âmbito racional. Então, e ele fez vários experimentos assim, em todos os experimentos, as análises mostravam a mesma coisa. Primeiro, você julga, isso é repugn repugnante.
Mas quando você aperta a pessoa, ela não tem o não tem uma explicação. Uhum. É uma análise emocional mesmo. E aí ele desenvolveu toda a teoria dele, chama mente moralista, cara. E ele escreveu esse livro de forma muito parecida com o Sapolsk. Cara, tu aprende psicologia moral de uma forma muito bonita. Aí ele fez o Geração Anciosa também. E ele tem um outro chamado a hipótese da felicidade, que ele faz todos os um levantamento sobre os principais estudos científicos atuais sobre felicidade e faz uma conversa com autores antigos, com Buda, com os gregos, com os romanos. O cara é [ __ ] tu vai gostar desses livros dele. Vou ler ele.
Jonathan Heid ele. Vou ler.
Beleza. Então, fechamos. Muito bem, Renato, obrigado pela presença. Agradeço. Deixa suas redes aí. Para quem quiser me acompanhar lá no Instagram é @drrenatosilva e no YouTube também @dbrrenatosilva. Para quem quiser fica o convite para ler o livro e aprender mais de forma descomplicada sobre transtorno bipolar.
Muito bem, só procurar lá na Amazon que vai estar disponível para vocês. Like aqui no episódio, pessoal. Inscrevam-se no canal e nós nos vemos na semana que vem. Valeu.